Estou me sentindo muito desanimada e triste e não sei porquê



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Encontro05.07.2018
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Desculpas
Roselene sentou-se na minha frente calada. A cabeça baixa, o rosto levemente inclinado para a direita, para longe de mim, os olhos examinavam atentamente as marcas de móveis arrastados sobre o piso, os braços cruzados sobre a barriga. Era uma mulher com 40 e alguns longos anos, ombros largos e braços fortes, cabelos curtos e limpos, calça jeans e camiseta. O que mais chamava atenção no entanto era a expressão facial franzida, contrariada. Todo o corpo posicionado como se fosse um corpo estranho, prestes a ser expelido da pele inflamada. Ou seria ela a própria pele inflamada?

Apesar de transmitir para mim com todas as letras que não queria estar ali, ainda assim estava. Minhas palavras romperam o silêncio, com o automatismo sorridente, ainda que sincero, de todos os dias:

- Como eu posso te ajudar hoje, Roselene?

Meu sorriso a atingiu fisicamente, bofetada tão forte que a fez contrair. Desviou o olhar para mais longe ainda.

- Estou me sentindo muito desanimada e triste e não sei porquê.

- Há quanto tempo está se sentindo assim?

Usei de técnicas. Perguntas abertas. Incentivo a continuar. Passo a passo aprendidos. Contexto familiar, trabalho, história de vida. Roselene chorou e pediu desculpas. Quis usar meu corpo inteiro para lhe mostrar que estava aberta. Entendi que não era lugar para sorrisos displicentes ou cortesias estruturais do discurso. Busquei seu olhar fugidio e sustentei: não precisa se desculpar, aqui as lágrimas são livres.

Ela respondeu monossilabicamente minhas perguntas e pintei um quadro mental em preto e branco. Duas irmãs e um irmão, aos 18 anos casada com o irmão de seu cunhado. Pais falecidos. Dois filhos adolescentes. Trabalho como fiscal de supermercado. Afora um amigo do trabalho, que lhe incentivou a buscar ajuda, ninguém mais sabe que está triste. Não se sente próxima de nenhum familiar. Às vezes chora sem motivo aparente.

Combinamos voltar na próxima semana pra conversarmos mais, para entender melhor sua história. À equipe multidisciplinar faltava um psicólogo e me vi compelida a oferecer-lhe esse espaço. Afirmei para mim mesma que seria uma boa opção, superior à alternativa medicalizadora. “Não posso deixá-la sair sem antidepressivos E sem nenhuma outra resposta. Podemos conversar mais vezes, isso será terapêutico” pensei e me cumprimentei pela bela conduta.

Nas semanas seguintes revi Roselene mais algumas vezes. Ela me confidenciou que se apaixonara por seu amigo do trabalho. Envolveram-se intensamente e o caso ficou conhecido entre os colegas. Logo todos comentavam maliciosamente sobre o casal de amantes. Seu amigo se afastou. Ela o procurou, buscou respostas, correu atrás do rastro do coração rasgado. Ele terminou o enlace sob justificativa moral. Passou a evitá-la, ignorar suas ligações e mensagens, desviar o caminho nos corredores. Seguiram os comentários maliciosos.

A dor interna, antes contida na muralha do corpo agora transbordava pelos poros. Era capaz de chorar em público, no trabalho, no ônibus. O sono ficava cada dia mais turbulento. A aridez da vida doméstica contrastava radicalmente com o sonho febril de afeto e compreensão que vivera. Sonho febril que precede a morte, agora Roselene vivia apenas a morte em vida.

- Rose, me explica: você já estava triste quando se envolveu com ele?

- Sim, já estava. Mas era ele quem me ajudava e agora parece que tudo ficou pior.

A mão prescritora começa a coçar. A funcionalidade afetada parece justificar uma receita de antidepressivo, mas ao propor essa idéia para Roselene, ela se recusa. Não quer ficar dependente de nenhuma medicação. Seguimos então nosso acordo de encontros regulares para conversar. A essa altura, já foi contratado psicólogo para a equipe, mas Roselene já é minha, já me sinto capaz de sabe lá o quê conseguir, mas conseguiremos juntas.

Desiludida de crer-me capaz de apaziguar a dor do coração contrariado, negado daquilo que anseia, cri ao menos ter ao meu favor o poder do tempo, que faz adormecer os antigos desejos, favorece os laços permanecentes e dá oportunidade ao inevitável renascer diário. Menosprezei no entanto a angústia da alma inquieta, que se alimentou como de banquete da culpa nascida da busca falida por uma saída de felicidade fresca em meio à aridez do deserto.

- Estou prestes a fazer uma besteira. É tudo culpa minha. A vida não vale a pena ser vivida - disse Roselene, após 5 meses de encontros, o rosto vermelho lavado de lágrimas e escondido atrás das mãos abertas. Não consegui capturar o olhar nenhuma vez. A sertralina que prescrevi um mês antes foi usada tão erraticamente quanto seria de se prever. - Há três dias que não durmo. Não estou conseguindo trabalhar, não consigo fazer nada. As pessoas dizem que estou ficando louca.



Usei de técnicas. Segurei suas mãos. Disse pra não fazer nada contra si. Quis usar meu corpo inteiro pra me colocar entre ela e sua dor insuportável. Ainda assim não consegui capturar o olhar. Forneci um atestado, medicações para dormir e um retorno. Concedi-me pedir ajuda à equipe e ao psicólogo. Roselene enxugou as lágrimas e pediu desculpas. Fechou a porta atrás de si e eu, sozinha, também pedi desculpas.


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