Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a intenção de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma manifestação do pensamento humano



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Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a intenção de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma manifestação do pensamento humano..

atuaanb Michael Korda Queenie CÍRCULO DO LIVRO S.A. Caixa postal 7413 01051 São Paulo, Brasil



Edição integral . Título do original: "Queente" Copyright © 1985 Linden Press/Simon and Schuster Tradução: Diogo Borges Capa: layout de Natanael Longo de Oliveira; foto de Thor Crespi

Licença editorial para o Círculo do Livro por cortesia da Editora Nova Cultural Ltda., mediante acordo com Deborah Rogers Ltd. e International Criative Management Venda permitida apenas aos sócios do Círculo Composto pela Editora Nova Cultural Ltda. Impresso e encadernado pelo Círculo do Livro S.A. Para Margaret, com todo o meu amor. 2468109753 E para Dick e joni, 89 91 92 90 88 colegas, companheiros de armas, amigos. :..Mulher mestiça, Vivendo uma veda à parte, Onde começa tua histórtá? Mulher mestiça, Tens um coração secreto, Esperando quem o conquiste? Nasceste de um toque de mágica, Em teu manto citilante? Existe algo de estranho ou de triste, bem no fundo, bem distante?" Noel Coward O bando de repórteres que disputava um lugar em frente da casa de praia de Bel Air afastou-se, a fim de deixar entrar o carro da funerária. Era branco, pois, enquanto viveu, ela de- testou a cor negra. Um criado idoso, com o luto estampado no rosto, abriu os portões de ferro e apontou para os fundos da casa, tomando a precaução de afastar-se das câmaras de televisão e dos fotógra- fos. Seguiu o carro e, mantendo o mais profundo silêncio, con- duziu o dono da funerária, pela escada de trás, para dentro da casa. Um rapaz esperava por eles diante da porta do quarto. Usava um_ terno escuro e poderia ser confundido com um dono de funerária, embora houvesse algo em seus bonitos traços que pa- recia deslocado na presença da morte. - Ela está pronta - anunciou. Ambos entraram no grande aposento. A iluminação era sua- ve, e o quarto se achava mergulhado na penumbra. Billy Sofkin, o decorador, o havia planejado exatamente assim, com o propó- sito de evitar grandes contrastes de luz. Tudo no aposento era cor-de-rosa: as paredes, a cama, as cortinas e até mesmo o tape- te. Havia flores em todos os cantos, e a cama parecia flutuar por cima delas. - Quantas flores chegaram, não, sr. Tyrone? - comentou o dono da funerária, falando baixinho. - Não é bem assim. A sia. Tyrone vivia rodeada de flores todos os dias. O dono da funerária ficou parado aos pés da cama e, cru- zando os braços, contemplou maravilhado o corpo que ali esta- va. Não era simplesmente o fato de se achar diante de uma estrela. Já sepultara várias antes. Foi a perfeição daquele rosto que o surpreendeu. Os olhos que haviam fascinado os homens e os espectadores durante dezenas de anos estavam fechados, mas as maçãs do rosto, os lábios sensuais e o cabelo negro e 11 brilhante não pareciam ter sido atingidos pelo tempo nem pela doença. Ela usava um vestido cor-de-rosa e sorria. - Meu Deus! - exclamou o homem. - Ela está bela co- mo sempre foi! Seus três assistentes entraram no quarto e puseram no chão o pesado caixão de alumínio. - Talvez o senhor prefira não ver... a remoção do corpo... - observou o dono da funerária, mas Tyrone não deu o menor sinal de que ia se retirar. O homem procurou lembrar-se do que sabia sobre o casal Tyrone. Claro que o detalhe mais importante referia-se ao fato de que todo mundo comentava sempre o "casamento de Dawn Avalon", como se seu marido não merecesse o menor interesse. Há alguns anos ela tentava voltar ao palco tendo o jovem Tyrone como galã, mas a coisa não deu certo, pelo menos em relação a ele. O rapaz continuou sendo conhecido principalmente como marido dela, o quinto ou o sexto, pormenor que a maior parte das pessoas não conseguia precisar. Evidentemente tal tipo de comentário em nada afetava a reputação de Dawn. Nada era capaz de atingi-la. As mulheres o faziam com a única finalidade de admirar uma criatura que parecia ter derrotado a natureza e obrigado o avanço da idade a estacionar. De vez em quando surgiam boatos de que o casamento estava à beira do naufrágio. O dono da funerária observou aten- tamente a expressão do rosto de Tyrone, à procura de sinais que revelassem tristeza ou indiferença. Talvez fosse esse o motivo pelo qual ele havia fracassado como ator. Quaisquer que fossem suas emoções, seu semblante nada deixava transparecer. - Permita-me uma sugestão... o senhor não quer tirar as jóias? Tyrone concordou. Debruçou-se e tirou os anéis dos dedos de Dawn. Precisou usar certa força para removê-los, pois as jun- tas dos dedos haviam inchado. Quando o fim já se aproximava, Dawn fazia o possível para esconder as mãos. Mas não conseguia disfarçar as inflamações que a artrite havia provocado em seus dedos. A expressão de Tyrone não se alterou. Parecia estar pensan- do em outra coisa. De repente pareceu se decidir, tirou os anéis do bolso e, com considerável esforço, enfiou-os novamente nos dedos dela. - Ela gostaria de ser enterrada com eles - explicou. Endireitou-se, fez um breve aceno com a cabeça para o dono da funerária e retirou-se do aposento, demonstrando a mais per- feita calma. 12 O homem permaneceu em silêncio durante alguns instan- tes. Havia presenciado muita coisa em sua carreira, mas jamais vira um homem desprezar diamantes que valiam no mínimo cem mil dólares. Era o tipo de atitude que quase fazia a gente acreditar no amor, pensou. Em seguida, fez um gesto enérgico para seus assistentes. - Podem pô-la dentro do caixão! - ordenou com rispi- dez. Ele sabia que ia ser necessário manter vigilância durante vinte e quatro horas ou os anéis desapareceriam antes que o corpo chegasse ao cemitério de Forest Lawn. - De que foi que ela morreu? - perguntou Armand Silk. - E quem sabe? - disse Billy Sofkin, dando de ombros. - Vai ver que esticou demais a pele e desta vez não agüentou... A pele do próprio Billy havia sido esticada tantas vezes que começava a ficar parecida com a de um crocodilo, transfor- mado em bolsa de senhora. - Que idade ela tinha? - Sessenta ou talvez mais. Lembro-me de ter decorado sua casa quando ela se casou com Charles Corsini. Os dois almoçavam ao ar livre, num restaurante da moda, debaixo de um toldo florido. Billy havia decorado metade das casas de Bel Air, Malibu e Cuernavaca, incluindo as residências de Dawn Avalon nos três lugares. - Acho que ela não sabia o que fazer com tanto dinhei- ro... - comentou Billy. - Nem diga! Timmy Tyrone é um rapaz de sorte. - Era muito dedicado a ela. Pelo menos é o que dizem. Afinal de contas, de que será que ela morreu? - De bom gosto e de muita classe. Ela procurou afastar a velhice o'quanto pôde, mas quando o rosto começou a mur- char acabou desistindo. É impossível imaginar Dawn numa ca- deira de rodas ou com a aparência de uma velha, não é mesmo? Isso nem lhe passava pela cabeça. Na última vez em que provou um vestido, ela me confidenciou que já havia aproveitado tudo o que a vida tinha de melhor. Não via o menor sentido em esperar pelo pior. Sabe, os médicos quiseram lhe dar comprimi- dos, mas ela se recusou a tomá-los. Armand Silk vestia a maior parte das mulheres chiques de Beverly Hills e Bel Air. Franziu o cenho, contrariado, quando uma garota passou por eles, vestindo um blue jéans muito co- mum e uma blusa de seda aberta até o umbigo. - Que esfarrapada! - ele cochichou com petulância. A classe e a elegância haviam morrido, juntamente com Dawn Ava- 13 lon. Sua clientela tornava-se tão geriátrica que em breve ele só teria para desenhar os vestidos que aquelas mulheres usariam em seus caixões. Billy Sofkin inclinou-se à frente, para bem junto do ouvido de Silk. Com o movimento, seu bracelete de ouro e turquesa agitou-se freneticamente. - Com que vestido ela será enterrada? Silk deu uma risada maldosa. Havia desenhado e confeccio- nado o vestido que Dawn usou na última vez em que apareceu em público. Foi quando a Academia de Cinema, Artes e Ciên- cias lhe concedeu um Oscar especial. - Se o que costumavam dizer dela é verdade, deveriam enterrá-la usando um sari. Tanta gente foi ao enterro de Dawn Avalon que só pôde entrar quem era portador de um convite numerado. Os Pinker- ton foram obrigados a repelir dezenas de penetras. A cerimônia fúnebre foi gravada para ser exibida no jornal das seis da televi- são. Lorde Beaumont, o maior ator inglês do século, leu o elogio fúnebre. Sua voz majestosa, de ator shakespeariano, ecoou no cemitério, sobrepondo-se ao farfalhar das folhas das palmeiras agitadas pelo vento. Ele havia desempenhado seu primeiro grande papel no ci- nema ao lado de Dawn, quarenta anos atrás, quando ainda era jovem. Agora tinha a aparência tão envelhecida que poderia muito bem representar o papel do rei Lear sem maquilagem. Ele tirou os óculos de lentes muito fortes e encarou os presentes com dificuldade. As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto. Lorde Beaumont pôs o microfone de lado, cerrou os olhos e começou a declamar: `fl idade não pôde vencê-la, os costumes não viciaram

.rua infinita versatilidade; outras mulheres .saciam os apetites que atiçam, mas ela deixava famintos aqueles a quem mais satisfazia" - É preciso tirar o chapéu para Dickie - cochichou Aaron Diamond, advogado e agente de Dawn durante dezenas de anos, para seu vizinho. - Ele sabe dar um show com muita classe. Entre os que seguraram as alças do caixão incluíam-se George Cukor, Cary Grant, Jimmy Stewart e até mesmo Frank Smatra, que normalmente não comparecia a nenhum enterro. Duas dú- zias de pombas brancas foram soltas, no exato momento em que o caixão, coberto de flores cor-de-rosa, foi depositado na 14 cova. Havia tantas flores que Danny Zegrin teve um ataque de asma e precisou ser carregado para a sua luxuosa limusine. Naquela mesma noite Johnny Carson pediu um minuto de silêncio, no início de seu programa transmitido para todo o país. No mundo inteiro a notícia do falecimento de Dawn Avalon era acompanhada por comentários sobre sua vida e seus casamentos. A infância de Dawn, linda criança, de família rica, se pas- sara no Raj, Índia. E fora, como Polly Hammer afirmou em sua coluna num jornal de Hollywood, "a infância de uma prin- cesinha de contos de fada". No dia seguinte procedeu-se à leitura de seu testamento. Os bens foram avaliados em mais de dez milhões de dólares, afora as casas. Ela doou a maior parte dessa fortuna à Fundação Corsini, para que fosse investida em obras de arte. Dawn havia presidido o conselho de diretores da fundação, tornando o seu museu, que não era grande, um dos mais presti- giados do mundo. Embora seus companheiros de diretoria per- cebessem nela uma absoluta indiferença em relação à arte, Dawn foi a força oculta que batalhou pela aquisição do famoso quadro de Caravaggio pertencente à coleção Wildner. A fundação dis- putou o quadro no leilão, com o Museu Metropolitano de Nova York. O preço pago foi o mais elevado na aquisição de uma obra de um mestre da pintura. Quando lhe trouxeram o qua- dèo, Dawn se debulhou em lágrimas. - Ela ainda tinha uma queda por Charles Corsini - co- mentou Aaron Diamond, após tomar conhecimento do testa- mento. - Quem consegue entender as mulheres? Para Timmy Tyrone, seu último marido, ela deixou qui- nhentos mil dólares e o esplêndido Porsche prateado que ele lhe dera de presente de aniversário, havia um ano. Não faltou quem jurasse que Timmy ficou pálido de ódio, ao receber a notícia. - Ela amou apenas um homem durante toda a vida - declarou Diamond, quando pediram sua opinião. Em seguida suspirou. Ele era velho, muito velho, tão velho que ainda se lembrava de Dawn Avalon quando ela tinha vinte e poucos anos e chegou a Hollywood. Havia quem afirmasse que já naquela época ele era velho. - Ela nunca deu sorte aos homens que passaram por sua vida - acrescentou o advogado. - Vejam só o que aconteceu com Charles Corsini... - Fez uma pausa. - Por que seria dife- rente com Timmy? 15 Dawn deixou ainda uma natureza-morta de Van Gogh para a Fundação Corsini. Há muito tempo o quadro achava-se pen- durado em cima da lareira de sua casa colonial em Malibu. Era de pequeno tamanho e mostrava um par de luvas azuis coloca- das sobre uma mesa, junto a um vaso com flores. Na moldura do quadro havia uma pequenina placa de ou- ro com a seguinte inscrição: "Para Dawn, com amor. - David Konig, 1° de setembro de 1937". Os diretores do museu remo- veram a placa, antes de colocar o quadro em . exibição, substituindo-a por outra onde se lia simplesmente: "Doação de Dawn valon". -Quem foi Konig? - perguntou um dos assistentes de direção do museu. - Era um produtor de cinema - informou um dos velhos diretores. - Foi ele quem descobriu Dawn Avalon, nos bons tempos em que os filmes eram todos em branco e preto. Ambos contemplaram o quadro. - Ele devia ter muito bom gosto ou então um bocado de dinheiro. - Tinha os dois, e era famoso por causa disso. Lorde Goldner estava com muita pressa, como de costume; A despeito da idade e do peso, estava sempre apressado. Um de seus secretários segurou o casaco, para que Goldner pudesse enfiar os braços nele, um outro leu em voz alta sua agenda, enquanto um terceiro providenciava um telefonema de última hora. Diante da sede da empresa o Rolls-Royce o aguardava, pronto para levá-lo até o Aeroporto de Heathrow, onde tomaria o avião para Nova York. Um assistente já se encontrava no carro, com uma pasta repleta de correspondência para Goldner exami- nar a caminho do aeroporto. Embora contasse com bem mais de oitenta anos, ele atravessava o Atlântico duas vezes por sema- na, sem demonstrar o menor cansaço. - O sr. Diamond o chama, Lorde Goldner - informou o terceiro secretário, apertando um botão do telefone. - Aaron, meu caro! - resmungou Goldner, enfiando fi- nalmente os. braços no casaco. Seus óculos estavam tortos, o chapéu-coco caía de lado e os dentes mordiam um charuto, um enorme Montecruz Individual n° 1, produzido em suas proprie- dades. Era dono de tantas coisas que até já havia perdido a conta. - Precisa de algo? - Não, acho que quem está precisando é o senhor... - Ainda bem! - Pretendia conversar com o senhor após o enterro, mas nos desencontramos. - Saí logo, pois estava com muita pressa. Não tive o me- nor interesse em ficar trocando impressões sobre a pobre Dawn com um bando de velhos caquéticos que, no fundo, não a co- nheciam de verdade. Além do mais, Danny Zegrin estava espe- rando por mim em seu avião. - Ouvi dizer que o senhor comprou boa parte das ações da companhia de Danny. Se quiser saber minha opinião, acho que pagou caro demais. Lorde Goldner deu uma risadinha irônica. Era um som que exprimia astúcia e ironia, fácil de ser imitado, mas cujo verda- deiro sentido ninguém conseguia entender. Diamond sabia que era a única resposta que iria obter. - Maxel tov! - comentou em iídiche. - Não foi por isso que telefonei. Dawn deixou algo para o senhor, em seu testamento. Goldner no mesmo instante tirou o charuto da boca. Pare- cia muito surpreendido. - Ela legou ao senhor parte de suas propriedades. Trata-se de um prédio de apartamentos em Londres. - E Curzon Tower, na região de Shepherd's Market - dis- se Goldner, maravilhado, fechando os olhos. - Exatamente. Está avaliado em cinco milhões de libras. - Agora vale muito mais. Os árabes são loucos por um apartamento jeitoso no West End. É claro que Dawn não pensa- va no dinheiro. Trata-se puramente de um gesto sentimental. - O que existe de sentimental num prédio de apartamen- tos? Afinal de contas, nem é tão antigo. Acho que Dawn nem chegou a morar lá, não é mesmo? - De fato, ela jamais pôs os pés lá, mas possuí-lo signifi- cou muito para ela, em determinada época. Os secretários de Goldner apontavam para os relógios, fre- néticos. Ele simplesmente os ignorou. - Vou enviar-lhe toda a papelada. - Mande, sim, meu caro. Meus advogados se encarregarão do negócio. - Combinado. Meu Deus! Mal posso acreditar que ela mor- reu! Ainda estava linda, da última vez que a vi. Eu conhecia Dawn há muito tempo. - Sim. Eu também... - Então, apesar do atraso e mesmo sabendo que o esperavam em Nova York para um almoço de negócios, Lorde Goldner tirou o chapéu, apertou-o em suas mãos rechonchudas e começou a chorar. 16 e 17 - Alô? O senhor está me ouvindo? - perguntou Diamond, do outro lado da linha, mas Goldner não respondeu. Pensava no dia em que a conhecera. Era a criatura mais bela que havia visto até então. Sua beleza jamais diminuíra, e por isso ele aca- bou pensando nela como um ser imortal. Agora Dawn estava morta e, pela primeira vez, ele sentiu o peso da idade... Em Marrakech o sol ardia. O andar superior da casa de campo assemelhava-se ao jardim secreto de um sultão, com ár- vores, arbustos e flores. O chão era coberto de lajotas, à moda árabe, com belos desenhos geométricos. No centro do pequeno jardim achava-se uma fonte mourisca. Passarinhos de plumagem colorida empoleiravam-se nas laranjeiras e nos limoeiros. Suas asas cortavam o céu muito azul. Ao fundo, viam-se os picos das montanhas Atlas. Estendido numa esteira, um belo rapaz lia o Herald Tribu- ne. Estava inteiramente nu, e sua pele era tão morena e relu- zente de óleo quanto a de um modelo de anúncio de bronzea- dor. Usava um fino bracelete de ouro em cada pulso e uma corrente, também de ouro, no pescoço. - Dominick! Você já leu o jornal? Numa das extremidades da parte superior da casa havia uma tenda de seda listrada. De dentro dela se ouviu uma voz. - Agora estou muito ocupado. De qualquer modo, o jor- nal chega aqui com dois ou três dias de atraso. - Mas, meu caro, a gente precisa ficar em dia com o que acontece no mundo. - Sei muito bem o que acontece em Marrakech. Você, por exemplo, só voltou para casa às três da manhã. - Você não espera que eu vá para a cama às dez da noite, não é mesmo? Tem gente que gosta de um pouco de diversão, de vez em quando. - Pois eu digo que tem gente que, quando menos espe- rar, vai ser recambiada para Londres, se não tomar cuidado... - Não faça isso comigo... Adivinhe só quem morreu? - Não tenho a menor idéia. Morte é um assunto de que não faço nenhuma questão de tratar. - Foi sua velha amiga, Dawn Avalon! O que me diz? O que quer que o velho senhor estivesse pensando, ele não deixou transparecer imediatamente. Encostou-se silenciosamente na cadeira. Vestia um roupão de banho, o rosto estava protegido por um amplo chapéu de palha e óculos escuros, de lentes gros- sas, lhe escondiam os olhos. Somente suas mãos estavam despro- tegidas. Eram gorduchas, macias, muito alvas e salpicadas com as manchas que a velhice traz. Ele desembrulhou uma bala de hortelã e a enfiou na boca. Chupou-a deliciado durante alguns instantes, e então deu uma risada sarcástica. - Meu Deus! - exclamou com um tom de triunfo na voz. - Eu consegui sobreviver àquela bruxa maldita! O aposento que fora um dia fotografado por todas as revis- tas de decoração e arquitetura agora se encontrava na penumbra e dele emanava um cheiro discreto de velhice e de doença. Uma das paredes era de vidro e através dela se avistava o oceano Pacífico, a uns duzentos metros abaixo. A parede oposta era de pedra e nela havia uma lareira de tamanho suficiente para se assar um boi. No entanto, não parecia fora de proporção, pois o quarto podia conter facilmente uma casa de tamanho normal. A cama era pesada, redonda, e estava em cima de um praticável recoberto por um carpete. Acima dela, pendurado no teto, havia um espelho igualmente redondo. O homem que havia dormido naquela cama era famoso. Enquanto fotógrafo de cinema, tinha trabalhado com algumas das-mulheres mais belas do mundo. Havia estrelas que não ad- mitiam que mais ninguém as fotografasse. Como diretor, tornou- se rico, com uma série de filmes que batiam recordes de bilhe- teria e eram ao mesmo tempo elegantes e eróticos. Tinha um talento todo especial para descobrir jovens lindas e fazer delas verdadeiras estrelas. Na verdade, sua fama advinha exatamente desse dom. Todas correspondiam a um determinado tipo: ti- nham cabelos negros e longos, maçãs do rosto proeminentes, olhos escuros e uma pele perfeita, de porcelana. Comentava-se que ele havia dormido com todas, despertando verdadeiras pai- xões, mas jamais se casou. Agora dormia sozinho, ou, para ser mais preciso, descansa- va desconfortavelmente em um leito de hospital, colocado perto da enorme janela, a fim de que pudesse contemplar o mar. Não falava nunca. O segundo ataque deixou-o paralisado, e ele só conseguia desempenhar as funções fisiológicas mais essenciais. Era vigiado por uma enfermeira noite e dia, embora houvesse muito pouco a fazer, a não ser mudar os litros de soro. A glico- se penetrava em suas veias lentamente e a urina acumulava-se em uma garrafa aos pés da cama. Quando o primeiro litro se esvaziava e o segundo se enchia, a enfermeira os mudava e per- guntava ao paciente se ele estava bem. Tratava-se de um ritual 18 e 1~ que jamais provocou uma resposta ou sequer o menor gesto de reconhecimento. Ele respirava, algumas vezes suspirava, mas não passava disso. A enfermeira, sentada ao lado da cama, assistia à televisão, de braços cruzados. Acima do aparelho havia uma série de pe- queninos painéis digitais que permitiam vigiar o pulso e a res- j piração do velho. O aparelho estava colocado de tal modo que ele pudesse contemplá-lo, pois os médicos concordavam que aque- le estímulo visual não o prejudicaria e poderia até mesmo man- ter seu cérebro alerta em pleno funcionamento. Até agora não havia nenhum resultado digno de menção. O paciente manti- nha os olhos abertos a maior parte do tempo, mas não havia o menor indício de que o som ou o que era mostrado na tela chegasse a seu cérebro. Era como se ele estivesse contemplando uma parede nua. A enfermeira apertou o controle remoto e sintonizou em uma reprise do enterro de Dawn Avalon. Assistiu ao programa durante alguns minutos, até que algo lhe chamou a atenção. Era um barulho esquisito, como se houvesse qualquer coisa de errado com o som. Abaixou o volume, mas o ruído continuou. Percebeu então, horrorizada, que se tratava do paciente. Sua boca estava aberta, os olhos não se desprendiam da tela, e os lábios se moviam. Por um instante a enfermeira julgou que ele estivesse morrendo. Os painéis digitais indicavam que tudo esta- va de acordo com os parâmetros normais, sobretudo em se tra- tando de um paciente cujo caso era terminal. A enfermeira debruçou-se sobre ele, aproximou o ouvido de sua boca torta, fazendo o possível para entender aquele som estrangulado que, de modo algum, se assemelhava à fala. Um pouco de saliva escorreu dos lábios arroxeados, e ela a enxugou com um lenço de papel. Seria muito azar se o velho morresse enquanto ela dava plantão, pensou, contrariada. - Como é que está se sentindo, sr. Chambrun? - per- guntou, sem esperar resposta. Tratava-se de um hábito, pois era preciso conversar com os pacientes, ainda que estivessem reduzi- dos à condição de um mero vegetal. Caso contrário, parava-se de pensar neles como seres humanos. A tentação era grande, mas muito pouco profissional. Ele moveu um dedo trêmulo em direção à tela e emitiu um som áspero e rouco. - Não consigo entender o que o senhor está dizendo. O dedo do velho agitou-se com raiva, devido a sua impo- tência. Ele cerrou os olhos, como se tentasse reunir todas as suas forças para se concentrar no que queria dizer. - Queenie! - murmurou com grande dificuldade. - Não, sr. Chambrun. É o enterro de Dawn Avalon. Trata- se daquela estrela de cinema. Ela morreu logo após receber o Oscar. Coitadinha... O velho abriu os olhos e começou a chorar... As lágrimas escorriam por seu rosto enrugado, e ele respirava e soluçava qua- se que ao mesmo tempo. Os painéis digitais davam sinais alar- rnantes do que estava acontecendo. A enfermeira desligou a televisão e voltou-se a fim de aplicar-lhe uma injeção, mas o velho parecia mais perturbado do que nunca. julgando que ele estivesse zangado com o fato de ela ter desligado o aparelho, a enfermeira debruçou-se, a fim de~ acalmá-lo. - É para o seu próprio bem, sr. Chambrun - disse, da maneira mais solícita e reconfortante possível. - O senhor esta- va ficando muito excitado! Enfiou a agulha no braço dele, mas, antes que a injeção pudesse fazer efeito, o velho estendeu a mão, que agora parecia uma verdadeira garra, e segurou firmemente o náilon branco do umforme da enfermeira, demonstrando uma força incrível. - Queenie! - disse o velho, com voz surpreendentemente clara. - Queenie, eu te amo! Mergulhou novamente no silêncio, no exato momento em que a injeção atingiu a corrente sangüínea. A enfermeira observou-o recostar a cabeça no travesseiro e endireitou a coberta. Teria de entrar em contato com o médico e relatar o que acabara de suceder. Ficou, porém, muito intrigada. Afinal de contas, quem se- ria a tal Queenie? 20 a 21 rD ,..,., . rD - Onde é que você está, Queenie? Uma voz de mulher ecoou impacientemente no ar úmido e parado. O céu sem nuvens era de um azul desbotado, como se o calor tivesse sugado toda a sua cor. Diante do bangalô uma charrete esperava. Seu condutor e o pônei que a puxava não se mexiam, apesar das moscas que zumbiam em torno deles. - Queeme! - voltou a gritar a mulher, batendo a ponta da sombrinha rendada no soalho gasto da varanda, procurando com esse gesto dar maior ênfase ao seu chamado. Nos fundos da casa as criadas umram-se em um coro desor- dënado, e suas vozes sobrepuseram-se ao barulho das panelas. Dois urubus, assustados com aquela confusão, saíram voando dos galhos de uma árvore, batendo preguiçosamente as asas em- poeiradas, e pairaram acima da casa. - Com efeito! Onde está esta criatura? - indagou a mu- lher, abrindo a sombrinha com um gesto rápido, como se esti- vesse tentando se esconder dos urubus. - Estou aqui, mamãe. Uma garoa surgiu na varanda. Usava um vestido curto, mui- to engomado, com um laço, meias brancas que subiam até os joelhos e carregava um chapeuzinho com uma faixa cor-de-rosa. Seu rosto era uma oval perfeita, tinha os olhos grandes e escu- ros, pestanas compridas e recurvadas. Os longos cabelos eram de um negro reluzente. Não parecia nem um pouco preocupada com o fato de estar atrasada. - Vamos chegar tarde à capela. Que menina impossível! Afinal, onde é que você estava? - Não a ouvi, mamãe. A mulher abanou a cabeça. Usava um vestido longo, todo branco, e sua figura era imponente e denotava fidalguia. Usava um chapéu muito do gosto da rainha Mary: cilíndrico, de velu- do, enfeitado com pequeninas plumas de avestruz, e um véu. - Ponha já o chapéu, menina! Quantas vezes preciso reco- 25 mendar? Você sabe muito bem o que o sol faz com a pele! - Deixa escura, mãe. - Isso mesmo, e você não há de querer que isso aconteça, não? - perguntou a mulher, embora sua própria pele fosse suficientemente escura para protegê-la de semelhante risco. Era o contrário da garota, cuja pele era de um tom pálido, quase translúcido. - Que chapéu mais feio! - queixou-se ela. - Ponha-o, Queenie! Somente os nativos é que andam de- baixo deste sol sem chapéu. A menina, de muito mau humor, enfiou o chapéu na ca- beça. De fato, além de desconfortável, não era gracioso. A tal fita cor-de-rosa só servia para realçar sua feiúra. Ao vê-la, a mu- lher ficou tensa e encolerizada. - Mas o que é isso, menina? - perguntou, agitando a sombrinha e apontando para o chapéu. - Uma fita, mamãe. - Não seja malcriada! É uma fita cor-de-rosa, sua peste! Como ousa fazer semelhante coisa? Ela fechou a sombrinha, encostou-se no parapeito da varan- da, tirou o chapéu da cabeça da menina e arrancou a fita, se- gurando-a com a ponta dos dedos enluvados, como se estivesse suja. - Mamãe, por favor, não quer me devolver? - De jeito nenhum. Quantas vezes já a preveni? Você não deve usar nada que seja cor-de-rosa. - Mas achei tão bonito... - Bonito coisa nenhuma! Rosa é uma cor muito vulgar e só fica bem em mestiços sem classe. - Mas nós não somos méstiços, mamãe? - perguntou a garota. A mulher deixou a fita cair no chão e deu uma bofetada no rosto de Queeme. O barulho despertou o condutor da charrete, que contem- plou a mulher e sua filha, com ar pasmo. Fechou novamente os olhos, a fim de se proteger da excessiva luminosidade. Os indianos nunca batiam em seus filhos. Era algo impensável, mas os hábitos daquela gente eram incompreensíveis e misteriosos, pensou. Não pertenciam a casta alguma; não eram nem muçul- manos, nem hindus. Comentava-se até mesmo que comiam car- ne de porco, ofendendo assim a sensibilidade religiosa de todas as comunidades. Não deixava de ser um sacrilégio sem nome, e o velho charreteiro não conseguia sequer pensar no assunto. Fez-se um momento de silêncio na varanda, e a menina começou a chorar. 2G - Não somos mestiços coisa alguma! - disse a mulher. - Somos europeus residentes! Seu avô foi um sahib, um senhor de grande respeito, da mesma forma que seu pobre pai. Não admito que você use rosa, como uma dessas vagabundinhas que andam por aí..Onde foi que você conseguiu isso, Queeme? A menina parou de chorar. Sua mãe raramente a espancava e foi o choque, mais do que a dor, a causa de suas lágrimas. - Foi tio Morgan quem me deu. - É mesmo? - Subitamente a mulher deixou de lado a postura e o tom de senhora. Sua voz alterou-se, o tom tornou-se cantante, com inflexões muito mais indianas do que inglesas e, pondo as mãos na cintura, ela se voltou para a porta e gritou. - Morgan, seu malvado, onde é que você está? Ouviu-se barulho em uma das janelas, uma persiana foi suspensa e surgiu a cabeça de um homem. Tinha um rosto bo- nito e sua pele era ligeiramente mais morena do que a de Quee- nie, mas não tão escura quanto a da mulher. Usava um bigode negro, pequeno e galante, que fazia um estranho contraste cem o queixo um tanto inexpressivo e os lábios carnudos, repletos de auto-indulgência. Era um rosto que as mulheres achavam atraente, mas havia nele algo de infantil e débil, apesar do bi- gode. Os olhos eram escuros e, mesmo a distância, pareciam refletir uma certa melancolia refinada. Ele os esfregou e levou a ruão à fronte, protegendo-os da luz do dia. - O que foi? - perguntou. - Por que me acordou, quan- do preciso tanto fazer minha sesta? - Por que foi que você deu uma fita cor-de-rosa para Queeme? - Trouxe-a lá do clube. Alguém deve tê-la deixado cair. - Sim, alguma vagabunda! Você não tinha o direito de dá-la a nossa Queeme! - Ora essa, que diferença faz, Vicky? Pare de provocar ta- manha confusão. - Você ainda não viu nada! Não admito que ela use algo que seja cor-de-rosa! Nossa Queenie será uma verdadeira dama, garanto! O homem encarou a menina, notando seu perfil admirável, os olhos enormes e negros, as pestanas compridas, de onde ain- da pendiam algumas lágrimas, e as pernas finas. Caiu na risada. - Se é isso o que você quer para ela, quanto desperdício! - exclamou. Em seguida baixou a persiana com um gesto brusco. Morgan Jones afastou-se da janela e suspirou. Sabia que não adiantava tentar dormir novamente. O calor era insuportá- -..~ - _ ~.. . .....,..á i 2 7 vel e iria aumentar ainda mais. A noite não proporcionaria o menor alívio. O céu, acima de Calcutá, ficaria tão quente e escuro quanto um forno, tão quente que os próprios nativos seriam afetados. Pelo jeito eles nunca iam para a cama, pelo menos os que tinham uma cama onde se recolher. Às duas ou três da madrugada ainda se mantinham agachados nas portas das casas de Hooghly e nas calçadas. O suor escorria por suas peles enquanto se abanavam. Em torno deles a noite reverberava com os sons do Oriente: cânticos, gritos, sinos, os sons agudos e penetrantes, que eram pura música para os ouvidos nativos, mas que, para os ocidentais, não passavam de um barulho des- provido dë sentido uma mistura de gongos horríveis, estrondos, instrumentos metálicos desafinados, gemidos ululantes, um ba- ter contínuo e repetìtivo de tambores, que pairavam sobre o cheiro inconfundível da Índia, aquela mistura forte e desagradá- vel de esgotos ao ar livre, condimentos exuberantes, frutos ex- cessivamente maduros e fumaça desprendida da madeira verde, que provocava lágrimas nos olhos. Mas ali onde se encontrava as noites eram mais calmas, a não ser pelo grito gutural dado pelo vigia noturno, um ho- mem coxo, enquanto fazia sua ronda. Evidentemente não era como aqueles bairros onde viviam os .rahibs, com todas as ruas pavimentadas, mas pelo menos existiam árvores e jardins, em- bora empoeirados e malcuidados. Não se tratava de um verda- deiro lar, é claro, disse Morgan a si mesmo, esquecendo, como sempre, que jamais vira o tal "lar", e que provavelmente jamais veria. A explosão de sua irmã não o abalou. Para início de con- versa, fazia calor demais para ele se encolerizar, mas comparti- lhava seus sentimentos ou, pelo menos, os compreendia. O fato de ela odiar o rosa era talvez uma tolice, mas Morgan sabia muito bem, tanto quanto ela, que sua posição social se definia por esses pequenos fatos aparentemente desprovidos de impor- tância. Era fácil demais abandonar a luta que travavam a fim de manter um certo padrão, mas o preço a pagar seria uma decadência rápida e implacável. Calcutá estava repleta de anglo- indianos que haviam desistido, permitindo a suas filhas despo- sar rapazes de pele mais escura, e começando a encarar a Índia como seu lar. A decomposição, a partir desses fatos, começava a instalar-se. Antes que se percebesse, os filhos ou os netos já estavam vivendo como nativos, só que estes não queriam nada com eles e os desprezavam tanto quanto os ingleses. Era fácil demais entregar os pontos, como tantos faziam, mas Morgan estava decidido a ir para seu lar, para a terra de onde seu pai viera e à qual regressara, deixando a família na Índia. Ainda agora, aos vinte e cinco anos de idade, não era sem dificuldade que Morgan conseguia pensar naquele abandono. Sabia que era esse o costume: muitos ingleses vinham para a Índia e ficavam por dez ou doze anos, vivendo com mulheres indianas, e então retornavam à Inglaterra, a fim de iniciar uma nova família ou até mesmo retomar a vida familiar no ponto em que a tinham deixado. Sabia também que não era hábito dos pukka .cahzbi, os ingleses de classe alta, com seus clubes, suas esposas, seus regi- mentos ou seus postos governamentais importantes, agir daque- la forma. Os ingleses que se ligavam a mulheres nativas eram das classes mais baixas: ferroviários, trabalhadores dos telégrafos, gente que cuidava dos canais, usinas elétricas, abastecimento de água, pequenas indústrias de tecelagem, maquinário. As mulhe- res com quem viviam pertenciam invariavelmente às castas mais baixas ou a nenhuma casta. Com efeito, uma mulher de casta jamais se entregaria a um estrangeiro, pois os indianos tinham tanto preconceito de raça quanto os ingleses, se não mais. A irmã de Morgan idolatrava o pai deles, cujo retrato des- botado achava-se enquadrado em uma vistosa moldura, na pare- de da sala de visitas. Era difícil distinguir a maior parte da fisionomia, pois o sr. Jones trazia uma barba espessa e negra. As sobrancelhas peludas sombreavam-lhe os olhos, que se asse- melhavam aos de um profeta do Velho Testamento e ainda fa- ziam Morgan tremer. Sua expressão, até mesmo naquele retrato rígido e formal, era curiosamente furtiva, como se ele já estivesse encarando a possibilidade de abandonar a família, quando mal a constituíra. Na verdade, Morgan chegava a desconfiar de que ele havia tira- do o retrato com a finalidade expressa de deixar uma lembran- ça, depois de partir. No decorrer dos anos, Vicky havia fabricado uma teia com- plicada de lendas em torno daquele homem sisudo e transitório. De acordo com seu relato, Jones era o supervisor de uma estrada de ferro, um homem cujos pareceres sobre assuntos relativos a trens, trilhos, pontes e pontilhões eram muito solicitados pelos superintendentes e engenheiros-chefes; em suma, tratava-se de um verdadeiro cavalheiro. Morgan, que era seis anos mais moço do que a irmã, enca- rava tudo isso com uma ponta de ceticismo, mas não via ne- nhum motivo para contradizer Vicky, para quem aquele assunto era sagrado. A únaca recordação que tinha de seu pai era de um homem atarracado, zangado e barbudo, com um cheiro for- te de uísque, pó de carvão e suor, e que exigia absoluta obe- diência de seus filhos e da mulher. O fato de ele ser ou não 28 e 29 ser casado com a mãe deles era duvidoso, na opinião de Mor- gan. A própria criatura não parecia se importar com isso, e era mais plausível a Morgan que seu pai tivesse feito simplesmente um acordo com os pais dela, que, por seu lado, teriam ficado felicíssimos em se livrar de uma filha, sem precisar ter despesas com um dote. Morgan acendeu um cigarro, estudou o rosto no espelho e começou a se barbear. Não havia a menor dúvida de que seus olhos eram idênticos aos do pai, tal como apareciam no retrato; mas não conseguiam produzir aquele efeito de autorida- de. O rosto do pai era duro, exigente, excessivamente confiante nas próprias virtudes; em Morgan, no entanto, os mesmos traços produziam um rosto que era ao mesmo tempo bonito e débil, como se os traços mais firmes $e tivessem diluído. Os olhos ne- gros, cheios de luz interior, e os dentes brilhantes o redimiam, mas Morgan sabia muito bem que para muita gente que habi- tava o lado de cá do Canal de Suez eles eram o indício evidente de "sangue misturadó'. Na Inglaterra, refletiu, poderia muito bem passar por um inglês. Morgan abriu a porta e pediu aos gritos que lhe trouxes- sem água quente, sem obter resposta. Na Inglaterra bastava abrir a torneira para se obter água quente em abundância! Estava, porém, na índia, onde nada funcionava nem era feito com facilidade. Ele voltou a gritar, desta vez mais alto, o que provocou um verdadeiro rebuliço no andar térreo. Da cozinha sua mãe gritou para o aguadeiro em inglês, com um sotaque muito car- regado, enquanto a cozinheira e a ayah berravam com o infeliz velho em hindi. Suas vozes aumentavam de volume, enquanto amaldiçoavam sua preguiça, a surdez e as origens mais do que humildes. O aguadeiro retrucou, defendendo-se e aos antepassa- dos por meio de gritos, enquanto agitava as vasilhas e jarros de latão e cobre, com o intuito de chamar a atenção para a dificuldade e responsabilidade de suas tarefas. Do andar de cima vários dos pensionistas de Vicky grita- ram, exigindo silêncio e, enquanto isso, em torno do bangalô, os passarinhos assustados piavam e debandavam, aumentando ainda mais a confusão. Morgan gemeu, desconsolado, não apenas por sentir-se de- sanimado, mas porque tudo aquilo era tipicamente anglo-indiano: o barulho, a ineficiência, o fato de que um anglo-indiano preci- sava berrar para que um indiano se mexesse, ao passo que um pukka sahib não precisaria nem mesmo elevar o tom de voz. Ainda ouvia os gritos de sua mãe, que agora se sentia bem mais à vontade falando em hindi, continuando a descrever, nos termos mais depreciativos possíveis, os antepassados do infeliz aguadeiro. Quando Vicky se encontrava em casa, a velha via-se obriga- da a falar inglês, o que restringia por demais sua capacidade de manter uma conversa e amaldiçoar um criado. Ela se sentia muito pouco à vontade com o idioma inglês e ainda mais com as roupas européias que Vicky fazia questão que ela usasse, pois jamais conseguira dominar o mistério que envolvia as saias, os espartilhos, as meias e os sapatos. Seu marido satisfazia-se em vê-la usando um sari; agora, entretanto, com uma idade em que tinha o mais amplo direito de viver em paz, via-se forçada a envergar vestidos floridos para o chá, meias que faziam dobras nas pernas e sapatos que lhe machucavam os pés. Como resulta- do de todos esses dissabores, ela se instalou na cozinha, fazendo dela sua residência mais ou menos permanente. Lá pelo menos podia ficar descalça e tagarelar baixinho em hindi com a cozi- nheira e a ayah. O quarto em que Morgan se encontrava era pequeno, par- camente mobiliado, quase monástico. O dinheiro de que a fa- mília dispunha para gastar em decoração fora aplicado na sala de visitas e na de jantar, a fim de causar boa impressão. Os quartos eram pouco maiores do que celas, embora Morgan tives- se pendurado nas paredes alguns quadros com cenas da vida inglesa, tiradas de velhos periódicos, como, por exemplo, uma foto ëlo Prado Real, em Ascot; uma vista de Piccadilly Circus; e o jovem príncipe de Gales apoiado em sua espingarda, por ocasião de uma caçada. As roupas de Morgan pendiam de um cabide em um dos cantos do quarto, por detrás de uma cortina florida. Juntamente com o carro, um Austin um tanto maltratado, eram os bens que ele mais prezava. Tais roupas compreendiam o smoking que ele usava para trabalhar todas as noites, feito por encomenda e por um preço razoável pelos conhecidos alfaiates, os Irmãos S. Mohandas, da Kaligrat Road, e cujo corte obedecia ao estilo dos mais chiques alfaiates londrinos; um paletó de linho branco e três ternos que tinham todo o ar de terem sido confeccionados na Inglaterra, desde que não fossem examinados muito de per- to... Diariamente, antes de deitar-se, ele punha as calças debai- xo do colchão, a fim de que elas formassem um vinco, e lavava o colarinho de celulóide, para que ele não se amarelasse. Era o homem mais bem-vestido de toda a vizinhança, o que era de se esperar. Afinal de contas, não se tratava de um mero empregado de escritório ou de um maquinista, com as unhas sujas de graxa ou de tinta. Era um músico, um artista que toca- va saxofone no clube noturno mais elegante de Calcutá. 30 e 31 Morgan contemplou a fotografia amarrotada colada acima do espelho. Era a entrada do Café Paris, em Piccadilly, o clube noturno mais caro de Londres. Junto à entrada, atendida por um importante porteiro, aguardava uma fila de motoristas e de automóveis Rolls-Royce. Ele já havia decorado todos os detalhes daquela foto. Sabia que um dia acabaria tocando naquele lugar. Era um sonho tão acalentado que não o confiava a ninguém, com exceção de Quee- nie, que lhe jurou manter segredo. Pensou na fita cor-de-rosa que dera a sua sobrinha e sorriu. A menina ficaria uma linda mulher, quando crescesse. Era um fato mais do que evidente, embora ela tivesse apenas onze anos de idade. "Quando isso acontecer, aí é que teremos um proble- ma", pensou. Afinal de contas, não estavam na Inglaterra. As jovens desabrochavam rapidamente naquele clima e feneciam logo. Suas oportunidades duravam tanto quanto sua beleza. A beleza era algo capaz de levar uma garota muito longe, se ela soubesse como usa-la. As mulheres anglo-indianas que tivessem a aparência apropriada (e a pele clara) algumas vezes desposavam ingleses e iam para a Europa, onde habitualmente passavam por ser filhas de pais ingleses, nascidas na Índia. Um casamento correto poderia fornecer uma escapatória para Quee- nie um dia, se ela tivesse sorte. Para Morgan a saída não era tão fácil assim. Ele borrifou o rosto com água-de-colônia, amaciou a ponta dos bigodes com uma pasta perfumada, vestiu uma camisa branca e uma calça de flanela branca, e finalmente desceu para tomar o café da manhã, motivo da discórdia de sua mãe com a cozinheira, que discutiam em altos brados. O chá era a refeição favorita de Queenie. Ainda estava amua- da com a perda de sua fita. Afinal de contas, tinha doze anos de idade - ou quase - e pleno direito de enfeitar o chapéu com uma fita, mas o bolo e os biscoitos pelo menos lhe propor- cionavam algum consolo. O chá costumava ser servido na varanda, na vã esperança de que todos se beneficiassem da brisa refrescante. Havia lindas latas de biscoitos da marca Huntley & Palmer sobre a mesa, e Queenie as apreciava quase tanto quanto o que elas conti- nham. Eram pintadas com atraentes vistas coloridas de Londres: a mudança da guarda no Palácio de Buckingham, os guardas na Torre de Londres, o Big Ben e o rio Tâmisa... Adorava con- templar aquelas vistas e sonhar com a Inglaterra, aquela terra de contos de fada, repleta de campinas verdejantes, castelos e bosques acolhedores, que sua mãe e Morgan chamavam de "nosso lar". A mãe havia prometido a Queenie que ela iria para lá um dia, e a menina sentia uma vontade imensa de que isso acontecesse logo. - Esta é a hora do dia que seu avô preferia - observava sua mãe, passando manteiga no pão para Queenie. Tinha como regra estabelecida que a menina devia comer uma fatia de pão com manteiga antes de servir-se de bolo ou biscoitos. Era uma estranha regra, que a avó e a ayah achavam incompreensível, pois, em sua maneira de encarar as coisas, o único objetivo de ter filhos era mima-los. - Não entendo essa preferência de papai - observou Mor- gan. - A esta hora o calor é infernal. - Somente se você acha que é, meu caro - disse Vicky com suavidade. Era uma discípula fervorosa de Mary Baker Eddy e guardava um exemplar de Ciência e Vida em cima do criado- mudo, ao lado da cama, juntamente com a Bíblia de seu pai. Não acreditava em médicos, doença, estimulantes ou dor. Até então, Queenie tivera a sorte de livrar-se dos quatro. - Tanto quanto eu me lembre, Peter preferia a cerveja ao chá, Vicky - declarou Morgan. - Quanto a mim, uma cerveji- nha até que iria muito bem. -Jamais na hora do chá, Morgan! - ela disse em tom que não admitia réplica, servindo o irmão com um gesto decidi- do. Ele aceitou com um suspiro. Não havia a menor dúvida de que Vicky sempre acabava conseguindo o que queria. Impu- nha seus padrões de britânica nos trópicos, recorrendo umca- mente à força de vontade e submetendo não apenas Morgan, mas a todos que viviam em torno dela. Até mesmo os pensio- nistas viviam com medo de Vicky. Somente Magda, a mais anti- ga pensionista da casa, ousava desafiar Vicky, e era o que fazia naquele preciso momento, quando surgiu por entre as cortinas que separavam a sala de estar da varanda. Desafiando o costume rígido que impunha trajes elegantes para o chá, ela usava um quimono todo florido. - Está quente demais para. me vestir - explicou Magda, sem fazer a menor questão de que sua observação fosse interpre- tada como um pedido de desculpas. Seu sotaque era europeu e a voz, rouca e gutural, era mais apropriada para algum idioma mais áspero. O hábito de fumar um cigarro atrás do outro, a vida inteira, havia baixado o tom de sua voz, transformando-a numa espécie de resmungo, que alguns homens achavam sen- sual, mas que contrastava estranhamente com sua bela aparência de loira frágil, embora começasse a fenecer, a exemplo de sua voz. 32 a 33 Contemplá-la era perceber que um dia fora linda, mas o que permanecia de sua beleza não passava de uma ruína inte- ressante. Ela tinha maçãs salientes, pele muito pálida, boca ras- gada e sensual, olhos grandes e tão azuis quanto o rio Tâmisa nas latas de biscoitos de Queenie. Por debaixo dos olhos sur- giam concavidades fundas e arroxeadas, testemunhos de uma vida intensa, de noitadas, doença, sofrimento ou uma corr:bina- ção de tudo isso. Não se tratava de um rosto feliz; os ossos eram salientes demais, de tal forma que, à luz inclemente do dia, a sugestão de uma caveira, por debaixo da carne, era desa- gradavelmente evidente. - Chá? - ofereceu Vicky com animação, contemplando o quimono. - Sim, chá, é claro. - Magda pôs três colheres cheias de açúcar na xícara e mais uma na caneca de Queenie, dando uma piscada carregada de cumplicidade. - O chá deve ser quente e doce - declarou Magda, igno- ~" rando o olhar furioso que Vicky lhe lançava. - Quando estive na Rússia, púnhamos uma pedra de açúcar entre os dentes e, em seguida, bebíamos o chá. Ele era sempre servido em um copo. Ah, que coisa mais gostosa! - Fale-nos sobre o general, Magda - solicitou Queenie. - O general? Ma petite, você já me ouviu falar dele cente- nas de vezes! - Deixe a pobre Magda em paz, Queenie - repreendeu Vicky. - Não, não! - protestou Magda em meio a um acesso de tosse, que parecia não terminar mais. Em seguida tomou um gole de chá. - O general era um homem maravilhoso, Queenie. Imagine só: tinha um metro e noventa e era um gi- gante, um verdadeiro urso! Quando ria, até parecia um trovão! Sua barba era espessa, enorme, toda prateada. - Como a de Ramdan Singh, o carteiro? - De jeito nenhum! Não era uma barba pontuda e apara- da como de um szkh, mas uma barba de verdade, que descia até o peito do general, e cobria metade de suas medalhas. - Mas então ele era muito velho? - Não era tão velho assim, chérie. Por quê? - Você disse que a barba dele era prateada. Magda suspirou e acendeu um cigarro, muito embora sa- bendo que Vicky detestava que fumassem à mesa. - Reconheço que ele não era jovem. Os generais nunca são. - Ele acaso morava em um palácio? - Mas quantas perguntas! Ele tinha um belo palácio, Quee- nie, mas eu o conheci durante a guerra e, assim, não estive no lugar onde o general morava. Eu estava representando em Kíev... Meu Deus, fazia tanto frio no palco que eu quase morri! Ele foi até o meu camarim com uma garrafa de champanhe, duas taças e um balde cheio de carvão, para o aquecimento. Você não imagina como o carvão era importante para mim, na- quele momento! Até mais do que o champanhe! No dia seguin- te, de manhã, ele mandou uma tróica me buscar. Era fantástica. Seu ajudante-de-ordens me deu um casaco de pele todo forrado e uma carta do general, convidando-me a ir encontrá-lo em seu alojamento. Durante os quatro anos que se seguiram nunca nos separamos! - Ele deve tê-la amado muito! - comentou Queenie com inveja, fixando os olhos negros no rosto de Magda e ignorando o pedaço de torta de uvas que sua mãe pusera em seu prato. - Eu o amava tanto quanto a vida, meu bem. Aliás, eu o amava mais do que a própria vida. É o único amor que conta para mim, Queenie. Magda soprou um anel de fumaça e o viu pairar, até se desvanecer. - O resto é como fumaça, dura pouco - acrescentou. A escuridão se fez de repente. Não houve crepúsculo, as cores do dia não se suavizaram. Em determinado momento tu- do era luminoso e quente, no instante seguinte sobreveio uma escuridão de. breu e o calor era ainda maior. - Como sinto falta de um pôr-do-sol! - declarou Magda com melancolia. Distribuiu as cartas sobre a mesa, suspirando, enquanto o calor as grudava em seus dedos. Magda nunca anda- va sem um baralho. Punha o tempo todo a sorte para si mesma, como se estivesse resolvida a encontrar sempre boas notícias. A varanda estava fracamente iluminada por uma única lâm- pada que brilhava através da cortina da sala de entrada. A ele- tricidade tinha chegado há dez anos, mas o fornecimento de energia não era suficientemente abundante para permitir que mais de dois aposentos fossem iluminados ao mesmo tempo. Os cortes de luz tornaram-se mais regra do que exceção, agora que os indianos começavam a substituir os ingleses e os anglo- indianos como engenheiros da Companhia de Luz e Força de Calcutá. Era um assunto de grande preocupação para os anglo- indianos, pois seus empregos constituíam a única razão de sua existência enquanto comunidade separada. Se acaso se permitis- se aos nativos executar as mesmas tarefas, era bem pouco prová- vel que a posição dos anglo-indianos, enquanto minoria espe- cialmente protegida, se mantivesse durante muito tempo. 34 / 35 Existia quem supusesse que os ingleses jamais abandona- riam uma comunidade de cerca de duzentas mil pessoas com sangue europeu. A mãe de Queenie incluía-se entre esses oti- mistas. Morgan, cujo trabalho o colocava em contato social mais íntimo com os ingleses, pensava o contrário, muito embora, em deferência ao patriotismo de sua irmã, não confiasse seus pensa- mentos a ninguém. Sabia que a guerra havia modificado tudo. Os rígidos sahibs, que haviam permanecido quase tão distantes e inatin- gíveis quanto a velha rainha, eram uma espécie em vias de desaparecimento lá pelo início da década de 1920. Os jovens que deveriam vir da Inglaterra a fim de substituí-los haviam morrido aos milhares nos campos de batalha, nos lodaçais de Flandres e do Somme. Os ingleses da Índia agora dançavam animados por orquestras de jazz, suas mulheres usavam perma- nentes nos cabelos, saias curtas, meias enroladas e fumavam em público, ofendendo enormemente os indianos de todas as seitas e castas. Morgan fazia grande sucesso entre elas, com seus olhos so- nhadores e seu rosto "sensível", algo impensável nos dias que precederam a I Grande Guerra, quando as inglesas, as mem- sahibr, como se dizia, eram tão inabordáveis para um anglo- indiano quanto o recinto sagrado do Clube de Turfe de Calcutá. O clube, é claro, continuava sendo lugar proibido. Evidentemente, não havia nenhuma regra nesse sentido, mas era algo subenten- dido, como tantas outras coisas na Índia. Morgan apreciava sua reputação de homem que agradava às mulheres e até mesmo exagerou-a, mas isso não contribuiu para poupa-lo da humilhação que era reservada à comunidade a que pertencia. Ele, de modo algum, poderia passar por inglês em Calcutá, e também não manifestava o menor desejo de go- zar da companhia dos demais anglo-indianos. A maior parte deles o julgava "pretensioso" e ressentia-se do sucesso que ele alcançava com as mulheres inglesas, bem como com o fato de ele ter escapado do tédio de um emprego nos escritórios das estradas de ferro. Ele, porém, era tão limitado quanto os demais. Não havia como ir adiante naquele mundo. Por mais doído que fosse para um anglo-indiano, os ingleses preferiam os indianos nativos às pessoas de sangue mestiço, talvez porque a própria existência de uma comunidade anglo-indiana constituísse prova vergonho- sa de que os colonizadores não eram melhores do que o resto do mundo. Eram os "negros" que iam para Oxford e voltavam advogados, disse Morgan a si mesmo com revolta, e não gente como ele. Não alimentava ilusão alguma em relação ao futuro. Este pertenceria a homens mais qualificados do que ele, por mais escura que fosse sua pele... - Au travail - disse Magda, apertando o cinto do quimo- no e guardando o baralho no bolso. - Preciso ir trabalhar e você também, Morgan. - Posso ir com você? - pediu Queenie. - Não pode, não, meu bem - declarou sua mãe. - Da- qui a pouco está na hora de ir para a cama. - Além disso - acrescentou Magda, levantando-se com um bocejo -, você ainda é jovem demais. Quando for mais velha, vai se fartar de tanto ir aos clubes noturnos. - Posso ir ver Magda maquilar-se, mamãe? - pediu Queenie. - Hoje, não, meu bem - disse Vicky com ligeiro ar de reprovação. Havia muita coisa com que não concordava. Sempre se julgara uma mulher respeitável, de padrões rígidos, o que era verdade. Perdera a cabeça uma única vez, ao ser arrebatada em um baile do Clube da Estrada de Ferro por um irlandês de cabelos negros, chamado Tim "Tigre" Kelley, que viera até a Índia via Austrália, Tasmânia e Cingapura, na qualidade de jóquei. Se não fosse anglo-indiana, teria percebido que Tigre era um malandro, mas ele era branco e, portanto, tão valorizado pelas jovens anglo-indianas de pele escura que ela não se ani- mou a lhe fazer nenhuma pergunta. Ainda bem, pois Tigre só lhe teria dito mentiras. Vicky recordava com emoção os cinco anos durante os quais ela e Kelley tinham ficado casados. Tigre era baixinho, porém valente, daí seu apelido, sempre disposto a beber ou a festejar, generoso com o próprio dinheiro. Infelizmente tal generosidade se estendia ao dinheiro alheio, sempre que houvesse uma chan- ce. Sua carreira no hipódromo de Calcutá terminou abrupta- mente, quando o acusaram de apostar contra os próprios cavalos que montava e depois fazê-los perder acusação que, conforme depois se averiguou, foi feita contra Tigre em outros cantos do império, juntamente com as de passar cheques sem fundo, con- trair dívidas que não podia pagar e ser bígamo. Escapou da Índia, prometendo mandar buscar Vicky e Queenie assim que pudesse, e nunca mais se ouviu falar dele. Desde então a vida não fora fácil para. Vicky, não apenas pelo fato de sua pele ser um tanto escura demais. Abandonada por seu esperto marido e coberta das dívidas que ele fizera, viu-se obrigada a aceitar pensionistas. Como não tinha a menor vontade de alugar quartos a ferroviários que se barbeavam ape- 3G e 37 nas uma ou duas vezes por semana e tinham unhas negras de graxa, achou mais apropriado receber mulheres. Nem é preciso dizer que uma inglesa jamais aceitaria viver em uma pensão de uma anglo-indiana, mas Calcutá era uma cidade cosmopolita. Graças a Morgan, em breve ela achou pensionistas européias, mulheres de nomes impronunciáveis e olhar melancólico, que haviam atravessado boa parte da Europa e da Ásia em conseqüência de guerras e revoluções, e para quem Calcutá significava muitas vezes o ponto final, a menos que conseguissem juntar dinheiro suficiente que lhes per- mitisse ir para Bombaim e de lá tomar um navio de volta à Europa. A maior parte delas trabalhava como taxi-gzrlt no Firpo's ou em lugares do gênero. Se acaso Vicky desconfiava que elas ganhavam a vida de modo menos respeitável, sempre guardou a suspeita para si, embora o mesmo não se aplicasse a seus vizi- nhos. Com efeito, chegara à presente situação como proprietária de uma pensão para mulheres solitárias de moral duvidosa e, para isso, tivera de dar passos inevitáveis, mas as implicações sociais de sua atitude lhe escaparam. - Por que não posso ir ver tio Morgan tocar? - pergun- tou Queenie, cortando a torta a fir'n de pegar a uva. - Não é lugar para crianças, Queenie. Coma ,o resto da torta, meu bem. Você quer ser forte e saudável quando crescer, não? - O que vou ser quando crescer? Vicky contemplou a criança durante um bom momento. Era uma pergunta que se fazia com freqüência e para a qual não havia encontrado resposta satisfatória, se é que ela existia. - Você será uma senhora - disse finalmente. - As senhoras vão a clubes noturnos? - É claro que não. - Não vão nem mesmo com cavalheiros? - Como posso saber? Pelo amor de Deus, pare com essas perguntas. - Morgan diz que as inglesas vão. Vicky lançou um olhar furibundo na direção de Morgan, e ele deu de ombros. Sabia muito mais sobre os hábitos das inglesas do que poderia dizer à mesa, sobretudo diante de Queenie. - É verdade - disse ele, muito mais paia satisfazer a Vicky do que a sua sobrinha. - Porém, quando Queenie crescer, ela poderá ir aonde bem entender. - Veremos - declarou Vicky, contrariada. - Se ela se esforçar na escola - e nesse momento lançou um olhar signifi- cativo para Queenie, deixando bem claro que não era esse o caso - e se conseguir diplomar-se com notas boas, então poderá escolher o emprego que quiser. Vejam só o exemplo de Peggy D'Souza, ela acaba de conseguir um emprego como datilógrafa numa grande firma inglesa da Rua Connaught, mal acabou de sair da escola. Ela trabalha num escritório elegante e para um inglês. Não tem o menor contato com fun- cionários indianos. Prestem atenção ao que vou dizer: acabará se casando com um inglês e irá para a Inglaterra na companhia dele. Morgan levantou a sobrancelha. A admiração de Vicky por Peggy D'Souza era um tema familiar, muito embora ele não compartilhasse daquela visão tão otimista quanto ao futuro da jovem. Morria de vontade de dizer que Peggy, na realidade, fora reprovada nos exames e tinha sido contratada por razões outras que não sua capacidade como datilógrafa mas permaneceu em silêncio. Quanto aos D'Souza, haviam adotado seu sobrenome português há duas gerações, com a esperança de passarem por europeus de tez mediterrânea. Tratava-se de uma esperança vã, pois a maior parte deles, com exceção de Peggy, eram tão escu- ros quanto uma botina. - A escola é chata - disse Queenie. - Que bobagem! - replicou Vicky, automaticamente. - É preciso que você se aplique nos estudos, pois assim conseguirá um bom emprego e voltará para a Inglaterra, onde viverá como uma verdadeira senhora. - Preferia ser atriz, como Magda. Vicky suspirou. Era possível que Magda tivesse sido outrora uma atriz. Algumas vezes ela se referia a seu passado teatral, embora fosse difícil afirmar com exatidão em que consistia... Tinha a habilidade de uma verdadeira cigana, no que dizia res- peito à leitura da sorte e do tarô, mas para Vicky aquilo era menos respeitável do que uma carreira de atriz. De qualquer modo o teatro nem por sombra seria uma profissão recomendá- vel para Queenie, e ela fez questão de deixar isso bem claro, antes de mandar a menina para a cozinha, a fim de atormentar a avó e a ayah. - Você não pode e nem deve enfiar idéias tolas na cabeça de Queenie - disse a Morgan em tom de censura, quando se viram a sós. - Minha atitude não é mais tola do que dizer à menina que o pai dela mandará buscá-la um dia, Vicky. - Ele até que poderia. - Vicky, você bem sabe que não, é possível. Tigre tinha urna família na Tasmânia e outra na Africa do Sul. Estas são 38 a 39 as que nós conhecemos. A esta altura ele, provavelmente, se encontra em Hong Kong, na Austrália ou, o que é mais prová- vel, na cadeia. - Você não falava desse jeito quando ele morava aqui. Ago- ra que o vê pelas costas decidiu que ele tem péssima reputação. - Tigre era meu amigo, e eu gostava dele. Mas o fato é que trapaceava nas corridas, Vicky, além de ter abandonado vo- cê e Queenie. Não mandará buscá-la. Se Tigre Kelley voltasse para a Inglaterra, a polícia estaria à espera dele no porto, com as algemas já preparadas. O olhar de Vicky vagou pela escuridão. Não havia dúvida de que tudo o que Morgan dizia era verdade, mas todo o seu ser resistia àquela evidência. Queria o que existisse de melhor para Queenie, incluindo um pai dedicado, embora o que mais desejasse para a filha fosse uma oportunidade de viver na Inglaterra, algo que jamais estivera ao seu alcance e jamais estaria. Na Inglaterra Queenie seria livre; ninguém precisaria saber quem ela era ou de onde viera. Era suficientemente alva para ser aceita como inglesa, tendo,apenas algumas gotas de sangue estrangeiro, ao passo que na India estaria à mercê de alguma observação mordaz, comentários prejudiciais e olhares de soslaio. - Não é uma lástima o fato de que nossos filhos só conse- guem ir adiante na vida quando nos abandonam? - Talvez não sejam apenas as crianças que queiram ir em- bora - comentou Morgan com doçura. Vicky levantou-se e pôs as xícaras e pratos na bandeja. Jo- gou as migalhas no jardim para os passarinhos. Na rua, bem perto, uma moto deu a partida ruidosamente; da cozinha ouvia- se o barulho das risadas da avó e da ayah, as quais provavelmen- te enchiam a cabeça de Queenie com suas tolices. Uma locomo- tiva apitou na vizinhança. Em todos os lugares da Índia a estra- da de ferro estava sempre perto dos bairros habitados por anglo- indianos, pois era para dirigir os trens que seus avós tinham ido para lá, e era para mantê-los correndo qui seus filhos ha- viam sido criados. Os trens estavam em seu sangue. - São sete horas - anunciou Morgan, ao ouvir o apito lamentoso do trem e o barulho dos vagões que eram engatados. Até mesmo ele, um tocador de saxofone, conhecia de cor o ho- rário dos trens e conseguia dizer as horas por seus apitos e si- nais, aliás com tamanha precisão que sequer precisava de um relógio. - Bem, vou andando. - Sim... Ouça! Mamãe e a ayah estão tendo uma conversa animada com Queenie. Elas estragam aquela menina e contam- Ihe essas terríveis histórias indianas... - Isso também faz parte dela, Vickv. Todos carregamos um pouco da Índia em nossas veias e, para dizer a verdade, não é tão pouco assim... Morgan procurou dizer tais palavras com muito tato, pois a pele de Vicky era um tanto mais escura do que a sua, e essa diferença a tornava muito suscetível, o que era de se compreen- der. Vicky tirou a bandeja da mesa. Fingiu ignorar o comentário do irmão. Muitas vezes era assim que lidava com os problemas que se recusava a encarar e talvez não tivesse condições de agir diferentemente. Fez um breve gesto de cabeça, como se estivesse animando Morgan a partir para seu mundo de clubes noturnos, de orques- tras de jázz e de mem-sahibr que saíam à noite, à procura de diversões. - Jamais admitirei esse fato, Morgán! - declarou com firmeza. Queenie tirou os sapatos e sentou-se no chão da cozinha, suspirando. A mãe detestava vê-la descalça, e o pior é que lhe comprava sapatos pequenos demais, que apertavam os pés. Acre- ditava que o fato de a menina ficar descalça acabaria por fazer seus pés crescerem. As indianas tinham pés enormes e esparra- mados, as mem-rahabs, ao contrário, os tinham pequenos e mi- mosos. Vicky decidira que a filha teria os pés mais delicados deste mundo, por mais que isso a sacrificasse. Queenie gostava muito da cozinha, não apenas por ser ter- ritório proibido, onde a ayah sempre lhe dava alguns doces in- dianos, misturas pegajosas e pouco higiênicas de frutos, nozes e mel, que Vicky desaprovava tanto quanto os pés descalços. Lá ninguém lhe fazia exigências no sentido de "sentar-se direi- to" "comportar-se como uma menina bem-educada" e "tomar cuidado com a pronúncia". Para sua avó e para as criadas ela era "a princesinha" e podia comportar-se como bem entendesse. Queenie tinha visto fotos de cozinhas inglesas com o assoa- lho forrado de linóleo, armários e uma caixa branca e misteriosa denominada "geladeira", mas a cozinha de sua casa nada tinha a ver com aquilo. Na realidade tratava-se de uma' espécie de cabana ou puxado torto, desequilibrado, situado nos fundos da casa, com telhado de zinco e o chão não muito limpo. Não havia tanque e a louça era lavada do lado de fora, em grandes tonéis de cobre. A cozinheira preparava a comida em um gran- de fogão à lenha, que lançava chispas quando era aceso, e mas- cava o tempo todo noz de bétel, a fim de não desmaiar de tanto calor. 40 ' 41 A avó também tinha o hábito de mascar noz, quando achava que ninguém estivesse vendo, e em seguida esfregava os dentes com um pedaço de pau mergulhado no sal, a fim de livrar-se das nódoas vermelhas, reveladoras de seu hábito. De vez em quando gostava de enfeitar os longos cabelos de Queenie com flores, mas elas tinham de ser removidas antes que a menina saísse da cozinha, pois aquilo era considerado um costume "na- tivo", que Vicky jamais toleraria. As flores cresciam fora, ao lado da cozinha, e pássaros de plumagem colorida de vez em quando entravam pela porta aberta ou pelas precárias aberturas das pa- redes, que passavam por janelas. Na opinião de Queenie, a co- zinha era um lugar infinitamente mais agradável do que a sala de visitas. A avó e a ayah ficavam de cócoras, à moda indiana, tomando chá. Ambas tinham rostos pardos, enrugados e marcados pela idade, mas a ayah mostrava-se mais feliz, pois não precisava de modo algum fingir o que não era. Tratava-se de uma mulher de certa idade, que não pertencia a nenhuma casta em particular, e era tão indiana quanto a noite quente e perfumada. Queeme também não conseguia deixar de notar que a cozinheira sentia-se consideravelmente mais à vontade, e era muito mais apresentável em seu sari do que a sra. Jones em seu vestido pouco asseado, com os colchetes abotoados de qualquer jeito e a bainha des- costurada. Durante o dia contemplavam da porta da cozinha a com- prida fileira de quintais vizinhos. Cada um deles tinha uma cozinha mais ou menos idêntica. Ficavam comentando tudo o que se passava na rua e à noite limitavam-se a ouvir, muito abelhudas e atentas. - Psiu! - murmurou a avó, inclinando-se e levando a mão em forma de concha à orelha, a fim de ouvir melhor. Prestou atenção durante alguns minutos e em seguida dirigiu-se à ayah. - A menina dos D'Souza está levando uma tremenda des- compostura da sra. D'Souza. - De fato - disse a ayah em hindi, sem disfarçar a exci- tação. Passara a vida inteira trabalhando como babá e falava uma mistura de hindi e inglês. Começava uma frase em uma língua e terminava na outra. A ayah era velha demais para exer- cer qualquer tarefa, mas, como todos os criados indianos, tornava- se uma agregada permanente da casa. - Ontem à noite ela voltou tarde para casa. Hoje vai sair de novo - informou a avó, pois a ayah era um pouco surda. Queenie ouvia o barulho de uma discussão na casa ao lado. As vozes se alteraram, alcançando um som estridente. Seguiram- se gritos, no momento em que outros membros da família co- meçaram a participar da confusão. - Não me importo, mamãe, ele é inglês! - gritou Peggy D'Souza, e sua voz sobrepôs-se ao rebuliço. - Ela dorme com um inglês - anunciou a avó em hindi. - Todo mundo sabe - concordou a ayah. - Ele traz a menina para casa de carro. Ontem à noite os dois se beijaram na rua. Vi com meus próprios olhos. Na casa ao lado ouviu-se o barulho de um bofetão, seguido de choro. O sr. D'Souza, uma figura pouco nítida em meio à escuridão, saiu de casa e acendeu o cachimbo, pois não tinha permissão de fumar lá dentro. Sempre que queria escapar dos problemas das mulheres da família ele procurava o caminho da rua. - É bom beijar um homem? - perguntou Queenie. As duas velhas riram, oscilando para a frente e para trás. Até mesmo a cozinheira, que costumava ser uma criatura muito calada, deixou escapar uma risada. - Estão ouvindo só esta menina? - disse a ayah, com ar divertido. - Mal acabou de desmamar e já está fazendo per- guntas sobre os homens! A avó sorriu. Inclinou-se e pegou no queixo de Queenie, levantando seu rosto a fim de que ela a encarasse. = Nossa Queenie terá um noivo tão bonito e forte quanto um príncipe! Será um verdadeiro .rahib. - É mesmo! - assegurou a ayah, balançando a cabeça. - Mas o que ele fará comigo, vovó? - Isso você descobrirá com seu noivo, menina. Sofrerá um pouco de dor e, logo em seguida, terá muito, mas muito prazer, além de vários filhos. - Não quero ter filhos. - Quando crescer vai querer tê-los, Queenie. Uma mulher sem filhos é uma mulher desonrada, aos olhos do mundo. - É isso mesmo - concordou a ayah. - Lembre-se, porém, de que você não deve permitir de modo algum que isso aconteça antes do casamento! - advertiu a avó, encarando a menina com severidade. - Os homens não dão valor àquilo que conseguem a troco de nada. Beliscou então a bochecha de Queenie com tamanha força que a menina quase começou a chorar. - Nem um pio com sua mãe a respeito desta nossa con- versa, ouviu? Em relação a certos assuntos nós sabemos mais do que os ingleses... Queenie sentiu-se um tanto confusa em relação a esse "nós". A avó era tão indiana quanto a ayah, a despeito das roupas 42 a 43 ocidentais que Vicky a obrigava a usar. A menina refletira mui- to sobre o assunto. Até pelas regras mais elementares da aritmé- tica, sua mãe e Morgan eram metade indianos, enquanto ela tinha um quarto de sangue indiano ou três quartos de sangue inglês, dependendo do ângulo sob o qual se desejasse encarar a questão. Muitas vezes ocorreu a Queenie que não se podia discrimi- nar uma pessoa só por ser indiana. Sabia que aquele mero pen- samento era uma espécie de traição a seu próprio sangue e ao de sua mãe. No entanto, em mais de uma ocasião, se surpreen- deu imaginando se a avó não seria talvez mais sensata do que Vicky. Os indianos de modo algum eram tão estúpidos quanto Morgan dava a entender, refletiu. E se os "encardidos", como ele os denominava, eram tão horríveis, como é que eles mesmos ficavam? Sim, porque afinal de contas Morgan era metade "en- cardidó', e o sangue indiano também corria nas veias de Queenie. Além do mais, embora fosse uma criança, Queenie já tinha aprendido que não existia essa criatura denominada "indiano". Aquele quase continente continha, com grandes problemas, brâ- manes de alta casta e intocáveis, hindus e muçulmanos, pacífi- cos babus bengalenses e .nkh.r guerreiros, pathan.c ferozes e karh- mzrt:r amantes do prazer, rajputr de quase dois metros de altura e povos das montanhas quase pigmeus. Nenhum deles tinha muita coisa em comum, nem mesmo a língua, a menos que se incluísse o inglês. Era uma terra onde as mulheres iam cober- tas de véus a templos cujas paredes eram esculpidas com escul- turas eróticas e perturbadoras; onde um marajá descia de um Rolls-Royce revestido de placas de ouro a fim de lavar os pés de mendigos e leprosos; onde se deixava as crianças morrerem nas ruas, enquanto a vida de uma vaca era preservada com zelo religioso... Tudo isso era parte de Queenie e, ao mesmo tempo, alheio a ela. A menina imaginou que aparência teria em um sari de seda feito de brocado de ouro, com pesados braceletes e colares e uma pérola de bom tamanho em seu nariz furado. Com toda certeza ficaria mais bela do que com seu umforme escolar, e também mais livre, pois as mulheres indianas não usavam nada debaixo dos saris e riam muito ao verem as estranhas e descon- fortáveis roupas de baixo das mem-rahib.r dependuradas nos va- rais para secarem. Até que devia ser bom, refletiu Queenie, ser uma coisa ou outra, saber com exatidão onde a gente se situava. Aninhou- se junto às duas senhoras e contemplou a escuridão, onde o único objeto visível era o brilho avermelhado do cachimbo do sr. D'Souza. - A menina está com sono! - comentou a ayah, com voz cantada, como se o ato de ninar fosse sua forma natural de comunicação, após ter passado a vida inteira cuidando das crianças até elas dormirem. - Não estou, não! - protestou Queenie, mas era verdade. Lutava para manter-se desperta, beliscando as coxas de vez em quando, pois assim a dor a manteria de olhos abertos, muito embora tivesse vontade de chorar. A avó vivia dizendo que a dor era algo que não existia, mas embora a menina quisesse acreditar nela, de vez em quando passava-lhe pela cabeça que a velha senhora talvez estivesse enganada. Esse pensamento a fazia sentir-se culpada e também um pouco assustada. Se a avó se enganava em relação à dor, poderia enganar-se a respeito de muitas outras coisas... - Por que o sr. D'Souza está zangado com Peggy? - per- guntou, mais para manter-se desperta e evitar ser mandada para a cama do que por curiosidade. - Peggy desobedeceu à mãe dela - informou a avó com ar vago. A resposta pareceu ter sentido para Queenie, por mais so- nolenta que estivesse. Imaginou qual seria a idade em que não haveria mais necessidade de se obedecer às mães. Peggy dava- lhe a impressão de ser uma criatura adulta, ou quase. Talvez tivessé de esperar muito tempo até se casar, mas então seria preciso obedecer ao marido. - Se Peggy se casar, o marido dela a levará para a Ingla- terra, nosso lar? A avó contemplou a escuridão da noite e suspirou. - Acho melhor você ir para a cama, antes que sua mãe venha buscá-la. Em seguida seus dedos escuros acariciaram com ternura o rosto alvo de Queenie e, com um tom de voz triste e suave, ela murmurou: "Este é o nosso lar, Queenie". 44 a 45 2 Após trabalhar naquele clube noturno durante dez anos, Morgan se indagava por que um lugar que deveria, em princí- pio, desviar a atenção de seus freqüentadores do fato de que eles se encontravam na Índia era decorado com falsas palmeiras e arcos orientais. Na realidade o proprietário, Gaetano Firpo, de início pre- tendera imitar a decoração do Café Paris, o refinado clube lon- drino, onde trabalhara como garçom antes da 1 Grande Guerra. Mas um incêndio ocorrido durante a construção e a ameaça de falência prematura obrigaram-no a comprar o que estivesse ao seu alcance. Candelabros espalhafatosos, que não combinavam entre si, estavam pendurados no teto listrado, semelhante ao de uma ten- da. Pequeninas mesas de cobre de Benares encontravam-se espa- lhadas pelo salão, de uma forma tal que alguém distraído, ao entrar lá pela primeira vez, acabava tropeçando nelas. Em todos os cantos havia peças orientais modernas, de um mau gosto gri- tante. A despeito dos ventiladores que giravam preguiçosamente entre os candelabros, o clube era tão quente e abafado que até mesmo os mais calejados habitantes de Calcutá algumas ve- zes desmaiavam, o que, do ponto de vista de Firpo, não era propriamente uma desvantagem. j - Quanto mais quente estiver, mais eles beberão - dizia com satisfação, toda vez que alguém tocava no assunto. Por volta da meia-noite, quando havia no ar verdadeiras nuvens de fumaça dos cigarros, o efeito era o de uma cena in- i fernal, enquanto os sahzhs, afogueados e cobertos de suor, em seus trajes de noite, atravancavam a pista de dança com suas esposas ou namoradas, cujos rostos avermelhados exibiam uma camada de maquilagem que se derretia. Os indianos não eram admitidos, nem mesmo um ocasio- nal marajá. Sua presença só seria tolerada se ele viesse integrado ao grupo de algum sahib, por mais bem-vindo que ele fosse aos clubes noturnos de Londres ou de Paris. Aquele não era o tipo de lugar onde um anglo-indiano seria bem recebido, mas é claro que esse tipo de problema raramente surgia. Era mais uma questão de raça do que de cor: poucos anglo-indianos ti- nham inclinação ou dinheiro para visitar clubes noturnos, e a maior parte deles eram rígidos calvinistas ou metodistas. O Ins- tituto Ferroviário representava o limite de suas ambições sociaïs, uma razão a mais para Morgan desprezar sua própria gente. Quanto às moças anglo-indianas, a história mudava de fi- gura. Sua presença era permitida no Firpo's, para grande horror de seus pais. Como regra implícita elas deveriam ter pele clara. A maior parte delas vinha acompanhada de jovens rapazes in- gleses. A velha geração jamais teria sonhado em fazer semelhan- te coisa. De vez em quando garotas anglo-indianas "aceitáveis", suficientemente ousadas, surgiam aos pares e sentavam-se no bar, tomavam um coquetel e tentavam ignorar os olhares dos jovens sahibs e a hostilidade mais do que evidente das mem-sahibs de todas as idades. Elas usavam invariavelmente vestidos cor-de- rosa e dançavam melhor do que as inglesas. - Está no sangue - constatou Morgan quando parou de tocar, enquanto observava uma jovem de rosa dançando um tan- go. O rosa era a cor preferida de Queeme. Talvez também isso estivesse em seu sangue... Ultimamente andava pensando de- mais ira menina. já tinha quase quatorze anos e logo estaria com idade suficiente para dançar lá. A idéia o deprimiu. Voltou a atenção para a garota de cor-de-rosa. Teve a impressão de que era Peggy D'Souza, mas era difícil afirmar, diante da ilumina- ção fraca. Morgan acenou para ela e foi correspondido. - Que gostosinha! - disse o violinista, um australiano cha- mado George Higgins. - Fiquei com um olho nela a noite inteira - acrescentou. O comentário tinha sua razão de ser, pois ele havia servido na campanha da Palestina sob as ordens do general Allenby. Nessa ocasião perdera um olho, bem como os dentes da frente, numa briga com dois lanceiros da Real Polí- cia Militar, em um bordel de Barsa. Os dentes tinham sido subs- tituídos por um dentista do exército e assemelhavam-se a ladri- lhos de banheiro em miniatura. Quanto ao olho de vidro, pos- suía uma certa qualidade atrevida e encantadora que fazia falta ao olho verdadeiro. Na realidade o olho de vidro parecia fixar-se maliciosamente em Peggy D'Souza, enquanto o verdadeiro, des- provido de vida, encarava Morgan. - Não é má - concordou Morgan. Sua admiração pelos ingleses não se estendia a Higgins. Morgan, cuja consciência de classe era intensa, jamais conseguira encaixar os habitantes das colônias do império em seu esquema de classificações. Sabia ser 4G a 47 superior a Higgins sob todos os pontos de vista, mas um ex- soldado australiano, mesmo com um olho só, ainda era levado em conta, na qualidade de rahïb. Higgins era, sem sombra de dúvida, cem por cento branco e podia muito bem vangloriar-se desse fato perante um anglo-indiano. Questionar esse dado era questionar a ordem estabelecida das coisas. Ainda assim desprezava Higgins, sentimento que con- seguira disfarçar até então, pois o sujeito era de uma brutalida- de por demais aparente. Morgan temia a violência física. Fora atormentado na escola pelos colegas e levara surras homéricas do pai. Não alimentava a menor disposição de brigar a socos e sabia disso muito bem. Desconfiava, para sua grande humi- lhação, que Higgins também não ignorava o fato. - Você a conhece? - perguntou o australiano. - Não - mentiu Morgan. Não se sentia nem um pouco disposto a apresentar Higgins a Peggy D'Souza, caso fosse mes- mo ela. - Pois aposto que conhece, sim - disse Higgins com rai- va. Mesmo estando sóbrio, o que não acontecia naquele mo- mento, seu temperamento era imprevisível e irritadiço. - Eu a vi piscar para você. Ela é gente sua? Morgan sorriu, pensativo. O comentário de Higgins não che- gava precisamente a ser um insulto. Não fazia o menor segredo quanto ao fato de ser anglo-indiano, o que, de qualquer forma, teria sido impossível esconder. Portanto, aquela gente era inega- velmente "sua", do mesmo modo que os australianos eram gen- te de Higgins, para grande azar deles... Acaso é um insulto chamar um homem daquilo que ele é?, indagou-se Morgan. Claro que, do modo como foi feita, a pergunta de Higgins era um insulto. O tom que ele empregara não deixava a menor dúvida. - Pode ser - ele respondeu, furioso consigo mesmo pelo fato de estar sorrindo. - É isso aí - disse Higgins. - Basta olhar para ela, meu chapa, e a gente logo nota. Não se vêem muitas franguinhas inglesas com uma bundinha como a dela, e a garota não se envergonha de balançá-la para que todo mundo veja. Aposto que ela sabe muito bem o que fazer com um homem, um ho- mem de verdade, e não aquele sujeito engomadinho com quem está dançando. Aqui as meninas aprendem cedo, não é mesmo? A tentativa de Morgan explicar que a maioria das jovens anglo-indianas eram incrivelmente virtuosas mal chegou a se es- boçar, ppis Higgins o interrompeu. - E o calor - ele observou, olhando para Morgan com malícia. - Chega a enlouquecer. Vocês, mestiços, têm instintos animais muito fortes, sabe? E o clima esquenta o sangue. Higgins inclinou-se para a frente, aproximando o rosto do de Morgan, como se fossem conspiradores. Morgan, que estava junto à parede, não conseguiu desvencilhar-se. Agora via bem de perto o bigode avermelhado de Higgins, o fino traçado das pequeninas vetas vermelhas no nariz e nas bochechas, além das gotas de suor que surgiam por entre os cabelos besuntados de brilhantina. A dentadura de Higgins era manchada de tabaco, e o olho de vidro desviara-se demais para o lado, fitando um ponto distante, exatamente como o de um peixe. - Bem, a gente nunca pode dizer com segurança... - ele prosseguia com sua voz anasalada. - Muitas dessas garotas con- seguem passar por brancas, não é mesmo? Um cara que eu co- nheço garante que a gente consegue perceber logo olhando suas cutículas, as gengivas e sacando o jeito como elas se comportam na cama... - Ele riu e alguns perdigotos aterrissavam no rosto de Morgan, que os limpou com uma das mãos. - Que calor faz aqui dentro - comentou Higgins, notan- do o gesto. Peggy D'Souza, que se aproximava nos braços de seu jovem inglês, gritou: - Olá, Morgan. - Olá, Peggy - respondeu ele, percebendo, enquanto fa- lava, que o olho verdadeiro de Higgins o fitava com animosida- de, sem o menor vestígio de camaradagem. - Pensei que você não a conhecesse. - Não tinha certeza de que fosse Peggy. - Não tinha certeza uma ova! Julguei que fôssemos ami- gos. Você deve imaginar que essas suas franguinhas mestiças não são para o bico de um australiano como Higgins, não é mesmo, meu chapa? Você me dá vontade de vomitar. Higgins deu dois passos para trás, possuído pelo instinto de um experiente arruaceiro de bar. Estava próximo demais de Morgan para usar os punhos com eficácia e precisava de algum recuo para desfechar o primeiro murro. Fez menção de atingir com um golpe violento o estômago de Morgan, mas foi inter- rompido, pois o velho Firpo o agarrou por trás. O dono do clube noturno surgia não se sabe de onde, ao menor indício de violência em seu estabelecimento. - Aqui, não! - ele disse. - Não admito briga, sobretu- do entre meus empregados! - Não foi minha culpa, sr. Firpo - declarou Morgan, de- primido ao perceber que sua voz havia se tornado um tanto aguda e adquirido aquele sotaque cantante anglo-indiano de que os ingleses tanto zombavam. Não podia de modo algum perder o emprego. Era a única coisa que o tornava diferente do resto de sua gente. 48 a 49 - Não foi minha culpa! - imitou-o Higgins com agressi- vidade. - Eu te pego, seu filho da mãe! - Ele se debateu, mas em vão. Higgins não era páreo para Firpo. Não passava de um valentão de bar que gostava de usar os punhos após beber demais e não ter nenhuma mulher a sua disposição. Fir- po, embora velho e monstruosamente gordo, de pés chatos e com o sorriso obsequioso de um garçom, era siciliano. A violên- cia não o chocava nem surpreendia. Quando, certa vez, um dos lavadores de pratos bengalenses perdeu a cabeça na cozinha, devido ao calor, brandindo um facão no ar e berrando pragas incompreensíveis, o velho Firpo caminhou calmamente até o ho- mem, com um sorriso, e subitamente deu-lhe uma pancada na cabeça com um porrete que levava escondido. O lavador de pra- tos caiu no chão, com o turbante empapado de sangue e os olhos vidrados, como se tivesse morrido sem sequer se dar conta do que havia acontecido. - Vamos todos trabalhar - ordenou Firpo com um sorri- so, como se tivesse acabado de dar um aumento ao lavador de pratos. - Temos de servir nossos fregueses. Alberto, sobrinho de Firpo, surgiu silenciosamente, como sempre fazia ao menor sinal de confusão. O rosto mostrava-se impassível, e a barba farta, levemente empoada de talco, dava- Ihe um ligeiro ar de palhaço, que não combinava com os olhos escuros e sem expressão. - Algum problema? - indagou. Firpo deu de ombros. Alberto pôs Morgan de lado, parou diante de Higgins, olhando para o outro lado do salão, como se nada o interessasse, e de repente deu uma violenta joelhada na virilha do sujeito. A expressão de Alberto não se alterou. Higgins soltou um gemido abafado, pois o velho agarrava sua garganta com tamanha força que ele não conseguiu gritar e dobrou-se de dor, enquanto o velho Firpo o obrigava a ficar de pé. - Volte para o trabalho - disse Alberto com toda a cal- ma. - Toque seu violino e não provoque mais confusão. Se provocar, eu te mato. Entendeu? Higgins fez que sim. Agora cambaleava ligeiramente e o olho de vidro tinha dado um giro completo, de tal forma que só se notava o branco da porcelana. - Muito bem - disse Alberto, dando uma palmada na bochecha de Higgins, conciliador. Sorriu e exibiu uma fileira de dentes obturados a ouro. - Morgan, esqueça o que aconte- ceu, está me entendendo? Se os clientes quiserem brigar, isso é com eles, contanto que paguem o prejuízo, mas os emprega- dos não podem. Morgan concordou, aliviado com o fato de que a culpa re- caíra sobre Higgins. - Não há dúvida, sr. Firpo. - Cuide-se. Morgan procurou sorrir, e o suor escorria-lhe pelo rosto. - Pode deixar comigo. - Quando eu digo para você se cuidar, estou me referindo a Higgins - disse Alberto com frieza. - Ele ainda não desistiu de acertar contas com você. Ainda estava escuro quando Morgan foi para casa. Ele saía do trabalho pouco antes de o sol nascer. Era o momento que ele mais apreciava, a não ser quando o velho Austin se recusava a dar a partida. Não se podia dizer que a temperatura estava agradável, mas era o máximo que se poderia esperar de Calcutá. Andar com a capota do carro arriada chegava a ser quase gostoso. Morgan desviou-o bruscamente, a fim de evitar uma vaca que dormia na rua, e foi parar no acostamento. Rezou para que não tivesse furado um pneu e amaldiçoou a Índia. Na In- glaterra não havia vacas dormindo nas ruas e muito menos men- digos. Motoristas desavisados muitas vezes acabavam passando por cima de mendigos, à noite. Se isso acontecesse, era desacon- selhável. parar. Dentro de alguns segundos o motorista via-se cercado por centenas de indianos, aos berros, e quando a polícia chegava a vítima invariavelmente se queixava de que suas per- nas, cortadas desde a infância, tinham sido decepadas pelo carro. Morgan suspirou. Transcorria o ano de 1931. Se os anúncios que tinha visto em velhos exemplares das revistas e dos jornais The Saturday Evening Port e Collier s merecessem crédito, os americanos possuíam máquinas de lavar roupa e torradeiras em seus lares, arranha-céus, um carro em cada garagem e, de vez em quando, até mesmo dois, ao passo que na India ainda ex- plodiam motins, nos quais morriam milhares de pessoas, sim- plesmente porque os malditos muçulmanos, conduzindo uma vaca ao matadouro, passavam por um templo hindu. Na Ingla- terra até mesmo os miseráveis tinham encanamentos em suas casas e o suficiente para comer, enquanto aqui existiam quatro- centos milhões de pessoas que ainda limpavam o rabo com os dedos e faziam suas necessidades no meio da rua, à vista de todo mundo. Morgan trabalhava no Firpo's há dez anos, e a Inglaterra lhe parecia mais distante do que nunca. As pessoas faziam co- 50 a 51 mentários amáveis sobre o modo como ele tocava. Seus solos eram muito admirados e aplaudidos, mas nenhum descobridor de talentos surgira para recomendá-lo a uma orquestra inglesa, e a essa altura dos acontecimentos ele desconfiava que isso ja- mais aconteceria. Era tão sem fundamento quanto a crença de Vicky no fato de que o pai de Queenie mandaria buscá-la um dia. Ele ficou sentado no carro, pensando em Queeme durante alguns momentos, antes de decidir-se a ir para a cama. Ela já começava a representar problemas para sua mãe, o que era de se prever, na opinião de Morgan. Afinal de contas, já não era mais uma criança. Naquele país, meninas de treze ou quatorze anos muitas vezes se casavam e tornavam-se mães. É bem verda- de que, naqueles dias, isso era impensável para os anglo-indianos, mas o desprezível Higgins tinha razão pelo menos em relação a uma observação: as garotas anglo-indianas amadureciam mais rapidamente do que as inglesas. A rígida moralidade e as anti- quadas convenções da comunidade anglo-indiana faziam parte de sua defesa contra esse fato inconveniente, ditado pela natureza. No caso específico de Queenie, o problema era agravado por sua beleza. Mesmo com o umforme escolar ela já demons- trava os primeiros sinais do corpo de uma mulher madura: per- nas longas e bem-feitas, cintura delgada, seios pequeninos e per- feitos. Outras garotas de quatorze anos tinham corpos bonitos, mas era o rosto de Queeme que a tornava tão especial. Tinha olhos enormes e negros, com pestanas compridas e recurvadas, maçãs do rosto salientes, lábios cheios e tão bem delineados que pareciam quase provocantes, em uma garota tão jovem. Até mesmo os movimentos de Queeme eram sensuais, e ela não tinha os gestos desajeitados de uma adolescente. Desempenhava as tarefas mais corriqueiras com uma espécie de graça natural, como uma gata que se espreguiça. Havia desenvolvido uma ex- traordinária capacidade de observar e imitar adultos, como se desejasse crescer da noite para o dia, mas, em muitas ocasiões, comportava-se como a criança que ainda era. Morgan sentia os nervos abalados pelo fato de viver tão próximo de uma beleza que desabrochava. Era difícil contem- plar Queenie sem pensar em sexo e, algumas vezes, chegava a ser impossível. Isso lhe provocava muita vergonha. Ele ligou o motor, estacionou o carro na entrada e pôs a chave no bolso, espreguiçando-se, parado diante da porta da casa. Começou a subir os degraus e parou, ao perceber que ha- via algo errado. Com o canto dos olhos notou uma mancha branca nos arbustos, à esquerda. Tratava-se de um objeto pouco familiar, numa paisagem que ele conhecia de cor, até mesmo na escuridão. Talvez Vicky tivesse esquecido uma toalha ou um guardanapo, posto para secar, mas Morgan sabia perfeitamente que não era o caso. O varal ficava nos fundos da casa e não no jardinzinho da frente, onde todos os vizinhos o veriam. Per- cebeu então que o que tinha diante de si era uma camisa, e ouviu aquela voz carregada de vulgaridade e ameaça. - Agora você vai aprender uma lição, seu negro insolente, filho da puta! Morgan ficou paralisado durante alguns instantes, não tan- to devido ao medo, embora estivesse assustado e sentisse um nó no estômago, mas por enfurecer-se com a própria estupidez. Deveria ter imaginado que Higgins o surpreenderia numa to- caia. No fundo, adivinhara tal fato e conseguira deixar o clube noturno na companhia de outras pessoas, prevendo o ataque. Higgins fora muito esperto e o seguira, até ele chegar em casa, sentindo-se seguro. Agora ele surgia por entre os arbustos, com o ímpeto de um urso selvagem. Com uma espécie de grunhido, desfechou um soco brutal no rosto de Morgan. O choque e a dor o trouxeram à razão. Era tarde demais para pedir desculpas e a fuga tornara-se impossível, pois Higgins já o agarrara com o braço esquerdo, imobilizando-o com tamanha força que pode- ria usar os punhos para golpeá-lo nos rins. Morgan sabia que, a qualquer momento, Higgins o atingiria na virilha e, uma vez que caísse po chão, o brutamontes o cobriria de pontapés. - Socorro! - gritou Morgan na noite silenciosa, e logo perdeu a respiração, quando Higgins o atingiu em cheio nos testículos. Morgan sabia que a dor era apenas o prelúdio do que se seguiria quando estivesse no chão. Reagiu subitamente, com a fúria impensada de um covarde que entra em pânico. Respirou fundo e arremeteu a cabeça contra o rosto de Hig- gins. Este deu um grito selvagem de surpresa e dor, voltando a investir, enquanto Morgan o esmurrava debilmente, tentando proteger-se com uma das mãos, dando socos com a outra. Pela primeira vez se arrependeu por não ter aprendido boxe na esco- la, em vez de fugir das aulas, com uma desculpa após outra. Sentiu uma dor terrível no momento em que as juntas de seus dedos atingiram a dentadura de Higgins, imaginando por alguns instantes se não teria sido mais prudente não resistir ao australiano. Higgins desfechou um murro formidável no nariz de Mor- gan e forçou a situação, apertando com mais força o corpo de seu adversário, a fim de forçá-lo a dobrar-se. Nesse exato mo- mento Morgan notou algo se movendo por detrás deles. Era algo branco e fugaz, que surgiu por entre os arbustos. Higgins talvez tivesse notado também, pois desviou o rosto, oferecendo 52 a 53 a Morgan, que estava de joelhos, a oportunidade de agarrar o nariz e a orelha do homenzarrão. Ouviu-se então um estranho ruído, e Higgins caiu no chão. Seu olho de vidro havia saltado longe e fitava lugubremente o céu noturno. - Oh, meu Deus! - exclamou Queenie. - Arranquei o olho dele! Estou me sentindo mal! Acho que vou vomitar. Morgan procurou normalizar a respiração. Agora conseguia distingui-la com clareza, de pé junto a Higgins, vestida de ca- misola e com um tijolo na mão. - Não se preocupe. Você não o cegou. Foi o olho de vidro dele que caiu. Ajude-me a levantar, sim? Queenie largou o tijolo, inclinou-se e ajudou Morgan a se levantar. Para uma garota que detestava ginástica e esportes, ela era dona de um vigor considerável, além de presença de espírito. A despeito da dor que sentia, Morgan surpreendeu-se ao notar que uma das alças de sua cami- sola se havia rompido, deixando de fora um seio pequeno e firme, que luzia ao luar, no momento em que ela se inclinou. O bico era delicado e pontudo e ficou tão pró- ximo do rosto de Morgan que ele se sentiu tentado a beijá-lo. - Você está com uma aparência medonha - observou Queenie. - Será que seu nariz está quebrado? Morgan levou a mão ao nariz, franziu o cenho, tamanha era a dor que sentia, mas não conseguiu verificar nenhum movi- mento da cartilagem. - Acho que não aconteceu nada - anunciou. - Quem é ele? - Um colega do clube, Higgins. É um australiano, mais teimoso do que uma mula. - Levantou-se com dificuldade. - Meu Deus, o que vamos fazer com este sujeito? Não podemos deixá-lo largado aí no gramado. - Por que não o pomos no carro e o deixamos no ponto de ônibus, na Rua Brahmapore? Alguém o encontrará lá quan- do clarear o dia. Só que acho melhor nos apressarmos. - Como assim? - Bem, você não pode ter a pretensão de carregá-lo sozi- nho. Eu o pego por um braço e você, pelo outro. Morgan sacudiu a cabeça negativamente, o que aumentou seus padecimentos, mas resolveu desistir. Queenie tinha a mes- ma determinação de sua mãe, sem sombra de dúvida. Os dois arrastaram Higgins até o carro e o acomodaram no banco da frente. Em seguida ela deu um nó na alça da camisola, para grande alívio de Morgan. - Acho melhor pegar o olho de vidro - disse. Morgan encontrou-o na calçada e enfiou-o no bolso do smo- king de Higgins. Em seguida afrouxou o laço de sua gravata- borboleta, bem como o colarinho, e tirou-lhe a dentadura. - Assim ele não corre o perigo de se sufocar - explicou. Queenie sentou-se no banco de trás e permaneceu de bra- ços cruzados em torno do joelho, até Morgan chegar à Rua Brah- mapore. Tiraram Higgins do carro com todo o cuidado e o colo- caram sentado no banco da parada de ônibus. O queixo dele encostou no peito, dando a impressão de um homem que tives- se caído no sono, após uma noite de bebedeira. - Aqui ele está em segurança - disse Morgan. - Ne- nhum "encardido" terá a audácia de roubar um homem branco de smoking. A caminho de casa Queenie sentou-se na frente, ao lado de Morgan, sem se dar conta do fato de que usava nada mais do que uma camisola. Pelo menos era o que demonstrava. A brisa desmanchou seus cabelos e ela suspirou de prazer. - O que você estava fazendo acordada? - indagou Morgan. - Não conseguia dormir. - É o calor. - Bem... não era só o calor. Não conseguia deixar de pen- sar certas coisas... - Que coisas? - Sei lá... Senti-me só, entediada... Quando eu era pequena, conseguia dormir, por mais calor que fizesse. Agora sinto-me agitada à noite, como se meu corpo inteiro estivesse formigando. - Ela se estirou com languidez e sacudiu a cami- sola, a fim de deixar a brisa entrar. - Como gostaria de já ser adulta! - Logo você chega lá, Queenie. De qualquer modo, não vale tanto a pena. Ela o encarou com impaciência, enquanto ele parava o car- ro diante do portão. Os adultos nunca entendem, pensou. Nem mesmo Morgan, que, além de Magda, era a única pessoa com- preensiva que conhecia. Há pouco menos de um ano seu corpo vinha apresentando reações próprias, como se já não lhe perten- cesse mais. Os rapazes e os homens, e entre eles o próprio Mor- gan, a encaravam com indisfarçada admiração. Morgan inclinou-se e deu-lhe um beijo rápido, de tio, o que a fez sentir-se pior, embora não soubesse explicar a razão. Ele também parecia tenso, o que não deixava de ser um proble- ma. Quando Queeme era criança, Morgan acariciava-a, brincava com ela, punha-a no colo; agora que estavam tão próximos, pro- cedia como se estivesse pisando em ovos, como se temesse as conseqüências do ato de tocá-la. 54 ¡a 55 - Acho melhor você voltar para a cama - disse. - Creio que não há a menor necessidade de sua mãe saber o que aconteceu. - E seu rosto? - Vou lava-lo. - Mas você não pode fazer isso sozinho. Era verdade. Morgan nem sequer tinha certeza de que sen- tia coragem de contemplar-se no espelho e muito menos de lavar-se. Entraram juntos em casa e subiram a escada. Assim que entraram no quarto dele, Queenie derramou um jarro de água na bacia esmaltada e toda florida, levando-a até a cama onde Morgan se sentara, subitamente exausto. Na excita- ção em que se encontrava antes, tinha conseguido ignorar a dor e as demais conseqüências da briga; agora todos os seus múscu- los doíam, ele constatava o estado lastimável em que se encon- trava seu smoking e tinha vontade de chorar. - Vai dar tudo certo - murmurou Queenie, adivinhando o que ele estava sentindo. - A ayah escovará o smoking, costu- rará o que for preciso e amanhã mesmo o passará com o ferro. Há de ficar novo em folha. - Talvez. A camisa está que é um trapo só. - Bem, você tem outras camisas - disse Queenie em tom de zombaria. - Pelo menos não perdeu nenhum dente! - Eu sei, Queenie, mas não vejo qual é a graça. - Higgins ficou sem os dele! Esquecemos de coloca-los em seu bolso. - Ela pegou o paletó de Morgan e tirou dele a dentadura de Higgins, colocando-a ao lado da bacia. - É um verdadeiro troféu. - Ele ficará furioso. Talvez eu deva devolvê-la... - De modo algum, Morgan. Deixe-o ficar comendo min- gau, até mandar fazer dentes novos. É o mínimo que ele merece por insultar e agredir você. Morgan riu, a despeito da dor que sentia nos lábios, e co- meçou a tirar o colarinho falso. Colocou-o junto à dentadura, que parecia sorrir alegremente, como nunca o tinha feito na boca de Higgins. Contemplou Queenie torcendo a toalha e inclinando-se a fim de limpar seu rosto. Percebeu, à luz do abajur, o quanto a menina estava corada e excitada por tudo o que havia aconte- cido. Percebeu também, com um leve sentimento de culpa e prazer, que conseguia ver os bicos de seus seios e um pequeno triângulo escuro entre suas pernas, através da leve camisola de algodão. Cerrou os olhos com firmeza e tentou pensar em outra coisa, mas sentia que estava ficando excitado e rezou para que Queenie não olhasse para baixo e notasse aquele volume que aumentava em sua calça. Felizmente a atenção dela se voltava para seu rosto. - Acho que o que aconteceu hoje à noite deve se tornar um segredo para nós, Queenie - ele disse, assim que a toalha encostou em seu rosto. - Sim, para sempre. Subitamente, no momento em que a água fria tocou os ferimentos, Morgan desmaiou. Quando despertou, todo dolorido e tremendo da cabeça aos pés, era quase meio-dia, e ele percebeu, horrorizado, que seu smoking havia sido tirado, bem como a camisa rasgada e ensangüentada. Estava deitado na cama apenas de cueca e, ao abrir um olho todo inchado, gemeu de dor. A dentadura de Higgins sorria para ele, ao lado da bacia. Queenie o despira! Ficou humilhado e logo em seguida excitado, mas uma irreprimível sensação de culpa apoderou-se dele. De agora ern diante precisaria tomar muito cuidado. Quee- nie já não era mais uma criança. Os ferimentos de Morgan granjearam-lhe grande respeito em casa. A violência física não chegava a espantar Vicky. Seu pai havia imposto disciplina às verdadeiras gangues que infesta- vam as estradas de ferro por meio dos punhos. - É a única linguagem que essa gentalha entende - cos- tumava dizer. - Não se deve perder tempo, nem palavras, com a negrada. Surpreendia-a o fato de Morgan seguir os passos do pai, embora tardiamente, mas o olho arroxeado, mais o nariz arra- nhado e os lábios inchados eram ferimentos honrosos. Pela pri- meira vez ele se viu tratado com a deferência devida ao único homem da casa. Era uma nova experiência e, de modo algum, desagradável. Até mesmo os homens com quem Morgan estivera na escola, sujeitos que o desprezavam por tocar em um conjunto de jázz, em vez de guiar uma locomotiva, e que o invejavam por misturar- se com os ingleses, deram-lhe tapinhas nas costas e o convida- ram para tomar cerveja. Magda, que com freqüência zombava de Morgan, agora o tratava com um respeito levemente irônico, pois o general acre- ditava firmemente no valor de uns bons sopapos, a fim de man- ter os soldados, os criados, os judeus e os camponeses insolentes em seus lugares. No entanto, para um herói, ele se mostrava inesperadamente melancólico, como se o incidente lhe pesasse. Para Magda era 56 a 57 bem claro que algo o atormentava. Era uma verdadeira perita no que dizia respeito aos estados de espírito de um homem. - Anime-se, homem, vamos! - disse. Morgan sorriu tanto quanto seus lábios inchados permi- tiam. Estavam sentados na varanda, de onde se avistava o lugar do famoso encontro com Higgins, e procuravam obter al- gum alívio do calor escaldante. Queeme e sua mãe estavam sen- tadas em um sofá de vime. Vicky costurava, com os óculos na ponta do nariz, e Queeme, amuada, estudava. Morgan tomou um gole de cerveja, o que era uma concessão de Vicky a seu novo status. - Já estou suficientemente animado - declarou Morgan. - E tem razões de sobra para isso - disse Magda. - Os Firpo irão recebê-lo de volta assim que seus lábios sararem. Além do mais, Higgins foi embora. - Eu sei. Ele fez as malas e fugiu, sem reclamar a dentadura. - Falar desse sujeito é gastar boa vela com mau defunto - observou Vicky. - Queenie, pare de mexer nos dedos dos pés e calce os sapatos. Não é apropriado andar descalça como uma indiana. - Ah, mamãe, está tão quente! Além do mais, este livro é muito chato. Odeio aritmética. Para que serve? - Você não conseguirá um bom emprego se não souber somar, menina. Além disso, tem que passar nos exames. Queeme suspirou e chegou para perto da mãe. - Mamãe - disse com voz insinuante -, foi organizado um gruo de teatro na escola... - E mesmo, meu bem? - Eles apresentam peças. - Queenie fez o possível para aparentar infelicidade e chamar a atenção sobre si, mas Vicky prosseguiu costurando. - Posso participar? - Claro que não. - Mas por quê? - Para início de conversa, você pode ir bem melhor nos estudos. Além do mais, o teatro não é apropriado para uma menina. Fico surpreendida em saber que a escola permite seme- lhante coisa. - Pois permite, sim. Beryl O'Brien faz parte do grupo e o pai dela é superintendente do tráfego e tem um escritório só dele. - Pode ser. Os O'Brien são uma família muito considera- da, não nego, mas o fato de permitirem a Beryl fazer algo tão insensato não é razão para que eu também permita. - Mas, mamãe! Eles encenam peças lindas, como, por exem- plo, as operetas de Gilbert e Sullivan. A mãe de Beryl fez para ela um lindo quimono para O Mzkado. Embora tenha aquele rosto redondo como uma lua, ficará engraçada no papel de ja- ponesa. O quimono disfarçará aquele enorme traseiro. - Não se deve falar mal dos outros, Queeme, sobretudo de coisas que não têm remédio. Beryl é uma menina muito boazinha e ficará bem bonita, assim que perder aquela gordura infantil. - Não tenho tanta certeza assim - declarou Morgan. - A mãe dela tem um corpanzil de fêmea de búfalo. Queeme olhou para Morgan, morta de vontade de rir. Ele notou pela primeira vez que a sobrinha já não tinha mais as mãos de uma escolar. Os dedos haviam se tornado longos e afilados; as unhas não estavam roídas ou sujas, como as de ou- tras meninas. Eram tão perfeitas que ele desconfiava que Magda estivesse dando aulas de manicure a ela. Tinham sido aqueles mesmos dedos que o haviam despido quando desmaiara. Ten- tou imaginar o que Queeme vira e tocara, quando lhe tirou as roupas. Sabia que ela era inocente, mas isso não queria dizer que não fosse normalmente curiosa. Sentiu que ficou vermelho quando ela o encarou. Seus olhos fixavam as coxas de Queeme, que usava umforme de saia bem curta e continuava descalça, apesar da advertência de sua mãe. Morgan se deu conta de que também a encarava e olhou rapidamente para Vicky, a fim de certificar-se de que ela não havia notado. Ela ainda estava com a atenção concentrada na costura. Voltou a encarar Queeme e pigarreou. - Não vejo nada de mau com o fato de Queeme tentar o teatro - declarou. Esperava que suas palavras fossem reconhe- cidas como uma demonstração de bom senso masculino, mas percebia, enquanto falava, que sua voz não tinha o peso da autoridade. Não estava acostumado a opor-se a sua irmã, sobre- tudo em assuntos que afetavam Queenie. Fez-se um momento de silêncio e então, para sua grande surpresa, Vicky ergueu a cabeça, suspirou e concordou. - Creio que você tem razão - disse com relutância, como se o novo papel de Morgan lhe conferisse sabedoria ou conheci- mento especiais. Vicky talvez fosse tirana, não por sentimento, mas por formação. Obedecera ao pai severo e ao marido irres- ponsável. Agora que Morgan assumira seu papel de homem da casa, estava preparada para aceitar sua liderança. - Acho que o fato de ela fazer teatro em nada a prejudi- cará - opinou Morgan com mais firmeza. - Se garotas como 58 ja 59 Beryl O'Brien estão participando, não há razão alguma para vo- cê ficar preocupada. Morgan olhou para Queenie, que o encarava com uma gra- tidão tão passional que ele começou a suar. Obrigou-se a des- viar os olhos para a xícara de chá, mas ainda assim conseguia imaginar as curvas suaves de seus lábios. - Eu só espero que isso não ponha caraminholas na cabe- ça da menina - disse Vicky em tom sombrio. Não havia a menor necessidade de preocupar-se em re- lação a isso, pensou Queenie. Sua cabeça estava povoada de idéias, e poucas agradariam à sua mãe. Não tinha o menor desejo de trabalhar como datilógrafa ou secretária em algum escritório abafado de Calcutá, embora fosse um futuro mais animador do que crescer e casar-se com alguém como Paddy O'Brien, o desengonçado irmão mais velho de Beryl, e passar o resto da vida cuidando das crianças, enquanto ele tomava cer- veja com os amigos e se preocupava com o que aconteceria ao país quando os indianos assumissem o controle das estradas de ferro. Queeme não tinha maiores interesses pelo teatro enquanto tal e não alimentava fantasias sobre seu talento de atriz, mas o grupo de teatro era um passo dado na direção correta, a fim de ocupar uma posição social. Sua mãe certamente entenderia esse fato, assim que superasse sua tendência a dizer não a tudo que fosse novo. O que a surpreendeu foi o fato de Morgan tomar seu parti- do contra Vicky. Ela o encarou fixamente, esperando que a apoias- se, embora, no fundo, não esperasse consegui-lo. Na superfície, o relacionamento entre ambos era o mesmo, mas Queeme per- cebia que começava a alcançar níveis mais profundos. Quando olhava para Morgan, ele tinha tendência a enrubescer. A mesma coisa também acontecia na escola. A idéia de participar do gru- po de teatro não lhe tinha ocorrido espontaneamente. O sr. Pugh, que lhe dava a impressão de encará-la tanto quanto Morgan, é que havia feito a sugestão. A maior parte dos professores a ignorava. Não era boa nos esportes, nem uma aluna que se destacasse nos estudos. O sr. Pugh, que ensinava música e literatura inglesa, era uma exceção. De vez em quando seus olhos, que eram protuberantes e de um esmaecido tom de azul, pareciam fixá-la com perturbadora intensidade. Quando outros professores agiam assim, sua atitu- de era seguida, em geral, por uma pergunta ríspida ou até mes- mo um golpe nas juntas dos dedos com a régua, mas o sr. Pugh limitava-se a piscar os olhos, engolia em seco e pro6segula com a lição. Tinha o hábito de fitá-la enquanto recitava poemas- Ele o fazia com certa inocência, e sua atitude até que chegava a ser agradável, quando fixava nela seus olhos desbotado,s e lia mansamente: `A Ilha-vale de Avalon Onde não cai o granizo, a chuva ou a neve E onde os ventos não sopram com violência; ela, Porém, Exibe sua relva aveludada, seus prados, pomares, Suas árvores frondosas e suas praias beijadas Pelo mar de verão..." Ao lado da sala de aula uma vaca muito magra pastava um capim seco e ralo, mas os versos do poeta Tennyson fsllavam a Queenie da Inglaterra de seus sonhos. Em outros momentos, devido talvez a seu estado de ânimo ou ao calor, a atenção do sr. Pugh se dirigia toda para determi- nado verso, e sua voz mudava de tom, tornando-se aguda para grande alarme de seus alunos. Tais versos, na maior pafte das vezes, tinham a ver com as mulheres, e quando o sr. Pugh reci- tava Shakespeare Queenie tremia, pois esse autor tinha o poder de desequilibrar o professor. Certa vez, para seu horror o sr. Pugh levantou-se nas pontas dos pés, como se estivesse com dor, enquanto declamava uma passagem do Rei Lear, e dirigiu-se di- retamente a Queenie, muito empolgado: "Os deuses herdam o que está na cintura, e abaixo dela encontra-se todo o mal!" Felizmente essa alusão anatômica passou despercebida, muito embora algumas das meninas rissem disfarçadamente, ao ser men- cionada a palavra "cintura". Queenie deu-se ao trabalho de en- contrar aquela passagem e lê-la, mas o que estava impresso não tinha mais sentido do que quando o sr. Pugh declamou Mag- da, cujo conhecimento de teatro era superior ao de qualquer pessoa que Queenie conhecia, não foi de grande ajude - Todos os ingleses detestam as mulheres - declarou. Queeme sentou-se na cama de Magda, apoiando o queixo nos joelhos, e olhou-a, enquanto ela acabava de se pintar. Igno- rou o comentário, pois não valia a pena discutir com ela. Magda tinha um jeito todo seu de deixar bem claro que suas opiniões em relação a determinado assunto eram definitivas. - Posso passar um pouco de sombra nos olhos? - pediu a garota. - Não, está acabando. Além do mais, sua mãe iria perceber. - Mas eu limpo. 60 a 61 - Da última vez você se esqueceu e ela viu as manchas no travesseiro. Cheguei a achar que ela nunca mais iria parar de falar do assunto. "Da próxima vez Queenie vai começar a usar batom!", ela reclamou. - Como gostaria de ser mais velha para usar maquilagem! Heather Gomes usa. - Aquela menininha de cabelo horrendo? Mas cla bem que precisa, coitadinha! Ela usa maquilagem clara por ter a pele escura demais. Vejo um bocado de garotas anglo-indianas usan- do maquilagem clara à noite. Dependendo da iluminação, até que ficam bem, mas, depois que dançam um pouco, a maquila- gem começa a escorrer. Elas ficam parecendo leprosas. Agradeça aos céus por não precisar disso, Queenie. Você tem uma pele linda, suficientemente alva. Se você cuidar dela, ela cuidará de você. - Os homens gostam das peles bonitas? - Sim, é claro. Até mesmo o homem mais feio acha que merece uma mulher bonita. É bem verdade que os homens não passam de uns tolos. Basta um pouco de maquilagem, o vestido apropriado, um certo jeito de andar e eles correm atrás de gente como uns tontos. Você acabará aprendendo, Queenie. Todas nós aprendemos... - E é bom estar com um homem? - Pode ser bom, sim. Meu Deus, quantas perguntas você faz! Depende do homem e das circunstâncias. Quando a gente está apaixonada, é maravilhoso. Quando não está... bem, você descobrirá. - Você amava o general? - Mas é claro, só que um amor como esse não surge todos os dias, Queeme. Quando acontece, é preciso agarrar-se a ele, pois nem sempre dura muito tempo. Surgem muitas coisas para atrapalhar. - Que coisas, por exemplo? - A guerra, a revolução, a pobreza, a idade, a morte e até mesmo o tédio e a infidelidade. - Que tristeza! - Pois é, mas a vida é triste, como você verá. É claro que não é assim o tempo todo. Uma garota linda como você deverá ser feliz. - Acho que você não tem razão, em relação ao sr. Pugh. - Pugh? O que tem ele? - Não me parece que ele odeie as mulheres. - Mas os ingleses nos odeiam, eu já disse. Não conseguem evitar. - Ele está sempre me vigiando com o rabo do olho. Sabe o que eu o ouvi dizer de mim a um dos professores? - Como posso saber, meu bem? - perguntou Magda, contemplando-se no espelho. Suspirou, passou um pouco mais de sombra nos olhos e satisfez-se com o resultado. - Pois bem. Ele disse: "Aquela garota, Queeme Kelley, tem um olhar de quem é boa de cama..:' Magda voltou-se e deu uma risada gutural e profunda, quase igual à de um homem. Tomou um gole de gim e acendeu outro cigarro, voltando a olhar-se no espelho. - Minha querida, você acaba de receber o primeiro elogio de um adulto... - observou. 63 62 3 "Em torno de mim só vejo alteração e declínio... " Cyril Frederick john Fitzroy-Pugh, bacharel pela Universidade de Ox- ford, contemplou da janela de seu bangalô a fileira empoeirada de casas semelhantes, luzindo ao calor da manhã. Acendeu o primeiro cigarro do dia e tossiu. O colarinho o incomodava, a camisa estava empapada de suor e o cheiro do bacon fritando na cozinha provocou-lhe um enjôo súbito. Essa não era de modo algum a Índia com que sonhara, um mundo de esplendor oriental e louca sensualidade. Ao con- trário: assemelhava-se em tudo à vida que levava na Inglaterra, a não ser pelo clima. Suspirou, deu uma tragada e esperou que sua mulher o chamasse para tomar o café da manhã. Pugh evocou em sua imaginação tendas de seda, o murmú- rio de um regato que deslizava por entre o arvoredo, jóias pre- ciosas brilhando à luz de uma fogueira, uma garota trigueira e devassa, cujos seios nus brilhavam como pérolas. Seu rosto era ao mesmo tempo experiente e infantil. Sua saia diáfana abria- se lascivamente, enquanto ela se inclinava sobre ele, rindo, e seus dedos compridos e afilados o agarravam... De repente, a música parou. Agora só se ouvia o barulho da respiração dela. Conseguia sentir o odor de seu corpo limpo e fresco, triunfal- mente desnudo, sua pele de encontro à dele... - Cyril! O café está servido, meu bem. As meninas já es- tão sentando-se à mesa. A voz da sia. Pugh atravessou o ar pesado como uma bala sibilante, mas conseguiu ao mesmo tempo transmitir, naquelas poucas palavras, um mundo de sofrimento, sacrifício de sua pró- pria pessoa e muito ressentimento. Pugh, a muito custo, regressou ao mundo real, percebendo que estava molhado de um jeito que nada tinha a ver com o calor, e entregou-se à tarefa urgente de lavar-se e recompor-se. Não se sentia culpado. Acreditava que os homens têm de- sejos que precisam ser satisfeitos. Por outro lado, não experi- mentou o menor alívio. A visão da sia. Pugh, com seu corpo esquálido e infelizmente visível através do leve penhoar de ve- rão, oprimiu-o tanto quanto a perspectiva de sentar-se para to- mar café com suas três filhas tão lerdas. Pugh mergulhou a toalha de rosto na água morna e de repente se deu conta de que a garota de suas fantasias assemelhava-se demais a Queenie Kelley. Lembrou-se, então, de que havia esquecido o cigarro aceso no parapeito da janela. Voltou-se e notou que ele lá havia queimado o verniz, deixando um traço comprido e descolorido, como o rastro de uma lesma. Pegou o toco ardente e queimou o dedo. Tentou reparar o dano feito no verniz com as unhas, o que só serviu para piorar a situação, e desistiu. Assim que a sia. Pugh notasse o pequeno desastre, teria assunto de conversa para vários dias. Aquelas pequenas falhas por parte do marido eram sua única fonte de prazer. Não se queixava, nem acusava; sim- plesmente tocava no assunto sem cessar, até que a simples men- ção do fato tornava-se uma espécie de punição, uma tortura monótona para a qual não havia escapatória. Pugh abotoou-se, ajeitou a gravata, assumiu a expressão apro- priada a um pai de família e professor, descendo em seguida para tomar o café da manhã. Ao contrário da maior parte dos professores, John Pugh gos- tava" muito dos jovens. Na realidade, apreciava-os um pouco mais do que era con- veniente, o que explicava o fato de ele estar ensinando literatura inglesa e música na Índia e não na Inglaterra, onde seu "rela- cionamento" com os jovens, como ele fazia questão de dizer, o havia levado a participar de certos episódios constrangedores. Tais "mal-entendidos", para usar as palavras de Pugh, mas que para outras pessoas pareciam sérios desvios de conduta, tor- naram cada vez mais difícil para ele trabalhar na Inglaterra. As autoridades escolares não viam com bons olhos o "relaciona- mentó' de Pugh com suas alunas, e foi-lhe sugerido que, para seu próprio bem, seria melhor ele deixar o país, caso desejasse prosseguir sua carreira. Claro que aquilo não tinha o menor sentido, conforme Pugh explicou a sua esposa e às autoridades. Não era verdade que alguém fosse profeta em sua própria terra, afirmou enfaticamen- te, enquanto a sia. Pugh enxugava as lágrimas com o lencinho rendado, ao pensar na desgraça e no exílio. Os métodos de Pugh ofenderam seus colegas e chocaram seus superiores. Não se im- portava, porém. Ele seria bem sucedido naquilo em que os de- mais haviam falhado. Tratava-se de puro ciúme. A acusação de que ele havia "interferido" na vida de uma estudante de treze 64 e G5 dela, mas havia mais do que isso. De certa forma parecia possuir o senso natural de como atrair a atenção sobre sua pessoa. O efeito era reforçado por uma certa modéstia. Queenie parecia sinceramente inconsciente da própria beleza ou talvez se mos- trasse simplesmente confusa e constrangida por ser bela. Isso não impedia que as outras meninas manifestassem ani- mosidade contra ela. Com toda a certeza elas pareciam pouco atraentes e desajeitadas, quando comparadas a Queenie. A maior parte das garotas aproximavam-se do teatro amador com o mes- mo espírito com que praticavam algum esporte. Queeme pare- cia tão deslocada entre elas quanto em uma quadra de voleibol, pois sua falta de entusiasmo por esportes que envolvessem com- petição era conhecida. Pugh concluiu que esse ressentimento das meninas devia-se ao fato de Queenie aparentar mais idade do que tinha. já era dona de uma beleza adulta e possuía os movi- mentos graciosos de uma mulher jovem. Ainda era uma criança, mas estava decidida a não se comportar como tal, o que lhe dava, sobretudo no palco, uma gravidade inteiramente inapro- priada. Por mais que Pugh procurasse dirigi-la, ela não conse- guia captar o espírito da encenação, e ele conseguiu entender por que as outras meninas a consideravam "afetada". A tarefa de dirigi-la era dificultada pelo fato de que ele começava a transpirar abundantemente toda vez que tocava ne- la. No Colégio Feminino Santo Antônio sabia-se, entre as estu- dantes mais velhas, que os métodos do sr. Pugh eram pouco ortodoxos. Ele ficava bem junto às atrizes do grupo de teatro amador, tão junto que chegava a encostar nelas, além de usar as mãos para ensina-las como se movimentar e gesticular. As meninas não faziam objeções, nem se queixavam. O sr. Pugh era um .rahib, e, portanto, não podia fazer nada de errado aos olhos delas ou de seus pais; além do mais, mostrava mais interesse nelas do que qualquer outro professor, mesmo que tal interesse se expressasse através de formas pouco conven- cionais. Em vez de se ofenderem com as atenções dele, as meni- nas sentiam-se lisonjeadas. Participar da Sociedade Dramática era algo que empolgava muito, ainda que fosse pelo simples fato de torna-las mais desembaraçadas, e em geral só eram acei- tas as meninas anglo-indianas de famílias com melhor situação financeira. Queenie não se encaixava naquele grupo. Vicky levava uma vida de muito conforto, pelos padrões da "comunidade", mas não chegava a ser uma pessoa que merecesse consideração, pois recebia pensionistas. Foi umcamente devido à insistência do sr. Pugh que Queenie conseguiu ser aceita, o que, naturalmente, só serviu para torna-la ainda mais antipatizada. - Mestiça pedante e galinha - murmurou Heather Go- mes entre dentes, ao ver Queeme tentando interpretar uma criada japonesa, vestida com um quimono que lhe assentava muito mal, costurado pela sia. O'Brren. Seu senso de cor e suas habili- dades com a agulha deixavam muitíssimo a desejar. Sua filha Beryl soltou uma risadinha irônica quando Heather Gomes, dis- farçando, lhe deu uma rápida cotovelada. Para ela era motivo de grande contentamento perceber que Queenie, cuja pele era muito mais alva do que a delas, não conseguia entender sequer os princípios fundamentais da interpretação. Não escapava às duas seu sotaque, o característico padrão anglo-indiano, com suas inflexões cantadas, estranha combinação de inglês popular e hindi, bem mais pronunciado do que o delas. - Ela também fala como uma verdadeira mestiça - ob- servou Beryl, em voz suficientemente alta para que Queenie a ouvisse. Pugh também percebeu. Queenie controlava as lágrimas ou então fazia o possível para não agredir as duas garotas, pois cerrou os punhos. O professor atravessou o palco improvisado e pôs a mão em seu ombro. Ela o encarou, e Pugh sentiu os joelhos bambearem, como se estivesse exausto de tanto correr. O rosto dela era tão perfeito que se tornava impossível pensar naquela criatura como uma simples colegial. = Não dê importância a esses comentários, srta. Kelley - disse baixinho. - Não posso evitar, professor. Elas me detestam. Pugh ia dizer que a coisa não era bem assim, mas, refletin- do melhor, achou que havia provavelmente um pouco de verda- de no que Queenie dizia. Se as outras garotas não a odiavam, certamente não gostavam dela. - Em sua opinião, por que elas agem assim? - indagou. - Não sei. Elas sempre foram desse jeito. Talvez seja pelo fato de tio Morgan ser músico e não trabalhar na estrada de ferro, como todo mundo. Ou talvez pelo fato de meu pai ser jóquei. Ele também não trabalhava na estrada de ferro. Além do mais, elas caçoam do .modo como eu falo. Pugh ergueu a sobrancelha, surpreendido. Todas as anglo- indianas tinham um sotaque tão forte e inconfundível que ele não conseguia distinguir uma da outra. Provavelmente o sota- que de Queenie era mais carregado do que o da maioria. Preci- saria prestar mais atenção. - Não consigo atuar - disse ela. - Quanto a isso, elas têm razão. - Bem... você não parece estar se sentindo muito à vonta- de. O importante, numa opereta de Gilbert e Sullivan, é que G8 e G9 o elenco deve dar a impressão de estar se divertindo tanto quan- to a platéia. - O senhor está querendo dizer que eu devo parecer uma tola? - Não. Ou melhor, sim. As três criadinhas são tolas, é claro. Tudo é de uma grande tolice, e é essa a intenção dos autores. Você precisa se abandonar e gostar de agir como uma tola. Não há nada de mau nisso. - Mas não é uma atitude adulta. Pugh ergueu a sobrancelha. Era um gesto espetacular, pois suas sobrancelhas eram quase tão espessas quanto as do avô de Queenie, além de ruivas. - Mas por que você faz tanta questão de ser adulta? Saiba que não é tão agradável quanto imagina. -Ninguém diz aos adultos o que eles devem fazer, professor! - Infelizmente você se engana, Queenié. A garota o encarou. Era a primeira vez que ele a chamava pelo primeiro nome, o que era uma grave infração às regras da escola. Não lhe ocorrera que o sr. Pugh, um mestre, um sahib e, sem sombra de dúvida, um adulto, pudesse ser tão influenciável quanto Morgan. Ela umedeceu os lábios, prestou uma enorme atenção no sr. Pugh e sentiu-se gratificada ao vê-lo corar. Pugh sentiu o rosto pegando fogo e percebeu que os olhos das outras alunas estavam cravados nele. Sabia que estava dando excessiva atenção a Queenie. Mesmo a pianista, a srta. Rhys- Mogford, velha e meio cega, notava o que acontecia e pigarrea- va, demonstrando impaciência. - Venha me ver após as aulas - murmurou. - Então conversaremos sobre a peça. Queenie fez um gesto com a cabeça, concordando, e retirou- se do palco. A srta. Rhys-Mogford atacou novamente uma canção da opereta, em volume altíssimo e desafinada como sempre. Pugh percebeu que seu rosto ainda queimava e ficou a ima- ginar o que diria a Queenie. Por alguns momentos ocorreu-lhe que estava entrando em território perigoso, mas pôs esse pensa- mento de lado. Agora Queenie estava parada diante dele, com as mãos cru- zadas. Trazia o blazer desabotoado, mas a blusa era fechada até o pescoço. Ele não se sentia inteiramente à vontade, a sós com ela. Enquanto se limitasse a tocar as meninas quando elas se encon- travam na sala de aula, na Sociedade Dramática ou nos passeios escolares, estava em completa segurança. No entanto, um pro- fessor que ficasse a sós com uma aluna podia ser acusado de qualquer coisa. Aos olhos de muita gente o simples fato de se encontrar naquela sala com Queente e, além do mais, com a porta fechada, poderia ser prova de uma intenção desonesta. A sala de aula tinha aquele cheiro adocicado de giz, suor e mofo tão característico. De uma das paredes pendia um mapa- múndi já todo amarrotado. As possessões inglesas estavam im- pressas em tons de rosa, muito desbotados, e os oceanos em azul-claro. As carteiras, gastas pelos cotovelos de várias gerações, estavam cobertas de manchas de tinta. Pugh sentou-se à sua própria mesa, que balançava precaria- mente, pois uma das pernas era mais curta do que as outras. Por mais que se queixasse ao sr. Kalit Singh, o chefe da porta- ria, nenhuma providência era tomada. Singh era um rikh que usava a barba, tingida de negro, protegida por uma pequenina rede, de tal modo que ela podia ser desenrolada quando ele tivesse de participar de alguma cerimônia religiosa. Pugh sabia muito pouco a respeito dos .rikh.r, exceto que eram guerreiros brutais e escondiam seus compridos cabelos em turbantes. Pre- sumia que a religião deles era ainda mais bárbara do que a da maioria dos indianos, mas suas perguntas bem-intencionadas a respeito do assunto ofenderam grandemente a Singh, que re- solveu"vingar-se dizendo: "Será feito, sahib", toda vez que Pugh lhe pedia algo e, em seguida, ignorando completamente a solicitação. - Conseguirei um papel no espetáculo? - perguntou Queenie. - Caso contrário mamãe ficará muito decepcionada. - Eu a porei no coro, Queenie, e bem no centro. Acho que isso deixará sua mãe feliz. - Eu fui tão mal assim nos testes, professor? Pugh levantou-se e foi até ela, pois a garota parecia estar a ponto de chorar. Sem refletir, passou o braço em torno dela. - Vamos, vamos, não fique assim... - É o jeito de eu falar, professor? - Bem, você, de fato, tem um sotaque, mas as outras me- ninas também o têm. Sabe que não é nem um pouco desagra- dável? Parece-se um pouco com o sotaque do País de Gales. - Mas não é o modo correto de falar, não é mesmo? - Talvez não. - Mamãe e tio Morgan falam do mesmo jeito. - É, o sotaque anglo-indiano é muito característico. Creio até que se trata de um assunto muito interessante. - Se eu falasse direito teria um papel melhor? - Não se trata apenas de sotaque, Queenie. Sabe, um ator 70 a 71 amador tem de ser divertido. É preciso aprender a relaxar, a achar graça naquilo que se está fazendo... Você nunca ouviu falar de Sigmund Freud? - Não... - Era um homem muito sábio. Ele divide a mente em id e ego. Simplificando: uma parte de nós quer comportar-se bem e a outra quer divertir-se. Se reprimirmos... bem, se não soltarmos aquela nossa parte que deseja divertir-se... então adoecemos. - Como assim? - Não estou querendo dizer que nos tornamos fisicamente doentes, Queenie, embora isso seja possível. Aliás, isso recebe o nome de "doença psicossomática". A gente se torna doente na mente, ou seja, amargo, infeliz, incapacitado de gozar a vida. - Como a srta. Rhys-Mogford? - Exatamente. Pugh passou a mão pelas costas de Queenie e ela não resistiu. Aliás, parecia aguardar com impaciência seu próximo gesto. Por debaixo do tecido do blazer azul ele conseguia perceber a alça da combinação. Suas mãos tremiam ligeiramen- te, mas continuaram deslizando, até chegar à cintura da garota. A flanela era tão leve que ele podia perceber a confor- mação de seu corpo. Muito lentamente, sua mão continuou a descer, repousando na curva das nádegas de Queenie. Pugh amal- diçoou a flanela grossa da saia do umforme. Sua imaginação procurou adivinhar como seria a carne tenra que havia por de- baixo, sem dúvida escondida por uma calcinha recatada, porém provocante. Durante alguns instantes Pugh ficou quase sem fôlego, ao imaginar a roupa de baixo e tudo o que não conseguia ver: as ligas em torno das pernas, o leve odor da feminilidade de Queenie, que se desprendia de seus trajes tão limpos. A garota não se apresentava com aquele descuido visível na maioria das alunas e sempre parecia mais asseada e bem composta do que suas suarentas colegas. Pugh gemeu de prazer, ao perceber que se excitava. Então, para seu horror, ouviu os passos de alguém no corredor. Era, sem dúvida, Kalit Singh que inspecionava a escola, e no mo- mento mais inoportuno possível. Afastou-se no mesmo instante de Queenie, cruzando as mãos por detrás das costas e assumin- do o ar mais professoral possível. - Ainda está trabalhando, sahib Pugh? - perguntou Singh do outro lado da porta. - Sim, sr. Singh. Já, já vou acabar. - Pois não. - Vou trancar a porta, sr. Singh. Não devo demorar muito ternpo. - Como o sahib quiser. Ouviram-se os passos de Singh, que se afastava. Pugh sus- pirou, aliviado, e suas atenções voltaram-se para Queenie. - O senhor pode me ensinar a falar direito? - ela pediu. - O que quer dizer com "falar direito"? - Não falar como uma mestiça, uma chee-chee, conforme se diz por aqui. Falar como o senhor... - Bem... isso pode levar algum tempo... Serão necessárias aulas particulares. Pugh refletiu rapidamente e chegou à conclusão de que aquela era uma oportunidade rara, que caíra dos céus. Os olhos negros de Queenie o encaravam, e seus lábios estavam ligeira- mente entreabertos. Parada diante dele, de sandálias e meias brancas, tinha um ar suplicante. - Acho que podemos dar um jeito - disse ele, por fim. - Obrigada, professor. A voz dela tremia ligeiramente, e Pugh imaginou se ela teria chorado, caso dissesse não. Ou acaso ela estaria contente pelo fato de ter vencido? Teria alguma idéia do efeito que pro- duzia sobre um homem? Pugh chegou à conclusão de que isso era bem pouco provável. Uma parte da profunda atração de Queenie residia exatamente em sua inocência. Ele a segurou pe- lo ombro. Era um gesto firme, muito além dos limites do per- missível, mas não conseguiu tirar a mão. Retirou um fiapo ima- ginário da blusa de flanela azul, e então as pontas dos dedos percorreram a lapela. O tato era algo maravilhoso, pensou. Quan- ta coisa tinha a oferecer... - Acredito que algumas aulas particulares hão de ser mui- to proveitosas para você, Queenie - declarou. - E, quando estivermos a sós, não precisa me chamar de professor... - Com toda a certeza vai custar alguma coisa! - afirmou Vicky, desconfiada. - Estou segura de que uma aula particular não é nada barata. - Não, mamãe, ele faz questão de não receber nada. Ape- nas acha que minha voz pode ser melhorada e me ajudará a me livrar do sotaque. - Sotaque? Mas que história é essa de sotaque? Você fala como todos nós. - Pois eu quero falar como uma dama inglesa bem-educada. - Vejam só... Não sei o que virá em seguida. 73 72 Morgan parou de ler O Bengalês. Acompanhava atentamente a reportagem em que se investigava o caso de um certo Akbar Kallan, que tinha surpreendido a mulher na cama com outro homem e esfaqueou-a na altura do coração. Em seguida feriu o sogro, o cunhado e um tal de Sayib Zaniab, talvez o homem que encontrara em cima de sua mulher, na própria cama. - O que acha de nossa Queeme tomar aulas particulares, Morgan? - indagou Vicky. Morgan não estivera prestando muita atenção, porém, mais do que qualquer outra pessoa, percebia as vantagens de se ter um sotaque "correto". O dele era menos pronunciado do que o de Vicky, mas ainda assim chamava a atenção. Queenie teria melhores oportunidades de passar por uma inglesa se falasse sem o sotaque anglo-indiano, e o fato de Pugh querer ensiná-la era uma verdadeira sorte. Não lhe surpreendeu que Pugh não quisesse receber nada. Os ingleses eram desse jeito, sobretudo os professores. Os pukka sahibs eram verdadeiros cavalheiros. Faziam o que achavam que fosse correto, sem pedir contribuição ou esperar agradecimento. Pugh sem dúvida, era um deles, um .rahib da velha escola, que havia percebido em Queenie uma criatura muito especial. - Falar em dinheiro a um homem como Pugh o ofenderia - afirmou. - Ele já percebeu que Queeme é muito dotada e devemos aceitar seu oferecimento com gratidão. - É, creio que você tem razão. Queeme, meu bem, agra- deça ao sr. Pugh de coração. Quando Magda ouviu falar do que acontecia, mostrou-se um tanto cética. - Ninguém faz alguma coisa a troco de nada - declarou, levantando os olhos do jogo de tarô -, sobretudo um inglês. - O inglês é uma língua, Queeme, portanto nós a fala- mos, em vez de cantá-la - dizia Pugh. Por mais duvidosas que fossem as capacidades de Queenie como intérprete, a velocidade com que sua dicção melhorava surpreendeu Pugh. Mesmo abandonando o sotaque anglo-indiano, a voz de Queenie ainda mantinha um timbre ligeiramente musical. Fala- va com precisão exagerada, e os esforços de Pugh, no sentido de fazê-la pensar no modo como usava os lábios e a língua, tiveram o efeito de torná-la um pouco ciciosa. Ao vê-la bem de perto, percebeu que a garota era ligeiramente estrábica ou talvez um pouco míope. Quando ela lhe dirigia a palavra, os olhos dela davam a impressão de focalizar seu rosto com ex- iraordinária intensidade, devido a esse defeito. Se, ainda por cima, ela sorria, Pugh tinha a sensação de que Queenie encontrava-se em estado de quase êxtase, fascinada por cada pa- lavra que ele dizia. Era algo de provocante, de enlouquecedor, ainda mais porque ele lhe tinha ensinado aquilo sem querer. No início ela se submetera a seus toques, mas sem corresponder. Pugh não ousara beijá-la, mas deixou as mãos percorrerem seu corpo, com ar distraído, como se não notasse o que fazia. Che- gou a imaginar se aquilo não passava de um jogo. Acaso ela o estaria testando, para ver até onde ele ia? E quando será que reagiria? Era uma pergunta que a própria Queenie teria dificuldade em responder. Sabia perfeitamente que os toques desajeitados do sr. Pugh não eram "direitos", mas desconhecia absolutamen- te como fazê-lo parar. Era o tipo de problema que não tinha condições de levar a sua mãe ou a Morgan. Encontrava-se em uma idade na qual estava tão absorvida em si mesma que, na maior parte do tempo, o mundo lhe parecia muito pouco real. Era capaz de passar horas examinando o próprio rosto no espe- lho, como se custasse a acreditar que ele lhe pertencia. Treinava continuamente a fala com sua "nova" voz, a tal ponto que até mesmo a avó suplicou para que ela se calasse. Quando Pugh a tocava,- Queenie não sentia nada, mas tinha certo interesse clínico em observar as reações dele. Não considerava suas aten- ções especialmente agradáveis, mas ficava lisonjeada com o inte- resse que o professor demonstrava por ela. O que mais a im- pressionou, porém, foi descobrir como era fácil provocá-lo. Além do mais, ele era inglês e adulto. Não lhe cabia levantar objeções sobre o comportamento daquele homem. - Você ainda não tem namorado? - ele lhe perguntou certa tarde, após a aula. Ela riu, sem jeito. Pugh imaginou se havia empregado a palavra menos apropriada. Ele de modo algum era velho. Tinha apenas quarenta anos, mas o vocabulário das meninas das esco- las mudava rapidamente e Pugh ficou sem saber se não tinha usado um termo muito antiquado. - Não há nenhum rapaz interessado em você? Afinal de contas, é uma jovem muito bonita! Queeme sacudiu a cabeça e não parecia nem um pouco preocupada com aquilo. - Eu seria capaz de apostar que eles fazem fila na porta de sua casa, para convidá-la a ir a bailes e outros programas! - Minha mãe não permitiria. Ela vive dizendo que os ra- pazes só querem uma coisa. 74 a 75 - Talvez seja verdade, mas a maior parte deles não consegue. - Bem, são quase todos cobertos de espinhas e de uma penugem desagradável no rosto, porque ainda não começaram a se barbear. Quando vou dançar prefiro a companhia de meu tio Morgan. Ele é muito mais bonito. - Os rapazes são brutais. É uma das razões pelas quais prefiro dar aulas para meninas. O que eu queria dizer, porém, é que o desejo e a curiosidade em relação ao sexo são perfeita- mente naturais e saudáveis, Queenie. Você, com toda a certeza, já deve ter sentido desejos, não? - Desejos? Pugh procurou outra palavra que tornasse seu pensa- mento mais claro, porém acabou desistindo. Agora tinha quase certeza de que seus dedos tocavam o elástico da cal- cinha dela. Notou, à luz do crepúsculo, que o rosto de Queenie estava ligeiramente corado, embora fosse impossível dizer se de desejo ou de constrangimento. Ela cerrou os olhos, continuando a sorrir, o que era um bom sinal, segundo pareceu a Pugh. - Algum homem já a beijou, Queenie? - perguntou, abai- xando-se de tal modo que seus lábios ficassem bem próximos aos dela. - Somente tio Morgan. Queeme estava espantada com a facilidade com que conse- guia fazer Pugh tratá-la como uma adulta. Será que com Mor- gan as coisas seriam assim? - Ora, estou me referindo a um beijo de verdade! - No momento em que se dispunha a lhe mostrar o sentido exato de suas palavras, bateram à porta, e ouviu-se a voz de Kalit Singh. - Já é tarde, .rahib. Vou fechar a escola. Pugh endireitou-se, tomado de um pânico que sufocou to- do o seu desejo. O quanto Singh percebera de tudo aquilo? E durante quanto tempo guardaria silêncio? O jogo com Quee- nie era bem arriscado. Pugh decidiu parar com aquilo. Contemplou a garota, com seu misterioso sorriso de Mona Lisa, e despediu-se dela. - Até amanhã, Queeme. Na realidade Kalit Singh sabia ou desconfiava de tudo, pois não era nenhum tolo. Aquela noite, sentado de pernas cruzadas no chão de sua modesta casa de dois cômodos, contou para sua mulher a estranha paixão de Pugh .rahib pela filha de Victo- ria Kelley. - Ele a toca com as mãos - disse Singh, baixando os olhos. - Isso não está me cheirando nada bem - comentou a sia. Singh. Voltou-se para as quatro filhas, que os contempla- vam com os olhos arregalados, loucas para ouvir mais. - Isso não é assunto para vocês - declarou. Felizmente Singh havia mudado de tema, referindo-se a algo muito mais urgente e apaixonante. Contou que os ingleses tinham condenado um muçulmano à prisão perpétua por ter matado a mulher. Ainda que se tratasse de um cão infiel, o homem protegera sua honra, pois encontrara a mulher na cama com outro homem. - Dizem que o juiz Ram Dass xingou os muçulmanos de porcos desonrados em plena corte, pára que todo mundo ouvisse. - E é verdade. - Sem dúvida, mas essas coisas não deveriam ser ditas no templo da justiça. Os muçulmanos estão planejando um protes- to amanhã. Os donos das lojas, no bazar, já estão cerrando as janelas. - Será que vai haver um motim? - Quem poderá dizer? Nas mesquitas está todo mundo indignado. Amanhã você e as meninas devem ficar em casa. - E você? Sin'gh terminou de comer, mergulhou os dedos numa tige- la com água e sacudiu a cabeça. - Acaso não sou o chefe da portaria do Colégio Santo An- tônio? - perguntou com indignação. - Meu lugar é lá. Refletiu se deveria prevenir o diretor de que se armava uma grande confusão nas ruas, mas decidiu o contrário. Passar boatos adiante era algo abaixo de sua dignidade. Caso houvesse alguma perturbação da ordem, ele tomaria conta da escola, pois esse era o seu dever. Afinal de contas, bastava apenas um sikh para dar conta de uma multidão. - Não gosto disso nem um pouco - disse Morgan. Era quase o fim da tarde e no bairro de Chowringhee os sinais do conflito eram evidentes. Os policiais usavam lathrs, compridos bastões de madeira com a ponta de metal, e caminhavam nervo- sos, aos pares. Uma comprida linha de pequenos caminhões des- cera a estrada, vindos dos quartéis, transportando um batalhão da Infantaria Ligeira do Regimento do Duque de Cornualha. Todos usavam umforme de batalha. Os homens assoviavam para as moças e cantavam, o que formava um grande contraste com o clima belicoso que pairava sobre a cidade. 76 ® 77 Aquela atitude era natural, refletiu Morgan. Afinal de con- tas, tratava-se de ingleses, e nada daquilo significava o que quer que fosse para eles. Além do mais, eram soldados. Enfileirados, munidos de espingardas e baionetas, nada tinham a temer dos "encardidos". Morgan conseguia distinguir da varanda a fumaça que su- bia do bazar e ouvia o barulho distante de gritos. Dizia-se que a multidão de muçulmanos marchara até a casa de Ram Dass Mehta e, ao descobrirem que ele muito sensatamente tinha fu- gido, atearam fogo à residência. Seguiu-se o motim, como se em òbediência a alguma coreografia antiga e tradicional. A po- lícia atacou a multidão, cada vez maior, com seus lathÍ:c, partin- do algumas cabeças. Os hindus agarraram alguns infelizes mu- çulmanos e os espancaram. Então, para se vingar, um grupo de fanáticos muçulmanos tentou matar uma vaca na frente de um templo hindu, provocando uma reação violenta e rixas que se propagaram por todas as ruas da cidade. Se os ingleses agissem com suficiente rapidez, imaginou Mor- gan, a agitação poderia terminar logo, com apenas alguns mor- tos dos dois lados. Era bem verdade, porém, que, diante do sangue derramado, tudo se tornava possível. Nos grandes distúr- bios ocorridos na região de Amritsar, por exemplo, haviam mor- rido milhares de pessoas. - Queeme já não deveria estar em casa? - perguntou. Vicky fez que sim. Nervosa, torcia as mãos, tamanha era a sua preocupação. - A culpa é minha. Não devia tê-la deixado ir à escola hoje. - Ora, se a gente for prestar atenção a todos os boatos que correm nos bazares... Mas por que ela está tão atrasada? - Está tendo uma aula particular com o sr. Pugh. - É mesmo? Mas então ele terá o bom senso de trazê-la para casa. Além do mais, a multidão não atacará uma garota européia. Não há motivo para se preocupar. Morgan não só notou que sua irmã estava preocupada, co- mo percebeu que ele mesmo se sentia tenso. Afinal de contas, o tal Pugh era recém-chegado à Índia e talvez não se desse conta da gravidade do que acontecia nas ruas. Sabia que, até ver com os próprios olhos um conflito entre hindus e muçulma- nos, não se tinha idéia da selvageria que era desencadeada. É bem verdade que a multidão normalmente não atacaria uma jovem com trajes europeus, mas, quando a polícia e o exército interviessem, a agitação se espalharia como tinta derramada em mata-borrão. O povo invadiria as ruas, atirando pedras e garra- fas, quebrando janelas e atacando qualquer pessoa que estivesse no caminho. Lá estavam meio milhão de "encardidos" enlou- 78 quecidos e sedentos de sangue. Qualquer coisa podia acontecer. - Vou buscá-la - decidiu Morgan. - Está escurecendo. - Tome cuidado - recomendou Vicky, muito agradecida. - Sem dúvida. Não há nada a temer. Ao guiar pelas ruas desertas, Morgan sentiu-se receoso. Qual- quer pessoa sensata ficaria em casa num momento daqueles, com as portas trancadas e uma arma ao alcance. Ele brecou su- bitamente, a fim de evitar um mendigo. Mas, olhando melhor, percebeu que, na verdade, tratava-se de um cadáver. Era algum infeliz varredor de ruas hindu que tinha sido espancado até a morte e mutilado. Ouviu a distância o barulho de tiros de espingarda. Não havia a menor dúvida de que, finalmente, os soldados alegres e vermelhões do Regimento do Oeste estavam tendo a oportuni- dade de usar suas espingardas Lee-Enfields, embora fosse costu- me disparar alguns tiros para o ar antes de apontar para a mul- tidão. Algumas vezes os tiros das espingardas e, em casos extre- mos, os de metralhadoras bastavam para deter a multidão. Mas, com freqüência, apenas serviam para enraivecer ainda mais os amotinados, que conheciam a cidade melhor do que os ingleses. Eles fugiam da infantaria pelas ruas estreitas e de repente, quando menos se esperava, voltavam a aparecer, O barulho dos gritos e de gente correndo fez Morgan desconfiar que aquilo acontecia nesse inomento. De repente poderiam surgir diante dele e cercá- lo. Em Dacca, alguns anos antes, um homem fora queimado vivo em seu próprio carro pela multidão enfurecida. Não era um pensamento nada reconfortante. Morgan atravessou um cruzamento e aumentou a velocida- de, virando à direita, em direção à escola, quando viu seu cami- nho bloqueado por uma dúzia de muçulmanos frenéticos, van- guarda enraivecida de um grupo maior. Uma pedra bateu no carro, seguida de outra, que arrebentou o farol dianteiro. Morgan hesitou por alguns segundos. A rua era estreita de- mais para ele manobrar e voltar, mas poderia agir com rapidez e refugiar-se em ruas mais tranqüilas. Ocorreu-lhe então que aquele era o único caminho direto para o Colégio Santo Antônio, mas resignou-se a cometer um ato de coragem, o que muito o sur- preendeu. Só faria uma coisa dessas por Queeme, mas, inespe- radamente, viu-se em meio à multidão. Esperava que a garota lhe ficasse agradecida. Buzinou, pisou no acelerador e deparou com um grupo de homens que corriam, enraivecidos. Com os olhos arregalados, agarrou a direção com tanta força que os os- sos das juntas dos dedos pareciam querer furar-lhe a pele. Sentiu que o pára-lama da frente batia em um homem e o mandava pelos ares; um tijolo arrebentou o vidro da frente, 79 cobrindo-o de estilhaços. Conseguia ouvir berros, insultos e gri- tos, que se sobrepunham ao barulho da buzina e do motor. Durante alguns segundos, que lhe provocaram pânico, julgou que o motor iria afogar. Percebeu então que acabara de atrope- lar um homem. Ele se agarrava no farol dianteiro, e seu rosto escuro encarava Morgan. Tinha a boca escancarada e os olhos, injetados de sangue, o fitavam repletos de medo, dor, ou am- bos. Com o impacto, o turbante do homem desenrolou-se, agitando-se ao vento e batendo no rosto de Morgan. Morgan virou no próximo quarteirão, rezando para que os pneus muito gastos resistissem. A velocidade com que fez a cur- va levou o homem a soltar-se aos poucos: primeiro um dedo, depois outro, deixando manchas de sangue no latão polido. Fi- nalmente ele caiu debaixo do carro, sem um gemido. Morgan sentiu o baque quando as rodas traseiras passaram por cima de algo mole. De repente já não havia mais nada a sua frente, e ele guiou a quase cem quilômetros por hora, enquanto a mul- tidão, impotente, corria atrás dele, aos berros. Parou numa esquina, jogou o turbante longe e vomitou no meio-fio. A escola parecia mais tranqüila do que de costume naquela tarde. Pugh ouvira dizer que haveria uma espécie de procissão na cidade, o que contribuíra para esvaziar a escola. Tanto me- lhor. Assim teria a oportunidade de uma intimidade maior, de ficar a sós com Queenie, e aquele encontro poderia ser decisivo. Pela primeira vez, desde que começou a lhe dar aulas parti- culares, sentou-se ao lado dela. Devagar, com muito jeito, foi encostando-se na garota. Suas pernas se tocaram, e ele passou o braço em torno dela. Não queria apressar as coisas. - Não acha que ficaria mais à vontade se tirasse o blazer? - propôs. - Está fazendo muito calor aqui dentro. - Aqui na escola não temos permissão de tirar o blazer. - Não se preocupe, não há o menor problema. Eu mesmo tirarei o paletó. Queenie, obediente, seguiu sua sugestão; dobrou o blazer com todo o cuidado e prosseguiu com a lição. A paixão de Pugh aumentou ao vê-la de blusa. Os seios, pequenos e firmes, eram quase visíveis por debaixo do algodão fino. Ele passou os braços em torno dela, num gesto um pouco mais vigoroso do que pretendia, forçando a situação. Pela pri- meira vez ela pareceu ficar intrigada e até mesmo alarmada, mas ele prosseguiu, certo de que aquele era o momento indicado. Assim que a beijou e tentou forçar a língua entre os lábios dela, sentiu que Queenie tentava se afastar. Pelo visto, ele final- mente conseguira dar o primeiro passo. - Entregue-se! - suplicou em voz baixa, enquanto se de- batiam. - Olhe-me nos olhos. Queenie, porém, parecia estar olhando em outra direção. Horrorizado, Pugh percebeu que seus olhos estavam cravados na porta da sala. Morgan parou o carro diante da escola, cujos portões esta- vam fechados. - Quais são as notícias, bahadur-sahib? - perguntou Ka- lit Singh. Empunhando o lathi, ele era uma figura impressionante. Prevendo o derramamento de sangue, tirara a rede que prendia a barba, característica distintiva dos szkhs tão belicosos, e agora a exibia. Singh inclinou-se para ver quem estava no carro e, por um breve momento, ficou envergonhado. Achara que lá se encontra- va um pukka sahib e, portanto, dera-lhe o tratamento honorífi- co de bahadur. Agora percebia que era apenas um anglo-indiano sem maior importância, indigno de merecer aquele termo. - O senhor sofreu um desastre? - perguntou em hindi, reparando no estrago feito no carro. - Foi uma fatalidade - respondeu Morgan. Falava o hin- di pérfeitamente, mas o evitava, sempre que podia. Naquele momento, porém, sentia necessidade de ter um aliado, e para isso nada melhor do que um sikh. - Atropelei um muçulmano. - Matou o cachorro? - perguntou Singh, rindo, com a mão espalmada diante da boca, num gesto de polidez, confor- me o costume. - Creio que sim. O carro passou por cima dele. - Esplêndido! - disse Singh, com um largo sorriso. - O senhor é um verdadeiro bahadur-sabib, conforme imaginei. Os baderneiros estão perto daqui? - Sim, estão a três ou quatro quarteirões. - Pois então defenderemos a escola juntos. Lutaremos co- mo irmãos. Morgan encarou Singh com espanto. Não tinha a menor intenção de enfrentar e deter a multidão, embora não houvesse dúvida de que tal atitude seria do completo agrado de Singh. Ele chegou até mesmo a apertar a mão de Morgan, gesto que jamais ocorreria a um sikh em circunstâncias normais, pois exi- giria em seguida a realização de cerimônias de purificação ri- tual, longas e dispendiosas. - O que posso fazer pelo senhor? - Tenho uma sobrinha que estuda aqui na escola. Quee- nie Kelley. O senhor a conhece? 80 ' 81 - Como não a conheceria? - disse Singh, baixando os olhos e fazendo uma ligeira reverência. - Não é tarefa de um porteiro conhecer todas as alunas? - Por acaso sabe onde ela está? Vim busca--la. - Fez muito bem. Um homem precisa- tomar conta de sua família. A segurança dela é seu primeiro dever. - Exatamente. A mãe dela está preocupada. - Eu bem que levaria o senhor até onde ela está, mas não posso deixar a portaria - declarou Singh, abrindo o por- tão. - Leve o carro até a frente daquela casa grande de tijolos. Entre pela porta principal e siga pelo corredor, à esquerda. A sala de aula de Pugh sahib é a segunda porta. A luz está acesa. Bahadur-sahib... - Singh interrompeu-se, um tanto constrangi- do, mas querendo acrescentar algo. - Sim? - Morgan mal conseguia controlar sua impaciência. - Bata antes de entrar. Com esse aviso, Singh achava que estava poupando a um homem corajoso, evitando que ele passasse por uma grande dor. Quem quer que tivesse matado um muçulmano, ainda que fos- se anglo-indiano, merecia essa consideração. Morgan, porém, estava apressado demais e nem se deu ao trabalho de bater na porta. - Posso explicar tudo - balbuciou Pugh, levantando-se. Era bem mais alto e corpulento do que Morgan, mas não de- monstrava querer brigar. Ao contrário, parecia aterrorizado pelo fato de ter sido surpreendido naquela situação. Quanto a Morgan, estava espantado demais para poder di- zer o que quer que fosse. Olhou para Queenie, que chorava. Seria devido ao medo ou por sentir-se culpada? Vê-la nos braços de Pugh enraiveceu-o tanto que ele já nem percebia direito o que fazia. - O senhor deveria ter batido - protestou Pugh com timidez. - Como assim? O senhor merece ir para a cadeia! - Eu estava dando uma aula de interpretação para a me- nina - disse Pugh, descontrolado. Seu rosto estava banhado de suor. - Pois quem vai lhe dar uma aula sou eu, seu porco! - ameaçou Morgan, com a clara consciência de quem não sabia o que fazer. Não tinha condições físicas para enfren- tar aquele homem, ficaria em má situação perante Queenie, e a idéia de provocar um escândalo o deixou tonto. O que Vicky diria? E quem acreditaria em sua palavra e não na de Pugh? Devia ter seguido sua intuição e ter ficado em casa. - A garota me provocou - disse Pugh com cinismo. Mor- gan, que já estava com os nervos à flor da pele e que desconfia- v a até certo ponto que aquilo era verdade, reagiu subitamente e desfechou um soco no rosto de Pugh. Ouvira muitas vezes a expressão "ver tudo vermelho" e achava que se tratava apenas de uma imagem, mas foi o que lhe aconteceu. Era como se o ódio, o ciúme, o desejo reprimido e culpado que sentia por Queenie, além dos sentimentos de inferioridade diante de um inglês, tivessem se apoderado de sua pessoa. - Meu Deus, sinto muito! - murmurou. Era tarde demais. Os olhos de Pugh reviraram e ele caiu no chão, mais pela surpresa do que pela força do golpe. O nariz sangrava e um vergão surgia na bochecha do professor. Morgan gemeu. Matara um homem ainda há pouco e ago- ra golpeara um professor, ainda por cima inglês. Pugh tinha toda a razão. Devia ter batido antes de entrar. Além do mais, agredira aquele pobre coitado movido tanto pelo ciúme quanto por uma espécie de indignação hipócrita. Surpreendera Pugh fazendo exatamente aquilo com que sonhava. Ver Queenie com o rosto afogueado e a blusa em parte desabotoada, nos braços de Pugh, era mais do que conseguia suportar. Abaixou-se e aju- dou Pugh a se erguer. - Sinto muito - repetiu. = Como vou explicar este vergão no meu rosto? - per- guntou Pugh em tom queixoso. Morgan entregou o blazer a Queenie e refletiu durante um breve momento. Não havia por que criar um escândalo, pois isso prejudicaria a reputação de Queenie tanto quanto a de Pugh. Ela, aliás, seria a mais afetada, tendo em vista que se tratava de uma anglo-indiana. - Diga que foi ferido durante o motim - sugeriu Morgan - Se lhe perguntarem algo, conte que foi atingido por uma tijolada. - Que motim? - Ora essa, não me diga que não sabe! A cidade está pe- gando fogo e há muita gente morrendo nas ruas! Dê um jeito de sair pelos fundos, para que aquele porteiro bisbilhoteiro não o veja, e vá para casa. O senhor é um sahib e nada lhe acontecerá. - Morgan - pediu Queenie por entre as lágrimas -, eu também quero ir para casa. - Foi justamente para isso que eu vim até aqui. Você terá muito o que explicar. - Mas não posso falar disso com mamãe, Morgan! - É, creio que não, mas não é sua mãe quem vai querer uma explicação, sou eu. 82 o 83 4 A vergonha tornou Queenie como que cega diante de algo que, em outras circunstâncias, a teria deixado muito assustada. Não notou Kalit Singh abrir os portões da escola e lamentar o fato de Morgan não ficar em sua companhia para arrebentar algumas cabeças de muçulmanos. Queeme encolheu-se no banco, contemplou o vidro estilha- çado do carro e desejou estar morta. Ocorreu-lhe então que, se o motim fosse tão grave quanto Morgan dissera, seu desejo se realizaria. Disfarçou e olhou para o tio, sem que ele percebesse. Mor- gari guiava apressado, através das ruas escuras e pouco movimen- radas. O carro fazia curvas fechadas nas esquinas e passava como um raio pelos cruzamentos. Queenie sentiu que ele estava com medo, mas isso não a afetava. Estava preocupada demais com o que Morgan faria, para temer o que quer que fosse. O carro passou por pequenos grupos de policiais e solda- dos, que avançavam a fim de conter o motim. Morgan foi obri- gado a parar do lado oposto da Igreja Anglicana de Saint Swi- thin, pois um comboio de caminhões do exército, pintados de cor cáqui, retirava-se da cidade. Todos eles estavam repletos de indianos presos. Muitos se apresentavam cobertos de sangue, e vários estavam bastante feridos, pois tinham sido espancados com os temíveis lathi.s. Um policial acenou para Morgan e ele deu a partida no carro. - O que acontecerá com essa gente? - perguntou Quee- nie, a fim de romper o silêncio. - Nada de muito grave. Ficarão detidos alguns dias. As pessoas dizem muita bobagem sobre a independência da Índia, mas afirmo o seguinte: se os ingleses não estivessem aqui, isto aconteceria o tempo todo, e quem seria capaz de controlar a situação? Ninguém! - Morgan, o que foi que aconteceu com o carro? Você bateu em alguma coisa? - E como! Bati em um "encardido'. Sua mãe está preocu- pada; eu saio em pleno motim, e o que acontece? Quase morro, atropelo um homem e, ao chegar à escola, encontro-a nos bra- ços do sr. Cyril Fitzroy! A noite não poderia ser mais completa! - Sinto muito, Morgan. - Ah, sente, é? Pois você está merecendo umas boas pal- madas no bumbum! Se seu avô estivesse vivo, ele a teria coberto de pancadas! Queenie estava com os braços cruzados, o queixo apoiado nos joelhos e mantinha os olhos fechados. Sem dúvida, Morgan tinha razão. Seu avô certamente a teria castigado, e seu pai também, mas e daí? O velho não passava de uma fotografia desbotada, dependurada na sala de visitas. Tinha ido embora da Índia quando sua mãe e Morgan ainda eram crianças. Até mesmo a avó só conseguia lembrar-se dele com dificuldade. Quanto a seu pai, simplesmente desaparecera em algum outro canto do império britânico, e pelo visto sem re- morsos. Queenie sentiu vontade de chorar de novo, mas procurou dominar-se. Acaso era culpada pelo fato de o sr. Pugh a beijar? É bem verdade que flertara com ele, o que lhe dava uma curio- sa sedsação de poder, mas não tivera a intenção de ir tão longe e não percebera a intensidade dos sentimentos daquele homem, pois não os compartilhava. Pelo menos o sr. Pugh a tratara co- mo um ser adulto, embora com resultados desastrosos... Agora, porém, Morgan voltava a trará-la como uma criança e ele pró- prio comportava-se de modo infantil, o que era ainda pior. Imaginava que deveria mostrar-se grata a Morgan por salvá- la no último momento, mas não era o caso. Por um instante, na sala de aula, teve a impressão de que Morgan e o professor brigavam por sua causa, exatamente como faziam os homens nos bares, nas noites de sexta-feira, quando todo mundo saía para beber e se divertir. Talvez a raiva dele se devesse ao orgulho ferido e à indignação. Seria possível que ele sentisse ciúme? Encarou-o com novo interesse, mas era impossível decifrar sua expressão. Acima de tudo parecia cansado e infeliz. Finalmente chegaram em casa, e Morgan não parecia ter a menor pressa de descer. A essa altura Queenie não achava mais difícil imaginar o que o perturbava. - O que você dirá a mamãe? - perguntou. - Francamente, não sei o que lhe dizer - respondeu Mor- gan, suspirando. - Estou numa posição muito delicada. - Já disse que sinto muito. 84 a 85 - Espero que sim, mas de que adianta? - Ele fez uma pausa sem saber como prosseguir. Já não se sentia mais à von- tade fazendo quase o papel de pai, o que não correspondia aos sentimentos que experimentava por Queenie. - Isso tudo é conseqüência do fato de seu pai ter desaparecido. Na noite em que partiu, disse-me: "Morgan, tome conta de Queenie por mim. Seja como um pai para ela". Como reagiria, se soubesse o que aconteceu? - Ele era tão bonito como se vê nos retratos? - Pelo amor de Deus, não é o momento de falar sobre a beleza de seu pai, embora ele, de fato, fosse um bonito ho- mem! Há muito dele em você. - Morgan fechou os olhos, co- mo se estivesse se recordando de dias mais felizes. - Eu gostava dele, Queenie. Pediu-me emprestadas quinhentas rupias - acres- centou com tristeza. - Nunca mais as verei. - Gostaria que ele não tivesse fugido. - Eu também, mas era ou a fuga ou a cadeia. Ainda as- sim, que vergonha! Uma menina precisa de um pai tanto quan- to um menino, talvez mais. Morgan também fora abandonado pelo pai, pensou Quee- nie. Era algo mais que eles tinham em comum. Tentou imagi- nar como teria sido sua vida se acaso seu pai continuasse ao lado dela, mas não conseguiu. Como ele teria reagido à atitude do professor? Ouvira muitas histórias sobre o violento tempera- mento irlandês do pai, e sabia que carregava alguns desses tia- ços, que sua própria mãe não conseguia eliminar. Vicky tam- bém gostava de dizer que Queenie tinha algo de seu orgulho. Seria verdade? - Terei de sair da escola - disse. - Não posso voltar para lá depois do que aconteceu. Uma profunda inquietação apoderou-se de Morgan, refletindo-se em sua fisionomia. Estava sempre à procura de so- luções, acomodações, e de como sair-se bem das situações. Quee- nie, a exemplo do pai, costumava agir impulsivamente, às cegas, sem se importar com as conseqüências. Era teimosa como uma mula! - Você não fará semelhante coisa - declarou ele. - Farei, sim. É necessário. - Ouça-me. Se você sair da escola, haverá comentários. To- do mundo vai querer saber por que você saiu. Aquele maldito

.rzkh sem dúvida dará com a língua nos dentes. O escândalo será imenso. - Pouco me importa. Se eu voltar, o sr. Pugh não me aceitará no grupo de teatro e as outras meninas adivinharão que aconteceu alguma coisa. - Mas você precisa voltar. O que lhe acontecerá, em caso contrário? Saiba que não conseguirá emprego. Acaso deseja ficar vagabundeando em casa, até ter idade suficiente para se casar com um de nossos pensionistas? Ou prefere tornar-se uma garo- ta de programas, dessas que freqüentam bares e saem com qual- quer um? O que as pessoas vão dizer? Queenie encarou-o fixamente, tentando decifrar o significa- do de sua raiva. O fino bigode de Morgan estava molhado de suor, e ele tinha os olhos injetados. Naquele momento estava com os nervos à flor da pele. Não era com a reputação dela que se importava, mas com a sua. Não queria ser conhecido como o homem cuja sobrinha fora expulsa do Colégio Santo Antônio por conduta imoral. Por mais que Morgan temesse Vicky, temia muito mais a possível má reputação de sua família. Quee- nie sentiu, porém, que embora ele levasse algum tempo para perdoá-la pelo que tinha acontecido, não lhe seria difícil envolvê- lo e fazer dele um aliado. Com um gesto suave pôs sua mão em cima da dele. - Não quero voltar com o rabo entre as pernas. Morgan encarou-a com melancolia, mas não retirou a mão. - Você é orgulhosa, exatamente como seu pai. - Só voltarei se puder participar da peça - ela decidiu, apertando a mão dele. Nada poderia abalar sua decisão, e tama- nha determinação fazia lembrar Vicky. Morgan afundou-se no banco, sentindo o suor escorrer-lhe pelas costas. Não se sentia disposto a entrar em competição com uma mulher. Jamais lhe ocorrera algo assim. Reconheceu com tristeza que Queenie já se dera conta desse fato. - Conversarei com Pugh - disse, preocupado, sem saber exatamente o que lhe diria e qual a razão de sua atitude. Sabia que, no fundo, havia uma explicação. Bastava olhar para Quee- nie para perceber que ela tinha o domínio da situação. - Ainda temos de explicar a situação a Vicky. - Morgan acendeu um cigarro, olhou para a varanda da casa e, em segui- da, para Queenie, que continuava encolhida a seu lado. Ela correspondeu ao seu olhar. Mesmo na semi-escuridão, ele conseguiu perceber algumas lágrimas inundando aqueles olhos. - Será mesmo preciso dizer a mamãe o que aconteceu? Morgan ficou tão surpreendido com a simplicidade e esper- teza dessa sugestão que nem mesmo fingiu estar chocado. Com que facilidade Queenie sempre dava um passo adiante! - Acho que você tem razão - admitiu com certa relutân- cia. Levou a mão ao rosto dela, limpou suas lágrimas e então teve a coragem de lhe fazer a pergunta. 86 a 87 - Queeme, diga-ine só uma coisa: foi você quem o provocou? Queenie pensou naquela pergunta enquanto se despia, an- tes de deitar-se, mas não conseguiu encontrar uma resposta satisfatória. Felizmente Vicky ficara tão contente por ver sua filha em casa, sã e salva, que não notou o constrangimento de Morgan. Em geral ele não sabia mentir; em circunstâncias normais, Vicky teria percebido que algo estava sendo escon- dido dela, mas a notícia de que seu irmão atropelara e possi- velmente matara um homem deu-lhe suficientes motivos de preocupação. Em sua imaginação via a polícia batendo a sua porta a qualquer momento, e fora obrigada a tomar um calmante antes de ir para a cama com todos os sintomas de uma terrível enxaqueca. Queente, após tirar a roupa, guardou-a com cuidado. Pen- durou o blazer e a saia no cabide, alisando as partes amarrota- das e retirando a poeira e os fiapos. Fez uma pausa, antes de enfiar a camisola, e contemplou- se no espelho. O que via nunca deixava de intrigá-la. Não se achava especialmente bonita. Claro que não era gorda como a desprezível Beryl O'Brien, que tinha pneus na cintura e um estômago proeminente, e nem magricela como Heather Gomes. Não havia nada de errado com seu corpo, gostava dele, mas não conseguia de modo algum perceber o que levava os homens a ficarem tão excitados. Queeme examinou-se, tentando ser o mais objetiva possí- vel. Tinha cintura estreita, pernas compridas, seios que chega- vam a lhe provocar certo constrangimento, pois lhe traziam todo tipo de problemas inesperados. Talvez eles excitassem os homens, mas não excitavam Queènie, que algumas vezes se surpreendia ao acordar pela manhã e encontrá-los. Conseguia perceber que eles eram mais firmes e de formato mais bonito do que os das outras meninas, mas, ao pensar que um dia eles se tornariam flácidos e penderiam, como os da avó e os de Vicky, que eram enormes, ficava desanimada, O bico era pequenino, rosado, quase sem aréola, mas lembravam Queeme de sua finalidade, aquela coisa indesejável que era ter nenês e. amamentá-los como um animal. Passou as mãos pelos seios, como o sr. Pugh fizera, mas era impossível perceber o que ele sentira e que tanto o excitara. Tocou o bico dos seios e acariciou-os de leve. Teve de reconhecer que aquilo lhe provocava uma sensação agradável, uma espécie de formigamento. Vicky lhe aconselhara mais de uma vez para não se tocar, mas a recomendação sempre lhe parecera um tanto obscura e incompleta. Com efeito, ela não se dispunha a entrar mais a fundo no assunto e esclarecer quais os pontos em que ela não devia se apalpar. Queeme olhou-se no espelho. O pequenino triângulo de pêlos pubianos pareceu-lhe feio. A exemplo dos seios, tinha sur- gido espontaneamente, e não lhe parecia substituir com vanta- gem a pele lisa e rosada que agora estava por debaixo. Mal con- seguia imaginar que um homem pudesse encontrar beleza na- quilo. Queeme estivera no museu de Calcutá e folheara alguns livros de arte na biblioteca da escola. As pinturas e esculturas que representavam belas mulheres não incluíam os pêlos pubia- nos. Se as criaturas que posavam para as mais famosas obras de arte eram os padrões pelos quais se julgava as mulheres, en- tão o pêlo pubiano deveria ser algo vergonhoso e feio. Até mesmo aquelas partes que o pêlo pubiano escondia parcialmente pareciam a Queeme menos interessantes do que aquilo que um homem tinha. Não que fosse mais bonito, ao contrário, era bem mais feio, a julgar por Morgan, mas, pelo menos, impressionava mais. Examinara Morgan quando o des- piu naquela noite, após a briga, e ficou fascinada ao observar que seu sexo parecia ter vida própria. Crescia e, mudando de consistência e de firmeza, tremia como a coisa viva que, sem dúvida, era. Qúeeme imaginou se o sexo de Morgan era típico. Tinha a reputação de alcançar grande sucesso com as mulheres e até mesmo com as inglesas, ao que se comentava, mas ela não tinha a menor idéia se o sexo de Morgan era maior ou menor do que o da maioria, ou se todos eram mais ou menos iguais. Co- mo seria, por exemplo, o do sr. Pugh? Decidiu que não queria aprofundar-se naquele assunto, pois estivera muito próximo de descobrir. Queenie esticou uma perna. Precisava reconhecer que suas pernas eram muito bonitas. Segurou-a com uma das mãos e contemplou-se no espelho. Suspirou e soltou a perna. De repen- te bateram à porta. - Queeme, meu bem, você já se vestiu? - Sim, mamãe - ela disse, enfiando rapidamente a camisola. Vicky entrou, trajada com seu amplo penhoar de barra ren- dada. Parecia estar perturbada, e Queenie imaginou, durante alguns momentos, se sua mãe adivinhara o que ela estava fazen- do ou até mesmo se espiara pelo buraco da fechadura. -Você está muito corada, meu bem - disse Vicky, observando-a com seus olhos de míope. - Tem certeza de que não está com febre? 88 a 89 - Não, mamãe, estou bem. O que está acontecendo? - Não consigo pregar o olho. Tive um dia tão trabalhoso e, ainda por cima, seu tio Morgan atropelou um homem... - Tenho certeza de que ninguém ficará sabendo ou se im- portará. Aposto que dezenas de indianos foram mortos hoje. A polícia não notará um a mais ou a menos. - Talvez você tenha razão, meu bem, mas mesmo assim... Como foi a aula com o sr. Pugh? - Ele disse que estou progredindo. - Que bom! Você tem sorte que um senhor tão fino quanto ele se interesse em ensiná-la. Seu pai costumava dizer que a gente sempre pode confiar em um cavalheiro. - De repente Vicky começou a chorar. - Oh, Queeme, o que vai ser de nós todos? Se pelo menos seu pai estivesse aqui! Queeme passou os braços em torno de Vicky. Era raro que ela se abatesse e chorasse, mas algumas vezes não conseguia controlar-se, sobretudo quando pensava no pai de Queenie. Pa- ra esta era ainda mais difícil imaginar Vicky como uma mulher que precisava de um homem do que encarar Morgan em um relacionamento homem-mulher. No entanto o instinto feminino dizia-lhe que esse era exatamente o problema de sua mãe. Já fazia doze anos que o pai de Queeme se fora, tempo suficiente para Vicky tornar-se uma criatura austera e cheia de princípios rígidos, o que não a impedia, porém, de ainda sentir grande falta dele. Queenie vira fotografias de seus pais no grande álbum de capa de couro de Vicky. A mulher retratada era uma pessoa muito diferente daquela que agora abraçava. Era uma jovem magra, linda, com o braço passado em torno da cintura do ma- rido, e o encarava com um misto de adoração e contentamento. O Tigre Kelley havia proporcionado algo de maravilhoso a Vicky, algum tipo de prazer ou felicidade muito especial, tomando-o de volta, quando as coisas se viraram contra ele. "Homem algum fará isso a mim'; pensou Queenie e, deitan- do-se na cama, abraçou com grande carinho sua mãe, feliz, pois sentia-se novamente uma criança, agarrada a ela. Pugh levantou-se assim que bateram e, para grande horror, viu Morgan parado a sua frente. Estremeceu involuntariamente. Seu rosto ainda trazia as marcas do soco que Morgan lhe dera, e presumia que ele viera procurá-lo em sua própria casa a fim de castigá-lo ainda mais. - Se puser as mãos em mim, chamarei a polícia! Pelo amor de Deus, feche a porta. Morgan atendeu a seu pedido e dirigiu a Pugh um sorriso que, esperava, fosse conciliador. Na realidade estava mais assus- tado do que seu adversário e passara quase meia hora sentado no carro, transpirando e tentando reunir toda a sua coragem. Temia uma discussão e a possibilidade de que Pugh o processas- se e o humilhasse. Tinha razão, pois o primeiro pensameno de Pugh foi chamar a polícia. Morgan aproximou-se de Pugh, com a intenção de tranqüilizá-lo quanto a suas intenções, mas foi mal interpretado. - Não bata em mim - suplicou. Morgan, que não tinha a menor intenção de agredi-lo, ti- rou o chapéu, segurou-o durante alguns momentos, e o pôs em cima da escrivaninha. Percebeu que aquele encontro começava mal. Sua nova re- putação de homem violento lhe era prejudicial, embora pareces- se impressionar fortemente o pobre Pugh, que se encolhia todo na cadeira, com os olhos pregados no chapéu de Morgan, como se fosse uma bomba. - Seja razoável, homem. Afinal de contas, eu não lhe bati com tanta força assim. - Foi o suficiente. Tive muitos problemas para explicar o que aconteceu. -.Mas por que não disse que foi agredido por um bader- neiro, conforme recomendei? - Foi o que fiz, mas acho que minha mulher não acredi- tou. É uma criatura desconfiada, sr... - Jones. Morgan Jones. - Pois bem, sr. Jones. Minha mulher deve estar intrigada, imaginando qual o assunto de nossa conversa. Por favor, vá embora. - Mas preciso lhe falar. Pugh cerrou os olhos e adotou quase a postura de um már- tir, à espera de algum castigo. Tivera a esperança de que o epi- sódio seria simplesmente esquecido. Queenie sairia do grupo de teatro, não haveria mais lições, e talvez ele até mesmo conse- guisse transferi-la, com todas as recomendações, para a classe de outro professor. - Prometo não voltar a ver a garota. Dou-lhe minha pala- vra de honra. - Isso de nada adianta, sr. Pugh. - A voz de Morgan alterou-se, mas ele procurou adotar um tom confidencial. - Não foi por isso que vim até aqui. Ouça, ambos somos homens do mundo, não é mesmo? Pugh concordou, embora não tivesse muita certeza do que 90 a 91 Morgan queria dizer com a expressão "homem do mundo". Du- vidava que qualquer um deles fosse semelhante coisa. Morgan sentou-se, cruzou as pernas e acendeu um cigarro. - O principal é evitar um escândalo, concorda? - Sem dúvida. - Nossa Queenie poderia fazer uma queixa e isso lhe tra- ria todo tipo de problemas, não é mesmo? - Possivelmente. Se acreditassem nela... - Agora que Mor- gan se sentara, Pugh sentia que podia controlar melhor a situação. - Mesmo que isso acontecesse, o senhor não ficaria em boa situação. Além do mais, l4á uma testemunha do crime, um membro da família que presenciou o ultraje com seus próprios olhos. Pugh refletiu por alguns instantes. Não havia como argu- mentar. Mesmo que fosse inocentado, certamente o fato reper- cutiria. Sentiu-se banhado dÈ suor. - Não sou um homem rico - afirmou, olhando o talão de cheques. - O dinheiro não é tudo para mim, meu caro. Ambos somos cavalheiros. Garanto-lhe que não me interesso por seu dinheiro, mas tenho uma proposta. A imaginação de Pugh soltou-se. Havia-se resignado a ser chantageado, mas agora não sabia mais o que esperar. - O que o senhor tem em mente? - Suas mãos tremiam e ele as cruzou no colo. - Fale baixo, por favor. - Receba Queenie de volta na peça e com um papel melhor. Pugh inclinou-se para diante, como se não acreditasse no que acabava de ouvir. - Mas julgava que o senhor a quisesse longe de mim. - Pessoalmente é o que Desejo, mas a idéia é de Queenie. Ela faz questão de participar da peça e com um bom papel. - Um papel em que deva falar? - E por que não? Ela está falando muito melhor, desde que passou a tomar aulas. Sprá que é tão má assim? Pugh adotou uma pose de mestre-escola. Agora que lhe pediam sua opinião sobre ume aluna, parecia estar muito mais à vontade. - Nosso grupo de teatro é amador, escolar. Nossos padrões de exigência não são altos, mias até mesmo por esses padrões a capacidade de Queenie é unl tanto limitada. Ela tem muitos atrativos e uma inteligência riluito viva, mas acredite no que digo: jamais conseguirá ser airiz. - Não estou pedindo que a ponha num espetáculo profis- sional montado em Londres! As outras meninas provavelmente também não são tão boas assim. - É verdade. Queenie, porém, é tão bonita que suas defi- ciências acabam por aparecer mais. Entretanto, não é esse o pro- blema. Se eu lhe der um papel melhor, todo mundo fará co- mentários, dizendo que a favoreci, o que provocará exatamente o tipo de fofoca que o senhor e eu estamos tentando evitar. - A fofoca será menos grave do que se ela se queixar ao diretor da escola, sr. Pugh, tendo a mim como testemunha. Reflita. ' - Bem... concordo - ele disse, achando que com isso se livrara do problema. - Eu, em seu lugar, teria uma palavrinha com o chefe da portaria. Ele desconfia do senhor. Não se iluda a esse respeito. - Sei. Ele já fez algumas insinuações... - Esses "encardidos" são uns bisbilhoteiros, sr. Pugh. Está no sangue. Quanto a mim, sou um cavalheiro, como o senhor. Sei quando devo manter a boca calada, sobretudo quando se trata da reputação de Queenie. - Gosta muito dela. - Sem dúvida. - É uma bela menina. - Concordo plenamente. = E, pelo visto, sabe o que quer. - É verdade - disse Morgan. Tinha de reconhecer, apesar de tudo, que Queenie possuía a rara habilidade de levá-lo a fazer exatamente o que ela desejava, e Pugh era suficientemente perspicaz para perceber o fato. Ambos ficaram em silêncio por alguns instantes, como dois homens que temiam dizer "não" a uma mulher. Pugh experi- mentou um enorme alívio. Afinal de contas, conseguira se safar e nos melhores termos possíveis. Seria difícil para ele não pôr as mãos em Queenie, mas, sem dúvida, haveria outras garotas... - E então, chegamos a um acordo? - indagou Morgan. - Sim - confirmou Pugh, levantando-se e apertando a mão de Morgan, com um sorriso. - Pode dizer a Queeme que estamos entendidos, sr. Jones. - Nunca fui tão feliz! - declarou Heather Gomes, cheia de animação, enquanto ela e Beryl O'Brien tiravam os quimo- nos, após o espetáculo. "Provavelmente nunca mais voltarão a ser", pensou Quee- nie com amargura, contemplando-as. Não passavam de duas in- vejosas, mas não sentia a menor hostilidade em relação a elas. 92 ' 93 O fato de ter participado da peça e ainda por cima desempe- nhando um dos papéis principais devia tê-la deixado feliz, mas não foi o que aconteceu. Rememorava tudo o que havia aconte- cido aquela noite: o sr. Pugh bebendo até embriagar-se, o de- primente auditório do Instituto Ferroviário, com seu assoalho pouco limpo e cartazes que representavam cenas da vida rural inglesa dependurados nas paredes, Morgan com os olhos fixos nela, Vicky usando seu melhor chapéu, e o resto da família e dos parentes, com os rostos brilhantes de suor, vivendo, por suas filhas, aquele momento de triunfo, antes que elas se tor- nassem datilógrafas ou se casassem. Recordariam aquele momento durante anos a fio, muito depois que as garotas se tornassem mulheres gordas e casadas, abanando-se langorosamente nas va- randas de suas casas, enquanto esperavam os maridos voltar do trabalho. Queeme não tinha certeza do que queria, mas sabia que ambicionava algo melhor do que essa melancólica perspectiva. De vez em quando seu pai a chamava de "princesa". Pelo menos era o que todos lhe contavam, e aquilo se tornou uma espécie de recordação. Às vezes, sobretudo naquele momento, se sentia como uma princesa de um conto de fada que tivesse sido trocada no berço e confiada a pais errados. Fora cometido um terrível engano. Não pertencia àquele lugar, àquela gente, àquele país, onde todo mundo era mesquinho, rígido e medío- cie. O mundo ali se reduzia a uma estreita faixa de terra próxi- ma à estrada de ferro. Todos moravam em bangalôs deprimen- tes, onde "seu" povo fingia ser inglês e escondia-se da Índia. Aquela noite servira para lhe revelar algo; embora não con- seguisse nem cantar nem interpretar, as pessoas olhavam para ela. Havia recebido fartos aplausos, e ficou surpreendida ao per- ceber o quanto gostara daquela manifestação. Removeu a maquilagem, sem conseguir entender como as mulheres eram capazes de usar algo tão pegajoso. Vestiu-se e saiu do camarim improvisado. Ouviu as meninas conversando animadamente, com suas vozes muito cantadas. Provavelmente falavam a respeito dela. "Pois elas que falem", pensou. "Um dia ainda hei de ir embora daqui e nunca mais verei essa gente." - Como seria bom se fôssemos ricos, não? - disse Quee- nie com um suspiro. Fora necessário uma boa dose de persuasão para convencer Morgan a levá-la para tomar chá no Grande Hotel. Haviam de- corrido seis meses, e ela fazia quinze anos. Não perdera tempo. Se Pugh a ensinara a falar, Magda lhe transmitira o conheci- mento do mundo, ou o que ela denominava le monde, que, em sua maneira de entender as coisas, abrangia as roupas, os homens e os bons modos. Queeme a inquiria sem cessar, muito embora a maior parte das informações que Magda passava lhe parecessem um tanto inúteis. Com efeito, sua experiência com le monde se dera na Europa central, antes da I Grande Guerra. Magda ensinou a Queenie quais eram os melhores costurei- ros: Worth e Molyneux em Paris, Krivitsky em Viena e Baum em Budapeste, embora fosse bem pouco provável que a garota viesse a freqüentá-los. Magda ensinou-a como entrar com ele- gância em um salão, com passos lentos, cabeça erguida e alta- neira. Ensinou-a também a sentar-se, mostrando apenas um pe- dacinho da perna, "o suficiente para enfeitiçar, porém não mais", como passar a quantidade exata de batom a fim de chamar a atenção, sem exageros para não parecer aquilo que Magda de- nominava uma "vagabunda". Suas aulas incluíam a arte de usar uma roupa e estender a mão, para que a beijassem, em suma, como atrair e agradar a um homem. Só não ensinou, é claro, aquilo que mais os interessava. Com medo de Vicky, Magda decidiu que Queeme era ainda jovem demais para saber... Queeme havia emprestado um dos vestidos de Magda a fim de ir tomar chá no Grande Hotel. Era rosa-claro, com um bolerinho de seda, e Queeme preocupou-se tanto em não amarrotá-lo que mal conseguia sentar-se com naturalidade. Su- biu a majestosa escadaria do hotel em tal estado de terror que nem notou que todos os homens presentes não tiravam os olhos dela. 94 / 95 Ao chegar ao esplendor do salão do hotel, Queenie esqueceu- se imediatamente da pobreza e da decadência de Calcutá. Gar- çons vestidos de Jódhpurr brancos, turbantes carmesins e kurtar azul-escuros, que davam pelo joelho, carregavam bandejas de prata até as mesas de bambu, enquanto um conjunto de cordas indiano tocava deliciosas músicas ocidentais. Morgan olhou dentro da xícara, como se estivesse lendo o destino nas folhas de chá. Sentia-se pouco à vontade, e não só pelo fato de recear ser esnobado. No amplo salão havia muita gente que freqüentava o Firpo's e, sem dúvida, consideraria um grande atrevimento que um músico chee-chee tivesse a preten- são de comparecer ao Grande Hotel. - Quer dizer então que você gostaria de ser rica, Queeme? - perguntou. - Claro que todos gostaríamos, mas não esta- mos em tão má situação. - Sei que não morremos de fome, Morgan, mas olhe só aquela mulher. Aposto que seu vestido não foi feito em casa, numa prosaica máquina Singer. Parece um modelo de Worth ou de Molyneux. Queenie imaginou que estava pronunciando aqueles nomes corretamente. Eles pareceram não fazer o menor efeito sobre Morgan, mas é bem verdade que ele não tinha passado horas folheando as velhas revistas de Magda. - O bracelete de diamante que ela usa deve ter custado uma fortuna, se for verdadeiro... Morgan voltou a cabeça lentamente, com discrição, a fim de não dar a impressão de que era um bisbilhoteiro. A mulher, objeto dos comentários de Queeme, estava sentada à mesa ao lado. Era alta, magra, vestia-se com elegância e seus cabelos loi- ros estavam escondidos debaixo de uma boina de veludo cinza- pérola, enfeitada com um grande broche de diamante. Devia ter uns trinta e cinco, no máximo quarenta anos. O tempo e o clima do Oriente foram inclementes com sua pele. As mãos eram cobertas de sardas, o pescoço e os cantos dos olhos mostra- vam os primeiros sinais de rugas, mas o efeito era o de uma certa sexualidade ardente, óbvia para todo mundo, a não ser para seu companheiro, um inglês corpulento e vermelhão, que usava um terno branco e comia sanduíches com a paixão de quem não tinha almoçado. Ele tinha olhos saltados, rosto corado e um vasto bigode já meio grisalho. Concentrava-se a tal ponto no que comia que parecia não notar a presença da mulher a seu lado e nem mes- mo o quanto ela se aborrecia. A criatura acendeu um cigarro i' i com um isqueiro de ouro, tirou um pedacinho de fumo da ponta da língua com a ponta dos dedos, num gesto repleto de impa- ciêncIa, e seu olhar atravessou a janela, em direção à estátua de Lorde Mayo, um dos altos funcionários da administração bri- tânica na Índia, cujo rosto arredondado, onde avultavam os olhos saltados, lembrava demais o de seu companheiro. - São diamantes de verdade - comentou Morgan, voltando-se, ruborizado. - Como é que você sabe? - Esta senhora é Penelope Daventry. A Rua Daventry rece- be este nome por causa do bisavô do marido dela. Ele veio para a Índia nas primeiras décadas do século passado e abriu a primeira grande tecelagem de Calcutá. Construiu o velho Tea- tro Sans Souci na Rua do Parque e mais tarde fugiu com uma das atrizes. - E casou-se com ela? - Não, naquele tempo ninguém se casava com atrizes, Queenie. Não era nem um pouco apropriado. Viveram juntos durante muitos anos, e um dia o vestido dela pegou fogo, quando se encostou numa vela. Ela foi transportada'rapidamente para a casa ao lado, que era o palácio do arcebispo, e morreu na cama dele. As pessoas comentaram que era a única cama de Calcutá que ela ainda não conhecia! - Como é que você sabe tanta coisa sobre os Daventry? = A sra. Daventry é amiga, ou melhor dizendo, conhecida minha - revelou Morgan, enrubescendo ainda mais. - E o sr. Daventry? - Não o conheço pessoalmente. Costumo vê-lo lá no Fir- po's, de vez em quando. - Ah, sei. Queeme olhou para a sra. Penelope Daventry com renova- do interesse, ignorando Morgan, que se retorcia na cadeira, com a esperança de que a elegante criatura não o notasse. As unhas da sra. Daventry eram compridas, pontiagudas e de um verme- lho brilhante. Cada uma delas constituía uma pequena obra de arte. Queenie contemplou as próprias unhas, cortadas rente e sem esmalte, suspirando. Os sapatos da sra. Daventry eram de pele de lagarto cinza, sofisticadíssimos, de saltos tão finos quanto palitos de fósforo. Como será que ela fazia para não perder o equilíbrio, quando andava? Usava uma aliança simples, de ouro, e um magnífico anel de esmeraldas e diamantes, que combinava com a cor de seus olhos. Em torno do punho esquer- do brilhava um bracelete de esmeraldas e diamantes. ' Ela tinha toda a aparência de uma criatura esportiva, de uma dessas ricas mem-sahibr que guiavam, jogavam tênis, nada- varn e praticavam golfe. Seus braços nus eram finos, porém mus- 96 e 97 culosos; as pernas compridas, que ela exibia de modo um tanto óbvio, por estarem cruzadas, eram esguias, firmes e elegantes. Não havia nela sequer um centímetro de gordurinhas supérfluas. - Os Daventry são muito ricos? - Ricos e levam intensa vida social. Freqüentam o Clube de Calcutá, o hipódromo e todos os lugares elegantes. É um casal requintado. - Costumam freqüentar o Firpo's? - De vez em quando. Depende... - Eu gostaria de ir lá, pelo menos uma vez. - Impossível. Sua mãe jamais permitiria. - Ela não precisaria ficar sabendo. - O Firpó s não é lugar para uma menina. - Já não sou mais uma menina! Oh, Morgan, gostaria tanto de ver você tocando. Garanto que você abafa, no meio daqueles músicos! - Queeme, por favor... nem pense nisso! - Não consigo deixar de pensar. Queria ir e ficar lá quie- tinha no meu canto, só para ver como é. Oh, Morgan, por favor, por favor! Queeme inclinou-se e beijou Morgan, levando-o a corar mais uma vez. Encarou-a com certa severidade, tentando deixar bem claro, para quem vira o beijo, que ele era apenas o tio e, possi- velmente, o pai daquela garota. Não era um ato indecente entre um homem de sua idade e uma menina. Queeme apoiou o queixo nas mãos e encarou fixamente Morgan. Tirou um pé do sapato e, com os dedos, esfregou de leve a barriga da perna dele. - Pare com isso! - Só paro quando você disser que sim. - Pensarei no assunto - disse ele. Queenie riu, sabendo que tinha vencido. Sua risada cristalina sobrepôs-se ao quarteto de cordas que tocava Um rouxinol cantou em Berkeley Square. Inclinou-se mais uma vez e voltou a beijar Morgan, enquanto continuava a esfregar sua perna. Ele riu sem querer, pois sentia cócegas. - Oh, Morgan, eu gosto tanto de você! - Eu também gosto de você - ele declarou, parando de rir e apertando a mão de Queeme. A palavra "gostar" teria o mesmo significado para ambos? Morgan não questionava a inocência de Queenie, da mesma forma que não questionava o poder que a garota exercia sobre ele. I Ficaram sentados durante um bom tempo, encarando-se, de mãos dadas, enquanto os Daventry passavam por sua mesa e se retiravam. 9g Daventry precedia sua mulher. A sia. Daventry o seguia com lentidão e graça, e seu corpo esguio era tão ereto quanto o de uma atleta. Guardava a piteira e o isqueiro na bolsinha de contas douradas quando seu olhar, tão frio e inquieto quan- to o de uma cobra, pousou sobre Morgan. - Este lugar não é para você, Morgan - disse com a maior calma, sem se deter. Antes que Morgan pudesse levantar-se, ela já se retirara, fazendo um breve aceno para os homens presentes, que puse- ram os guardanapos de lado e levantaram-se, num gesto de cortesia. - O que dirá sua pobre mãe? - perguntou Magda. - Ela não ficará sabendo. - Morda a língua, menina! Nem sei por que estou discu- tindo este assunto com você. Devo estar louca: Imagine, uma criatura de sua idade indo a um clube noturno! Unglaublicb, inacreditável! Não é que eu me importe de lhe emprestar um vestido, mas esta idéia me parece uma loucura. - Oh, Magda, eu só quero ver como é o Firpo's! Magda embaralhou as cartas de tarô e pegou uma delas. - A Rainha com o Cetro, de cabeça para baixo - mur- murou, exibindo-a para Queenie. - É uma mulher vingativa, dominadora e traiçoeira. Não é uma boa carta. - Mas quem poderá ser? - Com toda a certeza não é sua mãe. Magda juntou o baralho com todo o cuidado, embrulhou-o numa tira de seda amarela e guardou-o no bolso do quimono. A Rainha com o Cetro, pelo visto, deprimiu-a. - Pensando bem, não sei se é uma boa idéia... - Oh; Magda, você prometeu! - Não prometi coisa alguma. 'Magda suspirou. Esmagou o cigarro num cinzeiro de bron- ze de Benares e imediatamente acendeu outro. Sempre que olhava para Queenie, via-se na mesma idade. Sua infância, para não falar de sua vida inteira, tinha sido tão povoada de decepções que ela não se sentia disposta a desapontar Queenie. Esta mor- dia o lábio, apreensiva, e as lágrimas começavam a inundar os cantos de seus olhos negros e luminosos. Quantos corações aquela menina haveria de partir um dia, peirsou, e como aquela dádiva era perigosa... - Acho que é uma insensatez de minha parte, mas pegue o vestido cor-de-rosa - disse, finalmente. - Queenie, trate de não se envolver em nenhuma encrenca... 99 Antes que ela terminasse de dar conselhos, Queenie abraçou- a com ardor, rindo, triunfante. Magda participou plenamente de tanta alegria. Como ocorria com freqüência, em se tratando de Queenie, sentia que voltava a ser jovem a ponto de cometer sua primeira loucura, aliás, inocente. Afinal de contas, refletiu, o Firpó s não era nenhum antro de drogados e, tendo a compa- nhia de Morgan, nada de mau poderia suceder a Queenie. - Se sua mãe souber, ela será capaz de matá-la! - gritou Peggy D'Souza, pois a orquestra tocava alto. - Você é a terceira pessoa a me dizer isso. - Pois então você conhece três pessoas que, pelo menos, têm algum juízo, a menos que inclua na lista seu tio Morgan. Nesse caso são apenas duas... Cor-de-rosa lhe vai bem, querida. Sabe, não está acontecendo muita coisa esta noite. Graças a Deus vou embora daqui. - Vai mesmo? - perguntou Queenie, aliviada por mudar de assunto. - Quanto a isto não há a menor dúvida! Vou para a In- glaterra, nosso lar. Atônita, Queenie encarou Peggy com uma ponta de inveja. - Para a Inglaterra? Mas como? - Estou noiva de um inglês, um homem de negócios. Va- mos viver em Londres. - Posso conhecê-lo? Ele está aqui? Peggy parecia estar nervosa. Enfiou um dedo na bebida e lambeu-o. - Ele se encontra em Bombaim, em viagem de negócios. O fato de uma garota ser noiva não significa que ela não possa divertir-se. - Ele é rico? - Será, quando chegar a Londres. Ele me explicou tudo, sabe? Não consigo me lembrar de todos os detalhes, mas tere- mos um monte de dinheiro quando formos para a Inglaterra. - Qual é o nome dele, Peggy? - Butts. Sid Butts. - Peggy olhou para a pista de dança, levantou-se e alisou as pregas do vestido. - Estou vendo al- guém conhecido. Fique aqui e seja boazinha! - Ela desapare- ceu na penumbra, deixando Queenie sozinha. O Firpo's não pareceu um lugar espalhafatoso a Queenie. Os candelabros coloridos, os espelhos manchados, o forro em forma de tenda lhe pareciam um mundo de fantasias, um ver- dadeiro sonho. Até mesmo a presença de Peggy D'Souza, que parecia preocupar-se com ela, não diminuiu seu entusiasmo. 100 Por volta de meia-noite a pista de dança ficou apinhada de gente. A fumaça dos cigarros tornava o ambiente denso, e o barulho das risadas e das conversas em voz alta quase abafava o som da orquestra. Por entre as nuvens de fumaça Queeme conseguia distinguir Morgan, que fazia questão de exibir-se para ela, saudando todos os seus conhecidos com um sorriso e um aceno de mão. Peggy não voltou para sua mesa e, pela primeira vez, Queeme experimentou um certo desapontamento e a sen- sação de ser deixada de lado. Era divertido, sim, estar ali e con- templar o que acontecia, mas não tão divertido quanto partici- par de tudo. Mal tinha formulado esse pensamento quando ouviu a voz de um inglês bem-educado. - Será que já não nos conhecemos? Queenie levou tamanho susto que chegou a corar, pois não notara ninguém se aproximando. Viu diante dela um rapaz encarando-a. Tinha um rosto de feições agradáveis, um bigode militar e o porte de um soldado. - Creio que não. É a primeira vez que venho aqui. - Que estranho... Seria capaz de jurar que a vi em algum lugar. Quem sabe foi no Clube de Turfe de Calcutá? Ou nos jogos de pólo? Queenie fez que não. - Ah, agora me lembro! Você fez grande sucesso outro dia no salão de chá do Grande Hotel. Mas por que está sozi- nha, se me permite a pergunta? - Estou só espiando. - Ah, sei... - Ele riu, como se Queenie tivesse feito um comentário engraçado. - Desculpe, estou sendo grosseiro. Não me apresentei. Meu nome é Nigel Goodboys. Sou tenente do Regimento Murray. - Do Regimento Murray? - Sim, os lanceiros da cavalaria indiana. É gente ótima! O regimento foi fundado por um camarada de nome Murray. Faz pouco tempo que você chegou à Índia? - Não, de modo algum. - Você ainda não me disse seu nome. - Queeme. - Queeme? Que engraçado! Bem, espero que ainda me revele seu verdadeiro nome, mas, por enquanto, fica sendo Quee- nie. Nada de se comprometer, concorda? Gostaria de dançar, Queenie? - Ele riu, embora Queenie não percebesse o que havia de tão engraçado assim com seu nome. - Bem, não sei... 101 A coisa que Queenie mais desejava no mundo era dançar, mas prometera a Morgan que ficaria sentada, muito bem com- portada e sem criar nenhum problema. Ainda assim Goodboys, com seu rosto corado e seu porte atlético, representava o tipo do inglês com que sempre sonhara. Era jovem, bonito e, sobre- tudo, um sabzb. Ele ergueu a sobrancelha, ao notar que ela hesitava, e re- solveu partir para o ataque direto, como um bom militar. - Será que estou avançando o sinal? Você, provavelmente, deve esperar alguém, não é? Não quero dar em cima da garota de algum camarada, mas é que há algum tempo a venho notan- do sozinha, e daí... Além do mais, francamente, quem deixa uma garota estonteante como você sozinha mais de um minuto bem merece que os outros se aproximem. Queenie riu e levantou-se, notando a admiração no olhar de Goodboys. - Você também está sozinho? - ela perguntou, enquanto tomava o braço que ele oferecia, permitindo que a conduzisse até a pista de dança. ~Í - De modo algum - ele disse, passando o braço em tor- no de sua cintura e puxando-a para si. - Vim acompanhando o casal Daventry. Quando a orquestra começou a tocar, Queenie notou com o rabo do olho dois rostos familiares. A uma mesa ao lado da pista de dança sentava-se o sr. Daventry, com a aparência de uma versão inglesa de Buda. O dinner jacket estava aberto e revelava um estômago proeminente. Sua atenção dirigia-se intei- ra para a garrafa de champanha que o garçom abria, em substi- tuição àquela que flutuava no balde de prata, sobre a mesa. Ao lado dele, esguia, elegante, com os ombros e os braços nus, a sra. Daventry usava um audacioso vestido prateado, que parecia ser pintado sobre seu corpo. Seu olhar deteve-se em Quee- nie, nos braços de Goodboys. j Queeme cantarolou, enquanto se dirigia ao toalete. Dança- ' ra três vezes seguidas com Nigel Goodboys, apesar do ar de reprovação de Morgan, que não tirava o olho dela. Goodboys comportara-se como um verdadeiro cavalheiro, ao contrário do sr. Pugh. Sua mão esquerda repousara com firmeza nas costas de Queenie, sem descer mais abaixo, embora ele quase encostas- se o rosto no dela. Mostrou-se tão correto quanto encantador. Era também um dançarino perfeito, e Queenie sentiu-se obriga- da a se desculpar por sua falta de jeito. - Não, não, de modo algum, você simplesmente está ten- sa. - Goodboys encostou seu rosto no dela e cantarolou baixi- nho, até Queenie sentir que relaxava em seus braços. j', 102 - Sabe, é apenas uma questão de se abandonar - ele disse, entre uma música e outra. - Faz de conta que isto aqui é uma cerca. Se você ficar tensa, o cavalo percebe e você é joga- da da sela. Se relaxar, o cavalo pula a cerca e dá tudo certo. Você costuma caçar? - Não sei montar. - Ora, vamos, você está caçoando de mim! Sua expressão tornou-se sombria de repente, e ele assumiu um ar de culpa, - Você há de me achar terrivelmente grosseiro, mas acon- tece que prometi dançar com Pempy. Estávamos nos divertindo tanto que cheguei a esquecer. Ela deve estar furiosa. Goodboys conduziu Queeme até a mesa, prometeu voltar assim que pudesse e foi desculpar-se junto à sra. Daventry. Não parecia nem um pouco preocupado. Era o tipo do rapaz que tinha plena convicção de que tudo acabaria dando certo, um típico .rabib que acreditava que Deus era um inglês parecido com ele, apenas mais velho. A fortuna, as mulheres e os oficiais mais graduados sempre sorriam para Goodboys e provavelmente continuariam a fazê-lo. Queenie o achou simplesmente esplêndido. Nunca conhe- cera alguém como ele e não percebia que existiam milhares de ingleses como o rapaz. A exemplo das garotas anglo-indianas, eles murchavam cedo. Os rostos rosados tornavam-se avermelha- dos, os corpos esguios engrossavam, na gordura da meia-idade, o bom humor era corroído pela bebida, pelas promoções e pelo casamento. Dentro de uns dez anos Goodboys seria provavel- mente um major colérico e começando a ficar careca. Sentaria em sua poltrona favorita, de onde reprimiria seus jovens subal- ternos; suas inspeções semeariam o terror nos corações dos sol- dados do regimento, e jogaria pólo como um verdadeiro manía- co, a ponto de ter uma insolação. Para Queeme, porém, ele era o príncipe encantado em pessoa, ainda mais que ele a acei- tara como alguém que pertencia a seu próprio mundo! Observou-o sumir na penumbra e então foi até o toalete contemplar-se no espelho. Achava difícil acreditar que ainda era a mesma pessoa. O luxo do toalete era maior do que esperava. A parede era coberta com papel dourado e havia à disposição das senho- ras uma mesa de maquilagem, igualmente dourada, além de um espelho grande e bem iluminado. Queenie foi até o lavatório e, ao sair, viu alguém sentada à mesa de maquilagem, de costas para ela. Notou que eram costas particularmente elegantes, nuas, a não ser por duas alças 103 muito finas, recobertas com contas prateadas. Queenie viu o rosto da sra. Penelope Daventry refletido no espelho. Sua bolsa de prata estava aberta, e ela retocava os lábios com batom de um vermelho vivo. Tinha a concentração absoluta de alguém entregue a uma tarefa que exigia absoluta precisão. Prendeu a respiração no momento em que a ponta do batom tocava em seus lábios, delineando-os com exatidão. A sra. Daventry guardou o batom na bolsa e, como uma gata preguiçosa, passou a ponta da língua nos lábios. Sorriu, satisfeita com o que via, acendeu um cigarro e colocou-o na piteira. A seu lado encontrava-se um pequeno frasco de metal, contendo uísque. Ela se voltou, tomou um gole, deixando a marca do batom na borda do frasco, e cerrou os olhos durante alguns momentos, como se estivesse sentindo dor. O pesado bracelete de diaman- tes chocou-se contra o frasco, provocando um som musical. A sra. Daventry agora parecia mais velha do que quando Queenie a vira no salão do Grande Hotel, e seus olhos verdes refletiam um brilho mortiço. Com uma sensação desagradável na boca do estômago, ocorreu a Queenie que aquela elegante mulher estava bêbeda. Queenie dirigiu-se até a porta, mas de nada adiantou. O olhar da sra. Daventry seguiu-a, exercendo o mesmo efeito de uma cobra sobre sua presa. A luz impiedosa das lâmpadas em torno do espelho, o rosto daquela mulher tinha, com efeito, algo de réptil, um réptil coberto de jóias, vigilante, lustroso... Queenie tinha a sensação de que ela iria sibilar a qualquer mo- mento, mas, em vez disso, a sra. Daventry simplesmente tragou sua elegante piteira, soltou a fumaça sem piscar e manifestou-se com sua voz fria e precisa. - Vejam só quem está aí... A menina bonita, que faz sucesso! - Já estou saindo... - É mesmo? Por certo Nigel Goodboys está à sua espera, menina. Ele está muito entusiasmado com você. A voz da sra. Daventry era como uma arma mortífera, re- quintada ao extremo, mas que, em nenhum momento, disfarça- va uma profunda hostilidade. Ela era capaz de arrasar com qual- quer pessoa sem que houvesse necessidade de se alterar. - Dancei com ele apenas duas vezes - disse Queenie, tentando desculpar-se, mas sem se humilhar. Não tinha a me- nor intenção de hostilizar aquela mulher, em cujo mundo dese- java tanto entrar. i A intenção de Queenie não teve o menor efeito. A sra. Daventry limitou-se a sorrir de modo muito desagradável, er- 104 guendo ligeiramente as sobrancelhas, o que lhe deu uma ex- pressão muito irônica. - Deixe-me dizer-lhe uma coisa, menina - manifestou- se, com voz ao mesmo tempo cordial e ameaçadora. - Tire suas patinhas dele ou arranco-lhe os olhos. Não gosto de gente oferecida. - Mas foi ele quem me tirou para dançar! - Com toda a certeza, mas você certamente o encorajou. - A sra. Daventry suspirou. - Ah, os homens! Passam a agir como perfeitos idiotas quando encontram uma garota bonita, por mais vulgar que seja. - Não sou vulgar! - protestou Queenie, espantada com a própria coragem. A sra. Daventry encarou-a por alguns instantes, examinando- a dos pés à cabeça. - É vulgar, sim. Para início de conversa, veja só este seu horrendo vestido cor-de-rosa... nada poderia ser mais vulgar. Já nos vimos antes, não? - Acho que não. - Vimo-nos, sim. Jamais esqueceria um rosto como o seu. Ah, já sei! Era você quem estava com Morgan Jones no salão do Grande Hotel. Até mesmo o tonto do meu marido a notou. Sabe que posso acabar por detestá-la, senhorita? Já vi dois de meus homens em sua companhia. Será que não consegue um homem só para si? O que a sra. Daventry queria dizer com aquilo? Não pas- sou pela cabeça de Queenie que ela pensasse em Morgan como um de seus homens, e jamais fora objeto de tamanha hostilida- de por parte de um adulto. Aquela mulher tinha a mesma ida- de de sua mãe, por mais glamourosa que fosse. Queenie ficou estarrecida e, ao mesmo tempo, decidiu ser delicada. - Não tive a menor intenção de atrapalhar - disse com timidez, consciente de que falava como uma criança. A descul- pa, porém, não exerceu o menor efeito sobre a sra. Daventry. - Atrapalhar? Ora, vamos deixar de infantilidade! Escute aqui, fulaninha, não sei quem você é, mas, se não ficar em seu lugar, garanto que se arrependerá. Você está metendo o na- riz onde não deve. E, por falar nisso, como se chama? - Queenie. - Queeme? - A sra. Daventry encarou-a com desprezo. - Queenie. Queenie? Mas que diabo de nome é esse? - O meu. - Não banque a espertinha. Posso saber como é que você conheceu Morgan? - É meu tio, sra. Daventry. 105 Í` A mulher sorriu com uma ponta de amargura. Inclinou-se, pegou na mão de Queenie e puxou-a para junto de si, examinando-a como se ela fosse um objeto à venda. - Acho que você está dizendo a verdade. Sobrinha de Mor- gari! Devia ter imaginado. Cabelos escuros, maçãs salientes, o olhar... Agora estou percebendo a semelhança. Que engraçado! Quer dizer então que você é apenas uma chee-chee.r se fazendo passar por branca! Mal posso esperar para contar a Nigel. Ele não suporta chee-chee.r. Costuma dizer que não são nem uma coisa nem outra. Reúnem o que há de pior das duas raças, sem ter as qualidades de ambas. Queeme tentou desvencilhar-se da sia. Daventry, mas a mu- lher a segurava com firmeza. A zombaria e o ódio haviam trans- formado seu rosto em uma máscara grotesca. Subitamente pare- ceu a Queeme velha e feia, e suas unhas rijas cravavam-se no pulso da garota. Queente percebeu que tremia inteira não tanto de medo quanto de humilhação. Nos braços de Goodboys permitiu-se acre- ditar, por alguns momentos, que era tão inglesa quanto ele. ;'~ Enquanto ela permanecesse na Índia, seria uma simples chee- ' Chee, uma mestiça: - Meu pai era inglês! - gritou, sabendo perfeitamente que não era verdade. O Tigre Kelley era irlandês, o que, aos olhos da sia. Daventry, era tão desprezível quanto ser chee-chee ou ainda mais. - Ah, percebo... Ele devia pertencer a essa ralé que traba- lha nas estradas de ferro. Ouça aqui, sua galinhazinha chee- chee: de agora em diante não saia mais do poleiro a que você pertence! A voz da sia. Daventry alterou-se. Antes não passava de um murmúrio ameaçador, mas agora esganiçava-se e, pela primeira vez, Queeme sentiu medo. A mulher apertou o pulso de Quee- nie com mais força. O delineador dos olhos escorria, devido ao suor ou às lágrimas, e o canto de sua boca escarlate torceu-se. - Você acha que está com tudo, não é, sua vagabundinha? Com esses olhos de quem é boa de cama, esses peitinhos gosto- sos e sabendo que esse bando de homens cretinos a cobiçam. Não tem importância. Gente de sua laia não dura muito tem- po, meu bem. Quando tiver vinte e cinco anos será uma vaca negra e gorda e amamentará pelo menos meia dúzia de negri- !; nhos! Você deve ser igualzinha a sua mãe. Queeme mal percebeu que gritava, enquanto se debatia para livrar-se das mãos da sia. Daventry. Ouviu alguém berrar a plenos pulmões: "Não admito que fale assim de minha mãe!", mas a voz não pareceu ser sua, pois jamais gritara com alguém, i 106 sobretudo um adulto. Então, sem refletir, como se os instintos de seu avô galês e de seu pai irlandês finalmente emergissem, esticou o braço esquerdo e deu uma sonora bofetada na sia. Daventry. Fez-se um momento de completo silêncio, enquanto Quee- nie aguardava a punição por seu ato de audácia. O que aconte- ceria? A sia. Daventry chamaria a polícia? Despencaria um raio do céu que, atravessando o teto forrado de cetim, a fulminaria? Queenie sentia-se confusa, aterrorizada, atônita com o que aca- bara de fazer. Nada sucedeu, porém. A sia. Daventry simplesmente ficou sem ação, como se o tapa a tivesse paralisado. Seu autocontrole voltou quase instan- taneamente, como se jamais a tivesse abandonado. Havia em seu olhar uma expressão fria e distante. Ela encarou Queeme como se fosse uma criatura completamente estranha, como um objeto inanimado, sem valor ou interesse, como se uma mera chee-chee fosse alguém muito abaixo de seu desprezo. - Preciso retocar minha maquilagem - ela disse calmamente. Queenie dirigiu-se até a porta. Tremia e, a despeito do calor, o frio quase a paralisava. A única coisa que desejava era estar em casa, longe daquele lugar, e esquecer o que acabara de ocorrer, embora soubesse ser impossível. Finalmente desco- brira pór si mesma o que significava ser uma chee-chee. Tinha a sensação de que iria vomitar, mas, acima de tudo, estava decidida a não exibir suas lágrimas para a sia. Daventry. Abriu a porta e nesse momento ouviu a voz da mulher, baixa e ameaçadora, que falava sem se voltar para ela. - Não duvide que farei tudo o que estiver a meu alcance para que as portas de Calcutá se fechem para você, menina. Depois que eu a tiver liquidado, não haverá sequer uma firma ou estabelecimento inglês que a aceite. Acho melhor se apressar e casar-se logo com algum ferroviário chee-chee, pois não conse- guirá outra coisa. Agora feche a porta, vamos! Queenie saiu correndo. Soluçava com o rosto banhado de lágrimas. Passou com tamanha rapidez por Alberto Firpo que ele mal teve tempo de erguer a sobrancelha, intrigado. Deixou para trás a orquestra e Morgan, que a fitava sem entender o que acontecia. Não prestou atenção no corpulento porteiro szkh, que se oferecia para chamar um táxi, e viu-se no meio da rua. Os ruídos e odores de Calcutá envolveram-na. Viu-se subi- tamente pressionada de todos os lados, esmagada, sufocada pela multidão. Percebeu que a maior parte das pessoas a encarava, 107 alguns com curiosidade, outros com total indiferença. Nas ruas escuras levantavam-se do chão vultos encarquilhados, gritando, suplicando, amaldiçoando. Queenie continuou a correr, desorientada, tentando escapar daquelas verdadeiras trouxas vivas de trapos, virou numa esqui- na e viu-se em uma pequena praça, tão repleta de gente que parecia um verdadeiro formigueiro, habitado pela miséria. Em todos os lugares havia mendigos andrajosos, e muitos exibiam horrendas deformidades. As mulheres embalavam em seus bra- ços, finos como um palito, bebês magérrimos, fracos demais pa- ra chorar; prostitutas pintadas, com os rostos tatuados, riam e debochavam de Queenie, com os lábios manchados de verme- lho, devido ao hábito de mascar noz de bétel. Entrou em um beco escuro e chocou-se com uma mulher coberta de véus espessos, que grasnou como uma gansa feroz, escandalizada com o rosto e os ombros nus da garota. O calor era insuportável, pois estavam na semana que pre- cedia a monção. A cidade inteira e toda a Índia estavam aprisio- nadas em um casulo de calor, aguardando arquejantes a chega- da das chuvas. Na direção do ocidente, muito além da baía de Bengala, vastas nuvens negras elevavam-se acima do mar oleoso e sombrio, iluminadas de vez em quando pelos relâmpagos, en- quanto a monção acumulava forças. Se ela tardasse mais alguns dias, a terra morreria, pois, sem a chuva, as colheitas se perde- riam, os poços secariam e a fome se desencadearia. O atraso da monção significava a morte para milhões de pessoas. Quando chegava, no entanto, não proporcionava alívio, pois a chuva precipitava-se com violência. As inundações devastavam o cam- po, ilhas inteiras eram arrastadas, desaparecendo no mar junta- mente com seus habitantes, como se nunca tivessem existido. Queeme fez uma pausa, quase sem respiração. A cabeça lhe doía e também o peito, devido ao esforço. Sentiu todo o peso da Índia abatendo-se sobre ela, esmagando-a com a força de suas tradições, com sua monstruosa indiferença em relação à vida e à morte, e seus costumes imutáveis, que zombavam da mudança, da esperança e da juventude. Naquele lugar nada existia para ela, a não ser a humilhação e o desperdício. O que lhe acontecera aquela noite serviu para deixar tudo isso bem claro. Queeme enxugou os olhos e contemplou o que estava a sua volta, desesperada. Estava em um beco fétido, um entre as centenas ou talvez milhares que corriam pela cidade, como um labirinto sem sentido e que não levava a lugar algum, inidenti- '¡ I ficável a não ser para quem ali vivia. De repente, em meio à escuridão, notou um pequeno gru- po de homens, eram uns doze, talvez mais, que se levantavam 108 rapidamente da calçada. Davam a impressão de estar catando lixo, mas, ao verem-na, interromperam sua tarefa. Gritaram, mas ela não conseguiu entender o que diziam. Ao preparar-se para sair correndo, eles a rodearam, com os braços compridos e ma- gros estendidos, numa atitude de súplica ou de ódio. Queenie tropeçou no cascalho escorregadio que cobria a rua e perdeu um sapato. Nos escuros recantos, de cada lado do be- co, conseguia distinguir figuras enrodilhadas, que a observavam em silêncio. Voltou-se e viu-se frente a frente com o rosto me- donho de um mendigo, a apenas alguns palmos de distância. Encolheu-se, ao deparar com os tocos podres de dentes, o véu branco da cegueira e orelhas com as pontas corroídas. Não con- seguiu nem mesmo perceber a que sexo pertencia a criatura. Uma mão magra tocou seu punho. Queeme recolheu a mão rapidamente e saiu correndo, mas tropeçou, caindo. De repente estava em cima de uma trouxa de trapos sujos e malcheirosos. Sua mão resvalou em algo macio, quente e escorregadio. Enoja- da, ela fez o possível para não tomar conhecimento do que se tratava. Queenie fechou os olhos e percebeu o quanto estava ofe- gante. Esperava ser violentada ou assassinada a qualquer mo- mento, mas até mesmo tal perspectiva era menos aterrorizante do que tocar ou ser tocada por alguém daquela gente. Sentiu uma mão-roçar seus braços e tentou gritar, mas a única coisa que saiu foi um gemido uma súplica de piedade. A mão segurou-lhe o braço com força, e ela ouviu uma voz firme e bondosa. - Por favor, não se assuste, senhorita. Siga-me. Queenie permitiu que seu salvador, caso ele o fosse de fato, a ajudasse a se erguer e saiu mancando atrás dele. O homem ia um pouco adiante, guiando-a através da escuridão. Murmura- va qualquer coisa e carregava uma espécie de bastão, com o qual repelia quem se encontrava nas ruas. Todos se apartavam silenciosamente, dando-lhe passagem. - Aonde vamos? - indagou Queenie, que ainda não ti- nha conseguido normalizar a respiração. - Paciência, paciência, senhorita - murmurou o homem, remexendo suas roupas e delas tirando uma pesada chave de ferro, que mostrou a Queenie com ares de conspirador. - Te- nha confiança em seu humilde servo, sr. Bos Brammachatrarya. Ele abriu uma portinhola de ferro e, com um gesto de cortesia, deu passagem a Queeme. Seguiu-a e trancou a porta com muitas precauções. Ao ouvir o barulho da tranca, Queenie sentiu que entrava novamente em pânico, embora agora que o sr. Brammachatrarya 109 se voltava, ela visse diante de si uma figura nada assustadora. Para início de conversa, tratava-se de um homem imensamente gordo, o que lhe dava um aspecto quase grotesco. Além do mais, como tantos indianos, adotara roupas européias, sem mesmo se- guir inteiramente a moda. Como se sentisse na obrigação de fazer um gesto de defe- rência aos conquistadores britânicos, o sr. Brammachatrarya mis- turava um colete negro, desabotoado, com um dhoti branco. Suas pernas estavam protegidas até a panturrilha por jodhpurs brancos e estreitos, que lhe davam a aparência de gordas salsi- chas, mas, por baixo, trazia meias de seda negras, ligas verme- lhas e sapatos ingleses muito bem engraxados. Na cabeça levava um chapéu colonial branco e, na mão esquerda, um guarda- chuva preto. Sorriu timidamente para Queenie e; com todo o cuidado, dependurou o guarda-chuva em um gancho, ao lado da porta. Seu rosto era tão redondo e gordo que os olhos se reduziam a duas pequeninas fendas escuras. Mesmo no estado em que se encontrava, Queenie não pôde deixar de notar seu brilho perspicaz. Ele usava um pince-nez com aro de ouro no grande nariz, cujas bordas simplesmente mergulhavam na carne abun- dante que o cercava. O sr. Brammachatrarya afastou uma cortina toda feita de contas, revelando um pequeno aposento, do qual se avistava o pátio escuro. O assoalho estava coberto de tapetes e almofadões puídos. Não havia nenhuma peça de mobiliário europeu, a não ser um cofre velho e antiquado. Em cima dele se encontrava um par de enormes galochas de borracha. Pelo visto o sr. Bram- machatrarya preparava-se para enfrentar a violência das mon- ções. Em um dos lados da saleta via-se um pórtico isolado por uma cortina, por detrás da qual era possível ouvir alguém resso- nando profundamente. O sr. Brammachatrarya fez uma reverência, sentou-se pesa- damente em um dos almofadões, cruzou as pernas com conside- rável esforço e, com um gesto, convidou Queenie a fazer o mesmo. - Não gostaria de tomar um refresco? Sem esperar resposta, ele gritou, bateu palmas, voltou a gritar com mais força e, do pátio, ouviu-se uma verdadeira tor- rente de protestos indignados, pois, afinal de contas, já era bem tarde. - O chá será servido logo - disse, bem-humorado e, na opinião de Queenie, com excessivo otimismo, pois não havia o menor indício de que suas ordens estavam sendo cumpridas. - Onde é que me encontro? - ela perguntou. - Senhorita, a questão não é saber onde, mas por quê. A Rua dos Ladrões não é lugar para uma jovem de boa família. - Eu me perdi..: O sr. Brammachatrarya sorriu com benevolência, como se o fato de ter diante de si uma jovem com um traje de noite cor-de-rosa, ainda que manchado e amarrotado, e ainda por ci- ma calçando apenas um sapato, fosse perfeitamente normal. - Perdida? Como assim? - indagou, cruzando as mãos sobre a vasta barriga. - Estava no Firpó s e resolvi sair para tomar um pouco de ar na rua. - Ah, o Firpo's! Conheço esse lugar! Bem divertido, não acha? Por um momento Queenie achou que o sr. Brammachatrar- ya estivesse caçoando dela, mas o homem irradiava tamanho en- tusiasmo e boa vontade que ela pôs esse pensamento de lado. - O senhor conhece o Firpo's? - perguntou, admirada. - Claro que sim. Quem não conhece? É claro que nunca estive lá. Os indianos não são bem aceitos. Os prazeres de um lugar como esse são desconhecidos para nós, pobres indianos. Somos selvagens, ignorantes... Nossos homens e mulheres não dançam juntos... Como é mesmo seu nome? - Queenie. Queenie Kelley. O sr. Brammachatrarya acenou, como se já soubesse desde o inicio. - Muito bem - disse, embora fosse difícil saber se apro- vava seu nome ou se estava contente com a chegada do chá. Um jovem muito sério surgiu no pátio, carregando uma bande- ja, que depositou ruidosamente no chão. - Obrigado. - O sr. Brammachatrarya passou uma xícara a Queenie. - Não há nada melhor do que um bom chá. - Grata por me salvar. - No fundo, não havia nenhum perigo, senhorita - ob- servou o anfitrião, servindo-se de açúcar. - Pois eu tive a sensação de que o perigo era imenso. - É mesmo? É bem verdade que essa gente é muito po- bre. Os pobres muitas vezes parecem perigosos àqueles que se encontram em boa situação, mas isso não é correto, na maior parte das vezes. Não passam de catadores de papel e trapos, mendigos, talvez ladrões um tanto inofensivos. Não é nada sé- rio... mas trata-se da rua deles. Imagino que sua presença lá seja tão pouco bem-vinda quanto se eles fossem pedir esmolas em frente a sua casa. E, falando nisso, será que ninguém está a sua procura? Pela segunda vez ocorreu a Queenie que o sr. Brammacha- trarya podeìia não ser tão bondoso e acolhedor quanto parecia. 110 ! 111 i Já ouvira falar de "traficantes de escravas brancas". Desconfiada, deu um jeito de cheirar o chá, imaginando se não conteria al- guma droga. O anfitrião pareceu ficar muito incomodado com o gesto. - O chá não está bom? - perguntou, preocupado. Queenie fez que sim, um pouco envergonhada. - Acho que já devem estar me procurando, sim. - Quee- nie imaginou que Morgan possivelmente estivesse zangado de- mais para procurá-la, mas, em todo caso, era bem pouco prová- vel que se embrenhasse pelas ruelas daquela parte da cidade. Com certeza presumiria que ela, de alguma forma, já estaria a caminho de casa. - Sim, sem dúvida. Seus amigos sentirão falta de sua pre- sença e ficarão preocupados. Não se incomode, senhorita. Tome tranqüilamente o chá e lave-se. Darei ordens a meu criado para que a leve sã e salva até sua casa. O sr. Brammachatrarya deu um sorriso tranqüilizador, reve- lando um par de dentes de ouro. Ofereceu a Queenie um prato com doces, de aparência um tanto pegajosa. As moscas estavam presas neles e suas asas zumbiam enquanto tentavam se livrar. Ela recusou, mas o sr. Brammachatrarya não se ofendeu. Pôs o prato no joelho e comeu os doces um por um, sem se inco- modar com as moscas. - Sou louco por doces - explicou, lambendo o açúcar que ficara nos dedos. - É uma pena que a senhorita não possa conhecer minha cara-metade. A sia. Brammachatrarya já está recolhida e, de qualquer forma, só fala hindi. - Eu também falo - disse Queenie, arrependendo-se imediatamente. - É mesmo? Mas que bom! Mas não nasceu na Inglaterra? - Não. - E onde mora, senhorita? O rosto redondo do sr. Brammachatrarya exprimia indisfar- çada curiosidade, como se ele estivesse ansioso por aumentar seus conhecimentos dos costumes europeus. Ocorreu a Queenie que ele, provavelmente, tinha poucas oportunidades de conver- sar com europeus e sentiu-se tentada a mentir. Se lhe contasse onde morava, ele ficaria sabendo que era anglo-indiana e pode- ria muito bem trará-la com o desprezo de um hindu de casta alta a uma mestiça. Não conseguiu faltar à verdade. Havia na- quele homem uma grande bondade, e ele não o merecia. - No bairro de Chowringhee. - Ah! - O sr. Brammachatrarya sorriu, pois, sem dúvida, suas suspeitas se confirmavam. - Não há por que se envergo- nhar - declarou com firmeza. 112 Queenie sentia que relaxava em sua presença. Conhecia pou- cos indianos cultos e compartilhava muitos dos preconceitos de Morgan contra eles. O sr. Brammachatrarya, no entanto, era um homem de grande inteligência e encanto pessoal, que a tratava como um ser adulto. Não era altivo, como os ingleses, e nem susceptível e inseguro, como seu próprio povo. Parecia estar muito satisfeito com o que era. Queenie finalmente experimentou o chá e constatou que era delicioso. - Se nasceu na Índia, então nada do que acontece aqui deveria assustá-la - ele comentou. - Este é seu lar. - Meu lar é a Inglaterra. - Oh, perdoe-me, mas não é bem assim. Há uma parte sua que é indiana, srta. Queenie. Sabe, não estou completa- mente de acordo com Gandhi, o grande líder. E como poderia estar? Afinal de contas, vivo de emprestar dinheiro aos outros, prospero com a miséria alheia. No entanto, em relação a deter- minados assuntos, ele tem toda a razão. Os ingleses não perma- necerão para sempre na Índia e, quando partirem, teremos de viver juntos sem eles. O mesmo acontece com sua gente. - Não somos indianos. - E quem é indiano? - O sr. Brammachatrarya ficou sé- rio. - Somos hindus, mulçumanos, sikhs e sabe-se lá o que mais... Alguns de nós são, como é mesmo que vocês se cha- mam?, europeus residentes, ou anglo-indianos ou eurasianos. Só seremos plenamente indianos depois que os ingleses se forem. - Eles jamais partirão. - Partirão, sim, srta. Queenie, quanto a isso não há a menor dúvida. Entre os seus há muita gente que sabe disso, sobretudo os líderes da comunidade, o estimável sr. Frank An- thony, o distinto coronel Gidney. Não gostam da idéia, veja bem, mas sabem que acabará acontecendo. Quando chegar esse dia, a senhorita será indiana, como todos nós. - Fomos criados para sermos ingleses. - É verdade, e na minha opinião foi uma atitude insensa- ta. Mas vocês serão mesmo ingleses? Acaso eles os acolhem em seu regaço? São bem recebidos em suas casas e em seus clubes? Queenie ia discutir, mas lembrou-se da atitude da sia. Da- ventry e calou-se. - Aceite o fato de que é indiana e nós a aceitaremos de braços abertos. - Talvez... - Não se trata de talvez, senhorita. Seu futuro está aqui. Quanto mais cedo aceitá-lo, melhor. E, quando o aceitar, mais nada que aconteça nas ruas a deixará assustada. E por que deve- ria deixar? A senhorita também será indiana. 113 O sr. Brammachatrarya inclinou-se e deu um tapinha amis- toso no joelho de Queenie. Ela esboçou um gesto de recusa. Tratava-se de um futuro que não podia admitir. - Irei para a Inglaterra, que é meu lar - afirmou com teimosia. Para sua grande surpresa, percebeu que aquilo era as- sunto resolvido. Nada mais conseguiria detê-la, depois do que acabara de acontecer. - Bem, se quiser mesmo ser inglesa, então vá. Muita gen- te sua acaba indo. Não sei até que ponto são bem-vindos lá. A senhorita é uma jovem bonita e, sem dúvida, tudo se torna possível, mas talvez seu caminho não seja tão suave assim... O sr. Brammachatrarya bateu palmas e o criadinho embur- rado surgiu com uma tigela de água e uma toalha. O sr. Bram- machatrarya, num gesto delicado, cerrou os olhos, enquanto Queenie lavava o rosto e alisava o vestido. Abriu-os assim que ela terminou e deu um vasto sorriso. - Muito melhor! O criado irá buscar um par dos sapatos da sra. Brammachatrarya e lhe mostrará o caminho. A senhorita voltará para casa com a velocidade de um passarinho! O sr. Brammachatrarya não se levantou para acompanha-la até a porta, pois não era um costume hindu. Juntou as palmas das mãos e baixou a cabeça tanto quanto sua papada o permi- tia, num gesto de reverência. - Passei momentos muito agradáveis conversando com a senhorita - fez questão de dizer, antes que o criado abrisse a porta. - Se algum dia eu puder ser útil, por favor, avise-me. Vá até o velho bazar e pergunte por mim. Todos sabem onde me encontrar. Ele se levantou com surpreendente agilidade e desapareceu por detrás da cortina. Morgan sentiu-se tão aliviado por ver Queenie voltar sã e salva que pouco demonstrou de sua irritação, embora fosse visí- vel o esforço que fazia para se dominar. Passara meia hora ten- tando pensar como explicar a Vicky que a perdera de vista e, quando Queenie voltou, estava banhado de suor. Ela o encontrou sentado a uma mesinha com Peggy D'Sou- za, durante uma pausa da orquestra. - Você nos pregou um tremendo susto, querida - disse Peggy. - Morgan mandou dois dos guarda-costas do clube à sua procura. Esses encardidos! Não valem nem o pouco arroz que comem! Entre as muitas coisas que Queenie aprendera com Pugh incluía-se a capacidade de distinguir as diferentes pronúncias, o que se tornou uma espada de dois gumes. Antes, quando notava uma diferença, não a ligava a uma noção de classe social. Agora, porém, tornara-se supersensível. Reconheceu que o mo- do de Peggy falar era tremendamente vulgar. Seu toque chee- chee era tão forte que ela jamais poderia passar por uma inglesa. Queenie gostava de Peggy D'Souza, e o fato de acha-la vulgar a fez sentir-se desleal e esnobe. Ao mesmo tempo agradava- lhe saber que falava melhor do que sua amiga, o que contribuía para aumentar seu sentimento de culpa. Corou e ficou com mais raiva de si mesma. Ultimamente aquilo ocorria com freqüência. - Onde é que você foi parar? - perguntou Morgan com severidade. Queeme pensara profundamente no assunto, a caminho de casa, e achou que faria mal em contar que havia estapeado a sra. Daventry. Morgan, com toda a certeza, acharia que a culpa era sua, e não da sra. Daventry, com quem, pelo visto, estava um tanto envolvido. - Não me senti bem - ela mentiu, voltando a corar. - Não é de admirar. O calor está simplesmente insuportá- vel. - Peggy abanou freneticamente o amplo decote com um pequeno guardanapo. Parecia um tanto desanimada, e Queeme percebeu que a noite de sua amiga seria um fracasso total, caso ela tivesse de limitar-se a ficar sentada ao lado de Morgan e compartilhar suas preocupações. - Oh, Peggy, sinto muito - disse com sinceridade. - E eu, como é que fico? - A irritação de Morgan era visível, e ele ameaçava explodir a qualquer momento. Queenie percebia todos os sinais de sua cólera: os olhos que se estreita- vam, o ligeiro tremor dos lábios, a voz que se alterava. Ele fica- va péssimo quando sentia que alguém o colocava em má situa- ção, e o fato de Queenie ter praticamente fugido do Firpó s o deixou constrangido. - Desculpe se o preocupei, Morgan. - Afinal de contas onde foi que você se meteu? - Fui até lá fora tomar um pouco de ar e me perdi - explicou Queenie, conciliatória. Não sentia a menor vontade de brigar com Morgan e tornar aquela noite ainda mais desagradá- vel. - Felizmente um bondoso senhor hindu me socorreu. - Um encardido? - perguntou Morgan, franzindo o cenho. - Sim... ele me serviu uma xícara de chá. - Como? Você foi até a casa dele? - Morgan, era um homem gordo e inofensivo. Eu ainda estaria perdida, andando pelas ruas do bazar, se não fosse o sr. Brammachatrarya. 114 a 115 i~ í is~', ;i Morgan encarou-a, atônito, e esfregou os olhos, como al- guém que tivesse acabado de ouvir uma notícia catastrófica. - Puxa, você sabe escolher seus amigos a dedo, não? Este sujeito é um ladrão conhecidíssimo. - Mas o sr. Brammachatrarya pertence a uma casta alta. - E daí? Ele é um receptador, um homem que faz negó- cios com mercadorias que outros roubam. - Mas ele disse que vivia de emprestar dinheiro. - Entre outras coisas... Se sua mãe soubesse... Um inglês de meia-idade, um tanto rechonchudo, apro- ximou-se e pôs a mão no ombro de Peggy. Não prestou a me- nor atenção a Morgan, como se ele simplesmente não existisse. - Vamos dançar? - perguntou a Peggy. Usava um pince- nez de aros de ouro, com uma larga fita negra enfiada na lape- la. Tirou o pince-nez durante alguns instantes, fascinado com o decote da garota, e dirigiu-se a Queenie. - Não quero interrompê-las. - O homenzinho voltou a pôr o pince-nez, desta vez para examiná-la. Durante alguns instantes pareceu hesitar, como se tivesse escolhido a criatura errada, mas, ao notar o olhar de Morgan, que o fuzilava, puxou apressadamente a cadeira de Peggy. Morgan acendeu um cigarro, tentou fazer um anel de fu- maça e fracassou. Faltava-lhe habilidade para aquilo. Queenie desconfiou que era um dos pequenos truques a que ele recorria, a fim de disfarçar o fato de que não tirava os olhos dela. Em casa, quando saía do banheiro vestida de camisola, surpreendia Morgan sentado na varanda, treinando para fazer os tais anéis. Percebia, porém, que ele não parava de olhá-la. Na hora do chá, sentia-se observada e surpreendia-o encarando-a, enquanto fingia ler o jornal. Naquele momento a expressão do olhar de Morgan não era nem um pouco encorajadora. Muitas vezes ela tinha a im- pressão de que ele a culpava pelo fato de não conseguir deixar de encará-la, como se fosse culpa dela. Era profundamente in- justo, pois não podia modificar sua aparência e muito menos o efeito que parecia causar em Morgan. Ainda assim não conse- guia controlar-se e flertava com ele de vez em quando, pois não tinha mais ninguém com quem fazê-lo. O copo dele estava vazio, e Morgan acenou para o garçom, pedindo mais uma bebida. Ocorreu a Queenie que ele estava um pouco alterado. - Pelo amor de Deus, conte a verdade, agora que Peggy foi dançar - ele pediu, inclinando-se e diminuindo o tom de voz. - O tal de Goodboys disse ou fez algo que a tenha assus- tado? Mostrou-se atrevido demais? 116 - Não, ele se comportou como um perfeito cavalheiro. - Esses são os piores... Queenie olhou em direção à pista de dança, onde Peggy D'Souza dançava de rosto colado com o inglês. As inglesas, fu- riosas com sua petulância, lançavam-lhe olhares de desprezo. De repente ela se sentiu deprimida e exausta. - Morgan, quero ir para casa. - Vai ter de esperar. Só fico livre daqui a uma hora. - Quando disse casa eu me referia à Inglaterra. - E o que todos nós queremos, Queenie. - Pois falemos disso. Ninguém toca no assunto. - Não é nada fácil, Queenie. - Peggy irá para a Inglaterra. - Ela tem sorte de se casar com um inglês, o tal de Butts. - Eu me casaria com um inglês se fosse necessário. Poderia ser qualquer um, contanto que ele me levasse para lá. Além do mais, o que há de errado em se casar com um inglês? - Nada. Depende do inglês... - Não me importo. Para ir para a Inglaterra eu me casaria com qualquer pessoa, repito. Não recuaria diante de nada. - Não fale assim. - Morgan já não olhava mais com in- sistência, mas com tristeza e afeição. Voltara a ser o tio camara- da, quase um companheiro de infância. - Não se venda bara- to, menina. - Estou falando a sério. Faria qualquer coisa pelo homem que me levasse embora daqui. Odeio este lugar. Morgan levou a mão à testa dela, como se Queenie estives- se com febre. - O que aconteceu hoje à noite? Tenho direito de saber. Ela mordeu o lábio. Era preferível que Morgan ouvisse sua versão do que sucedera, antes que lhe chegasse aos ouvidos, atra- vés de terceiros, a versão da sra. Daventry - A sra. Daventry destratou-me no toalete das mulheres só porque eu dancei com Nigel Goodboys. - Então foi isso? - Morgan riu. - De fato, ela tem uma língua bem afiada. Estava com uma cara de poucos amigos, quan- do saiu do toalete. Dançou mais uma vez com Goodboys e foi embora. Daventry teve de pedir a conta antes mesmo de jantar, coitado! - Morgan, não foi nada engraçado. Ela me xingou de chee- chee vagabunda. Nunca vi uma pessoa tão indignada. Além do mais, ameaçou-me. - Ameaçou-a? - Sim, disse que fechará todas as portas de Calcutá para mim. 117 - Tenho certeza de que ela não estava falando a sério - disse Morgan, nervoso, ajeitando o nó da gravata. Suspirou e de repente pareceu muito desanimado. - Meu Deus, por que isso foi acontecer? - Acha que ela pretende de fato fazer o que disse? - Bem, dizem que cão que ladra não morde... As pessoas nem sempre levam até o fim suas intenções. - Levam, sim, quando se sentem atingidas. - De certo modo Queenie sentia-se aliviada por não ter contado toda a verdade. - Meu Deus, que noite... - Sinto muito. - Não foi culpa sua. - Morgan tinha o hábito de desculpar-se por coisas que não eram de sua responsabilidade. Afinal de contas, fora ela quem o convencera a levá-la ao Fir- pó s. Dançara com Goodboys, brigara com a sia. Daventry e fu- gira. No entanto, sempre que Morgan errava, ele negava o fato com profunda teimosia e procurava sair-se bem. Naquele mo- mento, porém, parecia tão arrependido que Queenie quase lhe pediu desculpas por lhe fazer tantas exigências. - O sr. Brammachatrarya disse-me algo, enquanto tomáva- mos chá. Em certo sentido foi tão preocupante quanto as amea- ças da sia. Daventry. Declarou que, quando chegar a indepen- dência, todos nós teremos de aprender a ser indianos. Acha que é verdade, Morgan? - Claro que não. É o tipo da opinião que só mesmo um "encardido" pretensioso pode ter. - Morgan tomou o último gole da bebida e sacudiu a cabeça com tristeza. Não conseguia mentir para Queenie. - Pensando bem, acho que é possível. Claro que a independência ainda vai demorar muito, se é que irá acontecer um dia... - Você sempre me disse que ela está chegando. - Creio que sim. Vai ser um verdadeiro banho de sangue. - Gostaria tanto de ir embora... - Você é jovem demais. - Não quero esperar para sempre. Na minha idade você também não queria ir? - Queria, sim, e ainda quero, ora essa! - E, no entanto, ainda está aqui. Fez-se um silêncio constrangedor. Queeme lembrava-se de que Morgan sempre falava em ir embora, mas também dizia que era preciso "esperar o momento certo". Chegou à conclusão de que, se dependesse dele, o momento certo jamais chegaria. Ele não estava disposto a planejar ou lutar pelo momento de ir para a Inglaterra. Na mente de Morgan era algo como ganhar na loteria. Ele corou, evitando seu olhar. - As coisas não são tão simples assim, Queenie. Além do mais, há a questão do dinheiro. - Poderíamos economizá-lo, Morgan. Ele a encarou, surpreendido. Percebeu que Alberto aponta- va com impaciência para o relógio de pulso, fazendo sinais de que já estava na hora de ele voltar a tocar. - Como assim, poderíamos? - Iremos juntos - ela declarou com firmeza. - Olhe, Alberto está impaciente. - Ele que se dane. Acho que você está falando a sério, não? - Mas é claro que sim. - Pois então é um trato, Queeme. - Jura? Ele pareceu um tanto surpreso com a seriedade com que ela se exprimia, mas Queeme o encarou fixamente. Não iria permitir que ele roesse a corda. Sabia que Morgan era um ho- mem de palavra e considerava-se um cavalheiro. Além do mais, jamais conseguiria quebrar uma promessa que lhe fizesse. - Juro - ele declarou finalmente, com a expressão depri- mida de um homem que havia se permitido cair numa armadilha. 118 119 G Ela amava as cores vibrantes e o sol. Seu coração bateu !í mais forte quando entrou no escritório com lambris escuros, as persianas baixadas, a fim de evitar a luminosidade, o mobiliário l requintado de mogno estofado de couro, sofás e poltronas tão ¡;i grandes que pareciam feitos para uma descomunal raça de gi- games. já sabia que os ingleses detestavam cores berrantes. Seus lares, escritórios, clubes e estações de estrada de ferro eram fiéis reproduções das construções vitorianas, nas quais se sentiam tão à vontade. Os rostos severos, nos retratos a óleo pendurados nas pare- des, encaravam Queenie com o desprezo altivo de um pukka sahzb. Alguns tinham a barba feita e usavam perucas empoadas. Outros exibiam as barbas abundantes de um sahib vitoriano, mas todos eram corados, tinham olhos claros, azuis ou cinza- azulados. Durante alguns instantes teve a sensação de que, ao contemplar seus cabelos e olhos escuros, eles começariam a gri- tar em coro: "Ela é uma chee-chee!" Só quando se sentou é que reconheceu o inglês gordo que a recebia. Era o mesmo que dera um tapinha no ombro de Peggy, convidando-a para dançar no Firpo's. Seu rosto cheio e rosado parecia mais severo naquele lugar, onde se encontrava em posição de autoridade. Era a personificação do pukka sahib, com seus cabelos louros que já ficavam grisalhos, um terno branco feito sob medida, nariz avermelhado e uma expressão a indicar que seu tempo era mais valioso do que o dela. Para grande alívio de Queenie ele não pareceu reconhecê- la, e não havia a menor razão para tanto. Afinal de contas, ele a vira apenas por alguns segundos, há mais de um ano. Além disso, após deixar a escola, ela mudara inteiramente o penteado, com a intenção de parecer mais velha. O sr. Chubb pôs o pince-nez, que ficou imediatamente embaçado, devido ao calor, o que o obrigou a olhá-la por cima das lentes. Queeme logo percebeu que suas pernas eram o foco da atenção daquele homem, e não seu rosto, o que lhe tornava mais difícil reconhecê-la. Para poder observá-la melhor, ele se vira obrigado a afundar na cadeira e encostar o queixo no peito, assumindo posturas de um verdadeiro contorcionista. Num ges- to malicioso e proposital, Queenie cruzou lentamente as pernas, apontando um dos pés para o tapete. Magda lhe ensinara que isso dava à barriga da perna um formato mais arredondado, ao mesmo tempo em que valorizava a delicadeza do tornozelo. O acerto do conselho de Magda foi confirmado pela expres- são de Chubb. Ele pegou o formulário preenchido por Queenie, no qual solicitava emprego, e pigarreou, numa atitude ostensiva. Examinou-o, e finalmente a encarou. - Será que já não nos conhecemos? - Creio que não, sr. Chubb - disse Queeme, achando melhor não admitir que tinham se encontrado no Firpo's. - Eu seria capaz de jurar... Não costumo esquecer o rosto de ninguém, sou bom fisionomista, sobretudo quando se trata de alguém como você. Bem, não importa, srta. Kelley. Seu pai é irlandês? - Sim. - Bem, confesso que sou muito aberto em relação a ques- tões desse tipo. A senhorita é uma européia residente. Não se trata de uma pergunta, mas de uma afirmação. Quecnie concordou. - Para ser franco, devo admitir que, no momento, preferi- mos contratar indianos. Não gostamos deles mais do que a se- nhorita, mas trata-se de uma questão pólítica. Como sabe, o governo vive falando em independência. E uma bobageira, mas se acontecer, queremos ter muitos indianos trabalhando conos- co. A gente precisa precaver-se, não é mesmo? O sr. Chubb achou muita graça no que disse e, tirando um lenço de seda do bolso, assoou-se ruidosamente. Voltou a contemplar o papel que tinha nas mãos. Queenie imaginou se ele estava tendo algum problema em decifrar sua letra. Com efeito, a caligrafia não era um de seus trunfos. Para ser sincera, quanto mais procurava um emprego, menos confiança tinha em sua capacidade. Um rápido curso de datilografia havia servido para confirmar o fato de que jamais conseguiria dominar a má- quina. As teclas se encavalavam e, quando tirava cópias com papel-carbono, este deslizava, e as linhas saíam todas tortas. Além do mais, cometia muitos erros de gramática. Vicky a acusava de não se empenhar a fundo e tinha toda a razão. Queeme detestava a máquina de escrever, o papel- carbono que lhe sujava os dedos e, acima de tudo, a idéia de ser datilógrafa. . No máximo admitia ser recepcionista em um 121 120 escritório elegante, mas a maior parte das firmas inglesas nãc admitia contratar uma européia residente como recepcionista, ocupando um lugar onde todo mundo poderia vê-la. - Estudou no Colégio Santo Antônio? - indagou Chubb. - Sim. - Mas prestou os exames finais? - Prestei, sim, senhor, só que não passei. - Bem, esperamos que nossas candidatas sejam formadas... deixe para lá. Teste de datilografia. Hum, não foi muito bom, não? - A máquina era um tanto dura e eu não estava acostu- mada com ela. - Não me admira. Eu também não me dou muito bem com máquinas. Mesmo assim, srta. Kelley, suas qualificações pa- ra o emprego são... como diria?, são um tanto insatisfatórias. - Prometo me esforçar, sr. Chubb. - Não duvido, não duvido. - Chubb pôs o papel de lado e examinou-a dos pés à cabeça. Levantou-se, aproximou-se e en- costou a mão úmida de suor em seu ombro. - É claro que certas capacitações não são tudo. Existem outras habilidades maio- res do que bater a máquina, não é mesmo? - Creio que sim. - Sabe, os negócios são coisa séria, senhorita... não se in- comoda se eu a chamar pelo nome? Ela concordou, e agora a mão de Chubb transpirava muito. Esperava que ele não manchasse sua blusa. - Os negócios são coisa séria mesmo! Tem de se trabalhar muito, e as responsabilidades são grandes. Um homem na mi- nha posição leva uma vida bem atribulada. Muitas vezes tenho de ficar aqui até tarde da noite. Quando chega a época de gran- de calor, a mem-rahab e as crianças vão para as montanhas, on- de passam meses a fio. A gente se sente solitário, mas é preciso conformar-se e ir adiante. Do que a gente precisa é de alguém que divida conosco esse fardo, que seja leal, de boa vontade, e discreta... Queeme sabia muito bem que, com o sr. Chubb, se aven- turava muito mais do que queria, mas era a décima ou décima segunda entrevista por que passava, sem o menor sinal de em- prego. Não tinha a menor dificuldade de imaginar aonde aque- le homem queria chegar, com seus modos insinuosos, e nem lhe passava pela cabeça preencher a solidão de suas noites, quando a esposa estivesse ausente, ou se ele ficasse até tarde no escritó- rio. No entanto, uma vez empregada, talvez conseguisse contor- nar o problema. Magda certamente teria uma idéia a esse res- peito. Sempre sabia o que fazer, quando se apresentava seme- lhante situação. - Sou leal e discreta - afirmou. Deixou de lado a ques- tão da "boa vontade", e Chubb pareceu não notar. - Esplêndido! Não podia ser melhor... - Suas mãos re- chonchudas deslizaram pelas costas de Queenie. - Você, é cla- ro, trabalhará bem próximo a mim. Será minha secretária pes- soal e, quando eu tiver de trabalhar até tarde, ficará comigo. Precisará treinar um bocado a datilografia. Começará ganhando cinco libras por semana, mas, se as coisas derem certo, como espero que aconteça - a esta altura, Chubb deu uma piscada muito significativa -, pode estar segura de que serei bem mais generoso. Concorda? Cinco libras por semana! A Queepie aquela quantia pare- cia imensa. Havia muitos marmanjos na comunidade de anglo- indianos que não ganhavam mais do que aquilo. Vicky ficaria encantada, e até mesmo Morgan ficaria impressionado. Além do mais, a firma de Chubb era uma das empresas comerciais mais famosas de Calcutá. Todas as suas colegas de classe ficariam pálidas de inveja quando soubessem que ela estava trabalhando lá e, ainda por cima, com um inglês. - Aceito, sr. Chubb. Ele esfregou as mãos, satisfeito. Cantarolando, examinou de novo o formulário preenchido. - Vou até a sala ao lado comunicar a meu sócio sua con- tratação. Em seguida um contínuo a levará até a seção de conta- bilidade, a fim de que cuidem da papelada. Não me demoro. Chubb retirou-se e Queenie pôs-se a contemplar as fotos em cima da mesa. Havia lá o retrato de uma mulher de ar um tanto severo, com brincos de pérolas, olhando para a câmera com ar de reprovação. Com toda a certeza se tratava da sia. Chubb. Outro retrato mostrava duas crianças gordas e feiosas montadas em cavalinhos. A porta se abriu e Chubb entrou, pigarreando. Agora pare- cia menos expansivo e até mesmo um tanto constrangido. Sentou- se pesadarriente e a encarou com ar de reprovação. - Sinto muito, mas acho que há um problema. - Por acaso será minha falta de prática como datilógrafa? - Não, não... mas acho que não poderemos contratá-la, srta. Kelley. - Mas por que não? O senhor afirmou que o emprego era meu! Chubb suspirou, bem pouco à vontade. Estava tão decep- cionado quanto ela, mas por diferentes razões, além de um tan- to envergonhado. - Não posso lhe dizer, mas a senhorita já deve estar des- confiando. 122 , 123 Saber com toda a certeza ela não sabia, mas começava a adivinhar por que era tão difícil arranjar um emprego. - Por acaso é a sra. Daventry? - Fazemos muitos negócios com a firma de Daventry - revelou Chubb, sem encará-la. - É tudo o que posso dizer. Sinto muito. Para bom entendedor, meia palavra basta. Queenie levantou-se, fazendo o possível para não chorar diante de tamanha injustiça. Chubb tocou a campainha, para que um contínuo viesse acompanhá-la, e não se levantou. - Em seu lugar, Queenie, iria embora de Calcutá enquan- to ainda é jovem. Você tem uma aparência e tanto, e irá longe, mas não aqui. Ela ficou parada diante dele, fervendo de raiva. - Será que não existe ninguém com coragem suficiente para enfrentar a sra. Daventry? - Você a enfrentou e veja só o que conseguiu. - Agora Chubb se exprimia com desprezo. Tinha ficado em situação ri- dícula, oferecendo-lhe um emprego e, em seguida, retirando a oferta. Culpava Queeme por estar em situação tão constrange- dora. - Além do mais, ela é das nossas, o que não acontece com você, a não ser pela metade... - Ele voltou a examinar a papelada em cima da mesa, sem levantar os olhos. - Condu- za a srta. Kelley até a porta - disse com frieza, quando o contínuo apareceu. Não se despediu nem a encarou, quando ela se retirou. Nunca passou pela cabeça de Queeme que um dia se recor- daria do tempo de escola com ternura, mas o ano que se seguiu foi tão cheio de humilhações, tédio e decepções que o passado chegou a lhe parecer idílico. Não tinha dinheiro, a não ser a mesada que recebia de Vicky ou os trocados que Morgan lhe dava, e, pelo visto, o futuro era negro. . O pior de tudo era que Morgan parecia não fazer o menor progresso quanto ao cumprimento de sua promessa. O tempo todo encontrava desculpas para adiar seu compromisso com Quee- nie. Nem ao menos economizava dinheiro. Era preciso, porém, ser justo: ele não tinha como economizar o suficiente para fi- nanciar a viagem dela para a Inglaterra. O único prazer de Queenie era o cinema, pois desde que fizera quinze anos Vicky foi convencida de que um filme por semana não fazia mal algum, contanto que não fosse muito "sensacionalista", e que Morgan ou Magda a acompanhassem. Desde o início o cinema pareceu mais real a Queenie do que a vida e, sem a menor dúvida, mais sedutor. Morgan gostava de acompanhar Queeme. Apreciava sentar- se ao lado dela no escuro, e sempre lhe comprava balas, mas costumava ser um companheiro irritante. Preocupava-se excessi- vamente com detalhes e sempre queria saber por que algo acon- tecera ou o que significava, enquanto Queeme apreciava o filme em si. Seu tédio só era ligeiramente atenuado por se saber tão bela quanto grande parte das estrelas de cinema. É claro que não sabia atuar, mas e daí? De uma coisa tinha plena certeza: enquanto permanecesse em Calcutá, não tinha muitas chances de "ser descoberta", como acontecia com tantas estrelas. Queenie ficou tão perturbada com a rejeição de Chubb que Morgan a levou ao cinema no meio da semana, para ver Marla Negresco em Casamento real, que, aliás, a decepcionou. Marla Negresco era, sem dúvida, linda, embora um pouco mais gorducha do que muitas estrelas. Mas, ao que tudo indicava, a transição do cinema mudo para o cinema falado lhe fora um tanto ingrata. Seu sotaque era pesado, indicava sua origem eu- ropéia. Era ainda mais pronunciado do que o de Magda, e a maior parte do que ela dizia era incompreensível. Essa atriz não vai longe - profetizou Morgan, enquanto saíam na noite chuvosa. Do outro lado da rua um cartaz em uma agência de turismo fazia propaganda de uma linha de va- pores para a Inglaterra. Enormes letras vermelhas anunciavam que sempre era possível fazer reservas. - Tem visto a sra. Daventry ultimamente, Morgan? - per- guntou Queeme, quando entraram no carro. Morgan olhou através do vidro lavado pela chuva. Do outro lado da rua havia centenas de pessoas e seus dohtis brancos contrastavam com os guarda-chuvas negros, de tal modo que pareciam fazer parte da arquitetura da cidade. - De vez em quando - ele respondeu, dando de ombros. - E ela fala com você? - Devo dizer que minha cotação com ela anda em baixa. - Por minha causa? Ele fez que sim. O assunto, pelo visto, o deixava ainda rnais tristonho, mas Queeme o pressionou. - Vocês dois eram amantes, não? - Ora essa, Queenie! - Bem, não sei qual outro nome dar a isso. - Tivemos uma espécie de caso, sim... - Ela gostava de você? - Recuso-me a respondçr. - Queenie encarou-o com in- sistência. - Não, ela não me amava de modo algum. - E você por acaso a amava? - Claro que não! 124 'a 12 5 - Mas então... - As pessoas de vez em quando têm um caso, e nem sem- pre isso envolve... amor. A sra. Daventry tem muitos casos em que o amor não entra. - Sei. E por que acabou, Morgan? - A coisa não acabou, conforme você diz - declarou Mor- gan com impaciência. - Eu costumava visitá-la de vez em quan- do, ou melhor, quando ela mandava me chamar. Há algum tem- po isso começou a se tornar menos freqüente, e agora já não acontece mais. - Sente falta dela? - De maneira alguma - declarou Morgan com ênfase, mas Queenie percebeu que ele mentia. Por mais difícil que ela fosse, a sra. Daventry fazia parte do mundo que Morgan tanto ambicionava. - Ela conversou com você a meu respeito? - Não. Ela faz questão de me ignorar. Vi-a na semana passada, coberta de diamantes, como sempre. Acenei, mas ela simplesmente virou o rosto, sorrindo. - Lembro-me do bracelete que ela usava. Deve valer uma fortuna. - Creio que sim. Quem pode afirmar o valor exato dessas coisas? - Faça um cálculo. - Não tenho a menor idéia, Queeme... Talvez milhares de libras, uma quantia que nós dois jamais veremos. - O suficiente para pagar nossa passagem até a Inglaterra e ainda sobraria. Não é justo... Dentro do carro estava quente, úmido e abafado. Queenie sentiu o suor escorrer e a sensação lhe foi muito desagradável. Achou difícil imaginar Morgan na cama com a sra. Daventry. Estudou-o com o canto do olho, vendo-o pela primeira vez sob um novo aspecto. Não havia como negar que ele era bonito. Os olhos escu- ros, levemente amendoados, como os dela, era um dos sinais de sua origem indiana. Tinha os ombros largos e a cintura es- treita do avô de Queenie, a julgar pelos retratos do velho. Em- bora raramente fizesse exercícios, o corpo de Morgan era tão atlético quanto o de um soldado. Havia algo de sensível em seu rosto, uma certa tristeza que algumas mulheres deviam achar atraente, até pelo fato de contrastar com os rostos duros, agressi- vos, auto-suficientes de seus maridos. As mãos de Morgan eram as de um músico, com dedos longos, ainda mais longos do que os dela. Queeme orgulhava-se de suas mãos, uma razão a mais para odiar a datilografia. Fechou os olhos e tentou lembrar-se das mãos da sra. Daventry. Eram compridas, bem cuidadas, com unhas de um vermelho vivo, que excluíam a possibilidade não só de bater a máquina como de exercer qualquer tarefa doméstica. Do que Queeme se lembrava com mais clareza era do bracelete, com seus diamantes quadrados que refletiam a luz, enquanto as esmeraldas emitiam um brilho esverdeado. Será que a sra. Daventry tirava o bracelete quando ia para a cama com Morgan? Queenie abriu os olhos. Morgan parou diante do sinal de um policial, que segurava um guarda-chuva preto em cima da cabeça coberta por um turbante, enquanto a outra mão dirigia o tráfego. Do outro lado da rua um bando de mendigos estava deitado na calçada, abrigado debaixo dos guarda- chuvas e sacudindo debilmente suas tigelas, à espera de uma esmola. - Como seria bom dar o fora desta cidade, pelo menos uma vez... - disse Queenie, suspirando. Morgan deu a partida, assim que o policial fez um sinal, e olhou para os mendigos. Um deles parecia estar morto. O guarda-chuva caíra de lado, e seus olhos, dos quais se via apenas o branco, pareciam contemplar a chuva. A boca se abri- ra, como se ele tentasse beber as gotas de chuva. A mão rígida, que agarrava o cabo do guarda-chuva, era pouco mais do que uma garra negra e murcha. Nenhum dos outros mendigos pare- cia ter notado. O mais provável é que simplesmente não se im- portavam. - Fora da cidade? Como assim? - Poderíamos fazer um piquenique, mas só nós dois. - Queenie baixou os olhos, forçando uma expressão de recato e timidez, e encostou de leve a perna na de Morgan. Seria o sufi- ciente? Esperava que sim. Não tinha a intenção de ir mais adiante. - Um piquenique? E, depois, vai querer mais o quê? - Por que não? - Queenie inclinou-se e o beijou rapida- mente. - Por favor, Morgan - murmurou. - Talvez, se é que esta chuva vai parar... - Mal posso esperar. - Mas eu ainda não disse que sim. - Mas é como se tivesse dito! Queeme sentiu-se triunfante. Percebeu, com muita clareza, que uma vez que Morgan contraísse o hábito de fazer pequenas concessões, as grandes capitulações logo se seguiriam. Era apenas uma questão de tempo. 126 a 127 A exemplo da maior parte dos anglo-indianos de Calcutá, Morgan era essencialmente um homem da cidade. A Índia, para G além das ruas de Calcutá, constituía para ele terra desconhecida. Um piquenique, da mesma forma que uma caça ao tigre, era- lhe uma idéia um tanto absurda, embora vibrasse diante da ï ¡ perspectiva de se deslocarem para um lugar distante e esqueci- do, onde enfrentariam o desconforto, o calor e a presença dos nativos. Ainda assim, Morgan dispunha-se a satisfazer a vontade de Queenie por motivos que não desejava admitir nem mesmo pa- ra si, e também porque se envergonhava por não ter feito ne- nhum progresso em seus planos de ir para a Inglaterra. Quando pensava nisso, as dificuldades lhe pareciam insuperáveis, e era j mais cômodo deixar simplesmente que os dias se escoassem, sem f" fazer absolutamente nada. Morgan projetou realizar um piquenique no Jardim Botâ- nico, mas sabia perfeitamente que isso de modo algum satisfaria Queenie. Consultou então o sr. Bisram Chauduri, que tomava conta dos empregados indianos no Firpó s. - Há alguns belos jardins em Chitpore - sugeriu Chauduri. - Mas que tolice, homem! Chitpore ainda é Calcutá. De lá a gente avista a Companhia de Gás. O sr: Chauduri torceu as mãos, preocupado. Raramente pe- I: diam seus conselhos em tais assuntos, e ele temia ser responsá- vel por um fracasso. - Vou levar uma jovem em minha companhia - explicou Morgan, a fim de justificar a aparente excentricidade de seu pedido. - Shivapur! - exclamou o sr. Chauduri, sorrindo ampla- mente, como se tudo tivesse ficado claro. - Não existe lugar mais belo! Levaram quase meia hora para atravessar a ponte Howrah, tal era o congestionamento de pedestres, ônibus, carros, carroças puxadas por bois, além de mendigos. Com suas monumentais edificações construídas em estilo pseudogeorgiano, o lado leste do rio Hooghly parecia uma imitação barata de Londres, a não ser quando ocorriam as inundações, na época das monções. Transformava-se então em uma caricatura de Veneza, com as ruas repletas de água. O lado oeste era ainda pior. Ao longo do rio Hooghly estendiam-se as docas, as fábricas de juta e peque- ' nas indústrias. A fumaça que se desprendia delas misturava-se com a das piras funerárias. Seguia-se um vasto labirinto de be- cos sem nome, repletos de choupanas miseráveis, construídas em meio à lama ou à poeira, conforme a estação. Mais adiante as cabanas se tornavam mais raras. Agora a estrada cortava uma planície pouco acidentada, pontilhada de pequeninas aldeias um pouco menos miseráveis do que as cerca- nias de Calcutá. Somente quando estavam a alguns quilômetros de distân- cia de Calcutá é que o estado de espírito de Queenie se modifi- cou, a despeito da ansiedade com que aguardara aquele dia. Morgan, que também se sentira bem melhor depois de sair da cidade, guiava despreocupado, assoviando. Tinha o ar de um verdadeiro sahib e era como se sentia. No banco de trás, em completo silêncio, ia o khitmatgar, expressamente providenciado pelo sr. Chauduri, com uma cesta de piquenique nos joelhos. Com efeito, estava fora de cogitação que um sahib ou alguém que se vangloriasse de ter uma gota de sangue europeu servisse a própria comida: Morgan aceitou sua presença com muita relutância, sacrificando as vantagens da privacidade ao prestígio do homem branco, ou de alguém que assim se pretendia. Inicialmente, Queenie ficou um tanto aborrecida com a pre- sença de Ahmed, mas, como a maior parte dos europeus na Índia, tinha o hábito de ignorar os criados, como se eles sim- plesmente não existissem. Em todo caso, sentiu-se grata por sua presença, pois, sem a ajuda do khitmatgar, Morgan estaria per- dido. " Ahmed raramente falava, mas, quando se aproximavam de um cruzamento, ele pigarreava com gravidade e murmurava: "À direita, sahib". Seus modos mostravam certa deferência, mas, ao mesmo tempo, transmitiam uma autoridade distante. Na metade da manhã, Queenie começou a sentir finalmen- te,a presença de algo ao mesmo tempo familiar e misterioso: a India das lendas, intocada pelas cidades e pelos ingleses. Não existia nada de romântico na Índia onde ela vivia, embora ocor- ressem algumas surpresas no bairro de Chowringhee. As duras realidades daquele país tão maltratado pareciam cercar as ruas limpas e os jardins dos bangalôs, prontas para irromper a qual- quer momento, sob a forma de um urubu que derrubava um osso humano no gramado, um cachorro louco perambulando pelas ruas, um chacal invadindo um jardim ou uma serpente avistada nas proximidades das casas. Ela suspirou de prazer e admiração ao ver um menino pe- queno levando dois elefantes até o rio, a fim de se banharem. Os grandes animais caminhavam silenciosamente por entre as árvores. Suas trombas ondulavam preguiçosamente, e suas patas levantavam a poeira, de tal forma que pareciam desaparecer no meio de uma nuvem dourada, criada por eles mesmos. A testa 128 a 129 do elefante que ia na frente estava pintada com cores brilhan- tes, como se fosse um desenho infantil, e havia um círculo ver- G melho em torno de seus olhos, dando-lhe a aparência de um `' palhaço. - O elefante está pintado para alguma cerimônia? - per- i l guntou Queenie, mas Morgan não sabia. Aliás, para sua grande surpresa, ele encarava os elefantes como mais um exemplo do `' ~' absurdo senso de prioridade dos indianos. Era um povo que se dava ao trabalho de pintar um elefante, enquanto suas casas caíam aos pedaços, devido à falta dos cuidados mais elementares. A alguns quilômetros a leste de Shivapur a estrada tornava- se bem estreita e serpenteava por entre colinas ondulantes cobertas de arbustos. Os campos eram cultivados e de vez em "¡ ~, quando surgiam cemitérios, com seus montículos baixos. A vida e a morte se alternavam e eram manifestações do mesmo espírito. Queenie avistou à distância um grande conjunto de árvo- res. Era um verdadeiro milagre naquela paisagem, um oásis no f deserto. O carro entrou numa alameda cercada de bambus de ambos os lados, formando um túnel verde, e saiu numa clareira. - Shivapur - anunciou Ahmed. Inicialmente Queenie viu pouca coisa que pudesse justificar aquela viagem tão longa e incômoda. Desceu do carro e olhou em torno de si. Compreendeu então que estavam no cimo de uma colina coberta de bambu e de árvores frondosas. Abaixo deles se estendia a aldeia. Os tetos das casas, feitos de junco e vime, harmonizavam-se tão bem com a folhagem que quase se tornavam invisíveis. Adiante deles, bem perto da clareira, ha- via um templo entre o arvoredo. Era constituído de três estia- nhos monólitos, corroídos pelo tempo, e cada um de altura di- ferente. Tinham o formato de bala e, quando examinados mais detidamente, exibiam uma superfície caprichosamente esculpi- da. Queenie protegeu os olhos e viu algo movendo-se. - Macacos! - gritou. Como se quisessem confirmar o fa- to, eles irromperam em guinchos e assovios ensurdecedores. O barulho provocou um alarido entre as aves abrigadas no bosque de bambu. Como costumava acontecer na Índia, havia uma abundân- cia de tudo. Uma dúzia de macacos bastaria para proporcionar um espetáculo interessante, mas eles pareciam ser centenas e, ï a julgar pelo alvoroço das aves, parecia haver milhares delas em- polerradas nas árvores. - Que lindo! - exclamou Queenie. - Você acha, é? Pois eu não consigo distinguir nada, a não ser um templo apinhado de macacos. Meu Deus, que con- fusão eles armaram! - O lugar é que é bonito. Não podemos entrar? - Por que não? Antes, porém, vamos dar uma caminhada e comer alguma coisa. Queenre olhou em torno de si e notou que Ahmed, com a habilidade profissional de um carregador experiente, já ajeita- va o cesto de piquenique. Escolheu um grande rochedo liso, de onde se avistava o templo e um regato, e ali arrumou duas almofadas, uma toalha e um jarro de flores. Já tinha recrutado um velho, que surgiu por um golpe de magia por entre os bam- bus, a fim de que ele não permitisse a aproximação dos aldeães curiosos. Engajou também um menininho, talvez bisneto do ve- lho, para exercer determinadas tarefas, abaixo de sua dignidade. Morgan ajudou Queenie a subir no rochedo, e sentaram-se. Ela não precisava sequer adivinhar o que seria servido: galinha e ovos, sem dúvida. Ahmed era muçulmano e, como tal, não podia tocar em presunto. Além do mais, comer bife era conside- rado um ato de mau gosto, e poderia ofender a sensibilidade dos hindus. - O que temos para beber, Ahmed? - perguntou Morgan. - Gim, uísque e uma garrafa de vinho. = Quero um gim. Ah, isto, sim, é que é vida! - excla- mou, reclinando-se na almofada. Havia momentos em que se sentia feliz por estar na Índia. - Sem dúvida - disse Queenie, aproximando sua almofa- da e apoiando-se em Morgan. - Aposto que um piquenique na Inglaterra é bem mais agradável. Imagine só aqueles campos tão verdejantes... e cisnes, no lugar de macacos. - E chuva, Queenie. Lá chove o tempo todo. - Não acredito. De qualquer modo não me incomodo com a chuva, Morgan. Que espécie de futuro existe para nós aqui? Essa é a questão. - Eu sei, eu sei, mas essas coisas levam tempo, Queenie. - Tempo? E o que o tempo mudará? Em breve serei velha. - Que bobagem... - Ele estendeu o copo, para que Ah- med voltasse a enchê-lo. - Morgan, tenho uma idéia de como poderemos conseguir o dinheiro. - Vamos deixar para falar disso mais tarde, sim? Agora está tão agradável... Ele afrouxou o laço da gravata e sorriu para Queenie. Esta não se sentia disposta a desistir com facilidade, mas percebeu Ahmed de olho neles e decidiu esperar até ficarem sozinhos. 130 a 131 - Vamos ver o templo? - convidou. Morgan concordou. Embora não tivesse a menor curiosida- de em relação à arquitetura religiosa hindu, sentia necessidade de se mexer um pouco e isolar-se com Queenie. - Iremos dar uma espiada no templo e comeremos ao vol- tar - anunciou a Ahmed. - Há algum problema em se entrar ali? - Não, sahib, mas muita gente prefere comer primeiro e visitar o templo mais tarde, quando faz menos calor. - A temperatura me parece agradável. Iremos agora. Queenie notou que Morgan parecia perder ligeiramente o equilíbrio, enquanto desciam o rochedo. Os dois copos de gim no estômago vazio afetaram-no mais do que ela poderia esperar. Ela lhe deu o braço, oferecendo-lhe apoio, enquanto percorriam o túnel de bambus. Morgan aproximou seu rosto do dela, apertando-lhe o braço com força maior do que ele julgava ne- cessário. O bosque de bambus estava repleto de macacos. - Isto até parece um zoológico - queixou-se Morgan, en- xugando a testa, porejada de suor. Nesse momento Queenie no- tou uma explosão de cores e saiu correndo. Era um grande pa- pagaio, que soltou um grito estridente quando ela se aproxima- va, levantando vôo. Houve então uma revoada de aves de todas as cores e tamanhos, que, em meio a grande alarido, procura- vam a segurança oferecida pelos ramos mais altos. O barulho era tão grande que chegou a assustá-la. Ela fi- cou parada por um instante e ergueu o olhar. À sua volta dis- tinguiu dezenas de aves que a contemplavam com seus olhos arredondados, amarelos, alaranjados, vermelhos, brilhando co- mo pontos coloridos por entre as folhas e galhos. Queenie virou à esquerda e seguiu por um atalho bem mais estreito e ainda mais sombreado. Os galhos eram tão bai- xos que ela teve de curvar-se, e o cheiro das flores quase a sufocava. No fim do atalho parou numa pequena clareira banhada de sol e viu diante de si a entrada do templo. O portal era escuro e tinha um estranho formato, assemelhando-se à entrada de uma caverna. Parecia um muro vasto e irregular, de pedra lavrada, recoberto de trepadeiras, lianas e musgo. Dava a im- pressão de algo planejado pela natureza, e não feito pela mão do homem. Morgan estava corado e febril. Do lado de fora do templo era possível imaginar que as paredes espessas e a escuridão sem dúvida contribuíam para que lá dentro o ambiente fosse mais fresco, mas o santuário parecia aumentar o calor, como uma estufa gigante. À primeira vista nada havia de notável no interior, seme- lhante a uma caverna e sem nenhum objeto. Viam-se centenas de pequeninas lamparinas a óleo, que desprendiam um cheiro desagradável de manteiga rançosa e gordura queimada. Ouviu- se o bater de asas, como se um bando de morcegos tivesse sido despertado de sua letargia. Morgan sentiu que Queenie estava receosa. Passou-lhe o braço em torno dos ombros, e ela tomou consciência daquele corpo de homem de encontro ao seu. Apesar do calor, ou talvez devido a ele, sentiu uma certa excitação. Havia algo de estranhamente sensual no fato de encontrar-se naquele lugar com Morgan, rodeada pelo brilho mor- tiço das lamparinas. Ele também parecia sentir o mesmo, pois a segurou com mais força, e sua mão, sem ele querer, resvalou nos seios de Queenie. A sensação de modo algum foi desagra- dável e, embora soubesse que devia empurrá-lo ou ordenar que parasse com aquilo, o calor dificultou enormemente qualquer resistência. Queenie sentia-se fraca, como se fosse ela que tivesse bebi- do o gim, e não Morgan. Ele a beijou, não com o ímpeto do sr. Pugh, mas com suavidade, sem pressa, e seus lábios roçaram- lhe o rosto. Tomou-a nos braços e, quando os olhos de Queenie acostumaram-se à penumbra, ela notou que as paredes do tem- plo estavam cobertas de esculturas. Em uma das paredes um grande estandarte de seda retrata- va o deus Shiva. O corpo nu da divindade era azul-escuro, e seu semblante assemelhava-se ao de um demônio. Parecia dan- çar com graça majestosa. Diante dele homens e mulheres, ricos e pobres, além de um surpreendente agrupamento de aves e animais, ajoelhavam-se, em atitude de adoração. Por mais sur- preendente que fosse, o retrato de Shiva era menos impressio- nante do que as incontáveis figuras esculpidas, absolutamente realistas, que se entrelaçavam e se misturavam, até desaparece- rem na escuridão do recinto. Demorou um momento até a realidade impor-se a Quee- nie, pois o templo era um catálogo, pleno de imaginação, das artes do sexo, esculpidas em pedra. Todos os participantes sor- riam com serenidade e até mesmo recato, como se estivessem demonstrando para o observador algum feito atlético. Havia fi- leiras e fileiras de esculturas, representando seios, pênis, coxas e nádegas arredondadas, que se reproduziam ao infinito, até se tornarem quase desprovidas de sentido. Era uma vasta e silen- ciosa floresta de sexualidade, chegando até o teto invisível e des- cendo para o outro lado. À medida que a luz das lamparinas se agitava, as figuras davam a impressão de se moverem langoro- samente. As sombras trêmulas transmitiam a ilusão momentâ- 132 . 133 rica de paixão e vida, de tal modo que todo o santuário parecia estar ern movimento. A ilusão não durou mais do que um se- gundo, mas foi o suficiente para deixar Queenie tonta. O momento passou e ela se viu nos braços de Morgan, alagada de suor. Os lábios dele se colavam sensualmente aos dela, e o ritmo de sua respiração se alterara, devido ao calor ou àquela paixão culpada que o tomava. - Queenie - murmurou baixinho. - Queenie, eu te amo! Ela só tinha consciência do leve vestido de algodão, empa- pado de suor, que se agarrava a seu corpo, e do desconforto que experimentava nos braços de Morgan. Este se entretinha tanto em toca-la e apalpa-la que nem sequer notara as escultu- ras. Ela o empurrou com mais vigor do que pretendia e ficou à espera de uma reação raivosa. Morgan, porém, recuperou o autocontrole. - Oh, desculpe-me. - Ele enxugou o rosto com um len- ço. - Estou com uma dor de cabeça infernal. É o calor... - E o gim... - Sim, sim, talvez. Aquele maldito Ahmed deveria ter avi- sado que era tão quente aqui dentro do templo. - Mas ele avisou, sim, Morgan. - É mesmo? Não ouvi. - Morgan pegou na mão de Quee- nie e apertou-a de leve. - Não consegui me controlar - mur- murou, como se houvesse pessoas escondidas por perto, e pudes- sem ouvi-lo. De repente começou a prestar atenção nas esculturas. - Meu Deus! Mas isto é uma obscenidade! O que você deve estar pensando de mim? - Não importa. - Como assim, não importa? O tal de Chauduri deveria ter avisado! - Morgan, não passam de esculturas. A Índia está cheia delas. - Não era de modo algum minha intenção. - Ele enxu- gou o suor do rosto com a manga da camisa. Por alguns momentos Queenie chegou a pensar que ele iria chorar de culpa, de espanto, e talvez por ter finalmente permitido aflorar seus sentimentos por ela. Aquele, porém, era o lugar menos apropriado para exprimi-los. Ela o pegou pelo braço e o conduziu até a entrada do templo. A luz do dia chegava a cegar, em contraste com a pe- numbra. Eles ficaram parados por alguns momentos nos degraus, respirando o ar quente e ressecado que, em contraste, - parecia quase refrescante. O silêncio era total e os bambus erguiam-se diante deles como uma cortina verdejante, imóveis sob o calor abrasador. Um urubu pairava bem no alto. A imensidade da paisagem que os rodeava chegava a ser mais ameaçadora do que a escuridão do templo e tornava desprovidos de sentido todos os desejos huma- nos. Pelo menos afetava Queenie, que se sentia exaurida. Agora que voltavam ao sol e à claridade, Queenie conse- guia voltar a pensar. O que acontecera no interior do templo era muito mais do que o resultado de alguns tragos de grm, combinados com o calor. Nunca duvidara de que Morgan a amas- se. Era suficientemente madura para perceber que ele a amava mais do que um tio deveria amar a sobrinha, mas até então não notara a força daquela paixão. - Morgan... você fará tudo por mim? Tudo o que eu pe- dir? - perguntou. Noite após noite Queenie ficava a imaginar qual seria o próximo passo, e noite após noite acabava mergulhando no sono sem encontrar a resposta. De vez em quando conseguia trabalho temporário, como datilógrafa, mas tais tarefas dificilmente dura- vam muito tempo. Até mesmo Vicky sentiu que ela estava per- dendo tempo. Peggy D'Souza acabou indo mesmo para a Ingla- terra com seu Butts, para grande surpresa de todos, com exceção de Vicky. Uma vez por semana ela recebia um cartão-postal des- crevendd apressadamente os muitos encantos que cercavam a nova vida de Peggy no lugar que todos os anglo-indianos denomina- vam "nosso lar". Pelo menos uma vez por mês Queeme saía sorrateiramente de casa, depois que Vicky ia deitar-se, e partia ao encontro de Morgan no Firpó s, onde ao menos podia dançar, ouvir música e ser vista. Por mais que Morgan detestasse, ela vivia rodeada de homens que a tiravam para dançar, e, cada vez mais, come- çou a receber, e rejeitar, convites para acompanha-los até suas casas ou sair com eles de carro. Convencera Morgan a economizar dinheiro para a compra de duas passagens para a Inglaterra, mas sabia muito bem que se tratava apenas de um pequeno passo inicial, que, por si só, não levaria a lugar algum, embora com a vantagem de compro- meter seu tio com os planos que ela tinha em mente. O resto envolvia tempo, sorte e coragem. Quanto a este último elemento, sabia que o tinha em dose suficiente para ela e para Morgan. O que a preocupava era a questão da sorte, além de não deixar esmorecer a esperança de Morgan. De vez em quando, ao voltarem para casa, ele a abraçava, num frenesi de paixão e de culpa, mas ela sempre acabava por trazê-lo de volta à sensatez e ao equilíbrio. Dava a entender que, uma vez 134 a 135

na Inglaterra, as coisas seriam diferentes, embora não lhe desse

muita certeza... Morgan então recuava, desmanchando-se em des-

culpas, atormentado, coberto de suor e disposto a prometer o

que quer que fosse. ~ ~,~ Queenie assistiu a um filme sobre um homem obcecado f

por uma mulher que jamais seria sua, e que lhe pareceu incom-

preensível, até mesmo tolo, mas agora entendia perfeitamente

a que se referia. Morgan era verdadeiramente um obcecado. Tal-

vez nunca tivesse deixado de ser, só que agora a coisa vinha

à tona. Ele não deixava de ser um tipo popular, atraente e, j' a julgar pelo que se comentava, jamais tivera a menor dificulda-

de em conseguir todas as mulheres que desejava. No entanto,

a única que ele queria naquele momento de sua vida era ¡ Queenie.

Chegava até mesmo a entrar no quarto dela, à noite, e

ficava parado na porta, contemplando-a. Ela, porém, ainda he-

sitava em dar o passo final, até que uma noite, aterrorizada

com a possibilidade de Vicky ouvi-los, mas decidida a terminar

com aquela situação de uma vez por todas, Queenie passou os

braços em torno dele, levou os lábios a seu ouvido e disse-lhe

o que queria que ele fizesse. Morgan ficou pálido, sem uma h gota de sangue no rosto. r - Você está louca! - disse tão alto que ela precisou tapat-

lhe a boca. - Não posso, de modo algum! Não me peça isto.

- Pois então me casarei com o primeiro inglês que apare-

cer, ainda que tenha de dormir com ele primeiro.

Queenie notou a dor estampada no olhar de Morgan, mas

ele sacudiu a cabeça.

- Recuso-me sequer a discutir este assunto.

Entretanto, noite após noite, em seu quartinho abafado ou

à mesa, no Firpó s,. eles falaram a respeito até que, aos poucos,

Morgan começou a aceitar o fato de que ela estava com a razão.

As únicas perguntas passaram a ser: "Como?" e "Quando?"

- Eu não posso pedir que ela venha a meu encontro,

Queenie!

- Por que não?

- Pelo simples fato de que isso jamais aconteceu!

- Mas vai ter de pedir! Escreva-lhe um bilhete e mande

para a mesa dela, na próxima vez que ela vier aqui. l Queeme contemplou Morgan, um tanto irritada, mas sabia

que de nada adiantava gritar com ele. Isso acabaria por deixá-lo

ainda mais perturbado, o que só serviria para atrapalhar seus

planos. Levara um tempo enorme para convencê-lo de que aquela



era a única solução, caso ele quisesse realmente ir com ela para

a Inglaterra. 136 A única coisa que dava coragem a Morgan era o desejo que sentia por Queenie, mas ela não tinha a menor certeza de que isso bastava para levá-lo a agir até o fim. Pegou na mão dele e-fez uma sugestão. - Diga-lhe que você quer se desculpar e lhe dar explicações. - Mas explicar o quê? - Minha conduta. - Não há o que explicar, Queenie. Ela sabe que você é minha sobrinha. - Talvez ela não acredite e, mesmo assim, acabará pensan- do que entre nós dois deve existir algo mais. - Ainda assim acho que ela não quer me ver. - Morgan, acredite em mim - pediu Queenie, sem con- seguir dominar a irritação que sentia. - A sia. Daventry o en- contrará por que não conseguirá resistir. - Resistir a quê? - À oportunidade de humilhá-lo, é claro! Sem dúvida vai querer tirar vantagem do fato de que você está rastejando a seus pés. - E depois? - Basta você aguardar o momento exato. - Mas ela ficará sabendo que fui eu! Eles tinham discutido o assunto dezenas de vezes e, ainda assim, Morgan resistia. Queria que o plano desse certo antecipa- damente, até o último detalhe, e Queenie sabia que era impos- sível. Deveria haver lugar para a improvisação e o imprevisto, além da sorte. - Ela não saberá se foi você, caso fique bêbeda! - afir- mou Queenie. - Além do mais, você não será o único homem a ter estado com ela, se o que me diz é verdade. Existem tam- bém os criados. Outro detalhe: é bem pouco provável que ela admita que você esteve com ela! Neste caso, a quem poderá acusar? - Não, ela vai perceber logo. Acho que não tenho condi- ções de levar esse plano adiante. Queenie abraçou-o e apertou seu corpo de encontro ao de- le, mas não houve a menor reação. - Acho que você conseguirá, sim. Mesmo que ela descu- bra que foi você, estaremos indo para a Inglaterra e não haverá nada que ela possa fazer. Ao sentir o corpo de Queenie tão junto ao seu, Morgan teve ímpetos de coragem e decisão. - Está bem... Farei o que combinamos. Uma vez na Inglaterra, pensou, começariam juntos uma vi- da nova. Teria um emprego em um dos melhores clubes notur- 137 nos de Londres, seria bem-pago, bem-vestido e respeitado. Pela manhã, quando voltasse de táxi para casa, através das ruas lim- pas e lavadas pela chuva, Queenie estaria a sua espera dormindo ou fingindo dormir na grande cama de casal. Ela abriria os olhos, quando ele se deitasse a seu lado e lá fora os sinos de Londres badalariam, sob os céus acinzentados. - Afinal de contas, o que estou arriscando? - pensou, mas, no mesmo instante, veio-lhe a resposta. Se tudo falhasse, ele iria para a cadeia. O recibo do depósito das passagens para a Inglaterra estava no bolso do paletó de Morgan e pesava como chumbo. Ao tirar o envelope dirigido à sra. Daventry e entregá-lo ao garçom, para que ele o levasse à mesa dela no momento apropriado, quase se enganou, dando-lhe o recibo. Precisava to- mar mais cuidado. Suas mãos estavam molhadas de suor e dei- xaram marcas no papel. Sentia-se como um garçom desajeitado, que tivesse enfiado o dedão num prato de sopa. - Você não precisa carregar este maldito bilhete numa ban- deja de prata, exibindo-o para todos os clientes do Firpo's! - disse um tanto irritado ao garçom, que sorriu ironicamente, in- clinando a cabeça coberta por um turbante. Morgan entregou- lhe uma rupia, hesitou e deu-lhe mais outra. - Espere até ela ficar sozinha e aja com discrição. Acha que consegue? - Certamente, rahib. À medida que a noite se desenrolava, Morgan mal conse- guia olhar em direção à mesa de Pempy Daventry. Amaldiçoava- se por confiar em um hindu, que, certamente, agiria estabana- damente. Todos à mesa ficariam sabendo que ela recebera um bilhete e poderiam até mesmo perguntar de quem era. Tocava com tamanha desatenção que os demais membros da orquestra ficaram surpreendidos. Até mesmo Alberto Firpo, que não se incomodava nem um pouco com a música, contanto que fosse suficientemente alta e rápida para manter os freqüentadores dan- çando, franziu o cenho, contrariado. O pior é que a sra. Daventry era perfeitamente capaz de ler a carta em voz alta e caçoar dele. Quase conseguia ouvir aquela voz fria e precisa dizendo: "Oh, é de meu admirador chee-chee que toca na orquestra". Era capaz de imaginá-la ridicularizando-o perante seus amigos... Morgan a conhecia muito bem e por isso mesmo estava coberto de suor. - Valênczá! - anunciou o clarinetista, enquanto olhava, com seus olhos de míope, a nota de cinqüenta rupias que um garçom acabava de lhe entregar. Era costume dividir as gorjetas com os demais membros da orquestra, toda vez que alguém solicitasse a execução de determinada música. Morgan suspirou. Eram sempre as mesmas velhas canções, noite após noite. Tinha certeza de que na Inglaterra ninguém lhe pediria para tocar halênczá. Solicitariam o último sucesso, e ele, sem dúvida, o executaria. Umedeceu os lábios, ergueu o saxo- fone e começou a tocar, enquanto o cantor da orquestra cantava: "Em meus sonhos, parece-me que te ouço me chamar baixinho..." A pista de dança ficou repleta de casais. halênciá era um sucesso, deixava todo mundo animado, mas, na extremidade do salão, encarando Morgan, a sra. Daventry estava sozinha à mesa. Com um gesto rápido e preciso, rasgou em pedacinhos o bilhete que o garçom acabara de lhe entregar. Acendeu um cigarro, enfiou-o na comprida piteira, olhou para Morgan e piscou discretamente. A sra. Daventry serviu-se, examinou o copo e acrescentou mais um pouco de uísque. - Tim-rim! - brindou. - Aos velhos tempos! Como vai aquela assanhadinha de vestido cor-de-rosa, Morgan? Não é um pouco jovem para você? O tom dela era zombeteiro, como sempre fazia quando, de propósito, usava expressões um tanto vulgares. Era um modo de humilhar Morgan. A sra. Daventry tomou um gole de uís- que, foi até a penteadeira, sentou-se e examinou-se no espelho, como se Morgan não estivesse presente. - Não sei o que você quer dizer com isso. - Não se faça de desentendido! Estou me referindo àquela garota com olhos de quem é boa de cama! - Queenie? Mas é minha sobrinha. - Queenie. - A sra. Daventry pronunciou lentamente o nome, analisando cada sílaba. - E divinamente vulgar. Não acredito de modo algum que você seja tio dela, Morgan. - Mas se engana. Sou, sim. - Não creio que isso seja um impedimento. Eu mes- ma poderia lhe contar certas histórias de meu tio Ned comi- go, quando era bem menina. Costumava sentar-me no colo dele, e ele sempre trazia os bolsos cheios de doces para mim. Sabe que eu era tão inocente que nem conseguia imaginar o que ele fazia? Só fui perceber na idade de dezesseis anos! A sra. Daventry riu, e seu riso ecoou no quarto. Então ela olhou Morgan pelo espelho e tomou mais um gole. - Por que você me mandou aquele bilhete? 138 a 139 Morgan olhou para as mãos. Chegara o momento mais di- gir seus fins. Durante quase toda a semana, após receber o bi- fícil, pois exigia presença de espírito. A sia. Daventry o aterrori- Ihete, ela apareceu no Firpo's, ignorando-o completamente. Na zava tanto que ele mal conseguia encara-la. Só não saía corren- quinta noite enviou-lhe algumas linhas escritas em um guarda- do por não suportar a possibilidade de voltar para Queeme de na po de papel. Quando ele o desdobrou, havia apenas uma mãos vazias. pal avra: "Espere". - Ora essa, Morgan. Será que as coisas vão tão mal assim Na noite seguinte a sia. Daventry deu um jeito de vê-lo para você? Com certeza deve estar na pindura e espera conseguir por um breve momento, no corredor que levava ao toalete das algum dinheiro comigo, como acontecia nos velhos tempos, não senhoras, após mandar um garçom avisa-lo do local do encon- é mesmo? Pois bem, pode tirar o cavalo da chuva! tio. As paredes do corredor eram cobertas de veludo vermelho - Absolutamente, não se trata disso! Até que vou indo e, na penumbra, os olhos da criatura desprendiam chispas ver- muito bem. melhas, que Morgan achou particularmente assustadoras. - Ah, é? Pois aposto que continua tocando a troco de - Amanhã Daventry viaja para Bombaim - ela disse, alguns tostões no Firpo's e que nunca esteve mais distante da imperturbável. Inglaterra. Você jamais conseguirá ir para lá, Morgan. Falta-lhe - Como faço para entrar? coragem. Quanto à sua vagabundinha, tomei todas as providên- A sia. Daventry o encarou com impaciência. Era perita em cias necessárias para que todas as portas estejam fechadas para ela. formular planos daquele tipo e esperava que os homens tives- - Eu sei. sem tanta presença de espírito quanto ela. - Ela lhe contou o que aconteceu? - Deixe o carro a alguns quarteirões de distância. Minha - Sim, claro. É uma garota muito teimosa. Disse-lhe deze- criada o fará entrar pela porta do lado. Não é possível que você nas de vezes que lhe pedisse perdão. já tenha esquecido, Morgan! - Perdão? Não estou nem um pouco interessada. Não pie- - É que julguei que as coisas tivessem mudado. ciso disso e muito menos de você. A sia. Daventry tocou nos lábios dele e os arranhou de - Então por que respondeu ao meu bilhete? leve, num gesto verdadeiramente felino. A sia. Daventry mirou-se no espelho como se ela mesma - Oh... Será que vai sair sangue? As coisas mudaram, sim, procurasse a resposta a essa pergunta. Estava inteiramente absor- meu querido Morgan. As coisas sempre mudam, mas meus pla- vida em si mesma, e o bracelete de diamentes reluzia em seu nos são perfeitos e inalteráveis. Não gosto que minha rotina punho, enquanto ela ajeitava os cabelos. seja perturbada, sobretudo quando estou acostumada com algo. Seu quarto era prateado, exatamente como o vestido que Morgan entendia perfeitamente a que ela se referia. A vida ela usava. As paredes eram recobertas de brocado prateado, ha- da sia. Daventry era complexa, tal e qual um labirinto de que via almofadas de seda da mesma cor, e a enorme cama estava somente ela tinha o segredo. O papel de Morgan não tinha coberta por um suntuoso acolchoado bordado com fios de pra- a menor importância, pois não passava de alguém que apenas ta. O aposento parecia banhado em uma luminosidade pratea- estava na reserva. Ele, porém, confiava excessivamente em sua da, como uma caverna repleta de tesouros. Em cada canto havia posição e acabou sofrendo por isso. Agora talvez tivesse chegado objetos de cristal, ouro, prata ou casco de tartaruga. A sia. Da- o momento de sofrer um pouco mais. ventry inclinou-se para a frente, e Morgan percebeu a elegante Morgan percebeu que, caso desejasse permanecer no quarto articulação de sua espinha e dos ombros, além da musculatura daquela mulher, teria de rebaixar-se. Embora se rebelando inte- flexível de uma verdadeira atleta. riormente, sabia que não lhe restava alternativa. - Queria vê-lo rastejando, meu caro - ela disse finalmen- - Por favor - disse, caminhando na direção da sia. Da- te. - Agora que isto aconteceu, pode retirar-se! ventry -, deixe-me ficar. Morgan por pouco não entrou em estado de pânico. Se - Você é um mestiço bem atrevido, Morgan. Pior ainda, saísse agora, nunca mais conseguiria executar o resto do plano. você me dá nos nervos. Além do mais, não conhece seu lugar, E, caso falhasse, não tinha como enfrentar Queeme. Quanto não é mesmo? Não esqueço de que você levou aquela sua vaga- aos motivos que levaram a sia. Daventry a querer vê-lo, Quee- bundinha para tomar chá no salão do hotel. Aquilo é território nie, melhor do que ninguém, pudera prevê-los. Era evidente meu, Morgan não seu. Dançar no Instituto Ferroviário era sufi- que ela queria humilha-lo! Como sempre, tinha conseguido atin- cientemente bom para ela. 140 a 141 - Tem razão - disse Morgan, ajoelhando-se a seu lado, encarando-a com a atenção de um joalheiro que examina um diamante precioso. - Por favor, perdoe-me. Deixe-me reparar f meu erro. - Reparar seu erro? Mas como? ¡' Morgan inclinou-se e apoiou a cabeça em suas coxas. Ela correu a mão por seus cabelos e enterrou as unhas com força 1' em suas costas. - Coitadinho do Morgan, portou-se como um mau menino... - É verdade, é verdade - murmurou ele, engolindo em seco. Durante alguns instantes sentiu-se enojado de si mesmo, quase chegando a vomitar, mas a sensação acabou passando, co- mo sempre acontecia. - Precisará ser castigado - disse a sia. Daventry, ainda encarando o espelho, como se estivesse falando para si. Esvaziou o copo, deixou-o de lado e voltou-se, olhando fixamente para Morgan. Agora segurava uma escova de cabelo com cabo de pra- ' ta. Tinha os olhos muito abertos e seus lábios esboçavam um sorriso sensual. - Desabotoe meu vestido, Morgan - ordenou em tom autoritário, batendo a escova com força no rosto dele. - Desabotoe-o com cuidado e, em seguida, tire sua roupa. Vou ensinar-lhe uma lição da qual você nunca mais se esquecerá... Morgan permaneceu atento na penumbra do quarto, ou- vindo o barulho da respiração da sia. Daventry. Ainda conse- guia sentir nas costas o ardor provocado pelos arranhões de suas unhas pontiagudas. Será que sangravam? Os lençóis poderiam ficar manchados, mas os criados, sem dúvida, já estavam acostu- mados com aquilo. Contemplou a sia. Daventry à luz da lâmpada do abajur. Tomara o cuidado de manter o copo dela repleto de uísque e calculou que ela já tivesse tomado umas quatro doses duplas, além de consumir um pouco de ópio. Aquela mulher não hesi- tava em aproveitar-se de todos os prazeres que o Oriente lhe proporcionava. Ela dormia a seu lado, graciosa até mesmo quando mergu- Ihada no mais profundo torpor. Um dos braços estendia-se lan- guidamente, e o outro estava dobrado sob a cabeça. Ela sorria, em meio ao sono. Suas roupas estavam cuidadosamente dobra- das, em cima da cadeira. Por mais promíscua que fosse sua vida sexual, a sia. Daventry tinha um verdadeiro culto pela ordem. Até mesmo antes de ir para a cama com um homem ela fazia uma pausa, dobrava a roupa de baixo, alisava as pregas e as ajeitava em cima de uma almofada prateada, destinada àquela Í 142 finalidade. A última coisa que fazia era tirar as jóias. Antes de deitar-se gostava de ficar diante do espelho por alguns mo- mentos, totalmente nua, com exceção do bracelete e do anel. Morgan suspirou, encarando a possibilidade de desistir do próximo passo, mas pensou em Queeme e, com muito cuidado, levantou-se. A sia. Daventry espreguiçou e ele, com muito jeito, cobriu-a com o lençol. Ela gemeu e voltou a ficar quieta. Ele havia passado por aquilo mais de uma vez. Fazia parte da rotina deixá-la no meio da noite, tão logo ela mergulhasse no sono profundo. A sia. Daventry não receava o que os criados fa- riam ou diriam, pois o silêncio deles tinha sido comprado há mui- to tempo. Morgan sabia que na mente dela não havia a menor ligação entre o que fazia à noite e quem ela era durante o dia. Vestiu-se sem fazer o menor ruído, adiando o momento que tanto temia. Olhou para a cama, a fim de certificar-se de que ela dormia de fato. Reuniu toda a sua coragem. Os joelhos tremiam, e do seu suor parecia desprender-se um cheiro de me- do. Caminhou pé ante pé até a mesa-de-cabeceira, com os sapa- tos na mão, e pegou o bracelete de diamantes. Por alguns instantes contemplou o anel de esmeralda, mas o brilho frio e esverdeado da pedra recordou-lhe com tamanha intensidade os olhos da sia. Daventry que não conseguiu sequer tocá-lo. Além do mais, o bracelete já bastava, e levá-lo era sufi- cientémente perigoso. Guardou o bracelete no bolso, junto ao recibo das passagens, calçou os sapatos e dirigiu-se para a porta. Morgan ouviu um murmúrio vindo da cama, e parou, aterrori- zado, com a mão na maçaneta, rezando para que a sia. Da- ventry não acordasse. Sua mão estava de tal modo encharcada de suor que ele mal conseguiu abrir a porta. Naquele momento tinha vontade de devolver o bracelete ao seu lugar ou derrubá- lo no chão e sair correndo. Ouviu-se um suspiro profundo e prolongado vindo da ca- ma, e o barulho suave do corpo esbelto da sia. Daventry roçan- do nos lençóis. Ela voltou a ficar silenciosa, e sua respiração regular era o único som que se ouvia no aposento. Morgan fi- nalmente conseguiu girar a maçaneta e saiu em direção à escada. Ele estava no quarto de Queeme e olhava o bracelete de diamantes luzindo ao pé da cama. Aquela visão o deixou tão deprimido que não conseguiu se mover ou sequer pensar em seu próprio medo. - A sia. Daventry dará falta do bracelete quando acordar - comentou, cerrando os olhos, na esperança de que a jóia não estivesse mais lá, quando voltasse a abri-los. 143 E - Já conversamos a esse respeito, Morgan. Ela simplesmen- te não pode ir procurar a polícia e dizer que você esteve lá. O bracelete pode muito bem ter sido roubado por um dos cria- dos. A única coisa que nos resta fazer é agir com rapidez. - Seremos descobertos no momento em que tentarmos vendê-lo. - Não necessariamente. Sei exatamente a quem devemos procurar... - Ela pegou o bracelete, prendeu-o no próprio pul- so e admirou-o por alguns instantes. Era como um círculo de fogo que desprendia chispas para todos os lados. Queeme con- !' seguia ver seu rosto refletido em cada faceta dos diamantes, co- mo se fossem centenas de minúsculos espelhos. Suspirou e reti- rou a jóia. - Um dia terei um bracelete como este. Por que não trouxe o anel? - Não consegui. - Talvez seja melhor assim. Se ela encontrar o anel, pode- rá pensar que derrubou o bracelete em algum lugar. Se desse por falta de ambos, chegaria imediatamente à conclusão de que foram roubados. - De qualquer modo ela ficará sabendo. - Anime-se, Morgan, vamos! - disse Queenie, jogando o bracelete para ele. Ao fazê-lo, a camisola escorregou, e Mor- gari viu o bico do seio dela. A despeito do medo e de estar sexualmente exausto, conseguiu esboçar a sombra de um sorriso. - Finalmente vamos para a Inglaterra, nosso lar! - comentou Queenie, sorrindo de felicidade. Morgan acompanhou-a em sua alegria. No fundo, achava que não estavam agindo como criminosos. Afinal de contas, seu desempenho, em relação àquela mulher escravizada pela luxú- ria, valia cem vezes o preço do bracelete. - Qual será o próximo passo? - perguntou. Quando Quee- nie começou a explicar o plano, Morgan percebeu, com o cora- ção apertado, quantos riscos ainda teria de correr, antes de se ver inteiramente livre. - Eu nunca disse que seria fácil, Morgan - afirmou Quee- nie, sentindo sua hesitação. Apagou a luz, virou-se de lado e fechou os olhos. Morgan queria conversar, mas ela não esta- va disposta. Era uma das raras pessoas que conseguiam dormir quando queriam. Exatamente como a sia. Daventry, refletiu Mor- gan, um pouco amargurado. Surpreendia-o perceber que as mu- Iheres sempre mergulhavam no sono, independentemente do que tinham acabado de fazer. Não pareciam experimentar ver- gonha ou culpa, como os homens. Chegou a sentir inveja de Queenie. Caminhou silenciosamente até a porta e abriu-a sem fazer ruído, sabendo que não conseguiria pregar o olho, preocupado corri a seqüência dos acontecimentos. - Morgan - murmurou Queeme -, acho melhor você levar o bracelete. Mamãe não deve vê-lo. Ele voltou, guardou a jóia no bolso e aguardou que ela dissesse mais alguma coisa. Tudo o que ouviu, porém, foi a respiração profunda de Queeme, que dormia. O sr. Bramrnachatrarya sentava-se em suas almofadas roídas pelas traças como se aguardasse pacientemente Queenie desde a última vez que ela o vira. O rosto rechonchudo não demons- trou a menor surpresa ao vê-la de volta, e ele se mostrava tão afável como sempre. Em relação a Morgan mostrou-se tão defe- rente que, se ele não estivesse tomado por tamanha ansiedade, teria logo percebido que esse tratamento, no fundo, escondia apenas desprezo. Felizmente, pensou Queenie, Morgan não percebia os sen- timcntos do sr. Brammachatrarya, embora este fizesse questão de só dirigir-se a ela. - A que devo este prazer, depois de tanto tempo? - per- guntou, com sua voz aliciante. - Não voltou a se perder, não é mesmo? - Não. Desta vez vim, ou melhor, viemos a negócios. - Ah, trata-se da civilizada arte do comércio! - observou, com um sorriso bonachão. - É ela que une todos os homens e mulheres. Por detrás da cortina Queenie ouviu alguém murmurar em hindi: "Vá logo com isso!", mas o sr. Brammachatrarya não pres- tou a menor atenção. Como um pescador postado à margem de um rio, esperava pacientemente que o peixe mordesse a isca. - É um assunto confidencial - disse Queeme, olhando para a cortina. - Trata-se de uma transação extremamente delicada - acrescentou Morgan, tentando atrair a atenção do sr. Bramma- chatarya. Este simplesmente o ignorou e dirigiu a Queenie seu me- lhor sorriso. - Mas que negócio não é confidencial ou delicado? Tranqüilize-se: sou um verdadeiro túmulo. Queenie fez um breve sinal a Morgan, que tirou do bolso um lenço dobrado, entregando-o. Ela o colocou em cima do tapeie e o abriu. Um brilho de cobiça surgiu nos olhos de Bram- machatrarya, mas sua expressão não se alterou. Os três ficaram 144 a 145 em silêncio por alguns instantes, pois o comerciante não queria de modo algum ser o primeiro a falar. Foi Morgan quem se manifestou. - Bem, o que lhe parece? O olhar de Brammachatrarya pousou sobre Queeme, igno- rando Morgan e o bracelete. - Foi por isso que vim vê-lo - declarou ela. - Fez muito bem. Sou um grande conhecedor de pedras, modéstia à parte. Trata-se de uma herança de família? - O que lhe importa? - perguntou Morgan com certa rudeza. - Quanto vale? Brammachatrarya inclinou-se com dificuldade, pegou o bra- celete e examinou-o contra a luz, verificando cada pedra. ï ` - Algumas pessoas perguntariam de onde vem esta jóia. O peixe, porém, morre pela boca, não é? Por quanto quer penhorá-lo, senhorita? - Na realidade queremos vendê-lo. - Ah, isto é outro assunto! Não passo de um pobre hindu que vive de emprestar dinheiro. Creio que um objeto de tama- nho valor está muito além de minhas possibilidades. - Não foi o que ouvimos dizer, sr. Brammachatrarya - observou Queenie com grande respeito. - Não passam de mexericos de bazar! Tenha certeza de que são boatos espalhados por concorrentes despeitados e inve- josos. As pessoas não têm papas na língua!. Brammachatrarya cerrou os olhos e ficou em silêncio por alguns momentos, com as mãos cruzadas sobre o enorme estô- mago, meditando na maldade do mundo. Finalmente pôs os pés na terra e encarou Queenie. - A senhorita deve saber que somente os diamantes inte- ressam. Infelizmente o bracelete terá de ser desmanchado... Men- ciono este fato, caso tenha uma ligação sentimental com a jóia. - Nenhuma ligação - assegurou Morgan. - Isto é importante! Afinal de contas, é tão difícil avaliar, em termos financeiros, um sentimento... Quanto às pedras, es- tou disposto a lhe dar... bem, cinco lakhs. - Mas isso é menos de mil e quinhentas libras, homem! - exclamou Morgan, pálido de raiva. - O bracelete vale pelo menos dez vezes mais. - É mesmo? Então o senhor não deve hesitar em levá-lo a um joalheiro do centro da cidade, com a nota de compra ou uma prova qualquer de que a jóia lhe pertence. Brammachatrarya deu a impressão de que perdia o interes- se pela discussão e cerrou os olhos, como se fosse tirar uma soneca. - Mas isto é um roubo! - gritou Morgan, exaltado. - Roubo não é uma palavra muito apropriada, na presen- te circunstância - disse Brammachatrarya, abrindo os olhos e dando de ombros. Queenie inclinou-se, aproximou-se do usurário e pôs sua mão na dele. - Também dizem no bazar que o sr. Brammachatrarya é um homem justo e generoso. - Ao fazer tal declaração, ela tomou o cuidado de exprimir-se em hindi. - Pois dizem a verdade. - Dizem também que ele não é um homem que costuma aproveitar-se de uma jovem em situação difícil. - Correto. - Será que a gratidão tem preço? Talvez um dia eu me encontre em posição de servi-lo. Os jovens envelhecem, não é mesmo? Algumas vezes uma mulher jovem desposa um homem poderoso. - É verdade. - Mesmo por quinze lakhs o bracelete seria uma pechin- cha, sobretudo para um homem que sabe como vender as pe- dras. Falo de um homem de conhecimentos, paciência, sutileza... O sr. Brammachatrarya levantou-se, pegou o bracelete, afas- tou as cortinas e entregou-o a alguém, que murmurou algo, baixirrho. Logo depois, uma mão gorducha surgiu entre as corti- nas e devolveu a jóia. - Para a senhorita, dez lakh.r - disse o sr. Brammacha- trarya, voltando-se para Queenie. Ela acabou concordando. Pensando bem, até que a oferta era razoável. Brammachatrarya dirigiu-se até o cofre, abriu-o com uma enorme chave e tirou um maço de notas. Contou dez mil rupias, e pôs o dinheiro diante de Queenie. Em seguida esticou o braço em direção às cortinas, segurando o bracelete. A mão gorducha e graciosa, tão morena quanto a dele, pegou a jóia e dasapareceu. - Foi um prazer fazer negócio com a senhorita. Boa sorte na Inglaterra - disse o usurário. - Como é que o senhor sabe que vamos para lá? - inda- gou Morgan. - Tenho boa memória. A senhorita fez esta confidência em nosso primeiro encontro. - Ainda não fixamos a data. - Eu, se fosse vocês, partiria logo, o mais cedo possível, até mesmo hoje à noite. Os boatos chegam com rapidez a esta humilde casa. Ouvi dizer que uma jóia valiosa foi roubada da mulher do poderoso sr. Daventry. Ao que se diz, um sujeito 146 a 147 f m; invadiu a casa e ameaçou a pobre senhora. Que audácia! Ela resistiu, mas o assaltante tratou-a com brutalidade e fugiu com um bracelete. - O sr. Brammachatrarya tossiu discretamente. - Sem dúvida, deve ser muito diferente deste aqui... - Eles descobriram quem foi? - perguntou Morgan, que f parecia a ponto de desmaiar. - Sim, um músico, aparentemente bêbedo. O nome dele me escapa, mas parece que tem sangue europeu. Graças a Deus não é indiano. O sr. Brammachatrarya sorriu, como se fosse o portador de ¡boas notícias, enquanto Morgan, com o rosto banhado de suor, não disfarçava sua profunda depressão. Queenie não tomou co- nhecimento de sua reação. Jamais poderia ter imaginado que a sra. Daventry pudesse inventar com tamanha rapidez uma des- culpa para a presença de Morgan em seu quarto. Sem dúvida, subestimara as capacidades daquela mulher. Levantou-se e segu- rou o braço do sr. Brammachatrarya. - E se esse homem quiser deixar o país rapidamente, isto é possível? - Com toda a certeza, senhorita. - E se uma mulher o acompanhasse? Haveria um jeito? O sr. Brammachatrarya olhou em direção à cortina, encarou Queenie e riu. - Por que não? Com dinheiro tudo é possível. - Como poderei encontrar emprego sem meu maldito saxofone? - Ora essa, Morgan, quando chegarmos a Londres você com- prará outro, novinho em folha. Ninguém vai acreditar num in- diano que viaja com um saxofone. Morgan não escondia sua impaciência, na plataforma da estação repleta de passageiros. Usava um dhoti branco, um cha- péu de bico, à moda indiana, um paletó ocidental, carregava um guarda-chuva e duas malas pesadas, juntamente com dois cobertores dobrados. Queenie não conseguiu deixar de reparar como ele tinha um ar genuinamente indiano, com aqueles tra- jes. Achou melhor, porém, não fazer nenhum comentário. Mor- gari ficaria indignado. Queenie estava muito satisfeita com o próprio disfarce. Seu corpo achava-se envolto em um sari de seda cor-de-rosa e trazia na cabeça um pesado véu, que também lhe ocultava o rosto. i Era como se estivesse invisível. Todos os hindus a ignorariam respeitosamente, bem como os muçulmanos, pois, também para eles, o véu era algo sagrado. Para os europeus ela não passava de uma indiana e, portanto, não merecia sua atenção. Ela esten- deu o braço para Morgan, mas ele recuou. - Pelo amor de Deus, Queenie! Você deve saber muito bem que uma mulher de véu jamais toca no marido em público. - Queria apenas preveni-lo. Com um gesto de cabeça ela indicou os portões de ferro, onde um bilheteiro examinava as passagens. Ao lado dele se postavam dois policiais e atrás estava o sr. Daventry, olhando com muita atenção para os passageiros que iam tomar o expres- so Calcutá-Bombaim. Parecia estar de péssimo humor, e era fácil imaginar que a sra. Daventry o intimara a cumprir aquele dever tão desagradável. - Ele me reconhecerá! - desesperou-se Morgan, exprimindo-se em inglês. - Fale hindi, pelo amor de Deus! - disse Queenie entre dentes. Até aquele momento tudo estava dando certo, graças ao sr. Brammachatrarya, e também a Magda. Queenie comunicara-se com ela e solicitou que lhes trouxesse o que pu- desse. Encarregou-a de entregar a Vicky uma carta, na qual pro- metia explicar tudo assim que chegasse à Inglaterra. - Você deixará sua mãe com o coração partido - disse Magda, que, pela primeira vez, se mostrava severa. Queenie sa- bia que era verdade. Como poderia explicar o que tinha feito? Voltai para casa significava, sem sombra de dúvida, encontrar a polícia a sua espera. Ela jamais se imaginara a atravessar a Índia, fugindo da polícia, mas agora que as coisas tinham chegado àquele ponto, estava mais do que decidida a triunfar. Quando estivessem a salvo, esclareceria a situação junto a sua mãe. Por maior que fosse a impaciência de Queenie com Mor- gan, ela desconfiou que seu pessimismo se justificava, o que a deixou muito abalada. Daventry certamente o reconheceria, pois o terror de Morgan era evidente para quem o encarasse. Seus olhos brilhavam e estavam contornados por olheiras escuras e fundas, como alguém que tem febre alta. O rosto era de uma palidez impressionante, o que era uma verdadeira infelicidade para alguém que tentava fazer-se passar por indiano. Queenie procurou uma alternativa, mas em vão. Para pegar o trem de Calcutá a Bombaim tinham de passar pelo controle. - Não vou conseguir - balbuciou Morgan. Estava parali- sado pelo medo, e Queenie convenceu-se de que, a qualquer momento, ele se entregaria, aliviado por sentir que aquela aven- tura perigosa chegava ao fim. Quanto a ela, não sabia o que dizer. - Nós não nos conhecemos, amigo? - perguntou uma voz carregada de amabilidade. Morgan voltou-se, aterrorizado, 148 a 149 e contemplou um rosto vagamente familiar de um homem com uma barba cuidadosamente enrolada e protegida por uma rede, bigode besuntado de cera e um turbante azul-escuro. - É o sr. Singh! - disse Queenie, percebendo, um pouco tarde demais, diante do espanto do homem, que não era o tipo do comentário a ser feito por uma mulher de véu. - Mas é o corajoso matador de muçulmanos! - exclamou Singh, pegando a mão de Morgan. - E por detrás do véu está a srta. Kelley! Por que estão viajando disfarçados de indianos? O medo de Morgan parecia tê-lo deixado sem fala, mas Queeme, observando melhor o sr. Singh, percebeu que ele usa- va um kurta azul com botões dourados, enfeitados com o brasão das Estradas de Ferro Indianas. Sentiu então renascer a esperança. - O senhor agora trabalha nas ferrovias? - indagou. - Sim, senhorita. O sr. Pugh queixou-se de que eu o es- pionava. Disse também ao diretor da escola que eu era grosseiro e insolente, e fui despedido. - O sr. Singh, num ato de des- prezo, deu uma cuspida no chão e suspirou. - Aquele homem ainda vai acabar mal. .Não tem nenhuma moral! - De fato - interrompeu Queenie, antes que ele se infla- masse e começasse um longo discurso. - O senhor não pode nos colocar no trem? - Os senhores precisam comprar passagens - observou o sr. Singh, um tanto intrigado. - Mas já estão conosco. Acontece que não queremos ver alguém que está lá no controle. O sr. Singh voltou-se e viu Daventry junto aos policiais. - Por meu irmão, o matador de muçulmanos, não há o que eu não faça! - Emocionado, ele abraçou Morgan e piscou para Queenie. - Sigam-me, mas devo lhe dar um conselho, srta. Kelley. Caminhe devagar, por, favor, e a alguns passos de distância. Uma mulher com véu segue seu marido respeitosa- mente, numa atitude de humildade. Queeme fez o que ele sugeriu, enquanto Singh guiava Mor- gan através de um labirinto de malas empilhadas na plataforma. Passaram por várias portas, até chegarem à plataforma, longe da barreira. A distância viu Daventry, que observava minuciosa- mente todos os que atravessavam a barreira de controle. Viu-se então rodeada por um verdadeiro formigueiro humano, que em- purrava, apertava e gritava. Abriram passagem até o trem e só então se deram conta de que estavam livres! Queenie sempre julgara que deixar Calcutá seria o momen- to mais feliz de sua vida, mas a cidade ficou para trás antes que eles percebessem. Parte 2 Rani 150 7 Por alguns momentos ela imaginou o céu muito azul, che- gou até mesmo a sentir o calor do sol e a ouvir o barulho dos pássaros, na varanda, pousando e voando para longe da trepa- deira florida. Mas quando abriu os olhos viu o forro manchado de umidade, sentiu o cheiro de bolor e de comida não muito fresca e estremeceu, enrolada nos lençóis ásperos fornecidos pela pensão. Por mais que se agasalhasse, Queenie sempre sentia frio ao se levantar. De manhã era pior. Odiava o momento em que seus pés tocavam o linóleo gelado, que ondulava como as ondas do mar. As tardes eram o momento mais deprimente do dia, pois devoravam-lhe o otimismo e zombavam dos sonhos que a tinham trazido até aquele lugar. Queenie teve vontade de chorar, mas sabia que isso só ser- viria para deixá-la ainda mais desanimada, além do que ficaria feia. Será que isso tinha alguma importância? Naquela cidade cinza e enevoada, sua beleza, com que contava para chamar a atenção, mal parecia ser notada. Odiava Londres. Detestara a cidade desde o início, ao ver pela primeira vez as ruas invadidas pela poluição, atulhadas de multidões que caminhavam apressadamente em direção a suas casas. As luzes das vitrinas tinham um brilho fraco na hora do crepúsculo, e os ônibus enormes reduziam-se a formas averme- lhadas e difusas, surgidas não se sabia de onde, em meio à fumaça e ao nevoeiro. Odiava especialmente aquele quarto feio, escuro e sujo, com a mobília quebrada, e o aquecedor a gás que funcionava precariamente e parava de vez quando ela se esquecia de pôr moedas em quantidade suficiente no pequeni- no cofre que o controlava. Pensou, desanimada, no momento em que teria de vestir a pesada saia de lã, um cardigã e o par de meias grossas. Não suportava sentir a'lã de encontro à pele. As luvas de lã, que detestava ainda mais, estavam depen- duradas em um varal improvisado, perto das chamas azuladas do aquecedor, após uma manhã em que ela, inutilmente, saíra 153 à procura de emprego. O odor que desprendiam embrulhava o estômago de Queenie. Tudo, na Inglaterra, parecia ter cheiro de lã molhada, como se toda a população fosse formada por carneiros encharcados de água. Vestiu o pesado roupão, pôs a chaleira para ferver no pe- quenino fogareiro de uma só boca e suspirou. Se pelo menos conseguisse arranjar um emprego... E se o mesmo acontecesse k com Morgan... Ao pensar nele sentiu que todo o seu ódio voltava. Caso Morgan não tivesse um comportamento tão estúpido no navio, ambos estariam agora vivendo com conforto, enquanto procura- vam emprego. Queeme sabia que sempre é mais fácil conseguir uma colocação quando não se aparenta precisar dela. Contara com o fato de que o bracelete da sia. Daventry daria a eles pelo menos seis meses para se arranjarem. É claro que não vive- I, ~i, riam como reis, mas, pelo menos, com decência. Morgan, po- rém, pusera tudo a perder! ;; Serviu-se do chá e sentou-se à mesinha junto à janela. Das ruas vinha o barulho abafado do tráfego. Chovia. Morgan estaria f!'i molhado como um pinto, quando chegasse em casa. A menos que tivesse parado para bebericar em algum bar, gastando um pouco mais do precioso dinheiro deles. Olhou para a folha de papel, na qual vinha tentando, dia após dia, escrever à sua mãe. De repente o aquecedor desligou, com um ruído seco. Ela alcançou a jarra, em cima da mesinha, à procura de moedas. Estava vazia. Esperava que Morgan tivesse a presença de espírito de trazer algumas moedas. O frio começou a invadir o aposento. Ela finalmente estava na Inglaterra, seu lar, conforme tanto desejara, mas já sentia saudade da Índia. A viagem de Bombaim até Porto Said fora infernal. Por razões de segurança, viajaram em um camarote de segunda clas- se de um navio egípcio, onde um casal de indianos não chama- ria a atenção de ninguém. O calor reinante no minúsculo cama- rote era tão insuportável que Queenie passava as noites na pon- te, a despeito da fuligem e das cinzas que caíam sobre ela. Tinha sobressaltos ao dormir, enquanto Morgan padecia as ago- vias do enjôo de mar. Ao chegarem ao oceano Índico, vários passageiros da tercei- ra classe desmaiaram, devido à insolação, e um deles morreu. Dois dias de escala no porto de Basra, a fim de receber carga, tornaram a ponte tão quente que alguns passageiros desavisados queimaram a-sola dos pés. O cheiro do pó de carvão, de carne 154 de carneiro gordurosa e de óleo combustível impregnava o navio como um miasma, enquanto cruzavam as águas do oceano. Quando finalmente chegaram ao Egito, a sujeira e o baru- lho eram muito superiores a tudo o que Queenie experimentara até então. O vapor francês que fazia a linha Alexandria-Marselha não era muito melhor, pois estava infestado de todo tipo de insetos nojentos e recendia a alho. Pelo menos ela pôde deixar de lado o disfarce, após partirem de Porto Said. Morgan tam- bém recuperou uma certa jovialidade, agora que estavam mais perto da Europa e ele não era mais obrigado a vestir-se como um indiano. Talvez devido ao alívio por ter escapado de ser preso, ou por envergonhar-se de perder a coragem diante de Queenie, tornou-se inquieto e arrogante, deixando-a no camaro- te, enquanto ia beber no bar da segunda classe. Os homens que se reuniam lá eram a fina flor do colonia- lismo francês. Tratava-se de sujeitos durões, insensíveis, que ti- nham passado a vida nos trópicos, mantendo os "nativos" em seus lugares. Olharam Queenie com indisfarçada admiração e, embora não entendesse francês, ela sabia que estavam falando dela. Cansada de ser objeto de olhares e comentários tão indis- cretos, após cinco minutos, deixou Morgan com seus novos ami- gos, achando que alguns drinques não fariam mal a ele. Queenie enganou-se, porém. Na primeira noite Morgan só apareceu no camarote à uma da manhã, bastante bêbedo. Dor- miu a maior parte do dia, roncando e gemendo. Queenie passou quase todo o dia sentada em uma espre- guiçadeira, ao lado das mulheres e das crianças, tomando caldo e chá, preparando seu aparelho digestivo para a próxima refei- ção. As mulheres a encaravam com mal disfarçado ódio, por ser inglesa, jovem e bela. Mas, pelo menos, ali estava a salvo da atenção importuna dos homens. Na segunda noite Morgan só voltou às três da manhã. Sentou-se na cama, suspirando, e ficou parado por alguns mo- mentos, encarando fixamente os sapatos, como se não soubesse rirá-los. Queenie teve a impressão de que ele estava menos bê- bedo do que na véspera, mas havia algo nele que a preocupava. Era uma mistura de vergonha, medo e culpa, mais assustadora do que a embriaguez. - Morgan... - murmurou. Ele se deitou de lado, dando-lhe as costas, e fitou a parede. - Morgan! O que aconteceu? Ele gemeu, e Queenie receou que estivesse padecendo de dor física. Já tinha lido algumas coisas a respeito de apendicite. Acaso ele já fora operado? E se tivesse de fazê-lo naquele navio imundo, antes de chegarem a Marselha? 155 - Onde é que você sente dor? - perguntou, sentando-se no beliche. - Desculpe-me... Sou um idiota. - Por que se desculpa? - É que bebi demais... Devia ter-me controlado... - Morgan, o que aconteceu? - Eles trapacearam, Queenie. Foi puro roubo. - Você não esteve jogando, não é mesmo? - perguntou, i; alarmada, embora já soubesse a resposta. . - Foi apenas um joguinho entre amigos... não há nada de mau nisso, Queeme. - Quanto foi que perdeu? - Eu ia tão bem... - lamentou-se Morgan, fazendo uma pausa. - Dupliquei nosso dinheiro, Queenie. Disse a mim mes- mo que ficaríamos hospedados no Savoy, um dos melhores ho- téis de Londres, e beberíamos champanhe. j Queenie cruzou os braços, como se estivesse sentindo frio. j Devia ter adivinhado, pensou, devia ter impedido que isso acontecesse. - Quanto foi que você perdeu? - voltou a perguntar, ten- tando disfarçar o medo. - Mil libras... - ele murmurou tão baixo que ela preci- sou inclinar-se, a fim de ouvir melhor. Era mais da metade do dinheiro que eles tinham. Ela não disse nada, pois não havia o que comentar. Levantou-se e vestiu- se às pressas, fazendo o possível para não ouvir as desculpas esfarrapadas e lamentosas de Morgan. Saiu, batendo a porta com força, e hesitou por alguns instantes; depois caminhou em dire- ção ao bar. Um marujo sonolento, com a barba por fazer e o umforme em desalinho, lançou-lhe um olhar um tanto cafa- jeste. Mas ela o ignorou e prosseguiu até o bar. Lá estavam três homens de aparência truculenta, que a olharam pelo espe- lho, assim que ela entrou. Ela sentiu o cheiro forte de cigarros j franceses e o odor adocicado de Pernod. - Quero meu dinheiro de volta - disse-lhes, encarando- os com destemor. Fez-se um silêncio prolongado. O barman pôs de lado o copo que estava secando e retirou-se, fechando a porta. O mais corpulento dos três homens voltou-se lentamente, a fim de en- caiar Queenie. Tinha um cigarro dependurado no lábio, e seu cabelo negro era tão pastoso que chegava a brilhar. O rosto era duro, musculoso e encaroçada, como se fosse feito de pedaços de pedra que não se combinavam. Despiu-a com o olhar, e somente a raiva a impediu de corar. 156 - S'zl vous plait? Mes excuses. Je ne compreenda pas 1An- glaz:r. - Ele deu uma piscada matreira, e seus companheiros sorriram. - O senhor fala inglês o suficiente para jogar com meu tio. - Um pouco, talvez - disse o homem, rindo. - Com que então ele é seu tio? Ela fez que sim. Tinha os lábios comprimidos, de puro ódio. - E ele divide o camarote com sua sobrinhazinha? Merde alou! Quero fazer parte da família! - O senhor trapaceou no jogo. - O que quer dizer trapacear? - O senhor o enganou. - Elle dit que tu lás tnché - explicou um dos sujeitos. A expressão do homenzarão não se alterou. Caminhou até Queenie e segurou o queixo dela com a mão enorme, imobi- lizando-a. Abaixou a cabeça e encarou-a fixamente. - Devia tomar cuidado e não dizer semelhante coisa a um homem, ma petite. Seria uma lástima que este belo rostinho fosse espatifado por um sujeito menos bonzinho do que eu. - Procurarei o capitão. - Pode ir e verá o que acontece, mademoiselle! - disse o homem, caindo na risada.- jogamos uma partida e ele per- deu. T'ant pzs, c ést la vie. Espere aí. Vamos fazer un pari, uma aposta. Jogarei uma moeda para o ar. Se cair cara, você terá as mil libras de volta. Se for coroa, você irá até meu camarote. Ela sacudiu a cabeça com tanta energia que o francês a soltou. - Que garota orgulhosa! Gosto disso! - Tirou um maço de notas do bolso e agitou-o. - E então? Aceita o trato? - Procurarei o capitão - repetiu Queenie. - E o que você lhe dirá, ma petite? Que seu "tio" não sabe perder uma partida? - Ele a despiu com o olhar e acen- deu um cigarro. - É claro que o capitão não vai aceitar a pala- vra de uma métèque, embora bonita, contra a de um patrício. Queenie não sabia francês, mas não teve a menor dificul- dade em entender o significado da palavra. Sentia o desprezo com que ele falava, e o sujeito deu-lhe uma piscada. - Está em seu sangue, ma fille, e você não pode esconder esse fato de alguém que, como eu, morou tanto tempo nas colônias. Volte para junto de seu tio, se é que o sujeitinho é mesmo seu tio. Diga-lhe para não jogar mais com estranhos, de hoje em diante. Queenie contemplou seu reflexo no espelho completamen- te perdida e impotente entre as mesas vazias. O que será que a tinha denunciado? Os cabelos negros? O formato dos olhos, 157 do rosto ou dos lábios? Ou o modo como caminhava? Não con- A mulher os olhou de alto a baixo. Usava um penhoar seguia encontrar a resposta. Era algo que teria de aprender na florido, meias que se amontoavam desgraciosamente em duas Inglaterra. ou três dobras em volta do tornozelo, e um par de chinelas Dominou as lágrimas, voltou-se e retirou-se com dignida- puídas. de. Passou o resto da noite na ponte, envolvida em um cober- - Quem? ror, até que finalmente Morgan a achou, sozinha e trêmula. - A sia. Butts? Peggy Butts. Sem dizer uma palavra, pegou-a pela mão e levou-a para o bc li- - Ah, a sia. Butts? Essa é boa! - A mulher deu uma che, que ela só deixou quando o navio atracou em Marselha. risada ácida, exibindo uma dentadura muito malfeita. Ï Queenie não contou a Morgan o que acontecera. Não lhe - Não é aqui que ela mora? - indagou Morgan com de- dirigiu a palavra durante a longa viagem de trem, de Marselha licadeza. Queeme, muito pouco à vontade, percebia que o sota- a Calais, e nem mesmo quando o barco passou pelos alvos ro- que do tio, ao contrário do seu, era bem pronunciado. chedos de Dover e os deixou finalmente na Inglaterra. - Fiquem sabendo que esta casa é minha. Se vocês por Somente ao chegar à Estação Victoria é que ela cedeu, ao acaso acham que vou aceitar gente da sua laia aqui, estão muno compreender que precisaria da ajuda de Morgan, a fim de so- enganados. breviver àquela multidão apressada e indiferente que povoava - Só queremos vê-la. Ela está em casa? Londres. A cidade lhe pareceu tão grande, fria, escura e agitada - Está sim. São parentes dela? q ue chegou a sentir tonturas. Segurou no braço de Morgan e - Não, apenas amigos. Somos da mesma cidade. i¡ d isse: "Estamos em casa!" - Ah, é? E que cidade é essa? Bombaim ou Calcutá? Su- Ele acenou, aliviado, pois ela finalmente lhe dirigia a palavra. bam. É no terceiro andar, à esquerda. Podem deixar as malas - Acho melhor procurarmos Peggy D'Souza - ponderou aqui mesmo. Vocês não vão ficar. Morgan, esfregando as mãos, a fim de esquentá-las. Não tinha Enquanto os dois subiam a escada fracamente iluminada, luvas, e muito menos Queeme, que tremia de frio em seu vesti- a velha bateu a porta da rua com toda a força. O cãozinho do de algodão e usava um casaco muito leve. voltou a latir e ela o acalmou. Morgan revirou os bolsos, à procura do endereço de Peggy. - Pronto, pronto, benzinho - murmurou, mas Queenie O nevoeiro gélido parecia infiltrar-se em seus ossos, provocando a ouviu perfeitamente. - Ele não passa de um "encardido", um frio que os deixava quase entorpecidos. Pelo menos, pensou viu? E a fulaninha? Ela devia saber qual é seu lugar! Do jeito Queenie, Peggy lhes daria uma xícara de chá, além de aconse- como o mundo anda, não sei onde iremos parar! Ihá-los sobre um bom lugar para morar. Diante dessa perspecti- Queeme sentiu-se envergonhada diante da agressividade da- va, sentiu-se menos infeliz, e até mesmo conseguiu ter algum quela criatura. Bateu à porta do terceiro andar. Não houve res- prazer durante a interminável trajetória do táxi até a Rua Bays- posta, então ela bateu com mais força. water. Com efeito, o banco do veículo era de couro puro, e - Quem é? - ouviu-se a voz mal-humorada de Peggy o chofer tinha um sotaque estranho quase incompreensível. D'Souza, que abriu a porta com toda a cautela. i~ Finalmente o táxi parou diante de uma casa bem modesta, Queenie encarou-a, chocada com o que via. Peggy havia idêntica às residências vizinhas, que ocupavam vários quartel- envelhecido. Sua pele cor de azeitona estava escondida por uma rões. espessa camada d e maquilagem branca. Tinha olheiras negras Assim que a campainha tocou, a porta foi aberta por uma e fundas, os lábios estavam pintados com batom vermelho, de mulher de meia-idade. Seus cabelos, tingidos de um vermelho tom muito vivo, que não conseguia disfarçar a amargura de sua escandaloso, estavam envoltos em uma faixa, e ela aninhava con- expressão. Os cílios postiços, exagerados, eram delineados com tia o peito um trêmulo cãozinho pequinês. Sem disfarçar a hos- rímel que escorria, dando a impressão de que ela estivera tilidade, encarou Queenie, Morgan e suas malas. chorando. - O que vocês querem? Não temos vaga. - O cãozinho Ao ver Morgan, Peggy sorriu mecanicamente, mas, reconhe- abriu um olho remelento e latiu para Queenie. cendo Queenie, não disfarçou a surpresa e, desajeitada, escon- - Como é o nome dele? - perguntou, tentando ser gentil. deu os seios sob o sujo quimono estampado. - Não interessa, senhorita. - Vejam só quem está aí! Queeme, a filha de Vicky Kel- - Viemos ver a sia. Butts. ley! Que surpresa! E Morgan também veio! 158 a 159 - Podemos entrar? Peggy suspirou e, após breve hesitação, abriu a porta. Quee- nie viu-se em um quarto escuro, pequeno e muito mal mobiliado. O aquecedor elétrico desprendia pouco calor e, em cima da única boca de um fogaréiro, via-se uma chaleira enegrecida de fuligem. A pia estava repleta de xícaras, pratos e copos sujos. Na cama em desordem era possível distinguir um homem dormindo, de caiça e camiseta, com um lenço não muito asseado tapando-lhe o rosto. O cheiro de fumaça de cigarro, de perfume barato e de comida chegava a dar náuseas. O homem gemeu e mudou de posição. - Quem é? - resmungou com voz abafada. - Amigos - disse Peggy. - Amigos uma ova! Diga a eles para darem o fora. - Espere aí! Este quarto é meu, recebo quem eu quero. - Peggy voltou-se para Queeme, envergonhada e, ao mesmo tempo, com uma expressão de desafio. - O que é que vocês dois vieram aprontar aqui? - Finalmente viemos para o nosso lar - disse Morgan. - Achamos que você poderia nos ajudar. Estamos procurando um emprego, um lugar para ficar. - Nosso lar? - disse Peggy, com indisfarçada ironia. - Nosso lar é em Calcutá, minha cara! - O que aconteceu com o sr. Butts? - perguntou Quee- nie. - Mamãe disse que você estava vivendo como uma prince- sa. Ela recebeu suas cartas. - Bem, alguma coisa eu tinha de escrever, não é mesmo? Não podia contar a verdade. Butts me enganou e deu o fora com meu dinheiro. Não é que fosse muito, mas ainda assim era mais do que aquele cafajeste tinha. Estou procurando sobre- viver da melhor maneira possível. Não tenho a menor condição de ajudar vocês. Vão ter de se virar. - Mas onde podemos ficar? - indagou Morgan. - Tente a Fulham Road, querida. Lá há muitos lugares que aceitam gente como nós. Vai dar certo, vocês vão ver. Vai dar certo principalmente com Queenie e esse seu rostinho de mulher fatal... - Vamos acabar com esse papo, Peggy! Não tenho tempo a perder... - resmungou o homem. - Achávamos que você tivesse conhecidos que... - Antes que Queeme conseguisse terminar a frase, Peggy D'Souza come- çou a chorar. - Garota, você acha que se eu conhecesse alguém estaria vivendo deste jeito? - gritou. As lágrimas desciam-lhe pelo ros- to, estragando a maquilagem, e ela pôs os dois para fora, baten- do a porta com violência. Foi assim que eles principiaram a viver aquela existência mesquinha em uma pensão de terceira categoria, nas proximida- des da Fulham Road. Morgan saía diariamente à procura de trabalho, com um mapa amarrotado do centro de Londres no bolso, a fim de se orientar. Pela manhã Queenie ia de uma agência a outra, com entusiasmo cada vez menor. Não tinha capacitações e, muito menos, experiência. A todos os lugares que ia as pessoas diziam que as coisas estavam muito difíceis. Os empregos eram raros, o dinheiro apertado e as pessoas fica- vam horas e horas nas filas, à espera de empregos que mal da- vam para pagar o aluguel. Na Índia falava-se, é claro, da crise econômica existente "lá em casa", mas a pobreza daquele país o isolava dos efeitos da depressão mundial. Nada havia preparado Queeme e Morgan para as enormes e deprimentes filas de desempregados, homens tristes e educados, com medalhas de guerra dependuradas em suas lapelas, vendendo lápis ou cadarços de sapatos nas ruas; nem para os cartazes nas lojas que anunciavam: "Desculpem- nos. Aqui não temos emprego e não damos crédito". Estes eram os ingleses, raça de sahibs que impunham respeito, devido à cor de suas peles, mas que, em sua pátria, viviam em meio a uma pobreza sem esperanças, fria e esquálida. t1 tarde Queenie ia fazer compras para o jantar, plenamen- te consciente do fato de que possuía poucas habilidades domés- ticas. Na Índia sempre existia alguém mais pobre para fazer compras, cozinhar ou limpar a casa. Entre as muitas queixas de Morgan quanto à existência que agora levavam, incluía-se o fato de serem obrigados a submeter-se a um regime apertado de carne enlatada, biscoitos de chocolate e chá. A pior coisa em relação ao jantar, segundo Queenie, era a rapidez com que ele se encerrava. Com efeito, depois de ter- minarem de comer não havia mais nada a fazer, a não ser aguar- dar aquele momento constrangedor de irem para a cama. Ela ficava por detrás da cortina, a fim de despir-se e enfiar a cami- sola. Morgan fazia o mesmo e vestia o pijama. Não havia sofá para ele dormir e compartilhavam a mesma cama, que, pelo tamanho, apresentava muito desconforto para Morgan. De vez em quando ele se virava e seu corpo ficava bem junto ao dela. Morgan fingia que não era de propósito, mas Queenie sempre o repelia. Algumas vezes, quando já não agüentava mais aquela proximidade, ele a tocava de leve e perguntava se ela o amava. Quando isso acontecia, ela se sentava na cama e ordenava-lhe que se comportasse, o que acabava sempre por gerar uma discussão. Quase todas as vezes em que Morgan bebia, antes de ir 160 a 161 para casa, ele se descontrolava. Certa noite abraçou Queeme e tentou beijá-la, mas ela virou o rosto. O hálito dele cheirava a uísque e, por alguns segundos, ela chegou a sentir enjôo. - Você fez uma promessa, Queenie... - ele murmurou. - Não prometi absolutamente nada. - Prometeu, sim! Quase fui para a cadeia por culpa sua, e agora você não me deixa sequer tocar em você! - Morgan, você faz muito mal... - Ah, é? Pois hz muito mal em roubar o bracelete, mas, mesmo assim, fui em frente. - A culpa foi de nós dois, mas, se você não tivesse perdi- do nosso dinheiro, não estaríamos vivendo desse jeito. - Você me enche! - Morgan soltou-a, sentou-se na cama, acendeu um cigarro e tossiu. - Sempre tem a última palavra em tudo. É igualzinha a sua mãe. - É verdade. Os dois permaneceram em silêncio durante alguns minu- tos, mantendo uma distância cautelosa um do outro. - Ainda não conseguiu nada? - perguntou Queenie, pro- curando fazer as pazes, pois, anal de contas, dividiam a mes- ma cama. - Nadinha. Acho até que fiz besteira em tirar do prego um saxofone por quarenta libras. Ninguém quer me ouvir tocar. Desse jeito você acaba conseguindo emprego primeiro que eu. - Nem pensar... Não arranjo emprego nem mesmo como balconista... - disse Queeme, suspirando. - Não precisam de garotas, nessas boates onde você vai? - Acho que sim, mas esses lugares não são para você, Queeme. - Por que não? Não deve ser pior do que trabalhar atrás de um balcão. - Alguns deles são da pesada. - Mas eles empregam taxi-gzrls, não é mesmo? Eu sei dançar. - Bem, em geral, elas não ficam só nisso... - disse Mor- gari, pigarreando. - Ah, sei... - É claro que subir no palco é uma coisa inteiramente diferente. Algumas das garotas são até mesmo de muito respei- to, mas isso não serve para você. - Por que não? - Bem, você não quer ficar em cima de um palco quase pelada, não é mesmo? Não tem nada a ver com o teatrinho que você fazia no colégio. Além disso, é preciso saber cantar csu dançar. - Mas eu sei dançar e posso aprender a cantar. - Bobagem! Não se trata de danças simples, convencio- nais, Queenie. A dança exótica é bem diferente. - E é difícil? - Acho que não... como posso saber? Parece que as dança- rinas ficam paradas e tiram as roupas. Quem dança são apenas as coristas, que precisam ser craques. Isso, porém, nem se discu- te. O que sua mãe diria? - Ela não está aqui e não acharia que é pior do que rou- bar, por exemplo. - Você precisa lhe escrever. Ela a perdoará, mas nunca mais vai querer saber de mim. Queenie sacudiu a cabeça, sem muita convicção, pois sabia que era verdade. - Eu venho tentando escrever, mas é difícil saber o que dizer. - Procure animá-la! - Aí é que está o problema. Oh, Morgan, leve-me com você às boates. Se eu pudesse conseguir um emprego como dan- çarina... pelo menos seria um passo na direção certa. - Na minha opinião, seria um passo na direção errada - declarou Morgan com firmeza, esmagando o cigarro no cinzeiro e pondo um fim à conversa. Agora Queeme contemplava a carta que escrevia a sua mãe, toda manchada de lágrimas, e a sensação de desamparo aumen- tava cada vez mais. Os dias se passavam, a carta permanecia em cima da mesa, e ela não conseguia imaginar o que dizer. Falaria de seu arrependimento? Era verdade, mas acaso isso re- pararia o erro cometido? Será que a polícia aparecera na casa de Vicky, fazendo perguntas? Queeme obrigou-se a não pensar nisso. E como poderia dizer a sua mãe que o futuro lá era ainda mais melancólico do que na Índia? Decidiu aguardar melhores notícias, se é que existiriam, e rasgou a carta. Será que Vicky a perdoaria? O que diria se a visse agora, vivendo em meio a uma penúria que aumentava a cada dia, enquanto Morgan gastava em bebida o pouco dinheiro que lhes restava. A experiência de Queeme, em relação ao álcool, limitava-se ao que ouvira a respeito de seu pai, mas tinha a impressão de que Morgan não sabia controlar a bebida. Suas mãos tre- miam; pela manhã, barbeava-se mal, deixando pequenos tufos de pêlos e fazendo cortes de gilete no rosto; seus olhos estavam injetados e cercados de olheiras profundas. Aquela aparência não o ajudava em nada a conseguir um emprego. Fumava um cigar- ro atrás do outro, pois uma carteira de cigarros custava menos 162 a 163 do que comida. Queenie começou a detestar o cheiro de fumo, que aderia a seu cabelo por mais que o lavasse. Impregnava j não apenas o quarto, mas até mesmo as poucas peças de roupa que ela possuía. Queenie jamais conhecera a pobreza, e seu fantasma a ater- rorizava. Na India, sobretudo no mundo estreito dos anglo-in- dianos, havia sempre alguém disposto a ajudar, principalmente em tempos difíceis. Até mesmo os mais pobres tinham amigos, parentes, uma comunidade em que se apoiar, em caso de extre- ma necessidade, pois não interessava a ninguém que um anglo-in- diano alcançasse o nível de um nativo. Por mais pobres que fossem, ainda assim os anglo-indianos se encontravam em me- ! lhor situação do que os indianos, o que não deixava de ser um j consolo. Em todo caso a pobreza, em um clima quente, não era tão aterrorizante como na Inglaterra, onde o abrigo, a roupa e o dinheiro eram dificílimos de se conseguir. Queenie entrava em pânico toda vez que pensava no que poderia lhes acontecer, quando o dinheiro acabasse. Levantou-se e abriu uma caixa de biscoitos de chocolate. Na tampa havia uma ilustração de um homem gordo, com rou- pas indianas, sendo pesado em uma balança, com a seguinte legenda: "Biscoitos de Chocolate Cadman - Abundantes e Es- curos como Aga Khan". Mordiscou um biscoito, afastando a cortina, a fim de con- templar a rua lavada de chuva e o brilho das luzes. Ouviu a chave girar na fechadura e voltou-se. Para sua grande surpresa, Morgan sorria, todo feliz. Em uma mão ele trazia o estojo do saxofone e na outra uma garrafa envolta em um saco de papel todo molhado. j - Trago uma surpresa! - Tirou o casaco, jogou-o em cima de uma cadeira e exibiu a garrafa. - Champanhe! - Para quê, Morgan? - Precisamos comemorar! Consegui um emprego! Queenie sentiu um profundo alívio. Atravessou o quarto correndo e jogou-se nos braços de Morgan. - Que emprego é esse? Onde é? Quanto vão pagar? - Espere um pouco, espere um pouco. Morgan desenrolou o arame em torno da rolha, pressionou- a com os polegares e riu, feliz, quando a espuma jorrou, molhando-os. Serviu o champanhe em duas canecas, entregou uma delas a Queeme e bebeu de um só gole, voltando a servir-se. - Vou ganhar cinco libras por semana! - anunciou com muito orgulho. - É num conjunto de jazz de uma boate, Queenie! - Como se chama? - Clube Paradiso, no Soho, perto da Rua Greek. - É melhor do que o Firpo's? Morgan tomou mais um gole e ficou pensativo, mal contro- lando seu desapontamento. - Não - disse finalmente. - Beba, vamos. Era a primeira vez que Queenie tomava champanhe ou qual- quer bebida alcoólica, e o gosto lhe pareceu especialmente desa- gradável. Era gostoso ver a bebida borbulhando e sentir a espu- ma, mas a bebida em si era enjoativa. Sua expressão indicava o que ela sentia, pois Morgan desculpou-se na mesma hora. - Acho que não é champanhe francês... - Mesmo assim é muito bom. Queenie estava decidida a mostrar-se delicada é não dizer nada que pudesse alterar o bom humor de Morgan. Com muita relutância esvaziou a caneca, e ele imediatamente voltou a enchê-la. Queenie sentou-se na cama, segurando a caneca. De repen- te sentiu as pernas bambas. Ouvira dizer certa vez que não se deve beber de estômago vazio e, pelo visto, era verdade. Procu- rou controlar-se, mas sentia-se muito cansada. - Você acha que lá há emprego para mim? - Sua voz lhe pareceu esquisita, abafada... Será que Morgan estava notando? Ele, porém, não deu indícios de notar o que quer que fos- se. Como sempre, bebera antes de chegar em casa e mostrava-se carregado de tensão e de uma espécie de excitação nervosa. - Não quero falar deste assunto, Queenie. Você está sentindo-se bem? - Mas é claro que sim - ela mentiu. Na realidade sentia- se tonta, enjoada, mas era orgulhosa demais para admiti-lo. - Você está me parecendo um pouco cansada. Espere aí, vamos dar um jeito nisso. Morgan sentou-se ao lado dela, ordenando-lhe que levan- tasse os pés, pegando-lhe os tornozelos. Queenie suspirou de alívio, e Morgan, de propósito ou não, interpretou-a mal, pois afrouxou o cinto do roupão e abriu-o. - Assim você fica mais à vontade... Ele bebeu mais um gole e pôs a caneca no chão. Queenie agora via seus olhos: Neles havia um brilho estranho, quase opaco. Não era mais aquele olhar tímido que estava acostumada a pre- senciar, toda vez que encarava Morgan. Tentou amarrar o cinto, mas seus dedos não lhe obedeciam. De repente sentiu o peso do corpo dele pressionando o seu, mas não conseguiu repeli-lo. Seu rosto estava tão próximo do dele que não podia mais distingui-lo, como se fosse uma nuvem passando na frente do sol. Sentiu os lábios de Morgan 164 a 165 sobre os seus. A língua dele forçava a passagem, e o bigode roçava-lhe o rosto. j - Queenie! - ele gemeu. - Queenie, eu te amo! Ela tentou afastá-lo, procurando respirar, pois a boca de Morgan não se desprendia da sua, e o peso dele começava a incomodá-la. Ele, porém, não notava mais as reações dela. Segurou-lhe a nuca e, com a outra mão, levantou a camisola de Queenie. Sem soltá-la, baixou a cabeça e começou a beijar- lhe os seios, com a respiração ofegante. Queenie distinguia seus cabelos negros e sentia o odor nau- seante de brilhantina. A boca de Morgan tinha gosto de fumo, álcool e champanhe adocicado. Por alguns momentos ela teve a sensação de que iria vomitar, mas, de repente, sentiu a mão de Morgan mergulhar entre suas pernas. Os dedos dele eram brutais e penetravam nela com força. A dor foi tão súbita que o enjôo passou na mesma hora. - Você esperou por este momento tanto quanto eu... - ele cochichou em seus ouvidos. Ela sacudiu a cabeça, mas de nada adiantou. O peso e a força de Morgan eram mais do que ela conseguia agüentar. Sol- tou um gemido de dor e mordeu-o com toda a força de que era capaz, surpresa com o próprio ódio. - Putinha! - gritou Morgan, esbofeteando-a. Em segui- da, como se já não se satisfizesse mais com as preliminares, tapou- ; lhe a boca, forçando-a a encostar a cabeça no travesseiro, desa- botoou a calça, apoiou-se nos cotovelos e, afastando as coxas de Queenie, penetrou-a, o mais fundo que podia, com todo o vigor de seu impulso. Queenie soltou um grito de dor. Ela cerrou os punhos ë começou a socar-lhe as costas, ten- tando ao mesmo tempo chutá-lo com as pernas, mas a atenção de Morgan não se dispersou. Continuou a penetrá-la, gemendo baixinho de dor, pois os músculos de Queenie se fechavam ins- tintivamente. De repente ela sentiu uma dor aguda, pois ele rompia sua virgindade. Seguiu-se um jato quente e pegajoso que lhe inundou as carnes, enquanto Morgan gozava, gemendo. - Eu te amo, Queenie, eu te amo... - ele disse, com voz quase inaudível. Em seguida desprendeu-se dela, respirou fundo, como se fosse nadar debaixo da água, cerrou os olhos e começou a roncar. Sua calça ainda estava desabotoada. Quee- nie abriu os olhos, enxugou as lágrimas e viu seu pênis ainda ereto. Nele havia manchas de sangue, e ela também deveria estar sangrando. Agora que tudo se consumara, sentiu um pâni- co incontrolável, que aumentava cada vez mais, como se ela es- tivesse a ponto de se afogar. Não suportava encarar Morgan nem aquele quartinho miserável em que ele os enfiara. Não queria 166 ficar lá nem por mais um minuto. Levantou-se rapidamente, sem se olhar no espelho, receosa do que veria, e saiu correndo para a rua. Queenie mal sentiu o frio. Caminhou depressa, sem se im- portar com a direção, contanto que fosse para bem longe de Morgan. A chuva encharcava-lhe os cabelos e escorria-lhe pelo rosto. Não se importava e até mesmo gostava, embora estivesse tremendo. Já tinha ouvido falar de estupro. Era um assunto que suas coleguinhas comentavam em voz baixa, na escola. Acaso Morgan a estuprara? Achava que sim, pelo pouco que conhecia do assunto. Mas, se fosse o caso, por que se sentia tão envergo- nhada e culpada? Com toda a certeza a culpa era dele, não dela. Não tinha a quem perguntar. Caminhou sem parar, até o pânico diminuir. As pessoas a encaravam, mas ela não as notou, da mesma forma que não notou as vitrinas de Knightsbridge iluminadas feericamente. Ten- tou pensar com calma em sua situação, mas sabia que a única coisa que importava no momento era afastar-se de Morgan. Mas como? Se o deixasse, para onde iria? Não conhecia ninguém, não tinha emprego, acabaria sozinha naquela cidade enorme e indiferente. Um táxi espirrou água ao passar, mas ela ignorou os sapatos e as meias molhados. Parou por alguns instantes sob uma marquise a fim de sacudir a água dos cabelos. Na marqui- se, ao lado, uma mulher gorda, com o rosto escandalosamente pintado, encarou-a com agressividade. - Ei, você aí! Vá dando o fora! Este ponto é meu! Queenie não disse nada. Sabia a respeito da prostituição na índia, onde existiam bairros inteiros dedicados a essa ativida- de, mas não lhe ocorreu que existisse também na Inglaterra ou que fosse algo a que uma mulher branca se entregasse. Imagi- nou o que a mulher diria se contasse que acabara de perder a virgindade, mas chegou à conclusão de que estava se descontrolando. Queenie atravessou a rua. As sentinelas abrigavam-se em suas guaritas, e ela sentiu o cheiro pungente dos cavalos, reco- lhidos nos estábulos. Uma das sentinelas piscou para ela. Acaso sua aparência era diferente? Será que algo a traía? Contemplou- se em uma vitrina, mas, a não ser pelo fato de estar encharcada, pouca coisa se modificara. Deu as costas à vitrina e olhou para o outro lado da rua. Através das enormes janelas do hotel Hyde Park distinguia as pessoas dançando, os homens de fraque, as mulheres de vestidos de baile, girando à luz de dezenas de candelabros. Conseguia ouvir a música, que se sobrepunha ao barulho do tráfego. Era como se tudo aquilo que desejasse na vida estivesse lá, tão perto 167 que quase podia tocar, mas, ainda assim, fora de seu alcance. Um elegante carro esporte freou subitamente, espirrando água para todos os lados e molhando as pernas de Queeme. Quem o guiava abaixou a janela e pôs a cabeça para fora. Queenie o encarou. Ele usava smoking, com um lenço de seda. O cabelo louro, comprido, era penteado para trás, com displicência, e lhe cobria as orelhas. O rosto era bonito. Não se tratava da beleza convencional de um ator, mas era, sem dúvida, um rosto interessante. O que surpreendeu Quee- nie, entretanto, não foi sua bela aparência, mas sua evidente preocupação. - Estou bem, obrigada - disse ela. - Você devia ir para casa e secar-se - disse o homem com delicadeza. Então o sinal abriu, e Queenie ouviu uma voz de mulher, que se exprimia com o sotaque preciso e requintado de uma mulher de classe alta. - Vamos, Lucien, desse jeito nos atrasaremos! O homem deu um sorriso encantador para Queenie, como se pedisse desculpas por deixá-la na chuva, e prosseguiu, paran- do na entrada do hotel. O porteiro veio correndo com um gran- de guarda-chuva, a fim de levá-los até a porta, e uma jovem desceu do carro. Queeme sentiu uma estranha combinação de alívio e triste- za, como se o fato de aquele homem tão bonito notá-la fosse o indício de que dias melhores viriam. Sabia que não voltaria correndo, chorosa, para os braços de sua mãe. Regressaria ao quarto, tomaria uma xícara de chá e se lavaria. A idéia de en- frentar Morgan já não a deprimia mais. Precisaria ficar ao lado dele até ter condições de partir. Seria difícil, talvez doloroso, mas necessário. Como ele vivia atormentado por sentimentos de culpa, era pouco provável que voltasse a tomar semelhante ati- tude. Quanto a ela, sabia que nunca mais cederia aos perigos da bebida. Dali em diante Morgan dormiria no chão. Pelo menos, agora que o pior tinha acontecido, não devia mais nada a Morgan. Ocorreu-lhe, então, que havia algo muito pior do que ser estuprada. Quem sabe tinha engravidado? - Como é? Você trabalha aqui há uma semana e já está arranjando encrenca? Solly Goldner suspirou, preocupado, e sentou-se ao lado de Morgan à mesinha junto à pista de dança. Acendeu um cha- ruto e seus dedos rechonchudos agiram com surpreendente deli- cadeza. Guardou a caixa de fósforos e o canivete dourado no bolso do colete, examinou com olhar crítico a ponta do charuto e tirou algumas baforadas. Goldner era gordo, atarracado, feio. Estava ficando careca, embora não fosse velho. Nada disso, porém, chamava a atenção quando alguém o olhava pela primeira vez. O notável, nele, eram os olhos, brilhantes, intensos, repletos de perspicácia. Em sua Hungria natal Goldner tinha conseguido sobreviver aos tempos do terror vermelho, implantado por Bela Kun, ao terror branco do almirante Horthy, à fome, aos motins anti- semitas e ao caos financeiro; tudo isso antes de fazer vinte e um anos. Desde então abrira falência em Viena, Berlim e Paris, sempre conseguindo dar um passo adiante de seus credores, em- bora, mais de uma vez, quase caísse nas ralhas da lei. Em Paris abriu uma agência fotográfica internacional, que acabou chamando a atenção da Delegacia de Costumes. Quando, po- rém, os policiais, fascinados com o que viam, acabaram de exa- minar as caixas e caixas de fotos pornográficas, Goldner já estava a bordo de um vapor que cruzava o canal da Mancha, feliz da vida, dando baforadas no terceiro charuto do dia. A semelhança de muitos homens inescrupulosos, Goldner era um sentimental. Exatamente por isso concordou em sentas- se e ouvir o relato dos problemas de Morgan. Duvidava que pudesse obter qualquer vantagem em conversar com ele, mas o ato de ouvir jamais lhe parecia perda de tempo. A maior parte das pessoas gostava de falar, mas Goldner preferia ouvir. - Sr. Goldner - iniciou Morgan, acendendo um cigarro a fim de acalmar os nervos -, não quero que o senhor pense mal de mim. Não tenho a menor queixa do emprego. Goldner fez um breve gesto de cabeça, erguendo a sobran- celha o suficiente para indicar que aquilo não constituía nenhu- ma novidade. Um shlep da laia daquele aaglo-indiano podia considerar-se muito feliz por ter um emprego, refletiu, e nem tinha por que se queixar a respeito do que quer que fosse, so- bretudo com os desempregados fazendo filas nas ruas, à procura de trabalho. Voltou-se e contemplou rapidamente o ambiente. Ainda era cedo e a maior parte das mesas estava vazia, mas o instinto dizia a Goldner que seria uma noite sem nada de especial. Até mesmo as garotas do bar, cuja tarefa era sentar-se com os homens e convencê-los a pedir uma garrafa de champa- nhe, pareciam deprimidas e, sem dúvida, depressivas. Daí a pouco daria ordens para que diminuíssem um pouco mais a densidade das luzes. Voltou sua atenção para Morgan. - Estou com um problema familiar, sr. Goldner- O olhar de Goldner deteve-se no bar, a fim de certificar-se de que as garotas tomavam apenas refrigerante. Não tinha tem- 168 a 169 po para problemas de família. Contratou Morgan porque não tinha de lhe pagar muito. Ocorreu-lhe, de repente, que aquele miserável saxofonista mestiço estava tentando arrancar-lhe dinhei- ro, contando uma história triste sobre sua família. - É, a família é uma pedra no sapato da gente - disse. - No outro dia, Bruno, o chefe dos garçons, veio me procurar chorando. A filhinha dele precisava ir para o hospital. E muita despesa. Eu apenas perguntei: "Bruno, o que foi que sua filhi- nha fez por mim?" Sob a tênue luz rosada, o rosto de Goldner tinha um bri- lho sepulcral, e a barba cerrada adquiria um tom esverdeado e doentio. Tirou uma baforada do charuto e apontou-o na dire- ção de Morgan, como se quisesse dar mais ênfase a sua opinião. - Todo mundo tem de cuidar de si. Quanto mais cedo uma criança aprender isso, melhor para ela. - Sim, sim - concordou Morgan, tenso, enxugando o suor da testa -, é esta minha opinião. Tenho uma sobrinha muito jovem que quer cuidar de si mesma. Precisa de um emprego. - Uma sobrinha? E o que ela faz? - É uma jovem muito bonita. - Isso não é necessariamente uma profissão. - Sabe cantar e dança um pouco... mas o principal é que ela é muito bonita, muito mais bonita do que qualquer uma das meninas que trabalham aqui. - Acho que isso não tem tanta importância assim. Quan- do nossos fregueses chegam, todas as garotas lhes parecem bonitas. - Se a visse, sr. Goldner, perceberia que ela é uma criatu- ra muito especial. Se o senhor a puser no palco, os fregueses vão querer invadi-lo! A garota é um investimento valioso. - Investimento? - Goldner saboreou a palavra. Semicer- rou os olhos e contemplou o pequeno palco, onde uma mulher pesadona, de cabelos louríssimos e um rosto tão sobrecarregado de maquilagem, que chegava a parecer uma máscara de kabuki, acabava de entrar. Acendeu-se um refletor, no canto do palco, e a luz iluminou um sorriso desesperado, rugas em torno dos olhos exageradamente pintados e cílios postiços que pareciam taturanas negras. Goldner economizava no que dizia respeito ao talento. O dinheiro era investido no champanhe, e não nos shows, e a maior parte das pessoas, na Inglaterra, vinha às boates só porque era impossível conseguir uma bebida em qualquer outro lugar, após as onze da noite. Não esperavam se divertir, e quase ninguém prestava atenção ao show. Ainda assim, Goldner tinha de reconhecer que os negócios ¡ não iam muito bem, e o show que ele mostrava tinha bem poucas possibilidades de melhorar a situação. Aborrecido, con- templou a mulher fazer um stnptease, ficando apenas de sutiã e calcinha. - Bem, traga sua sobrinha aqui, rapaz. Ela não pode ser pior do que Mavis. Olhe que não estou prometendo nada. Ela concorda em tirar a roupa? - A roupa toda? - perguntou Morgan, chocado. - Não seja bobo. Não estamos em Berlim nem em Paris. Ela precisa tirar o suficiente para manter os fregueses acordados, bebendo. - Ela fará o que for preciso, não tenha dúvida - disse Morgan com arrogância, embora, no fundo, não tivesse a menor segurança do que afirmava. Goldner balançou a cabeça. O stnptease chegava a um fi- nal mais do que melancólico, e estava na hora de Morgan voltar à orquestra. - É o problema com os parentes, rapaz! - comentou Gold- ner. - Eles sempre querem comer, e três vezes ao dia! Queeme ia muito quieta no táxi, a caminho do que Mor- gan denominava pomposamente "um teste". Não tinha uma idéia muito clara do que se esperava dela, mas, fosse o que fosse, estava .decidida a ser bem sucedida. Sentia-se como alguém afogando-se no mar, estendendo desesperadamente os braços para o salva-vidas, que representava a última chance de sobrevivência. - Erga o queixo, vamos! - recomentou Morgan, dando- lhe um tapinha afetuoso no braço. Ela, porém, se encolheu ain- da mais e contemplou as ruas, através da janela lavada pela chuva. Queenie fechou os olhos. As duas últimas semanas tinham sido um pesadelo tão grande que mal conseguia pensar a respei- to. Não era o momento de enjoar, pois algo de muito impor- tante estava para acontecer. Queeme não chorou e nem ficou de mau humor. Simplesmente recusou-se a dirigir a palavra a Morgan ou até mesmo a reconhecer sua existência. Ele dormia no chão, e todos os dias suplicava seu perdão. - Só o perdoarei quando me conseguir um emprego - dissera finalmente. O carro parou e o chofer, muito grosseiro, disse quanto era. - Duas libras, cara. Morgan desceu e entregou-lhe uma libra e meia e algumas moedas. O chofer examinou-as, debruçou-se para fora, indigna- do, e pediu mais meia libra. - Você não merece mais do que isto - gritou Morgan, furioso. - Veio pelo caminho errado! Por acaso acha que sou 170 e 171 algum estrangeiro, que não conhece a cidade? Pois está muito enganado! É isso aí e nem mais um centavo! O chofer não se abalou pela fúria de Morgan: o rosto aver- melhado demonstrava apenas desprezo. Tentava identificar o so- taque de Morgan e tirou o cigarro do canto da boca. - Não, não acho que você seja um estrangeiro - disse com ar de triunfo. - Tenho certeza de que você não pa,,sa de um "encardido". - Lançou um olhar cheio de cobiça sobre Quee- nie e deu uma piscada. - Por que não volta para o lugar escro- to de onde veio, meu chapa? Não precisamos de gente de sua laia aqui. - Ligou o motor e deu a partida. - E deixe nossas mulheres em paz! Fico puto da vida ao ver um negro com uma garota branca. O chofer jogou as moedas na cara de Morgan e acelerou ruidosamente, dando boas gargalhadas. Morgan ficou parado por alguns instantes, tentando recom- por a dignidade ultrajada. Olhou para Queenie, à espera de apoio, mas ela nem ao menos desviou a cabeça, como se ele não existisse. Limitou-se a segui-lo, suspirando. - Boa noite, senhorita - disse o porteiro da boate, tiran- do o chapéu ensebado, enquanto eles entravam. Queeme sorriu. Dezenas de demonstrações haviam-na leva- do a concluir que os ingleses aceitavam-na como se fosse um deles, enquanto Morgan era reconhecido instantaneamente co- mo um mestiço ou, quando não, como "nativo ' de algum ou- tio país. Eram seus modos e seu sotaque, mais do que sua apa- rência, que o denunciavam, em um país onde as atitudes e a pronúncia eram quase tão importantes quanto o dinheiro. Sozi- nha, ela seria facilmente aceita como inglesa, contanto que não lhe fizessem muitas perguntas e que Morgan não estivesse por perto, comprometendo-a. Passaram por um corredor estreito, decorado com retratos de loiras peitudas, com excesso de maquilagem. Em cima dos retratos lia-se: "As mais belas garotas de Londres - Entrada somente para sócios". Uma loira desbotada e cansada, que, pelo visto, não se incluía entre as atrações da casa, apoiava-se no bal- cão do vestiário. Ela lhes dirigiu um sorriso teatral, exibindo dentes man- chados e estragados. Ao perceber que era apenas Morgan, voltou ao ar emburrado de sempre, descansando seus grandes peitos sobre o balcão. - Chegou adiantado, hein? - comentou. Era impressionante como a maior parte dos londrinos falava mal, constatou Queeme. Presumia vagamente que lá todo mun- do se expressasse como o sr. Pugh, mas aquela multiplicidade 172 de sotaques cockneys, escoceses, galeses, etc., dava-lhe a sensa- ção de que naquela cidade ninguém sabia falar inglês. A voz daquela mulher, por exemplo, revelava o mais puro sotaque cock- ney. Queenie não pôde deixar de reparar que até mesmo ela se exprimia muito melhor, mesmo sendo da Índia. - Onde está Solly? - perguntou Morgan. - O sr. Goldner está lá dentro e deu ordens para não ser incomodado. - Ele está a minha espera. - É mesmo? Pois ele não me disse nada. - Acho que o sr. Goldner está esperando por mim - dis- se Queeme com toda a calma. - Sem dúvida - manifestou-se a mulher, após examiná-la dos pés à cabeça. - Acho que ele vai ficar muito contente em ver você, benzinho. A confiança de Queenie, por maior que fosse, quase evapo- rou, quando ela subiu os degraus gastos que levavam ao peque- no palco. Prendeu o salto e, por alguns instantes, receou cair de cara no chão, mas recuperou-se, muito consciente de que tinha feito uma entrada desengonçada e quase desastrosa. Era bem verdade que ninguém prestava muita atenção, com exceção de Morgan. Queenie olhou em torno de si. Não foi uma visão muito animadora. Goldner, com o corpo obeso apertado em um ele- gante smoking, isto é, elegante em qualquer outra pessoa que não ele, sentava-se diante de uma mesinha, examinando os li- vros de contabilidade. Não parecia nem um pouco contente. Morgan sentou-se a seu lado, tentando atrair a atenção de Goldner para Queenie. Esta se sentia como uma escrava sendo oferecida a um comprador indiferente, o que a deixou furiosa. As luzes estavam todas acesas, pois eram sete da noite. À luz das lâmpadas, o Clube Paradiso pareceu-lhe grotesco, quase espalhafatoso. Goldner apoiava-se sobretudo na penumbra para conseguir uma ambientação. O teto consistia em várias camadas de redes de pesca, das quais pendiam peixes embalsamados e bolas coloridas. Quando as luzes diminuíam e eram ligados os refletores azuis no teto, o efeito era como se todos estivessem dentro de um aquário. Naquele momento, porém, Queenie teve a sensação de se encontrar em um mercado de peixes, impressão reforçada pelo aspecto de Goldner. Com efeito, os olhos escuros e saltados, além da palidez pouco saudável do rosto, davam a sua fisionomia uma aparência de um robusto habitante do mar. Quando ele tirava uma baforada do charuto, até mesmo sua 173 i boca movimentava-se como a de um peixe. Ele continuou exa- seu grande horror, viu o sapato direito atravessar a sala e atetris- minando a papelada, sem erguer os olhos. sor aos pés de Goldner.

Morgan sentou-se perto de Goldner, ao mesmo tempo Este pegou o calçado e ignorou Morgan, que tentava expli-

apreensivo e ridiculamente satisfeito consigo mesmo, segundo cor que Queeme estava apenas nervosa. Levantou-se, foi até ela pareceu a Queenie. Parecia também constrangido com o fato e entregou-lhe o sapato. O pensamento era absurdo, mas ela de Goldner estar ocupado demais e não dar atenção a ela. imaginou que era o Príncipe Encantado levando para Cinderela Somente o barman e dois garçons levantinos a tinham notado. , o sapatinho de cristal. Riu nervosamente, em reação ao desespe- Estavam por detrás do bar, fazendo comentários a respeito ro, e o fracasso a fez sentir-se ainda pior. dela e gesticulando muito, enquanto exprimiam sua admiração. - Não fui bem, não é mesmo? - perguntou, intimidada. O fato de eles terem interrompido o trabalho chamou final- - Bem, você não é talentosa como a grande cantora Reita mente a atenção de Goldner. Lançou-lhes um olhar irado e Nugent, por exemplo. Mas, pensando bem, quem precisa de ameaçador, que os fez retomarem suas tarefas, e voltou-se para Rena Nugent por aqui? Tire a roupa, meu bem. Queenie. - Tirar a roupa? - O que foi que eu lhe disse, sr. Goldner? - perguntou ' - Sim, por favor. Morgan com um brilho no olhar. - Mas achei que fosse usar um figurino: Goldner franziu os lábios e piscou. Não estava disposto a - E usará, se for contratada, mas primeiro preciso ver co- mostrar-se satisfeito, pois isso custava dinheiro. A primeira regra mo é seu corpo.

do comércio era deixar a outra parte elogiar a própria mercado- A perspectiva de despir-se diante de um estranho, aliás,



ria. A tarefa do comprador consistia em encontrar defeitos. Gold- vários, caso se incluíssem o barman e os garçons, paralisou Quee- ner estudou Queenie, mas não conseguiu encontrar deficiências nie. Jamais se despira na frente de um homem. Olhou para óbvias. Morgan não a elogiara suficientemente. Examinou-a com o teto e deparou com a expressão idiotizada de um peixe maior atenção. Ela não parecia ser sobrinha daquele sujeito, pois embalsamado. sua pele era tão pálida quanto o marfim. - Mas é preciso mesmo? - Você sabe cantar, meu bem? = Se quiser o emprego... j Queenie fez que sim. Não tinha a menor ilusão quanto Ela queria, sim. Olhou para Morgan, que ainda estava sen- a sua voz, mas levantou-se, fechou os olhos e começou: tado e lhe fez um sinal com a cabeça, encorajando-a. Se quises-

se livrar-se dele teria de dar o primeiro passo, o que implicava "Em todos os momentos que estou com você, sinto-me feliz, despir-se. Pensou nas roupas de baixo. Estavam limpas, porém Em todos os momentos que estou sem você não tinham o menor charme. bate a tristeza..." , - Muito bem. Preciso me despir na frente de Morgan e Sem a orquestra para fornecer o ritmo, a canção soava sem dos garçons? graça até mesmo a Queenie. Sua voz parecia perder-se por entre Goldner suspirou. Sempre o surpreendia verificar que as os peixes embalsamados do teto. mulheres viam dificuldades em relação aos detalhes mais tri- - É claro que seria muito melhor se ela tivesse uma or- viais. Estava a ponto de comentar que, se ela conseguisse o em- questra acompanhando - disse Morgan, apreensivo. prego, teria de despir-se na frente de um punhado de estra- O rosto de Goldner permaneceu impassível. Lançou um olhar nhos, mas então estudou-a com mais atenção. Ela era bem mais impaciente a Morgan e passou a mão no rosto, como se estivesse jovem do que tinha imaginado. Tinha, no máximo, dezessete imerso em pensamentos profundos. anos. A julgar pelo tom com que se exprimia, havia algum pro- - Sabe dançar, meu bem? Dê alguns passos. blema entre ela e Morgan. Goldner não pensara muito no rela- Sua voz gutural era amável, até mesmo gentil, mas o tom cionamento daqueles dois. preocupado deixava bem claro o que achara de Queeme como Morgan era evidentemente de sangue mestiço, mas a garota cantora. poderia ser inglesa, embora houvesse algo em sua beleza que Queenie endireitou-se deu um passo, girou e de repente era ao mesmo tempo intrigante e misterioso, uma certa qualida- sentiu um dos saltos prender-se nas tábuas desiguais do palco. de exótica que, para Goldner, significava o mesmo que dinheiro t j Tropeçou, recuperou o equilíbrio, girou mais uma vez e, para no banco. Seu rosto era requintado, tão perfeito que ele chegou 174 175 a ficar um pouco tonto, ao imaginar o quanto aquela criaturinha poderia tornar-se uma propriedade valiosa, desde que estivesse nas mãos certas. E, sobretudo, sem Morgan, que apenas atrapa- lharia e seria uma testemunha inconveniente de suas origens. Era preciso ir com calma, decidiu. Subiu os degraus que levavam ao palco, arfando ligeiramente devido ao esforço, e pôs- se na frente dela, de tal modo que seu corpo volumoso a escon- dia de Morgan. Sua expressão era bondosa, tranqüilizadora, quase paternal. Pôs a mão gorda e suarenta no ombro dela. - Compreendo - disse num murmúrio, e, sem se voltar, gritou a plenos pulmões. - Quero ver todo mundo fora daqui! - Aguardou alguns momentos e girou a cabeça. - Você tam- bém, Morgan. Este se levantou, ao mesmo tempo irritado e inseguro. - Por quê? Afinal de contas, sou tio dela. Tenho uma responsabilidade... - A jovem não precisa de acompanhante e deixou sua von- tade bem clara. Morgan hesitou, perdeu a pose e caminhou em direção à porta. - Espero lá fora - anunciou, tentando manter a dignidade. - Isso mesmo, meu caro - replicou Goldner com afabili- dade, gratificado ao notar gratidão e respeito por parte de Quee- nie. Sorriu, assim que a porta bateu. Era incrível como as mu- lheres reagiam até mesmo ao menor gesto de bondade, e ainda mais incrível notar que poucos homens entendiam esse fato e tentassem agir assim. . - Bem, vamos em frente - animou-a, voltando para a mesa. - Agora só ficamos nós dois. Tente pensar em mim co- mo se eu fosse o médico da família... - Nunca tirei a roupa para o médico - disse Queeme, o que era verdade. Na Índia os médicos ainda se prendiam às tradições vitorianas e examinavam as pacientes através de uma camisola, para não ofender seu recato. Apenas Vicky, a avó e, é claro, a ayah tinham visto Queenie nua. - O que devo fazer com as roupas? - perguntou. - Pode entregá-las a mim, meu bem. Tomarei conta delas. - Ele cruzou as pernas, mostrando um bonito par de meias de seda de cor malva. Sentava-se precariamente em uma cadeira pequena e frágil, com as coxas tão afastadas que parecia levitar. Sua atitude era a de um homem que se preparava para presen- ciar o descerramento do véu que envolvia um monumento, pou- co antes de sua inauguração. A expressão era de polidez e ligei- ro tédio, como se quisesse fazer um elogio a tanta formosura e, em seguida, retirar-se, antes que chovesse. - Quer que eu tire a roupa de algum jeito especial? - Tire como faz todos os dias - sugeriu Goldner, dando uma baforada no charuto. - Nada de enfeites. É preciso apren- der a andar, antes de correr. Queenie concordou. Sempre acreditara que um dia acaba- ria por conseguir uma oportunidade, o momento mágico que alteraria sua vida, e a crença nesse fato é que a trouxera de tão longe para a Inglaterra. Nunca tivera plena certeza de como aconteceria e até onde aquilo a levaria, mas certamente jamais imaginara que isso implicaria despir-se em um palco, numa boate do Soho. No entanto, talvez fosse sua única chance. De um lado estava Goldner, com as mãos gorduchas dobradas em cima da barriga, esperando que ela tirasse a roupa; do outro lado, o quartinho que dividia com Morgan e o sentimento de culpa por tudo que acontecera lá. Não havia alternativa. Ela abaixou o zíper da parte de trás do vestido, inclinou-se para a frente e tirou-o por cima da cabeça. A expressão de Gold- ner não se alterou. Queenie chegou até a beira do palco e entregou-lhe o vestido. Goldner dobrou-o cuidadosamente e o pôs em cima do colo. - Agora a combinação, por favor. Queenie hesitou. Não sentia muita vergonha em ficar ape- nas de combinação diante de Goldner, mas o próximo passo era muitó audacioso. Tirou a combinação, da mesma forma co- mo tirara o vestido, e fechou os olhos. Deu-a a Goldner e ficou parada, com os braços cruzados, plenamente consciente de que ele notaria que o sutiã e a calcinha eram de algodão barato. Sentiu o rosto pegar fogo e olhou, à espera de uma reação de Goldner, que ficou impassível. Não parecia interessado ou impressionado. Queenie sabia muito pouco a respeito de cenas de straptea- se. Tinha visto algumas em filmes, é claro, embora elas ficassem nos limites da decência. Dirigiu a Goldner o que imaginava ser um sorriso sexy e ergueu a perna, a fim de tirar lentamente as meias. - Não é preciso - ele a interrompeu. - Se você conse- guir o emprego, ensinarei o que é preciso. Um pouco desapontada, Queenie continuou a se despir. Teve certa dificuldade com o sutiã. Deu as costas a Goldner e finalmente conseguiu, mas não tinha coragem de encarar aquele homem. Ouvia-o dando baforadas no charuto, mas o pensamen- to de estar diante dele nua até a cintura era mais do que ela conseguia suportar. Decidiu-se com grande esforço, cerrou os olhos, cruzou os braços sobre o peito e voltou-se lentamente. - Continue - ordenou Goldner com muita calma. 176 e 177 l l l No palco fazia frio, mas ela sentiu que seu corpo pegava fogo, como se estivesse com febre. Seria possível que o corpo de uma pessoa ficasse vermelho de vergonha? De repente se lembrou dos pares que giravam sob a luz feérica dos candela- i bros, no salão de baile do hotel. Evocou os resplandecentes Rolls- Royces parados na rua recordou as jóias e peles das mulheres, enquanto elas arrepanhavam as compridas saias, caminhando em direção à porta do hotel. Descruzou os braços e começou a des- cer a calcinha. - Ótimo, ótimo! - disse Goldner, satisfeito. - Pode parar. Num gesto apressado ela voltou a vestir a calcinha. Gold- f ner tinha visto o suficiente e decidira que ela não servia, antes mesmo que acabasse de se despir. Ficou indignada com tama- nha injustiça. Abriu os olhos, e ele estava com suas roupas no colo, cuidadosamente dobradas. - E então? É isso aí? - É isso aí. Queeme pôs as mãos na cintura, esquecendo-se por alguns I instantes de que estava com os seios de fora. Sentia-se furiosa consigo e indignada com Goldnet, que permanecia sentado se- gurando suas roupas, parecendo um sapo repousando em cima de uma folha de lírio. Perdera a oportunidade, mas pelo menos queria saber quais os motivos. - O que fiz de errado? - perguntou, espantada com a firmeza de sua voz. - De errado? - Goldner parecia surpreendido. - Não houve nada de errado. É que vi o suficiente. - Consegui o emprego? - Mas é claro. Vou lhe contar um segredo: nunca tive dú- vida, em relação a você. - Mas então por que me fez tirar a roupa? - Foi um teste, meu bem. Apenas isso. Algumas jovens acham difícil passar por esse tipo de coisa, e outras apreciam. - Pois eu não apreciei. - Eu sei. Isso é muito bom. Aquelas que gostam sempre trazem problemas. Acabam dormindo com os fregueses. - Gold- ner levantou-se, foi até o palco e entregou-lhe as roupas. - Agora pode vestir-se, Queenie. Você é uma boa menina. Ela apertou as roupas de encontro ao corpo, mal conse- guindo acreditar que fora aceita. - Quer dizer que ganhei o emprego? - Sem dúvida. Você tem um corpo muito bonito e o rosto é notável! Claro que há muitas coisas que você ainda tem de aprender... Não tem importância, eu ensinarei. - E eu precisarei tirar toda a roupa? 178 - De modo algum. Usará algo para que não vá além dos limites da decência. No fundo, os ingleses são uns pudicos. Pre- ferem a ilusão da nudez ao fato em si. - Quando começo? - Venha me ver amanhã à tarde. Não precisa trazer Morgan. Queenie concordou. O futuro já lhe parecia bem mais pro- missor. Deu as costas a Goldner e começou a vestir-se. Que esquisito... sentia-se mais constrangida vestindo-se diante de um homem do que despindo-se. Havia um biombo, numa das ex- tremidades do palco, e ela escondeu-se atrás, enfiando o vestido por cima da cabeça. Disfarçou e espiou Goldner que esfregava as mãos de satisfação, como um homem que acaba de encontrar dinheiro na rua. Tomou coragem e lhe fez a única pergunta que realmente importava. - Quanto vou ganhar? - Sete libras por semana - ele disse, piscando nervosamente. Queenie não fez nenhum comentário. Mal conseguia falar. Era uma quantia considerável, muito superior ao salário de uma datilógrafa experiente. Ela era, sem dúvida, uma pessoa de mui- ta sorte. Goldner hesitava, à espera de uma manifestação. - Está bem, ofereço-lhe dez libras, mas é meu último pre- ço, e você terá de merecê-Ias. Ela o fitou, constrangida, pois Goldner tinha interpretado mal seu silêncio. Em seguida sorriu. - Muito obrigada. Goldner suspirou, aliviado. Dez libras era um salário ridí- culo, por aquele verdadeiro tesouro. Além do mais, gostou do modo como ela se manteve na reserva, a fim de que ele aumen- tasse a oferta. Uma coisa era ser bonita, mas, para triunfar, uma garota precisava ter miolos na cabeça. As boas e ingênuas engra- vidavam ou fugiam com o homem errado. Goldner ajudou-a a vestir o casaco. - Morgan deve estar lá fora. Creio que ficará contente. - Ficará sim. - Você lhe contará a sorte que teve? - Se o senhor não se incomodar, acho melhor dizer que vou ganhar sete libras. - Combinado - disse Goldner, dando-lhe um tapinha amistoso nas costas. Aquela menina sabia das coisas e iria longe. - Sete libras por semana! - exclamou Morgan. - Você deveria ter pedido dez. Por que não falou comigo primeiro? 179 Queenie não respondeu, pois mal conseguia ouvi-lo. A Da- ma de Copas, na Rua Greek, estava apinhada de gente tomando drinques, e o barulho chegava a ser ensurdecedor. Queenie fora pouquíssimas vezes a um bar, ou pub, como o chamavam na Inglaterra, mas, decididamente, era algo que não lhe dizia grande coisa. Morgan era capaz de ficar nos pub.r durante horas a fio, mas Queenie sentia-se mais solitária e des- locada do que nunca no meio daquela gente que parecia tão segura de si. Não conhecia ninguém naquele país e o pouco que sabia a respeito vinha da leitura rápida de algum jornal e dos relatos de Morgan. - Por que não me consultou antes de aceitar o emprego? - ele insistiu. Ela ficou intrigada com a preocupação de Morgan, mas lo- go entendeu qual era o problema: seu salário era maior do que o dele. Ganhava tanto, tirando a roupa, quanto Morgan tocan- do saxofone, e com a promessa de coisas melhores para o futuro. Goldner tinha até mesmo dado um adiantamento de uma se- mana de salário, fato que Queenie escondeu prudentemente. - Ele me ofereceu um emprego e eu aceitei. Não havia o que discutir. - Você não teria conseguido o tal emprego sem mim. De- via ter-me deixado conversar com Goldner. Queeme tomou um gole de refresco. Morgan estava verme- lho, zangado, e ela não tinha a menor vontade de provocar uma cena em um pub repleto de gente. Ele sabia que tinha perdido pontos com Goldner e desconfiava que acontecia o mesmo em relação a Queenie. - Eu sei e fico-lhe muito grata, Morgan - ela disse, espe- rondo que ele fizesse uma trégua. - Não preciso de sua maldita gratidão. - Sua voz come- çava a se tornar pastosa; a bebida começava a produzir seus efeitos. Morgan acendeu um fósforo com alguma dificuldade e per- cebeu que não conseguia aproximar a chama da ponta do cigar- ro. Continuou tentando até que acabou queimando os dedos: Gritou de dor e derrubou o fósforo. - Eu me queimei... - queixou-se, com a voz estridente de uma criança, mas não havia a menor solidariedade no olhar de Queenie, fato que ficou muito claro, por mais bêbedo que Morgan estivesse. -Julguei que seríamos felizes juntos. Foi por isso que vim para cá. Agora estamos empregados e podemos encontrar um lugar gostoso onde morar... Eu ainda te amo, Queenie, você bem sabe. Sinto muito em relação ao que aconteceu. 180 i Queenie já estava farta daquelas declarações. Morgan dizia que a amava pelo menos dez vezes por dia, e vivia lamentando- se de sua atitude. Na Índia ele parecia mais velho, mais sensato e sofisticado, até mesmo atraente. Mas agora que Queenie sabia que conseguiria sobreviver sozinha, ele, de certa forma, se trans- formara em uma figura patética, em um homenzinho pequeno, mesquinho, assustado, que bebia demais, desejoso de alcançar um objetivo modesto e tedioso, e, mesmo assim, incapaz de atingi-lo. Queenie encarou-o com fria objetividade. O laço da grava- ta se afrouxara, os olhos estavam vidrados, e ele trazia o bigode muito mal aparado. A porta da rua se abriu e alguns fregueses se retiraram. O ar frio da noite o deixou um pouco mais sóbrio. - Às vezes eu gostaria de estar de volta à Índia. Isso não lhe acontece? - perguntou Morgan. Fez-se um momento de silêncio, uma dessas pausas aciden- tais, quando todo mundo, num bar lotado, pára de falar ao mesmo tempo. Queenie ouviu uma mulher, muito irritada, mur- murar algo a seu companheiro. - Parede olhar para aquela garota divina de cabelos pre- tos, Basil! É muita grosseria de sua parte! O barulho voltou e Queenie não pôde ouvir a resposta de Basil, mas percebeu que a mulher ria, e chegou-lhe ao ouvido uma frase solta. - Daria tudo para ter um rosto como aquele - disse a mulher. Queenie voltou-se e contemplou-os pelo espelho, no mo- mento em que eles se retiravam. Tudo o que conseguiu perceber do homem chamado Basil foi um dorso atlético, coberto por um casaco elegante, com colarinho de veludo. Sua companheira era tão chique e vistosa quanto aquelas mulheres da alta socie- dade que faziam compras na sofisticada Bond Street. Seu longo vestido verde-água era parcialmente coberto por um casaco de pele alva. Ela usava um colar esmaltado e um chapeuzinho en- feitado com plumas verdes. A mulher parou à porta e olhou para Queenie. Não havia o menor traço de ciúme ou hostilidade em seu olhar. O rosto em forma de coração, os lábios escarlates, as sobrancelhas depi- ladas e muito finas, os olhos pintados de rímel, que refletiam mais admiração do que inveja. Ela saiu para a noite, deixando atrás de si uma onda de perfume delicioso. Queenie aspirou-o, admirada. Era doce mas de modo al- gum tinha o cheiro barato de flores murchas. Tentou guardar na memória aquele odor, para o dia em que pudesse comprar um perfume tão caro. 181 Morgan a encarava, à espera de que ela se manifestasse, com os olhos repletos de culpa ou de admiração. Talvez, para ele, ambos os sentimentos se confundissem. 1 - Você pode voltar para a Índia - disse Queeme final- mente. - Quer que eu vá para a cadeia? - Poderá convencer a sia. Daventry a retirar a queixa. Pa- gue o bracelete com seus favores... Você bem sabe que é possível. - Queenie, você voltaria comigo? - Jamais. Morgan pegou o copo e o esvaziou. Fechou os olhos, no momento em que o uísque caía em seu estômago, provocando uma sensação aguda, e esperou um ou dois segundos. - Ah... então é assim... Era como se ele dissesse: "Você jamais se livrará de mim", pensou Queenie. Ela viera para a Inglaterra esperando escapar daquele mundinho fechado e mesquinho de anglo-indianos, mas Morgan viajara por causa dela. Por mais que se dissesse arrepen- dido pelo que fizera, no fundo sentia-se justificado, pois acaba- ria por achar que Queenie estava trapaceando. - Quero ir para casa - ela pediu. - Temos tempo de sobra. Vou pedir mais um drinque. - Morgan levantou-se, aprumou-se e olhou em direção ao bar, como se o fato de chegar até lá requeresse toda a sua concentra- !, ção. - Será que você não tem uma libra? Queenie fez que não. - Goldner não lhe deu um adiantamento? - Claro que não. Ele oscilou para diante e para trás, dando a Queenie a impressão de que iria perder a cabeça. Ela fez o possível para manter a calma. Não receava a agressão física, mas detestava o constrangimento de uma cena pública. Então, para sua grande surpresa, Morgan sentou-se, procurando manter toda a dignida- de de que era capaz. - Oh, Queenie, você não sabe mentir... - Confie em mim, meu bem. "Será que tenho escolha?", pensou Queenie. Estavam no escritório de Goldner, no subsolo da boate. A única janela, pio- tegida por barras de ferro, dava para uma área em frente da boate. Um cartaz, de cores muito vivas, indicava o nome do lugar: "Clube Paradiso - Danças exóticas - Somente para só- cios!" 182 ¡.i Durante o horário comercial um porteiro ficava lá, expli- cando que um cartão de sócio, com validade de um ano, podia ser comprado por duas libras. Os mistérios insondáveis das leis inglesas exigiam tais subterfúgios. Um clube somente para só- cios podia servir bebidas alcoólicas a qualquer hora do dia ou da noite. O único inconveniente era a obrigação legal de tam- bém servir comida, que poucos fregueses queriam. Goldner viu- se na contingência de ter de contratar toda uma equipe para a cozinha. Resolveu o problema cobrando mais pelo jantar. A cada freguês eram servidos sanduíches de carne moída, quer ele quisesse ou não, e por isso tinha de pagar uma libra a mais. Muitas vezes um único prato de sanduíches peregrinava de uma mesa a outra, pois somente os fregueses mais ignorantes ou desprevenidos o tocavam. Acontecia até mesmo de ele voltar a ser servido no dia seguinte... - O senhor não gostou do meu nome. O que há de erra- do com ele? - perguntou Queenie a Goldner. - Absolutamente nada, só que, no palco, não soa muito bem. - Mas sempre me chamaram de Queeme! - Sim, e aqueles que a querem bem certamente continua- rão a chamá-la por este nome, que possui certo encanto. Você precisa, porém, de um nome artístico. Além do mais, não há nada de.errado em mudar de nome, meu bem. Veja só o exem- plo de Lorde Montague, antigamente o nome dele era Samuel Isaacs. Quanto a mim, outrora me chamei Zoltan Goldschmei- der... O que você precisa é de algo que enfatize seu exotismo. Acredite em mim: Queenie é um nome muito banal. Penso que algo com um toque oriental será bem mais apropriado. - Oriental? Mas sou inglesa! - protestou Queenie, ofendida. - E eu também. Sinto orgulho em ter um passaporte bri- tânico, tão mais valioso do que os que tive antes. Estou apenas sugerindo que seu número poderia ter um certo sabor oriental. - Por favor, sr. Goldner... minha mãe não iria gostar nem um pouco... Goldner recostou-se na cadeira e olhou para o teto, como se estivesse à procura de inspiração. - Ah, essas mães... O que sua mãe mais haveria de querer para você, meu bem? O sucesso, é claro! Não é isso que todas as mães ambicionam para seus filhos? - Sim, mas ela não quer que as pessoas pensem que sou uma oriental. - Ela vive neste país? Não? Mas então não precisa ficar sabendo, não é mesmo? Você costuma escrever-lhe? 183 ¡' - Bem, não...

- Otimo. Agora vou lhe dizer algo sobre os ingleses, Quee- E - Mas é preciso, é preciso. As mães ficam preocupadas,

Eles não têm ilusões românticas sobre suas próprias mulhe-

i

quando não recebem notícias de suas filhas. Algumas vezes che-



e.

n

Quanto a mim, acho as inglesas muito atraentes, mas o



res

gam até mesmo a contratar detetives, escrevem para as autorida- .

' fato é que o inglês comum não pensa da mesma forma. Ele

des... - Goldner levou a mão ao coração. - Você quer bem

, aprecia um pouco de mistério. Portanto, vamos torná-la miste-

a sua mãe, Queenie? riosa, mas não em excesso, é claro. Diremos que você é uma

- Claro

ue sim!


q garota inglesa que aprendeu a dançar na Índia. Você reúne em

- Pois então me.

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p si o melhor dos dois mundos.

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- Bem


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qu Queenie pensou na proposta, certa de que ela não tinha

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- Não duvido. Não estava pensando numa carta cometi- '

da, meu bem. Estou seguro de que sua mãe não quererá saber

o menor sentido. Na Índia, as arotas in lesas dificilmente se

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tudo o que você anda fazendo. As mães só se satisfazem com ' misturavam com os nativos pois isso era impensável. Começava, I'~ boas notícias. Mande-lhe um cartão-postal, Queeme, ainda ho- porém, a perceber que Goldner lhe oferecia a oportunidade de

je. De agora em diante, envie muitos deles. Escreva assim: "Es- inventar um passado novo, que não incluía Morgan. E, com ex-

tou bem, sinto-me feliz, espero que você também, saudade, etc..:' ceção deste último, quem iria questioná-lo? Havia bem poucas

Sua mãe mora na Índia? vantagens em ser anglo-indiana na Índia, e ainda menos de o

- Sim. - Queeme nunca pensara em cartões-postais e de- ser na Inglaterra.

cidiu comprar alguns, quando voltasse para casa. - Confesso que não sei como isso é possível...

O desabafo sentimental de Goldner deu lugar à sua expies- - Ora, vamos! Em um país como a Índia tudo pode acon-

são habitual de astúcia. tecer! Eu já li os romances de Kipling!

- Morgan é de fato seu tio? Queenie também lera esse autor, mas sua Índia era muito

- Sim. diferente daquela descrita nos romances de Kipling.

- Por parte de pai ou de mãe? - Calcutá de modo algum corresponde ao que se lê no

- Ele é irmão de minha mãe. Livro dar-selvas ou em Kim.

- Ah, sei. E seu pai? Ele também mora na Índia? - Esqueça Calcutá! Quando as pessoas pensam na Índia,

- Não. Ele era irlandês e não sei onde se encontra. têm em mente os marajás, as caçadas aos tigres, as jóias, os

Goldner acendeu um charuto. Os problemas e preconceitos elefantes pintados! Seja sensata. Ninguém saberá a verdade ou

da Índia lhe eram desconhecidos, mas não tinha a menor difi- lhe fará perguntas. Afinal de contas, você poderia muito bem

culdade em entender a situação e compreender a relutância de , ter sido criada no palácio de um marajá. Quem poderá

Queenie em aparecer em papéis "exóticos". A mãe de Queenie ~' contradizê-la?

seria muito morena? Bem, contanto que ela permanecesse na - - Mas por que um marajá haveria de adotar uma menina

Índia, era uma questão de pouca importância. Goldner deu uma

. inglesa? Não é possível, sr. Goldner. Além do mais, há muita

baforada no charuto, pensativo. gente na Europa que conhece a Índia.

- Compreenda uma coisa, menina. A razão pela qual a : - Estou apenas tentando ajudar - disse Goldner, suspi-

contratei e lhe dei um salário generoso, para uma principiante, rando. - Acaso os marajás não têm ingleses em seus palácios?

é pelo fato de você ser uma criatura especial, diferente. Você ` - Não sei. Nunca vi um marajá. Suponho que contratem

não se parece com mais ninguém. Se eu quisesse uma loira, ingleses para dirigirem seus exércitos...

teria dezenas à minha disposição e por muito menos de dez - Seu pai poderia muito bem ser um coronel, um... como

libras por semana. O fato de você ser um pouco exótica é o é mesmo que eles chamam?

que chamamos, no mundo dos negócios, um trunfo. Além do - Um rahib?

mais, eu já tenho a roupa de que você necessita, véus e tudo - Exatamente

.

mais. Estava apenas procurando a garota certa. O figurino me



- Mas se ele é de fato um coronel, por que estou dançan-

custou bem mais de dez libras. É mais fácil encontrar uma gaio- do aqui.



ta nova do que mudar de figurino. Está me entendendo? Goldner ficou surpreendido com o bom senso da garota,

Quëenie fez que sim. mas não se abalou. j,,' 184 185 - Você fugiu de casa - sugeriu. - Acho melhor deixar os detalhes um pouco... imprecisos. Você cresceu no palácio res- plandecente de um marajá... - Qual deles? - E uma das coisas sobre as quais temos de fazer mistério. Lá viveu rodeada de riqueza, sofisticação, e todos a conheciam pelo nome de... - Não sei. - Lakshmi? Queenie riu, deliciada. - Não, não serve. É difícil de pronunciar - ponderou ele. - Que tal Rani? Não é o nome que dão à realeza indiana? - É, creio que a esposa de um marajá é chamada de ma- harani. Uma princesa seria maharanji. Creio que uma princesa inglesa seria uma maharanji-.rahtb ou algo assim... - Pois acho que Rani é um ótimo nome. Ninguém precisa saber o sobrenome. Afinal de contas, não queremos criar pro- blemas com a família de seu pai. Aí está a solução! Queenie hesitou por alguns instantes, pois precisava acostumar-se à nova situação. Será que teria condições para tan- to? Tudo aquilo lhe parecia implausível, mas as atrações eram muitas. Não lhe seria nada fácil viver de agora em diante fin- gindo que não tinha nascido na Índia ou inventando uma in- fância em algum outro país. Muito do que sabia, muito daquilo que era, tinha suas raízes na índia. Não poderia renegá-la com- pletamente. Era sensata o suficiente para saber que dificilmente conseguiria sustentar a situação a longo prazo. Ouvira dizer que algumas garotas anglo-indianas se faziam passar por espanholas ou italianas, quando chegavam à Inglaterra, a fim de explicar sua aparência morena e exótica, mas ela não conhecia o bastante a respeito daqueles países para correr o risco. No fundo, sentia-se aliviada. Bastava colocar o problema nas mãos de Goldner e pronto, já não era mais anglo-indiana! Tudo pareceu tão simples que quase cheirava a milagre. Era um modo bastante aceitável de resolver o dilema, contanto que nin- guém quisesse investigar muito, e contanto que Morgan não desse com a língua nos dentes. Ele, de modo algum, poderia encaixar-se naquela história. - E Morgan? Ele não gostará nem um pouco. - Morgan fica por minha conta. Se ele quiser trabalhar fará o que lhe dissermos. Havia uma leve ameaça na voz de Goldner, e Queenie per- cebeu que esse aspecto de seu caráter tinha de ser levado em conta, no futuro. Goldner não era, de modo algum, tão delica- do quanto parecia. - É claro que ele pertence à família, e a gente tem de levar isso em conta, mas quanto menos ele ficar perto de você, menos explicações serão necessárias. Está me entendendo? Queenie entendeu perfeitamente. Poderia fingir ser quem quisesse, mas o mesmo não acontecia com Morgan. - Sabe, menina, não é uma coisa tão fora do comum. Te- nho parentes por quem sinto o maior respeito, até mesmo afeto, mas prefiro que fiquem a léguas de distância. Minha tia Sarah, por exemplo... Bem, deixe para lá. Não se preocupe. Morgan fica por minha conta. Direi a ele que o interesse é de vocês dois. Além do mais, família é família. Ele deve estar tão con- tente quanto você. Isso pareceu bem pouco provável a Queenie, mas ela indi- cou que se sentia feliz com o fato de Goldner dar a notícia a Morgan. - Esplêndido! Ele é o parente mais próximo que você tem na Inglaterra, não? Queenie refletiu por alguns instantes. Era difícil pensar em Morgan naquele contexto, mas o fato era inegável. Procurou in- tuir o que passava pela cabeça de Goldner, mas decidiu que estava mostrando-se desconfiada sem ter muitos motivos para tal, muito embora ficasse com um pé atrás. Como gostaria de encontrar alguém em quem pudesse confiar totalmente! Sabia que, com Morgan, isso não era mais possível. Queria confiar em Goldner, mas ele não passava de um estranho, que queria ganhar dinheiro à sua custa. Subitamente Queenie sentiu-se invadida pela solidão, mas reconheceu que tinha viajado milhares de quilômetros à procura de uma oportunidade como aquela. Agora era tarde demais pa- ra hesitar. Dependia umcamente de si mesma. - Creio que só tenho Morgan na Inglaterra. Por quê? - Gosto de saber o que for possível sobre as pessoas que trabalham comigo, meu bem, sobretudo quando estou disposto a investir muito dinheiro em sua carreira, como acontece com você. Qual é sua idade? - Dezenove anos. - Agente nunca deve mentir para um sócio, meu bem, e é assim que eu quero que você me considere: seu sócio. - Bem, tenho quase dezoito... - Agora sim. Nos negócios, a confiança é o que há de mais importante. - Goldner voltou-se para sua mesa, remexeu na papelada que ali se encontrava e entregou um documento datilografado a Queenie. - Mas que trabalheira isso me dá! O governo só existe para dificultar a vida da gente, que tem 186 o 187 de ficar correndo atrás de selos, carimbos, contratos... Por favor, assine logo depois da última linha. - O que é isto? - perguntou Queenie, desconfiada. - Um recibo pelas dez libras que lhe adiantei. Por esse documento você também me concede o direito de usar suas fo- tos a fim de fazer propaganda do show, em publicidade, etc. É apenas uma formalidade, ouviu? Leia, leia, meu bem. - Não seria melhor eu conversar com Morgan? - Se quiser. - Goldner parecia indiferente à sugestão, mas agora havia certa frieza em sua voz. - Francamente, acho me- lhor você seguir meus conselhos, e não os dele. Ele parecia mais decepcionado do que aborrecido, mas não havia a menor dúvida quanto a seu desagrado. - Posso fazer muito por você, Queenie, mas não dará cer- to, se você tiver de sair correndo atrás de Morgan para discutir qualquer detalhe que apareça. Afinal de contas, mesmo ele sen- do seu tio, não é seu dono, não é mesmo? - De fato. - Para provar o que dizia, tanto a Goldner quanto a si mesma, Queeme assinou o documento com um ges- to decidido. O bom humor do empresário voltou no mesmo instante. - Agora escreva suas iniciais em cima dos selos. Pronto... ótimo! Mais tarde conversarei com Morgan. Deixe tudo por mi- nha conta e espere só, até ver seu figurino! Goldner tirou a caneta da mão de Queeme e guardou-a no bolso, pondo o documento em uma pasta. Ocorreu a Quee- nie que, até aquele momento, não se havia dito sequer uma palavra sobre o que ela deveria fazer no palco. Goldner não parecia nem um pouco preocupado, mas, mesmo assim, ela de- cidiu perguntar. Não tinha a menor vontade de expor-se ao ri- dículo perante a platéia, ainda que ganhando dez libras por semana. Ele pareceu muito surpreendido. - Meu bem, você terá apenas de andar bem devagar no palco, tirar a roupa com muita elegância e voltar a se vestir ainda mais devagar. É só isso. - Então não precisarei dançar? - De modo algum. Faça apenas o que eu lhe disser. Não se esqueça de olhar para um homem no meio da platéia e encará- lo o tempo todo. - Mas isso não me parece um número artístico! - E não é mesmo, meu bem. Os homens estão interessa- dos em você e não naquilo que você faz. Virão ver a garota mais linda de Londres, Queenie. Provavelmente o que vou lhe dizer me custará dinheiro, mais cedo ou mais tarde: eles não ficarão nem um pouco decepcionados! g Os dois casais sentaram-se a uma mesa bem próxima do palco. Ao vê-los através dos painéis de vidro da porta de seu escritório, Goldner foi cumprimentá-los pessoalmente. Sabia dis- tinguir gente de classe assim que lhe batia os olhos, o que não acontecia com muita freqüência. As duas mulheres usavam tra- jes de noite e estolas de pele. Desconfiou que fossem pessoas que procuravam divertir-se em um ambiente um pouco sórdido, bem diverso daqueles que freqüentavam. O jeito como eles riam confirmou suas suspeitas. Goldner não se ofendeu. Os ricos tinham um modo abo- minável de se comportar e, quanto mais ricos, mais desagradá- veis. Ele; porém, não tinha entrado no mundo dos negócios para cultivar seu ego. Quando gente como aquela vinha a sua boate, ainda que para caçoar dela, era mais do que provável que seus amigos viriam logo em seguida. Goldner foi rapidamente a seu encontro, com um sorriso acolhedor a iluminar seu rosto de bolacha, estendendo os bra- ços, como se lhes fosse dar a comunhão. Como muitos homens gordos, possuía pés pequenos, e, metido em uma casaca, tinha toda a aparência de um pingüim que vai saudar os exploradores em pleno pólo norte. Ao chegar à mesa transpirava tanto que teve de parar e enxugar o rosto. Inclinou-se respeitosamente diante das mulhe- res, puxou suas cadeiras e ajudou-as a sentarem-se. Sem que elas percebessem, passou a mão de leve em suas estolas de pele. Havia certas coisas que não podiam ser falsifica- das, e um mink de boa qualidade era uma delas. O toque de seus dedos revelou-lhe que aquelas duas jovens criaturas eram ricas, ou então tinham amantes ou pais ricos, pois nenhuma delas usava aliança. Exibiam um ar de debutantes, embora apa- rentassem uns vinte e poucos anos. Havia nelas um quê de tea- tral, a sugerir que poderiam ser atrizes, mas, provavelmente, de famílias abastadas. 188 a 189

Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a intenção de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma manifestação do pensamento humano.. Goldner beijou a mão das duas, apressou-se em acender seus cigarros e só então se voltou para apertar a mão de um dos homens. - Que bons ventos os trazem, Lucien? O rapaz riu. Era bem mais alto do que Goldner e tão bonito que a única falha em seu rosto consistia numa espécie de auto-satisfação. Os lábios revelavam uma ponta de auto-indul gência, mas os olhos azul-escuros eram inteligentes e zombeteiros, com uma intensidade que indicava que ele era algo mais do que um rapaz jovem, bonito e mimado. Sua roupa, de ótimo acabamento, era usada com uma displicência que sugeria mais um artista do que um homem de sociedade. - O que nos traz aqui, meu caro, é a curiosidade destas senhoritas, que queriam conhecer o submundo do Soho. Já não agüentavam mais a finura dos bairros elegantes e 'anseiam por emoções mais violentas. Desconfio que ficarão decepcionadas. Vejo, aliás, que isso já aconteceu. Não há nenhuma possibilidade de a polícia dar uma batida aqui ainda hoje? - Creio que não, meu caro Lucien, sobretudo se levarmos em conta o que pago a eles. - Que pena... Se isso acontecesse, nossas convidadas ficariam bem animadas. Permita-me apresentá-lo, cher Goldner. Lady Cynthia Daintry, srta. Margot Feral e sr. Basil Goulandris. Creio que o nome dele lhe é muito familiar, não? - Com efeito! - disse Goldner com certa reverência. Olhou para a garrafa de champanhe que o garçom mexia no balde de gelo, tomando todas as precauções a fim de esconder a mar ca. - Traga uma garrafa de champanhe francês - ordenou, irritado. - É oferta da casa. Lucien ergueu a sobrancelha e dirigiu um sorriso irônico a Goldner. Basil Goulandris nada notou. Estava acostumado a ser servido de champanhe onde quer que fosse. Não havia um restaurante ou lugar público de Londres que ousasse apresentarlhe a conta. Também nada pagava pelos cigarros, flores, bebida, comida, entradas de teatro, carros ou roupas. Estava sempre acompanhado por uma mulher bonita, embora seu par daquela noite, a srta. Feral, estivesse um tanto ofuscada por Lady Cynthia, que brilhava como uma ave-do-paraíso. Goulandris era corpulento, avermelhado, com os traços e o temperamento irritadiço de alguém que bebia muito. Fitou por alguns instantes o charuto colocado no bolso de Goldner até que este percebeu e o ofereceu. Goulandris o levou às narinas, deliciou-se com seu odor e esperou Goldner acendê-lo. Deu algumas baforadas, tirou mais 190 um charuto da carteira que Goldner lhe estendia, guardou-o, no bolso e não agradeceu. - Não sei o que estamos fazendo neste antro - queixouse. - Aqui não acontece nada. - Nossas amigas queriam conhecer o Soho. - Acho uma perda de tempo. - Esta noite estréia uma nova artista. Os senhores ficarão maravilhados. Aposto que nunca viram uma criatura como esta! - disse Goldner, entusiasmado. - E como é o nome dessa maravilha? - perguntou Goulandris, bocejando. - Rani. Goulandris soltou uma risada áspera, irônica, desagradável, mais forte do que o barulho da rolha, ao saltar da garrafa de champanhe. - Ela precisa ser esquecer esse nome! Lucien tirou a mão de Lady Cynthia de seu ombro, beijoua e segurou-a com firmeza. Mais do que um gesto de afeto, era uma tática para impedi-Ia de tocá-lo. - Veremos - disse. Queenie olhou para a cortina empoeirada e prendeu a respiração. Não compartilhava o entusiasmo de Goldner por seu traje, que consistia, em sua maior parte, em camadas transpa rentes de gaze cor-de-carne, bordada com fios dourados. Na cabeça trazia jóias de desenho vagamente oriental, nas quais estavam dependurados véus de gaze, que lhe cobriam o rosto. Tinha a sensação de estar debaixo de uma tenda. Decorrida uma semana, ainda não se acostumara com os arranhões que o tecido fazia em sua pele. Por debaixo da gaze usava um bi quíni cor-de-carne e duas rodelas cobertas de jóias, que mal lhe cobriam os seios, quase deixando os bicos de fora. O conselho de Goldner não lhe saía dos ouvidos: tinha de se movimentar com graça e manter os olhos fixos na platéia. - Você tem de fazer tudo em dez minutos. É o tempo que lhe cabe, e não precisa mais do que isso. Queenie levou algum tempo para entender qual a intenção de Goldner. Ele queria que seu figurino a escondesse inicialmente dos olhares ávidos. Ela surgia envolta em uma nuvem de gaze, que aderia a seu corpo o suficiente para anunciar o que havia por baixo. Goldner sabia muito bem o que tinha nas mãos e calculava que um certo grau de mistério daria dramaticidade à aparição de Queenie. - Não ceda à impaciência da platéia e faça-os esperar - aconselhou. - Não se apresse! - Goldner desencorajou qual realmente extraordinária, para nos fazer t) quer tentativa no sentido de ela sequer sugerir um striptease. - já temos stnpteases de sobra, e isso não entusiasma mais ninguém. Olhe, quando a gente entra numa joalheria barata, a balconista nos mostra as jóias mais brilhantes e vulgares, como se nos quisesse deixar cegos, para que a gente não perceba o que eles têm de mais valioso. Quando, porém, a gente procura uma joalheria de classe, como a do famoso Cartier, apresentamnos uma jóia por vez, em uma bandeja forrada de veludo preto. É uma questão de classe! Queenie prestou muita atenção e percebeu o que ele queria dizer. Não havia escolhido aquele caminho para sair da obscuridade em que vivia, mas, como era o único que lhe oferece ram, estava decidida a tirar o maior proveito possível da situação. Ficou num canto dos bastidores, vendo os outros números, e logo compreendeu as intenções de Goldner. As outras mulheres não chegavam a seus pés. Entregavam-se de corpo e alma à grotesca tarefa de chamar a atenção da platéia, balançando os seios, empinando as nádegas, jogando as calcinhas do outro lado do palco, mas, quanto mais queriam agradar, menos a platéia se mostrava interessada. Se ela tentasse fazer o mesmo, não passaria de mais uma dançarina de striptease. Queenie decidiuse. Não procuraria agradar aos fregueses, mas os conquistaria. A atração seria ela própria, pois, afinal de contas, era tudo o que possuía. Ela treinou seu número em casa, contemplando-se no espelho partido e manchado, tentando tornar cada movimento tão gracioso e preciso quanto possível. Não tentava imitar as dança rinas de ventre do Oriente, mas procurava reproduzir a graça estilizada das dançarinas dos templos de Bali, cujas fotos Goldner lhe mostrara. Ele lhe deu a indicação de como apresentar o número, mas foi ela quem cuidou dos detalhes, indo de ônibus todas as manhãs até o Museu de História Natural, onde poderia encontrar muitas fotografias de melhor qualidade, conforme a sugestão de Goldner. Pela primeira vez na vida interessava-se por algo, o que muito a surpreendeu. E foi assim também que, com grande tristeza, constatou as lacunas de sua educação. Descobria que no mundo inteiro havia culturas nas quais a beleza era um valor cultuado por seus próprios méritos. Ficou maravilhada com os trajes, as maquilagens fantasiosas, os elaborados movimentos rituais, obcecada com a idéia de encontrar alguém que lhe pudesse pelo menos mostrar como reunir todos esses elementos. Caso isso acontecesse, não duvidava que conseguiria superar todos os modelos. 192 Agora que tinha um objetivo, a vida ao lado de Morgan era mais fácil. Além do mais, seus horários eram diferentes. Ela trabalhava durante o dia, ensaiando com Goldner, enquanto Mor gari dormia. Quando ele chegava em casa, ela já dormia há horas e, algumas vezes, nem mesmo o ouvia deitar-se no chão, com um gemido. A conversa que Goldner tivera com ele parecia ter surtido efeito. Morgan estava ressentido, mas se comportava melhor do que nunca. De 'vez em quando Queenie surpreendia uma nota de triunfo na voz dele ou um olhar rápido e tímido em sua direção, como se ele tivesse feito algo particularmente astucioso, que quisesse manter em segredo. Queenie, porém, estava ocupada demais para prestar atenção. Certas noites ele não vinha para casa, e ela não lhe fazia nenhuma pergunta. No fundo, sentia-se aliviada por ter o quarto só para si. Na primeira noite em que participou do show, ficou quase paralisada de medo, mas havia tão poucos fregueses que lhe pareceu não ser muito diferente do que treinar em casa. Movimentou-se com lentidão exagerada, receosa de tropeçar ou de expor-se ao ridículo. Quanto mais lentos eram seus gestos, mais silenciosos os fregueses se tornavam. Somente quando a cortina baixou é que Queenie sentiu que tinha sido bemsucedida. Entrara no palco iluminado sem sorrir ou balançar as cadeiras e obrigara a todos a prestar atenção nela, levando-os a sentir que, na realidade, eram privilegiados pelo fato de estarem ali. Ainda assim se mostrava cautelosa. Toda noite ficava à espera de que o encantamento se rompesse, de que alguém risse, fizesse um comentário grosseiro ou assoviasse. Até então nada disso tinha acontecido, mas, naquela noite, como acontecia diariamente, Queenie tremeu, receando o que poderia acontecer. A cortina subiu e a orquestra começou a tocar um tema vagamente oriental. Queenie avançou e o brilho do refletor cegoua momentaneamente. Ficou parada durante um breve momento no centro do palco, respirando fundo e à espera de que seus olhos se acostumassem à luz. Sentia que todo mundo estava de olho nela. Isso sempre acontecia, mas ainda a surpreendia. Soltou o ar lentamente, sentindo um tremor quase descontrolado nos joelhos. Lentamente, com muito cuidado, retirou o véu que lhe cobria o rosto e o deixou cair no chão. Os movimentos eram muito estudados, e ela fez uma volta completa, de tal modo que, quando voltou a encarar a platéia, o rosto tornou-se visível pela primeira vez. Queenie ficou parada, e seus grandes olhos negros voltaramse para a platéia. Seguia o conselho de Goldner e tentava escolher uma determinada pessoa. Porém, na penumbra que se for 193 mava adiante dos refletores, os rostos eram pouco mais do que pálidas manchas. De repente Queenie percebeu um rapaz sentado a pouca distância, ao lado do palco. Tinha cabelos loiros e compridos, penteados para trás com certa displicência, olhos azul-escuros, que a encaravam com espanto, e um nariz afilado e bem feito. Os lábios eram muito sensuais, em se tratando de um horr em. A pele parecia pálida, à luz dos refletores, mas percebia-se nela tons próprios de alguém saudável, que vivia ao ar livre. Nesse instante Queenie percebeu que tinha visto aquele rosto na noite chuvosa em que Morgan abusara dela. Queenie não tirou mais os olhos dele. Ergueu o braço e removeu a primeira camada dos véus flutuantes. Decidiu que se despiria para ele. - Eu já vi essa garota em algum lugar - comentou Lady Cynthia. - Basil querido, você também não tem esta impressão? Goulandris encarou-a e deu de ombros. - É possível. Ela tem um belo rosto. Quem - A mim ela parece bastante vulgar - opinou a srta. Feral. - Tem, sem dúvida, um pouco de sangue oriental, e olhos lânguidos de quem é boa de cama, como meu pai costumava dizer. Goulandris ignorou Queenie, achando que ela não valia tanto a pena. Olhou a sua volta, para ver se havia alguém conhecido ou importante, mas não ficou surpreendido por não perceber ninguém. - Vamos para o Escaravelho de Ouro ou então para o Château d Argent - propôs, indicando duas boates da moda. - Oh, ,vamos, sim - concordou Lady Cynthia no mesmo instante. - Se não fosse por essa garota, a boate seria o lugar mais deprimente do mundo. E por que o garçom nos trouxe estes sanduíches horrorosos? Lucien, porém, não prestou a menor atenção ao que eles diziam. Não tirava os olhos do palco, hipnotizado por Queenie, que removia o primeiro véu, dobrava-o com gestos lentos e se inclinava com graça, colocando-o no chão. Enquanto isso, não desviava sequer por um instante o olhar de Lucien. - Com efeito! - protestou Lady Cynthia. - Ela está olhando para você descaradamente! Você a conhece? Acaso já a fotografou? Lucien Cynthia. - Tenho a impressão de que já vi esta criatura em algum lugar - insistiu Lady Cynthia. - Lucien, pare de apertar meus dedos! Desse jeito você me machuca! será? sacudiu a cabeça. Ainda segurava a mão de Lady 194 Lucien soltou-a. Nem mesmo notara que segurava a mão de sua acompanhante. - Você foi bem - comentou Goldner. Estava sentado, sem paletó, examinando a féria do dia, com uma garrafa de conhaque a sua frente. Queenie também sentira o mesmo, embora ainda não soubesse por quê. A platéia ficara quieta, quase no mais completo silêncio; mesmo sendo tão tarde os únicos fregueses eram gente disposta a ir a qualquer lugar, contanto que pudesse continuar a beber. -- Fiz apenas o que o senhor indicou - disse ela. - Você é uma boa menina - declarou Goldner. - Olhei para cada pessoa da platéia de uma vez. Quem era aquele rapaz sentado na frente, durante o primeiro show? - Que rapaz? - Aquele bonitão, elegante. - Lucien Chambrun. Ficou olhando para ele, meu bem? Pois devia ter prestado atenção em Basil Goulandris. É bem verdade que você não poderia saber... Foi culpa minha. A cada número seu devo apontar a pessoa certa para você olhar. Queenie ia perguntar por que Lucien Chambrun não era a pessoa mais indicada, mas nesse momento Morgan surgiu, consultando o relógio com impaciência. Já estava na hora de irem embora. Goldner olhou para ele e franziu o cenho. - Acho melhor você ir andando - recomendou. Não convinha aborrecer Morgan, pelo menos enquanto houvesse necessidade dele... sentado perto de uma moça muito - O que quer dizer isto? - perguntou Morgan, irritado, na manhã seguinte. Com um gesto brusco, ele aproximou o jornal do rosto de Queenie, e ela mal pôde distinguir o que estava escrito. Pegou o jornal e afastou-o a uma distância conveniente. Lá estava uma coluna chamada "Gente da Alta", assinada por Basil Goulandris, com uma foto do homem corpulento e avermelhado que estava na companhia de Lucien Chambrun. Queenie leu a coluna rapidamente. "A gente da alta, por incrível que pareça, deu de freqüentar os bares e boates do Soho. Foram vistos no Clube Paradiso (aposto que você, caro leitor, jamais ouviu falar dele) a adorável Lady Cynthia Daintry, filha do marquês de Arlington, e a srta. 195 4 Margot Feral, amiga íntima de Dominick Vale, acompanhadas pelo fotógrafo Lucien Chambrun... E o que leva a gente da alta à sombria e mal-afamada Rua Greek? A encantadora Rani, cuja dança exótica e cuja imensa beleza enfeitam a noite. E quem é Rani, a garota de olhar lânguido e um futuro dourado? Nada mais, nada menos que a filha de um rico inglês estabelecido na região de Lahore, na Índia. Rani foi criada como uma verdadeira princesa no palácio do marajá. Comenta-se que o marajá queria manter para sempre esta bela rosa inglesa em seu harém, assim, ela teve de ser mandada a Londres, a fim de evitar um incidente diplomático. Se o pai dela acaso descobrir o que Rani anda fazendo por aqui, na certa haverá complicações! Por isso mesmo o nome verdadeiro da garota é um segredo." Inicialmente Queenie não conseguiu acreditar no que acabara de ler. Voltou a fazê-lo, muito perturbada. Era o primeiro sinal de que iria triunfar, de que os riscos e aquela imensa via gem iriam compensar, de que o futuro continha o tipo de vida com que sempre sonhara. Gostaria de poder recortar a notícia e enviá-la a sua mãe, mas, pensando melhor, desistiu. Afinal de contas, a notícia se baseava numa completa mentira. Queenie não era tola o suficiente para imaginar que uma simples menção de seu nome, numa coluna de jornal, lhe traria fama e sucesso da noite para o dia, mas, pelo menos, estava a caminho. Sentiu-se tentada a abraçar Morgan e dividir seu triunfo com ele, mas recebeu apenas um olhar colérico. - Como é que você foi inventar uma mentira dessas, e sem me comunicar? - Ora essa, Morgan, é apenas uma história sem importância, e a publicidade até pode me ajudar. De qualquer modo foi o sr. Goldner quem a contou ao tal de Goulandris, não eu. - Agora você vive com o nome do sr. Goldner na boca. Garanto que faz dele o que quer, exatamente como aconteceu com Pugh. - Mas não se trata disso! - protestou Queenie, furiosa com Morgan pelo fato de ele estragar aquele momento de felicidade. Ele caiu em si, percebeu que tinha ido longe demais e balbuciou uma desculpa. Queenie suspirou fundo. Morgan sabia que estava sendo deixado para trás. Sem dúvida, o sr. Goldner o avisara de que seu emprego dependia de ele manter a mais profunda discrição. Dadas as circunstâncias, não era de se esperar que se sentisse feliz com o sucesso dela. Queenie sabia que, muito em breve, teria de encontrar outro lugar para morar, sem Morgan, e que seria um momento difícil e doloroso. Ficou interessada ao saber que Lucien Chambrun era fotógrafo. Como seria a sensação de ver seu retrato reproduzido em 196 jornais? Seria, com toda a certeza, uma emoção das mais agradáveis... Na noite seguinte ele estava lá novamente, mas desta vez desacompanhado. Permaneceu imóvel durante a apresentação de Queenie e nem mesmo tocou no champanhe. Goldner oferecia bem pouco conforto a suas contratadas, e os camarins eram precários. Uma parte do porão era dividida por tabiques precários e cortinas, formando uma série de cubí culos. Cada um deles continha uma cadeira, uma penteadeira e um espelho. Entre um número e outro, Queenie habituou-se a ficar em seu cubículo, vestida com um velho roupão, pois o figurino, tão elaborado, não lhe permitia permanecer à vontade. Goldner aconselhou-a a não se misturar nunca com os fregueses. Ela lia revistas de cinema e fazia experiências com a maquilagem, mas o camarim era um lugar solitário, pois suas colegas, que sentiam inveja dela, simplesmente a ignoravam. Do que mais se ressentiam era de sua beleza. A maior parte delas enfeara devido à bebida, às duras condições de vida e a um regime alimentar mais do que precário. De salto alto e meias de arrastão negras, suas pernas, vistas de longe, eram apresentáveis e até mesmo sensuais, mas, durante seus números, quando tiravam as meias, as pernas assumiam o contorno lamentável de grossas salsichas. Suas vidas consistiam em uma inglória batalha contra a decadência. Bastava olharem para Queenie para sentir-se derrotadas, daí o desprezo que manifestavam por ela. Queenie ansiava por fazer novas amizades, mas sabia que não as encontraria entre suas colegas. Não se julgava uma criatura orgulhosa, e aquela declarada hostilidade pegou-a despre venida. Sofreu muito, pois precisava desesperadamente de uma amiga. Não havia ninguém com quem pudesse conversar sobre o que Morgan lhe fizera. A cortina de seu camarim afastou-se, e um rapazinho com o rosto coberto de espinhas, vestido de umforme azul, entregoulhe um enorme buquê de rosas com um envelope. Ela lhe deu alguns níqueis, que ele embolsou sem agradecer. Queenie ainda precisaria aprender os princípios da arte de dar gorjetas. Ao abrir o envelope, descobriu um recorte da coluna de Basil e apenas uma frase, escrita com letra muito firme: "Para Rani, que começa com o pé direito!" Não havia nenhuma assinatura. Queenie ficou extasiada. Nunca lhe haviam enviado flores, e os botões surgiam como uma promessa de vida nova e diferente. Tentou imaginar quanto tinham custado, mas não conseguiu. Não tinha onde colocar as flores e depositou o buquê em 197 cima da penteadeira, junto a um pote de creme, vestindo-se apressadamente para o próximo número. Queenie contemplou-se no espelho partido, antes de cobrir o rosto com o véu. Decidiu que sempre seria bela. Era apenas uma questão de força de vontade. Ao entrar no palco para o último número da noite, Queenie sentiu-se decepcionada, pois Lucien Chambrun tinha ido embora: A mesa à qual se sentava estava vazia e, enquanto removia os véus, não tirava os olhos dela, como se Chambrun ainda se encontrasse lá. Logo sua atenção foi atraída por um casal bemvestido, ambos gordos e de meia-idade, que a fitavam sem demonstrar nenhum tipo de prazer, como se ela não passasse de uma igreja ou de um museu que tem de ser visto por fazer parte de um, roteiro. Queenie olhou a sua volta e percebeu que a boate estava cheia de pessoas igualmente bem vestidas, a maior parte das quais demonstrava, com grande educação, aliás, um extremo tédio consigo e com o mundo. Percebeu Goldner indo de uma mesa a outra, inclinando-se e esfregando as mãos, como um homem a quem a fortuna finalmente sorrira. No final de seu último número, a platéia aplaudiu-a calorosamente. Era gente de bons modos, ao contrário dos freqüentadores habituais, que assoviavam grosseiramente, gritavam ou roncavam, dependendo de seu grau de bebedeira. Queenie espiou por entre a cortina e viu Morgan e o resto da orquestra. Ele parecia mal-humorado e zangado. Desejava alcançar o sucesso com a mesma intensidade com que a deseja ra. Morgan pegou o saxofone e começou a tocar alto demais e um tanto desafinado, num gesto de desafio ou simplesmente por estar bêbedo. Queenie desceu a estreita escada de ferro, em forma de caracol, afastou a cortina do camarim e sentiu falta de alguma coisa. As flores haviam desaparecido, juntamente com o recorte de jornal. Irritada, afastou a cortina do camarim ao lado. Era maior do que o dela. Três garotas sentavam-se diante de uma comprida penteadeira. Uma delas usava um quimono encardido e as outras duas estavam só de calcinha. Mavis, uma loira grandalhona, pintava cuidadosamente as unhas, com um cigarro dependurado no canto da boca. - O que você quer? - perguntou, sem levantar os olhos. - Quem pegou as minhas flores? - Vocês ouviram? Essa aí quer saber o que aconteceu com suas preciosas flores... - As duas outras mulheres deram de 198 ombro. - Está nos acusando de roubar suas flores, srta. Rani não sei das quantas? Mavis levantou-se, abaixou a calcinha e coçou-se. A vulgaridade do gesto revoltou Queenie. Não tinha o hábito de ver outras mulheres nuas. À luz intensa das lâmpadas que cercavam o espelho, os cabelos oxigenados de Mavis refletiam um brilho amarelo e desprovido de vida, que contrastava com os pêlos escuros quê despontavam por entre suas coxas. - Vá dando o fora, sua babaca! - disse, com toda a grosseria de que era capaz. As outras caíram na risada. - Não saio enquanto não descobrir quem pegou as minhas flores. - Não tenho por que ouvir isso de você nem de nenhuma outra negra. Aquela palavra deixou Queenie paralisada. -Queria sair correndo, mas sabia que tinha de enfrentar a situação. Mavis tirou o cigarro dos lábios e cuspiu no chão, diante das sandálias prateadas de Queenie. - Uma ova que você é filha de um oficial inglês! Não me venha com essa de que foi criada como uma princesa! Sei tudo de você, garota. Seu amiguinho Morgan me contou... Queenie encarou-a. Sua garganta estava tão seca que, por alguns momentos, não conseguiu dizer nada. - Não sei o que você quer dizer com isso... - Que descarada! - Mavis pegou os seios e ergueu-os, de tal modo que os bicos apontavam na direção de Queenie. - Morgan, quando vê pela frente uma mulher de verdade, sa be lhe dar valor... Pois vou lhe dizer o que aconteceu com suas preciosas flores: seu querido Morgan jogou tudo na lata de lixo. Agora vá dando o fora, srta. Rani! Mavis deu-lhe as costas e sentou-se diante do espelho. As outras duas criaturas a encaravam com frieza, hostilidade e desafio. Queenie sentiu vontade de chorar, mas não permitiria de modo algum que elas vissem suas lágrimas. Ela se retirou às pressas, e as três mulheres caíram na gargalhada. Ficou parada no corredor por alguns instantes, sentindose mais só do que nunca. Não a chocava saber que Morgan tinha dormido com Mavis. Afinal de contas, havia deixado bem claro que nunca mais dormiria com ele. O fato, porém, de ele ter contado a Mavis a verdade a seu respeito era um ato de traição, tão grave quanto o estupro de que fora vítima. Nunca lhe passou pela cabeça que ele fosse capaz de fazer semelhante coisa, e jamais o perdoaria. Trêmula, afastou a cortina de seu camarim. De repente ouviu uma voz baixa e tranqüila. 199 - Vejo que minhas flores não estão aí. É um mau sinal? Queenie ficou tão espantada que não disse nada, mas aquela voz lhe pareceu estranhamente familiar. Enxugou as lágrimas e viu diante de si Lucien Chambrun, sentado em sua cadeira e com os pés apoiados na penteadeira. Ao lado havia um balde de gelo com uma garrafa de champanhe e duas taças. Morgan imediatamente caiu no esquecimento Visto de perto, Chambrun era ainda mais bonito. Seu sorriso era generoso, relaxado, levemente irônico, como se ele percebesse que sua presença naquele camarim acanhado era agrada velmente ridícula, um ato impulsivo e romântico, de que seus amigos sem dúvida caçoariam. Seus pés eram muito bem feitos. Queenie jamais vira pés tão finos e alongados em um homem. Ele mesmo pareceu notar e contemplou-os com certa satisfação, mas logo se deu conta de que estavam apoiados no lugar errado. Levantou-se às pressas e inclinou-se. Sua cabeça, por um breve instante, ficou no mesmo nível da de Queenie, pois ele era consideravelmente mais alto. - Ah, você é tão bonita que eu me esqueci das boas maneiras. - Lucien riu, como se ele e Queenie estivessem achando graça da mesma piada. Pegou sua mão, levou-a aos lábios e beijou-a. - Procure não estender a mão com tanta rigidez! Quando um homem pegar sua mão, relaxe os músculos. A maior parte das mulheres inglesas não sabem como agir, neste sentido. A mão delas chega a parecer um pedaço de peixe seco. - Você parece conhecer muito bem o assunto. Queenie ficou espantada com a desenvoltura de Chambrun, ao aconselhã-la, mas sua atitude não deixou de interessá-la. Era exatamente o tipo de coisa que desejava aprender. - Sou metade francês. Está no sangue. Os ingleses não sabem nada a respeito das boas maneiras, da comida ou das mulheres. Chambrun abriu o champanhe com rapidez e eficiência, sem nenhum estardalhaço. Encheu as duas taças, entregou uma delas a Queenie e encostou de leve a sua na dela. - Por que chorava? - Não foi nada. - Infeliz nos amores? - Não, não. - Ela achou que não valia a pena dizer a verdade. - Não é nada disso. Você foi o responsável pela nota que saiu no jornal? - Não consigo mentir, pelo menos para você. Sim, o responsável fui eu. 200 - Basil Goulandris é seu amigo? O sr. Goldner ficou muito bem impressionado. - A palavra "amigo" não é muito apropriada, em se tratando dele. Ninguém é amigo de Basil, mas todo mundo que tem alguma importância o conhece. Prestei-lhe alguns favores e agora chegou a sua vez de retribuir. Imagino que deve ter embolsado umas cinqüenta libras de Goldner... Queenie sentiu-se levemente desapontada, ao perceber como uma notícia chegava a uma coluna de fofocas. Esperava que Goulandris tivesse ficado impressionado com ela, mas viu que era apenas uma questão de favores e suborno. Chambrun notou sua reação, pois tinha a sensibilidade aguda de um homem que gostava profundamente das mulheres. - Não se preocupe. Você impressionou Goulandris. Ele é corrupto mas ainda tem certa integridade. - Por que você fez isso? Chambrun indicou com um gesto que ela devia beber e esvaziou sua taça de um só gole. - Sua pergunta é um tanto difícil. É que tive uma certa intuição a seu respeito. Além do mais, preciso ser honesto: gosto de mulheres belas e jovens. Queenie riu. Chambrun era muito franco, o que a deixava desarmada. Achava difícil precisar qual sua idade. Certamente tinha menos de trinta anos, mas percebeu nele um certo quê de adolescente, de brincalhão. Não sabia dizer, porém, se era algo real ou se não passava de um jogo, com a finalidade de envolvê-la. - Gostou de meu número? - perguntou. - Como não haveria de gostar de vê-Ia despindo-se? - Chambrun riu. De repente ele se tornou sério. Queenie notou uma modificação em seu olhar, como se ele a encarasse com um novo tipo de interesse, com uma concentração quase profissional. Nunca ninguém a olhara daquele jeito, e a intensidade com que ele o fazia colheu-a de surpresa. Chambrun coçou de leve o queixo, pensativo, inclinou a cabeça, pôs-se de lado a fim de examinar melhor o perfil de Queenie e removeu a pequenina cúpula da lâmpada, a fim de vê-Ia melhor. Não disse nada, e sua concentração era total. Encarou-a durante um bom minuto, como se ela não passasse de um objeto em exibição, e suspirou. - Seu número? Ora... é apenas um número. Esqueça-o. Sabia que tem grandes possibilidades? Só Deus sabe quanto vale um rosto como o seu. Sorria. Queenie lhe obedeceu. 201 - Não, assim não. Sorria como se você tivesse um motivo para isso. Ela tentou mais uma vez. - Melhorou - disse Chambrun, mas ainda não estava satisfeito. - Sua maquilagem está toda errada. Era como se ele estivesse falando sozinho, pensou Queenie, um pouco ressentida. Contemplou-se no espelho. Na sua opinião, não havia nenhuma incorreção na maquilagem. - Desculpe... - Chambrun pegou na mão de Queenie. - Estava pensando em como fotografá-la, mas não foi por isso que vim aqui. - Mas então qual foi o motivo? - Não pude deixar de vir. Existe algo em seu rosto que me fascinou, como se já o tivesse contemplado uma vez... Quando a vi no palco, por detrás destes véus ridículos, pareceu-me que você era a mulher mais bela que vi até hoje. Desde então não paro de pensar em você. É muito ruim, para minha saúde e meu trabalho... Foi por isso que vim procurá-la. Não quer jantar comigo? - É muito tarde... - E daí? Não está - Sim. Não. Não sei... - A maior parte do tempo ela vivia faminta e de vez em quando sentia-se tentada a comer os sanduíches de Goldner. já eram quase duas da manhã e pa recia bem pouco provável que houvesse algum restaurante aberto, o que não deixava de ser uma lástima. Depois de Chambrun mencionar a comida, Queenie percebeu que morria de fome. - Sinto tanto apetite que sou até capaz de comer um cavalo inteiro. - Não será necessário e, na Inglaterra, você seria apedrejada se o fizesse. Beba o champanhe. - Não gosto muito de champanhe. - Que bobagem! Todo mundo gosta. Não é aquela coisa azeda que Goldner costuma servir, mas champanhe francês, da marca Dom Pérignon. Experimente. Queenie provou e logo chegou à conclusão de que a requintada bebida nada tinha a ver com o que Morgan costumava levar ao apartamento. Esvaziou a taça. - Está vendo? Queenie percebeu que uma parte do encanto de Chambrun vinha do fato de ele estar acostumado a conseguir tudo o que queria. Presumia que todo mundo concordaria com ele e se encaixaria em seus planos, o que era mais do que provável, sobretudo em se tratando das mulheres. - Não posso me despir, a menos que você saia - disse ela. com fome? 202 - Mas eu já a vi tirar a roupa. - É muito diferente. - Pois então fico de costas e fecho os olhos. Estou com pressa. Também tenho fome, Rani. - Não é meu verdadeiro nome. - Não imaginei que fosse. Como é que você se chama? - Queenie Kelley - ela revelou, após breve hesitação. Para seu grande alívio, ele não riu. - O meu é Lucien Chambrun. Agora que nos apresentamos, mude de roupa, por favor. Ficarei de costas e pensarei no jantar. Chambrun voltou-se para a parede. Queenie hesitou e começou a tirar os véus, pendurando-os cuidadosamente. Permaneceu quase nua por um instante, pensando se ele conseguia vê-Ia refletida no espelho. Concluiu que isso pouco importava. De repente se ouviu o ruído indiscreto de uma descarga. Queenie sentiu-se profundamente irritada, diante da mediocridade daquele lugar, e desejou sair dali o mais rápido possível. Vestiu a roupa de baixo e as meias, girou rapidamente diante do espelho, para verificar se a costura estava direita, e começou a enfiar o vestido por, cima da cabeça. Do outro lado da cortina ouviu-se uma tosse nada discreta. - Por que você está demorando desse jeito? - perguntou Morgan com impaciência. - já é hora de irmos para casa. Ela o ouviu afastar a cortina e soltar. uma exclamação de surpresa e raiva. O vestido ainda estava em torno de sua cabeça, mas não lhe foi difícil imaginar a reação de Morgan. - Quem é este sujeito? - ele perguntou, indignado. Queenie percebeu que andara bebendo. O rosto estava vermelho e ele tinha um olhar culpado, apesar da raiva que sentia. Chambrun voltou-se, destapou os olhos e sorriu, como se sua cordialidade e boa educação se estendessem também a Morgan. - Não tenho o prazer de conhecê-lo - disse, estendendo a mão, que Morgan simplesmente ignorou. - O que ele está fazendo aqui? - perguntou Morgan, com voz pastosa. - Eu o convidei. - Pois então pode desconvidá-lo! - De jeito nenhum! - explodiu Queenie, furiosa. de ir dando o fora! Ela nunca se mostrara tão agressiva. O tom era idêntico ao empregado por sua mãe, e o sotaque, nitidamente angloindiano. Foi o suficiente para espantar Morgan. Ele se encolheu no mesmo instante. _ - Po 203 Chambrun pôs o chapéu, ajeitou-o em um ângulo elegante, e passou o lenço de seda em torno do pescoço. - Foi um prazer conhecê-lo - disse a Morgan, como se ambos tivessem se tornado grandes amigos. Tirou o casaco de Queenie do cabide, colocou-o em seus ombros, num gesto ao mesmo tempo galante e protetor, pegando em seguida o balde de champanhe. - Bem, precisamos ir - disse, e, sem dar mais explicações, tomou Queenie pelo braço, retirando-se. - Um momento - disse Morgan, alterado, indo atrás, com os passos trôpegos e desajeitados de um bêbedo. Chambrun, porém, apressou-se, como se não o tivesse ouvido, e segurou com firmeza no braço de Queenie. Sem diminuir os passos, abriu a porta da cozinha, passou pelo cozinheiro, que varria o chão, e lhe entregou a garrafa de champanhe e uma nota de uma libra. - Se alguém perguntar, diga que não nos viu, meu amigo. O cozinheiro examinou a garrafa e concordou. - A porta dos fundos está aberta - informou, dando uma piscada de cumplicidade. Um carro esporte, comprido e baixo, encontrava-se estacionado na rua. Chambrun abriu a porta, esvaziou o conteúdo do balde de gelo na sarjeta, sentou-se ao lado de Queenie e deu a partida. - Quem era aquele homem? - indagou. Queenie sabia que teria de responder àquela pergunta mais cedo ou mais tarde, mas, agora que chegara o momento, decidiu despistar. Mais tarde poderia explicar a situação a Chambrun, caso isso lhe parecesse necessário. - É um amigo da família. - Por acaso é seu tutor ou qualquer - Mais ou menos. - Parecia estar muito zangado. - Ele bebe. É uma história muito comprida. Chambrun acenou com a cabeça. A experiência lhe rã que, quando uma mulher mentia, o mais sensato era encerrar o assunto. - Ainda bem que não - Por quê? Você achou que fosse? - A gente nunca sabe... Ouça, não há nenhum lugar decente aberto a esta hora da noite. Iremos até o meu apartamento e jantaremos lá. Concorda? Queenie hesitou. Queria de fato ir ao apartamento de Chambrun. A alternativa seria voltar para casa e enfrentar Morgari. Ao mesmo tempo, um instinto cauteloso ordenava-lhe que não aceitasse o oferecimento. é seu marido! coisa no gênero? ensina 204 - Não tenho certeza... Chambrun guiava com a mesma impetuosidade que demonstrara no modo de abordar Queenie. Ela jamais havia entrado num carro esporte. A velocidade normalmente a teria deixa do inquieta, mas a excitação de sentar-se junto a Chambrun, num carro que deveria ter custado milhares de libras, atenuou o medo. Os bancos eram forrados de couro precioso, e o painel era feito de madeira polida, com instrumentos que brilhavam no escuro. Ao percorrer as ruas sombrias e desertas, naquele carro requintado, chegava até a imaginar que fosse uma criatura rica. - Ora, vamos! - protestou Chambrun. - Não há nada de errado em jantar com um homem em seu apartamento, sobretudo nos dias de hoje. Você deve ter feito isso mais de uma vez. - Sem dúvida! - ela disse com desenvoltura. Tomara que Chambrun não percebesse a mentira. Queenie ficou fascinada com o apartamento de Chambrun. Um dos cantos da sala de estar era obviamente o lugar onde ele trabalhava. Uma máquina apoiava-se em um tripé, diante de um telão e de um espelho de três faces. O resto da sala era mobiliado com objetos de grande valor. No chão havia tapetes persas; um torso de mármore, de tamanho natural, servia de chapeleira; os sofás estavam atulhados de almofadões, mantas, jornais, livros, revistas e roupas. Em todos os cantos havia indícios de que se tratava de apartamento de um rapaz solteiro, de gostos muito próprios. A preocupação de Chambrun com as mulheres revelava-se no que ele exibia. Penduradas nas paredes encontravam-se ampliações de retratos femininos, além de nus. Um deles era o de uma loira magra e elegante, deitada de costas, em uma pose de quase êxtase. Queenie reconheceu aquele rosto: era o da jovem que estivera com Chambrun na boate, quando ele foi lá pela primeira vez. Enquanto Chambrun se ocupava na cozinha, Queenie examinou a sala com curiosidade, procurando detalhes que revelassem o estilo de vida do morador. Era evidente que ele levava uma intensa vida social. Em cima da mesinha viam-se convites de todos os tamanhos e formatos, alguns bem formais ("O marquês e a marquesa de Arlington têm o prazer de convidar o sr. Lucien Chambrun..."); outros eram simples mensagens pessoais, traçadas por mãos femininas ("Venha, por favor, querido..."). Um convite para jantar trazia a liga de uma mulher presa por um alfinete, com apenas uma linha, escrita com tinta vermelha: "Você é um malvado, mas, se vier, será perdoado. Não 205 se atrase. Beijos". Estava assinado "Cynthia". Queenie notou que o convite era para aquela noite. Havia também convites para ceias, bailes, coquetéis (eram os mais numerosos), exposições, estréias de filmes e vernissages. O que seria isto? Sentiu-se impaciente com a própria ignorância. Tinha ainda tanto o que aprender! ' Acima da lareira, contrastando com aquele ambiente, via-se um retrato a óleo de uma jovem magnificamente trajada, com pescoço de cisne, perfil clássico e a cintura delgada de uma beldade dos tempos do rei Eduardo. O rosto e os olhos eram idênticos aos de Chambrun. Até mesmo o sorriso, aliás, a sombra de um sorriso, era semelhante. Imediatamente abaixo via-se uma fotografia pequena, com bela moldura, de um senhor corpulento e barbudo, com um cão no colo e fumando um charuto. Seu rosto era familiar, e Queenie olhou-o mais de perto. Na foto havia a seguinte dedicatória: ` A minha querida Elsie, com afeto - Bertie". Surpreendida, Queenie reconheceu aquelas feições imediatamente, pois a vira em todas as moedas e cédulas da índia. Pertencia, sem dúvida, ao falecido rei Eduardo VII. t1 escrivaninha, peça muito antiga e valiosa, estava coberta de papéis: contas, cartas, recortes das revistas Vogue e Bazaar. Uma das cartas tinha a sigla muito conhecida da Metro Goldwyn Mayer, com o famoso leão urrando. Somente a parte de cima era visível. Ligeiramente envergonhada por se mostrar tão curiosa, Queenie a leu. "... que mais posso dizer de Los Angeles? Como descrever o calor, a ambição generalizada, a ausência de estímulos intelectuais? Seu querido pai teria detestado este lugar. Quanto a mim, sinto-me como José no Egito, só que aqui também o faraó é judeu..." Queenie não tinha coragem de virar a página. Uma coisa era ler uma carta que se via por acaso, outra bem diversa era agir de propósito. Em todo caso escapou à tentação, pois Chambrun saía da cozinha carregando uma bandeja de prata. - Encontrou algo de interessante? - ele perguntou, animado. - Não há muito o que comer, é apenas um improviso de última hora. - Bem, eu não estava olhando... - Claro que estava, e com toda a razão. Eu sempre leio a correspondência dos outros. É tão mais interessante do que a que a gente recebe... 206 Chambrun abriu uma garrafa de champanhe. Ao lado dela, na bandeja, achava-se um prato com galinha assada, partida em fatias muito finas, pão, queijo e frutas. - Procuro ter em casa apenas o essencial, pois como fora. Todo dia a srta. Hamlyn, minha empregada, assa uma galinha, destrincha e põe na geladeira. Algumas vezes eu a como, outras não. O importante, porém, e que ela sempre está lá. - E nos dias em que ela folga? Lucien encarou-a, surpreendido. A garota dava mostras de ser muito prática. - Na véspera ela prepara duas galinhas. - É sua mãe? - perguntou Queenie, apontando o retrato a óleo. - Sim. Era de uma grande beleza. - E esse retrato não é do rei? - É ele, sim. Minha mãe foi uma de suas últimas amantes. Era jovem, bela, casada com um cavalheiro muito respeitável. Atraiu a atenção do rei durante um jantar, e os dois se apaixonaram. Claro que o marido dela aceitou a situação com desprendimento... Não deixava de ser um fato honroso. Mais tarde ele se tornou barão. - Ele foi recompensado por permitir que sua mulher dormisse com o rei? - Absolutamente. Foi recompensado por não fazer um escândalo público. O escândalo estourou mais tarde. Minha mãe ficou desolada, depois que o rei morreu. Foi morar na França, durante uma temporada, e apaixonou-se por um pintor francês, Leon Chambrun, artista muito talentoso. Chambrun apontou para outra parede, onde havia um quadro representando um piquenique em um bosque de oliveiras. Uma mulher de longos cabelos loiros dava a mão a um menino de terninho de marinheiro. No chão via-se uma toalha xadrez, com cestos de frutos e queijos, além de um vaso de flores. Ao fundo via-se a linha do mar. - O menino sou eu - informou Chambrun. - Meu pai sempre preferiu temas domésticos. Era um homem gentil e talentoso. Era amigo de Picasso, mas não tinha sua fama ou seu gênio. Solicitavam-no demais para desenhar cenários. Chegou até mesmo a fazer trabalhos para David Konig, o famoso cineasta, que gostava muito dele, como todo mundo, aliás. - David Konig? - Claro. Viu algum filme dele? - Sim, Casamento real. Devo dizer que Marla Negresco estava horrível. 207 - Você acha mesmo? Sabe que era uma criatura muito bela? Infelizmente não tinha aquele tipo de beleza que dura muito tempo. O filme Casamento real poderia muito bem ter sido feito sem elá, mas o pobre Konig não teve escolha. Era casado com ela e teve de lhe dar o papel. Foi pena. Os primeiros trabalhos dele eram maravilhosos. Amor ao sol era uma obraprima e O último adeus, ainda melhor. - Não assisti a estes filmes. Você faz cinema? - Um pouco, mas gostaria de fazer mais. Quem sabe, no futuro... Puxa, suas mãos são lindas! Chambrun pegou a mão direita de Queenie e examinou-a com cuidado, aproximando-a do rosto. Beijou-a então com ternura, sentando-se no sofá. Em seguida beijou o punho e o antebraço. Eram os primeiros beijos meigos e delicados que Queenie recebia. Não se debateu quando Chambrun finalmente inclinouse e beijou-a de leve nos lábios. Quando ele levantou a cabeça, ela não se mexeu. Não que sentisse medo, mas, pata seu grande constrangimento, simplesmente não sabia o que fazer. Inclinou a cabeça para trás e cerrou os olhos, imaginando se ele adivinharia o quanto ela era inexperiente. - Abra os olhos quando me beijar - murmurou Chambrun. - Quando uma mulher fecha os olhos, ela está sempre se resguardando, se protegendo ou pensando em mais alguém. - Não estava pensando em ninguém! - Ótimo. Durante anos a fio Queenie imaginara como seria ir para a cama com um homem. Não podia acreditar que sua única experiência com Morgan fosse digna de ser levada em conta. Sentiu os braços de Lucien em torno dela, bem como o calor de seus lábios, e achou tudo aquilo muito bom, tão bom que esperava que ele parasse por lá. Imaginou que deveria oferecer algum tipo de resistência. Afinal, não seria o que se esperava dela? Não se sentiu, porém, inclinada a isso. - Você passará a noite comigo? - ele murmurou baixinho. - Passarei, passarei, sim - disse, feliz por ter toda a noite diante de si e disposta a deixá-lo fazer o que ele bem entendesse. - Acho que ficaríamos mais à vontade na cama e sem roupa, não lhe parece? - Lucien endireitou-se e tirou a gravata. Ela nada respondeu. - Você não tem muita experiência, não é mesmo? - indagou. Parecia estar se divertindo com a situação. Queenie corou. Receava que ele não quisesse prosseguir, e talvez nem mesmo permitisse que ela ficasse. Não queria ad 208 mas seria pior se dissesse mitir que jamais fizera aquilo, contrário. - Não sou virgem, declarou, decidida. - Não é nada disso. - Lucien tirou os sapatos, as e recurvou os dedos do pé, suspirando de alívio. - Agora, porém, que você mencionou o assunto, passo a me interessar por ele... - Pois bem, não sou virgem. Isso importa? - De modo algum. - Ele se inclinou e beijou-a de leve na testa. - A porta do quarto fica ali, à direita. Vá para lá e fique à vontade. Irei a seu encontro daquï a pouco. Queenie encarou-o, surpreendida com o fato de ele adivinhar com tamanha facilidade que ela não queria ir para o quarto e despir-se na frente dele. - O banheiro é logo em frente - ele informou, entregando sua bolsa. Ela a pegou, imaginando por que Lucien achava que precisaria dela. Antes de deitar-se, dobrou as roupas com todo O cuidado e apagou a luz. Ainda tinha muito o que aprender sobre o amor, pensou. Esperava que fosse tão bom quanto todo mundo dizia. se é isso 0 o que você quer saber - meias O mundo tinha razão... Queenie contemplou Lucien dormindo, à luz cinza da manhã que se filtrava através das cortinas semicerradas. Ela não sentia o menor sono e nem conseguia pensar nisso. Não experimentava o menor sentimento de culpa. as suas expectativas em relação ao sexo nada tinham com aquela profunda sensação de alegria e prazer com o próprio corpo. Lucien a ajudara a realizar tal descoberta. Não se impôs a ela. Ao contrário, acariciou-a com ternura, murmurou palavras de encorajamento o tempo todo, até ela o puxar para bem jun to de si. Ele então guiou seus movimentos, segurando com firmeza suas nádegas, até ela se envolver com o ritmo do próprio prazer e perceber que já não se controlava mais, e nem poderia, por mais que tentasse. Queenie ficou de olhos abertos o tempo todo. Agora o encarava, deitado a seu lado, e, pela primeira vez, ocorreu-lhe que os homens eram bonitos à sua própria maneira. Claro que isso não se dava com a maioria, mas o mesmo aconte cia com as mulheres. O corpo de Lucien fascinou-a, mas o mais fascinante é que seus corpos pareciam encaixar-se comodamente, Todas a ver 209 naturalmente, sem o menor constrangimento, como se tivessem sido feitos um para o outro. O rosto dele já se achava coberto por uma sombra dourada. Era a barba que despontava. A Queenie o processo pareceu mágico e ela estendeu a mão, a fim de tocá-lo. Lucien abriu os olhos. - Você deveria estar dormindo. - Não me sinto cansada. Lucien espreguiçou-se, beijou-a e, passando um braço em torno dela, puxou-a para bem junto de si. Queenie sentia dor da cabeça aos pés, mas não deixava de ser uma sensação agradável. Agora que sabia o que era fazer amor, mal conseguia imaginar como fora possível viver sem aquilo. Ele tocara certas partes de seu corpo que ela nem sabia que existiam e fizera coisas que não imaginara serem possíveis, há algumas horas. - Tenho de levá-la para casa - Haverá necessidade de dar problema? Queenie pensou no assunto com relutância, pouco disposta a retornar às exigências da vida de todos os dias. - Não quero ir para casa - declarou. - Você por acaso está vivendo com seu... tutor? O rapaz moreno de bigode? - Sim. E uma história comprida. - Estou mais do que disposto a ouvi-Ia. Queenie sentiu-se desperta de repente, como se alguém tivesse jogado um balde de água gelada em cima dela. O quanto poderia contar? Até que ponto ele entenderia? Lucien a fizera experimentar o tipo de vida que desejava, não apenas na cama, mas na agilidade com que ele se movimentava de um mundo para outro. Não conhecia muita coisa a respeito dele, mas, a julgar pelo estilo de vida que levava, era evidente que se sentia à vontade na alta sociedade, e em termos familiares com gente como David Konig. Queenie teve a sensação de apoiar o pé no primeiro degrau de uma escada. Queria subir mais alto. Acima de tudo, não desejava que aquela escada fosse retirada. - Ele devia tomar conta de mim quando viemos para cá. - Vieram da Índia? Queenie fez que sim. Procurou pensar na melhor maneira de encaixar Morgan na história divulgada através da coluna de Basil Goulandris, e decidiu que quanto menos falasse, melhor. - No início ele se comportou muito bem - revelou Queenie, aninhando-se nos braços de Lucien. - Depois começou a mudar... - Como assim? - disse Lucien, suspirando. explicações? Surgirá algum 210 - Começou a me olhar o tempo todo. De vez em quando, ficava bêbedo e batia em mim... - Queenie gostaria de contar a verdade, mas receava que ela deixasse Lucien revoltado. - Estou percebendo - disse ele, acariciando-a com ternura. - Ele, por acaso... bem... - Morgan tentou, sim. - Mas agora tudo acabou! - Para grande alívio de Queenie, a curiosidade de Lucien por seu passado era limitada. - Agora não há mais nada a recear. - De repente o telefone tocou com estridência. - Só faltava esta! - ele disse, um pouco irritado, atendendo. Ouviu durante alguns instantes, e Queenie notou sua expressão mudar. Parecia culpado c "constrangido. Intuiu que ele queria ficar a sós, a fim de poder conversar com mais liberdade, mas decidiu juntar seu corpo ao dele, com a maior intimidade possível. Lucien fechou os olhos, procurando se concentrar. -Julguei que fosse hoje à noite... Não, é claro que não ouvi o telefone tocar, estava revelando uns filmes no laboratório... Mas é evidente que sinto muito, querida... Sei perfeita mente que isso não adianta muito... Não, não, eu bem que gostaria, mas acho que não será possível almoçar com você... Tenho um compromisso... Hoje à noite? Não sei.. Ouça, não adianta nada você ficar desse jeito... Alô? Lucien pôs o telefone no gancho e abriu os olhos. - Ela desligou. - Que pena! Foi culpa minha. - De modo algum. A culpa é - Quem era? - Mal fez a pergunta, Queenie percebeu que tinha ido longe demais. Para seu grande alívio Lucien pareceu não se aborrecer. - Cynthia Daintry. Estava louca de raiva. Eu deveria ter comparecido ontem à noite ao jantar que ela ofereceu. - É a loira que estava com você na boate? - Exatamente. - É muito bonita. Será que o perdoará? - Possivelmente, mas isso depende do meu comportamendaqui para a frente. Diante da perspectiva de voltar para a companhia de Morgari e retirar-se do mundo de Lucien, Queenie sentiu uma grande vontade de chorar. - Vou me vestir - murmurou, esperando que ele dissesse não. - E voltará para o tal de Morgan? Não admito. Você ficará comigo. - E Cynthia? to, só minha. Lucien levantou-se e vestiu um roupão. - Para ser franco, já não suporto mais as explosões de ciúme de Cynthia. - Ele olhou pela janela, aliviado por dirigir sua atenção para outro lugar. - Lá fora a luz está muito bonita. É uma pena desperdiçá-la. Faremos algumas fotos. - Mas não me vesti, nem me arrumei. - É justamente isso o que interessa! - Lucien agora mostrava-se impaciente, como um profissional que não gosta de ser interrompido ou questionado. - Vista uma camisa, um rou pão, qualquer coisa... no armarinho do banheiro encontrará uma escova de dentes nova e uma escova de cabelo. Apresse-se. Não gosto de desperdiçar a luz, quando ela é favorável. Queenie atendeu sua sugestão. No armarinho havia pelo menos seis caixas com escova de dente, todas fechadas. Enquanto escovava os dentes, imaginou se Cynthia não tinha razões para se mostrar ciumenta... Quando foi ao encontro dele, Lucien punha o filme na máquina e sorria. - Hoje à tarde iremos fazer algumas compras. Em da, quero lhe apresentar um amigo meu. - Quem é ele? - Chama-se Dominick Vale. Creio que pode fazer muito por você. Por favor, fique na frente deste telão branco... Você tem muitas coisas em casa? - Não chamaria aquilo de casa - observou Queenie, percebendo de repente que seria um erro deixar Lucien saber que ela e Morgan dividiam um quartinho. - É um apartamento pequeno e lá tenho apenas umas duas malas. Por quê? - Porque, se você não for até sua casa, teremos de começar da estaca zero. - Prefiro esta solução. - Sempre é a melhor - disse Lucien, subitamente sério. Começou então a fotografar, andando para a frente e recuando, enquanto modificava o foco e o ângulo. - Você está sorrindo! Exatamente como pedi que fizesse, quando nos falamos pela primeira vez em seu camarim... "Tenho bons motivos para isso", pensou Queenie. Lucien consentia que ela ficasse em sua companhia! segui - O sr. Vale está a sua espera? - Diga-lhe que estou aqui e que é importante. - Pois não. O criado de libré inclinou-se respeitosamente. A despeito da peruca empoada e dos calções de seda, que iam até o joelho, 212 tinha a aparência de um boxeador. O telefone quase desapareceu em sua mão enorme, quando ele o tirou do gancho. - Ele disse para o senhor subir. Conhece o caminho, não é mesmo; sr. Chambrun? Queenie olhou a sua volta, embevecida. Durante anos Morgan alimentara sua fantasia, falando sobre o famoso Café de Paris. Naquela magnífica mansão em estilo georgeiano todos aque les que, em Londres, gozavam de riqueza, fama ou celebridade reuniam-se à noite, para dançar sob os ricos candelabros, outrora pertencentes a Sua Alteza Real, o duque de York, comer no famoso Salão dos Espelhos, com seus candelabros resplandecentes, e assistir a um show que rivalizava com os melhores de Paris. O príncipe de Gales ia lá todas as noites, sempre que se encontrava em Londres, acompanhado de seu ajudante-de-ordens, o major Metcalfe. Ficava dançando com a sra. Dudley Ward, cujo infeliz marido era obrigado a cochilar em sua mesa, até que o príncipe tivesse se divertido plenamente. O marajá de Baroda tinha mesa cativa, bem como os marajás de Kashmir e Jaipur, além do Aga Khan. Este certa vez animou a noite, jogando moedas de ouro para as coristas. Comentava-se que, nessa brincadeira, desperdiçara o equivalente a dez mil libras, até que se cansou. Grande parte do que se escrevia a respeito de Vale não passava dê especulação, pois ele mantinha um segredo quase obsessivo sobre suas origens. Dizia-se à boca pequená que era filho natural de uma criada da casa real e de um mascate armênio que vendia tapetes. Vale negava tais boatos, mas muita gente desconfiava que era ele seu autor. Até mesmo os ricos o temiam. Era conhecido por seu temperamento violento. Murmurava-se que sempre andava armado e que não recuava diante de nada, a fim de destruir o homem ou a mulher que se interpusesse em seu caminho. Nadava como um tubarão nas águas turvas da sociedade, abocanhando de vez em quando uma vítima. - Que prazer inesperado - disse Vale com toda a calma, levantando-se a fim de apertar a mão de Lucien e beijar a de Queenie. Era imensamente alto, tinha o tórax e os ombros de um halterofilista e vestia-se com elegância, o que dava a seu corpo atlético um aspecto um tanto sinistro. Mais sinistras ainda eram suas sobrancelhas negras e espessas, que se encontravam no meio da testa, emprestando-lhe um ar de permanente ironia. Os olhos desbotados tinham todo o calor de duas ostras boiando na casca. O tom lúgubre de sua voz, combinando com o terno formal e elegante, sugeria a Queeme a presença de um agente funerário, e não a de um dono de boate. 213 i - Não estamos atrapalhando, Dominick? - De modo algum! Estava sozinho. Vale padecia de catarro nasal. Respirava ruidosamente e, de vez em quando, fungava, a fim de limpar o nariz. Não parecia perceber tal hábito ou simplesmente não se importava com a possível reação das pessoas. Abriu uma caixinha de prata e dela tirou uma pastilha de menta, com cheiro de remédio, pouco agradável, aliás. Queenie notou que havia dois copos sobre a mesa, com pedras de gelo que ainda não tinham derretido. Por detrás de Vale a porta estava apenas encostada, como se alguém tivesse se retirado rapidamente, esquecendo-se de fechá-la. Vale contemplou um isqueiro dourado, cravejado de brilhantes, e pegou-o, como se estivesse imaginando o que fazer com ele. Acendeu-o várias vezes e limpou ruidosamente a garganta. A porta fechouse, acionada por uma mão invisível. Tudo naquele homem era brilhante e caro. Até mesmo as unhas lançavam chispas. Vale pôs o isqueiro sobre a mesa, como se jamais o tivesse visto. Queenie fez o mesmo. Era difícil des prender o olhar daquele rico objeto. Os diamantes formavam as iniciais R.B. A pessoa que estivera há pouco com Vale esquecera-se do isqueiro. - Queria lhe apresentar minha amiga, Queenie Kelley. - Muito prazer - ele disse, fungando. Queenie achou que o prazer não era tanto assim. Ao contrário, Vale tinha toda a aparência de um homem interrompido no meio de algo bem mais importante. Ele lançou um olhar furtivo em direção à porta, como que querendo certificar-se de que ela estava bem fechada. - A srta. Kelley está procurando emprego? -já tenho um. - Precisou de certa coragem para falar. Havia algo em Vale que lhe dava calafrios. - Queenie está trabalhando na boate de Goldner. - E a famosa Rani, que tanto impressionou Goulandris? - Agora ele a encarava com algum interesse. - Devo dizer que ele não lhe fez justiça. - Vale recostou-se na cadeira e voltou sua atenção para Lucien, como se já tivesse visto tudo o que precisava. - Ela tem possibilidades - concedeu com certo desdém. - Possibilidades? Ela é perfeita! - Você é um romântico - declarou Vale, como se aquilo fosse uma doença. - Os diamantes são perfeitos, mas as pessoas, infelizmente, não. Ela, no entanto, se aproxima muito mais da perfeição do que a jovem que você trouxe antes. Queenie olhou Lucien, assustada. Não lhe ocorrera que ele tinha o hábito de trazer garotas a Vale. 214 Este deu um ligeiro sorriso. Queenie percebeu que ele pretendia deixar Lucien constrangido, o que conseguiu. Tratou, então, de consertar a situação. - Talvez deva explicar que Lucien procura talentos para mim. Não se trata de um acordo formal, srta. Kelley. Nós dois somos velhos amigos e uma mão lava a outra. Minha clientela é rica, famosa e entediada. O que existe de melhor não, é considerado suficiente para eles, pois estão mal acostumados. Exigem novidades, algo diferente, novo. Trabalhar aqui significa ser visto por todo o mundo que tem alguma importância. - E pode conduzir a grandes coisas - acrescentou Lucien. - Quem pode dizer? - indagou Vale, levantando-se e indicando que já estava na hora de eles se retirarem. Queenie notou que Vale não lhe dirigiu nenhuma pergunta. A idéia de que ela talvez não gostasse de trabalhar lá obviamente não lhe ocorreu. Vale apertou um botão e a porta do escritório se abriu. Quando ela se fechou, Queenie ouviu-o fungar ruidosamente, e uma voz melodiosa, desconhecida e teatral se manifestou. - Eles já se foram? Que presença seria aquela, que Vale ocultava com tamanho zelo? Queenie sentou-se no carro, rodeada de caixas onde se liam os nomes de algumas das lojas mais caras da elegante Bond Street, conhecidas até mesmo na Índia. Ainda estava irritada com Lucien e desconfiava que sua generosidade não passasse de um modo de se desculpar. - Você podia ter me avisado que era uma espécie de teste! - Mas já expliquei. Não passou de uma apresentação a um amigo. Não tinha a menor idéia de que ele abordaria o assunto. Você deveria ficar contente. Isso mostrou o quanto ele ficou bem impressionado. - Não gostei dele. - Ninguém gosta. Bem, eu gosto um pouco, mas isso não importa. De vez em quando levo até Dominick alguém interessante para sua boate. É tão terrível assim? Na minha opinião, trata-se de um favor que presto a um amigo. - E o que ele faz por você? - Ele me dá uma comissão, já que você perguntou. Afinal de contas, a gente tem que viver. - Ah, sei. - Está achando que foi por isso que a procurei nos bastidores? Pois se engana. E saiba que a comissão de Dominick 215 mal dá para pagar o que gasto numa boate. Não pretendo ficar rico à sua custa. Foi isso que você pensou? - Sim, me passou pela cabeça. - Você é bem desconfiada, em se tratando de alguém tão jovem. Precisará aprender a confiar nas pessoas. Em todo caso, terá de aprender a confiar em mim. - Se o sr. Vale me quiser... - Vai querer, sim. - ... o que faço com Goldner? - Dê um aviso prévio de duas semanas, do modo mais gentil possível. Queenie arrependeu-se por não ter sido mais cuidadosa ao assinar o recibo da primeira semana de salário. Agora que pensavá no assunto, o documento lhe pareceu um tanto volumoso, para um propósito tão simples. Valeria a pena pedir a opinião de Lucien? De repente ele parou na frente de uma butique que lhe chamou a atenção. Desceu do carro, levando Queenie pela mão, exigindo e recebendo atendimento no mesmo instante. Não estava interessado em artigos que tivessem de ser encomendados ou até mesmo modificados. No momento em que algo atraía sua atenção, pegava-o, mandava Queenie experimentalo e a examinava com cuidado, assim que ela voltava. Se acaso a roupa agradasse a ele, comprava-a imediatamente. Caso contrário explicava com exatidão por que ela não servia. Tinha opiniões muito definidas a respeito de tudo. Abominava reproduções de quadros e bijuteria. - E melhor não ter nada do que ter coisas falsas - dizia. - O original em breve virá a minhas mãos. Não ocorreu a Queenie questionar se ele tinha meios de sustentar aquelas compras tão extravagantes. Lucien parecia totalmente indiferente ao preço das coisas. Sua generosidade deixou-a alarmada e um pouco irritada, pois, embora estivesse disposta a aprender tudo o que podia a respeito da vida, reconhecia em si mesma uma certa cautela instintiva em relação ao dinheiro. Enquanto isso aprendia muita coisa sobre roupas. Na butique do famoso costureiro francês Molyneux, Lucien comproulhe um traje de noite de chiffon de seda negra, que contrastava com sua cútis pálida. No Asprey's adquiriu uma bolsa de crocodilo, para usar de dia, e uma bolsinha de contas douradas, para a noite. No Rayne's escolheu um par de sapatos elegantérrimos. Na Marie de France foi a vez da lingené e, a contragosto, Lucien acabou deixando-a levar artigos na cor que ela preferia, o rosa. Na butique Massey & Cunningham ele comprou cosméticos. Conhecia mais a respeito de ruge, pó-de-arroz, rímel e ba 216 tom do que a própria Queenie, e fez questão de lhe ensinar os detalhes de uma maquilagem cuidada. - O rosto de uma mulher é uma obra de arte - disse, tocando de leve em seu rosto com a ponta dos dedos, mostrando-lhe como aplicar uma sombra bem discreta de ruge, a fim de valorizar as maçãs. Queenie experimentou uns doze perfumes, pondo uma gota nos punhos, conforme a sugestão da vendedora, até reconhecer uma essência que lhe pareceu tudo o que havia de mais caro e sofisticado. - Schiaparelli? - perguntou Lucien, erguendo a sobrancelha. - Tem certeza de que não prefere o Channel? Ela sacudiu a cabeça. Sabia muito bem o que queria e estava mais do que decidida. Lucien fez um sinal para a vendedora, que embrulhou o elegante frasco de perfume. - Que estranho... É a marca preferida de Cynthia... - ele comentou. Queenie levou o punho ao nariz. O perfume a fez perceber pela primeira vez como devia ser bom ficar embriagada. Sentiuse tonta de prazer e deu o braço a Lucien, beijando-o em plena butique, para grande escândalo da vendedora. Ele ficou muito pouco à vontade. - Isso quer dizer que fui perdoado? Sim - disse ela, voltando a beijá-lo. - E confia em mim? - Confio, sim. - Pois então vamos para casa. Não teremos muito tempo para desempacotar as compras e fazer amor. Em seguida eu a levarei à boate para seu primeiro ahow. Quem sabe sobrarão alguns minutos para comermos qualquer coisa e darmos uma espiada nas fotos... Era a primeira vez que Lucien mencionava o apartamento como se fosse a casa deles. Isso bastava para fazê-la esquecer que, dentro de poucas horas, teria de voltar a encarar Morgan. - Ele foi embora - disse Goldner. - O senhor o despediu? - Ameacei despedir e fiz coisa ainda pior. Nós tínhamos chegado a um acordo. Ele não deveria importunar você, e tomei a liberdade de relembrar o fato com uma certa... firmeza. Queenie, preocupada, achou que ele tivesse dado uma surra em Morgan, mas tal atitude não parecia do feitio de Goldner. - Não, não fui eu - ele disse, adivinhando seus pensamentos. - Não foi nada sério, não se preocupe. Apenas um 217 aviso. Acho que, daqui a uma ou duas semanas, ele terá condições de voltar a tocar saxofone. Por mais que Queenie estivesse ressentida com Morgan, imaginá-lo surrado por um capanga de Goldner a deixou abalada. - Onde é que. ele está? - perguntou, ansiosa. - Parece que cometi um erro de julgamento... Morgan fugiu com Mavis, o que não é uma perda muito grande, mas, antes de ir embora, passou a mão em cem libras, além daquilo que eu já lhe havia dado. A essas alturas deve estar bem longe daqui... - Voltou para a índia? - Acho que Mavis não toparia. Por um breve momento Queenie sentiu-se profundamente só. Em comparação a Morgan, Goldner e até mesmo Lucien eram estranhos. Por pior que se comportasse, pertencia à família. Não tinha a menor vontade de vê-lo na prisão. - O senhor deu parte à polícia? - Ainda não. - Por favor, não faça isso. - É meu dever. - É um favor que o senhor me faz. - Ah, esses sentimentos familiares! Compreendo, respeito e até mesmo compartilho, mas é um erro. Acredite em mim: você está em muito melhor situação sem ele. Bem, farei isso em consideração a você. Pague-me as cem libras. Descontarei de seu salário, digamos duas libras por semana, e esqueceremos meu dever cívico. - Parece-me um tanto exagerado. - Exagerado? De modo algum. Afinal de bras é muito dinheiro. Queenie quase chorou, ao pensar em mas sabia que era o mínimo que poderia Pensou nas palavras de Goldner e descobriu lado um fato surpreendente. - Por falar em dinheiro, o senhor disse que deu quantia a Morgan, além daquilo que ele roubou? - Pois é... - Goldner sorriu e enxugou a testa com o lenço. - Deixei escapar, mas acho que você ficaria sabendo, mais cedo ou mais tarde. Comprei de Morgan a parte que ele tinha no seu contrato. - Que contrato? - perguntou Queenie, espantada. - Ora, o contrato que assinei com Morgan, em seu nome. Você é menor de idade. Sendo ele seu parente mais próximo, tinha o direito de assinar por você. - Mais isso é ridículo! perder cem libras, fazer por Morgan. que ele tinha revê uma certa 218 - De modo algum. Você até mesmo assinou, consentindo, mediante um adiantamento de dez libras. Está tudo perfeitamente legal e qualquer tribunal do país decidirá a meu favor. Era mais uma traição, pensou Queenie. Tentou pensar em alguém que pudesse ajudá-la, mas não havia ninguém. Se tivesse realmente de procurar a justiça, Lucien não teria como en frentar Goldner. Morgan a comprometera, sem nem mesmo comunicar-lhe, e fugira, deixando aquela verdadeira bomba em suas mãos. - Você precisa aprender a encarar o lado positivo das coisas - disse Goldner. - Tenho um grande interesse em seu contrato e você pode contar comigo, a fim de dar muita força à sua carreira. - Em termos práticos, que interesse é esse? - Bem, cinqüenta por cento do que você ganhar é meu. Eu tinha vinte e cinco por cento, mas o coitado do Morgan precisava de dinheiro e comprei a parte dele. Na minha opi nião, não vai tirar muito proveito. A tal de Mavis é uma oportunista. - Quer dizer então que o senhor fica com a metade do que eu faturar? - Exatamente, mas o salário que você ganha aqui é todo seu. Precisamos, porém, pensar mais para a frente. Quem sabe há muita coisa boa esperando por você: filmes, teatro, anún cios... na minha opinião, as oportunidades são excelentes, aliás, para nós dois! Queenie não se deixou impressionar. Todo mundo falava de seu "brilhante futuro" e queria participar dele, mas ela ainda ganhava dez libras por semana, das quais Goldner se propu nha a ficar com duas. Sabia reconhecer quando tinha sido derrotada. Imaginava que o contrato redigido por Goldner a impediria de lutar, mas estava decidida a alcançar pelo menos uma pequena vitória. - E por quanto tempo devo permanecer sua... escrava? - perguntou, surpreendida com o tom enérgico com que falava. Goldner também se surpreendeu. Ele esperava cenas de histeria, lágrimas, etc., mas a firmeza e o ódio contido de Queenie transmitiram-lhe a sensação de que havia problemas à vista. - Não encare a situação deste modo, meu bem. Tratase de uma sociedade entre nós dois e não de escravidão. Quando você fizer vinte e um anos, será dona de seu nariz. Isso nos dá três ou quatro anos para nos conhecermos melhor. Até lá você poderá sentir-se tão grata ao velho Solly, por tudo o que ele fez a seu favor, que talvez até queira renovar o contrato... 219 Agora Queenie tinha pleno conhecimento da realidade, e a pílula era amarga. Engoliu-a, pois não havia alternativa. De uma coisa tinha certeza: recusava-se a chamar aquele homem de "Solly" ou a pensar nele como o "velho Solly". Para ela seria sempre o sr. Goldner. - Já que somos sócios, sr. Goldner, certos detalhes. - Como não! gostaria de discutir - Goldner - Quero um camarim decente. - Sem dúvida. O que mais? - Já que somos sócios, temos de dividir a responsabilidade pelo dinheiro que Morgan roubou, o que me parece mais do que justo. Goldner levantou a sobrancelha. Arrependia-se de ter empregado a palavra "sócio". - Não vejo nenhuma justiça nisso, meu bem. Queenie foi até a porta e, afastando ligeiramente a cortina, espiou a platéia. A casa não estava nada má, em se tratando do primeiro .rhow da noite. Sabia que não tinha o menor senti do preocupar-se, gritar e muito menos chorar. Era exatamente isso que Goldner esperava. Além do mais, ela tinha um trunfo nas mãos, Goldner talvez tivesse a segurança de um mas não sabia que, agora, ela tinha para onde ir e contar. De fome é que não morreria. - Essa conversa me deixou queixou-se. - Vou lhe dar uma aspirina, meu com generosidade, remexendo na gaveta. número, estará ótima. - Acho que não vou dói de fato. Goldner ficou parado, com o comprimido na palma da mão, como se fosse uma oferenda religiosa. - Você não pode decepcionar a platéia, meu bem. - Posso, sim. - Se não fizer seu número, não será paga. - Pouco me importa. Goldner examinou-a com atenção e notou pela primeira vez que Queenie usava sapatos novos e caros, a julgar por seu brilho. Encheu um copo de água e ele mesmo tomou a aspirina. Quem lhe teria comprado aqueles sapatos? Esperava que não fosse um advogado... Deveria ter imaginado que Queenie, em breve, teria um homem em sua vida. Era inevitável, mas quem diria que iria acontecer com tamanha rapidez... sorriu, inseguro. com dor de contrato, com quem cabeça - bem - disse Goldner - Quando chegar seu conseguir, sr. Goldner, pois a cabeça 220 - Quem sabe você tem razão... - concedeu. - Em sinal de amizade, estou disposto a dividir os prejuízos das cem libras que Morgan roubou. Queenie não disse nada e fechou se sentindo dor. - Olhe, a gente até pode esquecer o assunto - prosseguiu Goldner, ao notar sua reação. - Afinal de contas, o que significam cem libras para dois sócios? - Acho melhor eu me trocar. Queenie sentiu-se deliciada ao ouvir Goldner suspirar de alívio, quando fechou a porta. A caminho do camarim, parou na frente do telefone. Havia limites para as pressões que pode ria fazer sobre aquele homem enquanto quisesse trabalhar, mas existia alguém que poderia aumentar consideravelmente tais pressões. Discou o número do Café de Paris e pedi r para falar com Dominick Vale. Goldner levou menos de vinte e quatro horas pata descobrir que Queenie estava vivendo com Lucien Chambrun. O fato não o aborreceu. Os interesses de Lucien não entrariam em con flito com os seus, nem os ameaçariam. Ao contrário: suas fotos tornariam Queenie uma atração ainda mais valiosa. Decidiu ter com ele uma conversa de homem para homem na primeira oportunidade. O rapaz era razoável e seus serviços poderiam ser sempre úteis, no sentido de manter Queenie na linha. Goldner deliciou-se com sua boa sorte, enquanto verificava a receita da noite, prendendo os maços de notas com um elástico. Serviu-se de conhaque e acendeu um charuto, para comemo rar. Nesse momento bateram à porta. Enfiou rapidamente o dinheiro no bolso e foi abri-la. O olho que o encarava, quando espiou por uma pequena abertura, era acinzentado e totalmente desprovido de expressão. Ficou na ponta dos pés, para ver melhor, e notou uma gravata branca e um botão com um diamante. Assaltantes não costumavam se apresentar com aquele requinte. Goldner abriu a porta e, por um breve momento, quase chegou a desejar que fosse mesmo um assaltante. Dominick Vale estava diante dele, com uma elegante capa, de luvas e uma cartola na mão. Na mão direita trazia uma bengala de castão de ouro, muito fina, e que poderia muito bem ser usada como arma. Vale fungou bem alto, como se o estivesse cumprimentando. - Sr. Vale! - disse Goldner, fingindo um prazer que estava muito longe de sentir. - A que devo esta honra? - Você é um homem de sorte, Goldner. - O senhor é quem diz. os olhos, como se estives 221 - Pense bem. Você ainda anda sobre duas pernas. Tem uma boate bem decente, que ainda não pegou fogo. É impressionante como os prédios velhos pegam fogo com facilidade. Não tem qualquer problema com a polícia. Isso é que se chama de sorte, não acha? - Não tenho o que temer. - Ora, vamos, Goldner! Todo e você não é exceção. - E a quem deveria - A mim. Goldner reconheceu a verdade daquela declaração. O que Vale queria? Em breve ficaria sabendo. - Sou um homem razoável - declarou. - Claro que é, e eu também. Quero a srta. Kelley. - Ah... Ela assinou um contrato comigo. - Eu sei. Você conseguiu um tal de Morgan Jones para assinar por ela, e contratou-a por uma ninharia. Foi muito astucioso, Goldner, reconheço que você é um homem de visão... - O senhor parece muito bem informado. - Sim. A jovem me contou toda a história. Goldner sentou-se, surpreendido. Mais uma vez subestimaQueenie. Abriu a gaveta e retirou o contrato. - Este documento é perfeitamente legal. Vale empurrou-o para fora da mesa com a ponta da bengala. - Isto não passa de um papel - disse, fungando. - Papel não queima, nem sangra. Goldner sabia quando estava derrotado, mas era homem de muitas iniciativas e não se deixava assustar com facilidade. Já tinha sido intimidado e ameaçado por gente mais forte do que Vale, e há muito descobrira que sempre se pode chegar a um acordo. Pegou o contrato no chão. - A tinta é mais valiosa do que o sangue. Digamos que eu rasgue este documento, com as assinaturas. Então o senhor terá de redigir um novo contrato. A garota não é nada boba. Poderá procurar um advogado, e tem Chambrun a seu lado, para aconselhá-la. É verdade que ele não entende muito de negócios e é amigo seu. Ainda assim, será que o senhor conseguiria um novo contrato com cláusulas tão favoráveis? Francamente, duvido. Além do mais, ela é menor de idade. Sem Morgan, quem assinará por ela? O senhor terá de localizar a mãe dela e isso tem muitas implicações desagradáveis. Por que se desfazer de um documento excelente? Vale fungou. Tirou uma caixinha dourada do bolso do colete e pôs uma pastilha de menta na boca. - Prossiga. Estou ouvindo. ra temer? 222 - Afinal de contas, ela chamará mais atenção em sua boate do que na minha. Não faço a menor objeção em exibir meu investimento ou até mesmo em fazer uma sociedade... Vale examinou as unhas e fez um gesto com a cabeça. - Da metade que lhe pertence, sessenta por cento ficará para mim e quarenta, para você. - Não. Meio a meio. - Ando procurando alguém que me ajude a tomar conta de meus investimentos, Goldner. Como você sabe, tenho interesse em outras boates e clubes noturnos. É claro que nem to dos têm o requinte do Café de Paris, e não quero ver meu nome ligado diretamente à maior parte deles... Você já me entendeu. Acho que um homem certo daria perfeitamente conta do recado. - Presumo que este homem seja alguém que já trabalhe no ramo, que tenha um ponto e que não apresente nenhuma ligação visível com o senhor. Alguém discreto. - Exatamente. - Pois então aceito. O senhor fica com sessenta por cento e eu, com quarenta - disse Goldner, todo feliz. Graças a Queenie, ele finalmente punha um pé no mundo dos altos negócios. 223 9 Depois de um mês, Queenie acostumou-se ao gosto da fama. Não foi recompensa suficiente, pois descobriu que Vale, em vez de rasgar o contrato dela com Goldner, simplesmente associou-se a ele. Agora estava sendo bem paga. Cem libras por semana era uma quantia com que jamais sonhara, mesmo que Goldner ficasse com a metade. Ainda assim, não tinha muito sentido indignar-se com algo que não tinha condições de modificar, conforme Lucien lhe fez ver. Precisaria ter paciência. Sua hora chegaria. A paciência não era uma das virtudes de Queenie, mas não tinha alternativa. Afinal de contas, as coisas não iam tão mal assim. Tinha um amante, dinheiro e tornava-se rapidamen te objeto de comentários na cidade inteira. Seu novo camarim, no mesmo andar do escritório de Vale, vivia repleto de flores. ' Elas chegavam de hora em hora, com cartões trazendo o nome de celebridades, marajás, milionários, nobres e a aristocracia de pelo menos meia dúzia de monarquias européias destronadas. Ao final da primeira semana, o príncipe de Gales enviou rosas, entregues pessoalmente por seu ajudante-de-ordens, o major Metcalfe. Na semana seguinte Aga Khan mandou um buquê tão grande que foi impossível entrar com ele pela porta. Do príncipe Miguel da Rumânia veio uma coroa, com o formato de seu brasão, junto com um envelope que continha a metade de uma nota de cem libras. No bilhete, o príncipe, com muito tato, oferecia-se para entregar a outra metade, quando Queenie visitasse sua suíte no hotel Connaught. Um admirador chegou ao ponto de lhe enviar uma cacatua, que teve de ser mandada para o zoológico, depois que Queenie tirou de suas garras um lindo broche de diamantes. Devolveu a jóia, muito a contragosto. Por mais lisonjeiras que fossem tais demonstrações, elas não subiram à cabeça de Queenie. Não era ingênua, ou melhor, tornara-se menos ingênua. Os homens que lhe enviavam flores, cartões e champanhe queriam dormir com ela, mas não experi 224 mentava o menor desejo de dormir com eles. Se o fizesse, seria apenas mais um rosto bonito em Londres. Além disso, sentia-se feliz ao lado de Lucien. Pela primeira vez na vida vivia em estado permanente de excitação sexual. Não conseguia pensar em mais nada e, nos poucos momentos em que não estavam fazendo amor, tocavamse, sentiam um ao outro, beijavam-se sem parar. Sua inesgotável capacidade de sentir prazer a deixou muito surpreendida. De vez em quando adormecia imediatamente após fazer amor, como alguém que mergulha em um mar quente e tranqüilo, e mesmo dormindo apenas algumas horas, como acontecia com freqüência, jamais se cansava. Aquele ato parecia enchê-la de energia, a tal ponto que, muitas vezes, andava nua e inquieta pelo apartamento, à noite. Quando isso acontecia, ia até a cozinha e comia o que encontrava. Outras vezes punha um roupão felpudo e ficava na janela, contemplando o sol nascer, observando o leiteiro e seu cavalo percorrerem a rua tão quieta. Gostava dos momentos que passava cuidando de seu corpo, agora que ele lhe proporcionava tanto prazer, e também a Lucien. Sempre tivera paixão pela limpeza, mas agora aquilo se tornara uma verdadeira mania, e ela era a primeira a reconhecêlo. Uma vez por dia lavava os cabelos, o que era uma tarefa e tanto, crevido ao comprimento. As unhas eram cortadas e polidas até o ponto da perfeição, e ela passava pedra-pomes na sola dos pés, a fim de mantê-los bem macios. Após o banho passava vaselina pelo corpo com lentidão e paciência, por meio de pequenos gestos circulares dos dedos. A fim de evitar o ressecamento da pele, jamais lavava o rosto com sabonete, mas o massageava com creme, até a fronte e as maçãs brilharem como jade muito alvo. Queenie foi aprendendo a analisar a própria beleza na frente do espelho. Afinal de contas, tratava-se de um trunfo valioso e insubstituível, que não devia ser tratado com descuido. Procu rava as falhas sem cessar e encontrou poucas, completamente absorvida em uma tarefa que era quase tão fascinante quanto o sexo. O fato de ser ligeiramente estrábica, assinalado por Lucien, certo dia em que a fotografava, deixou-a profundamente preocupada. Felizmente não se notava a distância, mas quando se contemplou em um espelho de aumento o defeito lhe pareceu tão feio e evidente que começou a usar óculos escuros durante o dia. Era fácil se acostumar às coisas boas da vida, mas em breve Queenie descobriu que começava a desejar mais e mais. Lucien era generoso e finalmente ela dispunha de um dinheiro só seu. 225 Ainda assim sentia uma ponta de inveja quando via uma mulher usando um belo casaco de peles ou uma jóia cara. Todas as noites apresentava-se para os ricos. Gostaria de viver entre eles. Sua beleza era o passaporte de que dispunha. Esperava necessitar apenas disso e, através dos olhos de Lucien e das fotos, começou a estudar-se seriamente, do mesmo modo que um banqueiro estuda o mecanismo das finanças. Começou também a compreender o lado sério do caráter de Lucien, pois ele era um perfeccionista em sua profissão. Gostava de fingir que levava a vida despreocupada e preguiçosa de um playboy e iludia muita gente, mas, quando se dispunha a trabalhar, deixava-se absorver inteiramente pelo que fazia e entregava-se horas e horas à sua tarefa, à procura da imagem que queria. Era a coqueluche dos editores de revistas, e seus honorários eram os mais altos de Londres, pois dizia-se que ele conseguia ressaltar a beleza até da mais comum da mulheres. As técnicas que Lucien empregava deixavam Queenie confusa, mas não os resultados. Quando ele falava a respeito de linha, forma, detalhes de iluminação, ela lutava para entender e aprender. Pacientemente, por detrás da câmera, ele explicava como trabalhava, até que, pouco a pouco, Queenie começou a entender que Lucien era um artista, que tinha inventado seu próprio estilo. Lucien acreditava na mobilidade, agilidade e contato entre o assunto a ser fotografado e o artista. Movia-se em torno da pessoa que fotografava, ajoelhava-se, deitava-se, subia e descia de escadas, disparando a objetiva o tempo todo, em movimentos incessantes. Aos poucos foi conquistando e fascinando os editores, pois suas fotos eram carregadas de eletricidade, sexy, vivas, novas, em um ambiente onde a novidade era tudo. No presente, porém, já estava entediado com a fotografia, talvez por ter se tornado bem-sucedido com tanta rapidez. Era o cinema que o fascinava, com suas amplas possibilidades de movimento, velocidade, vida. Os produtores, porém, prendiamse ainda mais à fotografia convencional do que os editores das revistas. Lucien falou a Queenie do filme que tinha rodado em Paris com o grande poeta e escritor Jean Cocteau. A história era mostrada através do olhar do herói, e a platéia via apenas aquilo que ele enxergava. Isso, porém, só serviu para que ele fosse pouco solicitado pelos grandes estúdios, onde experimentos de tal qualidade eram ignorados ou encarados com grande reserva. Agora ele fotografava Queenie noite e dia. O rosto dela tornou-se sua obsessão, um desafio que o absorvia e, ao mesmo tempo, estimulava toda a sua energia. Estava decidido a captar 226 a qualidade misteriosa de sua beleza, a descobrir seus segredos, a atingir aquela imagem que seria Queenie por inteiro, mas jamais se satisfazia. As outras pessoas convenciam-se com mais facilidade. A foto de Queenie, tirada no momento em que ela se voltou para a câmera, como se algo a tivesse assustado, provocou sensação entre os editores da revista Vogue. A fronte alta, os olhos imensos, abertos, numa expressão de surpresa, os lábios sensuais, ligeiramente apartados, como se estivesse à espera do beijo de um amante. Tudo isso Lucien captou em uma foto plena de movimento, com exceção dos olhos, que pareciam encarar o fotógrafo com uma rapidez e uma intimidade perturbadoramente sexual. Para a revista Baxaar ele fotografou Queenie num lago, com o corpo escondido pela água, a cabeça de fora, o rosto erguido, os lábios afastados, os olhos brilhantes,, entre os líriosd'água, como se fosse um deles. Ela sentiu frio e medo daquelas águas turvas, mas isso não ficou registrado nas fotos. Tornava-se verdadeiramente uma profissional. Diariamente Lucien selecionava suas fotos, escolhia as que mais se aproximavam do ideal que tinha em mente, as colocava dentro de um envelope e o subscrevia, com uma letra firme e descuidada: Sr. David Konig Estúdios da Metro Goldwin Mayer Culver City Los Angeles, California, USA Até aquele momento Lucien não tinha recebido nenhuma resposta. Goldner entregou-lhe a carta. O envelope azul, um tanto desbotado e amarrotado, devido à longa viagem, tinha selos indianos. Fora dirigido a Queenie, aos cuidados de Goldner. Pareceu-lhe a solução mais simples, quando começou a enviar cartões-postais a Vicky. Nelas, Queenie exprimia-se com muita simplicidade: "Eu te amo, estou trabalhando muito, prometo escrever uma carta". Na medida em que as semanas se passavam, começou a acreditar que jamais receberia resposta, e que sua mãe decidira que não a perdoaria. A carta era prova de que se enganara. Rasgou o envelope, olhando de relance as linhas muito bem escritas. A caligrafia de Vicky era tão precisa e cuidadosa quanto tudo o que ela fazia, mas tão apertada que quase se tornava ilegível. Queenie 227 percorreu a carta até o fim, antes de perceber que Vicky simplesmente se recusava a aceitar o que tinha acontecido. Não havia menção ao roubo, às suas conseqüências, nenhuma queixa, nenhum indício de mágoa ou ódio. Vicky escrevia como se Queenie e Morgan tivessem viajado para a Inglaterra do modo mais natural e respeitável possível. Perguntava sobre a saúde de Peggy D'Souza e mandava-lhe lembranças. Era como se ela tivesse conseguido expulsar a realidade da mente. Ou isso acontecia porque simplesmente não suportava viver com ela, conforme Queenie desconfiava? Percebeu que não tinha o menor sentido tentar escrever a Vicky e contar a verdade, já que estava decidida a ignora-la. Talvez um dia pudesse explicar tudo e, de alguma forma, fazer se perdoar. No momento não havia a menor razão para impedir Vicky de compartilhar de seu sucesso, independentemente do que ela pensasse a respeito. Decidiu enviar-lhe recortes de jornais. Pelo menos sua mãe teria o prazer de saber que sua Queenie estava tornando-se famosa. Aquela carta perturbou-a, entretanto. Releu-a várias vezes, à procura de algum indício do que Vicky realmente pensava, mas não teve sucesso. Queenie guardou a carta no bolso do roupão, um presente de Lucien. As notícias da índia não foram a única coisa que a perturbou. Depois da segunda noite que passaram juntos, Lu cien perguntou-lhe, fazendo o possível para parecer natural, mas sem conseguir, se ela acaso tinha tomado alguma "precaução". Queenie sabia que as "precauções" eram necessárias, mas não tinha uma idéia definida do que eram, e presumiu que a iniciativa cabia ao homem. Vicky nunca havia dado explicações muito claras a esse respeito. A confusão que ela experimentava devia ser muito visível, pois Lucien corou pela primeira vez, desde que a conhecia. - Quando você foi ao banheiro com a bolsa, não... - Ele completou a frase, muito constrangido. Ela sacudiu a cabeça. - Você não tem um... quero dizer, você não esteve em médico? - Claro que não. Por que deveria? - Ah, sei. Então acho melhor eu tomar algumas precauções. Em todo caso, acho preferível você consultar um médico. Existe um método muito simples, que a maior parte das mulhe res segue. Um médico pode explicar melhor do que eu. Max Drymond é a pessoa mais indicada. Telefone para ele e diga que é minha amiga. Queenie concordou. No meio de tanta felicidade, foi adiando a ida ao consultório de Drymond. Em todo caso, Lucien parecia não um 228 tomar conta do problema. De vez em quando resmungava pelo fato de ter de usar o que denominava um "condom" isto é, uma camisinha, e a própria Queenie achava aquilo meio sem graça, mas logo se habituou. Temia que qualquer modificação pudesse estragar sua felicidade. Todos os dias prometia a si mesma que marcaria uma consulta com o dr. Drymond, e sempre acabava esquecendo-se. Sabia que a falta de regras era o primeiro sinal de gravidez. Acaso haveria outros motivos para que as regras não viessem? Esperava que sim... As noites em que Lucien trabalhava eram solitárias, e com freqüência Queenie desejava ter com quem conversar. Vale não encorajava seus "empregados" a confraternizarem uns com os outros, e muito menos com seus "convidados", que é como chamava os freqüentadores do Café de Paris. Queenie tinha apenas de apertar um botão a fim de chamar a camareira ou a criada, mas como todos os empregados de Vale, eram pouco comunicativas. O próprio Vale era uma presença invisível. De vez em quando ela ouvia alguém fungando no hall, o que significava que ele estava saindo ou entrando no escritório, ou então sentia um leve odor de menta, assinalando sua passagem recente. Ele parecia morar no próprio clube, mas a localização de seus aposentos ou o que ele fazia neles constituía um dos mistérios do lugar. - Com licença - ouviu alguém dizer. A voz era profunda, bem modulada e sonora. Queenie teve a sensação de que já a ouvira. Era uma voz que não se esquecia com facilidade. Voltou-se para ver quem entrava no camarim sem bater e surpreendeu um rapaz bem-vestido, com a calça aberta e o pênis na mão. Ela ficou espantada demais para dizer o que quer que fosse. Não tinha a menor experiência com pervertidos, embora já tivesse ouvido falar a respeito deles. O rapaz não lhe pareceu, porém, particularmente ameaçador ou até mesmo pervertido. O olhar dele era meio amortecido, como o daqueles homens que estão mais bêbedos do que imaginam, o que não chegava a prejudicar sua bela aparência. O rosto era sólido, quadrado, e fortemente masculino, com exceção do nariz, pequeno e mente feminino. - Devo ter banheiro... - Como o senhor está vendo, não é, não. - Com efeito. Há flores demais. Oh, por favor, perdoe curiosa abrido a porta errada. Pensei que fosse o 229 me... - Com um gesto estabanado ele enfiou o pênis dentro da calça e tentou abotoar-se, sendo bem sucedido apenas na segunda tentativa. - Devo-lhe desculpas. Não tive a intenção de chocá-la. - O senhor não me chocou. Afinal de contas, não é primeira vez que vejo isso. O rapaz nu, e sua risada era teatral, como se a tivesse aprendido para desempenhar um papel. Fez uma pausa, e era o próprio ator dando tempo à platéia para aplaudi-lo. - Não se incomoda se eu me sentar? - perguntou e, antes que ela pudesse responder, deixou-se afundar pesadamente na cadeira ao lado da penteadeira, com um suspiro de alívio. - Tenho de encontrar o banheiro logo, logo, mas aqui está bom demais... Ele se exprimia com um sotaque vitoriano meio fora de moda, mas tão perfeito que, por alguns instantes, Queenie quase se convenceu de que fosse um personagem saído de algum romance de Dickens. De repente o rapaz deu uma piscada maliciosa, desmanchou aquela ilusão e passou a se exprimir no mais puro cockney, o sotaque popular londrino. - Você é uma sensação, não é mesmo? - Ele deixou a pose de lado e retomou seu tom normal de voz. - Creio que é a famosa Rani! - Meu nome verdadeiro não que o rapaz era encantador. - Claro que não, meu anjo. é Richard Beaumont. - Richard Beaumont? Queenie já ouvira falar dele. Beaumont era a sensação de Londres, um ator que, ao mesmo tempo, conseguia ser o ídolo de espetáculos ligeiros, românticos, e um trágico, dentro de uma linha de grande tradição. Até mesmo Lucien, que o conhecia bem, falava a seu respeito com certo enlevo. Todos os jornais comentavam sua próxima estréia em Romeu e Julieta, bem como faziam fofocas sobre suas saídas com Cynthia Daintry. Queenie olhou-o com redobrado interesse. Lucien mostrouse muito reservado, no que dizia respeito a Cynthia, mas Queenie sentia um desejo muito natural de saber mais coisas em relação à mulher a quem substituíra. Decidiu que não havia nada de mais em flertar um pouco com Beaumont. - Sim, sou Richard Beaumont, só que meu verdadeiro nome é Sidney Lumbley. Como vê, temos algo em comum. Não existe muita gente que nasce com nomes apropriados para um programa ou um cartaz. Imagino que você não nasceu com o nome de Rani ou como ` A garota de olhar lânguido"... Em é esse. - Queenie decidiu nome verdadeiro não Meu 230 seu caso, eu não ficaria preocupado, querida - disse Beaumont, notando que ela corava. - O sexo vende entradas, até mesmo para Hamlet. Basta colocar no palco uma garota bonita fazendo o papel de Ofélia e a bilheteria dobra. Qual é de fato seu nome? - Queenie. - E muito melhor do que Sidney, mas também não é um nome para se pôr na frente do teatro. Devo confessar que andava morrendo de vontade de conhecê-la. - É mesmo? - Sem dúvida. Cynthia Daintry quase me enlouqueceu de tanto falar de você. Não conseguia acreditar que alguém pudesse virar a cabeça de Lucien com tanta rapidez. Olhando-a, percebo como isso é possível. - Ela ficou muito aborrecida? - Nenhuma mulher gosta de perder um homem, querida, mesmo quando se cansa dele. Houve uma época em que Cynthia teria casado com Lucien, se ele pedisse. Todo mundo esperava que isso acontecesse, e não apenas a pobre Cynthia. O pai dela, como você sabe, é o marquês de Arlington. Isso significa muito dinheiro, uma mansão magnífica, a presidência de várias instituições, uma cadeira no Parlamento, etc., etc. Ela, além do mais, é muito atraente. Um pouco altiva, talvez, mas também, com o tipo de educação que recebeu... E como vai Lucien? Ele desapareceu' de circulação. - Não podia estar melhor. - Esplêndido. Dá para se perceber o motivo. Você costuma ficar sozinha em seu camarim? - Quando Lucien não está aqui, sim... - Sou igual. De vez em quando acho que meu camarim é minha casa. Você não tem aí algo para beber, não é mesmo? - Não, sinto muito. Se quiser, posso pedir que tragam um drinque. - Não, - Não faça Queenie - disse Beaumont, ligeiramente apreensivo. não isso. ficou fascinada ao notar que as expressões dele, como sua voz, passavam por modificações surpreendentes. Quando sorria, tornava aquilo um pequeno espetáculo, como se decidisse que o rosto deveria registrar exatamente a emoção que ele queria transmitir. Será que ele ensaiava na frente do espelho? - Assisti ao seu número - ele disse repentinamente. - E o que achou? - Muito competente e astucioso, falando de profissional para profissional. Você não sabe dançar, aliás, eu também não, e então posa, finge. Cheguei à mesma conclusão a meu respei to, há alguns anos. A gente ou dança, ou não. Nosso grande 231 ator Ralph Richardson certa vez me disse: "Sou terrivelmente desajeitado, Dickie, e então fico parado, duro como uma estátua. Assim obrigo a platéia a olhar pata mim". Minha cara, este truque você já aprendeu e, portanto, ganhou metade da batalha. Quem sabe sempre percebeu que era assim... Nunca pensou em representar? - Sim, mas não me interessei propriamente pelo teatro. - Refere-se ao cinema? Filme é coisa fácil de fazer. Porém, é muito tedioso, ao contrário do palco, mas o que se ganha vale a pena. Provavelmente você irá bem em Hollywood. Lá aqueles cavalheiros entendem o valor da beleza. - Beaumont frisou a palavra "cavalheiros" com ironia e um certo desprezo. - Estive lá fazendo uns dois filmes. Um dos produtores me achou bonito demais e o outro me julgou excessivamente feio. É claro que ninguém se importou com o fato de eu saber representar ou não, com exceção de um dos produtores. Ele, porém, estava na pior, com três fracassos sucessivos e um casamento que naufragava. Mal posso lhe dizer o quanto fiquei contente em voltar para o palco. - Gostaria muito de vê-lo interpretar. - Minha cara, não estou fazendo outra coisa, desde que entrei no seu camarim. Queenie sorriu. Ele não mentia. Richard Beaumont era apenas um dos papéis que ele representava. Como seria aquele homem que se escondia por detrás de uma aparência mais do que estudada? Será que ele se revelava? Qualquer que fosse a verdade, gostava dele. Era a primeira pessoa que lhe falava de profissional para profissional. - Você virá me ver novamente? - perguntou. - Com prazer, se você providenciar uma garrafa de gim. E diga a Lucien para levá-la por aí e exibi-la. Ele não tem o direito de guardá-la para si o tempo todo. Além do mais, o melhor modo de abrir caminho é ser vista nos lugares certos. - Achei que este aqui fosse o lugar certo. - Concordo que é um deles. Lucien ainda está tentando trabalhar em cinema? - Ele sempre toca no assunto. - Talvez chegue lá antes do que imagina, agora que a encontrou. Seu rosto vai levá-la muito longe, Queenie, mais longe do que você pode imaginar. Não estou afirmando que você po derá tornar-se uma Duse ou uma Bernhardt, pois é uma questão de gênio e de treino, mas poderá vir a ser uma boa atriz de cinema. Dê o grande salto logo, minha cara, antes que o público comece a se aborrecer com o que você vem fazendo. - Você costuma dar bons conselhos a desconhecidos? 232 - Não, estou reservando essa atitude para a velhice, para o dia em que for reconhecido, venerado e solicitado por jovens atores e atrizes à procura de minhas sábias palavras. - Beau mont encarquilhou-se e transformou-se, sem esforço aparente, em um velho vaidoso e pedante, afetando uma expressão ao mesmo tempo senil e pomposa. - Presumo que direi a eles as mesmas bobagens que me ensinaram. Vou fazer uma confissão: julgava que seu número não passaria de mais um acúmulo de truques feitos para excitar a platéia, de algo apenas digestivo, feito para os ricos, mas, para minha surpresa, fiquei muito interessado. "Esta garota tem presença; é boa demais para este bando de homens pernósticos, com suas lamentáveis esposas e namoradas" foi o que pensei. Eu a julguei mal e o mesmo acontecom Cynthia. - E o que ela pensa de mim? - Que você é uma piranha que rouba os homens das, oumulheres. Desconfio que não é verdade. Há muito tempo que Lucien vem procurando sua musa inspiradora. Beaumont enfiou a mão no bolso e tirou um Contemplou-o com certo enlevo durante alguns instantes, como se fosse algo mais do que um objeto caro. Quem sabe era um talismã ou algo que recordava uma relação pessoal... Queenie percebeu que vira o isqueiro, nas mãos de Vale, quando lhe foi apresentada, e de repente reconheceu a voz. Era Beaumont que estava escondido na sala dos fundos do escritório. - Você costuma vir sempre aqui? - perguntou, cheia de curiosidade. Beaumont acendeu o isqueiro. Consultou em seguida o relógio, e Queenie desconfiou que era ainda mais caro do que o isqueiro. A pulseira era uma verdadeira obra de arte. Beau mont agora parecia inquieto. Puxou a manga, escondendo o relógio, e levantou-se. - Não, venho aparecia. Queenie o olhou fixamente. não conseguia mentir muito bem. ceu tras raramente. isqueiro. Há muito tempo que não Por melhor ator que ele fosse, Embora Vale quase nunca fosse visível, costumava aparecer ocasionalmente, em silêncio, sem o menor aviso. Se notasse algo que lhe desagradasse, não dizia nada. Sem pestanejar, registrava o erro. A julgar pelo verdadeiro terror que se apossava de seus empregados, o castigo viria mais tarde; provavelmente muito tempo depois de o culpado ter-se esquecido de seu erro. Vale surgiu na noite que se seguiu à da visita de Beau 233 mont, anunciando sua presença por meio de uma fungada. Usava a roupa de sempre: smoking e sapatos de verniz. - A casa está quase cheia. Bom público, não? - comentou. E - claro que não é isso que traz dinheiro. - E o que é, então? - O jogo, lá em cima. O importante é saber como levar essa gente ao ponto exato. Algumas garrafas de champanhe, um pouco de caviar, um bom show e, antes que percebam, estão em ponto de bala para tentar a sorte na roleta. - Quer dizer então que minha tarefa é anima-los? - Exatamente. Você ajuda a criar para eles um clima de prazeres proibidos... Os ingleses, em geral, não se divertem muito com as coisas, a menos que sejam ilegais. Vale consultou o relógio. Era um pequeno disco de ouro, e a pulseira, feita de pequeninas escamas douradas, assemelhava-se à pele de uma cobra. Queenie notou que era exatamente igual ao de Beaumont. - Que lindo relógio! - comentou. Vale olhou-o como se o visse pela primeira vez. Sorriu de leve, indicando que se sentia lisonjeado com a observação. - É fora do comum, não acha? Foi feito de encomenda para mim na joalheria Cartier, de Paris. O velho ourives que o criou já morreu. É peça única. Ele não fez outra igual. Queenie quase disse que tinha visto outro idêntico na véspera, mas refletiu melhor e calou-se. Qualquer que fosse o relacionamento entre aqueles dois homens, Vale, pelo visto, estava decidido a fazer segredo em torno do assunto. Não era preciso muita imaginação para perceber que ele não se sentiria nada bem, se soubesse que ela estava por dentro. - Precisamos reformular seu número e providenciar um figurino novo, antes que as pessoas se cansem - observou Vale. Ele estava repetindo Beaumont, constatou Queenie. Com certeza este último estava indo encontrar-se com Vale quando parou em seu camarim. Acaso estaria mesmo à procura do toalete ou tudo não passara de uma mentira? - Conversarei com Lucien - prosseguiu Vale. - Talvez ele tenha algumas idéias. Onde é que ele está? - Trabalhando. Virá mais tarde. - Sabe que você conseguiu modifica-lo? Antigamente freqüentava todas as festas da cidade e agora trabalha de verdade. - Cynthia não o deixava trabalhar? - Ela gostava de exibi-lo, sobretudo para aborrecer o pai dela. - Eu não me incomodo nem um pouco de ser exibida. - Acho que não existe nada mais cansativo do que um 234 ninho de amor, após a primeira semana. Lucien é um artista a seu próprio modo, e é preciso compreendê-lo. Quando se entrega ao trabalho, nada nem ninguém consegue distraí-lo. Além do mais, ele está apaixonado por seu modelo... - A expressão de Vale sugeriu que ele considerava a paixão como algo ligeiramente vulgar. - Provavelmente ele quer que você seja só dele. Não permita. Diga-lhe que a leve para sair um pouco. A princesa Tanya Ouspenskaya dará uma festa no domingo. Estou certo de que Lucien foi convidado e, mesmo que não tenha sido, deve ir de qualquer maneira. - Ele não tocou no assunto, ficar em casa. - Você ainda tem muito o que aprender. Os homens só sabem o que querem quando as mulheres lhes dizem! - Quem é a princesa Tanya Ouspenskaya? - A grande dama do mundo artístico. É uma criatura perfeita para a sua estréia na sociedade. É muito amiga do pai de Cynthia. Por mais estranho que pareça, ele gosta muito de teatro. Talvez seja por isso que Cynthia decidiu tornar-se atriz... - Ela tem talento? Queenie estava admirada, pois todo mundo parecia relacionar-se, no mundo em que Vale e Lucien circulavam. Ocorreu-lhe que a sociedade londrina era um ambiente peque no, fechado, e que teria de freqüenta-la, a menos que decidisse passar o resto da vida no apartamento de Lucien. - Cynthia? Não é má - concedeu Vale, pensativo, chupando drops de menta. - É basicamente uma amadora talentosa, como tantas atrizes inglesas. A Real Academia de Arte Dramática tornou-se uma espécie de estabelecimento de boas maneiras, cheia de garotas ricas que não sabem o que fazer de suas vidas. De vez em quando ela produz um verdadeiro ator, como Dickie Beaumont, mas receio que a pobre Cynthia não passe de um produto típico. É claro que sua aparência ajuda. Não que seja linda, como você, mas tem um rostinho bonito. Ela tem uma irmã maravilhosa, mas casou-se com um ricaço na índia. Como é mesmo o nome dela? - Vale fechou os olhos por um momento. - Ah, já sei. Penelope. Penelope Daventry. Não a conheceu? Queenie começou a suar frio. Chegou a imaginar que Vale a provocava, mas o rosto dele não revelava a menor emoção. - Você não está com boa aparência - ele comentou. - Tome cuidado para não se resfriar. De nada me serve tê-la doente. - Vale afastou ligeiramente a cortina do palco e deu uma espiada. - Está na hora de você hipnotizar essa cambada de ricos preguiçosos... mas aposto que vai querer 235 Pela primeira vez, desde que estreara no Café de Paris, Queenie fez seu número sem olhar para a platéia, como se receasse que a sra. Daventry surgisse a qualquer momento para acusá-la de ser uma impostora, uma ladra. Somente no final é que ela começou a recuperar o autodomínio. Foi até a beirada do palco e olhou para as mesas mais próximas. No centro da sala, Richard Beaumont e Dominick Vale sentavam-se ao lado de Cynthia Daintry. A mão desta estava pousada sobre a de Beaumont e, mesmo do palco, Queenie percebia o brilho dos diamantes em seus dedos e no punho. Cynthia olhava para o palco, mas Beaumont e Vale se encaravam, e ocorreu a Queenie que era um olhar de cumplicidade, tão rápido que a companheira deles não notou. Então Beaumont inclinou-se e cochichou qualquer coisa para Cynthia. O mundo era bem mais complicado do que ela imaginava, refletiu Queenie. - Sair? - perguntou Lucien, enxugando a mão numa toalha. - Claro que podemos sair. A única dificuldade é que eu imaginava fazer algumas fotos suas para a edição francesa da Vogue... - Pois eu prefiro sair. Queenie sorriu para Lucien, mas exprimia-se com firmeza. Levantou um pouquinho a barra do vestido e cruzou as pernas. Nunca lhe ocorrera usar o sexo para conseguir o que queria de Lucien. Sexo, entre eles, era algo de muito espontâneo, mas ela queria deixar bem claro que seus desejos precisavam ser levados em conta. Para sua grande surpresa, Lucien cedeu imediatamente. Queenie tomou nota do fato, tendo em vista futuras reações... - Você tem algo em mente? - perguntou Lucien. - Ouvi dizer que Tanya Ouspenskaya está dando uma festa no domingo. - Meu Deus! Vai ser uma loucura. A casa estará repleta de gente, aliás, as mesmas caras de sempre. - Para mim será novidade. - É, acho que você tem razão. - Agora que capitulara, Lucien mostrava-se um pouco amuado. Queenie deu-lhe um beijinho e o contato físico pareceu animã-lo. - É a oportunidade ideal para você usar o seu Molyneux. - O convite pede trajes informais. - Ah, quer dizer que você andou espiando minha correspondência... Bem, por que não? Deixe-me tranqüilizã-la. Tanya 236 não espera que suas convidadas compareçam usando uma tiara na cabeça. - Quem é ela? - perguntou Queenie, rindo. - Foi uma linda mulher... Hoje está velha, mas é imensamente rica e chique. Conhece todo mundo. Nasceu princesa, mas o marido dela era comerciante de peles na Rússia, antes da revolução, embora também negociasse com petróleo, bancos e só Deus sabe o que mais... Foi estraçalhado pela hélice de uma lancha em Carmes, quando nadava. Mais tarde Tanya tornouse amante de Lorde Fleet, o magnata da imprensa. Fleet dispunha-se a casar com ela, mas enlouqueceu. Terminou a vida em uma camisa-de-força, num quarto de sua mansão, com a ilusão de que era Maria Antonieta à espera de ser guilhotinada.' Coitado... Enquanto ainda tinha condições de assinar papéis, deixou uma fortuna para Tanya. - Você sabe tantas coisas sobre as pessoas, querido! - Queenie tinha plena consciência de que o lisonjeava, mas era verdade. Lucien era uma verdadeira mina de fofocas. Como fo tógrafo de belas mulheres, ou de mulheres que desejavam parecer belas, tinha entrada nos mais variados círculos. - Conheço muita gente, é verdade - ele disse, como se aquilo fosse uma cruz que tivesse de ser carregada. - É essa minha dificuldade com Londres. Trata-se de uma cidade grande, mas tem um mundinho pequeno. Sob mais de um aspecto eu vivia melhor em Paris. Lucien fazia aquele comentário com freqüência e ela acabou entendendo que Paris representava para ele uma idéia e não um lugar. Ele vivia falando em alugar um pequeno estúdio na margem esquerda do rio Sena e dedicar-se à fotografia "séria", isto é, fotografar algo mais do que mulheres bonitas. Ao mesmo tempo, gostava de participar da alta sociedade londrina e não estava disposto a desistir de seus encantos e do dinheiro que ganhava com facilidade. Queenie desejava tanto esse tipo de sucesso que lhe era difícil entender como Lucien tinha a coragem de falar em abandonar Londres para viver em uma fria mansarda. Não alimentava a menor ilusão romântica a respeito da pobreza. - Richard Beaumont estará na festa? - Beaumont? Talvez. Tanya gosta de reunir pessoas talentosas. Você o conheceu? - De vez em quando ele vai ao Café de Paris. - É mesmo? Nunca imaginei que ele gostasse desse tipo de lugar. Deve ser influência de Cynthia. - Ele é amigo de Vale? 237 - Não muito. Vale é espalhafatoso demais para Beaumont. Ele é um gênio no palco, mas, fora dele, mostra-se um tanto oportunista, além de ser pedante. Quer ganhar um título de nobreza e por isso não se torna amigo de um homem como Vale. Por isso mesmo Cynthia é perfeita para ele. Afinal de contas, é filha de um nobre. - Ela, pelo visto, agiu com rapidez... - Queenie ficou surpreendida, pois, pela primeira vez, sabia de algo que Lucien desconhecia. - Cynthia tem faro e percebe quando uma estrela está despontando no céu. - Lucien exprimia-se com certa amargura. Queenie adivinhou que ele se sentia um pouco decepcionado por ter sido substituído com tamanha rapidez nas afeições de Cynthia. Será que se arrependia por ter dado o fora na filha de um nobre? Esticou as pernas, com a plena certeza de que elas eram muito melhores do que as de Cynthia... Ela era a mais bela mulher da festa. É bem verdade que se sentia deslocada entre aquela gente brilhante, que se conhecia e conhecia todo mundo; além do mais, padecia de uma li geira sensação de enjôo, que parecia tomar conta dela com freqüência cada vez maior nos últimos dias. Seu vestido de Molyneux, que lhe parecera tão elegante na butique, era superado pelos trajes de pelo menos meia dúzia de mulheres, que usavam os últimos lançamentos de Paris. Não levava jóias, em um ambiente repleto de mulheres cujos punhos e pescoços faiscavam. Nada disso tinha importância, pois, quando ela entrou, fez-se o mais completo silêncio durante alguns momentos. Então o barulho voltou, mais alto e ensurdecedor, como se os demais convidados tentassem fingir que não a tinham encarado. Lucien passou com ela por entre os convidados e com tamanha rapidez que Queenie mal notou seus rostos. Nunca vira tanta gente se beijando, embora ninguém, é claro, a beijasse, e nem ouvira a palavra "querido" ou "querida" usada com tanta freqüência. Tímida e pouco à vontade, ficou em silêncio ao lado de Lucien, enquanto ele a apresentava a tanta gente que seus nomes se embaralhavam. Seu silêncio, sem que isso fosse uma atitude intencional, provocou sensação. Com seus longos cabelos negros, os olhos escuros e uma beleza perfeita, Queenie parecia ao mesmo tem po misteriosa e altiva a todo mundo, com exceção de Tanya Ouspenskaya, que logo identificou o que ela sentia: nada mais, nada menos do que pavor... 238 Imensamente gorda, de cabelos brancos, com um rosto que ainda exibia traços da antiga beleza, trajando um amplo vestido de seda negra, suficientemente grande para dele se fazer uma tenda, Tanya pegou Queenie pela mão e levou-a para sentar-se em um sofá, longe da multidão de convidados. Afundou-se nele com um suspiro de alívio, achatando as almofadas devido a seu peso, e convidou Queenie a fazer o mesmo. Acendeu um cigarro, prendeu um pince-nez no nariz e examinou Queenie de perto. Os olhos, ampliados pelas lentes, eram assustadoramente perspicazes. - Você é ainda mais bonita do que disseram. Está apaixonada por Lucien? - Bem... - Não, não, não adianta negar. E não diga que não é de minha conta. Na minha idade, a vida dos outros é bem mais interessante do que a minha. Lucien é um rapaz muito querido e muito talentoso. Nada mais natural que você esteja apaixonada por ele, mas, com um rosto como o seu, pode escolher os homens à vontade. Pelo amor de Deus, não case com ele. Siga meu conselho: case-se por dinheiro. Claro que Lucien não é o tipo do homem casadouro. O pai dele certa vez pintou meu retrato. Ele também não era nada casadouro, se bem me lembro... Ah, aí está alguém a quem você deve conhecer. Tanya acenou com um gesto imperioso, e camadas de seda negra flutuaram como bandeiras pendentes de seu braço gorducho. Um rapaz baixo, de cabelos negros, veio a seu encontro. -já conhece a srta... humm Rani? - perguntou a princesa. Queenie ainda não superara a dificuldade de ser apresentada em público por seu nome artístico. Detestava parecer uma estrangeira e decidiu que, de agora em diante, passaria a ser conhecida, fora do palco, como Queenie Kelley. O rapaz olhou-a por cima dos óculos de aros dourados. - Não posso dizer que conheço. Seu sotaque era diferente, e ele se exprimia em voz baixa. Queenie teve dificuldade em entendê-lo. Imaginou que fosse americano, o primeiro a quem conhecia. Esperava que os ameri canos fossem mais altos e sentiu-se ligeiramente decepcionada. A pele dele tinha a cor do mogno envelhecido, os cabelos eram negros e reluzentes. Em cada dedo anular usava um grande anel de ouro, e, no punho direito, uma pulseira do mesmo metal. No punho esquerdo trazia um relógio dourado. Brilhava como uma vitrine de joalheiro. Embora atarracado, dava uma impressão de enorme força e poder. Não se tratava meramente de físico, mas o poder de um homem acostumado a conseguir o que queria. 239 - Quero apresentar-lhe Myron Cantor - disse a princesa Ouspenskaya. - E agente artístico americano. Rani dança no Café de Paris. - É mesmo? Não a vi, Rani, mas não me esquecerei. Cheguei ontem, a bordo do Mauiitânia, e meu maldito estômago ainda me dá a sensação de que estou no mar. Que viagem! Vim com Barney Balaban. Ele ainda estava destripando o mico quando chegamos ao hotel Claridge. Cantor fez uma pausa, talvez para respirar, pois se exprimia com enorme rapidez, como se quisesse dizer tudo o que era possível antes de ser interrompido. - Sabe que você é bonita pra burro, Rani? Se seu número for bom, posso arranjar um contrato para você em qualquer lugar de Nova York. - Cantor examinou-a mais detidamente e então sorriu, exibindo os dentes mais perfeitos que Queenie já vira em um homem. - Para dizer a verdade, eu arranjo um contrato mesmo que seu número seja uma bomba! Quanto é que eles estão lhe pagando? Queenie hesitou. Fora educada para não falar sobre dinheiro e relutava em discutir o assunto com um estranho, ainda mais na presença da princesa. - Vamos, não fique encabulada só por causa de dinheiro! É o problema com todo mundo aqui. Acham que dinheiro é uma palavra feia. Pois dinheiro é a palavra mais limpa que eu conheço. Que tal lhe parece cinqüenta mil dólares por ano? Queenie encarou-o, sem entender muito bem, e a princesa apressou-se em dar uma explicação. - São dez mil libras por olhos, em pleno êxtase. - Parece muito dinheiro, interessada. - Posso consegui-los com facilidade, querida. Vou dar um pulo ao Café de Paris e espiar seu número. Levarei Barney, se ele parar de pôr a comida para fora. - Quem é Barney? - Quem é Barney? Apenas um produtor. de cinema! O filho da puta está aqui procurando talentos. É claro que ele não tem a menor capacidade de reconhecer o talento de al guém, mas, quando vê uma criatura como você, entende logo... - Cantor acendeu um cigarro e contemplou Queenie por entre a fumaça. - Você tem jeito de ser bem esperta e, portanto, vamos direto ao assunto. já ouviu falar de David Konig, o produtor de cinema? Queenie fez que sim. ano - ela disse, cerrando os sr. Cantor - disse Queenie, 240 - Está procurando uma atriz. Tenho um palpite que ele pode se interessar por você. Encontre-se comigo amanhã no hotel Claridge, às quatro. Lá a gente conversa melhor. Só nós dois, ouviu, meu bem? Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Lucien surgiu. Ao ver Queenie entretida, conversando animadamente com Myron Cantor, amarrou a cara. - Olá, Myron - disse, sem a menor cordialidade. Os dois se apertaram as mãos. Cantor batia quase pelo ombro de Lucien, mas adotou uma pose napoleônica, para compensar a diferença de altura, e deu um aperto de mão no recémchegado que quase o fez gemer de dor. - Vocês dois foram apresentados? - perguntou Lucien. - Estávamos conversando - disse Cantor, enfiando as mãos bolsos, um pouco tenso. - Ela é amiga sua? - Pode-se dizer que sim. Myron Cantor sorriu e piscou para Lucien, indicando que não era o tipo de homem que roubava a namorada de alguém. - Telefone para o Claridge, Lucien - ele disse com muito jeito, reconhecendo a ligação que havia entre ele e Queenie. - Quem sabe a gente conversa de negócios... Por falar nisso, vi seu amigo Konig em Los Angeles. - É mesmo? - Lucien não disfarçava sua tensão. - Está procurando talentos, embora tenha ficado na pior depois dos dois últimos filmes que fez. - Cantor deu uma piscada para Queenie e dirigiu-se a Lucien. - Você está com uma garota e tanto. Não a deixe escapar! Rani, não se esqueça de nossa conversa. Estarei esperando-a. - Cantor inclinou-se ligeiramente diante da princesa e misturou-se aos convidados. - Pelo jeito você não gosta dele - observou Queenie. - Faz tempo que o conhece? - Nós nos vimos rapidamente em Paris, há alguns anos. Estava empresariando alguns músicos negros de jazz. Ele é um reles comerciante, que vive de explorar o talento dos outros. - Achei-o bem interessante. Ele disse que eu tenho condições de ganhar cinqüenta mil dólares nos Estados Unidos. Será que é verdade? - Se você roubar-lhe até o no Claridge? - Sim. - Se você por isso, aliás. - Quanto É um rapaz tão nos ganhasse mesmo, Cantor se encarregaria de último níquel. Ele pediu para você encontrá-lo for, ele vair dar em cima. É muito conhecido a mim, gosto dele - declarou a princesa. - cheio de vitalidade! Ele me lembra meu faleci 241 do esposo... - A princesa levantou-se, no que teve de ser ajudada por Lucien. - Bem, preciso circular - disse, dando o braço a Queenie. - E você também, chérzé. É a primeira regra da alta sociedade. As mulheres belas não podem ficar sentadas, fazendo fofocas com uma velha como eu. Não é justo para com os homens. Se algum dia sentir necessidade de conversar com uma amiga, procure-me. Sans cérémonié - acrescentou, não se importando em saber se Queenie falava francês. - Sem dúvida - disse Queenie, beijando a princesa. - Sobretudo se você tiver algum problema - disse a princesa, subitamente muito séria. - Que problema? - indagou Lucien. - Ela tem a mim. A princesa deu uma pancadinha com o pince-nez no braço dele e estendeu sua mão para ser beijada, com a coqueteria de uma mulher que tinha sido uma das grandes beldades da corte imperial. - Os homens são todos iguais. lher, acham que ela se satisfaz apenas Lucien riu e beijou a mão da princesa, nez para Queenie. - Se tiver alguma dificuldade com este moço, venha me procurar. Quanto ao amor, quando tiver minha idade perceberá que só traz aborrecimentos. As noites sem dormir, os dramas, as mentiras... é tanto problema! Mas que a gente sente falta dele, ah!, isto a gente sente mesmo... - Ela caminhou em direção aos demais convidados, voltou-se e olhou para Lucien. - Tome cuidado. Não mantenha esta menina trancada numa gaiola. Os passarinhos fogem assim que alguém abre a porta. Quando amam uma mucom isso. que apontou o pince Bem cedo, na manhã seguinte, enquanto Queenie ainda dormia, Lucien foi ao correio mais próximo do apartamento, e enviou um telegrama com os seguintes dizeres: DAVID KONIG, ME TRO, CULVER CITY, CALIFORNIA, USA. VIU AS FOTOS QUE ENVIEI? BALABAN EM LONDRES COM CANTOR. PODEM CONTRATÁ.LA. VENHA IMEDIATAMENTE. CHAMBRUN. Lucien hesitou por alguns momentos. Será que o telegrama não era muito incisivo? Konig não era o tipo de homem que gostasse de ser pressionado ou apressado, mas, quando tomava uma decisão, quase. sempre acertava. Ele viria, certamente, e, quando isso acontecesse, faria de Queenie uma estrela. Lucien a dirigiria, ambos se tornariam ricos e famosos. Quanto a isso, não tinha a menor dúvida. Claro que ela era jovem demais e, de vez em quando, isso 242 o preocupava. Queenie era impressionável e uma presa fácil para homens como Cantor. Devia tomar muitas precauções e manter gente daquela espécie afastada dela, daí por diante... Queenie não admitia que alguém lhe dissesse o que deveria fazer, mesmo que fosse Lucien, mas era suficientemente sensata para saber quando era necessário desistir. O fato de Cantor tentar seduzi-Ia, na suíte do hotel, era bastante provável, mas, caso acontecesse, saberia como lidar com ele. Além do mais, sentia curiosidade em saber um pouco mais a respeito daquele mundo mágico de que ele fazia parte, se é que dava para acreditar no que ele dizia. Sentiu-se culpada ao pensar que ele ficara trancado a tarde toda no hotel, esperando por ela, mas não tinha o menor sentido provocar Lucien. De qualquer modo, tinha outro problema, este sim, bem mais sério. Não poderia discuti-lo com Lucien e nem saberia como tocar no assunto. Precisava de uma pessoa amiga e reuniu toda sua coragem, a fim de ir visitar a princesa Ouspenskaya. Experi mentou um ligeiro sentimento de culpa por não comunicar a Lucien aonde ia. O palacete de Eaton Place assemelhava-se mais a uma embaixada do que a uma residência particular e, ao ser recebida pelo importante mordomo, Queenie prestou atenção na decora ção. A pequena sala de visitas para onde o mordomo a levou era mobiliada com uma quantidade tão grande de cadeiras, sofás, mesinhas, escrivaninhas e banquetas que se tornava quase impossível andar em linha reta. As paredes, no entanto, chamaram-lhe a atenção. Eram cobertas com as mais surpreendentes e extravagantes pinturas modernas. A maior parte das telas não tinha moldura. O contraste entre o mobiliário e os quadros era tão surpreendente que Queenie parou para contemplá-los, admirada, o que levou o imperturbável mordomo a dar uma esbarrada nela. - Você está admirando meus quadros, menina - disse a princesa. Ela estava deitada em um sofá, meio coberta por um enorme pulôver de lã que, pelo visto, ainda tricotava, pois tinha as agulhas em suas mãos cobertas de jóias. Usava dois pares de óculos, um em cima do outro. - Seus quadros me pegaram de surpresa. - Ótimo! É esta minha intenção. - Chá, senhora? - perguntou o mordomo. - Mas é claro! O que você acha? Sente-se perto de mim, querida. Qual dos quadros você prefere? - Acho que não gosto de nenhum. 243 - Muito bem! A maior parte das pessoas sente-se na obrigação de dizer algo delicado, o que é uma perfeita tolice. Quadros como estes não foram pintados com a intenção, de minha parte, de serem apreciados. Antes de mais nada, devem chocar. As pessoas sempre esperam que um quadro seja bonito, sobretudo aqui na Inglaterra. Acontece, porém, que a arte não é uma coisa agradável, que encha os olhos. - Seus quadros não combinam muito com a mobília. - Não tem importância. O fato é que meu falecido esposo colecionava móveis antigos e eu, pintura moderna. Ele gostava de passar o tempo em antiquários e leilões e eu, visitando artistas. O segredo de um casamento bem-sucedido está em ter interesses diversos, além de muito dinheiro, é claro. Qual é seu problema, querida? Antes que Queenie pudesse responder, o mordomo entrou com uma bandeja de prata, tossiu discretamente e retirou-se. A princesa serviu o chá a Queenie e encheu a própria xícara com o conteúdo de outro bule. Queenie notou que o "chá" da princesa não tinha cor e cheirava fortemente a gim... - Por que a senhora acha que estou com um problema? - Você é jovem, bela e um rapaz bonito a ama. Por que então haveria de visitar uma velha como eu, em plena tarde? Acaso Lucien já perdeu o interesse por você? Queenie manteve-se em silêncio durante alguns momentos, sentada como uma escolar bem comportada, com os joelhos se tocando e as mãos no colo. - Acho que estou grávida - disse, finalmente. - Bem, isto é, de fato, um problema - declarou a princesa com convicção. - Creio que Lucien não vai gostar. Não me parece que ele cultive instintos paternos... - Talvez o filho não seja dele. - Isso só dificulta o problema. É bem verdade que os homens nem sempre podem ter certeza se são os pais de seus filhos... A mulher diz: "Olhe, ele tem sua boca!", e os coitados acreditam ou, pelo menos, fingem acreditar... Nenhum dos filhos do casal Glazunov se parecem uns com os outros ou com o pobre do pai... Queenie sabia que isso era verdade no caso da família Glazunov, a quem, aliás, não conhecia. Seu caso, porém, era mais complicado. Se a criança fosse de Morgan, e as datas lhe davam quase certeza, sempre haveria a possibilidade de a criança nascer bem morena. Era a maldição de vida anglo-indiana. Dois angloindianos de pele bem clara podiam perfeitamente ter um filho de pele escura. Acontecia com freqüência, em famílias grandes, de algumas crianças terem a pele tão clara que poderiam passar 244 por ingleses, e outras eram tão escuras quanto os nativos ainda mais. Se o filho fosse realmente de Morgan, Lucien mente se revoltaria. - Não quero esta criança. - No fundo, poucas mulheres a leva a achar que posso ajudá-la? - Não conheço mais ninguém. Uma das garotas do Café de Paris disse-me para tomar uma garrafa de gim e ficar deitada numa banheira cheia de água quente, mas acabei vomitando tudo. Lucien recomendou-me consultar o dr. Drymond, mas eu receava estar grávida e não queria que ele ficasse sabendo. - Esqueça Drymond. Eu o conheço. É um bom médico, mas não se trata do homem mais indicado. Quantas regras você deixou de ter? - Duas. - Duas? Você adiou demais o problema! - Achei que, da primeira vez, podia ser apenas uma questão de nervosismo. Da segunda vez percebi que não podia me iludir mais. - Verei o que posso fazer... - Sinto-me tão tola! - Que perda de tempo! Pode ir. Descobrirei uma confiá~el. Beije-me no rosto, se quiser. - A senhora é tão boa! - De modo algum. Gosto de me ocupar com a vida alheia, meu bem. É tão mais intéressante do que fazer tricô... Darei notícias amanhã ou depois. querem ou certa ser mães. O que pessoa - Telefone, srta. Rani. O criado, um anão todo encarquilhado, vestido de libré, uma vez que Vale tinha uma queda pelo grotesco, apontou para o aparelho, em cima de uma mesinha, e não tirou o olho de Queenie. Esta, irritada, despediu-o com um gesto e bateu com a porta em sua cara. Não queria que os empregados de Vale ficassem a par do que a princesa Ouspenskaya tinha a lhe dizer, sobretudo o anão. Desconfiava que ele a espiava pelo buraco da fechadura do camarim e o entupira com algodão. - Princesa? - disse ela. Mas a voz que respondeu era tão familiar e inesperada que ela quase deixou cair o telefone. - Alô? - disse Morgan. - Alô, Queenie? Preciso de sua ajuda. Queenie quase entrou em pânico, no labirinto de ruas em torno do Mercado de Shepherd. Morgan lhe dera instruções apres 245 sadas e incoerentes. Parecia bêbedo, mas, mesmo que fosse mais preciso, Queenie ficara perturbada demais para prestar muita atenção. Olhou os números das casas muito mal conservadas, que pareciam ter entrado em decadência desde o século XVIII. Os anos tinham enegrecido os tijolos, dando-lhes uma aparência desagradável, e as casas estavam tortas e fora de alinhamento, apoiando-se umas nas outras para não caírem. A iluminação era deficiente e os postes refletiam uma débil luz amarelada. As entradas e pórticos eram tão escuros que só se conseguia ler os números acendendo um fósforo. Os becos fétidos pareciam entradas de grutas, e as poucas figuras sombrias que os percorriam caminhavam rente às paredes. Queenie, depois de muito procurar, acabou localizando o nome de Mavis, na encardida lista de moradores fixada na entrada da casa cujo número Morgan lhe dera. Abriu a porta e subiu a escadaria estreita. Um homem surgiu do escuro, parou, enquanto Queenie passava por ele, cobriu o rosto com o chapéu e sorriu com malícia. - Preferia ter encontrado você antes de gastar meu dinheiro, benzinho... - disse, com atrevimento. Queenie chegou ao quarto andar. Girou a maçaneta da porta, que estava aberta. O quarto era tão pequeno que a cama ocupava quase todo o espaço. Uma cortina feita de lençóis velhos isolava uma parte dele. A lareira era grande demais. Sem dúvida um dos proprie tários da casa, no passado, dividira uma sala para fazer dela dois quartos e não modificara a lareira. Agora ela continha umcamente um bico de gás no qual se via uma tênue luz azulada. Não havia nada nas paredes, a não ser um calendário com a foto de uma loira de pernas muito compridas enfiando as meias. - Morgan... - murmurou Queenie. A cortina se mexeu e Morgan surgiu leando ligeiramente. - Olá, Queenie... Eu agi como um Em seguida ele começou a chorar. diante dela, camba idiota. Queenie também sentiu vontade de chorar, mas dominouse. Morgan, que sempre conseguira manter um certo garbo, mesmo quando as coisas não iam nada bem, agora parecia um men digo. O bigode estava crescido e mal cuidado, tinha os olhos injetados, precisava barbear-se e, pelo visto, dormira de roupa, 246 que estava amarrotada, manchada e rasgada. A camisa não tinha mais colarinho, não se viam mais as abotoaduras, e os cordões dos sapatos estavam pela metade. Ele ficou parado naquele quartinho sórdido, ao lado da cama suja e desfeita. Suas mãos tremiam e as lágrimas corriam por seu rosto magro. - Você não tem aí um shilling para enfiar no aparelho de gás? Estou com muito frio. Ela enfiou a moeda no aparelho, que desprendeu um cheiro nauseabundo. A intensidade do gás aumentou, mas a temperatura do quarto quase não se alterou. - O que aconteceu, Morgan? Ele vasculhou os bolsos, tirou um cigarro e o acendeu. Morgari deu uma tragada ávida e fechou os olhos, como se esperasse aquecer-se interiormente. - Mavis deu o fora, com todo o meu dinheiro. Não deixou sequer um shilling para o gás! - Quando você comeu pela última vez? - Hoje comi uma lata de sardinha. Ontem... não me lembro. Morgan foi até o criado-mudo e pegou uma garrafa de gim, examinando-a detidamente. Havia. apenas um dedo de bebida, que ele entornou numa caneca suja, voltando-se para Queenie. Movia-se como um velho, mas o gim deu-lhe um pouco de vivacidade. - Quer dizer que você está trabalhando no Café de Paris... Parabéns. Que gozado. Sonhei a vida inteira em tocar no Café de Paris. Agora você está lá e eu aqui... no fundo do poço, Queenie. - Morgan começava a criar um clima de sentimentalismo barato. - Eu lhe emprestarei dinheiro, Morgan. Ao ouvir falar de dinheiro, ele se enfureceu, tomando-a de surpresa. Queenie já tinha esquecido o que significava lidar com um homem bêbedo. - Emprestar? Você devia era me dar dinheiro, garota! Sem mim, ainda estaria apodrecendo em Calcutá. Enfie seu precioso dinheiro naquele lugar! - Pois então lhe darei o a Índia. - Ora, corta essa! cai no navio. A polícia prontas. - Goldner não dará queixa, Morgan. - Foi ele quem disse? Pois saiba que ele procurou a polícia. - Ele me prometeu que não faria nada. Eu lhe pedi. - Se não foi ele, foi outra pessoa. Londres inteira sabe dinheiro. Você poderá voltar para Eu não teria nem condições de embarestaria à minha espera com as algemas 247 que os tiras estão atrás de mim. Foi por isso que Mavis puxou o carro. Uma coisa eu digo: não vou em cana de jeito nenhum. - Deixe comigo, que eu dou um jeito. - Muito obrigado. Não preciso que você dê um jeito em nada. Junte umas duzentas libras, e a gente foge junto para a França. Não há muita vigilância nas barcas que atravessam o canal, e um casal não chamará a atenção. - Que ridículo, Morgan! Não vou, de modo algum. Por que deveria ir? Você comprometeu todo o meu futuro, sem me avisar. Morgan fechou os olhos. Sua raiva se dissipou, como se ele, de repente, não tivesse mais energia para mantê-la. - Agi por seu bem. Tinha medo de perdê-la. Para seu horror, Queenie percebeu que ele provavelmente dizia a verdade. Não queria enganá-la ou explorá-la, apenas manter um certo tipo de controle sobre sua vida. - Morgan, você nunca me teve... Ele pôs a caneca em cima do criado-mudo, com um gesto brutal, e sua raiva voltou, com intensidade redobrada. - Você é minha, Queenie! Sempre foi! Ela fez menção de ir embora, mas ele a agarrou. - Você me deve muita coisa. Consiga o dinheiro o mais rápido possível! Iremos embora amanhã. Queenie desvencilhou-se, mas, por mais bêbedo que estivesse, Morgan agiu com surpreendente rapidez. Agarrou-a pela cintura e, com um gesto violento, afastou-a da porta. Ela per deu o equilíbrio e bateu com a bolsa na cabeça dele, mas não o atingiu. A bolsa se abriu e seu conteúdo espalhou-se pelo chão. Morgan empurrou-a para a cama, obrigando-a a deitar-se. - Ele é muito melhor de cama do que eu? - perguntou, arquejante. - Solte-me, Morgan! - Você nunca me deu a menor chance... Morgan rasgou seu vestido, e ela tentou dar uma joelhada em sua virilha. Ele, porém, mostrou-se ágil. Seu rosto estava irreconhecível. A fúria, a decepção, o fracasso davam a sua ex pressão um terrível vigor, aliás falso, e, pela primeira vez, Queenie sentiu que talvez corresse perigo. Ficou gelada, diante da perspectiva de ser surrada, violentada ou até mesmo assassinada naquela cama imunda, com o cheiro desagradável de Morgan em suas narinas. Não era apenas o me do que a paralisava, mas o horror de ser jogada de volta naquele mundo esquálido, miserável e mesquinho, feito de fracassos, e do qual conseguira escapar tão recentemente. Havia apenas uma maneira de detê-lo. 248 - Morgan, estou grávida! - gritou. Ele se mostrou surpreendido, mas nem assim a soltou. - Você está o quê...? - Vou ter um filho. Acho que é seu. - Nosso, você quer dizer. Uma razão a mais para fugirmos para a França. Você pode conseguir um emprego em Paris. Lá eu encontro o que fazer... Queenie aproveitou-se da pausa. Saiu de baixo de Morgan e correu em direção à porta. Perdeu o equilíbrio, horrorizada, pois Morgan voltava a agarrá-la. - Queenie, eu te amo! - ele gritou. Seu rosto exprimia paixão e ódio, como se ele já não conseguisse mais distinguir um sentimento do outro. Morgan começou a afrouxar o cinto. Desesperada, ela pulou de lado, pegou o ferro de atiçar fogo na lareira e bateu na cabëça de Morgan com toda a força. Ouviu-se um barulho como o de um fruto maduro que cai no chão. Foi um som ao mesmo tempo sólido e oco. Os olhos de Morgan reviraram, e apenas o branco ficou de fora. Um filete de sangue surgiu no canto de sua boca. Ele tentou engoli-lo, mas apenas deu um breve suspiro, como um homem acordado durante a madrugada, no meio de um sono profundo. Caiu pesadamente de joelhos e, em seguida, de lado. Seus dedos, sem fazer nenhum ruído, bateram freneticamente no chão, e os pés tremeram, num gesto espasmódico. Morgan emitiu um som como ela jamais ouvira. Era uma espécie de tosse, baixa, profunda, lenta, infinitamente triste, como se o último suspiro abandonasse seu corpo com relutância. Em seguida ficou imóvel. Vale contemplou o corpo com indisfarçada repulsa, como se Morgan, pelo fato de ter morrido, violasse todas as regras do bom gosto. - Você fez muito bem em me telefonar - declarou, com as mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo negro. Queenie estava perturbada demais para falar. Passara uma hora deitada no chão, cheia de medo e angústia. Precisava de ajuda, e o que mais receava era que Lucien a visse naquele esta do. Uma dor funda, como jamais experimentara, a levava a implorar socorro, mas mordeu os lábios, até eles sangrarem. A vergonha e o horror eram tão terríveis que quase superavam o pavor que a morte de Morgan lhe provocou. Sabia que Lucien nada poderia fazer por ela. Vale era a única pessoa a quem poderia recorrer. 249 Ele olhou em torno do quarto, como se a visão de Morgan morto não o interessasse mais. - De onde saiu todo este sangue? Por nhalou, além de bater na cabeça dele? - Acho que abortei... - Queenie estava toda encolhida num canto do quartinho, enrolada no casaco de Morgan. Vale enfiou uma pastilha de menta na boca e mastigou-a, pensativo. - Para alguém ainda tão jovem, você parece ter levado uma vida bem interessante... - Não tive a intenção de mata-lo. - Suas intenções não contam. O fato - E agora, o que faço? - Pare com essa choradeira. sabia que você vinha aqui? Me dá - Não. - Ótimo. A primeira dar sumiço em seu tio. - E a polícia? - Polícia? Você quer ser julgada por assassinato, Queenie? Ela sacudiu a cabeça, num gesto enérgico. Vale enfiou as mãos nos bolsos. De certo modo parecia estar se divertindo. - Meu chofer e eu podemos dar um jeito em Morgan - ele disse, tocando o corpo com a ponta de seu sapato envernizado. - Enquanto isso, seu amigo Goldner cuidará de você. Ele está a caminho. - Goldner vem aqui? - É um homem prático, querida. Uma coisa dessas não o deixará chocado. Ele a levará de volta ao apartamento de Lucien e inventará uma desculpa. Algo como: você não se sentiu bem no clube, e ele achou melhor leva-la ao médico... Quanto menos pessoas souberem do que aconteceu, melhor. Sobretudo Lucien. - Vale assoviou fora de tom durante alguns instantes. - Investi em você e devo me garantir. Não se esqueça, menina, que, um dia desses, você ainda valerá muito dinheiro. Além do mais, não quero manchetes nos jornais anunciando que minha principal dançarina matou o próprio tio em um apartamento de terceira categoria. E o tipo da história que espanta os fregueses e deixa a polícia assanhada. O que está feito, feito está. Seu tio simplesmente terá de desaparecer. - Como? - Quanto menos souber, melhor para você - disse Vale com um sorriso enigmático. Queeme intuiu que havia alguma verdade no que ele dizia. Certamente queria evitar um escândalo e aproveitaria quaisquer oportunidades para ampliar ainda mais o domínio que ti e coisa a fazer é limpar esta sangueira 250 nha sobre ela. Seus motivos, porém, eram obscuros. Pelo visto a violência e o perigo não o assustavam. Queenie nunca o vira tão bem-humorado. Não duvidava que, de algum modo, ele acabasse usando contra ela tudo o que acabara de acontecer, mas agora era tarde demais para se preocupar. Precisava desesperadamente de ajuda. - Acho que Goldner está chegando - murmurou Vale, levando um dedo aos lábios e ordenando silêncio. - Ou será outra pessoa? - Enfiou a mão no bolso, dele retirando uma pistola automática niquelada. - Esconda-se atrás da cortina - ordenou. Vale ficou rente à parede, de modo a se esconder quando a porta se abrisse. Armou a pistola e apontou-a. Queeme ouviu os passos que se aproximavam e gelou. Imaginou que fosse a polícia ou, o que era ainda pior, Lucien. Sentia o sangue em suas pernas. Vale não disfarçava' o aborrecimen to por tudo aquilo, e ela não queria que a visse daquele jeito. - Se não se esconder atrás daquela maldita cortina, atiro em você... - ele murmurou. Ela o viu, todo elegante, apontando a arma para ela. Levantou-se, duvidando que jamais conseguiria se livrar dele. Goldner transpirava, a despeito do frio. - Você devia ter me chamado - disse a Queenie. Vale sorriu. Era um sorriso desagradável, semelhante ao esgar de um tubarão quando vem à superfície das águas. - Pois foi a mim que ela chamou e fez muito bem. Ouça, meu velho: você não quer um escândalo, e eu muito Leve a garota para junto de Lucien. - Ela precisa de um médico. A antipatia de Goldner por Vale era evidente, mas, a exemplo deste último, não parecia ter ficado particularmente chocado com o cadáver. Sem dúvida, já presenciara muita violência. - Leve-a a Drymond - disse Vale, guardando a pistola no bolso. Ele me deve muitos favores. Diga-lhe que fui eu quem mandou vocês. - Não gosto nem um pouco disto. - Não seja medroso. Agora somos sócios. Não há melhor modo de manter uma sociedade do que dividir um segredo. Vamos, mexa-se, torne-se útil! Junte as coisas dela e leve-a a Drymond. Invente uma história para Lucien, que é um bom sujeito. Braddock e eu faremos o trabalho da pesada. Vale mostrava-se expansivo, quase alegre, quando se encarregava de uma tarefa. Convocou o chofer e mostrou o cadáver estendido no chão. menos. 251 Queenie notou que era o mesmo homem que, normalmente, guardava a entrada do Café, de Paris. Em vez da libré de todos os dias, usava um umforme negro, botas de couro, luvas igualmente negras e um boné decorado com uma roseta negra. O homem era tão corpulento que obstruía a passagem. Ele também não demonstrou a menor surpresa ao ver o corpo de Morgan. Agachou-se e virou-o de frente, assoviando ao ver seu rosto. - Trabalho bem-feito está aí! - disse, admirado. - Dispensamos sua opinião profissional, Braddock. A moça agiu num gesto de autodefesa. - Sim, senhor. Posso saber como foi que ela bateu nele? - Com o ferro de atiçar a lareira - disse Queenie. - Escolheu bem! Acho melhor limparmos tudo, dar o fora, sobretudo as impressões digitais. - É isso aí. Também pensei nisso - declarou Goldner, vá embora. Braddock, vá até lá embaixo e espiada no porão. - A polícia, com toda a certeza, fará perguntas descobrir o cadáver, não é? - perguntou Goldner. Vale riu. Queenie jamais o vira naquele estado de - Não se preocupe com isso, Goldner. Queenie voltou-se e olhou para o corpo. Tinha vontade fechar os olhos, mas sentiu um desejo irresistível de ver o rosto de Morgan mais uma vez. Os olhos dele estavam abertos, mas era o rosto de um estranho. Dava a impressão de conhecer um segredo e tentava escondê-lo o quanto fosse possível. - A coisa que ele mais queria na vida era viver na Inglaterra - murmurou. - Bem, pelo menos morreu aqui! - disse Vale, muito expansivo. Vale. - dê uma de Queenie ouviu a campainha tocar e teve a sensação de que o som, tão irritante, tinia dentro de sua cabeça. Estava quase desperta, mas relutava em levantar-se. As imagens de um pesadelo aos poucos se desvaneciam. Tentou juntálas, como se fossem as peças de um quebra-cabeça, mas elas se desintegravam cada vez que a campainha tocava. Lembrou-se do rosto do dr. Drymond encarando-a, e da picada de uma agulha de injeção. Teve a impressão fugidia de um quarto de paredes muito brancas, cheio de vidros e de apa relhos cromados, e ouviu o ruído de instrumentos médicos sendo postos em um esterilizador. Aquele ruído misturava-se ao da campainha estridente do telefone, numa combinação enlou 252 quecedora. Lembrou-se de Morgan e, de repente, sentiu um arrependimento tão grande que mal conseguia respirar. Cada vez que o telefone tocava, ela sentia uma dor aguda, como se tivesse um pedaço de vidro cravado em seu cérebro, até não conseguir mais suportã-lo. Queenie tentou deitar-se de lado, mas sentiu outra dor, desta vez na virilha. Gemeu e procurou erguer o braço. Parecia estar amarrado. Abriu os olhos e viu uma agulha inserida no pulso, da qual saía um fino conduto de borracha, que, por sua vez, ia dar em uma garrafa suspensa acima de sua cabeça. Sentiu uma necessidade imperiosa de parar com aquele barulho. Conseguiu, a muito custo, deslizar de lado o suficiente para tirar o telefone do gancho e o colocar junto ao ouvido, sobre o travesseiro. Uma voz desconhecida disse alô duas vezes. Queenie tentou esboçar uma resposta, mas sua garganta estava tão seca que ela mal conseguiu murmurar algumas palavras. Havia em sua boca um gosto curioso, de algum produto químico, que lhe dava vontade de vomitar. Tentou desculpar-se, mas tudo que conseguiu emitir foi um grunhido ininteligível. - É Flaxman 5165? - perguntou uma voz masculina. - Sim. Vou... vomitar - murmurou Queenie. Levou um século para dizer aquelas palavras. Tinha a sensação de que sua língua era feita de chumbo. - Como? A voz do outro lado da linha possuía o timbre relaxado e calmo de um homem que raramente precisava falar alto, embora, por detrás daquele inglês tão preciso e articulado, revelasse o traço de outra língua mais exótica. - O que foi que você disse? - - Me deixe... em paz. - É o telefone do sr. Chambrun? Queenie fez um tremendo esforço, a fim de responder. Sua mente reagia com a mesma lerdeza da língua. Ouviu a porta se abrir e a enfermeira aparecer. - Oh, você não deve falar ao telefone. O doutor recomendou muito repouso! - Estava... tocando... - Achei que o tinham tirado do quarto. A enfermeira aproximou-se e tirou o telefone da mão de Queenie. Ela contemplou aquela criatura toda de branco, de aparência muito enérgica, mas, ao mesmo tempo, tranqüilizadora. - Mamãe, não foi de propósito... - Cerrou os olhos e voltou a se envolver com seus pesadelos. - É da residência do sr. Lucien Chambrun - disse a enfermeira com energia. ele repetiu. 253 - O que aconteceu com quer ficar em paz? - Está repousando. - Por favor, pode dar - Sem dúvida. - Diga que o sr. David hotel Claridge. - Como? David Cohen? - Konig - repetiu o homem trando seu nome. - K-o-n-i-g... no a 254 Parte 3 Dawn I 10 - Meu caro. Todo mundo tem problemas domésticos. Não precisa se desculpar. - Foi uma operação pequena, sem gravidade. Ela se sentiu mal no trabalho. Dentro de alguns dias estará de pé. Você verá com seus próprios olhos: ela é tudo o que eu prometi. - Espero que sim. Meu Deus, que clima horrível! Já tinha esquecido de como é a Inglaterra. Quem é o melhor alfaiaatualmente? - Creio que Hunstman - Mandarei fazer alguns vando d_ e bom no teatro? - Nada que valha muito a pena. A única sensação kie Beaumont no papel de Romeu. Não se fala em outra - Ele é tão bom assim? - Basil Goulandris conseguiu maravilhado. - Goulandris tem uma co, Lucien. - Concordo, mas Basil não é nenhum tolo. Beaumont interpreta Romeu com tremenda sensualidade. Não transmite de modo algum a fraqueza de um adolescente atingido pelo amor. Não tenho certeza, mas acho que Margot Feral interpreta Julieta. É difícil imaginá-la como uma virgem apaixonada. - Poucas atrizes conseguem interpretar a inocência com convicção... Gostaria de rever Beaumont. - Não é difícil. É um velho amigo meu. Aliás, ele e Cynthia Daintry estão de caso. Ela vai ao teatro todas as noites, verificar se Margot mantém os beijos num nível profissional... - Cynthia Daintry é aquela garota filha de pai rico? - Sim, o marquês de Arlington. - Que interessante! Shakespeare é intrigante. Por que investir um bom dinheiro a fim de criar uma nova história, quando se pode usar uma história velha sem gastar nada? Sexo e me te, e, talvez, Poole. ternos e sapatos. O que estão le assistir é Diccoisa. a um ensaio e ficou coluna de fofocas e não é um críti 257 cultura são uma combinação irresistível. Mudando de assunto, quem faz as melhores botas da cidade, Lobb ou Peal? - Os dois são bons. Barney Balaban costuma fazer as dele com Peal. Alguém o viu lá outro dia, tentando convencê-lo a lhe fazer um par de sapatos de camurça preta. - Se Peal faz sapatos para Barney, procurarei Lobb. Não quero ver meus sapatos na mesma prateleira que os dele. Lucien contemplou a pilha de bagagem, de couro finíssimo, que ocupava um dos cantos da sala de estar. Pares de sapatos se espalhavam por todos os lugares. O telefone tocou, com um ruído discreto. - Com licença - disse o fechou os olhos, de puro cansaço, ou simplesmente a fim de se concentrar. - É David Konig. - Sua voz era baixa, musical, envolvente. - Meu caro! Mas quanta gentileza de sua parte... Que prazer inesperado... O sotaque era decididamente estrangeiro, apesar de sua fluência. Transmitia uma grande sinceridade, que não correspondia à expressão de Konig, enquanto ele falava e ouvia. - Mas é claro que você é uma das pessoas de Londres a quem faço absoluta questão de ver. Estava mesmo para lhe telefonar, quando você me ligou. Konig calou-se por um breve momento. Lucien já havia esquecido do quanto ele se parecia com um príncipe ou um cardeal da renascença. Seu rosto era ao mesmo tempo voluptuoso, astuto e autoritário. -Jamais me passou pela cabeça procurá-lo com uma proposta destas - ele disse com afabilidade. - É arriscada demais. Sim. Sim? Claro que o potencial é fantástico, mas serão necessá rias somas fabulosas. Além do mais, o cinema é um negócio arriscado... Francamente, não imaginava que você se interessasse ou mesmo que dispusesse desse capital... - Konig deu uma piscada matreira para Lucien. - Mas é claro - prosseguiu, com a voz cheia de remorso. - Não tive a intenção de magoá-lo. O problema é que já discuti o assunto com Victor Rothschild. Eu o conheci durante a viagem... Se posso transferir meu encontro com ele? Bem, posso tentar. Meu caro, afinal de contas, para que somos amigos? Jantar? Com o maior prazer. Lembranças a sua encantadora esposa... - Você falou com Rothschild sobre guntou Lucien. - Ele estava a bordo - disse Konig, colocando o aparelho no gancho e suspirando. - Não consigo me lembrar do nome da mulher deste sujeito. Preciso descobrir antes do jantar. seus planos? - per 258 - Não vejo por que não seria fácil começar por um único filme. - Ninguém se dispõe a investir em apenas um filme, Lucien. Todo mundo quer um programa ambicioso: seis grandes filmes, um estúdio, a oportunidade de triunfar. Exigem tam bém uma estrela, a réplica inglesa de alguém da fama de Greta Garbo, Marlene Dietrich ou Joan Crawford. Os jornais vão vibrar. A indústria cinematográfica inglesa mal existe. Por, quê? Ninguém quer assistir a filmes ingleses. Qual a razão? E que as únicas atrizes inglesas que interessam se encontram em Hollywood. Se encontrarmos o rosto certo, não haverá problema aiOs homens estão mais interessados balanços anuais. Nisso incluo gum em levantar o dinheiro. em garotas bonitas do que os banqueiros. - Mas, David, acredite tem um rosto que vale milhões. grafa bem. - E ela consegue representar? - Será que isso importa? - Não... - declarou Konig, após breve reflexão. - Na verdade algumas vezes é preferível que uma mulher não saiba representar. Assim ela terá menos coisas para esquecer... --Não existe ninguém neste país que saiba como construir a carreira de uma estrela. Você está absolutamente livre para agir. - Construir a carreira de uma estrela é uma arte, não um negócio. Muito pobca gente sabe como fazê-lo. É preciso começar do nada, como um escultor com um bloco de argila. Foi o erro que cometi com Marla. Ela já era famosa, pelo na Europa central. - E a separação é definitiva? - Nada é definitivo num casamento, com exceção da morte. No momento em que se deixa uma estrela tornar-se mais importante do que você, está tudo acabado. Veja só o exemplo de Mauritz Stiller com Greta Garbo. Ela se tornou uma grande estrela em Hollywood, e ninguém queria saber de conversar com ele. Quando almoçamos no restaurante da Metro Goldwyn Mayer, a garçonete nem se incomodava de perguntar o que ele queria. Há também o caso de Josi von Sternberg e Marlene Dietrich. Foi ele quem a inventou, e agora mandam até mesmo um Rolls-Royce de presente para ela, enquanto o pobre Sternberg não dispõe sequer de um lugar para estacionar seu carro, no estúdio. E claro que Stiller e Sternberg cometeram o mesmo engano. - Qual? em em mim: a garota de que lhe falei É inacreditável como ela foto menos 259 - Apaixonaram-se por sua estrela... Um diretor jamais deve envolver-se amorosamente com a atriz principal. É fatal para sua carreira. - Ele é um homem um pouco mais velho. - Como assim, mais velho? - Mais velho do que eu, por exemplo, mas é muito distinto. - Mas eu me sinto tão feia! Queenie não se sentia propriamente feia, mas diferente, e de modo muito sutil. Decorridos os primeiros dias daquilo que ela denominava "sua operação", sentiu-se fraca demais para contemplar-se no espelho, receosa do que veria, como se a morte de Morgan, de certo modo, fosse reconhecível em seu rosto ou em seu olhar. Teve a sensação de que passara por uma transformação. Seus olhos estavam maiores e mais escuros do que nunca, a pele mais translúcida, os ossos mais finos e definidos com maior nitidez. Perdera peso e, embora nunca tivesse sido gorda, a ausência de alguns quilos bastara para modificar de maneira significativa o seu aspecto. Era como se seu rosto houvesse adquirido mais profundidade, em decorrência daquela experiência trágica. Deixara de ser simplesmente bela. Parecia outra pessoa, capaz de grandes pai xões, uma mulher que tinha segredos a esconder, que sabia algo a respeito da vida. O fato intrigou Lucien, que o atribuiu ao aborto. - Não seja tola, Queenie. Você está mais bonita do que nunca - ele afirmou com convicção. Ela lhe deu um beijo rápido, que Lucien, aliás, bem merecia, pois se mostrara solidário e prestativo durante toda a sua doença. Embora ele não gostasse de discutir o assunto, Queenie adivinhou que Lucien não se sentia infeliz com o fato de ela ter perdido a criança, cuja paternidade jamais questionara. Ainda assim ela preferiu guardar para si o parecer do dr. Drymond: nunca mais poderia ter outro filho. Queenie não fez perguntas sobre a cor da criança, mas a expressão de Drymond e os rostos intrigados das enfermeiras levaram-na a desconfiar de que era bastante escura. Em tais cir cunstâncias o veredicto de Drymond foi um verdadeiro alívio. A gravidez não era uma experiência que gostaria de repetir e não só pelo fato de ser dolorosa e humilhante. O que quer que pudesse conseguir por si mesma, e, de certa forma, tinha a sensação de que se encontrava no limiar de coisas com que jamais sonhara, seria destruída por um bebê escuro. O risco sem 260 pie existia e fazia parte da herança que deixava tão rapidamente para trás. Queenie ajustou a gola do vestido cor-de-rosa que Lucien lhe dera de presente, embora não gostasse da cor, e entrou no elevador. Lucien, elegantíssimo em seu smoking, apertou o bo tão e o elevador subiu, com um barulho abafado. Abriu-se um olho mágico e, no mesmo momento, a porta também se abriu, revelando Braddock, de libré e peruca empoada. Queenie sentiu certo receio ao vê-lo, mas o rosto dele estava desprovido de expressão. A sala, espaçosa, era coberta de lambris de madeira clara e iluminada por candelabros. Ali havia meia dúzia de mesas de jogo. Ouvia-se bem pouco barulho: o murmúrio abafado de conversas, o ruído da bola na roleta, o som de cartas sendo embaralhadas e de fichas contadas. A temperatura ambiente era agradável, e o ar tinha o vago perfume de flores recentemente colhidas, charutos caros e conhaque. Os tapetes orientais eram tão espessos que os pés de Queenie afundavam neles. - RÍén ne va plus - anunciou um dos crupiês, sorrindo para uma americana de meia-idade de cabelos azulados, cujos punhos, dedos e pescoço estavam tão repletos de brilhantes que ela se assemelhava a um réptil coberto de escamas fabulosas. Queenie contemplou por alguns instantes aquele pescoço enrugado e aquelas mãos cobertas de sardas. A mulher expeliu pelas narinas um jato de fumaça de cigarro e apoiou uma das mãos sobre a cobertura verde da mesa, olhando a roleta girar, até que parasse completamente. - Vinte e um - anunciou o crupiê. Ele recolheu uma grande pilha de fichas, dirigindo à mulher um sorriso breve, profissionalmente simpático, e empurrou uma pilha ainda maior de fichas em direção ao homem sentado diante dela. A criatura levantou-se e seus olhos cinzentos e frios focalizaram Queenie. Voltou-se para o vencedor e manifestou-se, com a voz áspera de quem certamente costumava fumar um cigarro atrás do outro. - A cor rosa deve lhe dar muita sorte. - Espero que sim - disse o homem com toda a calma, dando uma baforada no charuto. - Faites vos jeux - ordenou o crupiê. - Dê-me dez mil dólares de fichas - ordenou a mulher. - Quem é ela? - murmurou Queenie. - A sia. Sigsbee Wolff, de Los Angeles. O marido dela é dono de metade da cidade. Konig é o homem que acaba de ganhar. Ah, ele já nos viu. Konig levantou-se, deu algumas fichas ao crupiê, como gorjeta, e aproximou-se. Não era de modo algum velho, pensou 261 Queenie, mas movimentava-se com certa dignidade lenta, como uma figura numa procissão. Conseguia imaginã-lo todo paramentado e carregando um báculo. Queenie só percebeu o quanto era alto quando ele ficou a alguns passos de distância. Seu rosto assemelhava-se ao de um leão benevolente, que está envelhecendo. Tinha cabelos claros, que começavam a ficar grisalhos, um nariz grande e bem-feito, maçãs salientes, quase orientais. Todos os seus traços possuíam um aspecto maciço, de acordo com o nariz. Até mesmo sob a luz mortiça da sala de jogos de Vale a palidez de Konig chamava a atenção. No entanto, não parecia doente. Ao contrário, projetava uma aura de energia tão pode rosa que, em comparação, todo mundo a seu redor parecia semi-adormecido, até mesmo a sia. Sigsbee Wolff, que pusera os óculos a fim de estudar Queenie mais detidamente. Ela demonstrava uma curiosidade tão aguda que seus olhos desprendiam chispas, a exemplo de seus numerosos brilhantes. - Você é encantadora - disse Konig, beijando a mão de Queenie. - Vamos sentar-nos e conversar. Ele os levou para a sala ao lado, onde se jogava baralho, e, no meio do caminho, parou para dar um beijo de boa sorte na sia. Wolff, que, num gesto de reconhecimento, acenou para ele. Konig parou por um breve momento diante da lareira, aquecendo-se. Sem que ele tivesse dado ordens, dois criados surgiram e ajeitaram as cadeiras em semicírculo, enquanto um garçom colocava sobre uma mesinha uma bandeja de prata com uma garrafa de champanhe, num balde de gelo, uma lata de caviar numa tigela de prata, torradas quentes, embrulhadas num guardanapo engomado, e um vaso com uma rosa vermelha. Konig pegou a garrafa de champanhe e examinou-a com cuidado; aproximando-a tanto do rosto que Queenie pensou que ele iria beijá-la. Era muito míope, e as lentes de seus óculos, muito grossas, davam a impressão de aprisionar seus olhos, como azeitonas dentro de uma garrafa. - A safra de 1929 é, sem dúvida, bem melhor, mas teremos de nos contentar com este champanhe. Não posso esquecerme de tocar no assunto com Vale. Queenie surpreendeu Konig fitando-a com o rabo do olho, por detrás da garrafa. Acaso aquilo não passaria de uma encenação esperta, para ele poder observá-la melhor? Konig fez um sinal ao garçom, que abriu a garrafa e os serviu. - Você se interessa por vinhos, minha cara jovem? - perguntou, enquanto Queenie provava o champanhe. 262 Havia algo nos modos de Konig que a aconselhava a não fingir um conhecimento que estava longe de possuir. - Não conheço muita coisa a respeito de vinhos. Até agora só bebi champanhe. - É um excelente começo. Não se pode desenvolver hábitos requintados, quando se é jovem demais. Por outro lado, se esperar até ter condições de manter tais hábitos, talvez seja tar de demais para aproveitá-los... É bom conhecer algo a respeito de vinhos, mas não em excesso. Não existe ninguém mais aborrecido do que um entendido em vinhos... Por detrás das lentes espessas os olhos cor de avelã não perdiam um detalhe e chegavam a ser maliciosos. Queenie, preocupada, imaginou se ele a estava testando, para ver se ela não dizia alguma tolice. - Você não nasceu na Inglaterra - ele afirmou. Não se tratava de uma pergunta. Konig sabia perceber um sotaque, da mesma forma que sabia notar uma bela mulher. Ela pensou rapidamente e decidiu dizer a verdade. - De fato. Nasci na índia. - Que maravilha! Quando eu era criança, adorava ler Kim, de Kipling. Meu Deus, que livro! Eu o li em húngaro, é claro. Quando voltei a lê-lo em inglês, há alguns anos, já não me pareceu mais o mesmo. Percebi então que não era porque o livro tinha mudado e nem mesmo devido à diferença de línguas. A mudança aconteceu em mim. Que tristeza, não? Sempre acreditei que, ao envelhecer, seria muito sensato. As pessoas me procurariam, pedindo conselhos, e eu saberia tudo. Mas cá estou, aos cinqüenta anos. Ninguém me procura para nada, e eu não sei absolutamente nada. Konig serviu-se de caviar. Queenie estava fascinada. Nunca vira ninguém comer caviar como se fosse alimento de todos os dias. Ele pôs uma espessa camada sobre a torrada, pingou suco de limão e comeu-a como se fosse pão com manteiga, fazendo-a descer com outra taça de champanhe. - O jogo me dá fome - confessou. - Eu também sou assim. É o medo de perder - afirmou Lucien. Konig pensou na observação e sacudiu a cabeça. - Não acho que seja isso. Sempre espero ganhar. Vocês sabiam que na Califórnia eles comem caviar de excelente qualidade coberto de creme, cebola e ovos cozidos? - Os Estados Unidos devem ser fascinantes - observou Queenie com grande entusiasmo. Konig não mostrou muito interesse e apenas deu de ombros. 263 - Bem, é onde está o dinheiro... Na minha opinião, é um país bem pouco interessante. Se a gente quiser conhecer americanos que valham a pena, é preciso ir a Paris. Freud visi tou os Estados Unidos e, quando lhe perguntaram o que achava do país, declarou: "Não passa de um engano monumental". Tinha razão. É bem verdade que o século XX inteiro é um engano e, em grande parte, devido a Freud. Fui procurá-lo, quando estive em Viena. - Como paciente? - perguntou Queenie. Lembrava-se vagamente do nome de Freud, pois era um dos entusiasmos de Pugh. Acaso estaria sendo indiscreta? Freud, sem dúvida, era especializado em sexo... Para seu grande alívio Konig não se mostrou ofendido. - Não, não, eu queria que Freud escrevesse o roteiro de um filme sobre a psicanálise. Seria a história de um médico que reviveria a história de Édipo, na Viena ou na Berlim con temporâneas. Freud tinha algumas idéias muito boas. Infelizmente não conseguimos chegar a um acordo. Foi uma pena. - Konig contemplou Queenie e semicerrou os olhos. - A fronte poderia ser maravilhosa - comentou com Lucien. - Uma verdadeira fronte renascentista. Uma Madona de Andrea del Sarro. Por alguns momentos Queenie ficou ressentida por estar sendo examinada mais uma vez como um objeto de vitrine ou um animal de raça. Konig notou e lhe dirigiu um sorriso de desculpas. - Precisamos ver... - disse. - Sem os testes nada é possível afirmar. Uma foto não significa nada. O filme, porém, revela muito mais. - Konig voltou-se para Queenie como se não quisesse deixá-la fora da conversa. - já vi mulheres lindíssimas fotografarem muito mal, em filmes. Algumas vezes ocorre o contrário. Em Berlim eu tinha Marlene Dietrich sob contrato, para fazer pontas em filmes. Sternberg pôs os olhos nela e disse: "Meu caro David, quero essa criatura em meu filme". julguei que ele estava louco e a cedi. De repente ela estoura em O anjo azul! É claro que ganhei dez por cento da renda bruta do filme, mas perdi uma estrela. - Ele estendeu a mão e tocou com delicadeza no rosto de Queenie. - Você tem ossos maravilhosos. - Espere só até ver como eles fotografam - comentou Lucien, entusiasmado, mas Konig o ignorou. Sua atenção voltavase para Queenie, que, por um momento, chegou a julgar que ele estivesse entregue a algum tipo de transe. Seus dedos eram notavelmente delicados para um homem. Ele seguiu as linhas de seu rosto e esboçou um gesto de admiração. - Quer dizer então que gostaria de ser uma estrela, não? 264 - Sim - declarou Queenie com firmeza. - Bem, a coisa não é exatamente como a gente espera, mas existem destinos bem piores. - Ele pegou a taça de champanhe. Seu humor tornara-se sombrio de repente, e Queenie cismou se tinha dito algo pouco apropriado. - Claro que é preciso mais do que beleza. - Quem fotografará o teste? - perguntou Lucien com uma ponta de angústia. - Vilmos Szabothy encontra-se em Paris - informou Konig com um sorriso felino. - Se eu pedir, ele virá. Não faria isso por mais ninguém. Szabothy é um dos melhores fotógrafos do momento. Sabia que foi ele quem descobriu que o lado direito do rosto de Garbo fotografa melhor do que o esquerdo? Ninguém havia notado. Claro que é impossível trabalhar com ele. Foi mandado embora de todos os estúdios de Hollywood. - Eu quero fotografar o teste de Queenie - declarou Lucien, todo vermelho. - Szabothy é muito bom. - Eu sou ainda melhor. - Szabothy é barato. Não consegue wood. Posso tê-lo por quase nada. - Não cobrarei um centavo. - Lucien acendeu um cigarro e apagou-o imediatamente. - Além do mais, Queenie não fará o teste sem mim. Ela o encarou com surpresa e ressentimento. Lucien prestava tamanha atenção nas reações de Konig que não notou. Este último, absolutamente frio e distante, reparou em tudo. Seu rosto nada revelava, mas não tirava os olhos de Queenie. Ela ficou tão indignada que não conseguia falar. A exemplo de Morgan, Lucien agia como um egoísta e arruinava sua oportunidade. Além do mais, fazia-a parecer uma criança ou uma idiota, pois não podia brigar com ele na frente de Konig. Fez-se um momento de silêncio; em seguida, Konig piscou para ela, e Queenie percebeu que aquilo também era uma espécie de teste. - Muito bem - ele disse, apontando o charuto para Lucien -, talvez não seja má idéia. Suas fotos são boas, algumas até mesmo ótimas. Ouça minha proposta: Szabothy fará um tes te com ela e você também. Veremos qual é o melhor dos dois. Você concorda, minha querida? - Farei o que o senhor quiser um olhar furibundo a Lucien. - Esplêndido! Pois então estamos - Tenho de ensaiar ou decorar um papel? mais trabalho em Holly - ela declarou, lançando combinados. 265 Konig levantou-se, passando de leve o guardanapo no smoking, a fim de remover algumas migalhas. Subitamente parecia ter perdido todo interesse, como se os detalhes o aborrecessem. Queenie arrependeu-se de ter feito perguntas. - Pode deixar comigo - ele disse com impaciência. - Não gosto de fazer planos com muita antecedência. Na vida as coisas importantes devem ser deixadas ao acaso. Com licença. Preciso voltar ao jogo. Prometi à sra. Wolff uma pequena partida de bacará, antes que a noite chegue ao fim. Konig estendeu um braço a Queenie. Tratava-se de um gesto de cortesia que ela já vira nos filmes, mas não na vida real. Com a esperança de estar agindo corretamente, ela passou o braço em torno do dele e aproximou-se da porta, deixando Lucien para trás. Konig caminhava com serenidade e imponência, enquanto os criados de libré faziam fila dupla, inclinando-se à sua passagem. Konig fez uma pausa e inclinou-se para Queenie, no momento em que entravam no salão. - Sempre faça uma entrada de efeito, quando chegar a um determinado ambiente. Pare durante algum tempo, mantenha a cabeça erguida, desse jeito... - Ele ergueu o queixo dela e sorriu ligeiramente, como se estivesse dando-lhe uma lição. - Sabe, existe uma arte para tudo, até mesmo para uma coisa tão prosaica quanto entrar num salão. Você ama Lucien? Ela fez que sim, sem muito entusiasmo, um tanto desconcertada com a brusca mudança de assunto. Não estava disposta a perdoar Lucien com facilidade, pois ele a tratara como a uma criança. - Ele é um bom rapaz, mas é evidente que também tem muito o que aprender. Você não devia se zangar com ele pelo que disse agora há pouco. - E o que leva o senhor a pensar que estou zangada? - Conheço as mulheres. Pensando bem, são as únicas criaturas que vale a pena conhecer. Lucien é jovem. Tem toda uma carreira pela frente. Até agora a ajudou e, quem sabe, um dia você terá de ajudá-lo. É assim que deve ser. - Konig aproximouse da roleta, ainda de braços dados com Queenie. - Que idade você tem? - Dezoito. Ele ergueu o cenho, - Dezessete. - Todas as mulheres mentem, em relação à idade. Quando são jovens, aumentam. Após os vinte e cinco anos, diminuem. Não sei o que fazem depois dos quarenta, pois nunca conheci uma mulher que admita ter essa idade... Você tem sorte? sem acreditar. 266 - Nunca fui suficientemente rica para jogar e detestaria perder. - Bobagem. Talvez não tenha jogado cartas ou na roleta, mas todo mundo joga. Você mesma jogou quando veio me ver. Lucien jogou ao dizer que você não faria o teste sem ele. O jogo é outra palavra para a vida. Na mesa da roleta a gente pode testar a sorte em sua forma mais pura. Não é necessário nenhuma inteligência. Konig colocou uma pilha de fichas em cima da mesa, sem contá-las. O crupiê recolheu-as e as colocou diante do número dezessete, indicado por Konig, contando-as. - Mil libras, sr. Konig? - É isso mesmo. - O dezessete saiu duas vezes, nos últimos quinze minutos - observou a sra. Wolff. - Dificilmente sairá uma terceira vez. - Gosto de arriscar, minha cara. - Pode dar adeus às suas mil libras, David. - Rien ne va plus! - exclamou o crupiê, e a roda começou a girar. Queenie sentiu um espasmo involuntário de excitação e temor. Não se tratava de seu dinheiro, e a aposta não fora feita por ela, mas adivinhou que, naquilo tudo, havia algo mais do que um ganho financeiro. A roda continuava girando. A expressão de Konig não se alterou, e seus pensamentos pareciam distantes. Queenie refletiu que, afinal de contas, mil libras não representavam muito dinheiro para um homem como Konig, mas, ainda assim, era de se esperar que ele demonstrasse algum interesse. Ela apertou o braço dele. A bola pulou roleta afora, com um ruído seco, o único que se ouvia no salão. Queenie fechou os olhos, no instante em que a roda parou. - Dezessete - anunciou o crupiê. - Que sorte, David - comentou a largue mais esta garota. - Talvez a senhora tenha razão a mão de Queenie. - Não se preocupe com o teste. Metade do que dizem a respeito de Szabothy é mentira, além do que, ele sabe o que faz. É o que importa. De qualquer modo, todos os diretores são loucos, com exceção de mim, mas não quero dirigir mais. - É verdade que Szabothy odeia as mulheres? - Não, não, ele odeia todo mundo! Pertence à velha escola e exige obediência. Em Hollywood deram-lhe o apelido de "O Porco". Você verá que ele mais late do que morde. sra. Wolff. - Não - disse Konig, beijando 267 Konig e Queenie estavam sentados em um canto sombrio do imenso palco dos Estúdios Elstree, nos arredores de Londres, que o cineasta pedira emprestado para realizar seus testes. De um dos braços da cadeira de Konig pendia uma bolsa, onde ele guardava os roteiros, e seu nome estava escrito no encosto. Konig examinou um catálogo de livros raros, a serem vendidos no leilão da famosa casa Sotheby's, aproximando-o dos olhos e assinalando o que o interessava com uma lapiseira dourada. - A primeira edição de i~oyage au bout de la nuz't, do autor francês Céline... este livro exerceu grande influência sobre mim, quando eu era jovem e morava em Paris. Acha que eu deva oferecer cem libras por ele? - Parece muito dinheiro por um ,livro velho. - Você tem toda a razão. Talvez seja um desperdício... Preciso pedir seus conselhos com mais freqüência... Ah, lá vem ele. Queenie olhou o recém-chegado e, durante alguns instantes, não sabia se ria ou se sentia medo. Szabothy estava sob a luz dos refletores do palco, encarando Konig como se estivesse decidido a justificar a lenda que cercava seu nome. Usava botas de cavalaria e media quase um metro e noventa de altura. A calça era igualmente de montar, e ele trazia uma capa de couto negro, de tal modo amarrada na cintura que o menor movimento o levava a estalar, como uma árvore agitada pelo vento. Em torno de seu pescoço via-se um comprido lenço de aviador, amarrado com displicência. Contaram a Queenie que, no inverno, ele protegia a cabeça com um capacete de piloto, feito de couro, e durante o verão, ou quando trabalhava sob o calor da luz dos refletores, atava uma faixa de seda vermelha em torno da testa. Agora usava o capacete e tinha um chicote de montaria na mão, protegida por uma luva de couro negro. Szabothy pôs o chicote debaixo do braço, desabotoou o capacete e retirou-o, revelando uma cabeça calva e reluzente. Seu rosto parecia destinado a inspirar o terror. Era quadrado, a queixada era enorme. Sua tez tinha a cor e a textura do concreto inacabado, e nas bochechas viam-se cicatrizes. Ti nha um acúmulo de gordura na nuca, como um verdadeiro general prussiano, e usava monóculo. Um bracelete dourado brilhava à luz dos refletores, e ele o trazia por cima da luva. - Com licença - murmurou Konig. - A montanha deve ir até Maomé. - Ele se levantou, sorrindo, e estendeu os braços, como se estivesse dando uma bênção papal. Aproximou-se de Szabothy, que não tinha dado sequer um passo, e abraçou-o. - Como vai, meu amigo? 268 Szabothy não retribuiu o cumprimento. Observou o palco, e as luzes refletiam-se em seu monóculo. - Não tenho condições de trabalhar aqui. Para grande surpresa de Queenie, tridente, como a de um personagem - Bem, reconheço que não é a - Esqueça a Metro! Até mesmo Paris, é melhor. - É apenas um teste, Vilmos. - Como? Um teste é um teste. É um filme. Este estúdio é muito primitivo. Os ingleses nada sabem de cinema. - Claro que tem razão, Vilmos, mas eles acabarão aprendendo com você. - Eles acham que sei até demais! Fez-se um silêncio mortal, interrompido umcamente pelo nervoso de Queenie. Szabothy voltou-se para ela. - Quem é essa aí? - perguntou com desprezo. - A srta. Kelley. Fará um teste com você. - Os olhos até que servem, mas o pe~l é um lixo. - Ele estendeu o chicote e abaixou um pouco o decote de Queenie. - Os seios são mais ou menos. Já vi coisa melhor. Pode mos convocar Sigrid Berg. Para que se dar ao trabalho de fazer teste? - Porque eu quero, Vilmos. Acho que ela pode servir. - Nem em um milhão de anos. - Não concordo, com todo respeito e admiração. Szabothy deu de ombros e oscilou para diante e para trás, estalando como um veleiro em alto-mar. - O dinheiro é seu, Konig - disse finalmente. Queenie percebeu instintivamente que ele faria tudo o que estivesse a seu alcance para que ela falhasse. que riso um a voz dele era alta e esde desenho animado. Metro Goldwyn Máyer. o estúdio da Pathé, em eu não sei coisa alguma, mas mostrarei O calor e o brilho dos refletores eram mais fortes do que ela podia suportar. Os maquinistas os ajustavam, abrindo ou fechando os jatos de luz que se concentravam sobre ela. Szabothy não se mostrava nem um pouco satisfeito. - Apague o refletor número dois, aumente o cinco. Um deles não está funcionando. Que merda! - ele dizia ao megafone, enquanto os maquinistas os reajustavam, praguejando enquanto trabalhavam. Queenie estremecia nos momentos em que tudo ficava escuro. Seus braços nus ficavam todos arrepiados, e ela começava a transpirar, quando os refletores se acendiam. 269 Os maquinistas fumavam, conversavam uns com os outros e realizavam suas tarefas sem prestar a menor atenção nela, a não ser para aconselhá-la a tomar cuidado com os fios ou recomendar-lhe que desse um passo atrás, quando transportavam um equipamento pelo palco. Konig parecia distraído com a leitura de seu livro. Um assistente de produção sentava-se perto dele, com um cronômetro, e, atrás, estava uma secretária lixando as unhas, com um caderno de anotações no colo. junto a Konig via-se uma mesinha com uma garrafa térmica, cheia de café, os jornais do dia e sua correspondência. Ele continuava a ler, imperturbável. Szabothy mal olhava para Queenie. Estava ao lado da câmera, amaldiçoando de modo incompreensível em várias línguas e ignorando-a completamente. Ela vestia um traje branco de noite, bem decotado, escolhido por Konig no guarda-roupa do estúdio. Seus cabelos tinham sido penteados com muito requinte. Quando Konig a viu, mandou-a fazer um penteado mais simples. Ao voltar ao palco, uma hora mais tarde, Szabothy e Konig interromperam a conversa o tempo necessário para ordenar que ela refizesse mais uma vez o penteado, do modo como era antes. Ela esperava ser dirigida, encorajada, mas, em vez disso, estava sendo tratada como um móvel qualquer, entregue no endereço errado. O maquilador, que tinha refeito a maquilagem mais de doze vezes, mostrou-se solidário e passou mais pó em seus ombros, a fim de esconder o brilho da transpiração. - É sempre assim - murmurou. - Eles não sabem o que querem... Konig testou Margot Feral ontem e ficamos presos aqui até meia-noite. Hoje já passamos da hora. Eu preferia deixar de ganhar este dinheiro e ir para casa jantar. - Konig testou Margot Feral? - perguntou Queenie, tentando não se mostrar surpreendida. - E Cynthia Daintry também. Ela tem uma pele tão linda... Queenie ficou indignada, mas manteve-se discreta. Não lhe passou pela cabeça que Konig, com toda a sua simpatia, alargasse a tal ponto o campo de suas opções. Naturalmente mostrava a mesma cordialidade em relação às demais candidatas... Pelà primeira vez começou a duvidar de suas chances. Margot Feral era, afinal de contas, uma atriz experiente, e o mesmo sucedia com Cynthia Daintry. Esta, além do mais, tinha pai rico. Acaso Konig se dispunha a fazer um teste com ela apenas em consideração a Lucien? Por um momento ela se permitira confiar em Konig. Agora estava furiosa consigo mesma por agir com tamanha estupidez. A indignação era tamanha que nem mesmo notou que Sza 270 bothy estava bem junto dela, sacudindo com impaciência o chicote. - Estamos prontos e à sua espera. Queenie decidiu que não permitiria, de modo algum, ser humilhada. Afinal de contas, o que tinha a perder? - Há horas que estou pronta. - Quem sabe você tinha algo de melhor a fazer? A tarefa de toda atriz é esperar, e você nem ao menos ainda é uma atriz. - Szabothy examinou-a com atenção. - A beleza! - exclamou, como se a palavra fosse um insulto. - Acaso acha que ela é tudo? Pois a beleza nada significa. Vamos em frente. Vou pedir que faça algo bem simples. Vá até aquela cadeira e fique parada. Quando eu disser "ação", você se aproxima desta cruz marcada no chão, volta-se para mim, sorri e estende os braços, como se eu fosse o homem a quem ama. Entendeu? Queenie olhou a marca e fez um gesto de concordância. - Você acha que entendeu, não é? Pois ainda não entendeu nada. - Ele lhe deu as costas e aproximou-se da câmera. - Vá para a cadeira - rosnou. Mesmo a distância, Queenie percebeu que a atitude de Szabothy se modificara, agora que estava pronto para fotografar. Sua concentração era absoluta. Ele a enquadrou de diversos ângulos e, finalmente, respirou fundo. - Luzes! - ordenou. O estúdio inteiro iluminou-se, - Câmera! Um dos assistentes bateu a claquete por meio de um gesto rápido, mas não o suficiente para satisfazer Szabothy, que lhe lançou um olhar indignado. - Ação! - disse com sua chicote para Queenie. A tarefa não lhe parecera nem um pouco difícil, quando Szabothy a descrevera. Agora, porém, que os refletores a iluminavam e que a câmera a focalizava, com suas lentes redondas tão negras e ameaçadoras quanto um cano de revólver, ela se sentiu desajeitada e tola. Sabia que por detrás das luzes havia pelo menos uns vinte profissionais experientes observando-a, entre eles Konig, que finalmente pusera o livro de lado. Cada passo que dava parecia durar uma eternidade, e ela tinha a sensação de que havia bolas de chumbo presas a seus pés. A marca do chão parecia estar a quilômetros de distância, e ela começava a duvidar que conseguiria chegar até lá, quando ouviu a voz ríspida de Szabothy. - Corta! Você ultrapassou a marca, porra! e a temperatura se elevou. voz desagradável, apontando o 271 Queenie olhou para trás e, atônita, dado bem uns três passos além da marca. boca do estômago. A coisa imaginara. - Estamos não iria ser espera - observou Szabothy. Ela voltou para a cadeira, onde o maquilados a aguardava, percebeu que cada tomada, por mais breve que fosse, poderia demorar horas. Era preciso desligar os refletores, verificar seu figurino, retocar a maquilagem, a fim de remover qualquer traço de transpiração, e pentear o cabelo, para não deixar sequer um fio fora do lugar. Szabothy olhava para o vazio, demonstrando uma paciência infinita, que, de resto, não convencia ninguém. Queenie jurou que, desta vez, tudo daria certo. Avançou em direção à marca, disposta a alcançá-la como uma verdadeira profissional. Enquanto caminhava em direção à câmera, via a marca brilhando no chão. Estava para chegar junto dela quando ouviu, mais uma vez, o grito de Szabothy. - Corta. Queenie encarou-o, e ele lhe dirigiu um sorriso malevolente. - Você está olhando para o chão. Por acaso tem medo de pisar em bosta de cachorro? - Estava olhando para a marca - ela protestou, indignada. - Ah! Então você, acha que a platéia quer vê-la olhando para os pés? Seu amante acaba de entrar na sala. Para onde você olha? Para o chão? Você não é nenhuma virgem. Concorda? O sangue subiu à cabeça de Queenie, e algumas pessoas riram. - Core quando eu disser para corar e não antes disso. Uma mulher que está esperando o amante não é virgem. Sente excitação, prazer, faz planos... Quando ela levanta o olhar e o vê, seu rosto se ilumina. Está entendendo? Ela fez que sim. - Pois não entendeu nada. Aja, vamos! Olhe para mim! Imagine que sou alguém que lhe agrada. Vamos em frente, não temos o dia inteiro à sua disposição! Para sua grande surpresa, Szabothy a pôs de lado, caminhou até a cadeira e fez o que ele ordenava, com uma expressão beatífica de prazer estampada no rosto. Chegou até a marca e estendeu os braços, como se fosse abraçá-la. - Maquilagem! - berrou. - Vamos tentar mais uma vez. Szabothy mandou cortar as três próximas tomadas, antes mesmo que ela alcançasse a marca e, fazendo uma pausa, dirigiuse a Konig em altos brados, exprimindo-se numa desconhecida língua estrangeira. A fisionomia de Konig, mesmo a distância, a sua 272 constatou que tinha Sentiu um vazio na tão fácil conforme exprimia uma combinação de infinita paciência e solidariedade quase beatífica. Apenas deu de ombros, ergueu a mão, como um homem que se apresenta voluntariamente para ser crucificado, levantou-se, passou o braço em torno de Szabothy e o levou de volta até a câmera. Queenie já nem notava mais a sucessão de tomadas e perdeu a noção de tempo. Repetiu numerosas vezes a mesma cena, insignificante e desprovida de sentido. Sabia que estava saindo se cada vez melhor, alimentada por um ódio crescente a Szabothy, cujo gélido desprezo achou ainda mais insuportável do que aqueles momentos em que ele perdia a paciência. - Se você quiser chorar, chore! - ele berrou. - Não vou chorar - ela declarou com firmeza, encarando-o. - Pois deveria! - ele afirmou, dando uma chicotada na bota reluzente. - Deveria chorar! Este lugar não é para você. Tudo isto não passa de um equívoco. Vá para casa. Case-se. Te nha filhos. Por que perder seu tempo ou, o que é ainda mais importante, o meu? Mais uma vez, por favor. Queenie, na realidade, estava a ponto de chorar. Sentia as lágrimas aflorarem aos olhos, mas controlou-se. Estava tão ansiosa por se sair bem que se movimentou antes de ele ordenar. Szabothy gritou de raiva e chicoteou a câmera. Duas tomadas depois ele partiu o chicote pelo meio com suas mãos enluvadas. Queenie suspirou de alívio, mas por pouco tempo, pois um assistente surgiu logo depois com um chicote novo. Parada, Queenie recusava-se teimosamente a chorar. Sentiase indefesa e perseguida, sobretudo porque Konig não parecia tomar conhecimento do comportamento de Szabothy. De repen te ela parou de pensar no fotógrafo e repetiu cegamente a cena mais uma vez, sabendo que era inútil, tão inútil que começou a chorar quando a tomada terminou, pois esperava mais uma explosão de temperamento. - Nada mau - ouviu Konig cochichar, quando as luzes baixaram. Por detrás da câmera Szabothy, exausto, manifestou-se. - Foi uma merda, mas é o melhor que se pôde fazer. Podem revelar e ampliar! Na pequenina e escura sala de projeção, Konig, Lucien e Szabothy observavam as provas. Konig sentava-se em uma espreguiçadeira de couro e fumava um charuto. De vez em quando parecia dormir, mas sua atitude rélaxada era enganosa. Ali ele se encontrava em seu elemento, e os olhos, escondidos pelas 273 lentes grossas, fitavam a tela sem piscar, enquanto ele dava baforadas no charuto. - Projete de novo a última foto - ordenou Konig. Observaram em silêncio, e Szabothy fitava a tela como um homem que enfrentava um pelotão de fuzilamento, ou talvez que o comandava... - Mais uma vez. Contemplaram três vezes a última tomada. Konig apertou um botão, no braço da espreguiçadeira, e as luzes se acenderam. - Você é um gênio - disse a Szabothy. - Sim. Mas ainda é uma merda. - Não, não em conjunto. De certo modo você conseguiu fazê-la representar. As primeiras tomadas saíram horríveis, concordo, mas, na última, a gente começa a acreditar que ela é uma jovem apaixonada... - Talvez. Mas ela é feia... - Como assim? - Ela é vesga. Konig refletiu durante alguns instantes. Diminuiu as luzes e mandou projetar mais uma vez a última tomada, após o que suspirou, desanimado. - Você tem razão. Ela, de fato, é um pouco vesga. Que pena... - Ela não é vesga - observou Lucien, pigarreando. - Queenie é ligeiramente estrábica ou míope. Não sei com certeza. É preciso saber fotografá-la, sobretudo em close-ups. Se o procedimento for correto, o efeito é muito sensual. - Vesguice é vesguice - declarou Szabothy. - Uma estrela não pode ser vesga. - Você é suspeito para dizer qualquer coisa, meu caro Lucien - disse Konig, sempre simpático. - Quando a gente está apaixonado, é difícil ser objetivo. - Deixem-me fotografá-la amanhã. Conheço-a melhor do que ninguém. Sei do que os olhos dela são capazes. - E perda de tempo - opinou Szabothy, bocejando. - Basta eu telefonar para Sigrid Berg e amanhã ela estará aqui. Konig ficou imóvel durante alguns segundos, entregue a seus pensamentos, e evitou o olhar de Lucien. - Você me prometeu que eu poderia fazer um ela - relembrou o rapaz. - É mesmo? - Sim. - Diante de testemunhas? - Diante de Queenie. teste com 274 Fez-se uma pausa, enquanto Konig refletia. Finalmente ele acabou concordando. - Pois bem, Lucien, então faça seu teste. - David, você é um sentimental - declarou Szabothy com desprezo. - De modo algum! - protestou Konig, bem-humorado. Ficou, porém, na dúvida. Por alguma razão inexplicável queria que aquela garota fosse bem sucedida. Queenie já estava maquilada no estúdio às seis da manhã. Quando pensava no mundo do cinema, imaginava que as atrizes levavam uma vida de um luxo inimaginável, mas dormir até tarde, pelo visto, não constituía uma das regalias. Como se tratava do teste de Lucien, este se decidiu a supervisionar os menores detalhes. Se Szabothy interessava-se pelo modo como Queenie se movimentava, Lucien preocupava-se com sua aparência. Quando a viu maquilada, sacudiu a cabeça, com ar de desaprovação. A linha escura que sublinhava a maçã do rosto não o satisfez. Removeu-a com um pedaço de pano, para grande aborrecimento do maquilador. Em vez disso tentou uma linha de base prateada, bem ousada. O maquilador deu-se por satisfeito. Era um profissional e percebia muito bem o que se passava ná cabeça de Lucien. Queenie, porém, não tinha essa percepção. Para ela o efeito era espalhafatoso e reclamou. - Estamos procurando agradar à câmera, e não a você - explicou Lucien com paciência. Ele mergulhou o dedo num pote de rímel e aplicou duas sombras em cada lado de seu nariz. Para Queenie era como se ela tivesse se sujado, mas procurou não fazer novas objeções. Lucien limpou os dedos e examinou-a atentamente, segurando-lhe o queixo e voltando sua cabeça de um lado para outro. - O que estamos criando neste momento é uma ilusão, uma imagem que surgirá real e até melhor do que a realidade, na tela. Seu nariz, por exemplo, surge um pouco achatado, quan do fazemos um close-up. Notei ontem. Não estou criticando. É um belo nariz, mas a câmera não o registra. Assim, tive de criar a ilusão de uma sombra, a fim de valorizá-lo. No espelho pode parecer exagerado, mas, no filme, você surgirá com um nariz perfeito! Quando chegou a vez dos olhos, ele e o maquilador inclinaram-se. Suas cabeças quase se tocavam, e eles pareciam um par de mercadores de diamantes, examinando uma pedra preciosa. As pálpebras de Queenie foram pintadas de um bran 275 co translúcido, para contrastar com os olhos escuros, mas Lucien não ficou contente com o resultado. - Escamas de peixe - murmurou. O maquilador pegou um pote e tirou a tampa. No mesmo instante sentiu-se o odor característico de peixe bem pouco fresco. Ele esfregou as escamas de peixe em pó entre os dedos, misturou-as com um creme branco-prateado, e passou-o nas pálpebras de Queenie com uma escova muito fina. - Ótimo - exclamou, com a aprovação de Lucien. Este último se mostìou igualmente exigente em relação ao figurino de Queenie. Por mais desconfortável que fosse o resultado, obrigou a costureira a desfazer as costuras e a refazê-las no corpo de Queenie, de tal modo que o vestido de seda ajustouse a ela como se fosse uma segunda pele. - Desse jeito não conseguirá se mexer - protestou a costureira. - As costuras se romperão, no primeiro passo que ela der. - Você voltará a costurá-las, após cada tomada - disse Lucien, implacável. - Ouça-me, Queenie. - Ele se abaixou e suas bocas se aproximaram. Seus rostos refletiam-se no espe lho. O de Lucien mostrava preocupação e concentração. O de Queenie estava pintado como o de uma boneca, e ela mal se reconheceu. - Quando eu me aproximar para um Glose-up, as lentes da câmera. Olhe além dela, a distância. - - Por quê? Szabothy me mandou olhar para a - Confie em mim, Queenie. Quando você olha para um objeto próximo, seus olhos convergem um pouco. Já notou? Claro que sim. Afinal de contas, passou horas diante de um espe lho! A câmera exagera esse detalhe que, normalmente, não teria a menor importância. O filme, porém, é assim mesmo. Tudo, absolutamente tudo conta. Até mesmo a perfeição não basta. - Szabothy não se contentava com nada. - Esqueça-se de Szabothy. É um filho da mãe, mas Konig é duas vezes mais perfeccionista do que ele, só que não demonstra. Além do mais, já lhe disse que a última tomada não foi nada má. Konig ficou bem impressionado. Caso contrário não estaríamos aqui hoje. - Gostaria de ter visto o resultado. Pelo menos ficaria sabendo qual foi meu erro. - Você verá meu teste. Diga-me uma coisa: independentemente do que aconteceu com seu tutor, como era mesmo o nome dele? Queenie ergueu a cabeça, assustada, e imediatamente a boca secou. Acaso Vale conversara com Lucien? Encarou-o, mas só 276 percebeu nele curiosidade. Deu-se conta de que aquela súbita reação de medo só serviria para despertar suspeitas. - Morgan - disse, procurando parecer natural e até mesmo indiferente. - Depois do que aconteceu na boate de Goldner, espero que ele tenha viajado para o exterior. Por quê? - Por nada - disse Lucien, embora fosse mais do que evidente que ele tinha uma razão para perguntar. Bateram à porta e ouviu-se uma voz: "O sr. Konig está esperando". Lucien e o maquilador levaram Queenie até a frente dos refletores. - Faça o que eu disser e não se preocupe - recomendou Lucien, aproximando-se da câmera. Repetidas vezes Queenie foi em direção a ele, parando em cima da marca e olhando para além do ombro de Lucien, mas ele não se mostrava satisfeito. Ela já sabia que não conseguiria reproduzir o tipo de expressão que ele desejava. Era algo que tinha de surgir naturalmente, de dentro dela. O fato de saber que sua carreira e talvez a de Lucien dependiam daquele teste deu-lhe muita consciência de onde se encontrava e do que fazia. As atividades da véspera haviam-na deixado exausta, e as daquele dia pareciam ainda mais extenuantes. Conseguia ouvir Szabothy, cuja presença a incomodava profundamente, murmurando coisas em alemão com Konig. Szabothy riu, ouviu-se mais uma vez o barulho da claquete e deu um branco em Queenie, como se não existisse mais ninguém lá. Repetiu a cena talvez pela vigésima vez, pois há muito desistira de contar. De repente, quando ela menos esperava, Lucien manifestouse bem baixinho, invisível, devido ao brilho dos refletores. - Olhe só, Queenie, Morgan está aí! - Ela se voltou, com os lábios ligeiramente abertos de surpresa e horror. - Corta! Podem revelar! Ela o encarou, furiosa. É claro que Lucien não sabia o que acontecera com Morgan, mas tinha certeza de que a simples menção de seu nome bastava para desencadear uma reação de surpresa e medo, embora subestimasse o efeito. - Você me enganou - disse, tremendo. - Se fizer isso mais uma vez, eu te mato! Lucien abraçou-a, numa atitude cheia de proteção. - Nunca precisarei fazer isso de novo, Queenie... e os olhos arregalados, tomada 277 Queenie sentou-se no fundo da sala de projeção e contemplou a tela, muito espantada. Era impossível acreditar que aquele semblante lhe pertencia. O rosto que agora ocupava toda a tela, com os olhos escuros e luminosos muito abertos, atônitos, e os lábios ligeiramente afastados, era mais do que belo. Parecia quase irreal, perfeito, acima de qualquer rosto humano. As falhas que encontrara em si mesma quando se contemplava no espelho tinham sido removidas pela maquilagem e a iluminação de Lucien, ou então transformadas em verdadeiros trunfos. Seus olhos pareciam focalizar um ponto invisível, onde havia desejo e medo. Diante dela três homens sentavam-se em silêncio. O teste foi projetado várias vezes. Konig dava baforadas no charuto. Lucien assoviava baixinho e Szabothy fazia os dedos estalarem. Projetaram o teste de novo, e ninguém disse nada. Konig mandou acender as luzes. Levantou-se, ajeitou o casaco e retirou-se lentamente, apoiando-se numa bengala, como se estivesse exausto. Szabothy e Lucien não o seguiram. Havia algo na fisionomia de Konig que deixava bem claro que ele não desejava a companhia de ninguém. Ao chegar peno de Queenie, parou. - Tenho algo para você - disse, como se tivesse acabado de lembrar. Enfiou a mão no bolso do casaco e tirou um pacotinho embrulhado em papel marrom, entregando-o a ela. - Te mos de mudar seu nome, é claro. Discutiremos o assunto durante o almoço, amanhã. Queenie mal sabia o que dizer, mas não importava, pois Konig prosseguiu e abriu a porta, indo até a limusine, que o aguardava. Abriu o pacote. Era a primeira edição de Voyage au bout de Ia nuit, de Céline. junto a ele havia um cartão, no qual Konig escrevera suas iniciais. 278 11 A mesa estava posta para dois, no terraço ensolarado da suíte de Konig, no hotel Claridge, quando Queenie chegou à uma da tarde. Lucien viera algumas horas antes e conversava animadamente com Szabothy e um trio de personagens da Europa central, falantes e de olhar triste, que se levantaram, assim que ela entrou. Inclinaram-se, sorriram e disseram algumas palavras, possivelmente de saudação, pois davam a impressão de falar bem pouco o inglês. Konig levantou-se também, beijou a mão dela e a apresentou aos homens, cujos nomes eram impronunciáveis. A julgar por seu sotaque e pelo modo como se dirigiam a Konig, Queenie adivinhou que eram húngaros. Com um aceno ele chamou um garçom, que se aproximou com uma bandeja de prata e taças de champanhe. - Quero fazer um brinde a Queenie. - A Kveeny! - murmuraram os húngaros, com uma expressão de êxtase no olhar. Seguiu-se uma pausa, durante a qual cada um deles se aproximou, sorrindo e chocando de leve sua taça contra a dela e, em seguida, contra a de Konig. - Eles estão trabalhando num roteiro - explicou Konig. - E falam inglês? - Por que haveriam de falar? Conseguiremos alguém que fale húngaro para trabalhar com eles. Um roteiro é um roteiro. Vamos almoçar. - E Lucien? - Está trabalhando. Poderá comer com eles. De qualquer modo ele e Szabothy precisam aprender a se dar. O diretor e o câmera sempre se odeiam. E normal, mas não devem se sabotar. - É Lucien quem vai rodar o filme? Queenie notou que Konig não discutia suas decisões. Simplesmente presumia que todo mundo se submeteria a elas. - já que vocês dois vêm em dupla, por que não? De qualquer modo, em se tratando de você, ele funciona melhor do que Szabothy. O câmera pode apaixonar-se pela estrela, mas 279 o diretor, jamais. Lucien sabe como torná-la linda. Szabothy a fará interpretar. Eu a transformarei numa estrela. - Konig não disse o que se esperava que ela fizesse... Assim que se sentaram, Konig sorriu, agradavelmente surpreendido com o que via. Havia frios, todo tipo de salsicha, ganso defumado, patês, diversos tipos de pão, conservas, presuntos e uma galinha assada. - Sabe, eu como com simplicidade - explicou rindo. - Para você encomendei consomê, salmão morangos silvestres. Mandei trazê-los de Paris hoje É uma refeição muito apropriada a uma estrela. Era a primeira vez que alguém chamava Queenie de "estrela". Sabia que era algo prematuro, mas, mesmo assim, saboreou momento. - O senhor costuma comer assim todos os dias? - Sim, mas não vá imaginar que como muito, embora goze de muito bom apetite, graças a Deus. Quando, porém, alguém foi tão pobre quanto eu, a visão de toda essa comida é algo reconfortante. Ouro e diamantes podem ser roubados, o dinheiro a gente perde e muitas vezes as mulheres donam, mas um estômago repleto nos pertence! - O senhor foi muito pobre? - Muito. De vez em quando a comida não era Minha mãe escondia a parte que lhe tocava e a dava para mim mais tarde. Pobre criatura! Ela me amava como ninguém jamais me amou, sem o menor egoísmo, sem querer absolutamente nada em troco. Morreu antes que eu alcançasse sucesso suficiente para lhe proporcionar uma vida confortável. - Konig tomou um gole de champanhe, amargurado e um pouco deprimido. - Penso nela dez minutos diariamente. Será que essa meditação se realizava no mesmo dos os dias? Queenie sentiu vontade de perguntar, atreveu. - Minha mãe também era - Por quê? Ela morreu? - Não, mas não a vejo há muito - Você também era pobre? - Creio que não tanto quanto o senhor, pobre. - Pois então temos algo em comum. Isso me alegra. confiei em gente que nasceu com dinheiro. Prefiro os nouveaux riches, pois eles ainda não se entediaram com o dinheiro. Em todo caso, é preferível ser nouveau iiche a não ter dinheiro algum. o assim. tempo. mas ainda assim era ca Nun 280 - Como não tenho dinheiro, este é um assunto que desconheço. - Mas você terá. Faço questão de lhe prometer. Queenie abaixou os olhos e contemplou o prato. Imaginava que deveria abordar a questão de dinheiro, mas não sabia como. - Não acha que eu deveria ter um agente? - perguntou, comendo um pedaço de peixe. Tendo sido criada na Índia, não fora acostumada a comer peixe e o experimentou apenas por gentileza. Para sua grande surpresa estava delicioso, e ela manifestou sua opinião. - Em geral, tudo o que custa caro é bom, com poucas exceções. As pessoas acham vulgar escolher o vinho ou o prato mais caro de um menu, mas, a maior parte do tempo, o que mais custa é o que tem melhor qualidade. Você não precisa de um agente. Não digo isso para enganá-la, mas é um fato. É contratada de Dominick Vale e de um tal de Solomon Goldner. Se eu pudesse, compraria a parte deles em seu contrato, mas eles não estão dispostos a vendê-la. Terei, portanto, de negociar com eles. Não duvido que pedirão o preço mais alto possível. - Eles ficam - Eu sei. Isso é muito comum. Tive Caresse Rosay sob contrato. Ela ganhava cem mil dólares por ano e emprestei-a a Zuko"r, da Paramount, por dois anos, a duzentos mil dólares por ano. Obtive um lucro de duzentos mil dólares. Ela ficou indignada, mas é preciso não esquecer que fui eu quem a tornou uma estrela. Acho que merecia uma recompensa. Não que isso tenha trazido algum benefício a Zukor. Dois filmes dela foram um fracasso... - Nem Vale, nem Goldner vão fazer de- mim uma estrela - observou Queenie, procurando não se impressionar com as cifras que Konig mencionava com tamanha desenvoltura. - Você é mais perspicaz do que eu imaginava - ele disse, olhando-a por cima das lentes. - Pode deixar que eu me encarrego de Vale e de Goldner. Queenie não duvidava da capacidade de Konig em lidar com aqueles dois. Por outro lado, não tinha a menor condição de revelar que sentia medo de Vale, e menos ainda a razão para esse fato. - Não é nada fácil fazer negócios com Vale - preveniu. - Pode deixar por minha conta. Enquanto isso, estou disposto a pagar-lhe dez mil libras por ano, durante o primeiro ano. Faremos um contrato de três anos. Se rodarmos um filme, no segundo ano você ganhará quinze mil libras e, no terceiro, vinte. Você não parece ter ficado muito contente. com a metade. 281 Com efeito: Queenie calculava que Vale e Goldner ficariam com a metade. - É muito menos do que Caresse Rosay ganhava. - Mas ela era uma estrela, embora decadente. Ainda assim, era muito conhecida. Ouça-me: garanto que você ganhará muito dinheiro. Vou montar todo um esquema de produção em torno de você. Tenha um pouco de paciência. Afinal de contas, por que ganhar muito dinheiro agora, se você vai precisar rachá-lo com Vale e Goldner? Espere um pouco e, antes de mais nada, livre-se deles. Queenie consentiu, admirada. Aquela idéia não lhe ocorrera. Konig parecia ter uma resposta para tudo. Será que estava se aproveitando dela? O charme dele, porém, era tanto que ela se surpreendeu confiando nele ou, pelo menos, querendo confiar. Além do mais, ele lhe oferecia muito mais do que dinheiro. - Será como o senhor quiser - murmurou, baixando recatadamente os olhos. - Ao nosso sucesso! - brindou Konig. Após beber, contemplou Queenie com a expressão de uma sábia coruja, ave com a qual se assemelhava ligeiramente, devido aos óculos redondos e à expressão fisionômica. - Você deve estar dizendo a si mesma: "Ele é encantador, mas será que merece minha confiança?" Pois então ouça-me: só faço trapaças com atores e atrizes depois de eles alcançarem o sucesso. Quando isso acontece, eles já têm advogados, agentes, e sabem cuidar de suas carreiras. Sou como Robin Hood. Só roubo dos ricos. - E distribui o que rouba entre os pobres? - Ah, não. Não chego tão longe. - Konig pediu ao garçom que lhe trouxesse conhaque. - Bem, quanto a seu nome... - Qual deles? - Ambos. Rani não serve de modo algum. - Foi idéia de Goldner, por eu ter nascido na Índia. Konig não demonstrou o menor interesse pelas circunstâncias do nascimento de Queenie. A experiência lhe ensinara que a maior parte dos atores e atrizes mentiam a esse respeito e, em geral, por sólidas razões. - Nem pense nisso. Os americanos odeiam as colônias britânicas. - Meu nome verdadeiro é Queenie Kelley. Por que não posso usá-lo? - Lembra a Irlanda, e os ingleses odeiam os irlandeses. - O sobrenome de solteira de minha mãe era Jones. - Os ingleses também detestam os galeses. Eles ficaram em silêncio, e Konig levantou-se, aproximandoda janela. se 282 - Essas coisas são muito complicadas, mas têm grande importância. O nome de uma estrela precisa ser mágico. Quando conheci Maria, o nome dela era Esther Weisz. Pensei em "Ne gresco", que é o nome do meu hotel preferido em Cannes. - E Maria? - Ah, foi um engano, ou melhor, um acidente. Tive a idéia de chamá-la de "Maria", mas minha caligrafia é tão má que a secretária leu "Maria". Este foi o nome anunciado pela imprensa. Esther ficou indignada. Cortou com a tesoura quase doze camisas de seda que me pertenciam, mas era tarde demais. Ela acabou se apaixonando pelo nome. - E pelo senhor? - Também. Existem, porém, certos tipos de amor que são uma verdadeira coroa de espinhos. - Mas o senhor sente falta dela? - É, sinto, sim... É como um velho pulôver. A gente o usa anos e anos a fio e, quando o põe de lado, em vez de experimentar alívio, nasce uma sensação de perda... O telefone tocou. Konig deu um sorriso de desculpa e tirou o aparelho do gancho. - E da Califórnia? Sr. Fairbanks? Pois não, eu atendo. - Konig concentrou-se e tapou um dos ouvidos. - Douglas, meu caro! Como está o tempo aí? Você está tomando o café da ma nhã ao lado da piscina? Não, aqui está chovendo, é claro. Que mais? Ele ouviu durante alguns instantes, enquanto Queenie brincava com a colher. A idéia de alguém telefonar da Califórnia para Londres a deixava espantada. Sabia que era possível, mas gastar tanto dinheiro para fazer comentários sobre o tempo era algo difícil de entender. Konig, por sua vez, parecia não ter a menor pressa. Ela sempre acreditara que um dia acabaria participando daquele mundo. Graças a Konig, estava quase chegando lá e, no entanto, não sabia quase nada a respeito dele. Como seria sua vida particular, se é que ele a tinha? - Sinto falta dos abacates... E de você, é evidente, meu caro amigo... A distribuição? Não, ainda não pensei nisso... Bem, para ser franco, discuti rapidamente o assunto com Louis B. Ma yer, da Metro, antes de partir, mas nada ficou acertado. É claro que prefiro a United Artists. Nem é preciso dizer, mas será que Charlie concordaria? Konig fechou os olhos. Parecia estar tão concentrado que talvez nem mais percebesse que Queenie se encontrava presente. - Mas então fale com Chaplin. Estrela? Mas eu tenho uma estrela. Dê lembrança a Mary. Diga a ela que sinto falta de suas festas... Não, não, eu voltarei, você verá... derrotarei aqueles 283 filhos da mãe em seu próprio campo! - acrescentou, com uma ferocidade que deixou Queenie espantada. Ela percebeu, pela primeira vez, o quanto os negócios dele eram amplos e complicados. Dominick Vale era mais poderoso do que Goldner, mas Konig vivia em um mundo além do al cance dos dois. Queenie sabia pouco a respeito do umverso do cinema, mas tinha noção de quem eram Douglas Fairbanks, Mary Pickford e Charlie Chaplin. Pelo visto, Konig os tratava em pé de igualdade e tinha com eles as melhores relações de amizade. Konig desligou e serviu-se mais uma vez de café. - Que engraçado... Você sabia que Fairbanks é judeu húngaro? Naturalmente não gosta que se lembrem do fato. Quem pode censurá-lo? No cinema, tudo o que parece real é falso e, naturalmente, aquilo que parece mais falso é, de vez em quando, real. Fairbanks e eu íamos rodar um filme há alguns anos. Como é mesmo que se chamava? Darkest before dawn (Uma luz nas trevas), se não me engano... - De repente ele encarou Queenie, pôs a xícara em cima da mesa e começou a bater palmas, como se estivesse se aplaudindo. - Já descobri um nome para você! Não é nada mau: Dawn... - Dawn? - Sim. Não acha bonito? - Dawn Kelley parece que não combina muito bem... - Concordo. Dawn Kelley é um nome fora de cogitação. Tem de ser Dawn, sem dúvida, e um outro sobrenome. - Konig olhou a sua volta, mas nada parecia inspirá-lo. Contemplou suas abotoaduras e algo lhe ocorreu. - Que tal Sapphire? - Como? - Dawn Sapphire... como as pedras de minhas abotoaduras. Não acho nada mau, chega até a ter certa classe. - Konig encarou Queenie, procurando ver se aquele nome lhe ia bem, suspirou e apagou o charuto. - Não dá certo. É apelativo demais. Que pena! - Que tal Emerald? Sempre quis ter esmeraldas. - Os diamantes são um investimento muito melhor, querida. Nunca compre pedras coloridas. Elas se desvalorizam. É... Dawn Emerald não me convence muito... Queenie não deixou de notar que ele a chamara de "querida", um tratamento muito comum no meio do teatro e do cinema. - Você não se lembra de nenhum verso? Quem sabe, em algum deles, a gente encontra inspiração? - sugeriu Konig. Queenie recordou-se subitamente da sala de aulas de seu colégio na Índia. O pó penetrava pelas janelas escancaradas, e 284 o sr. Pugh, suando muito, não tirava os olhos dela. Vieram-lhe então à memória certos versos: - A ilha de Avalon... - recitou - onde não chove, nem cai neve ou granizo... - Avalon? Fui até lá certa vez, no iate de Jesse Lasky. Lembro-me de que foi um passeio muito desagradável. Uma das garotas a bordo tentou suicidar-se engolindo cacos de vidro. - Os versos são de Tennyson - disse Queenie, orgulhosa de seus conhecimentos. - Era um poeta medíocre. - Konig cerrou os olhos, pensativo. Depois abriu-os, levantou-se, aproximou-se da janela e veio até a mesinha, inclinou-se e pegou na mão de Queenie, beijando-a. - Você tem mãos lindas - declarou. - Precisamos recomendar a Lucien mostrá-las em close-up sempre que for possível. Passe sempre creme nelas. Pois então será Dawn Avalon! Esperemos que o resto venha naturalmente. Konig levou-a até a porta e abriu-a. O telefone tocava sem parar. Um criado do hotel, vestido de libré, aguardava pacientemente, segurando uma salva de prata repleta de cartas, telegra mas e bilhetes. Dois homens de terno escuro, com pastas de executivo, esperavam sentados no sofá. Pareciam deslocados naquele ambiente e um tanto nervosos. - Banqueiros - sussurrou Konig. - Tenho tanto o que fazer... Como está seu guarda-roupa? Bem sortido? - Não sei... - As mulheres nunca têm roupas em quantidade suficiente. Uma estrela de cinema precisa vestir-se melhor do que todas elas. - Konig enfiou a mão no bolso e retirou um enorme bolo de notas de cinco libras. Entregou-o a Queenie sem pestanejar e, antes que ela pudesse manifestar-se, afastou-se de braços estendidos, a fim de cumprimentar os banqueiros. Ele era igual a um mágico, pensou Queenie. Brandia sua varinha de condão e lhe acenava com uma vida nova e um futuro repleto de encantos, tão diferente que apagaria completamente o passado. Ela mal conseguia esperar... Queenie jamais havia subido num Rolls-Royce e fazia o possível para não demonstrar. Konig, que, sem dúvida, não usava outro carro, estava sentado na frente, ao lado do motorista. O convite para acompanhá-lo ao teatro viera no último momento, e Queenie viu-se obrigada a se vestir às pressas. Usava um vestido longo, cor-de-rosa, luvas brancas, sapatos rosados e um casaco branco, com barras douradas, escolhido por Lucien. Esperava que o efeito fosse suficientemente glamouroso e impressionasse 285 Konig. Como desejava ter um casaco de pele e jóias decentes! Sentou-se ao lado de Lucien no banco de trás. De cada lado da porta havia pequenos vasos de cristal, com botões de rosa, e no ar pairava um odor de couro fino, charutos e perfume. - O rosa lhe cai muito bem - observou Konig, olhando-a pelo espelho retrovisor. - Deveria usar sempre essa cor. Lucien esboçou um gesto de desânimo. Havia discutido um bocado com Queenie, devido a essa preferência, e agora via-se duplamente derrotado. Ela sorriu, com ar de triunfo. - O que a peça Romeu e Julieta prova é que nada consegue superar uma boa história. Um rapaz e uma garota se conhecem e se apaixonam. Suas famílias se opõem. O que mais é preciso? É claro que, com Beaumont no papel, a peça passe a girar em torno de Romeu. Margot Feral não tem, de modo algum, a mesma classe que ele. No cinema deveria mente o contrário. - Está pensando Queenie. - Sim, isso me passou pela cabeça. Por que levar um bolo novo ao forno quando existe um na prateleira, e dos mais apetitosos? Em se tratando de um filme, seria necessário mudar o enfoque. Uma garota apaixona-se, cresce rápido demais e morre, devido a isso. Por que não? Posso conseguir Cecil Beaton para fazer os figurinos. Ele é ótimo. Ou então Bakst, se conseguir arrancá-lo do Balé Russo. - Seria mais fácil trabalhar Lucien. - Não ligo para isso. É sempre difícil trabalhar com pessoas talentosas. Bakst desenhou figurinos maravilhosos para mim quando produzi Scheherazade, em Berlim, nos anos 20. Infeliz mente eram tão pesados que os atores desmaiavam, quando ligávamos os refletores. Tivemos de pôr blocos de gelo no estúdio é soprá-los com enormes ventiladores elétricos. Talvez Beaton seja, de fato, uma escolha mais apropriada. Konig ficou em silêncio. Fumava um charuto e parecia indiferente à multidão que caminhava apressada sob a chuva ou se abrigava debaixo das marquises, pois chovia torrencialmente e o tráfego não andava. As luzes de Piccadilly refletiam-se nas ruas úmidas. Queenie encolheu-se, um tanto constrangida, pois os pedestres olhavam pelas janelas. Seus rostos expressavam um misto de curiosidade, inveja e até mesmo ódio, segundo lhe pareceu. Decidiu que aquilo não iria estragar o prazer que sentia. O carro seguia lentamente para o teatro, atraindo a atenção de algumas dezenas de pessoas que se refugiavam da chuva. Ao verem o Rolls-Royce se aproximar, os porteiros do teatro vie ser exata em fazer um filme? - perguntou 286 iam correndo, de guarda-chuva aberto. Um deles protegeu Queenie, assim que ela desceu. Seus sapatos brilhavam à luz dos refletores que iluminavam a marquise, e o vestido cor-de-rosa refulgia como a plumagem brilhante de um pássaro contra o negror do Rolls-Royce lavado de chuva. A pequena multidão soltou uma exclamação involuntária de admiração, que aumentou de volume quando Lucien e Konig juntaram-se a Queenie. - Quem é ela? - perguntou No momento em que entrava no teatro, Queenie ouviu uma voz com pesado sotaque cockney expressar-se num tom carregado de desprezo. - Não preste atenção, benzinho. Não vale a pena. Ela não é ninguém... "Mas não por muito tempo!", refletiu Quëenie. uma mulher. Beaumont no palco foi uma verdadeira revelação para Queenie. Não era apenas a voz que impressionava. Sua energia, a precisão de seus gestos, o controle da expressão davam-lhe uma enorme projeção. Reconheceu seu talento e agora percebia até que ponto iam as deficiências dela. O corpo e o rosto do ator eram coevo uma orquestra que ele regia à vontade, dando a impressão de que seu desempenho era absolutamente natural, realizado sem o menor esforço. Beaumont tinha recheio nos ombros e havia maquilado o nariz de tal forma que ele parecia reto e bem-feito. O figurino moldava-lhe a cintura, e ele parecia um atleta. Desempenhou o papel de Romeu com tamanha vitalidade que, quando foram cumprimentá-lo no camarim, ele estava alagado de suor e tremia de exaustão, como um atleta que tivesse acabado de participar das Olimpíadas. Recebeu Queenie com amabilidade, mas sem entusiasmo. Em relação a Konig demonstrou certa reserva, que chegava às raias da hostilidade declarada. Konig não prestou atenção. Seu entusiasmo chegava a ser lírico. Falou com muito conhecimento de causa das outras interpretações de Romeu a que assistira no palco e no cinema, comparando-as desfavoravelmente à atuação de Beaumont. Este ouvia, com uma expressão um tanto vaga. Serviu-se de bebida, mas não a ofereceu a Konig. Esvaziou o copo de um só gole e voltou a servir-se. - Você é gentil demais - declarou, como que querendo dispensar as lisonjas de Konig. - Mas não o suficiente - declarou este, imperturbável. - Você esteve magnífico. Pensei cá comigo: "Ah, se pelo menos 287 eu conseguisse transportar isso para uma tela de cinema..: ' Em Hollywood todos diriam que é impossível, teatral demais. Diriam também que as platéias já não querem mais saber de clássicos... - Devem ter suas razões... - Na minha opinião enganam-se. Acreditam que as ,~latéias são estúpidas. Não compartilho dessa opinião. Beaumont passou uma toalha de algodão no rosto, vendo a maquilagem com um gesto circular e preciso. - Estive em Hollywood e detestei cada momento que passei lá. Barney Balaban veio aqui há umas duas semanas, na companhia de um homenzinho horroroso chamado Cantor. Não con segui pô-lo para fora de meu camarim. Ele deve ter ficado sentado lá pelo menos uma hora, dizendo o quanto tinha gostado de minha interpretação, embora eu não saiba o que ele conseguiu ver nela. Estava sentado na terceira fileira, roncando para valer. Beaumont massageou o rosto com creme e removeu-o. Queenie percebeu que ele estava se transformando mais uma vez. Serviu-se de mais um drinque e entrou, sem o menor esforço, em um de seus papéis preferidos: o do cavalheiro inglês, um tanto frustrado, não muito brilhante, um tanto desajeitado na presença de estranhos, mas muito bem-educado. Queenie achou que ele representavá muito bem, só que seus olhos o traíam. Neles havia um brilho maroto, mostrando o quanto ele se divertia. Tudo aquilo não passava de um jogo. Acaso Konig percebia que Beaumont zombava dele? Se percebeu, não deu a menor demonstração. - Balaban chegou a lhe fazer uma oferta? - Fez, sim, aliás muito generosa. Bem, eles são muito generosos, não acha? Beaumont deixou a pergunta no ar. Alguém menos sensível à questão racial do que Queenie tàlvez não percebesse o alcance do comentário. Ela não nutria antipatia em relação aos judeus. Era um assunto pouco apaixonante na Índia, onde havia muitas outras diferenças raciais e religiosas com que se preocupar, e quase nenhum judeu. Se Morgan não tivesse comentado que Goldner era judeu, ela mal teria notado. O caráter exótico de Konig lhe pareceu mais europeu do que qualquer outra coisa. Será que ele ficara ofendido com a observação de Beaumont? Konig, no entanto, limitou-se a sorrir. - Os americanos? Sim, sempre achei. - Após neutralizar o veneno contido na insinuação do ator, ele tirou um charuto da carteira de couro de crocodilo e o examinou. - Estou disposto a dobrar a oferta de Balaban. 288 - Dobrar? - A pose de Beaumont desapareceu no mesmo instante. - Sim, qualquer que tenha sido a oferta. é o dinheiro. Beaumont remexeu na mesa de maquilagem, copo vazio e serviu uísque a Konig. - Sem dúvida! Você, melhor do que ninguém, sabe disso. Eu, porém, sou um ator e não uma foca amestrada. Fui a Hollywood um dia e lá eles não sabiam o que fazer de mim. Não quero voltar, sobretudo agora. - Em primeiro lugar, esqueça-se de Hollywood. Vou rodar alguns filmes por aqui. Em segundo lugar, não sou um idiota como Balaban. Você é um artrsta, e a última palavra sempre será sua, em relação ao que você quiser fazer. - Aqui já existe uma indústria cinematográfica, Konig. Ela recorre a comédias românticas, a histórias de assassinatos misteriosos, com mordomos cômicos e coisas do gênero. - Para se fazer filmes é necessário apenas dinheiro e, é claro, talento. O dinheiro é, entre todas, a questão mais fácil. - Mas não no teatro. Não vou dizer que sua proposta não me tente, Konig, mas é que tenho outros planos. - Meu caro, estou certo de que conseguirei conciliá-los. Diga-me quais são. - Prometi fazer uma peça com Cynthia Daintry - revelou Beaumont, pigarreando. Konig suspirou. Mostrou-se compreensivo, como se entendesse qual a atitude a tomar em relação às promessas que se fazem às mulheres. - Por que, em vez de uma peça, ela? - sugeriu. Queenie sentiu a punhalada da traição, tão penetrante que quase mordeu a língua. Havia confiado em Konig, e agora ele quase chegava a dispensá-la, só para conseguir Beaumont. Não se dominou e olhou-o com profundo ódio, mas ele não pareceu notar. Tirou uma baforada do charuto, satisfeito como um homem que, tendo um trunfo na mão, sabe que vai ganhar a partida. - Detesto ter de dizer não - declarou Beaumont, levantando-se. - É que alguém já se dispôs a financiar a montagem da peça. - De quem se trata? A gente sempre pode contornar um compromisso desse tipo. - Não esse compromisso. Não me sinto livre para entrar em detalhes. O que conta encontrou um não roda um filme com 289 A despeito da raiva que sentia, Queenie conseguiu perceber uma sombra de medo na voz de Beaumont, como se ele tivesse falado mais do que deveria. Ele tirou o relógio do bolso e o consultou. Ao ver que horas eram, sua ansiedade pareceu aumentar. - Preciso me vestir - disse, todo atrapalhado. Depois de se despedirem de Beaumont, Konig ficou parado durante alguns instantes nos bastidores, atravancados com objetos de cena. - Devo estar envelhecendo. Tinha certeza de que conseguiria Beaumont, mas isso não aconteceu. Você achou que ele queria aceitar minha proposta? - Não tenho a menor idéia. - Queenie não fez nenhum esforço para dissimular a amargura que sentia. Konig se dispusera a livrar-se dela sem a menor consideração, já que isso servia a seus interesses. - Você está zangada... - Não estou, não. Ela sabia que não adiantava negar. Na realidade, queria que Konig soubesse que estava com raiva, mas, ao mesmo tempo, não suportava a idéia de deixã-lo perceber o quanto era fraca e desprotegida. A carreira dela estava nas mãos dele. Não tinha mais poder sobre ele do que uma criança sobre seus pais. - Não minta para mim - disse Konig com severidade. Ele abriu a porta do palco, que dava para um beco, e saiu primeiro. Era, sem dúvida, uma pequena descortesia, que ela reconheceu no mesmo instante como uma expressão da irritação que ele sentia. - Lucien, vá buscar o maldito carro. - Konig olhou-a com impaciência, por cima das lentes, enquanto Lucien, obediente, ia a procura do motorista. - Você precisa entender que eu te nho necessidade de Beaumont. Existem outros atores, eu sei, mas ele é o melhor de todos. Não posso pôr dois desconhecidos num filme. É arriscado demais. Até mesmo um ator de pouco nome é um problema. - Cynthia não é completamente desconhecida. - Cynthia? - Konig suspirou. - Deixe-me dizer uma coisa, antes que Lucien volte. Se existe algo que não tolero numa mulher é a estupidez. É estúpido não confiar em mim. É igual mente estúpido não ouvir com atenção. Eu disse a Beaumont que faria um filme com ele e Cynthia, não é mesmo? Não disse, porém, que seria o primeiro e nem mesmo o segundo. - Konig caminhou em direção ao Rolls-Royce, que estacionava diante deles. - Por outro lado - prosseguiu, sentando-se no banco da frente e não abrindo a porta para ela -, não sei por que 290 devo me dar ao trabalho de lhe oferecer todas essas explicações. Primeiro vamos ao hotel Claridge - ordenou ao motorista. Queenie sentiu-se profundamente estúpida e inexperiente, com a sensação de que havia ofendido o próprio pai. - Desculpe... - balbuciou. - Por que você está desculpando-se? - perguntou Lucien, enquanto o carro atravessava o tráfego congestionado de Piccadilly. - Não importa - disse Konig, sem se voltar. - Quem é o misterioso patrocinador de Beaumont? - Pode ser qualquer pessoa - comentou Lucien. - Existem pelo menos uns doze produtores dispostos a isso. - Não há a menor razão para fazer segredo em torno disso. A primeira coisa que um produtor faria seria anunciar a montagem. Talvez se trate de uma pessoa um tanto especial. - Acho que consigo adivinhar - disse Queenie, disposta a restabelecer a paz entre eles. Konig reagiu tirando uma baforada do charuto. - Creio que é Dominick Vale. - Bobagem! - disse Lucien. - Vale não se interessa absolutamente por teatro e mal conhece Beaumont. - Não é bem assim, Lucien. Eles são... amigos. - De modo algum. Eles não têm nada em comum. Ela_ ia dizer que ele se enganava também em relação a esse detalhe quando Konig finalmente se voltou. - O que a leva a supor que se trata de Vale? - O instinto. - Ela hesitava em revelar a Konig a intimidade que havia entre Vale e Beaumont, sobretudo diante de Lucien. - A vida me ensinou muitas coisas - observou Konig. - Uma delas é que não existe isso a que chamam instinto feminino. Trata-se apenas dos truques que as mulheres usam para não contar como fizeram uma descoberta. Você afirma que Vale é íntimo de Beaumont. Qual é o grau dessa intimidade? - Muito grande. O senhor deve ter notado que Beaumont receava tocar no assunto, o que é muito sensato. A maior parte das pessoas teme Vale. - É mesmo? Que interessante... Ele não me pareceu alguém particularmente temível. Você tem medo dele? - Não, pois não tenho nenhum motivo para temê-lo. - Queenie bem que gostaria que isso fosse verdade e arrependeuse por ter abordado o assunto com uma pessoa tão sagaz quanto Konig. ' - Quem sabe Beaumont tem suas razões para sentir medo, não? - Konig riu, divertindo-se com a própria conclusão. 291 O carro parou em frente ao hotel. Ele saiu do carro e tirou o chapéu. - Cuide de Dawn, Lucien. Ela vai tornar-se um bem muito valioso... - Dawn! - disse Lucien, pegando sorrindo. - Não consigo me acostumar mim ela ainda é Queenie. - Não, não, Lucien. Dawn deixou Queenie na sombra. Você verá. Acabará se acostumando com a mudança, e mais rápido do que imagina. Então, demonstrando uma agilidade notável, voltou-se e entrou rapidamente no hotel. Queenie ficou preocupada. Dissera bem pouco a respeito de Beaumont e Vale, mas, para um ho mem tão vivo quanto Konig, bastava. Ele descobriria o resto e saberia que atitude tomar. Com a ponta do dedo ela escreveu "Dawn Avalon" na janela do carro. Gostava bem mais daquele nome. Konig tinha razão. Lucien teria de se acostumar. a mão de Queenie e com esse nome. Para Queenie leu a manchete do Evening Standard Estava no carro de Lucien e leu para ele a notícia. "Em uma entrevista exclusiva com o conhecido produtor de cinema David Konig", escrevia Basil Goulandris, "ele me revelou seu grande segredo: sua versão cinematográfica de Romeu e Julieta terá, nos papéis principais, Richard Beaumont e a linda estreante Dawn Avalon. "Entrevistado em sua suíte no hotel Claridge, Konig disse a este repórter: 'Ela é dona de um rosto que vale milhões. Todos os estúdios de Hollywood a desejam a qualquer preço, mas eu recusei. Quero fazer filmes ingleses com atores ingleses'. "Quanto a Romeu e Julieta, Konig, no momento, está em entendimentos com George Bernard Shaw, a fim de que ele faça a adaptação. Picasso foi consultado para desenhar os cená rios, e os figurinos serão criados por Léon Bakst, do Balé Russo. 'Stravinsky quer compor a música', revelou Konig, 'mas estou conversando com Benjamin Britten e William Walton, pois prefiro um compositor britânico... " Lucien protestou, indignado. 292 "A GAROTA CUJO ROSTO VALE UM MILHAO DE LIBRAS. KOIVIG REVELA SUA MAIS RECENTE DESCOBERTA." - É típico de Konig! Ele diz qualquer coisa para se tornar manchete. Tenho certeza absoluta de que ele nem mesmo falou com Picasso! Queenie simplesmente o ignorou e contemplou sua foto, tirada por Lucien. Naquele exato momento, milhões de pessoas, 5 234 897, segundo o que anunciava o jornal, ao revelar o nú mero de seus assinantes e leitores, olhavam-na, possivelmente com inveja. Mal conseguia esperar para enviar um recorte a Vicky, na india. - Boa noite, srta. Avalon! O porteiro do Claridge tirou o chapéu, so, e fez uma reverência. Deu um sinal a que abrisse a porta, de tal modo que Dawn nem por um segundo. - Boa noite, srta. Avalon! - disse cortês quanto o primeiro. - Boa noite, srta. Avalon - murmurou o criado de libré, meias de seda e peruca empoada, enquanto os levava até o elevador. - Boa noite, sita. Avalon - desejou o maitre d hôtel, abrindo a porta da suíte de Konig. Ajudou-a a livrar-se do casaco de mink, que Konig emprestara do guarda-roupa do estúdio. Afinal de. contas, uma estrela deveria exibir-se sempre com um casaco daquela qualidade. - Boa noite, querida! - Konig abriu os braços, num gesto acolhedor. Beijou-a, ofereceu-lhe o braço e então, como se se lembrasse de algo que tinha deixado de fazer, acenou para Lucien. Queenie sabia que este último detestava os jantares de Konig. Queixava-se de que eram tediosos, convencionais, intermináveis, e ela teve de reconhecer que, até certo ponto, ele estava com a razão. A mágoa de Lucien, naquela noite, devia-se ao fato de que ele sabia ter sido convidado umcamente por causa dela. Konig sempre a colocava a sua direita, junto a seu convidado mais importante, enquanto Lucien era relegado ao fim da mesa, juntamente com os banqueiros menos importantes e suas esposas enfadonhas. Konig a conduzia em torno da sala, e Queenie notou que os convidados representavam a habitual mistura de dinheiro e poder: Sir Hugh Pomfrett, do Banco Hambro; Sir Conop Guth rie, presidente do Conselho do Banco Prudential; Victor de Rothschild; dois financistas da City, homens de traços severos, que pareciam pouco à vontade naquela brilhante sociedade; um político conservador em ascensão; Basil Goulandris, acompanhando um magnata da imprensa, por quem Konig mostrava certas de o num gesto respeitooutro porteiro para não tivesse de parar outro porteiro, tão 293 ferências, como se ele fosse o papa. A fim de divertir toda essa gente, Konig convidara também a princesa Ouspenskaya, Cecil Beaton, um conhecido romancista, o regente da Orquestra Filarmônica de Londres, além de Queenie e Lucien. A medida que Konig caminhava de um convidado a outro, murmurava certas instruções a Queenie. - Diga à sia. Pomfrett o quanto gostou do broche dela... Seja especialmente gentil com Lorde Woodlake. É dono de três jornais... Se aquele pernóstico fascista que é o Gorse conversar com você sobre política, procure parecer interessada... - Segundo os jornais, você conseguiu convencer Dickie Beaumont. - Convencê-lo? Não é bem assim. Graças a você, encontrei a pessoa que conseguiu persuadi-lo... - Vale? E deu certo com ele? - Creio que sim. Como a maior também tem seu preço. - E que preço foi esse? - Bem, ele quer projetar-se no mundo do cinema. Por que não? Posso perfeitamente lhe vender algumas quotas, como a qualquer pessoa. - Não sei se estou entendendo... - Felizmente você não precisa entender de assuntos financeiros, mas, na verdade, é muito simples. Se você tentar pedir emprestado a Vale cem mil libras, ele a expulsará de seu escritó rio. Se, porém, você o levar a adquirir cem mil libras em ações de sua companhia e lhe der assento no conselho de diretores, a história muda completamente. Saiba que Beaumont e Cynthia virão hoje à noite. Se havia alguém a quem Queenie não queria encontrar, era justamente Cynthia. Temia uma cena, que criaria uma situação ridícula. Somente após o jantar, quando as senhoras se retiraram, a fim de deixarem os cavalheiros entregues ao conhaque, aos charutos e à política, tradição inglesa que muito aborrecia Lu cien e Konig, embora este último disfarçasse melhor seu tédio, é que Queenie teve de encarar a necessidade de conversar com Cynthia. - Sente-se a meu lado - disse a princesa, no tom autoritário de costume. Queenie obedeceu e viu-se espremida no sofá entre a princesa e Cynthia Daintry. - Otimo - exclamou a princesa. - Deus me proteja das mulheres dos banqueiros e dos políticos. Conhece Cynthia, querida? parte 294 Mesmo a distância, a sofisticação e o encanto de Cynthia sempre aterrorizaram Queenie. Era loira, tinha olhos azuis, dona de uma beleza tipicamente inglesa, vestia-se com uma extra vagância e uma elegância natural que a tornavam a preferida de revistas de moda tais como Tatler e Vogue. Sendo filha de um rico marquês, seu lugar na alta sociedade inglesa estava garantido, e ela não hesitava em demonstrá-lo- Talvez fosse algo que ela não conseguiria esconder, mesmo se quisesse. A experiência de Queenie com os aristocratas era limitada, mas, mesmo à primeira vista, antes de saber quem era Cynthia, invejou seu imperturbável senso de superioridade, aquela risada um pouco insolente de alguém que pertence à classe alta, a precisão de sua fala, os olhos azuis e gélidos, que pareciam tratar o resto do mundo como se existesse apenas para diverti-Ia. Não havia como negar que Queenie era mais bela do que Cynthia, no entanto, aquela mulher a assustava. Isso não acontecia simplesmente por ela pertencer à mesma família que Pe nelope Daventry, embora não pudesse ignorar este fato. Era antes de tudo o receio de que Cynthia, a exemplo da sia. Daventry, pudesse pô-la "em seu lugar", por meio de uma palavra, um olhar de desprezo, um sorriso irônico. Queenie sabia que tinha condições de se defender de muita coisa, mas não do ridículo. Desconfiou que Cynthia tinha muita presença de espírito. Cyiithia, porém, não se sentia disposta a exibi-lo à custa de Queenie. - Fico muito contente em conhecê-la finalmente, querida. Você é muito mais bonita do que eu imaginava. O cor-de-rosa lhe vai muito bem. Lucien ficou fulminado, ao vê-Ia pela pri meira vez naquela horrível boate. Ele me deixou indignada, pois não conseguia tirar os olhos de você. Felizmente tudo terminou bem para nós três... - Gostaria que os homens se apressassem - disse a princesa, tomando um gole de licor. Detestava ficar separada dos homens, da mesma forma que Konig não suportava ficar longe das mulheres. - Eu, não. É um alívio a gente conseguir livrar-se deles - declarou Cynthia. Acendeu um cigarro, embora o anterior ainda estivesse aceso no cinzeiro. - Konig por acaso a cantou, Queenie? Não se importa se eu a chamar por este nome, não é mesmo? - Francamente, prefiro Dawn. - Eu a compreendo. Meu apelido era Titi e meu pai me chama assim até hoje. Eu detestava, quando era menina, e ainda detesto. Deve ser por isso que ele insiste. Pois então eu a chamarei de Dawn. 295

I - Obrigada. Não, Konig não deu em cima de mim. - Graças a Deus. Estava esperando que ele agisse assim comigo. Ele, porém, comportou-se como um verdadeiro cavalheiro e comecei até a achar que não gostava de mim. A maior parte dos produtores de cinema dão em cima da gente, antes mesmo de dizer "muito prazer". Quem sabe Konig é, de fato, um verdadeiro cavalheiro. Que tédio... Queenie sentiu, aliviada, que Cynthia dispunha-se a tratála em pé de igualdade. De perto, notava-se que havia nela algo de muito frágil, como se fosse uma caríssima peça de cristal que poderia partir-se ao menor toque. Sua pele era tão alva que quase chegava a ser transparente, e havia algo em seus olhos azuis a sugerir que ela estava sempre muito próxima da histeria. - Detesto jantares como este - ela disse, fazendo um sinal ao garçom para que ele a servisse novamente de conhaque. Ocorreu a Queenie que ela talvez estivesse um pouco bêbeda. - Quanto a mim, confesso que os aprecio - declarou. - Que sorte! Como é que você conseguiu convencer Lucien a vir? Bem que gostaria de saber. Eu precisava fazer o impossível para persuadi-lo a comparecer a um jantar. - Acho que a façanha é de Konig e não minha. Lucien não se sente à vontade para lhe dizer não. - Pelo visto isso acontece com todo mundo. Parece que todos nós vamos trabalhar para ele, como uma grande família, feliz e umda. Mas onde anda o garçom? - Cynthia bebeu o. resto do conhaque e estendeu o copo, que o garçom apressou-se a encher. Queenie, que tonteava com apenas uma taça de champanhe, ficou admirada e horrorizada. - Lucien ainda tem aquela foto minha? - Sim, mas para ser franca, fiz com que ele a guardassè. - Graças a Deus! Eu devia estar louca, quando posei para ele. Essa história de que você foi educada na corte de um marajá é verdadeira? Queenie sentiu-se tentada a admitir que não, mas refletiu melhor e balançou a cabeça. - Mas que sorte! Minha infância não podia ter sido mais tediosa. Vivia rodeada de babás, governantas, pôneis e, mais tarde, trancaram-me num colégio interno. Sempre tive vontade de fugir com os ciganos, mas faltou-me coragem e, em vez disso, fui para o palco. Infelizmente papai, em lugar de enfurecerse, ficou entusiasmado. Esqueci-me de que ele tem fascinação pelo teatro, e meu ato de rebeldia simplesmente gorou. Talvez por isso tenha insistido numa ligação com Lucien, o que deixou papai tremendamente aborrecido. 296 - Você gostava muito de Lucien? - perguntou Queenie. Estava espantada por ver Cynthia discutir sua vida particular tão abertamente com uma pessoa desconhecida. - Sim, era louca por ele. Ele é divino na cama, como você bem sabe... Não creio, porém, que ele me amasse. Quando a coisa é umlateral a situação piora rapidamente, não é mesmo, querida? Quando você surgiu, fiquei com tamanha raiva que seria capaz de matá-la, mas tive de reconhecer que me prendia a algo que não existia. - Toda essa conversa sobre o amor me faz sentir ainda mais velha do que sou - queixou-se a princesa. - Na minha idade a comida é mais importante! Konig é um anfitrião mara vilhoso, não acha? É tão raro a gente comer um caviar de boa qualidade... Claro, ele é judeu. Nunca consegui entender o antisemitismo. Foi uma das idéias mais tolas do pobre czar. Os judeus eram exatamente do que a Rússia mais precisava... Ah, finalmente aí vêm os homens! - Precisamos conversar novamente, e em breve, querida - disse Cynthia, deixando o copo de lado. Levantou-se, cambaleou de leve e atravessou a sala, passando o braço em torno da cintu ra de Richard Beaumont, numa explosão de afeto que pareceu deixá-lo muito constrangido. - Espero que ela não volte a cometer o mesmo erro - disse a princesa ao observar a cena. - Acho, porém, que é inevitável. As pessoas vivem repetindo seus erros. Queenie ficou a imaginar o quanto a princesa sabia a respeito de Beaumont. - O que é um erro, no caso? - perguntou, consciente de que estava à procura de uma resposta que confirmaria suas suspeitas. - Dickie Beaumont é inglês. Tem talento, é atraente, encantador, mas não sabe nada a respeito das mulheres. Ela é finda, tem um pai rico que ama o teatro. Cynthia está apaixo nada por Beaumont. A situação parece muito atraente, mas o pobre coitado mal sabe o que o espera. Não é um destino invejável ser objeto da paixão de alguém. Durante alguns instantes Queenie pensou em Morgan. Paixão parecia um conceito um tanto exagerado para descrever o que ele sentia por ela, mas talvez se tratasse exatamente disso. Seria ela a paixão de Lucien? O fato parecia possível, na medida em que ele era capaz desse sentimento. E ela, teria sentido uma grande paixão por alguém? Precisava reconhecer que não, se isso significasse sacrificar tudo por uma pessoa. Percebeu que Konig, do outro lado da sala, lhe fazia um sinal. JII I~~~,~.Il~~i 297 - Vá, vá, Konig quer exibi-Ia - encorajou-a a princesa. - Se você ficar sentada ao lado de uma velha como eu ele não conseguirá levantar fundos para a próxima produção... - Acho bem mais interessante ficar cóm a senhora. - Claro que é, querida, mas não foi por isso que você veio até aqui. A princesa ofereceu o rosto, para que Queenie o beijasse. A sala começava a encher-se de mais convidados, que chegavam após o jantar. Ela já havia percebido que Konig detestava ir para a cama e faria o impossível para adiar o momento em que se veria sozinho em sua suíte. Em vez de pôr um ponto final em seus jantares às onze horas, costumava convidar um segundo grupo de amigos e conhecidos, gente que jantara em outro lugar ou fora ao teatro. Tratava-se de atores, políticos, artistas e escritores. Quando chegava a hora de eles se retirarem, Konig punha-se a jogar pôquer até de manhã com algum ricaço atacado de insônia, a quem ele convencia a ficar. Um homem voltou-se para Queenie, quando ela cruzava a sala. Era Dominick Vale, que não parecia nada contente. - Você anda interferindo em meus negócios - ele se queixou. - Não sei o que você quer dizer - Acho que sabe, sim. Acaso esteve me espionando? - Claro que não! - Mas então o que me diz da atitude de Konig, que apareceu no meu escritório, anunciando que Dickie Beaumont não fará um filme sem me consultar? - Pelo jeito é verdade. Beaumont vai fazer o filme. David disse que você está pondo dinheiro na companhia dele. - Ah, agora você o chama de David, é? Acontece que, de vez em quando, dou uns conselhos a Beaumont, no que se refere a negócios. Nem todo mundo sabe disso, e nem eu quero que fique sabendo. Estamos entendidos? - Perfeitamente. - Ainda bem. Todos temos nossos pequenos segredos. - Vale deu um sorriso azedo. - Eu diria que os seus são mais delicados do que os da maioria das pessoas. Konig fazia sinais para ela com impaciência, mas Queenie ficou gelada por alguns instantes, paralisada pelo medo. A única segurança com que poderia contar estava no futuro. Teria de tornar-se tão bem-sucedida, tão famosa, tão inatingível que Vale não ousasse ameaçá-la. Reunindo toda a sua coragem, 'Queenie dirigiu um sorriso encantador a Konig e aproximou-se, tomando-lhe o braço. rês, com isso. escondida nos bastido 298 12 Como Konig não dispunha de muito capital, ficou decidido que as filmagens seriam iniciadas com as cenas finais de Romeu e Julieta. As tomadas com muitos personagens, que im plicavam grandes investimentos, seriam rodadas mais tarde. Era um procedimento habitual no mundo do cinema, mas que dificultou a Queenie a compreensão do que fazia e de suas motivações. Imaginava que um diretor mais compreensivo e solidário lhe daria muitas explicações, mas esses traços não faziam parte do método de Szabothy. Ele exigia obediência absoluta. Queenie detestava que gritassem com ela e odiava ainda mais ser tçatada como uma idiota. O pior é que se sentia traída. Konig desaparecera assim que as coisas engrenaram. Passava os dias com financistas e banqueiros. Seus pensamentos já se voltavam para o próximo filme ou para aqueles ambiciosos projetos de criar o que a imprensa já denominava uma "Hollywood às margens do rio Tâmisa". Sem Konig para refreá-lo, Szabothy concentrou todas as suas exigências em Queenie. Certo dia, inesquecível para ela, foi obrigada a fazer trinta e sete tomadas para uma cena de apenas um minuto, sem satisfazê-lo, até que finalmente seus nervos explodiram e ela saiu correndo da locação. Quando voltou, amparada pelo maquilador e pela guarda-roupeira, como uma virgem resignada a ser sacrificada aos deuses, Szabothy limitou-se a franzir o cenho e lhe dirigir uma pergunta irônica. - Agora que chorou bastante está disposta pouco mais? - Não saí correndo porque queria chorar, mas porque tinha vontade de matá-lo. - Bravo! - retrucou Szabothy com desprezo. - Ainda há esperança de que você se torne uma atriz. O que deixava Queenie furiosa é que sabia que estava melhorando, a despeito de Szabothy e não por causa dele. As exigências dele pareciam ter o propósito de deixá-la pouco a trabalhar um 299 à vontade. Os pés pequenos eram, para Szabothy, uma verdadeira obsessão, por isso insistia em que Queenie usasse sapatos dois números menores, com saltos esquisitos e curvos, que, segundo ele, eram de época. Queenie desconfiava, porém, que ele estava apenas criando-lhe uma dificuldade a mais, enquanto cambaleava e tropeçava. Sofria diariamente, sem saber o que fazer para se poupar. Não ousava queixar-se a Konig, pois, no fundo, desconfiava que ele, de algum modo, a estava testando, procurando ver até que ponto ela seria capaz de agüentar. Uma queixa, no caso, seria uma atitude que ele consideraria bem pouco profissional. Nem Lucien, nem Beaumont se encontravam em posição de ajudá-la perante Szabothy, pois este desprezava os câmeras e se vangloriava de não aceitar "reclamações de atores", por mais destacados que fossem. No primeiro dia da terceira semana de filmagem estava massageando os pés doloridos, desolada. Sabia carreira ia de mal a pior, por causa de Szabothy, mas quando ouviu aquela voz desagradável e estridente convocandoa, das profundezas do enorme palco, é que percebeu o quanto estava próxima de desistir. - Todos nós estamos esperando-a para irmos em frente - ele gritou. - Não é tão difícil ássim e qualquer criança seria capaz de dar conta do recado. A senhorita ouve um barulho e pensa que é a ama trazendo notícias de seu amante. Ergue a cabeça e olha à direita, pois é lá que está a porta. Será que é pedir muito? Acha que as pessoas irão assistir ao filme só porque está piscando como uma vaca estúpida? Pois é aí que se engana... Queenie mordeu o lábio. Não a incomodava tanto o fato de Szabothy chamá-la de Queenie ou de srta. Queenie, mas ele fazia isso diante de toda a equipe, que então lhe dava o mesmo tratamento. - Estou procurando parecer o mais triste possível. - Triste? Sua fisionomia não passa nada. Você tem apenas um rosto bonito. Faça o que eu mandar e não olhe para Chambrun, quando eu lhe dirigir a palavra. Não é ele quem dirige o filme, sou eu. Queenie amaldiçoou Konig por sua ausência. Preocupada, voltou a fazer a cena. Sabia que, por mais que se esforçasse, ele não ficaria satisfeito, e foi com amarga sensação de derrota que o ouviu gritar "Corta!" antes que tivesse chegado à metade. Szabothy aproximou-se com o chicote em riste e permaneceu em silêncio. Durante alguns instantes ela chegou a sentir medo, mas o instinto lhe dizia que a única maneira de derrotar 300 aquele homem era provocando-o. Ele apontou o chicote para Queenie até a ponta quase tocar o rosto dela. - Sua vaca, sua estúpida - ele disse, entre dentes. Será que ele iria chicoteá-la? Havia um único modo de ficar sabendo. Queenie pegou a ponta do chicote, arrancou-o da mão dele e jogou-o o mais longe que podia. Fez-se subitamente silêncio no palco, interrompido umcamente pelo barulho do chicote caindo atrás do cenário. Queenie encarou Szabothy com altivez. O rosto dele perdeu a cor desbo tada de todos os dias e ficou escarlate e, em seguida, pálido. Os músculos estavam retesados, como se ele estivesse mastigando a própria língua. De repente ele se endireitou, tirou a luva e, com um ruído que ecoou pelo palco inteiro, esbofeteou-a. - Mistctück! - berrou, possesso. - War f~illt dir ein! Queenie sentiu o rosto pegando fogo, mas sabia que havia derrotado aquele homem. Ele havia cruzado os limites e dado um passo a mais, que o colocava em situação desvantajosa. Queenie olhou-o com tamanho ódio que ele deu um passo para trás. - Você está liquidada! - declarou ele, mas havia temor em seu olhar. Um diretor podia gritar com uma atriz, insultála, ridicularizá-la, mas jamais agredi-Ia fisicamente. Aquilo jamais acontecera, nem mesmo em Hollywood. Szabothy pôs a luva e, por alguns segundos, Queenie chegou a pensar que ele iria agredi-Ia mais uma vez. Percebeu que Lucien fazia o possível para se controlar e não se atirar em cima de Szabothy. De repente se ouviu uma voz profunda, do outro lado do palco. Konig surgiu diante deles. - Parem. Deixem de brigas, por favor - disse com toda a calma. Apoiava-se na bengala e levava o casaco por cima dos ombros, como a capa de um mágico. Abaixou-se e pegou o chicote, entregando-o a Szabothy. Olhou-o, preocupado, sacudiu a cabeça e suspirou. - Ouvi dizer que você não está satisfeito com a filmagem. - É o melhor que posso fazer, com aquilo que tenho. Você precisa de uma nova estrela. - É mesmo? Entendo que você não esteja contente com aquilo de que dispõe. Nenhum perfeccionista se satisfaz com o próprio trabalho, mas receio que exista um problema ainda maior. - O que é? - Eu não estou contente com os resultados. Detesto dizer isso, mas acho que precisamos não de uma nova estrela, mas de um novo diretor. - Não existe ninguém tão bom quanto eu, Konig. É um' fato. 301 - É um fato, Vilmos, e o conseguindo o melhor de Dawn. lhe desculpas. O erro foi meu. despedido. Szabothy encarou Konig por alguns instantes e deu de ombros. Reconhecia a voz da autoridade quando a ouvia. - Muito bem. Terminarei a filmagem de hoje e então você poderá substituir-me, mas acho que está cometendo um erro. - Talvez. Provavelmente. Não precisa ficar, Vilmos. Para dizer a verdade, seu substituto já se encontra aqui, pronto para trabalhar. - Quer dizer então que você já contratou alguém? - Szabothy ficou rubro de raiva, e seus olhos lançavam chispas. - Quem é ele? Quem é esse diretor de segunda classe que você estava escondendo, Konig? Diga para que eu possa cuspir nele! - Sou eu mesmo - declarou Konig com toda a simplicidade. Fez-se uma longa pausa, e Szabothy soltou um suspiro, como um balão que murcha. - Você está afastado do cinema há muito tempo. - Havia gentileza e até mesmo bondade em sua voz, como se ele estivesse sinceramente preocupado. - De qualquer modo, você não pode financiar, produzir e dirigir, David. Ninguém pode. Há muitos anos que você está sentado por detrás de uma mesa, em reuniões de negócios, discutindo com banqueiros. Já se esqueceu como é o cinema, meu amigo. Szabothy fez um gesto apontando os refletores, a aparelhagem, o chão, tão repleto de fios e cabos que somente um homem experiente poderia caminhar pelo palco sem tropeçar. Quee nie permanecia no centro do palco, de braços cruzados. Em torno dela umas cem pessoas, técnicos de som, assistentes de câmera e de fotografia, maquinistas, contra-regras, maquilàdor e cabeleireira, aguardavam as ordens que os enviariam de volta ao trabalho. Era um pequeno exército privado de seu comandante. - Mas isso vai matá-lo! Desista, David! - Não tenho medo de dirigir meu próprio filme, Vilmos. Não sou tão velho assim. - Não é nisso que estava pensando. - Szabothy olhou para Queenie e sacudiu a cabeça, triste. - Você está velho demais para àco, meu amigo. - Cale-se, Vilmos - Konig disse, muito pálido, demonstrando raiva pela primeira vez. - Vou pegar meu chapéu - anunciou Szabothy, tirando o lenço vermelho que lhe envolvia a cabeça. - Não se incomode. já mandei levá-lo para seu carro. reconheço, más você não está Isto também é um fato. Peço-` Em outras palavras: você está 302 Konig adiantou-se e parou ao lado da cadeira de Szabothy. Um assistente entregou-lhe uma cópia do roteiro e o pequeno dispositivo de enquadrar as cenas, pendurado em um fio preto, que colocou com um gesto de respeito em torno do pescoço do novo diretor. Konig estalou os dedos e a grua desceu. no assento, passou o cinto de segurança em fez um sinal com a cabeça. Quéenie contemplou-o pairando acima dela. Era como se Konig sentisse necessidade de estudar a cena a distância ou talvez quisesse simplesmente ficar sozinho por alguns instantes, bem acima do palco. Ele suspirou, acendeu um charuto, pegou o megafone e, com muita calma, deu suas ordens. - Luzes! Maquilagem para a srta. Avalon! Vamos voltar a trabalhar. Abaixem-me. - A grua movimentou-sp, e ele ficou com a cabeça no mesmo nível que a de Queenie. - Logo isso passa. Que dificuldade é essa que você tem de andar? - Meus pés doem. Os sapatos são apertados demais. - Tire-os. Seus pés não aparecem nesta tomada. - Konig tirou uma baforada do charuto. - Devo-lhe desculpas. Szabothy não foi uma escolha acertada. Essas coisas acontecem. Muito bem, vamos aos fatos: é tarde da noite, você sente frio, está sozinha e assustada. Espera notícias do homem a quem ama e que a ama! Ouve um barulho na porta. Todo seu corpo reage. - Mas o que devo fazer? - Não importa - disse Konig com muita paciência. - O que conta é o que você sente. Se sentir aquilo que estou dizendo, então fará o que é correto e automaticamente. Seja você mesma! Alguma vez já se sentiu assustada e solitária, Dawn? - Sim... - ela disse timidamente. - Pois então quero que se sinta assim agora. - Ele desceu do assento da grua e o cedeu a Lucien. - Quero um enquadramento bem nítido. - Konig sentou-se na cadeira do diretor e cruzou as mãos em cima do castão da bengala. - Ação - ordenou. Queenie ouviu o barulho da claquete e voltou-se para ele. Seu rosto exprimia profunda gratidão. Afinal de contas, Konig havia despedido o odioso Szabothy! Surpreendeu-se, pois ele sorria, com ar de aprovação... ou seria algo mais? De repente era como se ela entendesse perfeitamente o que Konig queria. Sentiu intensamente a situação e estendeu os braços em direção à porta, como se, por detrás dela, estivesse tudo o que mais queria da vida: fama, riqueza, sucesso, segurança. Correu para a porta, enquanto Lucien operava na grua, tão perto que quase a tocou. Ele se acomodou torno do peito e 303 - Corta! - ouviu K.onig dizer, sem disfarçar a satisfação que sentia. - Tomada aprovada. Então Queenie percebeu que toda a equipe aplaudia. Sabia que em parte os aplausos eram para Konig. Após anos como produtor, ele voltara ao ponto em que se iniciara no cine ma, antes mesmo de ela nascer. A equipe havia acabado de presenciar um retorno que se transformaria quase numa lenda. Queenie sabia também que parte dos aplausos eram destinados ela. a Konig levantou-se e começou a aplaudir. Aproximou-se, pegou a mão dela e beijou-a, com um sorriso. - Obrigado, Dawn. Você provou que eu tinha razão. Queenie agora tinha sua própria cadeira e seu nome estava na parte de trás: DAWN AVALON, com uma estrela por cima. Encolheu-se toda. Sentia frio, muito cansaço, e um casaco a agasalhava. Ao lado dela, em cima da cadeira de Konig, havia uma cópia do Daily Express. Lá estava uma foto de David Konig, com a seguinte legenda: "DAVID KONIG LANÇA KING FILMS". Queenie virou a página. "O empresário David Konig anunciou hoje o início das atividades de uma companhia inteiramente inglesa, com capital de mais de um milhão de libras. O sr. Konig dirige o primeiro grande filme da companhia, Romeu e Julieta, estrelado por Richard Beaumont e a glamourosa estreante Dawn Avalon. Os próximos filmes contarão com a participação de Lady Cynthia Daintry e Margot Feral. Incluirão uma versão épica de Guerra e paz. Entre os diretores da King Films Ltd. estão o marquês de Arlington, presidente honorário, o sr. Dominick Vale e o sr. Solomon Goldner. Para maiores detalhes, ver a página financeira." Queenie procurou-a, e a mesma notícia era contada com maiores detalhes, a maior parte dos quais lhe eram incompreensíveis. Konig aceitou o cargo de diretor comercial e anunciava a compra dos velhos estúdios da Pathé-Gaumont no bairro de Teddington. Prometia transformá-los nos mais sofisticados e modernos de todo o mundo. O grande arquiteto Le Corbusier já estava trabalhando no projeto. A figura central de toda essa publicidade estava num canto escuro do palco, entretido em conversar com o chefe dos maquinistas, que se estava queixando de que seus homens estavam exaustos. Dado o sotaque de Konig e o pesado cockney falado pelo chefe dos maquinistas, a comunicação entre ambos parecia altamente comprometida. Queenie percebeu, a distância, que eles haviam chegado a um entendimento, o que não a surpreen 304 deu em absoluto. Konig implorava, suplicava, adulava, encantava e, quando a conversa chegou ao fim, o chefe dos maquinistas fumava um de seus charutos e os homens voltavam ao trabalho. O gosto de Konig pelo grandioso era notável. Quando viu o cenário preparado para a cena do baile, não se contentou. - Façam-no maior - exigiu. No dia seguinte mostraram-lhe um cenário amplo, mas ele o olhou com insatisfação. - Quero maior ainda - disse, voltando a mente seu catálogo de livros raros. Os carpinteiros trabalharam a noite inteira, mas, pela manhã, Konig simplesmente voltou-se para o exausto diretor de arte e comunicou-lhe sua opinião. - Obrigado, meu caro, mas quando eu digo grande, é para valer... O cenário foi refeito mais uma vez, tornando-se o maior de toda a história do cinema, na Inglaterra. Konig não media os custos. Ao ver os figurinos de Dawn, não se mostrou satisfeito. - Há alguma coisa que não bate - queixou-se. - Ela não me parece feliz... - Examinou um dos trajes que ela usava, olhou atentamente seu penteado e a maquilagem. De repente surgiu um brilho em seus olhos. - É o colar! Trata-se de uma - Claro que sim, sr. Konig - mas parece verdadeiro. - Talvez, mas nós sabemos que não é verdadeiro. Nenhuma mulher pode sentir-se verdadeiramente feliz usando bijuteria, meu amigo. Dentro de uma hora chegou um homem da joalheria Cartier com um pequeno estojo negro, que abriu com chave, revelando um fabuloso colar de diamantes sobre fundo de veludo. - Está segurado por cem mil libras - disse, nervoso. - Não quero me incomodar com esses detalhes. - Konig colocou o colar no pescoço de Dawn, fechando-o com um gesto preciso. - Ah, melhorou muito! Para grande surpresa dela, ele decorreu tranqüilamente, e Dawn duas vezes mais examinar calma imitação, não? protestou o figurinista -, tinha toda a razão. A cena nunca pareceu tão bela. Konig sempre tinha razão, pensou Queenie, enquanto ele a seu lado. Parecia se aproximava e sentava-se sempre, aliás. - Tenho lido tudo a exausto, como seu respeito - ela comentou. 305 - É mesmo? Até que é uma bela história, não? Parte dela é verdadeira. - Fiquei muito isso? - A verdade é menos impressionante. Não disponho de dinheiro suficiente para tudo que pretendo fazer, mas o resto virá por si. O importante é terminar este maldito filme. Uma vez que a gente consegue convencer certas pessoas a entrarem com dinheiro, não é problema envolver mais gente, mas é preciso mostrar-lhes que alguma coisa está acontecendo. Caso contrário, eles ficam nervosos. - Não entendo por que você precisa de Goldner. - Convenci-o a investir um pouco de capital. Creio que é um homem útil na diretoria. Tem profundo bom senso e, de qualquer modo, precisamos de um judeu. Ninguém na In glaterra confiaria numa diretoria que não contasse pelo menos com um nome judeu. Os ingleses depositam uma fé tocante no senso comercial dos judeus. Em breve chegará o momento de exibi-Ia por aí. Preciso conversar com Basil. Contratei-o. É uma raposa solta no galinheiro, tomando conta das galinhas... Veremos. Está na hora de soltar algumas notícias nas colunas. - Exibir-me? Como? - Você precisa ser vista em festas, no teatro, nas estréias de filmes. O que você faz em frente às câmeras é importante, mas é apenas metade do negócio. O que costuma fazer à noite? - Lucien e eu vamos para casa. Ambos ficamos exaustos, após dez ou doze horas de trabalho. Sentimo-nos felizes de ir para a cama... - Mal deixou escapar essas palavras, Queenie arrependeu-se. - Que sorte! - disse Konig, com uma ponta de inveja. - Infelizmente isso não funciona! Para início de conversa, as estrelas jamais ficam cansadas, pelo menos não em público. Não se imagina que fiquem doentes ou deprimidas. O público espera que uma estrela seja bela e feliz cem por cento do tempo e tem todo o direito de esperar, Dawn. É ele quem compra as entradas. Você pode fazer o que bem entender, contanto que não destrua suas ilusões. Recomendarei a Basil que organize para você um roteiro de festas e de reuniões sociais. - Acho melhor prevenir Lucien. - Oh, não há a menor necessidade de incomodá-lo - disse Konig com displicência, pondo a mão em cima da dela. - Ele não se importa em saber o preço das coisas - observou Basil Goulandris com admiração. - Quando me contra 306 tou, tivemos uma ligeira conversa sobre minhas despesas. Sabe o que ele disse? "Só me preocupo se for barato demais!" É bem verdade que não está gastando o dinheiro dele, mas... - E de quem é o dinheiro que ele está gastando? - perguntou Queenie, olhando o novo escritório de Goulandris, que parecia uma galeria de arte. Quanto a ele, parecia mais próspero do que nunca. Usava uma flor na lapela e parecia ter engordado pelo menos cinco quilos. - De Vale, de seu amiguinho Goldner, de Arlington. Konig gastaria o meu dinheiro, se me convencesse a comprar algumas ações da companhia, ou então o seu. O grosso vem dos bancos e da companhia de seguro. Konig é capaz de arrancar dinheiro de um cofre de segurança, uma vez que decida isso. - Você parece estar vivendo muito bem... Goulandris olhou seus novos domínios com enorme satisfação. - Não tenho de que me queixar. Aprendi uma coisa. Gente como Konig é exigente e só quer o que existe de melhor. Assim sendo, não sentem o menor respeito por gente que não pensa e age como ele. Não tem sentido tentar economizar quando se trabalha para um homem que despreza economias... Você também está indo otimamente, se me permite a observação. - Suponho que sim. Não tenho tido tempo de pensar nisso. Sempre imaginei que iria fazer compras na loja ou butique de minha preferência, assim que tivesse dinheiro, mas ando ocupada ou cansada demais para isso. - É o preço da fama, minha cara. Trabalho demais para torná-la famosa, e a censura só cabe a mim. Acho que Konig está tirando um bom proveito de seu dinheiro. já leu este jornal? Goulandris abriu o Daily Express, localizou a coluna de William Hickey e mostrou-a a Queenie. Via-se uma foto de Konig e dela, na noite da estréia de uma nova peça de Noel Co ward. Queenie examinou-a com cuidado, chegando à conclusão de que estava repetindo demais o vestido cor-de-rosa de Molyneux. Precisava de mais roupas. Falaria com Konig a esse respeito. - Como vai Lucien? - perguntou Goulandris. - Ótimo. - Não era bem verdade. Lucien ultimamente mostrava-se bastante irritável. Konig a retinha até bem tarde, "exibindo-a por aí", conforme dizia, enquanto Lucien ficava trabalhando no estúdio, ocupado com a montagem do filme. - Ainda bem. Só perguntei porque a publicidade em torno de você poderia deixá-lo aborrecido. - Mas por que ele se aborreceria? 307 Goulandris entregou-lhe alguns recortes. Peter Pindar, do Daily Mail, também publicara uma foto de Dawn, com a seguinte legenda: "As cabeças giraram, ao ver a linda Dawn Ava lon, quando ela chegou à festa oferecida à sia. Sigsbee Wolff, que volta para a Califórnia amanhã. A srta. Avalon, uma formosa visão cor-de-rosa, chegou de braços com o sr. Konig. Comentase que a cabeça dele também anda girando, o que não é de se admirar..." O Evening Standard trazia uma foto de Konig, Beaumont e Dawn nas locações de Romeu e Juliéta. Beaumont e ela usavam os figurinos do filme, e Konig estava entre eles, com o braço em torno dos ombros nus de Dawn. Ela o olhava, sorrindo, com um brilho de admiração no olhar. Por detrás deles, fora de foco e sem identificação, via-se Lucien, com o rosto parcialmente escondido pela câmera. A legenda dizia: "SERÁ QUE TRÊS É DEMAIS?" - Sei o que você quer dizer com isso - observou Queenie. - Devo agradecer-lhe? - De modo algum. Meus colegas é que tiram as, próprias conclusões. Se não houver romance, não há notícia. É a regra do jogo. Claro que um escândalo é muito melhor, mas não que remos que isso aconteça, não é mesmo? Ah, aí vem chegando o grande homem, atrasado como sempre. A porta se abriu e Konig entrou. Beijou a mão de Queenie, cumprimentou Goulandris e sentou-se numa poltrona, demonstrando enorme alívio. - Antes que eu me esqueça, você precisa de roupa nova. Foi fotografada pelo menos duas vezes usando aquele modelo de Molyneux. Não convém, de modo algum. Uma estrela jamais usa o mesmo vestido duas vezes seguidas. Como sempre Konig estava um passo adiante dela, pensou Queenie. Teria sido ele quem tinha plantado aquelas notícias na imprensa ou então teria pedido que fossem enfocadas sob determinado ângulo? Duvidava, embora sabendo que Konig era bem capaz de agir assim. Ao contemplar as fotos, notou que a intensidade de seus sentimentos por aquele homem, por mais ambíguos que eles fossem, era evidente demais para ser desmentida. Não conseguiu definir a verdadeira natureza de tais sentimentos e relutava em encará-los com profundidade. Konig a fascinava, com seu charme e sua capacidade de conseguir o que queria, à maneira de um bruxo. Como não ser reconhecida a um homem que estava decidido a transformá-la em uma estrela, disposto a gastar uma fortuna a fim de provar que tinha razão? 308 - Até agora vai indo tudo muito bem, David - disse Goulandris -, mas os jornais vão querer saber mais coisas a respeito de Queenie, como, por exemplo, sua infância, etc. - Em primeiro lugar, de agora em diante o nome dela não é mais Queenie e sim Dawn. Quantas vezes preciso repetir? - Konig olhou para ela com severidade. - Quanto a você, na medida em que continuar pensando em si mesma como Queenie, fará com que todos também pensem. No que se refere à infância, já passamos todas as informações necessárias: os pais ingleses na India, a corte do marajá... - Mas qual marajá? É bem provável que surjam perguntas. Konig olhou para Queenie. Ela pensou em mentir, mas concluiu que seria arriscado demais. Se mencionasse o nome de algum marajá e ele negasse a história, haveria repercussões muito constrangedoras. - Prefiro não dizer. Konig acendeu um charuto e não a pressionou. - É evidente que Dawn não quer criar problemas para seus pais. Não há nada de mau em um pouco de mistério, Basil. - Contanto que não surjam surpresas desagradáveis... Por quê? Elas existem, querida? - Não - ela mentiu. Era fácil perceber que Konig não acreditava nela, mas também tinha certos segredos, conforme ela percelseu, ao ouvi-lo. Sua infância e seu passado constituíam assuntos que ele se recusava terminantemente a abordar. Nas raras ocasiões em que falou a respeito, tornou suas origens ainda mais obscuras, ao se contradizer escandalosamente. Quando um repórter lhe perguntou certa vez se ele tinha algo a esconder, Konig deu uma resposta espirituosa, mas talvez verdadeira. - Tenho tudo a esconder, meu caro! Talvez Konig reconhecesse nela uma alma gêmea. Havia inventado a si mesmo e agora ocupava-se em reinventá-la. Não manifestava o menor interesse pelo que ela tinha sido ou feito até então. Preferia começar da estaca zero e remover, na medida do possível, todos os vestígios do passado. - O excesso de detalhes é sempre perigoso - costumava dizer. - O público se interessa pelo presente e talvez um pouco pelo futuro. Em relação ao passado, o interesse é nulo. Nin guém liga para o fato de você ter trabalhado na boate de Goldner. As estrelas são descobertas nos lugares mais inacreditáveis. O que interessa é èncaixá-Ias em um bom espetáculo. Esta lição ela já aprendera com Konig. Ele não acreditava que uma estrela devesse ser confundida com uma pessoa comum. Na sua opinião, as estrelas não andavam de ônibus e nem mesmo de táxi, não tinham filhos, não usavam roupas ve 309 lhas, não se mostravam em público e, sobretudo, não se deixa, vam fotografar sem estar maquiladas. Konig fazia questão de que ela fosse sempre transportada em um carro do estúdio e decidiu que deveria ser uma limusine branca, da mesma forma que resolveu que a flor preferida de Queenie era a gardênia branca, que, para ele, encerrava um certo apelo exótico. Em todos os lugares em que ia, Queenie encontrava gardênias enfeitando vasos. - Os leitores perguntam Goulandris. - Escreva que acabei de comprar vo para divórcio. - Quanto pagou? - Cinqüenta mil libras. - É um bocado de dinheiro por uma peça de teatro. - Seria, se fosse verdade... Mas quem dirá o contrário? Não há de ser o coitado do autor. Pagar-lhe-ei mais, da próxima vez. - Humm, nada mal. Sabe que Cynthia Daintry queria o papel? - Sei, sim, mas é melhor que Dawn o faça. Trata-se de uma comédia sofisticada, sexy, o tipo da coisa que os ingleses adoram. Consiga entradas para amanhã à noite, Basil. Acho necessário que Dawn assista à peça. Konig não lhe perguntou se ela tinha algum compromisso. Não era possível deixar de notar sua atitude possessiva, mas ela não se incomodou. Afinal de contas, havia algo de positivo no fato de ele dirigir sua vida, pois o fazia com extrema competência. - Você dirigirá o filme? - ela perguntou, dando a Konig um sorriso ao mesmo tempo íntimo e sedutor. Ele normalmente odiava perguntas diretas, mas, se era Queenie quem as fazia, costumava aceitã-las. Algumas vezes, quando não estava disposto a ouvi-Ias, esticava o lábio inferior e franzia o cenho. Desta vez a pergunta parecia tê-lo deixado satisfeito. - Quem sabe... Você gostaria? Ela fez que sim, e era verdade. Konig sabia como dirigi-Ia. A última coisa que desejava pela frente era mais um Szabothy. - Veremos. Só Deus sabe que nunca me senti mais jovem. É melhor do que freqüentar um balneário. Podemos incluir no filme algumas cenas maravilhosas que se passam no quarto - sexy.c, mas de muito bom gosto. Lá em Hollywood eles amarão, querida. Contrataremos alguém para lhe fazer as lingerier mais fantásticas. - Konig cerrou os olhos por alguns instantes. - Por que não existem mais boas histórias? - perguntou, queixoso, como se a culpa fosse de Goulandris. quais são seus planos - disse os direitos de Um moti 310 - Li uma história muito interessante outro dia - disse o jornalista. - É sobre uma mulher que mata o marido, durante um safári... - É de Hemingway? Também li. Gostei. Poderíamos modificar um pouco o enredo e torná-lo mais inglês. - Seria ótimo para Beaumont. Ele já está impaciente, mordendo o freio. - Pois deixe que morda. Encontraremos algo para ele. - Mas o problema não é esse, David. Ele quer fazer um filme com Cynthia. Fez-lhe essa promessa, e você também prometeu. - Pare de lembrar minhas promessas. Não existe nada mais cansativo. - Konig levantou-se e andou pela sala. - Um filme passado na África deve ser duro, austero, conter aqueles detalhes precisos que transmitem o terror. "O medo em um punhado de pó", conforme Browning escreveu. - Não, foi Yeats - disse Queenie automaticamente. - Você me surpreende cada vez mais! Costuma ler muita poesia? - Não, mas tive um professor voz alta para mim. - Não foi na corte do marajá, Konig eom um sorriso felino. Aproximou-se e pôs a mão no ombro de Queenie. - Gosto da idéia de rodar um filme nas colônias. É mais barato e patriótico. Não há nada como desfraldar bandeiras para levantar um pouco de dinheiro... Cynthia pode ser uma escolha perfeita, no principal papel feminino. É loira, de olhos azuis, a perfeita piranha inglesa, rica e mimada... - Não acho, em absoluto, que ela seja tudo isso - protestou Queenie. - Concordo, mas é a aparência dela... Beaumont poderia fazer o papel do marido, se aumentarmos um pouco sua participação. Ou, quem sabe, o caçador branco? - O caçador branco, sem dúvida! É o papel romântico? - Bravo! Vejo que você está começando a entender o mundo do cinema. Conseguiremos um grande astro americano para interpretar o papel do marido. Com isso será possível distribuir o filme lá. Aqui, diremos que o filme é de Richard Beaumont. Nos Estados Unidos, farão a publicidade em torno de Gary Cooper ou de qualquer outro astro. Mas será que Beaumont se dispõe a ir à África? Francamente, não o vejo passando duas ou três semanas no meio do mato... - Não se pode dizer que Nairóbi seja exatamente "mato", David - objetou Goulandris. em na índia que costumava ler mesmo? - disse não e - Eu poderia ter uma conversa com Cynthia e, quem sabe, ela conseguirá convencê-lo! - sugeriu Queenie. - Excelente! Eu deveria torná-la minha assistente, mas seria um desperdício. Já não está na hora do almoço? Morro de fome. - Meio-dia e meia - anunciou Goulandris, consultando o relógio. - Basil, reserve uma mesa no Ritz Grill, mas que seja um lugar onde possamos exibir Dawn. Existe apenas um problema. - Com o Ritz? - Não, com a Africa. Quem irá dirigir o filme? Por mais que você elogie Nairóbi, eu me recuso a pôr os pés lá. É tarefa para um jovem com muita energia. Gostaria de encontrar alguém novo. Queenie sentiu a mão de Konig acariciar-lhe as costas com ternura. Ele não parecia perceber o que fazia. Dava a impressão de estar perdido em seus pensamentos, como se desse um ba lanço em todos os diretores que conhecia. Queenie sabia que Konig não era o tipo do homem disposto a fazer o que quer que fosse por acaso ou acidente. A sensação não era de modo algum desagradável. Tratava-se apenas de um gesto de intimidade e de confiança. Sabia que bastaria mexer-se para que ele tirasse a mão, mas não o fez. - Claro, existe uma possibilidade - Konig aumentou a pressão de sua mão ligeiramente, como um homem que acalma sua montaria. - Ando pensando em dar a Lucien a opottuni~dade de dirigir. - Não é um pouco arriscado? assustado. - Não me importo em correr riscos. O rapaz quer dirigir. É jovem, sadio. O clima e os problemas não o afetarão. Além do mais, ele pode ir devagar, por estágios. Embarca para a Áfri ca e filma as locações. Isso nos dará uma idéia do que ele é capaz. Se não formos adiante, sempre poderei vender o que já foi filmado a Hollywood e lá ficará em depósito, para algum próximo filme. Na pior das hipóteses, a gente não sai perdendo ou ganhando. Lucien vai precisar de um produtor periente para tomar conta de tudo, mas isso não Conheço o homem ideal. Konig olhou para Queenie e dirigiu-lhe seu melhor sorriso. Por detrás dos óculos, porém, havia uma expressão dura em seu olhar. Ele a estava testando. Se ela levantasse alguma objeção, Lucien perderia a oportunidade de dirigir, e Konig, muito provavelmente, voltaria sua atenção para alguma outra mulher. Se executivo exé problema. 312 concordasse, Konig a teria só para si durante alguns meses. O plano era muito bem traçado. - O que você acha, Dawn? - ele perguntou. Seus dedos, compridos e sensíveis, seguiram a linha da espinha dela. Eram surpreendentemente fortes. - Ele haverá de querer aproveitar a oportunidade imediatamente. Foi sempre seu maior desejo. - E você? Os dois ficariam separados durante algum tempo. Não posso dispensá-la. Temos muita publicidade a fazer e um novo filme para começar. Sei que é pedir muito. Trata-se de um grande sacrifício. Você se incomoda? - Eu não posso interferir na carreira de Lucien, David. - Era a primeira vez que ela o chamava pelo nome. - Afinal de contas, não será para sempre. Konig sorriu. Tinha acabado de ouvir desejava. - Sentirá falta dele, sem a menor dúvida, mas vai estar muito ocupada, e Lucien também. É a natureza desta profissão. De qualquer modo, tomarei conta de você... Agora vamos almo çar. - Konig pegou na mão dela e apertou-a ligeiramente. - Acho que tomei a decisão correta - disse, muito expansivo, passando o braço em torno dos ombros de Queenie. Ela sabia, porém, que a decisão tinha sido tanto sua quanto de Konig. o que, no fundo, = Desse jeito você estraga minha maquilagem. - Queenie estava parada na frente do espelho do banheiro e semicerrava os olhos, muito concentrada. Lucien passou uma toalha em torno da cintura, o que lhe permitiu esconder em parte o início de uma ereção. Tentou disfarçar o constrangimento que sentia, fingindo que aquilo não passava de uma brincadeira. - Aonde é que você vai? - Almoçar com alguns jornalistas David virá me buscar à uma. - Queenie, cancele este almoço. Vamos para a que você não se atrasa? As pessoas sempre esperam que uma estrela se atrase. Pelo menos é o que acontece com os jornalistas americanos. Queenie jamais chegava tarde a um compromisso. Alguns fragmentos das lições de Vicky permaneciam sagrados para ela, entre os quais a polidez, o zelo, a limpeza e a pontualidade. Vicky vivia martelando esses ensinamentos em seus ouvidos, de tal forma que eles passaram a constituir os fundamentos de seu americanos. O carro de cama. Por 313 caráter. Para ela, atrasar-se significava o mesmo que parar de respirar. - Não é possível - afirmou com convicção, de pintar os lábios. - Há alguns meses você não teria dito não. - Há alguns meses eu não era uma estrela de cinema - ela objetou, examinando as sobrancelhas cuidadosamente. - Ouça, Lucien, não estou afirmando que não queria ir para a cama com você e muito menos que não goste disso. Afirmo apenas que não posso ir para a cama com você agora. -já não entendo mais o que você deseja, Queenie. - Bem, entre outras coisas, não quero que você, nem ninguém, imagine que.estou à disposição de quem quer que seja. Ela recurvou-se ligeiramente e enfiou o sutiã. Era algo que fazia com naturalidade, mas percebeu que, do ponto de vista de Lucien, tratava-se de um gesto repleto de implicações erõticas, talvez porque, quando se inclinava, seus seios, muito pequenos, pendiam e pareciam maiores do que eram, firmes, delicados, perfeitos. Ele ficou parado, ceção do sutiã. - Ah, Queenie, o que será de nós? Queenie, porém, estava zangada com ele. A exemplo de Morgan, Lucien não conseguia disfarçar o ciúme que sentia de seu sucesso. Queria-a só para ele, mas em seus próprios termos. - Meu nome é Dawn - ela declarou com firmeza, corrigindo-o. contemplando-a. Ela estava nua, com ex Uma semana depois eles estavam sentados um ao lado do outro, na limusine branca. Aquela noite não chovia, o que era excepcional. O enorme carro deslocava-se com lentidão, enfrentando o congestionamento do tráfego. Após dar a volta numa das praças do centro, diri giu-se ao Cine Odeon. Queenie percebeu os jatos de luz, originados por dois enormes holofotes, iluminando as nuvens baixas, uma idéia que Konig importara de Hollywood. A praça estava repleta de carros, de gente com smoking e vestidos compridos, de multidões de curiosos, contidos por cordões de isolamento formados por policiais a pé e montados. A longa fileira de limusines trafegava lentamente e deixava seus ocupantes na marquise toda iluminada e enfeitada de flores. Um enorme cartaz, em cima da marquise, mostrava o rosto de Queenie. Seus grandes olhos brilhavam à luz dos refletores, 314 e os lábios estavam ligeiramente entreabertos, dando a sensação de que esperavam para ser beijados. Um porteiro com umforme muito vistoso abriu a porta. - Boa sorte, querida - murmurou Lucien, mas ela mal o ouviu, pois, no momento em que pôs os pés na calçada, onde David Konig, elegantíssimo, a aguardava, uma fileira de músicos, vestidos com trajes medievais, ergueu suas trombetas e tocou uma fanfarra. O brilho dos refletores era tão forte que ela não conseguia distinguir nada. De todos os cantos explodiam os flashes das máquinas fotográficas, algumas a um palmo de seu rosto. Queenie sorriu, percebeu o brilho dos cabelos grisalhos de Konig e caminhou em direção a ele. Tomava o maior cuidado para não tropeçar em seu vestido longo cor-de-rosa. Ouviu al guém, no meio dos curiosos, dirigir uma pergunta a seu vizinho. - Quem é essa aí? - Ora, não seja ignorante! Dawn Avalon, é claro! Konig tomou-a pelo braço, levando-a em direção ao foyer e, nesse momento, todos começaram a aplaudi-Ia. Finalmente Queenie Kelley tinha ficado para trás. 315 13 - Nunca li críticas como essas - declarou Konig, limpando as lentes dos óculos com um lenço de seda. - O Daily Express diz o seguinte: "Finalmente a indústria cinematográfica britânica alcança a maioridade!" Quanto a mim, escrevem: "David Konig merece que se tire o chapéu para ele!" Que bom... Vejamos o que dizem de você, Dawn: "A fantástica interpretação de Dawn Avalon a transporta, de um salto, aos píncaros do estrelato!" Nada mau. Por volta do meio-dia os telefones estarão tocando de todas as partes do mundo. Acho melhor você prevenir as secretárias, Basil. - Tomei a liberdade de contratar duas telefonistas para receber as chamadas e anotar os recados. - Muito bem! Isso é o que se chama espírito de iniciativa. Além do mais, demonstra um certo otimismo. Gosto disto. Dawn, querida, sente-se a meu lado e leia as notícias de seu triunfo. Não é todo dia que os jornais do país têm algo tão positivo a dizer. Alegre-se, vamos. Meu Deus, sinto-me vinte anos mais jovem! - De fato, você parece mais jovem, embora eu não saiba como isso seja possível, a esta hora da manhã. - Você é gentil demais. - Konig beijou a mão de Dawn, assim que ela se sentou a seu lado. - E então, divertiu-se? - Nunca me diverti tanto em toda a minha vida! - E era verdade. Para isso a platéia contribuíra imensamente. Ela participara intensamente daquele misterioso quebra-cabeça que era o processo de filmagem. A afirmação de Konig, no sentido de que era impossível se saber o que se tinha nas mãos, até o filme ser exibido para uma platéia, era muito verdadeira. Pela primeira vez Dawn teve condições de ver seu desempenho como um todo e ficou bastante impressionada. Sabia que boa parte se devia à direção e à montagem de Konig. Ao contrário de Szabothy, ele fora suficientemente perspicaz para deixa-la ser autêntica na medida do possível. As expressões, maneirismos e 316 gestos eram todos dela. Era ela que a platéia aplaudia, e não Julieta. Ao assistir ao filme e sentir a reação da platéia, era como se visse a si mesma pela primeira vez. -TRIUNFO DE KONIG!-, dizia a manchete do Daily Mail. "uM ROMEU INGLÊS E UMA JULIETA QUE DESAFIA HOLLYWOOD!" Via-se uma foto dela abraçando Richard Beaumont, com a seguinte legenda: "Dawn Avalon, a resposta inglesa a Garbo?" - Pelo jeito, você ganhou a partida. Konig olhou para ela e sorriu. Inclinou-se lábios de seu ouvido. - Vou lhe contar um segredo - murmurou. - Os jornais se enganam. E impossível derrotar Hollywood, estando aqui. Eles ficarão um pouco assustados, mas é preciso derrotar aqueles fi lhos da mãe em seu próprio campo. Isto, porém, é apenas o início. Acho melhor planejarmos alguns filmes novos para você, e rápido. Primeiro temos de fazer uma coisa, mas não será aqui. - De que se trata? - Iremos para Nova York, Dawn, e lá a estréia será ainda mais imponente. Nunca esteve nos Estados Unidos? - Nunca. Mal me acostumei com a Inglaterra. - Provavelmente detestará, como acontece com a maior parte das pessoas inteligentes. Em nosso ofício, querida, é para lá que todós temos de ir, mais cedo ou mais tarde. Cinco dias de viagem por mar nos darão a oportunidade de conversarmos. Você verá que é muito agradável. - A única vez que viajei de navio detestei. - Enjoou? - Não. Estava indignada e com medo. Vamos - Nós? - Konig franziu o cenho, intrigado. você, eu e Basil, é claro. - Lucien não gostará - Você se importa? Dawn refletiu durante um Importava-se, sim, embora não - Não quero que ele fique zangado comigo. - Ele não ficará e, para dizer a verdade, eu já lhe contei. Comuniquei-lhe as notícias da África hoje à noite, e ele está entusiasmado. Não queria deixa-la aqui, pois receava que você se sentisse muito só, mas eu disse que a levaria aos Estados Unidos, a fim de lançarmos o filme. Assim, você não ficaria tão preocupada com a ausência dele. Disse também que Basil e eu tomaremos conta de você. Tudo se arranja! Chegou a conversar com Cynthia? - Sim. nem um pouco. e aproximou os todos nós? - Iremos responder. segundo, antes de tanto quanto devia. 317 - E daí? - Ela conversará com Beaumont. Acha que ele vai criar maior caso, mas acabará concordando em fazer o filme. - O que foi que você disse a ela? - Que ela só terá condições de entender o quanto o filme interessante quando for embora de Londres. - É verdade - disse Konig, rindo. - Não deixa de ser surpreendente o quanto uma viagem pode modificar as coisas... Dawn percebeu que, naquele momento, ele não pensava nem em Cynthia, nem em Beaumont... 0 é - África! - exclamou Lucien, muito excitado. - Meu Deus, que oportunidade! Pense só naquele cenário amplo, selvagem, bárbaro. Sinto-me como Gauguin. Sabe o que mais Konig me disse? "Lucien, faça o que julgar necessário, não economize filme..." Começarei a preparar o filme imediatamente. Konig já contratou um assistente para viajar comigo e cuidar dos detalhes, um sujeito chamado Kraus. Já estou planejando tudo. Na minha opinião o Quênia está estragado demais pela civilização... Se não encontrar lá o que procuro, talvez eu vá até o Congo ou, quem sabe, Uganda... Dawn tirou o vestido pela cabeça. Bem que gostaria que Lucien se mostrasse um pouco mais entusiasmado com seu êxito do que com sua viagem à África. Sentia-se cansada, mas, ao mesmo tempo, tão feliz que todo o seu corpo vibrava de excitação. Estendeu os braços e o beijou. Embora a abraçasse e retribuísse o beijo, Lucien parecia não estar prestando muita atenção. Seus pensamentos voltavam-se para a África e a oportunidade de, finalmente, dirigir um filme. Mal notou. que ela estava excitada. - Foi um dia exaustivo - comentou. - Você também deve estar cansada. - Dito isso, deitou-se e fechou os olhos. Dawn permaneceu acordada por um bom tempo. Não estava zangada com Lucien, mas sentiu que uma parte de sua vida, que até então julgara a mais importante, se lhe escapava. Konig lhes oferecera a oportunidade de alcançar o sucesso, e ambos a aproveitavam, embora isso pudesse significar o fim de seu relacionamento. Decidiu que fatia amor com Lucien pela manhã, mas foi despertada por um telefonema de Konig, que a queria ver pronta "imediatamente" para uma entrevista coletiva à imprensa. Em seguida Basil Goulandris telefonou, combinando uma série de compromissos, que implicavam almoços e jantares. Quando finalmente ela conseguiu pôr o fone no gancho, Lucien já havia 318 levantado e se barbeava, pois tinha um encontro na Real Sociedade de Geografia, a fim de aconselhar-se com especialistas na África. Em seguida teria de ir aos laboratórios de filmes em tecnicólor, onde as películas estavam sendo guardadas em caixas hermeticamente fechadas, a fim de protegê-las do calor e da umidade. Seu dia seria tão cheio quanto o de Dawn. Certa manhã chegaram ao apartamento dois grandes envelopes, entregues por um mensageiro. O de Lucien continha cinco mil libras em cheques de viagem, passagens e vários docu mentos. O de Queenie trazia uma passagem de ida e volta a Nova York, a bordo do Maurztânzá, e um passaporte em nome de Dawn Avalon. Como é que Konig tinha conseguido aquilo? Calcutá figurava como lugar de nascimento de Dawn, e seus pais eram mencionados como "cidadãos britânicos". Ah, se Vicky soubesse que tinha escapado ao estigma de ser anglo-indiana, pelo menos no papel... Não deixava de ser irônico que David Konig, com uma simples penada, conseguisse para Dawn o que várias gerações de anglo-indianos mais ambicionavam. Enquanto contemplava seu retrato, um instantâneo glamouroso, feito no estúdio e bem pouco apropriado pata a seriedade de um passaporte, Lucien, sentado a seu lado na cama, exami nava sua papelada. Estava rodeado de guias de viagem, livros de etnologia em várias línguas, documentos técnicos de laboratórios de filmes e de fabricantes de câmeras, além de grandes mapas, nos quais assinalou a lápis lugares que, para Queenie, nada significavam. Estava totalmente entregue a sua nova aventura. Queenie sentiu-se um tanto decepcionada com o fato de Lucien parecer deixá-la com tão pouco arrependimento e emoção. Sabia que ele a amava, mas, como a maior parte dos ho mens, não tinha a menor dificuldade em fazer sua carreira passar adiante de uma mulher, ou até mesmo esquecê-la, quando estava muito ocupado. Mas será que ela era tão diferente dele? Num gesto impulsivo, ela o abraçou e beijou, afastando-o de seus papéis e levando-o para a cama. Era como se ela se despedisse não apenas dele, mas de uma parte de sua vida. Durante um breve momento ambicionou ter os dois: o futuro brilhante que Konig lhe oferecia e Lucien. Mas já sabia que era impossível. - Na primeira noite jantaremos à mesa do capitão e, depois disso, espero que nossos jantares sejam um pouco menos formais - anunciou Konig. Ele examinou, com seus olhos de 319 míope, a lista dos passageiros de primeira classe. - Há muito grã-fino nesta viagem - queixou-se. Durante uma hora ou mais a camareira ocupou-se em enfeitar vasos com flores e agora desfazia as malas de Dawn. Na suíte ao lado, o camareiro guardava os smokings de Konig. O imediato do Mauritânia enviara champanhe e caviar, o capitão mandara um convite para eles jantarem à sua mesa e mais uma garrafa de champanhe. - Tina von Arx está a bordo - anunciou Konig. - Ouvi dizer que ela está tendo um caso com alguém em Nova York. Vejamos quem mais... Gunther Dobrolyubov. Alguém me disse que o namorado deu o fora nele. Jaime Tristán Cuehna y Platino também viaja conosco... Acho que teremos uns parceiros interessantes para o jogo. - Konig não somente parecia conhecer todo mundo a bordo, como também mostrava-se galante a ponto de fingir imaginar que Dawn os conhecia tão bem quanto ele. - Humm, vejo aqui o nome de um amigo seu, o sr. Solomon Goldner... - O que ele vai fazer em Nova York? - ela perguntou, aparentando desinteresse, mas procurando dominar o pânico. - Creio que vai a negócios. Tem ambições de se tornar um grande exibidor e, quem sabe, distribuidor. Estou encorajando-o. Uma sociedade com um distribuidor inglês, que tenha participação na King Films, por menor que seja, será muito útil no futuro. Se não se incomodar, jantaremos com ele, quem sabe amanhã. Duvido que o encontremos à mesa do capitão... Konig traçou algumas linhas num bilhete e chamou o camareiro. - Entregue-o no camarote do sr. Goldner - ordenou. - Além de você, Basil e Goldner, não conheço viva alma a bordo. - Ah, mas todos a conhecem. É a vantagem de ser estrela. - Konig olhou pela vigia. - Está escurecendo. Logo estaremos deixando Le Havre. Vou tomar banho e mudar de roupa. Devo fechar a porta de comunicação entre nossas suítes? - Não me parece necessário. - Com efeito. Se precisar de alguma Konig levantou-se, ajustou os passos à e pegou uma caixa de madeira. - Houve um engano. Esta caixa veio dos distribuidores americanos e contém charutos. É para mim. Naturalmente encontrarei uma caixa de perfumes para você em meu banheiro. - Mais tarde eu pegarei. Ele concordou e fechou a porta sem fazer o menor ruído. Dawn convocou a camareira para lhe preparar o banho. Já tinha coisa, é só bater. oscilação do navio 320 aprendido que era algo que não se fazia sozinha, quando se viajava de primeira classe. Dawn estava acostumada a receber atenções, mas não da parte dos ricos. Enquanto descia os degraus da escada, ouvia o nome "Dawn Avalon" ser repetido em todo o salão. Era uma curiosidade, uma atração como as que se encontram em qualquer guia turístico. Sentiu verdadeiro prazer ao ser reconhecida. Será que aquilo se desvaneceria com o tempo? Duvidava. Aproximou-se da mesa do capitão, fingindo ignorar o interesse que despertava. O próprio Konig tinha escolhido seu vestido, cor-de-rosa, que flutuava a sua volta quando ela se movi mentava. Goulandris emprestara um colar de diamantes para ela usar durante a viagem. As pedras eram suficientemente grandes para provocar comentários até mesmo naquele ambiente luxuoso, onde a maior parte das mulheres se apresentavam cobertas de jóias. O capitão levantou-se para saudá-la, e um garçom puxou a cadeira para ela. Dawn colocou a bolsinha de contas cor-derosa sobre a mesa, trocou algumas palavras com o capitão, que lhe prometeu uma travessia confortável, como se tivesse combinado o assunto pessoalmente com Deus, e estudou os outros acompanhantes. Um homem magro, elegante, de cabelos grisalhos, olhos de azeviche e um bigodinho tingido de negro apresentou-se. Era Jaime Cuehna y Platino. Para grande surpresa de Dawn, Gunther Dobrolyubov, embora tendo perdido o namorado, revelou-se um cavalheiro extrovertido e amável. Gordinho, tinha uns sessenta e poucos anos, e quase não demonstrava traços de homossexualismo, a não ser por uma sólida escrava de ouro, que usava no punho direito, e uma tendência a lançar olhares langorosos para os garçons, quando achava que ninguém estava olhando. Quando Dawn se encontrava a sós com Konig, era fácil esquecer que a maior parte dos conhecidos dele tinham sua própria idade. Ele falava de seus problemas e de sua vida amorosa como se fossem criaturas de vinte anos. Ela ficou na expectativa de conhecer gente cheia de charme, mas ficou decepcionada, ao constatar que não passavam de uns ricaços velhos. Konig premeditou atrasar a entrada deles, mas ainda havia um lugar vago à mesa, bem em frente a ela. Dawn voltou-se para agradecer ao garçom, depois que ele serviu o caviar, e no tou que todos os homens levantavam-se, com maior ou menor dificuldade, afastando ligeiramente a cadeira, num gesto de deferência. 321 Ela se viu na obrigação de sorrir para a recém-chegada que se aproximava, vestida de verde e prata, e, para sua imensa surpresa, constatou que, diante dela, estava Penelope Daventry.. Por um breve momento Dawn entrou em pânico. Os olhos da sra. Daventry, verdes como os de uma gata, davam a impressão de se estreitarem, quando ela olhou para Dawn, até se cornarem pequeninos pontos negros e ameaçadores. Dawn estremeceu e derramou o conteúdo da taça. Sentiuse corar e, ao mesmo tempo, seus ombros nus se arrepiaram, como se tivessem sido tocados por uma brisa gelada. Mesmo constrangida, não pôde deixar de notar que ela e a sia. Daventry eram as únicas mulheres presentes cujos ombros estavam completamente expostos. O vestido da sra. Daventry, de decote muito baixo, quase chegava a revelar o bico dos seios, e as costas ficavam de fora. Era mantido no lugar por um verdadeiro milagre do costureiro. As esmeraldas de seus brincos eram enormes. Dawn ainda estremecia ligeiramente, enquanto os garçons, solícitos, punham guardanapos secos em cima da toalha, ensopada de champanhe. Olhou involuntariamente para o pulso da sra. Daventry e, para seu horror, viu aquele bracelete tão conhecido. As esmeraldas combinavam com a cor dos olhos de sua dona. Os diamantes chispavam com o mesmo brilho que emitiam naquela noite longínqua, quando Morgan colocou a jóia em cima de sua cama. Contemplou-a de olhos arregalados. - Bonito este bracelete, não acha? - comentou a sra. Daventry. Acendeu um cigarro, ignorando a discreta manifestação de desagrado do capitão, e examinou rapidamente os homens a sua volta. Fez uma breve pausa para examinar Konig e, sem afastar os lábios, sorriu para Jaime Cuehna y Platino, que estava sentado a seu lado. Depois de captar sua atenção, relaxou e voltou-se para Dawn. - Não consegui deixar de admirar seu bracelete. Dawn sentia um desespero surdo ao imaginar que Daventry estava brincando com ela da mesma forma que um gato brinca com um rato, mas não via como fugir da situação. - Está na família há muitos anos. Certa vez foi roubado e tivemos de compra-lo de volta. Eu me sentia completamente nua sem ele. - A sra. Daventry riu, e Dawn mal conseguiu esboçar um sorriso. A cabeça lhe doía, e sua boca estava seca, de puro medo. - Deve conhecer minha meia irmã, Cynthia Daintry, não é mesmo? - Conheço muito. - Soube que ela irá para a África com Richard Beaumont. Que garota de sorte! Meu pai contou-me que a senhorita nasceu na índia. 322 Dawn olhou para seu prato, à espera de que a bomba. Como gostaria que tudo e toda a situação chegasse logo ao caviar, no qual ela não havia tocado. um prato de sopa, mas não sentia - Sim. a sra. Daventry detonasse acontecesse bem depressa fim! O garçom retirou seu Agora tinha diante de si o menor apetite. - Oh, que bom. Eu moro lá. Estou certa de que temos muita coisa em comum, pois conhecemos os mesmos lugares e, quem sabe, as mesmas pessoas. Espero termos a oportunidade de conversar bastante, durante a viagem. Dawn não tirava os olhos do prato, embora a sopa lhe desse vontade de vomitar. - Seria ótimo, embora não me lembre muito da Índia. Faz tanto tempo que saí de lá... - Ah, mas as recordações da infância são as mais interessantes, não acha? E por falar em brilhantes, a senhorita está com um belo colar. - Obrigada - disse Dawn, resistindo ao impulso de revelar que o colar não lhe pertencia. A sra. Daventry estendeu o braço e lhe deu um tapinha amistoso na mão. O enorme anel lançou chispas, à luz das velas. A mão da mulher era fria e seca, mas Dawn teve a sensação de que fofa queimada por aquele toque. Aguardou a inevitável explosão de cólera da sra. Daventry, mas ela se limitou a sorrir. - Você tem uma bela carreira pela frente. Eu a invejo. Ser bela e ter um grande talento é uma rara combinação. Mal posso expressar o prazer que senti em saber que a senhorita estava a bordo. Quando vi seu retrato, refleti: existe algo de especial nesta jovem, é quase como se eu a conhecesse. E aconteceu! Mas não devo monopolizar sua atenção, minha cara. A sra. Daventry voltou a sorrir para ela e dirigiu-se a Jaime Cuehna y Platino, que há mais de cinco minutos admirava seu colo e seus ombros. Fazia-o com tamanha concentração que Dawn não entendia como ele conseguia levar a colher à boca, sem errar. A sra. Daventry tirou um cigarro da carteira e estendeu-o em sua direção, fitando-o nos olhos enquanto ele o acendia. Lentamente, friamente, os olhos verdes e impassíveis o examinaram. Dawn voltou-se para trocar algumas palavras com Gunther Dobrolyubov, e a sra. Daventry, aparentemente satisfeita com o que Platino tinha a lhe oferecer, manifestou-se. - Fale-me a respeito da América do Sul. Morro de curiosidade... Dawn, que raramente tomava mais do que alguns goles, esvaziou a taça de champanhe e pediu outra. Foram necessárias três doses para que ela parasse de tremer. 323 Ela rolava na cama, sem conseguir dormir. Cada vez que fechava os olhos, sentia-se aterrorizada por visões que eram um verdadeiro pesadelo. Quando os abria, era ainda pior. Recapitulou várias vezes a conversa que tivera com a sra. Daventry, à procura de algum significado oculto. Dawn sabia que aquela criatura era suficien temente maliciosa para levar adiante um jogo perigoso. Dispunha de cinco dias para isso. Mais cedo ou mais tarde acabaria por reconhecê-la, se é que isso já não tinha acontecido. Por alguns instantes pensou em Morgan. Era a única pessoa com quem poderia conversar sobre aquele momento de sua vida. Sentiu-se ainda pior e procurou pensar em alguma coisa. O enjôo provocado pelo champanhe, aliado ao balanço do navio, embrulhou-lhe o estômago. As promessas do capitão, pelo visto, foram otimistas demais, pois o Mauritânia jogava muito e percorria um mar agitado. O silêncio era interrompido pelo barulho da louça e dos copos e garrafas que se quebravam, além do som regular e lamentoso da sirena. Dawn levantou-se, cambaleando, escorregou e bateu com o joelho na mesa, provocando a queda de um vaso de flores. A água derramou-se sobre seus pés descalços. Tentou aprumas se, mas seus pés escorregaram no chão molhado. Nesse exato momento o navio adernou e àprumou-se lentamente, fazendo com que mais um vaso com flores se espatifasse no chão. Ela havia saído às pressas do salão após o jantar, pretextando dor de cabeça. Quanto mais cedo se afastasse da sra. Daventry, melhor, pensara, mas agora percebia que se enganara. Pelo menos no salão havia companhia e suficiente distração. Konig provavelmente ficaria lá a noite inteira, afundado numa poltrona, tomando conhaque, café e fumando charutos, entretido em jogar cartas com Jaime Tristán Cuehna y Platino. Dawn hesitou em chamar a camareira àquela hora da noite. Ocorreu-lhe, porém, que agora era uma estrela e, além do mais, essa era a tarefa da camareira. Caminhou às cegas na dire ção da campainha, mas ouviu baterem à porta. Achou que, provavelmente, era a camareira que vinha ver se ela precisava de algo. - Entre. A porta se suítes. -Meu Deus... você preocupado. - Caí - ela balbuciou. - Vou ajudá-la. - Ele atravessou corrimão e, com a mão livre, ajudou Dawn abriu, porém, era a que está bem? comunicava as duas - perguntou Konig, o camarote, segurou no - Ouvi a erguer-se. 324 barulho e achei que você ainda não estava deitada. Resolvi ver se você estava bem e lhe dar seu perfume. Konig foi até seu camarote, mantendo um equilíbrio admirável, e voltou daí a pouco com um frasco grande de Schiaparelli e dois comprimidos. Encheu um copo de água mineral e deua Dawn. - Tome - ordenou. Ela engoliu os comprimidos obedientemente. - Julguei que você não enjoasse... - E que bebi champanhe demais. - Estes comprimidos são para dormir. sono é o melhor remédio. - Nunca tomei pílulas para dormir. - Que sorte... Eu as tomo com freqüência, sobretudo depois do divórcio. - Não consegue dormir? - Digamos que durmo muito mal. Quando só, é difícil dormir. Você se assustou durante o - Por que me faz esta pergunta? - Sei como são essas coisas. Não acredito que foi por causa dos homens presentçs. Dobrolyubov é bicha, Platino não passa de um milionário sul-americano, uma espécie de dom-juan ao contrário. É perseguido, seduzido pelas mulheres e sempre foge... A sra. Daventry' . tem dentes afiados e um corpo de atleta sexual. Foi ela quem a assustou? - Talvez. Provavelmente me a conhecia. Konig fez um gesto com a cabeça. Não acreditava em Dawn, mas era bem educado demais para demonstrar sua descrença. - Você deve estar com frio, pois o chão ficou todo molhado. - É que derrubei um vaso com flores. - Venha para meu camarote e seque os pés. Vou chamar alguém para limpar isso aí. Konig abriu a porta e ela foi sentar-se na cama, enquanto ele ia buscar uma toalha. Seu pijama de seda, amarelo-claro, com as iniciais D.K. bordadas em azul, estava estendido sobre bem passado. Konig voltou com a toalha e o o De vez em quando a gente fica j antar? recordou outra pessoa. Não a cama e muito deu-a a Dawn. - Que tal? Você está bem? - Não. - Ainda se sente enjoada? Quer que chame um médico? - Não estou enjoada, mas assustada. - Não é fácil ser uma estrela, na sua idade. Ser bela também não é nada cômodo. Tudo aconteceu depressa demais, não é mesmo? E existem coisas que você preferia não ter feito... Por 325 favor, não vá pensar que estou me intrometendo em sua vida. Ela fez um gesto com a cabeça e começou a chorar. - Acontece com todo mundo e não é tão terrível assim. A gente encerra um momento da vida e segue adiante. É a única solução. Olhar para trás e sentir-se culpado é perda de tempo. Acima de tudo Dawn braços em torno de Konig - Vamos, vamos... - um pouquinho. Alivia... - Detesto chorar. - De vez em quando é a única atitude sensata... O navio, de repente, empinou-se como se fosse mergulhar no fundo do mar, e Konig caiu tão pesadamente na cama que soltou um grito de surpresa, seguido de outro, pois Dawn tom bou por cima dele. Estava deitado em cima de seus charutos e telegramas, que se espalhavam pela cama. O sangue lhe subiu ao rosto. - Você quase me sufocou... Acho que esmagou os charutos que estão no meu bolso - disse, abrindo os olhos. - Desculpe! - Não tem importância. Konig sentou-se, tirou o paletó e afrouxou o laço da gravata. Teve alguma dificuldade em alcançar os sapatos. Dawn esteindeu um braço e os tirou. Agora que ele estava sem paletó, percebia-se que sua cintura era bem mais fina. O simples ato de tirar o paletó fez com que sua respiração se acelerasse. Dawn encostou-se nele, saboreando o calor do contato humano e sentiu algo, frio e duro de encontro ao estômago. - E meu relógio - explicou Konig. Ele se levantou, cambaleando, pois o navio jogava com força cada vez maior. Pegou o pijama e, recatadamente, foi para o banheiro, agarrando o corrimão o tempo todo. Voltou daí a pouco vestindo o pijama amarelo e com o cabelo muito bem penteado. Deitou-se ao lado de Dawn, contemplou com seus olhos de míope a mesinha-de-cabeceira, tirou dois comprimidos de um vidro e os engoliu, tomando em seguida água mineral. Dawn chegou para mais perto e voltou a abraçá-lo. Ficaram imóveis durante alguns momentos. Konig estava deitado de costas, e Dawn encostava-se nele, enquanto o navio adernava e vol tava a se aprumar. Ele estava de olhos abertos, mas parecia cochilar, apesar do ruído dos objetos que se chocavam no- camarote, do rangido do navio e do barulho da louça que se espatifava. Mais por gratidão do que por desejo, embora com certa curiosidade, Dawn passou a mão pelo peito de Konig. Ficou queria ser reconfortada. Passou os e apoiou-se nele. Ele também a abraçou. - Chore 326 surpresa ao constatar o quanto ele era peludo. Não sabia muito bem se apreciava aquela sensação. A carne dele era macia, e seu corpo, livre das roupas que o comprimiam, parecia espalharse em várias direções. Ele não era exatamente gordo, porém tinha mais peso do que seria aconselhável para sua saúde. A mão de Dawn desceu ainda mais, desabotoando o paletó do pijama. Brincava com ele e o provocava, para ver qual seria sua reação. - Você é muito boazinha, mas de nada adianta disse, com um suspiro fundo. - Como assim? - Para ser franco, meu bem, como dizer... é constrangedor... - Não ficarei chocada. Afinal ma criança. - É, sim, é uma criança adorável. O fato é que, desde que Marla e eu nos separamos, me tornei impotente. - Konig voltou o rosto em direção à pequena luz azul, que mal ilumina va o camarote. Sua fisionomia expressava um estoicismo resignado que chegava a ser tocante, embora ligeiramente ridículo. - Completamente? - perguntou Dawn, apoiando o queixo no peito dele. Percebeu, embora tarde demais, que sua curiosidade poderia parecer indelicada ou demonstrar falta de sensibilidade~ - Oh, desculpe... - Não há nada que possa fazer. Fique deitada, quietinha. Vou acariciar suas costas e você dormirá. - Tem certeza de que nada adianta? - Outras já tentaram. É inútil. O dr. Vandergraf, de Nova York, já me deu injeções de vitamina B-1, de vitamina não-seidas-quantas... e nada. É de fundo psicológico. As tensões, o excesso de trabalho, a idade, o divórcio. - Meu pobre David... - Dawn encostou-se nele. - É muita gentileza sua, tranja ainda mais, por favor. - Mas só quero ajudar. Deixe-me tentar. - Se você insistir... mas acho que não dará certo. Dawn havia aprendido com Lucien tudo de que os homens gostam e, embora ainda sentisse certos escrúpulos, nada mais lhe provocava verdadeira repugnância. - Meu Deus! - ele murmurou, exultante. - Acho que estou sentindo alguma coisa! Dawn sentiu-se contente por ele e mais contente ainda quando conseguiu parar. Deitou-se ao lado dele, ainda tonta do champanhe e das pílulas, e adormeceu. - ele desde o divórcio... Não sei não sou nenhu de contas, ainda mais mas não adianta. Não me cons 327 Quando chegou a manhã o mar estava completamente calmo. Dawn acordou com a suave vibração das turbinas e com os roncos de Konig, pois ele estava deitado de costas, com a boca escancarada. Se não fossem os roncos, Konig poderia ser confundido com um defunto preparado para o enterro. Por acaso aquilo seria um sinal da idade?, perguntou-se Dawn. Ela se levantou, foi até o banheiro, removeu a maquilagem e vestiu um dos roupões de seda de Konig. Sua cabeça estava completamente leve. Apesar da bebida, não havia o menor sinal de ressaca. As pílulas de Konig tinham funcionado maravilhosamente. Dawn abriu a porta de sua suíte procurando fazer o menor ruído possível, mas Konig despertou, espreguiçou-se e abriu um olho. - Que horas são? - Oito. - Só? - Costumo levantar-me cedo. - Eu, não. Venha cá e sente-se. Pediremos o café da manhã. Ela obedeceu e sentou-se ao lado dele. Notou que sua calcinha estava bem junto aos travesseiros e resolveu não pensar em como ela tinha ido parar lá. - Não peço desculpas pelo que aconteceu ontem à noite - disse Konig, segurando-lhe a mão. - Foi maravilhoso. Quero confessar mais uma coisa: senti atração por você desde o início. - Eu sei. - É, imagino... As mulheres sempre percebem essas coisas... - Konig suspirou. Examinou a coleção de frascos de remédio, escolheu dois grandes comprimidos vermelhos e tomou os com um gole de água. - São pílulas para despertar - explicou. - Dentro de meia hora estarei pronto para o que quer que seja, pelo menos, para quase tudo... Você parece que não está muito contente... Dawn deu de ombros. Konig tinha a constrangedora capacidade de adivinhar o que ela sentia ou pensava. - Deve estar pensando em Lucien, não é mesmo? - Bem... sim - ela admitiu, com alguma relutância. - Vamos encarar a coisa desta maneira: a noite passada você estava cansada, assustada, um pouco bêbeda. O que aconteceu entre nós não foi nada de muito sério. Até mesmo Lucien entenderia que poderia acontecer uma vez, sobretudo a bordo de um navio... Se foi só uma vez e se, de agora em diante, não voltar a se repetir, não há mal nenhum. Entendeu? - Entendi, sim. - O problema é que eu quero que isso continue, o que não será fácil de explicar a Lucien. 328 - Com efeito. - Quero você para mim, Dawn. Não sou mais um jovem, sei, mas posso oferecer-lhe certas... compensações. - Você não é tão velho assim, David - disse Dawn, embora os cabelos brancos e a pele enrugada dessem a Konig a aparência de um velho. Sabia o que ele estava oferecendo. Ko nig faria dela uma estrela. De qualquer modo era interesse dele, mas, se ela deixasse Lucien por ele, faria muito mais. Seria levada para seu mundo de gente rica e poderosa, e lá teria um lugar. Não precisaria ter medo de mais ninguém,' nem mesmo da sra. Daventry. - Pensarei no assunto - ela disse, inclinando-se e beijandoo. Ambos sabiam, porém, que ela já se havia decidido. eu - À sua saúde - Solly Goldner ergueu o copo e experimentou o vinho. - Nada mau. - Nada mau? É excelente! Não tem sentido encomendar os vinhos mais caros, a bordo. O movimento faz mal à bebida. Um vinho simples, pouco afamado, sobrevive muito melhor... - Do mesmo modo que sobrevivemos, sr. Konig - disse Goldner, com um sorriso lisonjeiro. - Exatamente, Goldner. Você e eu entendemos da arte da sobrevivência... Dawn, ao ouvir essas palavras, pensou que ela também entendia perfeitamente do assunto. Os três estavam sentados a uma mesa, no centro do salão. Consegui-Ia custara a Konig vinte li bras, que ó comissário de bordo embolsou com prazer. Foi preciso também uma longa conversa com o capitão, a quem Konig explicou que Dawn, acima de tudo, queria privacidade. Embora se sentisse muito reconhecida por ser admitida à mesa do capitão, preferia comer sem ter de conversar com estranhos. Konig livrou-se da sra. Daventry enviando a Jaime Tristán Cuehna y Platino algumas garrafas de champanhe e um quilo de caviar. Calculou, aliás com muito acerto, que a combinação de caviar, champanhe e sexo manteriam a sra. Daventry e Platino trancados no camarote pelo menos por um ou dois dias. Goldner não se modificara, desde os dias em que Dawn dançava para ele no Clube Paradiso, mas, ainda assim, demonstrava certos traços de prosperidade. Suas bochechas rechonchudas brilhavam, e o smoking era novo. Usava uma orquídea na lapela, cuidadosamente escolhida para combinar com as meias e o lenço. Konig o tratava com a delicadeza de sempre, mas não como um igual. 329 - Dawn e eu nos sentimos encantados por encontrá-lo a bordo - afirmou Konig, examinando sua truta defumada com olhos de cirurgião. Sentia horror em engasgar com as espinhas. - Está com boa aparência, sr. Goldner - disse Dawn, que não com ,partilhava o entusiasmo de Konig. - E que prosperamos juntos, Queenie - ele disse, lançando-lhe um olhar perspicaz. - Ou melhor, Dawn... Era verdade, refletiu Dawn. Dera a Goldner a oportunidade de ingressar nas altas rodas, juntamente com Vale, e agora ele estava a caminho de conseguir coisas maiores e melhores. Sem ela e o contrato que, com tanta habilidade, arrancara de Morgan, Goldner ainda estaria vendendo seus mesquinhos sanduíches no Clube Paradiso. Mais uma vez ela experimentou ressentimento, por ter sido usada, mas nada podia fazer. - Estou certa de que continuaremos a prosperar - ela declarou, sorrindo sedutoramente para Goldner. - E eu também. - Devo confessar que a lealdade de Dawn me funda admiração - disse Konig, que acompanhava com alguma preocupação. - A maior parte das estrelas não vêem a hora de abandonar as pessoas que as ajudaram, no início de suas carreiras, sobretudo quando existe um contrato questionável, que lhes custa dinheiro... - Não existe nada de questionável no declarou Goldner com firmeza. - Ora, por favor, não insulte minha inteligência. - Konig examinou com atenção o patê de fole gral. - A cor é bonita, rosada... - Pegou uma torrada e chamou o garçom. - A torrada não está bem quente. Traga outras, por favor... Você se aproveitou dela, Goldner. Você e aquele tal Jones. Por falar nisso, que fim ele levou? Era de se imaginar que aparecesse, ao primeiro sinal de sucesso de Dawn. - Viajou para o exterior. Não sei como encontrá-lo e nem quero. Dawn, um pouco sobressaltada, lançou um olhar significativo a Goldner. Felizmente a curiosidade de Konig era limitada ou então ele agia assim de propósito. - O que o leva a Nova York? - indagou ele, mudando de assunto, para grande alívio de Dawn. - Loew tem vários cinemas na Inglaterra que estão perdendo dinheiro. Podem ser comprados por um preço muito vantajoso. Os gerentes roubam Loew nas barbas dele. Se alguém se dispuser a ficar em cima, terá a possibilidade de ganhar muito. - Quer que eu diga uma palavra em seu favor com Schenck? Ele me deve algumas obrigações. causa proa conversa nosso contrato - 330 - Seria muito gentil de sua parte, David, mas há um assunto sobre o qual quero conversar com você, aliás confidencial. Konig observou os garçons servirem rosbife. - De que se trata? Goldner olhou para Dawn. - Não se preocupe. Dawn não bém discreta. - Eu sei... Cá entre nós, Vale anda conversando com alguns financistas sobre o controle da King Films. - Ele conversou com você também? - perguntou Konig, sem demonstrar surpresa. - Sim. - E o que você disse? - Apenas ouvi. Tendo apoio suficiente, Vale é capaz de conseguir o que quer. Você não dispõe de ações suficientes para enfrentá-lo. - É verdade. É esse o perigo de se usar o dinheiro alheio. E por que você não se associou a ele, Goldner? - Não estou afirmando que não vou associar-me, mas não gosto dele. É um homem perigoso e seria bem capaz de puxar meu tapete. Goldner olhou para Dawn, preocupado. - Tem certeza de que devemos discutir tudo isso na frente de Dawn? - já ~é tempo de ela ficar sabendo como as coisas funcionam. Não tenho segredos para ela, pelo menos não muitos. Os sócios sempre acabam trazendo problemas. Precisava de Dawn e fiz um acordo com você, Goldner, e seu maldito amigo Vale. Precisava de um estúdio e de capital e me vi obrigado a fechar acordos com banqueiros, com alguns financistas amigos de Vale e com a Companhia de Seguros Prudential... estou nas mãos dessa gente. Konig examinou uma cesta de frutos, escolheu uma maçã e entregou-a ao garçom para ser descascada. - Enquanto eu não começar a exibir os lucros substanciais - acrescentou com inesperada selvageria -, eles são donos até da cueca que eu visto! Não é o melhor momento para eu me livrar de Vale. - Ele sabe disso. Vale é um malandrão, que conhece muita gente importante. - E todo mundo tem medo dele. Bem, eu também conheço malandros, mas do outro lado do Atlântico. Além do mais, não é o momento, repito. Quando começar a entrar di nheiro a rodo, a gente pode pedir ajuda, mas não antes. Se a gente age com precipitação, acaba perdendo tudo. - Konig é somente linda, mas tam 331 comeu lentamente a maçã e limpou a boca. - Fico agradecido por você me contar tudo isso, mas talvez tenha escolhido o lado que está perdendo. - Vale tem suas fraquezas. Ele é dono de muitos negócios escusos... boates que servem de fachada para jogatina, prostituição e coisas que tais. Infelizmente é difícil provar, e ele é sufi cientemente esperto para não deixar traços. Claro que, se a gente investigár a fundo, se chega à conclusão de que todo mundo tem algo a esconder: um escândalo financeiro, garotas... - Goldner tossiu. - Com Vale não existe o perigo de garotinhas, você sabe o que eu quero dizer. - Sei perfeitamente. Você por acaso está sugerindo que eu o chantageie? Goldner escolheu um conhaque do carrinho que o garçom trouxera. - Que palavra tão desagradável... Eu apenas estava tentando ajudar. - Mas será que funciona? Esta é a questão. - Konig voltou-se para Dawn. - O que você acha, querida? Então era assim que todo mundo fazia negócios? - ela refletiu, procurando o que dizer. Havia adquirido muito respeito pelo instinto de sobrevivência de Konig, mas ainda não per cebera até onde ele se dispunha a ir. A idéia de chantagear Vale pelo visto não o chocava, mas ela sabia muito melhor do que ele o quanto seria perigoso tentar. Vale revidaria, e Dawn já imaginava a quem ele atacaria em primeiro lugar! Será que Konig ainda ficaria a seu lado, depois de saber os detalhes da morte de Morgan? Adivinhava a resposta. Olhou para Goldner, que, na sua opinião, jamais deveria ter tocado no assuntó. - Não, não dará certo, David - disse com firmeza. - Você não conseguirá assustar Vale. É preciso comprar a parte dele no negócio ou então fazer algo que o destrua. - Ah, a sabedoria das crianças... - disse Konig, sorrindo. - Pensarei no assunto, Goldner. Vamos esperar para ver no que dá. Não gosto de correr esse tipo de risco. Em se tratando de um homem como Vale, existe sempre alguém que o odeie suficientemente para querer se expor. E apenas uma questão de encontrar a pessoa certa... alguém que tenha muito a perder... Dawn e Goldner se entreolharam. Ambos sabiam quem tinha mais a perder, caso Vale revelasse seus maus instintos, se fosse pressionado. Será que Konig também sabia? - pensou Dawn, pada. preocu 332 Konig estava sentado numa poltrona, na sala de estar de Dawn, com os pés apoiados numa banqueta. Havia tirado os sapatos, a gravata e fumava um charuto. - Sente-se perto de mim. Pensou no que discutimos hoje de manhã? - Pelo visto ele já não se lembrava mais de Vale. - Um pouco. Não funciono muito bem, quando se trata de tomar decisões a longo prazo. - Pois então esqueça o longo prazo. Vamos dar um passo atrás do outro. - Konig passou o braço em torno do ombro dela e ergueu seu queixo, beijando-a com ternura. - Passará de novo a noite comigo? Ela consentiu, pois já tomara essa decisão. Seguiu-o até sua suíte. Em torno dela se acumulavam as provas da falta de sono de Konig, bem como dos hábitos de um homem que estava acostumado a ter tudo exatamente do jeito que queria. Até mesmo lá, a despeito do luxo e do conforto de uma viagem em primeira classe, a cama exibia seus lençóis e travesseiros azulclaros, bordados com suas iniciais. Será que todos os ricos viviam assim? Ela se espreguiçou, sentindo a maciez dos lençóis, e chegou à conclusão de que era um estilo de viver dos mais agradáveis... Olhou para o relógio de Konig, que ele pusera junto ã cesta de frutas. Era de ouro, com doze diamantes grandes no lugar dos números, e uma fileira de diamantes nas bordas. Estendeu a mão e o acariciou. As pedras eram duras e frias. A ESTRELA DE DAWN SE LEVANTA! KONIG E SUA VOLTA TRIUNFAL! "Romeu e Julieta" bate recordes de bzlheterzá no Roxy! - A revista Variety nos adora! - comentou Konig. Ele se instalara no hotel St. Regis como se fosse sua casa. Aliás, qualquer hotel de cinco estrelas era como um lar para ele. Goulandris, mais próspero e corpulento do que nunca, pasoutro recorte a Konig. - Não são apenas as revistas. Olhe só o que o Times diz. - Não vejo nada de favorável nesta notícia - declarou Konig, contrariado. - "A volta à direção do veterano David Konig significa apenas a popularização desajeitada de uma peça de Shakespeare, mas, ainda assim, percebe-se o traço do gênio de Vilmos Szabothy. Como a gente gostaria de assistir a seu trabalho sem os acréscimos das pieguices de Konig..: ' - Em seguida ele leu o Times. - "O rosto mais excitante desta década; uma Julieta que nos deixa sonhadores." sou 333 - Bem, desta vez você não _ pode se queixar - observou Dawn. - Querida, fico muito contente por você. Produzi durante muito tempo e sempre me queixei do ego dos diretores. Agora chego à conclusão de que o meu está intacto... Já tinha esqueci do o que significa ser um diretor. - Konig levantou-se e abraçoua. - Parabéns. Nova York caiu a seus pés. E não só Nova York. Hoje à noite jantaremos com Sigsbee Wolff. - Puxa! - exclamou Goulandris. Dawn jamais o vira tão impressionado. Por que seria? Percebeu então que ele estava não somente impressionado, mas assustado. Até mesmo no Clube 21 Dawn chamou a atenção. - O homem de telefone na mesa é o famoso colunista Walter Winchell - murmurou Konig. - Tem cara de bandido. - E é um bandido. Sorria para ele. Dawn obedeceu. Winchell falava ao telefone. Seus olhos esgazeados, curiosamente privados de vida, movimentavam-se com inquietação de um lado para outro, como se ele receasse perder o que estava acontecendo. Surpreendeu o sorriso de Dawn, acenou para ela e continuou a conversar. Konig acomodou Dawn, ergueu as mãos como se estivesse muito contente em ver Winchell, fez um gesto indicando que falaria com ele mais tarde, sentou-se e finalmente pediu um martíni seco. - Nos Estados Unidos é preciso viver como os americanos. Sendo a comida aquilo que se sabe, o mais sensato é enganar o paladar com um coquetel antes do jantar. Aqui, a única coisa digna de se comer são os hambúrgueres... Aí vem Wolff. Konig voltou a se levantar. Pela porta do salão entrava um motorista negro muito alto, empurrando uma cadeira de rodas. A criatura nela sentada parecia tão velha que Dawn achou im possível calcular sua idade. Talvez fosse um homem de setenta anos, com má saúde, talvez tivesse noventa ou mesmo cem anos. Não havia como calcular. Da cintura para cima ele estava elegantemente trajado. Usava um paletó azul-marinho, camisa branca e gravata de bolinhas. Suas pernas estavam cobertas por uma manta azul-escura, mas não os pés, que calçavam um par de botas muito antiquadas. Em ambos os ouvidos trazia aparelhos de surdez. Os olhos, porém, eram suficientemente brilhantes para desmentir aquela aparência de velhice e fragilidade. O motorista trouxe a cadeira até a mesa e, com um gesto, Wolff o despediu. Sua entrada tinha provocado quase tanta sen 334 sação quanto a de Dawn. Winchell chegou mesmo a desligar o telefone, como se só a presença de Wolff já fosse uma grande notícia. - Você ainda é mais bela do que nas telas,- ele disse a Dawn, inclinando-se e beijando-lhe a mão. Ela notou que seus dedos eram gélidos, o que provocou uma sensação das mais desagradáveis. A voz era baixa, rouca, e ele falava com um sotaque curioso, característico de Nova York. - Você até me dá vontade de voltar a ser moço, mas é claro que tudo me dá essa vontade... A voz de Wolff se elevava e abaixava, de tal modo que parte de suas frases pareciam cair em um poço sem fundo. Como era surdo, o fato não fazia a menor diferença para ele. Sim plesmente sabia o que dizia. Dawn presumiu, aliás corretamente, que ele a lisonjeava, e sorriu. - Wolff retribuiu o sorriso ou, pelo menos, exibiu um par de dentaduras assustadoramente brancas. Seus músculos faciais revelavam os efeitos de um derrame. Deram-lhe um martíni, que ele provou e pôs de lado. Trouxeram-lhe outro, e ele fez um gesto com a cabeça, satisfeito. Eles tinham um gosto bem melhor, nos tempos da lei declarou. Sigsbee fez fortuna durante a lei seca - explicou Konig. Nem tanto, nem tanto... Deve ter sido um tempo bem duro, não? - disse Dawn. Foi duro apenas para os caras que tentaram competir - revelou Wolff, dando um tapinha na mão -dela, num seca - comigo gesto galante. - O sr. Joseph Kennedy foi um dos sócios de Sigsbee. Certa vez ele e Kennedy compraram a RKO. - Bem, inicialmente Joe competia comigo, mas era um sujeito esperto. Chegamos a um acordo. Os sujeitos espertos sempre sabem como fechar um acordo... - Wolff inclinou-se e be liscou o rosto de Dawn, soltando uma espécie de cacarejo, que se aproximava de uma risada. - Srta. Avalon, seu amigo David também é um sujeito esperto. Eu só trato com sujeitos espertos. - Sigsbee e eu tentamos comprar a Empire Pictures há alguns anos. - Konig sorriu para Wolff, que retribuiu e começou a balançar a cabeça sem parar, o que deixou todo mundo um pouco constrangido. - E o que aconteceu? - Perdemos. Eles receberam propostas irrecusáveis do Banco da América e do Morgan. Um de nossos adversários convenceu o FBI a soltar certos documentos sobre Sigsbee... 335 - Tudo isso não passou de uma grande besteira! Nunca agi pior do que certos sujeitos... - Claro que não, Sigsbee. Eu sei. Todo mundo sabe. Agora temos a oportunidade de tentar novamente, se você ainda estiver interessado. - Estou, sim - afirmou Wolff, irritado. - Caso contrário não teria vindo. - O senhor sempre se interessou por - perguntou Dawn com delicadeza. Wolff fez um barulho que não parecia com voz humana. Ela sacudiu a cabeça, indicando que não tinha compreendido, e aproximou-se um pouco. Wolff segurou seu vestido, com aquelas mãos que pareciam garras, e puxou-a para mais perto. - Estou cagando para o cinema, querida - disse baixinho, articulando cada sílaba. - Só quero matar aqueles filhos da puta que foderam comigo da última vez, me pondo para fora. - Pois então vamos fazer um brinde a sua decisão - propôs Konig, estalando os dedos e convocando o garçom, para que ele trouxesse a carta de bebidas. Muito do que Konig e Wolff tinham a se dizer soou um tanto incompreensível a Dawn, embora ela começasse a entender mais a respeito de negócios do que eles podiam perceber. Tinha boa memória e, quando algo a intrigava, pedia a Konig que lhe explicasse mais tarde, o que ele fazia com prazer. Ela compreendeu o suficiente para se dar conta de que Wolff considerava Konig um protegido seu. Goulandris lhe contara que Wolff era imensamente rico. Chegara a Los Angeles com os pioneiros do cinema, mas logo percebeu o potencial dos laranjais do vale de San Fernando, as colinas nuas, habitadas por cobras, colores, lagartos e alguns índios bêbedos. Adquiriu as terras a troco de quase nada, embora Goulandris insinuasse que os métodos empregados para convencer os antigos proprietários chegassem a ser brutais e inescrupulosos. O lugar agora ostentava escritórios, casas, poços de petróleo e supermercados, em vez de pomares. Wolff ainda mantinha grande interesse pelo mundo do cinema, como se fosse uma paixão que sobrevivera. Queria ser dono de um estúdio. Tudo isso não era novidade para Dawn. Percebeu, através da conversa, que as iniciativas de Konig na Inglaterra não passavam de uma sábia investida, por meio da qual esperava preparar sua volta a partir de um projeto bem mais ambicioso. Konig fora derrotado em sua tentativa de se apoderar da Empire Pictures e viu-se obrigado a trabalhar como produtor para a Metro 336 Goldwyn Mayer, onde padeceu sob as regras despóticas de Mayer. A exemplo de Napoleão no Elba, estava levantando um pequeno império, enquanto amadurecia os planos, a fim de se apoderar das fatias bem maiores, que tanto ambicionava. A King Films poderia ser um jogo, talvez até mesmo uma jogada desesperada, mas seu sucesso o levaria a uma operação ainda maior, e ele teria em Wolff um parceiro, aliás nada silencioso... Wolff comia com frugalidade. Dawn percebeu que era menos uma questão de falta de apetite do que de capacidade em manipular o garfo e a faca. Ele procurava disfarçar o tremor das mãos pedindo tortas e suflês, que não precisava cortar. - E como vai a Empire? - indagou Konig. - Pessimamente. Marty Braveman é uma besta. Você sabe, não preciso dizer. - É uma besta que conseguiu segurar seu estúdio, Sigsbee. - Mas eu não disse que ele é incompetente. Quando se trata de dirigir o maldito estúdio, aí sim, ele se comporta como uma besta. Imagine, pôr dois milhões de dólares em Messalina! Ina Blaze fazia o papel principal, e o roteiro era tão ruim que nem dava para se mijar em cima. Você sabe a razão. - Sei, sim. - Pois é, ele anda comendo Iria Blaze. Uma trepada de dois milhões de dólares! Além disso, o sobrinho dele, um sujeitinho metido a elegante, de Nova York, é quem toma conta da contabilidade e rouba a companhia a valer. O primo da mulher dele é o contador. Os dois jogam o dinheiro pelo ladrão. Marty está em ponto de bala para perder a companhia, Konig. - Não duvido. - Acho melhor não duvidar. Não é Winchell que está naquela mesa, acenando para você? Acho melhor ir falar com ele. O filho da puta gosta de criar casos. Dê a ele alguma notícia sobre Dawn, que ele possa publicar, e diga-lhe que não quero saber de meu nome em sua coluna. - Será que ele concorda? Wolff deu uma risadinha. Parecia o ruído de uma pia que se esvaziava e logo transformou-se em tosse. Durante alguns instantes Dawn chegou a recear que ele fosse morrer engasgado. Deu-lhe uns tapas nas costas, até ele se recompor e começar a respirar normalmente. - Obrigado... Concorda, sim, Konig! Ele me deve muito mais favores do que devo a ele. O filho da puta sabe disso. Diga-lhe que me telefone lá no Plaza. Vou lhe contar umas sujeiras de Marty Braveman. Konig levantou-se, sorriu para Dawn e aproximou-se da mesa de Winchell. 337 - Você anda trepando com Konig? - perguntou Wolff. Ele havia ordenado que lhe trouxessem uma torta de maçã e a comia com indisfarçado prazer. A pergunta pegou Dawn desprevenida. - Não sei o que leva o senhor a pensar semelhante coisa. - É que tenho olhos para enxergar. O resto pode es,-ar prejudicado, mas consigo ver, menina! - Acho que o senhor não tem nada com isso. - É nisso que você se engana. Tudo o que tem a ver com Konig diz respeito também a mim. Não me entenda mal. Não tenho nada contra o fato de Konig estar trepando com você. É um homem de sorte. Bem que eu gostaria de dar minhas trepadinhas, mas a vida para mim resume-se a comer tortas de maçãs... Dawn ficou tensa. Gostaria que Konig voltasse rapidamente, pois não se sentia nem um pouco disposta a ouvir as desagradáveis confissões de Sigsbee Wolff. - Konig acha que você pode vir a ser uma grande estrela. Sabia disso? - Sim. - E você acha que pode ser uma estrela? Ele bem que precisa de uma. - Espero que sim. Wolff voltou a rir, arquejou, sentiu falta de ar e seus olhinhos giraram para todos os lados. Parecia estar divertindo-se. - Você espera, é, garota? Mas é preciso acreditar, não esperar! Se quiser ser uma estrela, precisa ser capaz de matar. Você é capaz? - Até que posso ser - ela disse, encarando-o e não se preocupando mais em disfarçar o quanto aquele homem lhe era desagradável. - Acredito em você, garota. - Wolff limpou a boca com o guardanapo e derramou migalhas de torta no colo. - Konig acha que você será uma grande estrela. Não vou dizer que você não tenha potencial para isso. Pude perceber de cara, e olhe que sou meio cego... Acontece que você, mocinha, precisa de Konig. Não se esqueça disso. E lembre-se de mais uma coisa: eu também preciso dele. Portanto, seja boazinha com ele. Entendeu? - Farei o possível para - Boas falas! Konig voltou para a mesa, e o motorista retornou levando Wolff para a limusine. Ele se despediu, beijou a mão de Dawn e declarou que a noite fora longa demais para um homem de sua idade. Seus dedos, que brilhavam com vida própria, toca não tornar David infeliz. 338 iam o rosto de Dawn, desceram e resvalaram ligeiramente em seus seios. - A noite foi comprida, mas aproveitei bem... - ele disse, com aquele sorriso que mais parecia uma careta. Fez um sinal ao motorista para leva-lo embora. Todos se afastaram a sua passagem, e ele se retirou. Durante alguns instantes Dawn esperou sentir o cheiro de enxofre no ar, mas nada restou da passagem de Wolff, a não ser as marcas da cadeira de rodas no tapete. Dawn contemplava as luzes de Nova York pela janela da sala de estar de Konig, no hotel St. Regis. Ele estava ao lado da lareira, lendo telegramas e bilhetes. - O que achou de Wolff? - É o homem mais horrível minha vida. - Humm... - Konig não pareceu surpreendido nem preocupado. - Ele costuma transmitir essa impressão, quando a gente o encontra pela primeira vez. - E mais tarde a impressão se modifica? - Não necessariamente. Eu gosto daquele demônio, mas é como a. comida húngara. Não é a todos que agrada. - Você confia nele? - É claro que não. Se a gente tivesse de fazer negócios com pessoas de nossa confiança, esses negócios simplesmente não aconteceriam. Sigsbee, porém, é homem de muita intuição e nisso eu confio. - Você precisa mesmo dele? - Se for para permanecer na Inglaterra, não. Se for para fazer o que quero, sim. Sou um estranho na Califórnia, e o mesmo acontece com Wolff. Isso nos torna aliados naturais. "O inimigo de meu inimigo é meu amigo", diz o ditado árabe... Ouça, sou muito grato a você. Sabe que deixou o velho encantado? Não é todo mundo que consegue. - Konig abriu um envelope e franziu o cenho. - Telegrama de Lucien. Ele está no Congo. Meu Deus, o elenco ainda nem chegou e ele quer que lhe enviem mais latas de filmes. Mandei Kraus para controlálo, mas os dois devem ter enlouquecido! - Ele está bem? - Dawn procurou dar o tom mais casual possível. - Parece que sim. Ouça o que diz o telegrama: "CHEGUEI AO CONGO, PAISAGENS MAGNÍFICAS, ENVIE MAIS FILMES A LÉOPOLDVILLE, MANDE PELO MENOS 5000 LIBRAS, BARCOS E CARREGADORES CAROS. MINHA SAÚDE E BOA. LEMBRANÇAS, CHAMBRUN". que já conheci em toda a a sua pergunta 339 - Puxa! Nem uma palavra para mim - queixou-se Dawn; - Pelo menos ele poderia dizer que sente minha falta. - E por que não haveria de sentir? A questão é: será que você sente falta dele? - Francamente, sim. De vez em quando. Konig rasgou o telegrama, serviu-se de um conhaque e tirou os óculos. - Ótimo. Se você dissesse que não, só para me agradar, perceberia que estava mentindo. Você o ama? - Não sei. - E a mim? - Também não sei, David. Ainda não. - Não estou me referindo a uma grande paixão. Isso só acontece no cinema. Afeto, necessidade de companhia, respeito... com o tempo, tudo isso se transforma em amor. - É o que sinto por você. Konig pareceu satisfazer-se com a resposta. Enfiou a mão no bolso e tirou um estojo de couro vermelho. - Você me tornou muito feliz. Umá estrela deve ter diamantes. Assim, fui à joalheria Cartier e lhe comprei isto aqui. Ele entregou o estojo a Dawn, que o abriu. Dentro estava um colar de diamantes. Ela o contemplou, sem acreditar no que via. Era muito maior do que o da sra. Daventry. Eles fizeram amor naquela mesma noite, mas, apesar do colar, Dawn não sentiu uma grande excitação. Bem que tentou, mas simplesmente não conseguiu. Não achou que fosse culpa de Konig. Ele era um amante experiente, cheio de consideração, mas isso não fazia a menor diferença. Ela ficou surpreendida com a própria decepção. Dawn acordou bem cedo, foi até a sala de estar e contemplou-se no espelho, completamente nua. Pôs o colar, que tinha um brilho estranho de encontro a sua pele. Olhou pela janela e distraiu-se com a paisagem. Compreendia perfeitamente que havia certos sacrifícios, ou ajustamentos, na definição de Konig, que deviam ser feitos. No plano sexual sentia falta de Lucien, do mesmo modo que um viciado quando se vê privado da droga. Tirou o colar e pegou o jornal da manhã, que tinha sido deixado na saleta da entrada. Procurou a coluna de Walter Winchell e a primeira coisa que leu foi seu nome. "David Konig, o magnata do cinema, sorria sem parar ao entrar no Clube 21. E por que não? Trazia pelo braço a garota mais linda da boate: Dawn Avalon, a estrela inglesa. Do modo 340 como ela o olhava, dava para perceber que o coração dela pertence ao papai... O amor não é mesmo uma maravilha?" Logo adiante encontrava-se outro nome conhecido. "Correm boatos de que a vida particular de Marty Braveman, o chefão da Empire Pictures, está provocando rebuliços em Hollywood e entre os principais acionistas da companhia. O público não prestigiou Messalina, o filme épico de Marty, que anunciou planos de rodar mais dois filmes com Iria Blaze... Talvez Marty devesse procurar saber melhor o que aconteceu com o imperador Nero... " Em nenhum momento era mencionado o nome de Sigsbee Wolff. 341 14 Dawn entrou na sala de espera do escritório de Konig, na Rua Grafton. No mesmo instante as duas secretárias se levantaram. - Oh, srta. Avalon - disseram em coro -, como está linda! Dawn sorriu para ambas. Konig havia lhe mostrado a importância de se mostrar simpática e, assim, perguntou pela mãe da srta. Bigelow e pelo gato da srta. Musgrave, que andava adoentado. A srta. Bigelow, criatura rechonchuda, de cinqüenta e tantos anos, era a secretária-executiva de Konig. Tomava conta dele como um verdadeiro cão de guarda, e sua primeira reação, ao conhecer Dawn, fora de desconfiança e hostilidade mal disfarçada. Dawn realizou então uma campanha com a finalidade de conquistá-la por meio de presentinhos e bate-papos amistosos, mas levou algum tempo para perceber que só triunfaria se partilhasse suas preocupações com a saúde e o bem-estar de David Konig. - Como é que ele está? - perguntou. Não havia outro ,,ele" na vida da srta. Bigelow. - Hoje está bem melhor. Ontem o pobre coitado tinha aspecto tão fatigado... Não o deixam em paz. Dawn acenou com a cabeça, num gesto de solidariedade e compreensão. Sabia que a secretária referia-se aos banqueiros e contadores, os antagonistas naturais de Konig. - O hotel já completou as instalações de seu quarto de vestir? - indagou a srta. Bigelow. A partir do momento que voltaram para a Inglaterra, Konig queixou-se de que Dawn vivia (ou "acampava", segundo sua expressão) no pequeno apartamento de Lucien. Era inadmis sível e pouco apropriado a sua nova condição. Lá não havia ninguém para tomar recados; ela não tinha criada; era perigoso para uma mulher bonita e jovem morar sozinha. Insistiu com Dawn para que ela se mudasse para uma suíte no hotel Clarid um 342 ge, onde ela gozaria de todo o conforto, protegida por um verdadeiro batalhão de criados e porteiros. Além do mais, teria a sua disposição uma criada e atendimento na própria suíte. Quase sem esforço e sem nenhuma consciência de que tomara uma grande decisão em relação a sua vida, Dawn surpreendeuse morando na suíte ao lado de Konig. Dentro de uma semana tinha dificuldade em recordar o que significava não ter uma criada a suas ordens vinte e quatro horas por dia a fim de passar suas roupas, limpá-las e cuidar muito bem delas. Como por um passe de mágica, seu guardaroupa parecia aumentar cada vez mais, ocupando a criada o tempo todo e enchendo os espaçosos armários da suíte. Konig, que jamais se satisfazia com o que quer que fosse, mandou o gerente do hotel redecorar o quarto de vestir de Dawn, que não lhe pareceu suficientemente chique para uma estrela. Queria que tudo ficasse pronto em dois dias, e assim foi feito, embora, no final, Dawn se surpreendesse demais ao ver que uma porta espelhada agora ligava diretamente as duas suítes. Era o exemplo perfeito do modo decidido de Konig conseguir tudo o que queria. - O sr. Konig estará livre dentro de poucos instantes - disse a srta. Bigelow. - Mas como você está linda! Dawn agradeceu. Usava um boá de raposa prateada em cima de um elegante tailleur preto e trazia um chapeuzinho preto comum véu seguro por um clipe de diamante. De um lado do chapéu uma única pluma, negra e brilhante, achava-se presa por um pequeno chuveiro de diamantes. Fora outro presente de Konig. A exata implicação de tais presentes era algo em que ela preferia não pensar. A cada dádiva cara que aceitava, o relacionamento tornava-se mais comprometedor. Dado o silêncio em relação ao assunto, Konig deixou bem claro que não se mostrava ansioso por discuti-lo. E por que haveria de fazê-lo? A situação lhe convinha perfeitamente. De vez em quando, nas longas noites, quando permanecia acordada ao lado de Konig, que adormecia à custa de soníferos, Dawn se surpreendia pensando se, acaso, era aquilo que desejava da vida. Tendo, porém, chegado até tão longe, estava decidida a tirar o melhor proveito possível da situação. - Ele está muito ocupado hoje, srta. Bigelow? - Ele está sempre ocupado, e tivemos uma manhã muito difícil. A srta. Bigelow gostava de referir-se a ela e ao sr. Konig como se constituíssem uma única pessoa. - O sr. Wolff telefonou da Califórnia e ficou durante quase uma hora... Os contadores estiveram conversando aqui, fazen 343 do todo tipo de perguntas sobre o filme que está sendo rodado na África... Pelo visto, o sr. Chambrun está gastando uma verdadeira fortuna. Tudo isso deixa o pobre sr. Konig muito preocupado. - Tem chegado muita correspondência do sr. Chambrun? - Não muita. Apenas os telegramas de sempre. - Por acaso ele mandou algum recado para mim? - Nenhum, srta. Avalon. A srta. Bigelow censurava a curiosidade de Dawn em relação a Lucien. Na sua maneira de ver, Dawn agora pertencia a David Konig. - Ouvi dizer que o sr. Beaumont e Lady Cynthia vão casarse antes de embarcarem para a África. É verdade? - indagou a secretária. Ela tinha uma sede insaciável de fofocas românticas, e informá-la era a melhor tática, no sentido de fazer dela uma aliada. - É verdade, sim, srta. Bigelow. Não somente era verdade como o fato constituía a fonte de constrangimento para Dawn, que sabia mais sobre a vida íntima do noivo do que a própria noiva. Ficou espantada ao saber que Beaumont tinha pedido a mão de Cynthia. Quando descobriu que ele não tinha feito nenhum plano para a lua-demel, sugeriu a Konig que seria um belo gesto enviá-los à África, à sua custa, antes que as filmagens começassem. Os atos de generosidade tinham um apelo automático para Konig, e ele agiu imediatamente. A lua-de mel deles seria grandiosa! Enviou telegramas, fez vários telefonemas para os lugares mais distantes do mundo e, no fim do dia, os Beaumont já estavam engajados em um luxuoso cruzeiro Nilo acima e em um safári para dois no Quênia. - Que garota de sorte... - comentou a srta. Bigelow. - O sr. Beaumont é tão bonito! e um verdadeiro cavalheiro, em se tratando de um ator. Ouviu falar do presente que o sr. Vale deu ao casal? - Não. - Uma casinha linda, bem ao lado da dele! Sei que todos comentam que ele tem má reputação, mas foi um belo gesto, não concorda? Com efeito. Dawn pensou na porta providenciada com tanto engenho por Konig, que ligava suas suítes. Será que o mesmo ocorrera a Vale?

. - Aí vem ele - disse a secretária, em pleno êxtase, como se estivesse anunciando a chegada do Messias. A porta se abriu e ouviram-se vozes, com sotaque inglês, protestando com certa veemência. Dawn ouviu um resto de fra 344 se: "Oh, sr. Konig, não concordo..: " - Alguém interrompeu: "Mais cedo ou mais tarde os acionistas perguntarão onde está indo o dinheiro, sr. Konig..." Este último surgiu na porta, com o charuto no canto da boca. - Obrigado, senhores - disse. - Ah, a srta. Avalon está aí! - Konig fingiu surpreender-se com a presença dela. - Entre, entre! Havia uns seis homens na sala, todos com a fisionomia de alguém cuja paciência fora posta à prova. Suas expressões eram tão sombrias e fúnebres quanto seus ternos, mas, assim que Dawn entrou, todos se levantaram, com sorrisos constrangidos. Ela sabia o que pensavam: uma reunião em que se tratava de finanças não era lugar para uma mulher, e ela fazia muito mal em interrompê-la. David parecia exausto. Estava muito pálido 'e seus dedos tremiam, enquanto ele acendia um charuto. Quantos já teria fumado? - Estava conversando com Sir Conop Guthrie e seus sócios sobre nossos planos - comentou Konig. Sir Conop usava monóculo, colarinho alto, muito engomado, uma flor na lapela e uma corrente de relógio no bolso do colete. Seus traços, porém, não tinham a menor distinção. - Imagino que os senhores já tenham assistido à peça Motivo de divórcio... Ainda não? Não podem perder! Faço questão de lhes enviar entradas e às suas senhoras, naturalmente. A srta. Avalon está preparando-se para atuar na versão cinematográfica. É a história de uma linda mulher, cujo marido acredita que ela é infiel, o que está longe de ser verdade. O filme abre com o rosto de Dawn ocupando a tela inteira, e em seguida corta para a próxima cena, em que se vê o marido dela abrindo uma carta em seu escritório. Ao lê-Ia rapidamente, surge uma expressão de horror em seu rosto, e ele a rasga. Então esse homem elegante, de muita classe, fica de quatro, reúne a carta rasgada em dezenas de pedaços, junta-os, como se fossem um quebra-cabeça, e torna a ler. Em seguida se senta e chora, O rosto de Dawn volta a ocupar a tela. - E o que acontece? - perguntou Sir Conop, fascinado, ainda que a contragosto. - Não quero estragar a peça, mas basta olhar para a srta. Avalon para chegarmos à conclusão de que recuperaremos o dinheiro investido no filme só com a exibição dele na Inglaterra. Quanto ao resto do mundo, será apenas lucro. - E custará muito fazer o filme? - Fazer um filme medíocre custa tanto quanto rodar um bom filme. O principal é que contamos com a srta. Avalon. 345 No momento em que assisti à peça, percebi que era ela. Não foi, querida? Dawn percebeu a deixa Konig. - É o papel de meus sonhos - declarou. Estendeu a mão e tocou de leve no ombro de Sir Conop. - O senhor precisa ir me ver enquanto estivermos rodando o filme. - Boa idéia! - exclamou Konig. - Os senhores devem ir visitar o estúdio e ver como o dinheiro está sendo usado. Terei muito prazer em convidá-los para almoçar. Um terceiro homem, até então mudo, pigarreou, nervoso. - É muita gentileza, mas ainda tenho dúvidas sobre a seqüência de nossos negócios. Já investimos uma fortuna e não vimos nada até agora. Além do mais, o senhor está solicitando mais dinheiro. Levando em conta o ritmo com que esse tal sr. Vale anda comprando ações, em breve o senhor não terá mais o controle de sua própria companhia... Dawn encarou-o e piscou os olhos rapidamente, como se estivesse a ponto de chorar. Então tirou um lencinho de rendas da bolsa e fez o gesto de enxugar as lágrimas. Lançou ao ho mem um olhar tão carregado de súplica e abandono que deixou no chinelo o mais miserável mendigo de Calcutá. O homem corou. - Claro que negócio arriscado compreendo muito bem que - gaguejou. - Quem não arrisca não petisca - sentenciou Sir Conop. Seus sócios abanaram a cabeça, como se tivessem ficado surpreendidos com a originalidade de seu pensamento. Konig parecia muito sério. Foi até a janela e olhou para rua. - Não quero de modo algum que os senhores pensem que não lhes sou agradecido. Carrego muitos fardos, nesta vida, e um dos que mais pesam é á generosidade dos senhores. No entanto, o que conta para mim é a sua confiança, e não seu dinheiro. Algumas vezes eu me pergunto: "Será que sou o homem certo para levar adiante esta tarefa? Quem sabe estou velho demais..." Sou gastador, é verdade, mas o cinema é um negócio que exige muito dinheiro. Ouçam: a melhor coisa que os senhores podem fazer é decretar a falência da King Films. Claro que é uma desgraça, mas essas coisas acontecem. Quanto a mim, irei morar no sul da França e, quem sabe, escreverei um livro. Procurarei cultivar algo, oliveiras, talvez. Ou então uvas, para fazer meu próprio vinho. Por que não? Afinal de contas, nasci numa fazenda. Os senhores estarão me prestando um favor. - Meu caro, nem pense nisso - disse Sir Conop. a 346 - Não penso noutra coisa. Não seria uma vida tão má assim. Talvez meus amigos, e refiro-me a meus amigos de verdade, como Sir Conop, me visitassem de vez em quando e com partilhassem uma refeição simples, tomassem um copo de vinho de meus vinhedos... É claro que eu sentiria muita falta da srta. Avalon, mas não tenho o direito de pôr obstáculos em sua carreira. Poderia vender o contrato dela amanhã por umas 250 mil libras... - Konig fez uma pausa, à espera do efeito que suas palavras produziriam. - Claro que é uma quantia insignificante. Depois de Motivo de divórcio, quero que ela faça um grande filme histórico. Quem sabe Cyrano de Bergerac, com um grande astro a seu lado... possivelmente Douglas Fairbanks, se ele não estiver velho demais. - Minha mulher. Lady Guthrie, é grande fa dele. - Otima idéia! Lady Guthrie é quem escolherá o elenco. Em seguida rodaremos uma comédia ligeira. Existe uma peça de teatro, muito agradável, chamada Champanhe para senhoras, sobre uma criaturinha encantadora, especializada em liquidar com casamentos... E acabo de comprar os direitos de A tentadora, um romance novo que todo mundo anda comentando... Os senhores conhecem? - Lady Guthrie leu e não conseguiu largar o livro enquanto não acabou. Quanto a mim, não gosto de romances. Prefiro livros de aventuras, como os de John Buchan. - Eu também! - declarou Konig, entusiasmado. - Sempre quis filmar um dos livros de Buchan. Sir Conop, o senhor e eu vamos almoçar tranqüilamente em seu clube e conversare mos sobre Buchan. O mistério das arenas que filme daria, hein? Claro que meu sonho é filmar Anna Karenina, com Dawn. Que Anna fantástica ela faria... imaginem só esse rosto, esses olhos, enquanto ela espia pela janela da carruagem... Provocará sensação! Era a primeira vez que Dawn ouvia falar daquele ambicioso programa para seu futuro, e o encarou com uma ponta de ironia. - Claro que tudo isto pertence ao passado - acrescentou Konig, com uma certa amargura. - Que pena... A srta. Avalon irá para os Estados Unidos, onde fará a Metro Goldwyn Mayer ganhar ainda mais dinheiro. Eu me aposentarei... Bem, não é a primeira vez que fracassei... - Mas você não fracassou de modo algum - interveio Dawn, consolando-o. - Aí é que você se engana, querida - ele disse, passando o braço em torno de seu ombro. - Pergunte a estes senhores. - Talvez estejamos sendo um tanto precipitados - declarou Sir Conop, pigarreando. - Como o senhor disse muito bem, não se trata de um negócio como os demais. Poderemos rever 347 o assunto dentro de seis meses... seria tempo suficiente, sr. Konig? - O tempo não é problema. - De fato... e 200 mil libras bastam para que as coisas prossigam? Isto é, se pudermos ter controle sobre a produção dos filmes. - Bem, se os senhores tiverem esse controle, creio que 500 mil libras resolvem a situação. - De acordo, mas exigimos o senhor à frente de tudo - declarou Sir Conop com firmeza. blemas com Vale. - Seus sócios grave. - De acordo, cavalheiros - disse Konig, mais satisfeito do que seria conveniente demonstrar. - Os senhores acabam de me convencer. - Não queremos mais proconcordaram, com ar muito Konig desceu com lentidão os degraus que levavam ao pátio, como um velho. Dawn dava-lhe o braço, e ele tinha a aparência de um inválido, tanto mais que se apoiava numa bengala. - Não acha que deveria ter convidado aqueles homens para almoçar? - Não, não. O momento em que eles ofereceram o dinheiro era a hora de apertar-lhes as mãos e despedir-se. Se almoçássemos juntos, voltariam a tocar no assunto. Quem garante que eles não tenham segundas intenções? O . Rolls-Royce surgiu e Konig acomodou-se. - Vamos ao lvy - disse, ligeiramente preocupado. - Você poderá exibir seu chapéu novo para Noel Coward. Sabe que agiu maravilhosamente com Sir Conop? Você e eu devíamos ser sócios. -já somos quase... - disse Dawn, pegando na mão dele. Konig manteve-se em silêncio. Ela sabia que o casamento era uma de suas preocupações. Falhara uma vez, e a situação o deixara profundamente magoado. Caçoava do fato, mas por detrás das piadas, ele tinha sérias dúvidas, inclusive em relação a si mesmo, conforme Dawn desconfiava. - O que você pretende fazer com Vale? - Seu amigo Vale não é um sujeito fácil de se abordar. É esperto, ambicioso... Criou um caso incrível quando decidi mandar Dickie Beaumont e Cynthia passarem a lua-de-mel na África, antes de começarem a filmar. Disse a ele, de passagem, que a idéia era sua, o que o deixou ainda mais furioso. - Furioso até que ponto? - ela perguntou, procurando não demonstrar o quanto ficara preocupada. - Furioso a ponto de se descontrolar. Tivemos uma cena 348 muito desagradável. 19vsbs1gEZ9b oliurn que ele tente me 9m 9Jn91 919 9up - Ele sempre 91gmgz 913 - tizar as situações. .29õ?su312 zE IEsi1 - Não duvidabivub oÉZ - de dramatizar, não os'n iEsiummb 9b ro. Hollywood está i~m boowylloH ol Lou Bioff, até mesz5m 91E iioi8 uo.I ex-bandidos. Claro ol£ID .2obibnsd-x9 homossexual bandübnsd 1sux92zomod pendente do que 9up ob 91njbn5q - Konig bateu non u91sd gino2 - mente o aquecedoob999ups o 91nim Konig abriu uma I Emu uilds gino;I paz já rodou um = mu uobol k( xsq Na minha juventuoulnivut Ednim sZ Teve notícias delex919b 2EDìlon 9v9T - Nenhuma. ^urln9Z - - Ele é joveri5vol 9 913 - e as dificuldades

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.02011uÌ 21Em Ebn1E uox191 obnslu9olq uoinugi5q sI9 - .EbEqu9091q =:) Emri 20m5viT .iÊloljno:)2`. nheiro graças a mim, até agora, e ganhará muito mais. Você precisa dar um jeito em Vale. - Ouço seu amigo Konig dizer a mesma coisa. Já notei que ele não quer sujar as mãos. - Será possível que você não perceba que, quanto menos ele souber dessa história, melhor para nós todos? Se explodi: algum escândalo, ele volta para os Estados Unidos ou vai para a França, e fará seus filmes por lá. É absolutamente necessário que você tome alguma atitude. - Não sei qual. Não sou gângster, como Vale ou Sigsbee Wolf£ Não posso simplesmente fazê-lo sair de circulação. - Você poderia ameaçá-lo. A vida íntima dele o deixa bem vulnerável, não é mesmo? - Vale é discreto. Além do mais, você precisa ter em mente que, na Inglaterra, ninguém leva a homossexualidade a sério. Até mesmo no Parlamento e no gabinete da rainha existem ho mossexuais! Contanto que não sejam surpreendidos, ninguém lhes presta muita atenção. - E se Vale fosse surpreendido? Um escândalo público significaria o fim dele, não é mesmo? Ninguém haveria de querer fazer negócios com ele. - E arriscado - disse Goldner, bebendo de um só gole o seu uísque com soda. - Além do mais, é arriscado e difícil. - É menos arriscado do que não fazer nada. - Não seria simples encontrar a... isca certa. - Em seus clubes? Você, com toda a certeza, pode pensar alguém. - Custaria muito dinheiro. - Pense nisso como um investimento. E se com a King Films um acordo de distribuição? - A proposta é tentadora, mas não acreditó a faça. O que você acha? - Poderia fazer, se eu pedisse. - É, suponho que sim. Farei o que estiver a meu alcance. - Espero que sim, para o bem de nós dois. Dawn levantou-se, pôs os óculos escuros, abaixou o véu e saiu da boate, enfrentando o vento cortante, que, aliás, sequer notou. Quando chegou ao hotel Claridge estava gelada. No início de sua relação com Lucien, ele a esquentava, abraçando-a e levando-a para a cama. Sabia que Konig, naquele momento, participava de uma reunião de trabalho, com de roteiristas, contadores e cenógrafos. Por um breve momento Dawn desejou um tipo diferente de calor; então entrou no saguão do hotel e ficou durante alguns instantes diante da lareira, mas inutilmente. em você fechasse que Konig 350 Emmd elevada sbsv9l9 vapor db Iogsv ficar en-n9 Ls~i} uma gi~ig smu res pelool9q z92 mas ho_ orl zsm que a c~ s 9up brilhassozzsrllild muns, o ,znum res que 9up z9J se exces:z9~x9 9z merava svs29m escuro, ~ ,olu~z9 silenciansi~n9liz árvores. .z92ov2s uma chrl9 smu que o pq o 9up de águasugìì 9b Luou.I mida esz9 sbim de cervov29~ 9b garçonsr zno~ISg terraço. .o~s229J O O rosto n~n oJZO2 Luoul poldvillllivbloq umidadbsbimu mente 9Jn9m Qw9 amava. .svsms havia-saz-sivsd no entasJn9 on que doiob 9up dos elo.ol9 zob bom e ~ 9 mod gado d~b obsg mente 9Jn9m DejCl tado, ouo ,obsJ eSSa tra IJ &229 acontec.~9Jno~s 9~oV .zism oJium slsdnsg 9 ,B10$S 9J& ,mim s zs~s2, .91sV m9 oJi9~ mu Isl 29sib gino~I ogims u9z o~uC .zosm zs Is~uz 29up os'n zon9m oJnsup ,9up &d9929q osn 9~ov 9up 19vìzzoq f29< :ibolgx9 92 SzoboJ zòn slsq Iod19m ,silòJZirI szz9b 29 slsq isv uo zobinU zobsJZd zo slsq &JIOV 9I9 ,olsbns~z oilszz999n 9Jn9msJUlozds ~ .ììl Ioq z9mli3 zu9z slsi 9 , .9büJt7Jì &mugis 9m0J 99d2~IZ uo 91sV omo9 ,29JZ$nsg uoz osVI .Isup i9z osV .os~sluni9 9b Iisz ol-9ssi 9Jn9mz91gmiz ozzoq oiti m9d sxi9b o 919b smiJnì sbiv A .ol-s~s9ms si29boq 990` Somz9m 9 osn ,I° -n9m m9 29J szi992q 99ov ,zism ob m9IA .oJ929zib 9 9Is` .oilòz s 9bsbilsux9zzomod s sv91 m9ugnin ,s229JS1$nI sl -orI m9JZix9 srlnis2 sb 9J9nidsg on 9 oJn9msllsq on ort m9ugnin ,zobibn992gluz ms~9z osn 9up omsJno~ !zil .os~n9JS sJium sJ~ -giz o9ildúq olsbns9z9 mU Sobibn992gluz 9zzo~ 91sV 9z 2929up 9b si29vsrl m9ugniVI Somz9m 9 os'n ,9I9b mii o .9I9 mo9 zoi9òq 9log òz mu 9b obn9d9d ,29nbloD 9zzib - oblì9zills .li~ì~ib 9 obs~zins 9 ,zism ob m9IA - .sboz mo9 9up< .sbsn 29SS~ osn 9up ob obs9zins zon9m .sJ29~ s~zi ...s IsIJno~n9 z9lgmiz si29z osL I&2n9q 9bOq ,fS9J29~ E JìbOJ m0~ ,9~OV Sz9du1~ zu9z m: .m9 .oli9dnib oJium silsJZU~ 922fid79~ 990V 92 ~ .OJn9m1J29VRt mu Ofr10~ O2218 92n9~ ~os'~iudilJZib 9b oblo9s mu zmliq gni~ gino}I 9up óJib929s osn zsm ,slobsJn9J 9 sJZOgoIq ~ ~srhs 99ov 9up C .922Ib9q iJ9 92 ,I9SSÌ SII9b0~ .99n&7I& u9m f 29V1J29 9up o i92s~ .miz 9up odnoquz ,: .ziob zòn 9b m9d o slsq ,miz 9up o29gz: 9 u9V O UOXISdJà ,201IJ~29 201u9Ó 20 2Ôq ,92-üOJnfV9I m 29up9z ,zsils ,9up ,9Jnsno~ oJn9v o obnsJn92~n9 ,9JSOc oi9ìni oVI .sbsl9g svsJZ9 9$bilsl~ 19JOd os uog9r19 obn 9 s-obns~slds ,&V&Jn9IJp29 & 919 ,n9i9u.I mo9 os~s19~ ,oJn9mom 919upsn ,gino~I 9up sids2 .sms9 s slsq ~ -nos ,zsJZiIi9J02 9b mos ,odlsds2J 9b osinu92 smu 9b sv mu uo~9z9b nwsCl oJn9mom 9v92d mu Ioq .zo3slgòn99 uo9í~ 9 I9JOrí ob osugsz on uolJn9 osJn9 ,IOls9 9b 9Jn9' .9Jn9mliJUni zsm ,sli92sl sb 9Jnsib z9JnsJZni znugls idéia se ela poderia compreender, pois sua estrela subia no mundo para o qual ele estava dando as costas. Lucien ouviu a porta de um carro bater. Daí a pouco Kraus subia os degraus que levavam ao terraço. Usava, como sempre, um terno cinza, de tecido pesado, além da gravata. Na mão trazia um chapéu panamá. Debaixo do braço carregava uma pasta de couro muito gasta, parecida com as que as crianças levavam à escola, na Europa. Tinha a cabeça arredondada de uma criança, coberta com alguns fiapos de cabelos loiros e ralos. Seu rosto era pálido, estreito, e os traços eram miúdos. Ao vê-lo pela primeira vez, o pensamento que lhe ocorrera fora de que ele precisava de uma boa refeição, a menos que se notasse que os olhos azul-claros, por detrás das lentes grossas e arredondadas, eram os de um adulto, por mais frágil que fosse. Tudo em Kraus era pequeno: os punhos de escolar, os dedos ossudos, com as unhas roídas até o sabugo, as sobrancelhas descoloridas. Em qualquer parte do mundo seria reconhecido como um refugiado. Kraus era cheio de energia, eficiente, incansável e invariavelmente calmo. Lucien detestou-o desde o momento em que pôs os olhos nele. A proximidade durante a viagem, contudo, havia atenuado a malquerença inicial que ele sentia pelo homenzinho. Kraus não alimentava ilusões românticas sobre a África ou sobre o que quer que fosse. Sua tarefa consistia em conseguir as coisas, por mais improváveis, difíceis ou carentes de sentido que parecessem. Era o perfeito assistente de produção. Kraus falava cinco ou seis línguas. Mesmo quando não conhecia uma língua, ainda assim conseguia brigar por causa de uma conta, reunir quinhentos guerreiros com seus trajes tribais completos, uma manada de elefantes ou o que fosse necessário. Konig tinha encontrado Kraus na Europa há alguns anos, em circunstâncias não muito claras. Depois descobriu suas capacidades e lhe encontrou trabalho. Ele agora tinha verdadeira veneração por seu benfeitor, mesmo a distância. Kraus colocou o chapéu sobre a mesa e fez um sinal para o garçom. - Leve este prato - disse, apontando para a nojo. - Imediatamente! Como se a ordem de Kraus o tivesse deixado eletrizado, o rapaz removeu rapidamente o prato e limpou a,toalha, com um sorriso que ia de um lado ao outro da cara. Lucien sempre ficava muito surpreendido ao notar que ele tinha uma autoridade natural, apesar da aparência. - É preciso ficar em cima dessa gente - observou Kraus. - Eles não têm o menor senso de disciplina. comida com 352 Lucien deu de ombros. Era exatamente o que ele mais apreciava nos nativos. - Alguma notícia? - perguntou. - O sr. Konig passou um telegrama. Devemos Sudão. - Para o Sudão? Mas distância. Para quê? - O sr. Konig disse que lá estragados pela civilização. - Qual é o modo mais rápido de se chegar ao Sudão? - Não existe. Tive uma conversa com o gerente da agência de viagens Cook. É o belga típico, com mentalidade de colonizador, mas consegui acertar tudo. Partiremos amanhã. Há um trem que vai daqui até Uganda. - E como é? - Há acomodações de primeira classe para os europeus, embora isso não signifique muita coisa. Passaremos a noite em Kikiwisha, onde há um abrigo do governo. Imagino que seja bastante primitivo. No dia seguinte percorreremos a província de Kasai, até Bukavu. Ao que dizem, lá existe uma espécie de hotel. Rumamos para Kibombo, permanecemos em Ruanda uns dois dias e de lá tentaremos conseguir transporte até Kampala. Depois disso as coisas pioram. - Pioram muito? - Ninguém sabe dizer ao certo. Talvez tenhamos de passar algum tempo em juba. Aqui ninguém parece conhecer os horários dos trens. - O que - Nada. - Alguma coisa deve existir! - Acho que não. São quase mil e quinhentos quilômetros até Cartum e só existe areia de um extremo a outro da estrada. Acho que teria sido bem mais fácil rodar este filme na Califórnia. - Lá não teríamos os nativos, Kraus. Mais algum telegrama ou mesmo uma carta? - Não, apenas o telegrama testes. - E nada da parte da - De quem? - Da srta. Avalon. - Sinto muito, não. - Enviou meu telegrama? - Mas é claro. Kraus amassou o telegrama e fez um sinal ao garçom para que o levasse embora. Tinha verdadeira paixão pela limpeza. ir para o fica a milhares de quilômetros de nativos ainda não foram existe em juba? srta. os do sr. Konig, Ele gostou dos Kelley? 353 Se encontrasse um cinzeiro sujo na mesa, ele mesmo o esvaziava. O garçom trouxe o chá. Kraus imaginou o que aconteceria quando Lucien descobrisse, o que era apenas uma questão de tempo, que seus telegramas e cartas para Queenie não tinham sido enviados. A si tuação se tornaria explosiva, sem a menor dúvida, mas ele tinha recebido ordens de Konig e se limitava a cumprir seu papel, As instruções de Konig eram bem explícitas. A consciência de Kraus estava tranqüila. Tendo obtido mais um financiamento, Konig mergulhou no próximo filme. Dawn achou que o ritmo dele seria capaz de matar um homem mais jovem. Em todo caso, quase a mata va. Konig colocara dois diretores trabalhando em Motivo de divórcio, e ele mesmo surgia, em geral bem tarde da noite, a fim de dirigir as cenas mais importantes de que ela participava. Mantinha quatro filmes sendo rodados simultaneamente, incluindo o que se passava na África. Dois deles eram realizados no novo estúdio'que construía. Não interrompeu a ronda de janta-res, pois não permitia que nada interferisse em sua vida social, já que, graças a ela, conseguia todos os seus financiamentos. Quando o último convidado se retirava, ele se sentava para trabalhar com os roteiristas, ditando páginas e mais páginas de mudança nos roteiros, revisando-os e andando de um lado para outro da sala de estar, tirando baforadas de seu charuto, até o ar ficar azulado e pesado de tanta fumaça. Embora a vida de Dawn estivesse toda envolvida pelos planos de Konig, eles raramente estavam a sós. O carro do estúdio ia pegá-la no hotel de manhãzinha, quando ainda estava escuro, e ela só voltava tarde da noite, no final dos jantares de Konig. Na maior parte das noites Dawn já dormia quando ele se deitava, gemendo de cansaço. Ela se divertia imaginando como suas vidas eram diferentes daquilo que os convidados de Koning supunham. De vez em quando ela adormecia pensando no corpo atlético e musculoso de Lucien de encontro ao seu. Sabia que erra irracional sentir raiva de Lucien. Afinal de contas, ela mesma tinha escolhido Konig, mas não podia deixar de sentir-se magoada com o fato de Lucien não ter mais pensa do nela, a partir do momento que deixara a Inglaterra. Isso a perturbava mais do que tudo. Se ela era capaz de cometer semelhante erro, então como poderia confiar em seus instintos? Certa noite ela acordou no momento em que Konig deitavase. Ele suspirou, acomodou a cabeça nos travesseiros, pegou um copo de água e engoliu uma pílula. 354 - Você chegou muito tarde hoje - ela observou, bocejando. - Não tire a intenção de acordá-la. - Tomou remédio para dormir? - Sim, embora não adiante muito. Disse ao idiota do meu médico que preciso de algo mais forte, mas ele afirma que o que tomo é suficiente para fazer um cavalo dormir. Infelizmen te não sou cavalo. Ele deveria ter sido veterinário... Sabe, já não agüento mais morar em hotel. É muito confortável, claro, mas gostaria de morar num lugar só meu, isto é, nosso. Talvez eu dormisse melhor se a cama fosse minha... Dawn já não sentia mais sono. Sentou-se e prestou atenção. - Pensei num apartamento, mas não gosto muito. O problema são os vizinhos. Em Nova York ou Berlim não há a menor dificuldade, pois todo mundo mora assim, mas, em Londres, uma casa é bem melhor. Você gostaria? - Não sei se me sentiria bem, David. - Por quê? Não gosta de casas? - Gosto, sim, mas a questão não - Qual é, então? - Minha suíte é junto à sua, aqui no Claridge. As pessoas podem imaginar que temos um relacionamento, mas não sabem com certeza. Se mudarmos para uma casa, ninguém terá mais dúvidas, não acha? - Nenhuma, nos casássemos? - Penso que casados. - E se eu a pedisse em casamento, - Não sei. Você não pediu. Dawn queria ouvir um pedido direto, pois sabia o quanto Konig dava voltas, antes de chegar ao que pretendia. Pois estou pedindo. - Não creio que devo me casar com você só mos mudar para uma casa, David. O casamento, certeza, é muito mais do que isso, não? - Sem dúvida - disse Konig, suspirando. - E se eu lhe dissesse que a amo? Você bem sabe que não tenho jeito para essas coisas, mas é verdade. E se eu dissesse que preciso de você? Ultimamente eu me acostumei a não ficar só e nem quero que isso volte a acontecer. Também não gosto de ser magoado. Não vou perguntar se você me ama, mas, se tiver alguma dúvida, agora é hora de dizer e não mais tarde. Ainda está apaixonada por Lucien? - Não sei se algum dia estive, e ele, não está apaixonado por mim. é essa. efeito. Você acha que ficaria melhor se com não mudaria para uma casa se não fôssemos o que você diria? para podercom toda a com toda a certeza, 355 - Bom. Nesse caso, quer casar-se comigo? Ela disse que sim, pois sempre soubera disso. - Receio que o casamento tenha de ser muito discreto, sem a presença da imprensa, sem muita divulgação. Se Marla souber, é bem capaz de pegar o primeiro navio e vir até aqui aprontar uma cena... Você não se incomoda? - De modo algum. Dawn sabia perfeitamente que a diferença de idade entre eles iria provocar comentários. Aquela dificilmente seria a cerimônia romântica, sonho de todas as garotas, pois o noivo ti nha cinqüenta e poucos anos, e a tinta mal acabara de secar, no documento que lhe concedera o divórcio na Califórnia. O que será que Vick diria, ao tomar conhecimento dos recortes? Acaso teria condições de entender o tipo de vida que Dawn levava agora? Era algo tão impossível de ser explicado quanto o desaparecimento de Morgan, em relação ao qual Vicky fizera inicialmente algumas perguntas. Logo decidiu deixar o assunto de lado, como fazia em relação a tudo que não queria de fato saber. - Agora vou lhe contar um segredo - disse Konig, beijando-a. -já comprei a casa e a pus em seu nome. Não custou caro e pertencia ao embaixador da Espanha. - Você sabia que eu diria sim? - ela perguntou com um sorriso, encantada. - Digamos que eu estava disposto a correr os riscos... - Konig pegou um pequeno estojo de couro do bolso do roupão. - Até mesmo comprei a aliança. - Ele a retirou do estojo e colocou-a no dedo de Dawn. Servia perfeitamente, pois era o tipo de detalhe que David fazia questão de cuidar. Ele fechou os olhos e sacudiu a cabeça. - Dawn, em vez de tomar pílula para dormir, engoli uma pílula para acordar. Não é de espantar que eu esteja tão desperto! Dawn sentiu as mãos dele sobre seus seios, bem como o calor de seu hálito. Abraçou-a com ternura. Embora Konig escovasse os dentes meticulosamente, ela ainda conseguia sentir um leve sabor de charuto em seus lábios. Procurou não se deixar afetar por aquilo e pensou no futuro. Ao se tornar a sra. David Konig, gozaria para sempre de segurança, riqueza e proteção, proporcionados pelo poder e dinheiro daquele homem. Do lado de fora do cartório os repórteres e fotógrafos apinhavam-se na calçada, formando uma tripla barreira entre o casal Konig e o carro que os aguardava. Nem mesmo Konig con seguiu manter segredo total em torno da cerimônia de casamen 356 to, embora escondesse o fato o suficiente para manter Marla afastada. Dawn segurava em seu braço, enquanto os flashes quase os cegavam. - Onde irão passar a lua-de-mel? - perguntou um repõrter, aos berros. - É segredo - disse sem sermos incomodados. - Qual foi seu presente de casamento para Dawn? - Segui a tradição. Dei-lhe algo velho, algo emprestado, algo azul e algo novo... - O que foi? - Presenteei a sra. Konig com uma natureza-morta de Van Gogh, Luvas azuis com flores, além de um bracelete de diamentes e um casaco de arminho. - Bem, aí temos coisas novas e velhas. O que foi que o senhor pediu emprestado? - O dinheiro para pagar tudo isso, é claro! - disse Konig rindo e entrando no Rolls-Royce. A lua-de-mel foi planejada por Konig seguindo aquele ritmo desenfreado que o caracterizava. Mal chegaram a Paris e ele já estava ao telefone, combinando jantares, visitas aos ateliês dos mais famosos costureiros e entrevistas com jornalistas. Dawn esperava poder gozar de um ou dois dias de tranqüilidade e aproveitar sua primeira visita a Paris. Talvez com o tempo, uma convivência mais íntima e a novidade, que era o casamento, viesse a amar Konig. Ela esperava que isso acontecesse logo na primeira noite em Paris ou, quem sabe, na. segunda... Em todo caso, era o que mais desejava. No momento, porém, em que se instalaram na luxuosa suíte do hotel Ritz, repleta de flores, com champanhe e caviar, além de cumprimentos da gerência, Konig pegou no telefone e não o largou mais. Como o famoso diretor Lubitsch estivesse na cidade, era preciso convidá-lo para jantar! E Jean Renoir, é claro, se estivesse livre, e Tanya Ouspenskaya, por que não? Quando o carro veio buscá-los, Konig já havia reservado mesa para doze, no Maxim's. Mesmo quando foram para o hotel Du Cap, em Antibes, Konig não conseguiu relaxar. Precisava de companhia, e a de sua mulher, por mais jovem e bela que fosse, não parecia ser suficiente... Dawn já havia esquecido o que era o calor. Despertava quando o sol nascia, percorria as alamedas de laranjais e oliveiras e ia para sua cabina particular, a fim de tomar banho de sol. Nadava muito mal, pois não tivera oportunidade de aprender na índia, e decidiu tomar aulas diárias com um professor na Konig. - Queremos ficar em paz, 357 piscina de água salgada e aquecida, antes que os demais hóspedes acordassem. Konig dificilmente se levantava antes do meio-dia ou surgia na cabina antes do almoço. Somente com a aproximação da noite é que ele nascia para a vida. A limusine a sua disposi ção os levava a jantares em Cannes, Nice ou Monte Carlo e, em seguida, ao cassino, onde Konig invariavelmente jogava bacará até uma ou duas da manhã. Raramente havia menos de seis pessoas para jantar, o que, há pouco tempo, teria deixado Queenie muito assustada. Agora, porém, ela era Dawn. Konig ensinara-lhe a arte de conversar e de receber; acima de tudo, ensinara-lhe que uma mulher linda não podia dizer nada que não fosse apropriado. - Por mais ricas, famosas e bem-sucedidas que as pessoas sejam, elas jamais perdem o temor e o respeito à beleza. É o único instinto democrático que sobrou para as classes superiores - ele sentenciou. E era verdade. Cocteau veio jantar com eles e desenhou o retrato de Dawn num guardanapo. Winston Churchill, que jantou com eles num hotel de Monte Carlo, em companhia de um grupo que estava no iate de Lorde Camrose, descreveu para Dawn suas proezas na batalha de Omdurman e disse à Konig que ela conhecia a índia melhor do que o vice-rei. Marcel Pagnol ofereceu-se para escrever uma peça para ela. Até mesmo Noel Coward, que dera uma escapada da Villa Mauresque, onde se hospedava com Willy Maugham, ficou tão impressionado com Dawn que escreveu uma canção para ela na hora e insistiu em sentar-se ao piano do restaurante, a fim de cantã-la. Deveria ser uma época de verdadeiro idílio, e todas as aparências indicavam que assim fosse, mas Dawn chegou à conclusão, enquanto tomava sol, que o fato de casar-se com David modificara o relacionamento dos dois. Não se tratava apenas da questão de não sentir paixão por ele. Tinha encarado isso desde o início, ou melhor, decidira não encarar, esperando conseguir conviver com essa realidade. Até então, fora muito simples viver em bases temporárias, mas a permanência de um casamento tornava tudo muito mais complicado do que ela imaginara. O que tornava a situação mais difícil era lidar com os efeitos do casamento sobre Konig. Antes ela tinha desempenhado um papel anômalo e, certamente, muito ambíguo em sua vida. Agora, porém, era sua mulher. Com uma simples penada, tornara-se parte da imagem de Konig, juntamente com o RollsRoyce, os jantares e as roupas feitas pelos melhores costureiros. Ele vinha dando palpites sobre o que ela devia dizer, usar ou fazer. 358 Precisava ser justa com Konig e aceitar que ele não tinha consciência do que mudara. Parecia não perceber a distância que colocara entre ambos ou, quem sabe, tratava-se de algo que ele simplesmente não conseguia evitar. Konig acomodou-se ao lado dela numa espreguiçadeira. Um criado do hotel armou o guarda-sol, e ele ficou na sombra. Um garçom pôs uma bandeja com café e água gelada a seu lado. Outro criado trouxe-lhe um telefone, um baralho e a lista dos hóspedes que chegariam ao hotel naquele dia. Konig acendeu um charuto e pôs os óculos escuros. Dawn achou que ele não estava com boa aparência. É bem verdade que ele jamais parecia gozar de boa saúde, mas havia algo que o perturbava e que se refletia numa tensão em torno dos lábios, um ligeiro rubor em seu rosto a levou a perguntar como ele se sentia. Ele esboçou um gesto, indicando que sua saúde não era o que mais importava. - Ficaremos aqui alguns dias comunicou. -Julguei que - Quero sim, muito bem. - Você falou com - Por que pergunta? - Quando vinha para cá ouvi o porteiro completando a ligação. - Um homem não deve ter segredos com sua mulher. Sabe por quê? Simplesmente porque é impossível! Em Londres chove, a temperatura é de doze graus e os trabalhos de reforma da casa vão demorar mais do que pensei. Provavelmente custao triplo, se tivermos sorte... - Não é de seu feitio preocupar-se - E quem está preocupado? Konig inclinou-se para diante e olhou se ninguém os ouvia a distância. - Não é o melhor momento de estarmos em Londres. Parece que seu amigo Vale está enfrentando certos problemas... Mesmo sob o calor do sol Dawn sentiu calafrios. Ergueu os olhos, para ver se uma nuvem passava, mas o céu estava de um azul puríssimo. - Que problemas, David? - Os sórdidos escândalos sexuais de sempre. Um rapaz queixou-se à polícia de que havia sido molestado sexualmente por Vale. Para sua infelicidade, quando a polícia o localizou, a fim de interrogá-lo, ele se encontrava numa dessas boates para homens que têm gostos... especiais... tão ver você queria terminar Motivo de divórcio. porém mais alguns dias ao sol nos farão Londres mais do que eu esperava - hoje de manhã? com dinheiro, David. a sua volta, para 359 - Ele é dono de várias. - É mesmo? Não sabia - declarou Konig, com uma expressão em que se mesclavam o choque e a indignação. Estava claramente disposto a fazer o papel de inocente, até mesmo com ela. - O que acontecerá com ele? - Dawn reconheceu uma ponta de histeria em sua voz. - Fico surpreendido em ver o quanto você se importa... - declarou Konig, olhando-a com insistência. - Não se pode dizer que Vale fosse um bom amigo... Ela se dominou e procurou manter a prevenira. - Apenas fiquei interessada. Ele irá para a prisão? - Primeiro terá de ser julgado. Vale, porém, agiu com sensatez. Tomou o noturno para Paris e desapareceu. Imagino que seus amigos o ajudaram a escapar. Desconfio, aliás, que o obri garam a fugir, e com a maior rapidez e discrição. Muita gente, de nome bem conhecido, deve ter ficado desesperada, com vontade de vê-lo bem longe do país, antes que ele prestasse depoimento à polícia... É claro que ele terá de renunciar à diretoria de seus empreendimentos, incluindo a King Films. - Bem conveniente, não acha? - É mesmo. A gente chega a sentir pena do coitado, mas, por outro lado, será um grande alívio não o ter por perto, tentando me passar a perna e me pôr para fora de minha própria companhia. - E para onde ele irá? - Se for esperto, do que não duvido, venderá tudo o que for possível e começará vida nova em outro lugar. Existe um bom mercado para tudo o que Vale vende... No lugar dele, iria para os Estados Unidos. Acho que lá ele se daria bem... Quanto mais longe, melhor, pensou Dawn. Agradeceu a Deus o fato de Vale não ter como relacionar sua desgraça com a pessoa dela. Na pior das hipóteses, poderia desconfiar de Goldner, mas não tinha a menor razão para supor que ela estivesse envolvida na história. Dawn sentiu calor e até mesmo um pouco de fome. Estendeu o braço e tirou uma fruta da cesta. - Que engraçado... Quando fomos aos Estados Unidos, conversamos sobre as fraquezas de Vale, durante o jantar com Goldner. Lembro-me de você ter dito mais tarde que, se um homem tem algo a esconder, ele pode fazê-lo durante anos a fio, mas ainda assim acabam sendo desmascarado. - Não me lembro em absoluto de ter dito isso a respeito de Vale - declarou Konig com firmeza. - É verdade, porém, que aquilo que mais escondemos sempre retorna e nos atormen 360 ta. - Ele fez uma pausa e tirou uma baforada do charuto. - Acontece com todos os homens e com as mulheres, também. Konig contemplou a fumaça do charuto, distraído. Parecia esperar uma resposta, mas Dawn não tinha nada a dizer. As luzes do candelabro de cristal refletiam-se sobre a superfície polida de uma mesa que se estendia ao longo da sala. Havia vinte convidados para jantar, e Dawn não conhecia a maior parte deles. Era a anfitriã e a atração principal, mas nada tinha a ver com a lista de convidados, a comida ou os vinhos, os quais foram escolhidos por Konig. Este, em animada conversa com seus novos amigos, todos políticos, sentava-se na extremidade da mesa, que lhe custara dez mil libras no leilão da Christie's e enfeitara outrora a residência do duque de AIbany. Transcorria o ano de 1938, e todo mundo só falava de guerra. Londres encontrava-se dividida entre os conciliadores, que apoiavam Neville Chamberlain, e seus adversários, que acreditavam na resistência e em Winston Churchill. Konig, desta vez, escolhera o lado menos popular. Era suficientemente judeu para sentir que não havia possibilidade de se chegar a um acordo com Hitler, o qual de modo algum pres tigiaria gente como ele. Seus jantares acolhiam pessoas que favoreciam a guerra, homens de traços duros e enérgicos, cheios de dinheiro, que, na tempestade que se armava, enxergavam uma chance de assumir o poder. Dawn não demonstrava o menor interesse pela política e chegava a gostar de Neville Chamberlain. De qualquer modo, gostava mais dele do que daqueles políticos repletos de auto confiança, que falavam alto e reuniam-se todas as noites em torno da mesa de Konig, a fim de ridicularizar o primeiroministro e fazer conjecturas sobre a aproximação da guerra, onde outros homens, todos jovens, teriam de lutar. Guardou suas opiniões só para si, o que, aliás, não lhe era difícil, pois os amigos de Konig a tratavam como se ela fosse um enfeite valioso e frágil. - Eles - Eles - Eles não têm navios! não têm tanques! não têm coragem! Dawn retirou-se, em direção ao quarto, e ninguém notou sua partida. Churchill, Konig, Beaverbrook, Bracken, Duff Cooper, Arlington, todos esses homens mais ou menos famosos fu mavam charutos. Por mais banhos que ela tomasse, por mais que lavasse os cabelos com xampu, o cheiro de charutos aderia a sua pele e a seus cabelos. Konig costumava ir muito tarde 361 para o quarto, bem depois de ela haver adormecido, e acordava horas depois de ela ter-se levantado. Estava sempre cansado, mas não era de se surpreender: seu novo estúdio estava quase completo e ele produzia meia dúzia de filmes. O estúdio, juntamente com seu ambicioso esquema de produções, engolia capitais a uma velocidade assustadora, e ele já estava pagando juros sobre juros, contando com o fato de que devia tanto dinheiro que ninguém poderia se dar ao luxo de deixa-lo ir à bancarrota. Ele não deixou essas preocupações interferir em outras ambições. Juntamente com Sigsbee Wolff, empenhava-se em comprar ações da Empire Pictures, usando para isso testas-de-ferro, de modo a não despertar a desconfiança de Marty Braveman. Dawn sabia que Goldner era um desses investidores, e tinha fortes suspeitas de que Kraus, o homenzinho designado para assistir Lucien na África, era outro. O sujeito costumava ir muito a sua casa e trancava-se freqüentemente com Konig. Foi até mesmo convidado para o jantar, uma ou duas vezes, e apareceu com um smoking bastante folgado, que evidentemente tinha sido alugado. - Ele me dá calafrios - certa noite. Agora que os Beaumont estavam de volta, tornaram-se fie-qüentadores assíduos dos jantares de Konig. Safári, novo nome do filme de Lucien, finalmente ficou pronto e não contribuiu muito para a boa reputação de Cynthia. Os críticos escreveram desdenhosamente a respeito dela, qualificando-a de "loirinha atraente", mas a interpretação de Beaumont maravilhou todo mundo, e ele tinha garantida uma carreira de astro. Suas cenas, conforme afirmava o crítico do Daily Express, "transbordavam de energia erótica e máscula". A direção de Lucien também foi muito admirada, e, embora alguns críticos se queixassem de que a maior parte do filme se assemelhasse a um belo álbum de fotografias, ele foi saudado como "um diretor promissor". À primeira vista Cynthia parecia arrogante e bela como sempre, mas não disfarçava as olheiras, uma certa tensão nos lábios, e bebia. Não escondia o fato, mas também não o exibia. No fim da noite, porém, precisava de ajuda para ir até o carro. Sua risada tinha uma certa conotação histérica, e ela fumava um cigarro atrás do outro, de tal modo que a toalha de mesa ficava coberta de cinza e pequenos queimados. Aquela noite ela parecia controlada, para grande alívio de Dawn. - Kraus também me deixa toda arrepiada - confessou. - Ele foi indecente na África e sempre estava rondando todos nós, como um detetive. Lucien o detestou. - É fácil de entender por quê. E Lucien? Anda desapare cido! - Deixou crescer a barba e ficou muito bem. Perdeu aquele rosto de garotão. A África age assim sobre a maior parte dos homens. Inicialmente ele estava bem tristonho. - Não me parece muito próprio de Lucien. - É que ele estava com dor-de-cotovelo, por sua causa. Nem sequer uma palavra, uma carta... Costumava queixar-se todas as manhãs, na hora do café. Sofreu muito, sabe... - Não tive notícias dele. Cynthia pareceu ficar intrigada. de um só gole. - Não foi o que ele me disse... Que esquisito... Quem é aquele homem horroroso, que não tira os olhos de mim? - Sir Congp Guthrie. Por que foi que Lucien não voltou, Cynthia? Não compareceu nem mesmo à estréia de seu primeiro filme. - Bem, querida, em primeiro lugar, viajou à procura de locações para seu próximo filme. Não pensa em outra coisa que não seja rodar O coração das trevas, no Congo. Se quiser saber minha opinião, acho um livro muito deprimente e não existe papel para uma atriz. Ele está entusiasmadíssimo com a África. Não entendo muito bem por quê. Detestei aquele lugar. Lá todo mundo é tão classe média, tão medíocre, com exceção dos negros, é claro... Cynthia estalou os dedos para o mordomo, que franziu o cenho e serviu seu copo até a metade. - Acho que todo mundo já está comentando... Dickie deve estar falando com Konig sobre meus pileques. - Encha o copo de Lady Cynthia - ordenou Dawn ao mordomo. - Obrigada, querida. O vergonhoso a respeito da bebida é que os empregados são os primeiros a saber, e eles são tão moralistas... O que foi mesmo que você me perguntou? - Por que Lucien não voltou para a Inglaterra? - Ah, sim, claro. Uma das razões, querida, é que acho que seu casamento o deixou um pouco surpreendido. A velha chama ainda arde... o que não deixa de ser muito lisonjeiro para você. - Mas ele não deveria ter ficado tão surpreendido assim. Afinal de contas, escrevi para ele. Cynthia esvaziou o copo, cerrou os olhos e acendeu mais um cigarro. Deu uma tragada e esmagou-o no cinzeiro. - Escreveu mesmo, querida? - Parecia mais angustiada do que nunca. Hesitou e esvaziou o copo 362 363 - Claro, mas ele não respondeu. - O correio de lá é horrível. - Não pode ser tão horrível assim! Cynthia escondia algo e não sabia ou não queria mentir,' - Pavoroso! A correspondência se extravia o tempo todo. Você deve ter recebido pelo menos algumas cartas dele, querida.' No início ele escrevia sem parar. - Como é que essas cartas foram postas no correio? Eles não devem ter caixas nas ruas, não é mesmo? - Não, não. A gente entregava as cartas a Kraus encarregava de tudo. - Ah, sei... Suas desconfianças começavam a ter sentido. Ficou surpreendida por não ter percebido antes, talvez porque não quisesse. - E onde Lucien se encontra agora? Na África? - Creio que ele ia para Paris. Alguns produtores franceses estão muito interessados no trabalho dele. Por falar nisso, adivinhe só quem vimos em Paris, quando voltávamos da África: Dominick Vale! Tinha uma aparência esplêndida e almoçava num restaurante chiquérrimo. Não parecia nem um pouco abalado com o que aconteceu. - Vocês conversaram com ele? - perguntou Dawn, fazendo o possível para não se mostrar muito interessada. - jantamos com ele. Você sabe que ele e Dickie são bons amigos. Vale disse algumas coisas muito desagradáveis a seu respeito, querida. Pelo jeito, ele a culpa por tudo o que lhe aconteceu. - Mas que absurdo! - Também acho. Oh, por que esses homens horríveis não calam a boca? - Em 1939 a guerra estoura - dizia Brendan Bracken com sua voz estridente, que se sobrepunha às demais. - Foi o que me disse um amigo, que esteve em Berlim na semana passada. Esperarão até o outono, depois das colheitas. - Você acha que teremos guerra, Dawn? - perguntou Cynthia. Seus belos olhos azuis estavam ligeiramente enevoados. - Espero que não. - É mesmo? Pois estou torcendo para que haja. Não deve ser tão tedioso quanto a paz... - David acha que a guerra estoura. - Dickie também. Sabe o que ele fez? Alistou-se nas tropas de reserva da Real torça Aérea. Acho que, no fundo, o que ele gosta mesmo é do umforme! - Você está sendo injusta com ele, Cynthia. - Acha, é? Acontece que você não é casada com ele! É 364 o homem mais bonito da Inglaterra. Basta que ele entre no palco, e as mulheres de todas as idades ficam molhadinhas. Quando, porém, vamos para a cama, não sinto absolutamente nada! Cynthia riu. Era um som alto, estridente, que não continha a menor sugestão de humor. A risada foi num crescendo que fez com que todos parassem de conversar no mesmo instante. Em seguida a conversa foi retomada, como se os presentes quisessem fingir que nada tinha acontecido. - Não faça cenas - murmurou Dawn. - Claro que não - disse Cynthia, controlando-se. Seu bonito rosto assumiu de repente uma expressão amarga. - Nada de cenas... Esta é a Inglaterra. Falar em fazer a guerra não tem a menor importância, mas não se deve fazer cenas! - Cynthia, querida, quem sabe você não lhe deu uma oportunidade. Por que vocês dois não fazem uma viagem? Cynthia acendeu mais um cigarro e olhou pensativamente para Dawn. - Você ainda não entendeu. Não me importa tanto o fato de que Dickie não possa satisfazer-me, embora não ache que seja pedir muito. Eu é que não consigo satisfazê-lo! Quando ele vai para a cama comigo, simplesmente fica ausente. Você não tem a menor idéia de como é! - Talvez tenha, sim. - Dawn falou tão baixo que Cynthia não a ouviu. - Foi um erro, eu reconheço. - Você me enganou, sem a menor necessidade. - Não imaginava que você se importaria tanto. - Não acho que seja uma desculpa decente. - Era a primeira vez que Dawn desafiava Konig. Ele corou ligeiramente. - Saiba que não é a primeira vez que me envergonho do que fiz - declarou ele. Acaso sentia-se culpado por haver interceptado a correspondência entre ela e Lucien ou simplesmente pelo fato de ela ter descoberto? O que Lucien teria dito em suas cartas? Será que faria alguma diferença? Konig serviu-se de um drinque. Ultimamente bebia mais, mas parecia não sentir muito os efeitos, a não ser por uma certa lentidão nos gestos. - Procurarei merecer o seu perdão, Dawn. Ela permaneceu em silêncio. David não era suficientemente tolo para acreditar que poderia"livrar-se de uma discussão com ela, mas quando estava cansado, como acontecia ultimamente, não tinha tempo ou paciência para o que quer que fosse. 365

Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a intenção de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma manifestação do pensamento humano..



- Acho que, durante algum tempo, dormirei no meu quarto. Prefiro ficar sozinha - ela declarou. Konig não protestou. Simplesmente deu de ombros, ficou de costas e serviu-se de mais uma pedra de gelo. Ela ouviu o ruído do sifão de soda e retirou-se. Será que tinha ficado aliviado diante de sua decisão de dormir sozinha? Até então não lhe ocorrera que David talvez a procurasse para fazer amor impelido pelo mesmo senso de obrigação que ela sentia em relação a ele. O ano de 1939 foi de preparativos sombrios para uma guerra que todo mundo sabia que se aproximava, mas sobre a qual ninguém queria pensar. Máscaras de gás eram distribuídas a to do mundo, juntamente com panfletos que descreviam os terríveis sintomas que poderiam ocorrer após um bombardeio ou ataque a gás; sacos de areia, extintores de incêndios, pás e baldes surgiam nos halls e nas entradas dos escritórios; os proprie. tários das casas eram incentivados a construir abrigos em seus jardins. Nos parques, gramados centenários eram arrasados, para dar lugar a armamentos antiaéreos, e o estúdio de Koníg, que acabava de ficar pronto, estava passando por um processo de camuflagem. Em toda Londres intrometidos e bisbilhoteiros começaram a se alistar em estranhas organizações, identificadas umcamente pelas siglas Axp ou CAD. Armados com a autoridade que lhes conferiam os capacetes de metal e as faixas que j usavam no braço, começaram a atormentar seus vizinhos para l adotarem precauções contra incêndios, usarem cortinas negras nas janelas e tomarem cuidado com a presença de espiões. Bastava pedir informações com sotaque estrangeiro para uma pessoa ser detida. Os três roteiristas de Konig eram presos quase; todos os dias por zelosos caçadores de espiões. Konig resolveu' o problema alistando-os na pequena brigada voluntária do estúdio, que se propunha a combater incêndios, o que lhes dava', o direito de também usar faixas no braço e capacetes de metal. De certo modo Konig não tinha do que se queixar. Quanto mais a guerra se aproximava, mais as pessoas queriam esquece-,, Ia. Os cinemas nunca tinham estado tão cheios, e Dawn, bela, encantadora, sofisticada, era a imagem que lhes permitia esquecer os perigos dos bombardeios aéreos, os efeitos letais do gás sobre os nervos e os soldados nazistas, que caíam de pára-quedas na Inglaterra, disfarçados de freiras. A reputação dela aumentava cada vez mais nos Estados Unidos, mas, na Inglaterra, Dawn já era uma estrela de primeira categoria. Uma secretária trabalhava em período integral para cuidar da correspondência que 366 os fás lhe dirigiam e que superava de longe a do primeiroministro. A aproximação da guerra não constituía a principal preocupação de Konig. Por mais bem-sucedidos que seus filmes fossem, não davam lucros suficientes para pagar os vastíssimos in vestimentos que fizera. Até mesmo sua legendária esperteza, no sentido de manipular cifras, não conseguiu esconder dos investidores que a King Films afundava sob o peso das despesas feitas pelo estúdio e dos hábitos extravagantes de seu diretor-gerente. A estratégia de Konig em lidar com esses problemas era instintiva. Simplesmente duplicou os investimentos. Propôs-se a produzir um grande filme épico, que, de uma vez por todas, conquistaria o mercado mundial para os filmes ingleses. Recorreria a Dawn Avalon e a Richard Beaumont para garantir o sucesso de bilheteria e empregaria todos os recursos restantes em um único filme de grande produção. Ao mesmo tempo procuraria adquirir a Empire Pictures, usando a King Films como meio de pôr um pé em Hollywood. Raciocinava, com certa razão, que -os bancos, o Tesouro, Bracken e talvez até mesmo Goldner e seus novos amigos judeus, situados no mundo das altas finanças, ficariam suficientemente satisfeitos a ponto de passar por cima dos problemas financeiros da King Films, se tivessem a oportunidade de comprar um grande s; estúdio de Hollywood. Para Konig não seria nem um pouco difícil convencê-los de que, tendo Sigsbee Wolff "no bolso", a transação poderia ser feita. Com sorte e novas aplicações de capitai, seriam donos da Empire Pictures e não só do estúdio, mas, o que era mais importante, de todo o setor de distribuição. Dessa forma abririam o mercado americano aos filmes ingleses, ao mesmo tempo que conservariam o estúdio de Londres. Como o próprio Golduer já estava comprando cinemas ingleses e preparando-se para tornar-se um distribuidor independente, poderiam controlar todo o mundo de fala inglesa. De `um só golpe um grupo inglês liquidaria com a hegemonia dos americanos em relação à distribuição mundial de filmes e assumiria uma posição de comando nos próprios Estados Unidos. Dawn não deixou de notar que a boa estrela de Goldner e, até certo ponto, a de Konig, devia-se a ela. Agora que tinha mais de vinte e um anos e se livrara do velho contrato, ganhava dinheiro para Konig. Dadas as circunstâncias, era bem surpreendente, até mesmo Dawn, que seu marido tivesse pouco tempo pata ela. Quanto sua pessoa, estava excessivamente ocupada, pois era a estrela incipal da companhia de Konig. O mais preocupante era que 367 ele não dispunha de tempo suficiente para dedicar-se ao filme épico que ela deveria estrelar. Após rejeitar Cyrano de Bergerac, como um filme sutil demais para uma platéia de fala inglesa, e Guerra e paz, por ser um projeto excessivamente ambicioso, Konig escolheu As minas do rei Salomão, cujos direitos adquirira por um preço baixíssimo, havia alguns anos. Estivera a ponto de fazer o filme várias vezes, e, quanto mais pensava nele, melhor lhe parecia. Continha escapismo, aventura, romance, exatamente o que as pessoas queriam ver na véspera da guerra. Seria também um filme caro e dificil de rodar, mas ele se recusava a reconhecer ou sequer discutir esses aspectos. Konig agia como um homem que se impõe uma tarefa gigantesca e espera escapar dela, ao adiá-la. Tinha, porém, anunciado seu empreendimento. Os jornais e até mesmo o governo aplaudiam sua coragem. Caíra numa armadilha. A única coisa que receava de verdade era tentar dirigir o filme. Sabia que isso estava acima de suas forças. Há muito tempo rodara filmes épicos. Sabia muito bem o que isso significava, em termos de desgaste. Além do mais, queixava-se de que não era o seu forte. Afinal de contas, não se tratava de nenhum Cecil B. de Mille. Encontrar um novo diretor não era fácil, de modo algum. Nenhum diretor americano se dispunha a vir para a Inglaterra num momento em que a guerra estava para explodir e nenhum diretor inglês tinha experiência para fazer esse tipo de filme. Ou melhor, tinham a experiência errada, refletiu Konig. Estavam acostumados a pensar em escala pequena, e ele necessitava de um homem capaz de grandes empreendimentos. Examinou o problema detidamente, até mesmo com Dawn, mas não conseguiu encontrar uma solução. Certa noite ela o encontrou diante da lareira, no estúdio, de olhos fechados. Ele a ouviu chegar e espreguiçou-se. Dawn aproximou-se e ficou parada ao lado dele. - É tarde e você ainda está acordada. - Não consegui dormir. Vim tomar uma xicara de chá. - Temos empregadas. - Eu sei. - Não hesite em acordá-las. Afinal de contas, são muito bem pagas. - Eu sei, mas prefiro eu mesma fazer meu chá. É um hábito. - Dawn pôs a mão no pescoço de Konig, e ele soltou um gemido de prazer. - Eu mesmo terei de filmar - queixou-se. - Por quê? John Mammon não serviu? Todo mundo diz que ele é muito experiente. 368 - Experiente? Ele tem muita experiência, mas é em filmar fracassos. Os diretores experientes escolhem o caminho mais fácil. Imitam os outros ou, o que é pior, imitam a si mesmos. Precisamos de alguém que tenha um faro para o selvagem, o imprevisto, alguém que faça uma aventura pouco provável parecer real. Fez-se um silêncio prolongado, interrompido apenas pela respiração dificultosa de Konig. - Existe Lucien - surgeriu Dawn. Konig não disse nada. - Se o novo filme dele for tão bom quanto Safári... - E é, sim. Projetaram-no para mim. - Quem sabe, então, ele poderá dirigir... - Acho que é o homem mais indicado - Konig esticou o pescoço e movimentou a cabeça de um lado para outro. -Mas... - ele objetou. - Mas o quê? - Será que você quer de verdade que ele a dirija? Quer mesmo? O ciúme é uma emoção ridícula, mas dolorosa, na minha idade. Não quero acrescentá-la aos problemas que já tenho. - Repito que ele é o homem indicado para dar conta desta tarefa, David. Ele não perguntou se podia confiar nela com Lucien, o que a deixou contente, pois nem ela sabia a resposta. Konig, que tinha mandado Lucien para bem longe e os mantivera afastados, agora teria de trazê-lo de volta e correr o risco de perdê-la. Não deixava de ser um ato de justiça, raciocinou Dawn. - Mas será que ele voltará? - perguntou Konig. - Ouvi dizer que tem compromissos e sei, que ainda se, sente amargurado em relação a nosso casamento. ' Dawn sabia qual era a resposta. - Se eu pedir, ele concordará. - É verdade. - A expressão de Konig era melancólica. Sabia que ela tinha razão, que não lhe restava alternativa e tinha plena consciência de que corria um risco. - Pois bem. Escreva para ele. Melhor ainda, telegrafe. Não quero saber o que você dirá e como fará, mas traga-o até aqui. Deixe o resto por minha conta. Konig levantou-se, passou o braço em torno dos ombros de Dawn e caminhou em direção à escada. Estava tão fatigado que parou para respirar, apertando a mão dela. - Faz muito tempo que dormimos juntos pela última vez... muito tempo - comentou. A luz mortiça iluminava um rosto tão exausto que era difíail recordar o quanto ele era encantador, cheio de energia, quando encontrava na companhia de outras pessoas. Dawn não sentia 369 o menor desejo de dormir com ele, mas compreendia, ou pelo menos achava que compreendia, as razões que o levaram a tocar naquele assunto. Konig sempre sentiria ciúme de Lucien e agora tinha necessidade de reafirmar sua posse sobre ela. Dawn não estava disposta a discutir. Havia certos períodos, num casamento, em que era melhor fazer concessões. Ele a seguiu até o quarto dela, ainda respirando com dificuldade. Sentou-se na cama e tirou os sapatos. - Tenho um segredo a lhe contar. Ninguém pode saber disso, mas o governo me ofereceu um título de nobreza. Dawn o encarou, atônita. Konig tinha a reputação de conseguir tudo o que desejasse, mas um título parecia algo muito além de sua capacidade de manobrar as situações. - Que maravilha, David! Ele sorriu como se tivesse feito aquilo com de de agradar-lhe. - Trata-se basicamente de um modo de afirmar governo na indústria cinematográfica inglesa. Não deixa de ser patriotismo. Além do mais, politicamente, não é nada mau conceder um título de cavalheiro a um judeu húngaro. Os america sobretudo os judeus americanos. É uma desfeita a única finalida a fé do nos adorarão, a Hitler... - Mas você merece, porque é um homem de muitos méritos. - Você é um anjo. Gostaria que fosse verdade. Prestei alguns favores a Churchill, e ele me deve uma retribuição. Na Inglaterra o enobrecimento é o modo tradicional que os políti cos têm de pagar suas dívidas. Não posso negar que esteja contente. Você será conhecida como Lady Konig... - Acharei difícil me acostumar! - Bobagem. Não demora a se habituar. Acostumou-se rapidamente com o nome Dawn. É evidente que teremos de agir com muita prudência. O palácio real é muito rigoroso em rela ção a certas coisas. Uma notícia desagradável nos jornais, até mesmo uma fofoca maliciosa, pode pôr tudo a perder. Era como se ele tivesse dito: "Nada de casos com ninguém, Dawn, senão você estragará todas as minhas chances". Ela ficou um tanto ressentida com a insinuação. Sentou-se diante da penteadeira e começou a remover a maquilagem. - Você não tem por que se preocupar comigo. - Foi apenas uma observação. Não estou preocupado. Ela se voltou e o contemplou. Por maiores que fossem às dificuldades existentes entre eles, mais uma vez Konig realizava um milagre, que, em parte, se destinava a ela. Fizera dela, Dawn Avalon, uma estrela, e agora estava a ponto de transformá-la 370 em Lady Konig, o que, sem dúvida, representava um longo caminho, desde os dias em que ela era simplesmente Queenie Kelley! Ela se levantou, tirou a roupa, pôs a camisola e deitouse ao lado dele. Não dormir com Konig, na noite em que ele lhe dera uma notícia tão significativa, implicava aumentar ainda mais a brecha existente entre eles. Aquela noite eles dormiram na mesma cama, pela primeira vez depois de brigarem por causa das cartas de Lucien. David jamais havia feito amor com ela demonstrando tanto sentimen to, gentileza e afeto. Depois que tudo terminou e ele dormiu, Dawn levantou-se, foi até o banheiro, contemplou-se no espelho e chorou. O carteiro, homem grisalho com um pronunciado sotaque meridional, veio de bicicleta desde Antibes a fim de entregar o telegrama, seguindo as instruções do recepcionista do hotel Du Cap. Fazia muito calor e ele pedalava com lentidão. Não se queixou, mas apresentou o telegrama a Lucien com tamanha cerimônia, que ele se viu obrigado a oferecer uma bebida ao dedicado funcionário. - Não digo que não, sr. Chambrun... - O carteiro tirou o boné, alisou as pontas do bigode, sentou-se e tomou um trago, enquanto Lucien lia o telegrama. - Espero que as notícias sejam boas... - ele comentou, enxugando de leve o bigode. - Trazer mas notícias é o que existe de pior em nossa profissão. - As notícias são simplesmente maravilhosas! Sabia que, mais cedo ou mais tarde, acabaria acontecendo. Tenho de voltar para a Inglaterra. - Acho melhor reservar passagem imediatamente. Os americanos regressam aos Estados Unidos, os ingleses vão para casa e, em breve, aqui não haverá mais turismo. Pobre França! - A guerra ainda não foi declarada, não é mesmo? - Ainda não, mas a coisa será para hoje. Cá entre nós, os telegramas que convocam os reservistas já estão prontos. Estarão todos mobilizados até amanhã. Que confusão! Graças a Deus estou velho demais para participar da guerra. Lutei na outra. - Espero que esta não dure quatro anos. - Não há a menor chance, monrieur. Da última vez os alemães invadiram a França e, desta vez, invadem apenas a Polônia. Se eles querem este país, que fiquem com ele. Quem se importa com a Polônia? Lucien concordou e foi até seu quarto fazer a bagagem. Na estação de Nice os comentários do carteiro sobre os es 371 0 trangeiros foram confirmados. O trem © m9ii O .zobsmiiino~ msloi zoii9gnsm gente poliglota e elegante, que voltava svs~lov 9up ,91nsg9I9 9 siolglloq 9Jn9$ estavam repletos de elegantes malas de 9b zslsm z9~nsg~19 9b zoi9lg9i msvs7z9 o aroma de charutos de boa qualidaosbilsup sod 9b zoJlnsd~ 9b smols o As paredes estavam cobertas de ca~~ 9b ZfJ19d0~ m&Vf729 29b91&q zA a população em condições de lutar e tinis 9 1sJU1 9b z9õ~ibno~ m9 os~slugoq s sadamente, durante a noite. Liam-se al~ls sz-msi.I .9~ion s 9mslub ,9m9msbsz ricas. Na estação de Lyon alguém afixsxi3s m9ugls noy.I 9b o~~siz9 sVI .zs~i~ estava escrito: "Ganharemos porque so>toz 9upioq zom9zsdnsD" :OJ11~29 fV&7z9 possível esperar que a França vencesse f 9zz9~n9v s~nsW s 9up lsmgz9 19vìzzoq zão de seu lado ou, simplesmente, ponoq ,9~nsmz9lgmiz ,uo obsl u9z 9b oss não porque os franceses eram mais fortano3 zism ms19 z9z9~nsi3 zo 9uploq o~n normas tristes e cínicas das tropas para g slsq zsgoli zsb zs~inì~ 9 z9izü7 zsimon não acreditavam nisso. .ozzin msvs7ib9~~s osn Em Paris Lucien teve de aguardar isbisu$s ~b 9V97 n91~IJ.I züsq md baldeação. A confusão provocada pela g sl9q sbs~ovolq oszu~no~ A .o~~s9blsd Milhares de homens de umformes, que db 9up ,z9mio~inu 9b zn9mod 9b z9~sdliM andavam de um lado para outro, procutlu~oiq ,o17uo slsq obsl mu 9b msvsbns que os dirigisse a suas umdades. Se as A zs 92 .z9bsbinu zsuz 1ï 9zzigilib zo 9up lização eram tão desorganizadas, o exé~x9 O ,zsbssinsgloz9b osY ms19 os~ssil a certeza, apresentaria deficiências gra-sYg z&1~n91~~9b ftI~Jn9z91q& ,fs9J29~ & Transportando a própria bagagem, ,m9gs$sd silgòiq s obnsnogznsiT dores, ele conseguiu, a muito custo, enUn9 ,o7zu~ olium s ,ulug9zno~ 919 ,z91ob Calais. Instalou-se no primeiro canto livnvil o1ns~ oii9miYq on 9z-uols7znI .zisls~ meteu. Na manhã seguinte estaria ém L1 rri9 süs~z9 9~niug9z ~dnsm sVI .u9~9m duramente Queenie. .9in99u9 9~n9m~isib Quando o trem chegou a Calais, js~ ,zisls~ s uog9rí~ m9i7 O obnsu9 era particularmente ameaçadora, pois fooi zioq ,siobs~s9m~ 97n9mislu~insq sY9 blecaute, devido à possibilidade de um mu 9b 9bsbilidizzogs obiv9b ,9~us~91d var em conta como os viajantes se orient3n9i1o 9z z9~ns~siv zo omo~ s1no~ m9 isv ma estava mergulhada em obscuridad®bsbim~zdo m9 sbsdlugmm svs7z9 sm impossível deslocar-se sem esbarrar nas ~ z&n Y&Ilfd29 m92 92-If~0129b 19Vì2zogmt e soldados adormecidos. Os viajantes pnq z9ins~siv z0 .zobi~9mYObs zobsbloz 9 dor ou suplicavam por uma orientaçãoos~sm9üo smu 1oq msvs~ilquz uo Iob ferimentos provocados pela guerra já in~ni s~ sm9ug s19q zobs~ovoiq zoJn9mim~ zelos torcidos, cortes e contusões. .z9õzu7no~ 9 z9~YO~ ,zobimoJ zo19s Lucien avançou lentamente, rodead~bs9boi ,97n9msm91 uo~nsvs n9i~u.I turistas ingleses com seus filhos. De rel9i 9Q .zodlii zu9z mos z9z9igni zs7zim~ nha com um balde e uma pá de brinqu~upnüd 9b sq smu s 9blsd mu mos sdn demais a de Queenie. Sentiu tamanho ~ orínlìmsY uiYn92 .9in99u9 9b s zism9b que quase ficou tonto. .o1no1 uo~i3 9zsup 9up Entrou numa fila e passou-se qua~cup 9z-uozzsq 9 sli3 smun uomnd chegasse sua vez de apresentar o passagszzsq o is1n9z9Ygs 9b s9V SIJ2 9225$9d~ um policial. Este olhou o documento, ,oJn9mu~ob o uorll0 9Y2~ .Isi~iloq mu 372 SC~ receber um telegrama de Dawn Avalon, a cinema. - Parabéns. O senhor é um homeup tido estrito, é também um desertor. Na francês, devia ter-se apresentado para o - Mas é claro que não... - Ah! - O policial suspirou, acenou para dois homens de capa e chapéu, que estavam nas imediações, pegou o passaporte e o entregou a eles. Cochichou qualquer coisa com o mais alto dos dois, indicando com o dedo as informações mais relevantes que o passaporte, continha. - Mas isto é um insulto! - protestou Lucien, indignado. - Exijo ver o cônsul inglês imediatamente. Tenho negócios urgentes a minha espera. Os dois homens postaram-se ao lado de Lucien. Eram bem menos amáveis do que o policial, que esboçou um gesto de simpatia, exprimindo sua impossibilidade de ajudar. - Quaisquer que sejam seus negócios, eles vão ter de esperar até a guerra acabar - disse o mais truculento dos dois detetives. - Insisto em falar com o cônsul! - De repente Lucien sentiu que lhe agarravam o pulso, quase imobilizando-o. - Cala esta latrina ou te dou um chute no saco, espèce de con! - ameaçou o detetive com brutalidade. Mesmo com pouca luz iluminando aquele tumultuado ambiente, Lucien conseguiu perceber para onde o levavam. Diante da porta da estação encontrava-se um camburão cinza e, ao la do, dois homens enormes, com o umforme da polícia militar francesa. Quando eles se aproximaram, os soldados jogaram fora os cigarros que fumavam e um deles tirou o fuzil do ombro. O outro pegou. algo que estava dependurado em sua cintura. Lucien, horrorizado, notou que era um par de algemas. conhecida estrela de de sorte, mas, no senqualidade de cidadão serviço militar. - Ninguém consegue informar onde ele foi parar - disse Basil Goulandris a Konig. Ambos estavam no escritório da Rua Grafton. As cortinas negras tinham sido abaixadas e as vidraças e espelhos achavamse cobertos com fita crepe, a fim de impedir que os estilhaços se espalhassem, em caso de bombardeio. Em um canto da sala um extintor de incênpara a máscara contra encontrava-se um balde cheio de areia e dio. Konig olhava, um pouco deprimido, gases em cima da mesa. - Você acha que isto funciona? - perguntou. - Creio que não - respondeu Basil, contemplando a pró 374 pria máscara. - Na verdade Bracken acha que eles não recorrerão ao gás. - Como é que ele pode saber? - Mas é verdade. Alguém me disse que Cecil Beaton ouviu dizer que os nazistas estão mandando os homossexuais para os campos de concentração. Tentou conseguir de seu médico pí lulas para se suicidar, uma para ele e uma para seu namorado. Quando o garoto descobriu, ficou pálido como cera. Disse que Cecil fizesse o que bem entendesse, mas que ele não se conformava em ficar de mãos dadas com Cecil e morrer. Deu o fora, com todas as belíssimas gravatas de Cecil e algumas jóias caras... - Que loucura! Ainda não consigo entender por que Lucien desapareceu, no momento em que mais precisávamos dele. - É tempo de guerra e qualquer coisa pode acontecer. - Ora, guerra! Não me fale de guerra. Ainda me lembro da última! Se não conseguirmos fazer esse maldito filme, estamos falidos! E, se falirmos, creio que não teremos muitas possibilidades de adquirir a Empire Pictures, não acha? - Nenhuma. - Neste caso, muita gente ficará furiosa. Se tudo falhar, acho que posso solicitar a meu médico uma pílula para me suicidar, como o pobre Beaton. Meu médico é judeu alemão e provavelmente tem um estoque para seu próprio uso... - Konig tirou um charuto da caixa, acendeu-o, fumou e exalou uma nuvem de fumaça. Parecia ter ficado momentaneamente aliviado. - já fali uma vez e acho que, se acontecer de novo, não conseguirei me recuperar. já não tenho mais idade para isso, e a guerra só complica a situação. Odeio pensar nisso, mas talvez tenhamos de ir para a Califórnia. - Não faltará quem diga que você está fugindo. - E estou mesmo, meu caro, mas não da guerra. Aqui nada posso fazer e lá posso rodar o filme e, quem sabe, ficar dono da Empire Pictures. É o único jeito de me livrar dessa corja que me atormenta. As pessoas podem dizer o que bem entenderem. Minha terefa é fazer filmes e dinheiro. Além do mais, no momento, Dawn é nosso maior trunfo. De que nos serve a presença dela aqui? Você a vê participando de filmes de treinamento para o exército ou enrolando ataduras? Agora é o momento exato de levá-la para a Califórnia e torná-la uma estrela de verdade, com ou sem guerra. - Você deve saber que isso não fará muito bem à reputação de Dawn. - Que bobagem, Basil! Não me deixe dar lições sobre sua própria profissão. As pessoas perdoam qualquer coisa numa estrela. 375 Dawn já estava cansada de ouvir Konig dizer o que ela tinha de fazer, como se devesse aceitar sempre e automaticamente seus julgamentos. Não tinha o menor receio de ir para Hollywood. Afinal de contas, era o único lugar onde alguém poderia tornar-se uma estrela no sentido mais amplo do termo. Konig tinha razão em relação a isso. Ele também não demonstrava a menor relutância em deixar a Inglaterra considerando que outros artistas estavam de partida. Vivien Leigh e Laurence Olivier já se encontravam na Califórnia e também Leslie Howard. Dickie Beaumont havia concordado em ir. Sem dúvida alguma surgiriam críticas, mas seria possível contorná-las... Ela só se sentia mal em relação a Lucien. Corriam boatos de que ele tinha sido detido como espião ou ido para a prisão pelo fato de seus documentos não estarem em ordem. Os fran ceses, que, muito provavelmente, cometeram um erro, tentavam disfarçá-lo, fingindo que nada tinha acontecido. Ela não conseguia deixar de se sentir responsável. Dawn olhou para Konig com raiva. A tensão e a exasperação que ele demonstrava haviam se tornado tão constantes que ela já não se deixava mais impressionar. Embora compreendesse que o estado dele se devia à atual situação, começava a sentir que estava sendo privado dos prazeres que a juventude, a beleza e a fama deviam proporcionar-lhe. - Mande Kraus descobrir o que aconteceu - ela sugeriu. - Não posso de modo algum dispensar Kraus! Além do mais, ele não pode correr o risco. Se os alemães invadirem a França, e nada é mais certo, a despeito do que os jornais dizem, ele será detido pela Gestapo e internado num campo de concentração. - Então envie Goulandris. - Posso saber por que este súbito interesse por Lucien? Julgava que tudo tivesse acabado entre vocês. - E está, sim, mas é o mínimo que posso fazer por ele. Afinal de contas, devo-lhe muito. Dawn sabia que devia muito mais do que suas palavras diziam. Fora responsável pela morte de Morgan e, embora tivesse aprendido a viver com esse sentimento de culpa, não tinha a menor vontade de ser responsabilizada pelo que pudesse acontecer a Lucien. Não queria sentir-se uma criatura que trazia azar para os homens que passavam por sua vida. Não era tanto uma questão de culpa quanto um temor vago e supersticioso de que a própria felicidade ficasse comprometida. Dawn enfiou as luvas negras e compridas e contemplou-se no espelho. O carro esperava para levá-los para casa. Usava chapéu negro com véu e o casaco de arminho estava em cima da 376 cadeira. Konig conseguira transformá-la no que mais desejava: uma senhora e uma estrela. Mas o próximo passo tinha de ser dado por ela. Ficou parada, enquanto Konig punha o casaco de pele em seus ombros. Enxergava o rosto dele pelo espelho, vincado, pálido e visivelmente ressentido. Ele não gostava, de modo algum, de se ver obrigado a fazer acordos com ela, finas teria de aceitar a situação. - Mande Goulandris procurar Lucien e irei para a Califórnia - propôs Dawn. Por um breve momento o rosto de Konig revelou a raiva que ele sentia. Fez então uma pausa, refletiu durante alguns instantes, conforme ela imaginava, e rendeu-se com um gesto tenso de cabeça. Dawn tomou-o pelo braço e desceu a escada com ele. Lá fora um bando de repórteres os aguardava. - Aí vem Dawn Avalon - ouviu-os exclamar, enquanto os flashes iluminavam-nos. Sorriu com ar de triunfo, posando durante alguns instantes, antes que Konig a ajudasse a entrar no carro. Houve uma época em que eles teriam fotografado Konig e perguntado quem ela era. Talvez sequer se dessem a esse trabalho. Agora ignoravam Konig, como se ele fosse simplesmente seu acompanhante. 377 15 - Não é divina? - exclamou o sr. Snayde, muito excitado, enquanto o carro estacionava diante da casa. Dawn tirou os óculos escuros. Era exatamente assim que sempre sonhara viver. Construída no meio de um bosque de palmeiras e eucaliptos, rodeada por altos muros e com um jar dim muito bem cuidado, a casa parecia ter sido projetada por alguém que quisesse combinar todas as tendências da arquitetura européia em uma única habitação. Tinha janelas em estilo Tudor, torres normandas, arcos góticos, lajotas espanholas e pátios mouros, com fontes. A garagem, com capacidade para abrigar uns doze carros, era uma graciosa cabana de telhado de palha, coberto de trepadeiras. O vestiário, junto à piscina, era um templo grego, e a própria piscina era uma verdadeira loucura romana, com estátuas de mármore que surgiam das águas azuis e cloradas. Dawn ficou muito bem impressionada. Snayde saltou do carro, exatamente como Peter Pari levitando. Lembrava um beija-flor, tamanha sua inquietação, e seu terno era feito de seda cor de esmeralda, muito brilhante. Usava camisa cor-de-rosa e bracelete de ouro. Seu entusiasmo era tão transbordante que chegou a dar dor de cabeça em Dawn. - A casa de Louis B. Mayer, o chefão da Metro, fica logo adiante - revelou. - A casa do sr. Zukor fica ao lado desta, embora não se possa vê-Ia daqui. Marty Braveman também mora daquele lado. Que mais posso lhe dizer? A nata de Hollywood mora aqui. Konig fez um aceno de cabeça, taciturno. Dawn gostaria que ele se mostrasse mais entusiasmado. - A casa tem uma sala de projeções, é claro, e uma pista de boliche no porão. - Estou gostando muito - revelou Dawn. - Eu sabia! - disse Snayde, quase em êxtase. só podia mesmo ter sido feita para alguém como um ginásio - Esta casa a senhora! 378 Konig contemplou a casa, suspirou e voltou para a limusine, onde se acomodou pesadamente. - Ficaremos com a casa - resmungou. Os compromissos de Dawn eram organizados como se ela fosse personagem de uma casa real. Devia encontrar-se com Heda Hopper nos salões do Beverly Hills Hotel, onde iriam almo çar; em seguida, faria algumas fotos. Mais tarde tomaria chá com Louella Parsons e voltaria para casa a fim de se trocar, pois compareceria a uma estréia no Cinema Chinês. De lá iria a um jantar no Chasen. O pouco tempo que lhe sobrava era dedicado a aprender a guiar, sem que Konig soubesse. Alguns dias depois de chegar a Los Angeles percebeu que, naquela cidade, quem não tivesse carro era um escravo. Konig mudou-se para a casa sem a menor cerimônia. Certa manhã deixou o hotel de limusine e, à noite, o carro o levou para o novo lar. Ele mal pareceu notar a diferença, o que não deixava de ser um tributo à eficiência da srta. Bigelow, que tinha chegado da Inglaterra a fim de tomar conta da vida dele. Como por um passe de mágica, seus ternos e camisas saíram do guarda-roupa do hotel e foram parar nos espaçosos armários de seu novo quarto. Contratados pela srta. Bigelow, surgiram criados para cuidar da casa e da cozinha. A piscina foi limpa e a escova de dentes de Konig foi colocada no armarinho do banheiro. Quando a porta da frente se abriu, ele se viu diante de um mordomo inglês, que se inclinou com reverência e lhe desejou boa noite. Na sala de estar o carrinho com já estava pronto e, ao lado, encontrava-se a srta. mal conseguia disfarçar sua ansiedade. - Está tudo conforme quer, Sir David? - Sim, sim, srta. Bigelow - ele disse com olhando a sua volta. - Acho melhor dependurar uns vinte centímetros mais baixo. - Providenciarei, Sir David. - Quem são aqueles orientais lá no jardim? no Japão quando o carro subiu a alameda. - Os jardineiros, Sir David. São japoneses. - Pois recomende a eles que não se inclinem quando chego em casa, srta. Bigelow! Afinal de contas, não sou o imperador... - Não me esquecerei, Sir David. - Onde está Lady Konig? - No andar de cima, Sir David. os drinques Bigelow, que impaciência, o Van Gogh julguei estar 379 - E como é que eu chego lá? - ele perguntou, irritado. - Afinal de contas, nem sei onde fica meu quarto! A srta. Bigelow subiu os degraus de uma escada que teria servido esplendidamente para uma procissão de monges medievais. Apontou para uma porta e Konig abriu-a. - Mande trazer um uísque, pois um de nós precisar... Dawn estava deitada na banheira, com os cabelos enrolados numa toalha. - Posso entrar? - perguntou Konig. Ela consentiu, e ele se acomodou numa banqueta. Bateram à porta. Ele a entreabriu, estendeu a mão, pegou o uísque do carrinho e bateu a porta com toda a força. - Que tal foi seu dia? - Terrível - declarou Dawn. - Uma sessão de tédio após outra. - Faz parte da profissão. As coisas ficam você aprender a gostar. - Tomar chá com de uma revista só para como é ser casada com uma repórter mulheres é demais! Ela queria saber um homem mais velho. - Espero que você não tenha lhe dito... - Ele riu, meio sem jeito. Era um assunto delicado, aliás tão delicado que ambos reconheceram que seria um perigo tocar nele. Konig tomou um gole de uísque. - A srta: Bigelow disse que não conseguiu entrar em contato com você hoje à tarde. Não consigo imaginar o que você encontra para fazer aqui. Dawn decidiu ter uma conversinha com a srta. Bigelow. Não tinha nada a esconder, mas não tolerava ser espionada auxiliar de Konig. - Estou aprendendo a guiar. Ele ficou muito surpreendido. Nunca considerava isso um mistério imensamente exemplo, pilotar um avião. - Você deveria ter-me consultado. É muito você sofrer um acidente... meu Deus! - David, aqui todo mundo guia. - Marlene Dietrich não guia. Tem motorista, de folga é o marido dela quem guia. Mas, afinal de contas, por que você quer guiar? Tem o carro do estúdio a sua disposição, além de um motorista. - Gosto de ir onde bem entender. por uma aprendera a guiar e perigoso, como, por perigoso... Se e nos dias 380 - Mas onde? E por quê? Todo mundo está sujeito a um desastre. Não quero mais ouvir falar disso. - David, não admito que me conduzam por aí, como se eu fosse uma velha. Guiar é coisa perfeitamente normal. Vou tirar a carta. E quero um carro só meu. Se você não comprar, mesma compro. - Você não tem conta no banco. - Pois quero abrir uma. - Meu Deus! Para quê? Pode deixar - É que quero ter algo só meu. - Talvez tenha sido um erro virmos para os Estados Unidos - ele declarou, suspirando. - Está bem, concordo. Não tenho forças para discutir. Em todo caso, disponho de algumas notícias... - Boas notícias? - Não tão boas, mas também não são más. Goulandris voltou. Chegou ontem a Nova York. Vem pata cá. Falei com ele. Dawn sentou-se e emergiu do banho de espuma, com os seios de fora. - Goulandris localizou Lucien? Ele está bem? - Não está tão mal assim. Alistaram-no no exército e o enviaram à Argélia, para treinar. Não permitiram que Goulandris fosse até lá vê-lo, pois trata-se de zona militar. As autoridades dizem, porém, que ele goza de boa saúde. - Não há nenhum modo de rirá-lo de lá? - Creio que sim. Goulandris conversou com Duff Cooper, da embaixada inglesa, e jantou com René Poisson, que, pelo visto, conhece muito bem a amante de um ministro... Na Fran ça sempre se pode fazer algo, quando se conhece a amante de uma pessoa bem situada. Bem, para encurtar o assunto: os franceses deixarão Lucien voltar para a Inglaterra. Precisará permanecer no exército durante algum tempo. É apenas uma questão de manter as aparências, mas será dispensado sob o pretexto de que não goza de boa saúde. - Quanto tempo ainda vai demorar? - Não muito. No máximo cinco ou seis meses, talvez menos. Eles devem mandá-lo de volta à França dentro em breve e lá pelo menos ele gozará de algum conforto. Dawn cobriu os seios com espuma, ao perceber que Konig os olhava. - David... Fico - Bem, vou me nick. Comparecerão as mesmas pessoas de sempre, a comida estará péssima, como sempre, veremos a mesma coleção de qua eu que eu pago tudo. muito grata a você. trocar. Jantaremos na casa de David Selz 381 dros de pintores impressionistas de segunda mão e, após o jantar, como sempre acontece, assistiremos a um filme... Konig fechou a porta do banheiro e Dawn ensaboou-se vigorosamente. Como de hábito, ele não discutiu com ela seus planos, mas Dawn conseguiu adivinhar boa parte do que estava fazendo. Tratava-se, como a maior parte dos esquemas de Konig, do tra balho de um malabarista esperto e instintivo. A platéia via apenas a agilidade surpreendente de seus números, mas Dawn entendia muito bem a paciência, a habilidade e a fria audácia que estavam por detrás. Ele enganava todo mundo, mas não a si mesmo. A única coisa com que ele não contava era o fato de que Dawn percebia muito bem que se tornava a pedra fundamental de todos os seus planos. Agora Konig precisava dela e o de monstrava, quando conversavam. Em geral, conseguia disfarçar seus temores, mas, pela primeira vez, Dawn conseguiu perceber que ele sentia medo. Konig desceu a escada vestido com um dinner jacket branco e tinha todo o aspecto de um magnata de Hollywood. Não tolerava dinner jackets brancos, mas era o costume do lugar. Viu a srta. Bigelow a sua espera no hall. - O aquecedor do meu banheiro não está muito bom - queixou-se. - Mandarei providenciar, Sir David. - Amanhã de manhã conversaremos com o cozinheiro. Temos de planejar alguns jantares imediatamente. Precisaremos de várias caixas de champanhe... Ah, antes que me esqueça, compre um carro para Lady Konig amanhã. - De que marca, Sir David? - Como é que posso saber? Não deve ser muito grande... Como é mesmo o nome desses carros com capota arriada? - Acho que é conversível, Sir David. - Exatamente. Compre um conversível, um Cadillac, mas de cor discreta, por favor. Quem sabe branco... Afinal de contas, as pessoas não têm de olhar para o carro, mas para Dawn. No jantar de Selznick não havia a menor dúvida de que todos os olhares convergiam para Dawn. Numa cidade onde a beleza física constituía lugar-comum, um bem comprado e vendido diariamente, Dawn atraiu a admiração e até mesmo provocou espanto. Facilmente superou a sensação provocada pelo Picasso da fase azul, quadro da coleção de Selznick, e que surgiu diante dos convidados quando se aper 382 tou um botão. Dawn não conhecia suficientemente arte para apreciar a expressão divertida do olhar de Konig, assim que ele viu o quadro. Era a única coisa que ele apreciava em Hollywood. Na sua opinião, a vulgaridade redimia aquele lugar... A comida pareceu tão esquisita a Dawn quanto o quadro de Picasso surgindo como um passe de mágica. A sopa era feita de frutas e tinha uma flor boiando nela. A salada era coberta de nozes raladas e o cordeiro foi servido com fatias de abacaxi. A sobremesa consistia em enormes morangos sem gosto, cobertos com um creme azedo e açúcar mascavo. - Quero que você a ceda para meu próximo filme - Dawn ouviu Selznick cochichar para Konig, durante o jantar. - Ainda não, meu caro. Quando chegar o momento, você há de me pagar uma fortuna. Ela prestou o máximo de atenção, pois todos conversavam em voz alta. Fingiu ouvir o homem a sua direita, um sujeito baixote, meio careca, chamado Diamond, que parecia um verdadeiro anão de jardim. Dawn ouviu aqueles dois com verdadeiro fascínio e algum ódio, pois afinal de contas ela era objeto de uma transação. Sabia que o sucesso de uma estrela se media pelo número e freqüência com que era cedida a outros estúdios. Konig, no fundo, não tinha a menor intenção de ceder Dawn a quem quer que fosse, e muito menos a um rival como Selznick, mas estava constantemente testando o mercado. Ela se voltou para dar completa atenção ao homenzinho do lado. Percebeu que ele era tão baixo que Selznick, um anfitrião sempre gentil, mandara colocar duas almofadas em sua cadeira. - Konig pretendia emprestá-la a SeIZt1ÍCk? - ele perguntou. - Levem minha sopa e tragam-na de volta sem essa maldita flor! - ordenou ao garçom. - Se eu quiser comer flores, deixarei as asas crescerem e me transformarei em abelha. Meu nome é Aaron Diamond. Já deve ter ouvido falar de mim. - Para dizer a verdade, ainda não, sr. Diamond. Diamond pareceu não acreditar e a olhou por cima dos óculos. Eram os maiores que Dawn vira até então. O aro era feito de ouro puro e parecia tão pesado que se tornava difícil imaginar como o nariz dele conseguia suportar tamanho peso. As lentes grossas aumentavam seus olhos, os quais revelavam uma combinação de charme e esperteza. - Não brinque! Bem, é claro que você é nova na cidade. Sou advogado. Aliás, a gente precisa ser advogado para fazer negócios com algumas das figuras daqui. Sou eu quem cuida dos interesses de Clark Gable, de Joan Crawford, enfim, dos atores de primeira linha. Não me interessam vagabundos e per 383 I' dedores. Com eles não posso ganhar nada... Ei, não são os Beaumont que estão chegando? Selznick acenou para Cynthia e Richard Beaumont, que corresponderam ao gesto, desculparam-se e sentaram-se. - Eles estão com jeito de que andaram brigando... - comentou Diamond. - O paraíso não é tão cor-de-rosa quanto se imagina... Diamond tinha a intensidade de uma ave de rapina. Os olhos por detrás das lentes espessas eram tão perspicazes quanto os de um falcão, e havia algo de predatório no formato da boca e nos lábios finos e descoloridos. Seu rosto era muito bronzeado, o que parecia ser obrigatório em Beverly Hills, o bairro das estrelas e astros de cinema. Dava a impressão de que fora levado ao forno. Os dentes eram tão alvos que Dawn chegou a desconfiar que eram falsos. Por detrás daquela fachada mal-humorada e irônica, ela detectou intuitivamente uma bondade oculta. Havia mais de um mês que não via Cynthia. Ela tinha grandes olheiras e o tosto estava um tanto avermelhado. Acenou para Dawn, esbarrou num copo, colocou um guardanapo em cima da toalha encharcada e deixou cair um saleiro. Seguindo o velho costume, de que era preciso jogar fora uma pitada de sal que se esparramasse, assim o fez, mas o sal atingiu em cheio o rosto do mordomo de Selznick. Beaumont sorriu, muito sem jeito e contou que o carro deles não pegava de jeito nenhum, daí seu atraso. Cynthia parecia disposta a contradizê-lo, mas ele Ihe lançóu um olhar quase furibundo e ela se calou. - E verdade que ela enxuga? - perguntou Diamond. - Enxuga? Como assim? Dawn ainda tinha certa dificuldade em entender os americanos, e o vocabulário de Diamond era ainda mais esquisito. Além do mais, ele falava baixo e rápido demais. Seus lábios davam a impressão de não se mexer quando ele falava, como se quisesse fazer de tudo que dizia um segredo. - Será que você não compreende? Ela gosta de beber, não? O diagnóstico de Diamond era correto até demais, mas, antes que Dawn pudesse negar, ele voltou a se manifestar, falando atropeladamente. Os olhinhos espertos não perdiam sequer um detalhe e muito menos a oportunidade de retomar a conversa. Ele era tão rápido em suas reações que conseguia perceber quando a pessoa com quem conversava ia fazer uma pausa para respirar. No mesmo instante tomava a iniciativa. Dizia então rapidamente o que queria e, com freqüência, mudava totalmente de assunto. Dawn chegou à conclusão de que precisaria de muito treino para manter um diálogo equilibrado com o homenzinho. 384 - Não me venha com essa, meu bem. Reconheço um bêbedo quando ponho os olhos em cima dele. Metade desta cidade vive de pileque a maior parte do tempo. Não me interprete mal. Não tenho nada contra a bebida, mas quem bebe é um pé no saco... Você bebe? - Bem, não... - ela disse, respirando fundo. - É que você é bem esperta. Gosto de gente assim. O mundo pertence aos espertos, não concorda? - Enquanto falava, Diamond examinava com atenção a prataria, levantando-a para decifrar as marcas de fabricação. Terminado o exame, bafejava cada peça e a limpava com o guardanapo. - Estando casada com Konig, você vai precisar de gente esperta... Dawn examinou seu companheiro com interesse. Por menor que fosse, suas mãos eram as de um homem muito mais alto e muitíssimo bem tratadas. Era difícil imaginar a idade de Diamond. Ele, aparentemente, havia conseguido se transformar em um objeto fora do tempo, como um móvel antigo, polido com todo o esmero, cuidadosamente preservado, mas ainda de uso diário. - Por que não confia em meu marido, sr. Diamond? - Me chame de Aaron. Não confio em nenhum produtor. No fundo, são todos uns aproveitadores. Está no sangue. Konig é mais espetro do que a maioria deles e tem muito mais classe. Por isso mesmo é mais difícil confiar nele. Agora, por exemplo, está fazendo umas jogadas com Sigsbee Wolff. - Não gosta de Sigsbee, Aaron? - E existe motivo para gostar? Ele quer comprar a Empire. Tudo bem, afinal de contas Marty Braveman é um pilantra. Mas, se Sigsbee cuidasse da transação em pessoa, todo mundo havia de querer matá-lo. Esse sujeito não passa de um gângster. Por isso usa Konig e os ingleses como testas-de-ferro. - Francamente, não me interessa que seja assim ou mas para David é importante. - Pois então que ele tenha boa sorte! Se Sigsbee conseguir viver, talvez os dois até acabem triunfando. - Bem, ele é velho, sem dúvida, mas não me parece pior do que quando me foi apresentado. - Não é a esse tipo de sobrevivência que me refiro, menina. Sigsbee tem sócios. Quer investir dinheiro em cinema, mas há sujeitos que acham melhor pôr o dinheiro no jogo: Las Vegas, Reno, Tahoe... Já esteve em Reno? - Não. Ainda não tive a oportunidade de viajar. - Reno é um lugar que você tem de conhecer. Estive lá semana passada. Um sujeito está construindo um hotel enor na assado, 385 me, fantástico! Fui apresentado a ele, mas não consigo lembrarme do nome. Sei que é inglês. - É mesmo? - Com certeza. Ouça, se precisar de um agente, procureme, está bem? Enquanto você estiver trabalhando para seu marido, não vai precisar de mim, mas se surgir algum problema... bem, não sou desconhecido na cidade. Telefone-me imediatamente. E não deixe Konig ceder você sem falar comigo. Não cobrarei nada, menina. É um oferecimento da casa... Diamond voltou-se para conversar com a mulher a sua direita, enquanto Dawn fazia o mesmo com o seu companheiro ao lado. Era um produtor corpulento, de olhos um tanto esbu galhados, como os de um peixe japonês exótico e que, numa atitude desavergonhada, fitava seus seios desde o início do jantar. Ela trocou algumas palavras com o produtor e foi interrompida por Aaron, que lhe deu um tapinha no ombro. - Acabo de me lembrar do nome do inglês que está construindo aquele hotel em Reno. É Vale. Dominick Vale. Dawn ainda não se habituara ao costume, corrente em Hollywood, de exibir um filme imediatamente após o jantar. Mal acabaram de servir o café, a tela surgiu e as luzes diminuíram. A conversa parou, para grande alívio da maior parte dos convidados. Aqueles que estavam cansados podiam contar com a oportunidade de uma boa soneca antes de voltarem para casa. Era costume chegar a um jantar às sete, sentar-se à mesa às oito, assistir a um filme e estar em casa antes das onze. Afinal de contas, todos, naquela cidade, estavam envolvidos com cinema e a maior parte das pessoas tinha de levantar-se quando o sol nascia. A vida social ajustava-se a esse ritmo. Konig retirou-se para a sala de jogos mal o filme começou. Lá se encontravam os chefões que não precisavam comparecer aos estúdios logo cedo e se reuniam ali para beber, jogar e falar de negócios. Dawn sentou-se ao lado de Cynthia e notou, alarmada, que ela segurava um copo cheio de conhaque. Seu prido vestido de seda aderia ao corpo, moldando-lhe as e o ventre. Cynthia havia tirado os sapatos. - Você parece estar muito à vontade... - observou Dawn. - E provocantemente sexy. - Provocantemente sexy, também. - Obrigada, mas de que adianta? Ouvi dizer que, durante essas projeções, acontece todo tipo de coisas sexy, mas até agora foi uma decepção. Todo mundo parece exausto. Metade dos comcoxas 386 homens que está aqui transa com outros homens, por debaixo do pano. A outra metade faz tanto sexo com garotas que querem entrar para o cinema que acabam enjoando... - As coisas estão indo tão mal assim entre você e Dickie? - Querida, não poderiam ser piores. Ele passa quase todas as noites fora e não me procura mais. Queixa-se de que é por causa do trabalho: encontros com produtores, leituras de roteiros... disfarça bem, mas sei que tem outra mulher. Essas coisas a gente sempre fica sabendo. - Mas como pode ter tanta certeza assim, Cynthia? - Bem, comigo é que ele não está dormindo, querida. Além do mais, esteve fora durante dois dias, na semana passada, alegando que iria encontrar-se com gente de San Francisco que quer financiar um festival shakespeariano lá. Quando ele voltou, sabe o que encontrei no bolso dele? - Não. O quê? - Uma caixa de fósforos de um hotel de Reno. Não entendo por que ele me mentiu... Dawn voltou-se para olhar a tela com um aperto no coração. Sabia por que Dickie Beaumont tinha ido a Reno. Dominick Vale entrava novamente em sua vida. Quanto tempo levaria até que ele interferisse na dela? O filme era desinteressante, mas Dawn sentiu-se aliviada, pois lhe dava uma desculpa para interromper a conversa com Cynthia, que se levantou diversas vezes para encher o copo. Por mais que gostasse dela, era muito mais interessante conversar com um homem. Os homens controlavam o mundo, quer se tratasse de cinemas, filmes, bancos ou jornalismo, até mesmo em Hollywood, onde toda a indústria girava em torno do sexo e do glamour de algumas estrelas. Uma mulher bela ganhava um salário fantástico. Dez mil dólares por semana não era uma cifra incomum, mas, por mais dinheiro que recebesse, não era ela que tomava as decisões ou participava dos lucros. Dawn aprendera com Konig muita coisa a respeito de dinheiro. Mesmo assim, estava nervosa. Não tinha dinheiro que pudesse controlar pessoalmente. Agora que passara dos vinte e um anos, Konig tomava conta de suas finanças e negociava seus contratos. Pertencia àquele homem em todos os sentidos. Enquanto estivesse casada com ele, poderia gastar dinheiro como uma milionária, sem se queixar dele. No entanto, se deixasse Konig ou se algo lhe acontecesse, poderia facilmente cair nas garras de alguém como Marty Braveman ou David Selznick. Decidiu conversar com Aaron Diamond o mais cedo possível, em 387 bora soubesse perfeitamente que Konig julgaria tal atitude um ato de traição. Uma voz interrompeu seus pensamentos, e ela percebeu que Cynthia ainda lhe fazia confissões. - Meu Deus, você não acredita como tenho tentado... - ela dizia, com a voz ligeiramente pastosa, devido à bebida. - Para mim é humilhante ter de seduzir meu próprio marido e fracassar. - Cynthia entornou o copo e levantou-se, cambaleando, a fim de servir-se de mais uma dose. Dawn contemplou-a andando muito tonta pela sala e tropeçando nos pés dos convidados. Ouviu-se um barulho abafado, no momento em que ela derrubou o copo no tapete. - Merda! - ela disse, em voz alta. No escuro alguém levantou-se, a fim de ajudá-la. - Foda-se! - Ela saiu da sala e bateu a porta com toda a força. Dawn suspirou. Será que, entre os presentes, haveria alguém que tivesse uma vida sexual feliz? Os problemas de Cynthia eram mais graves do que os da maioria, mas, de modo algum, incomuns. Os homens estavam ocupados, trabalhando, e obtinham prazeres rápidos e passageiros com estrelinhas; suas mulheres bebiam, gastavam dinheiro e tinham casos, ou com homens tão ocupados quanto seus maridos ou com aqueles rapazes bonitões que cuidavam de suas piscinas. Acaso sua situação seria tão melhor assim? Levantou-se e foi atrás de Cynthia. - Ela estava dormindo na cama de Selznick? - Profundamente. - Qualquer dia destes - Já surgiu. - Ainda não é nada, perto do que pode acontecer. - Konig olhou através da janela da limusine. - Detesto palmeiras... - Cynthia está infeliz, desesperada... - Não entendo por que Dickie não tenta fazer com que ela deixe de beber. Ao contrário, pediu ao mordomo que lhe servisse um uísque duplo, quando chegaram. - Não notei. - Pois eu, sim. Não tem o menor sentido, a ele a esteja encorajando a beber. - Mas por que ele faria semelhante coisa? - Há tantas razões... Todo mundo vai achá-lo um mártir e ele consegue livrar-se dela por algum tempo. Você e eu sabemos o que há de errado com esse casamento, mas o mundo irá encarar como culpa dela e não dele. Ainda assim, não julgava que Dickie fosse dotado de uma imaginação tão diabólica... vai surgir uma complicação. menos que 388 A limusine parou diante da escadaria de mármore da casa. Dawn ainda não conseguia acostumar-se com a idéia que aquele era o lar dos dois. Konig parecia mais cansado do que de hábi to. Seu rosto tinha a cor de pergaminho, e ele subiu os degraus com lentidão. Ela deu o braço para ajudá-lo, mas ele o recusou. - Não é preciso. Não sou nenhum inválido. Dawn parou no hall, enquanto Konig a alcançava. Lá notou duas malas, uma de fibra, muito simples, e outra de couro fino, coberta de etiquetas dos hotéis mais famosos. Konig apertou o passo. Quem quer que fossem as visitas, ele evidentemente as aguardava, embora, como sempre, não comunicasse nada a Dawn. Ele abriu a porta da sala de estar e Goulandris ergueu o copo, num gesto de saudação. Da cadeira de braços onde estava sentado, Kraus levantou-se e bateu os calcanhares. - Quais são as notícias de Nova York? - perguntou Konig com impaciência. Kraus esboçou um gesto suave, como um piloto que descreve uma manobra, e olhou para Dawn, como se não desejasse dizer muita coisa na frente dela. - Não são tão más assim. Acho que poderemos ficar com número suficiente de ações. - Mas então as notícias são boas! - Sim, Sir David, mas é pegar ou largar. Konig parecia estar bem melhor e um pouco de cor voltou ao seu rosto. Dawn olhou para Goulandris, que piscou para ela. - Ouviu dizer que encontrei Lucien para você? Aquelas notícias pareciam pertencer a uma época já distante, mas ainda assim Dawn quis saber todos os detalhes. Havia dias em que não pensava absolutamente em Lucien, mas em outros momentos, sobretudo à noite, não conseguia pensar em mais nada. - Ele está bem, está bem. Nem posso descrever as dificuldades que tive em localizã-lo no norte da África! Vão mandá-lo para algum lugar tranqüilo da França, creio que nas Arderias. Trata-se de um campo de repouso. É um batalhão de artistas, escultores, escritores, refugiados que ganharam o prêmio Nobel etc... Claro que tudo não passa de uma farsa. Ambos os lados estão procurando uma solução que não lhes permita lutar. - E quando o deixarão partir? - Em abril ou maio. - Vou deitar-me - anunciou Konig. - Amanhã conversaremos. Ah, já ia esquecendo de contar: John Mammon está vindo da Inglaterra. Decidi começar a filmar de novo. - Mas você disse que ele é medíocre! - Dawn estava sur um 389 preendida por Konig tomar uma decisão sem lhe dizer nada. - Confirmo o que disse, mas é rápido. De qualquer modo, agora não é mais o momento de parar. Consegui financiamento para o filme, tenho você e Dickie. Precisamos, portanto, rodar o filme, e logo. - Konig voltou-se para Kraus. - Braveman está na lona. Mais um empurrãozinho e terei assento na diretoria da companhia, com um número suficiente de ações para me apoderar da Empire. Não é o momento de descansar ou falhar, e muito menos obter críticas desfavoráveis nos jornais. Há muita coisa em jogo e, acima de tudo, não quero saber de surpresas. Você providenciará, Kraus? - Sem dúvida, Sir David. - Pois então boa noite. - Konig subiu lentamente os degraus, parando no patamar da escada a fim de tomar fôlego. - Ele não está com boa aparência - comentou Goulandris. - Anda muito cansado - disse Dawn. Kraus aproximou-se da janela e contemplou as luzes cidade. - Que lugar extraordinário! Nesta cidade tudo parece possível. Sir David termina seu filme, consegue um lugar diretoria da Empire Pictures, a mocinha termina nos braços mocinho e o final é sempre feliz... Em Nova York, porém, as opiniões são um pouco diferentes e não tão otimistas. Lá o acham velho demais, e os investimentos são muito tímidos para que se possa fazer um grande filme. E julgam que, se chegar a ser terminado, será um fracasso. Comentam também a pessoa de Sigsbee Wolff. Não sabem se podem confiar em Sir David, mas sabem, com toda a certeza, que não se deve confiar em Wolff. - As pessoas sempre falam muito mal de Sigsbee Wolff - disse Goulandris, tentando, como sempre, ignorar as más notícias. - Sim, mas desta vez se referem a ele no passado... Correm boatos de que os sócios dele não compartilham seu entusiasmo pela indústria do cinema. Estão mais interessados no jogo. - De vez em quando os homens de negócios discordam. E daí? - Mas os sócios de Wolff não são homens de negócios comuns, Basil. Querem construir cassinos e ele deseja investir no cinema. A coisa não se resolverá por meio de um simples acor do. Duas pessoas do Morgan Bank contaram-me que houve uma tremenda discussão sobre um hotel que está sendo inaugurado em Reno. Sigsbee era contra e seus amigos a favor. Sigsbee perdeu e o hotel foi construído. O mais preocupante é que o testade-ferro deles é Dominick Vale. da 390 Goulandris serviu-se de bebida. A notícia parecia não surpreendê-lo. - Sir David deve saber o que faz - comentou Kraus. - Sem dúvida, mas acho melhor você falar sobre Vale amanhã. Mais uma preocupação para o velho... - E há mesmo por que se preocupar, Basil? - perguntou Dawn. - Vale sabe como dirigir uma rede de jogo, o que é um verdadeiro trunfo. Aqui o jogo ainda é uma coisa amadora... Vale tem a capacidade de gerenciar um lugar onde os milioná rios podem perder milhares de dólares numa só noite e se divertir com isso. Para responder a sua pergunta, minha querida Dawn, Vale é um desses sujeitos que conhecem muita gente e não hesitam sequer por um momento em fazer uso daquilo que sabem. Dawn encarou-o em silêncio durante alguns instantes, lembrando-se de que tinha muito mais a esconder do que qualquer um deles. - Acho que vou tomar um drinque - declarou, percebendo que Goulandris e Kraus a encaravam, muito surpreendidos. Eles estavam sentados no terraço que dava para os jardins, e os raios de sol refletiam-se nas águas da piscina. As flores, os pássaros e o sol recordavam a índia a Dawn, só que era uma índia sem pobreza ou desconforto. Ela pegou algumas migalhas de pão e jogou-as para os passarinhos, que agitaram as asas mas não saíram dos galhos onde se empoleiravam. - Creio que aqui, em Bel Air, eles não são tão famintos quanto na índia - comentou. - Creio que não - disse Goulandris. - Ouçam só isto aqui! - Goulandris, que tomava o café da manhã lendo jornais e revistas, entregou-lhe um exemplar da Vaiiety. "BRAVEMAN NE GA BOATOS", dizia uma manchete. A matéria era exclusiva e o descrevia como o "czar guerreiro da Empire Pictures". - "Konig só conseguirá ser membro da diretoria se passar por cima de meu cadáver" - leu Dawn em voz alta. - "Ele não tem a menor qualificação, e seu apoio financeiro vem de um bando de tipos suspeitos e de estrangeiros. Espalharam boatos indecentes a meu respeito e que estão longe de ser verdadeiros. Sinto o mais profundo desprezo por Konig. " O Loa Angeles Times mostrava uma foto de Marty Braveman e de Iria Blaze. Braveman olhava para a câmera com um largo sorriso. Iria Blaze segurava um cãozinho poodle. A legenda dizia: "APENAS BONS AMIGOS? 391 O texto, porém, insinuava que Braveman usara o dinheiro da Empire Pictures para comprar uma casa de um milhão de dólares em Malibu para Iria Blaze_ No Herald-Examinei, um fotógrafo mais afoito surpreendera á sia. Braveman, matrona loira, bem fornida de carnes, senhora' de quarenta e tantos anos, de calça comprida e um casaco de zPink, entrando numa limusine em companhia de um homem àustero e corpulento, descrito como "o advogado que promove os divórcios das estrelas". - Na página de finanças há uma reportagem sobre um início de revolta dos acionistas da Empire - disse Goulandris, satisfeito. - E o New York Times conta que alguns acionistas estão processando Braveman por desvio de fundos. Bom trabalho, se é que me cabe fazer este comentário... - Você com toda a certeza tem andado muito Basil - declarou Dawn. - Como uma abelha. - E o que acontecerá - Bem, não é meu departarrlento. Konig e Wolff fazem o trabalho pesado. Eu simplesmente planto histórias na imprensa. - Acho melhor ir andando. Tenho provas na costureira. - Ah, sim, o filme. Sente-se contente em voltar a trabalhar? - Creio que sim. Pelo menos me distrairei. - Não esquente nunca. É a primeira regra de Basil, quiser um conselho, querida, contente-se com tem. - E quem disse que não me contento? - Sei lá. Nunca as pessoas sp contentam, uma delas. Pessoas como Konig e eu não se preocupam a felicidade. Achamos que é algo que surgirá mais tarde em nossas vidas, quando nos aposentarmos. Não cometa o mesmo erro, Dawn. - De modo algum - ela di§se, mas algo lhe dizia que já o havia cometido. se já em seguida? e ocupado, o que mas, você você parece com - Ele é exatamente como aquele sujeito que não consegue sair de casa porque não sabe se deve ou não levar o guardachuva - disse Aaron Diamond. = Será que chove, será que não chove? Enfim, não sabe o que quer - Mas ele tem muita perspicácia - disse Dawn com lealdade, embora tivesse chegado à conc=lusão de que Mammon não passava de um chato. Ele se revelou um diretor muito competente, mas parecia dominar muito mal o roteiro do filme ou controlar o material. Era um mistério como Diamond conseguia introduzir-se nos estúdios durante as filmagens. Parecia gozar de um salvo-conduto informal no mundo do cinema, e sua presença era bem recebida, embora outros agentes fossem entregues à polícia do estúdio. Agora que se tornara agente de Beaumont, tinha pelo menos uma razão para estar presente, mas passava a maior parte do tempo sentado ao lado de Dawn, quando não usava o telefone do estúdio a fim de dar andamento a seus negócios. Agia como se já fosse o confidente, conselheiro e agente de Dawn, como era seu modo habitual de conquistar clientes. As pessoas simplesmente acabavam por pensar nele como seu agente. Conseguiu vários contratos para Clark Gable, alguns até ótimos, antes que o astro protestasse, dizendo: "Mas você não é meu agente!" "Será que não?", perguntou Diamond com aquela voz áspera, tão característica. Gable deu de ombros, pediu mais um drinque e declarou: "Bem, acho que agora é..." Dawn encontrou-se na mesma posição. Diamond comportava-se como se ela fosse sua cliente e, aos poucos, ela foi aceitando a situação. - Acho que vocês vão comemorar hoje à noite - ele anunciou. - Por quê? - Não leu as manchetes? - Não._ - Ora essa! Pelo menos consiga alguém para anunciar o que elas dizem, todas as manhãs. Tenho uma secretária que lê para mim tudo o que preciso saber, enquanto tomo banho. - Ela fica do lado de fora do banheiro? - Não, senta-se ao lado da banheira. Não sou envergonhado. Leia só isto aqui. Dawn pegou a Vanéty e, inicialmente, não viu muito sentido no que dizia. "KONIG E BRAVEMAN FAZEM UM ACORDO!", era esta a manchete, seguida do texto: "Marty Braveman, presidente da Empire Pictures, anunciou hoje que Sir David Konig, diretor executivo da King Films, da Inglaterra, participará imediatamente do quadro de diretores da Empire. 'Sinto a maior admiração ppr Sir David', declarava Braveman em uma entrevista exclusiva. 'E um diretor e um produtor brilhante. Sua experiência e sabedoria serão de muita utilidade para nossa companhia. A Empire será muito fortalecida com sua participação, que depende apenas de certos detalhes financeiros, em vias de serem acertados. "Sir David, entrevistado em sua casa de Bel Air, declarou: 'Marty Braveman é um homem de muitas qualidades. Estou ansioso por trabalhar com ele e tornar a Empire uma companhia melhor do que já é.' 393 392 "Correm boatos de que tão logo Sir David e seus sócios cheguem a um acordo financeiro, ele assumirá o controle da Empire, pois detém a maioria das ações. Braveman já aceitou, em princípio, o cargo de presidente honorário da diretoria, deixando a presidência efetiva a Sir David. Ocuparão também lugares na nova diretoria Sigsbee Wolff, o magnata dos negócios imobiliários de Los Angeles; E. P. Kraus, um dos assistentes de produção que trabalha há muito tempo com Sir David, e o sr. Solomon Goldner, grande empresário do teatro inglês..." Dawn não disfarçou sua surpresa. Tudo aquilo era novidade para ela. - Konig não lhe contou que isso estava acontecendo? Ela não queria que Diamond soubesse que Konig a deixara de fora. Nem sequer lhe falara a respeito de Goldner. Recuperou o sangue-frio imediatamente. - Deixou recado para mim, mas ciso telefonar-lhe. - Deixe isso para lá! Vá para casa e dê um beijo naquele sujeito. Achei que ele jamais contaria. Para dizer a verdade, ainda tenho minhas dúvidas, mas talvez me engane. Sigsbee deve ser mais esperto do que eu pensava. - Então é verdade? - É verdade, sim. Konig abraçou Dawn e beijou-a. Seu cansaço e irritação pareciam ter-se dissipado, e ele tinha a aparência dez anos mais jovem. - Fico contente por você. Na realidade ela estava furiosa. propósito confiança. - Eu sei e fico-lhe muito grato. Foram momentos bem difíceis, mas a jogada compensou. Dentro de um mês o filme estará pronto e, com a Empire nas mãos, poderei fazer tudo o que quiser. Vinte, trinta filmes por ano, distribuição internacional controlada por nós, e um dia, quando a guerra terminar, cresceremos sem que mais ninguém nos detenha... Tenho planos... meu Deus, são tantos, que nem sei por onde começar! Faremos coisas com que ninguém jamais sonhou. Sinto muito tê-la deixado de fora, mas havia certos detalhes que era melhor você não saber... - Temos de comemorar! lés? Não era o momento de Ele não tinha revelado de as negociações, como se ela não fosse digna de - Que* "detalhes" seriam aqueperguntar. 394 - Sem dúvida, sem dúvida e ainda hoje à noite. Até lá, preciso ter uma conversa com Sigsbee_ Há ainda grandes lotes de ações que temos de comprar. Vamos tomar champanhe. Konig chamou o mordomo, que surgiu daí a instantes com uma garrafa sorridente. - Ao Konig. Dawn fez o mesmo. Os três estavam para beber quando Kraus surgiu, entrando com tamanha rapidez que ninguém notou a lividez de seu rosto. - Olá, Kraus! Pegue uma taça. conosco. As mãos de Kraus, entretanto, de um homem em plena oração, e lhe era estendida. - O que aconteceu? - ela perguntou. Fez-se uma longa pausa, enquanto os três aguardavam a resposta. O sol baixava no horizonte, e o crepúsculo tornava a sala ainda maior. Uma ligeira brisa agitou as cortinas e trouxe O odor de jasmim e flor de laranjeira. - Sigsbee Wolff - balbuciou finalmente Kraus. - O que aconteceu com Sigsbee? Falei com ele há uma hora. de champanhe, seguido de Goulandris, todo a taça, a fim de brindar - Ele levantou triunfo! Chegou a tempo de beber estavam cruzadas como as ele não pegou a taça que - Ele está... na piscina. - Sigsbee... nadando? A - Ele não está nadando, troco de quê? Sir David. Alguém o amarrou na cadeira de rodas e a empurrou para dentro da piscina. Ele foi direto ao fundo. O jardineiro o encontrou... Ouviu-se o barulho de vidro que se partia. Konig derrubara a garrafa. - A situação é muito grave? Konig balançou a cabeça. Parecia ter absoluto controle sobre si mesmo. Nada melhor do que a derrota para pôr em evidência o lado estóico de seu caráter. - Talvez não seja tão grave assim. - Sua expressão era distante, e ele parecia não estar disposto a compartilhar as más notícias com Dawn. - Depende de eu conseguir controlar a situação durante alguns dias. Não será nada fácil. Vá deitar-se. Não se preocupe. Você precisa repousar, pois tem de trabalhar cedo. Dawn tocou na mão de Konig, mas ele não reagiu. No momento desejava ficar só. 395 Enquanto subia os degraus, deixando-o entregue a seus pensamentos na biblioteca, Dawn sabia que a oportunidade passara e jamais retornaria. Durante um breve momento dispôs-se a levá lo para a cama, mas Konig escolhera manter uma dignidade plena de solidão, e ela respeitou esse sentimento. Os dias que se seguiram transcorreram num clima de pesadelo, pois Konig decidiu encarar os problemas trazidos com a morte de Wolff dando demonstrações públicas de autoconfian ça. Todas as noites ele e Dawn jantavam em restaurantes conhecidos, como o Romanoff, o Chasen ou o Brown Derby. Compareciam a todos os jantares e até mesmo foram dançar, embora, em princípio, Konig não suportasse a dança. Ele aparentava felicidade, energia, boa disposição e era a própria imagem de um produtor cinematográfico bem-sucedido, casado com uma estrela famosa. Era um desempenho brilhante e convincente, embora David percebesse o quanto lhe custava. Com efeito, assim que se sentava na limusine para voltar para casa, encostava a cabeça no banco, fechava os olhos e dava um suspiro prolongado, de alívio e cansaço. Durante a manhã poupava suas energias trabalhando na cama. A srta. Bigelow sentava-se a seu lado, com o bloco de estenografia, e lhe trazia toda a correspondência. À tarde encontrava-se com advogados, banqueiros e financistas. Eram reuniões prolongadas, a portas fechadas, e cujo conteúdo ele se recusava a revelar a Dawn. - A morte de Sigsbee não é a única coisa que o atormenta - disse Aaron Diamond certa tarde, no local de filmagem. - David sempre conseguiu realizar um milagre, no último minuto. É a especialidade dele. - Se ele conseguir funcionar desta vez, vai superar o próprio santuário de Lourdes... Se quiser meu conselho, garota, leve suas jóias para um banco e alugue um cofre em seu nome, ou melhor ainda, no nome de alguém. - A situação não pode ser tão grave assim, Aaron... = É pior do que você imagina. Nesta cidade a gente pode conseguir tudo, com três exceções. Não saia com uma garota que pertença ao diretor de um estúdio. Não trapaceie no jogo de cartas. E não tente apoderar-se da companhia de alguém e falhar. Konig podia fazer o que bem entendesse de Marty Braveman. Então alguém decidiu dar uma aula de natação a Sigsbee, e Konig precisou desistir. Enquanto Konig tinha Sigsbee por detrás e vencia, as pessoas se -dispunham a emprestar 396 lhe dinheiro. Agora vão querê-lo de volta, e rápido! Acontece que, agora, ele só tem uma fonte de renda, meu bem. - E qual é? - Você... Bem tarde, naquela mesma noite, Konig entrou no quarto de Dawn. Não olhou para ela e andou de um lado para outro, como se estivesse examinando a mobília. - Sinto muito incomodá-la, mas precisamos conversar. Dawn sentou-se na cama. Konig pegou um vidro de loção e leu a etiqueta. Relutava em começar a falar. - De que se trata? - Estive conversando soas a seu respeito. - Que pessoas? - Marty Braveman é uma delas. Está interessado em que eu a ceda a longo prazo, para você participar de quatro filmes, talvez cinco. Ele tem uma grande confiança em sua capacidade de atrair público. - Você não está falando a sério! da. - Você mesmo disse que Braveman é um porco! - De- fato, mas é nosso porco. Seja sensata. Posso guir três ou quatro milhões de dólares com esse acordo, talvez até mais. Infelizmente não resolverá todos os meus problemas, mas pelo menos aliviaria a situação. - David, não quero ser cedida a Marty Braveman ou a quem quer que seja a troco de quatro filmes. Você não pode me negociar como se eu fosse um móvel. - Como um móvel, não, mas posso negociá-la, sim. Temos contrato. - E somos casados. - Ouça, é uma questão de sobrevivência. Também não gosto nada da situação. - Sobrevivência de quem? Sua - Nossa. - David, talvez eu faça um filme. Não sou insensata. Sintome grata a você por uma série de coisas, mas disponho-me a fazer um filme e, pelo amor de Deus, que não seja com Brave man. Que seja pelo menos com alguém de certo bom gosto, alguém com quem possamos conversar sobre o filme, o roteiro, o diretor... Konig não a encarou nos olhos, e ela percebeu, angustiada, que ele simplesmente não conseguia. com Selznick e algumas outras pes - disse Dawn, indignaconse um ou minha? 397 -Já concordei com Braveman em princípio. Fizemos um contrato. E apenas questão de esclarecer certos detalhes. - Pois eu não faço esses filmes. - Veremos. Esperava que a situação não chegasse a este ponto, mas, já que chegou, deixe-me lembrar mais uma vez que seu contrato está em minhas mãos. Não há nada que me impeça de entrar em acordo com Braveman. Dawn sentiu um ódio profundo. Jamais experimentara tal sentimento, desde a traição de Morgan. Konig, que proclamava amá-la, estava disposto a atirá-la aos lobos, agora que se via às voltas com problemas. - Quer dizer então que eu faço quatro filmes nha dois ou três milhões de dólares... - Nós ganhamos. Com isso posso segurar as pontas o ciente para encontrar novos financiamentos. - Contratarei um advogado se for preciso, David. Romperei o contrato. - Acho que você tem todo o direito de fazer o que bem entender. - No rosto dele não havia uma gota de sangue. Ele lhe deu as costas e retirou-se, batendo a porta. Dawn pegou o telefone e discou para Aaron Diamond. A secretária eletrônica informou que ele estava no Polo Lounge, uma boate da moda. Ela ia discar o número, mas, como não conseguiria de modo algum dormir, decidiu ir encontrá-lo. Não tinha assumido tantos compromissos e corrido riscos sem fim para se ver novamente prisioneira, cedida a Braveman só para satisfazer as conveniências de Konig. Vestiu-se rapidamente, foi até a garagem e deu a partida no carro. Ao chegar ao Sunset Boulevard, Dawn sentiu-se bem melhor. Normalmente não confiava em sua capacidade de motorista, mas adorava a velocidade. Guiou a noventa por hora antes de perceber que estava indo muito além de sua experiência. Havia certas coisas estranhas no fato de morar no sul da Califórnia. O movimento, por exemplo, resolvia os problemas de uma pessoa. Guiar através de Beverly Hills com a capota arriada, o vento nos cabelos e o cheiro das árvores e flores envolvendo-a deu a Dawn a ilusão de liberdade. Nesse sentido Los Angeles era uma cidade mágica. Na escuridão do Polo Lounge ela procurou Diamond e finalmente o localizou sentado a uma mesinha com telefone e tendo a seu lado uma loira atraente, que usava um casaco de mink, apesar do calor. Diamond não demonstrou a menor surpresa ao ver Dawn e nem pareceu preocupado por ver seu idílio interrompido. Seu faro indicava quando tinha pela frente um problema. Aceitava e você gasufi 398 o fato de que o dever precisava ter preferência sobre o prazer, mesmo àquela hora da noite. Afinal de contas, era um profissional. - Vá dar um passeio - disse à mulher, que pareceu não ficar ressentida e foi até o bar, como se estivesse acostumada a ser dispensada. - Você tinha toda a razão - declarou Dawn. - É, já imaginava... Olhe, o cara é seu marido, mas é húngaro. Sabe lá o que isso significa? Não há nada que ele possa fazer. Você deve saber o que dizem dos húngaros. Dawn sacudiu a cabeça, irritada. Diamond abandonava o assunto quando ela mais precisava de sua concentração. - Um húngaro é aquele cara que entra na porta giratória atrás de você e sai na frente... - Diamond riu. - Bem, o que há, garota? Relaxe, vamos. O fato é que Konig não' pensaria duas vezes em ceder você, se esse fosse o único jeito de ele sobreviver. Mesmo com um título de nobreza, dado pela rainha, Konig tem a alma de um trapaceiro, como todos os húngaros. Quando esteve nos Estados Unidos pela primeira vez, diziam que ele costumava seduzir as garotas afirmando que era impotente. Simplesmente dizia: "Sinto muito meu bem, mas, como você vê, não adianta nada... Há anos que não consigo mais... nada, ninguém pode me ajudar..." As meninas sentiam pena do pobre coitado e, para uma mulher, é uma espécie de desafio, não? Num abrir e fechar de olhos, elas já iam tirando a roupa e Konig então exclamava: "Meu Deus... é um milagre! Estou começando a sentir alguma coisa..." O que há? Você parece que acaba de ver um fantasma. Dawn mordeu o lábio. Era mais uma humilhação por que passava. Fora suficientemente ingênua para cair numa armadilha tão conhecida que, pelo visto, tornara-se uma lenda em Holly wood, parte do vasto folclore que cercava o nome de Konig. No entanto jamais confessaria o fato a Diamond. - Aaron, diga-me o que devo fazer. Ele deu de ombros. Gostava de bancar o engraçado, mas sabia quando era o momento de encarar uma situação com seriedade. No momento em que ela se inclinou para ouvir o que ele tinha a dizer, viu, por um breve momento, três homens levantarem-se, entretidos em conversar, e deixarem a boate. Um deles era Kraus, e os aros de seus óculos brilhavam. O outro era Basil Goulandris. Entre os dois, com as mãos nos bolsos, estava um homem corpulento, bem vestido, de cabelos negros e uma expressão de desconfiança no olhar. Tudo indicava que se tratava de Dominick Vale. 399 Dawn voltou-se para a mesa que eles tinham acabado de deixar, a tempo de ver Marty Braveman assinar um cheque e retirar-se. Percebeu, então, que Konig estava numa situação muito mais complicada do que ela imaginava. Hesitou em preveni-lo, pois sua raiva ainda era grande. Decidiu esperar para ver o que acontecia. - É apenas uma questão de manter as aparências - disse Konig. - O interesse é seu, tanto quanto meu. Dawn não disse nada. Agora que sua irritação se atenuara um pouco, conseguia encarar os fatos com certa objetividade. O barco de Konig estava afundando. Deveria naufragar com ele? Não seria melhor avisá-lo? Haveria como escapar, antes que o fato se consumasse? Em se tratando de Konig, havia sempre a possibilidade, ainda que remota, de que ele se salvasse no último minuto, em um de seus triunfais golpes de mestre. Diamond lhe dera um breve conselho. - Retire-se, imponha seu próprio acordo, processe-o, exigindo divórcio. Provavelmente os contratos feitos na Inglaterra não vigorarão aqui. Nosso regime é de comunhão de bens, e você ficará com metade do que ele tem, se é que ele ainda tem alguma coisa. Era mais fácil falar do que fazer, pensou Dawn. Konig abusara dela, que não conseguia perdoá-lo, mas uma parte sua ainda reconhecia nele a figura de Sir David Konig, o fazedor de milagres. Temia as complicações inevitáveis, mas estava decidida a fazer as pazes apenas em seus próprios termos. - Precisamos acertar algumas coisas, David - declarou. - Não concordo que me ceda a outra companhia e, se necessário, brigarei com você onde e quando for preciso. - Estou ciente, Dawn - ele disse, deprimido. Estavam na limusiné, e a aparência dele era terrível. O rosto estava de um cinza doentio e todo vincado, como se ele tivesse envelhecido dez anos da noite para o dia. Os lábios tinham adquirido uma cor azulada, e os olhos se apresentavam injetados. Quando ele acendeu um charuto, suas mãos tremeram. Estava com um terno escuro que lhe dava um aspecto um tanto fúnebre. Dawn vestia-se de acordo com a moda do lugar: palazzo pijama de seda cor-derosa, com calça bem folgada, sandálias douradas de salto alto e um colar de diamantes. Usava óculos escuros, como, aliás, todos o faziam, até mesmo à noite, e um casaco de pele nos ombros. Os dois formavam um casal um tanto extravagante: Konig com trajes de luto e ela brilhando da cabeça aos pés. 400 Do lado de fora do Chasen, um dos lugares da moda, uma pequena multidão de fãs e caçadores de autógrafos a aguardava. Sabia que não era especificamente por ela que estavam lá. Agiam como predadores, dispostos a dar o bote em qualquer coisa que lhes aparecesse pela frente. Dawn saiu do carro, tirou os óculos escuros e lhes dirigiu um sorriso cheio de fascínio. Ela abriu caminho por entre a multidão, seguida de Konig, que caminhava como se cada passo lhe exigisse um esforço sobre-humano. Em geral ele costumava tomar Dawn pelo braço quando ela estava rodeada de fãs, com um sorriso senhorial, e até mesmo chegando a brincar com os caçadores de autógrafos. Aquela noite, porém, sua disposição não era das melhores. Mal entraram no restaurante ele pareceu reviver. Afinal de contas, seu público estava lá dentro e não diante do Chasen. As cores retornaram a seu rosto, ele sorria sem parar e percorreu o salão, apertando as mãos de seus conhecidos. Havia doze pessoas para jantar, incluindo os Beaumont, os Selznick e um casal que Dawn mal conhecia. Konig, graças à força de sua vontade e a sua personalidade, conseguiu interpretar com perfeição o papel de anfitrião. Ninguém que o contemplasse naquele momento poderia imaginar que ele estivesse à beira da ruína, ou que, entre ele e Dawn, houvesse problemas. Suas anedotas nunca foram mais engraçadas, nem contadas com mais espírito. Seu charme deixou todo mundo muito à vontade. Sentado à cabeceira da mesa, chamava sobre sua pessoa a atenção geral. Konig encomendara como sobremesa um suflê flambado e contemplou, com aparente prazer, o conhaque pegar fogo e iluminar a mesa inteira com seu súbito brilho. O rosto dele estava muito vermelho e ficou tenso, como se temesse o calor. Com um sorriso, levantou-se e pediu desculpas. - Preciso dar um telefonema - disse, enquanto mesa era servida. Konig levantou-se, foi até a outra extremidade da mesa, inclinou-se e beijou a mão de Dawn, segurando-a por um breve momento. Havia um brilho divertido em seu olhar, como se ele conhecesse um segredo ou estivesse a ponto de fazer uma brincadeira. Percorreu o salão apinhado de gente, acenando para seus conhecidos, subiu os degraus rapidamente, apoiando-se no balaústre, e desapareceu. Daí a meia hora surgiu um garçom, muito pálido. Ficou parado por um breve instante, inclinou-se e falou bem junto ao ouvido de Dawn: - Sra. Konig, surgiu um problema... a sobre 401 - Sinto muito, sta. Konig. - O motorista no estacionamento, com o boné na mão. - O que aconteceu? - Sir David saiu do restaurante e entrou no carro. Perguntei para onde íamos, e ele indicou o hospital Cedro do Líbano, informando que acabara de sofrer um ataque do coração. Leveio para lá o mais rápido que pude. - E...? - Ele... Dawn contemplou a limusine. A porta estava dos sapatos de Konig encontrava-se no chão. Ocorreu-lhe que ele, provavelmente, tivera o ataque na mesa, enquanto a sobremesa estava sendo servida. Reuniu forças para levantar-se, ir até ela, beijar-lhe a mão, sair andando e morrer dentro do carro. Para Konig a dignidade fora importante até o fim. morreu no banco de trás. 402 Parte 4 A princesa G 16 - Preciso de ajuda. Aaron Diamond inclinou-se, tivesse sido encerada. Para grande alívio de Dawn, ele nem contou piadas nem saiu pela tangente. Os enterros o deprimiam, até mesmo o de Konig, a quem mal conhecia. Durante o serviço fúnebre chorou descontroladamente. Conforme confessou mais tarde a Dawn, sentiu-se muito aflito ao constatar que um homem que tinha dinheiro, fama e uma linda mulher podia morrer como todo mundo. Assim que o serviço terminou, fez Dawn sair apressadamente por uma porta lateral, evitando o assédio da imprensa, e levou-a para seu escritório, onde a deixou esperando, enquanto trocava de roupa, como se receasse que a que usava tivesse ficado contaminada. Lá fora as palmeiras definhavam, sob o calor da Califórnia. Dentro, sentia-se o cheiro de couro polido e de madeira, ouviase o tique-taque de um velho relógio de parede e via-se o bri lho dos objetos de latão e cobre. O escritório de Diamond parecia a locação de um filme. Em todos os lugares para onde Dawn olhava havia painéis de carvalho, poltronas estofadas de couro vermelho, peças de latão, quadros com cenas de caça e mobília em estilo vitoriano. Tudo era destinado a transmitir uma impressão de solidez, tradição, respeitabilidade. A exceção era a pessoa de Diamond... - Que tipo de ajuda? Afinal de contas, agora você é uma viúva rica. Ela abanou a cabeça, levantou o véu, tirou o chapéu e o pôs sobre a mesa de Diamond, juntamente com uma grande bolsa preta, que parecia mais apropriada a uma viagem do que a um enterro. - Pelo visto, não. Tive uma reunião Aaron. Só me restaram dívidas. - Mas você ainda tem a casa, sua careca brilhava como se com os contadores, os quadros, as jóias... 405 - O banco é proprietário da casa, que, aliás, está hipotecada pela segunda vez. Os quadros ainda não foram pagos, com exceção do meu Van Gogh, e amanhã, quando chegarem, certa mente os credores de David vão apoderar-se dele. O mesmo acontecerá com as jóias, a não ser que eu aja depressa. - Meu Deus! E eu que acreditava que Konig tinha, no mínimo, um milhão de dólares... - É o que todo mundo imaginava. Ele vivia só de aparências, Aaron. Terei de fazer o mesmo. - O que quer que eu faça? - Comece a negociar com Marty Braveman. - Como? julguei que essa era sua maior dificuldade com Konig. - E era, sim. Não queria ser cedida a Braveman, mas agora preciso de um contrato, Aaron. Se eu puder fazer quatro filmes, concordarei, desde que ele me pague um salário correto e que eu tenha o direito de aprová-los. - Não vai ser nada fácil, garota. - Basta negociarmos a partir de uma posição de força, Aaron. - E que posição é essa? - Ora, ele precisa de mim e você sabe muito bem disso. A Empire não pode ficar fazendo filmes atrás de filmes com Iria Blaze. - É verdade. Bem observado, mas você também precisa dele. O filme de Konig está indo de mal a pior. Marty não é nenhum tonto. Ouviu dizer que você está em dificuldades financeiras e vai nos oferecer uma ninharia. - Aaron, garanto a você que ele não vai ter certeza de nada. Afinal de contas, fui casada com David Konig, e alguma coisa acabei aprendendo com ele. É por isso que preciso de sua ajuda. - Diga lá de que se trata. - Vou vender minhas jóias. - No momento em que você fizer isso, sabendo que está falida. - Não se eu sair todas as noites usando cópias. Ninguém precisa saber que as jóias verdadeiras se encontram em Nova York. - Quanto tempo será que você vai conseguir esconder os bens dos credores... Antigamente eu era bom nisso! Esqueça! Conheço dois caras que podem dar conta do recado. São refugiados, negociantes de diamantes de Amsterdam. O problema vai ser tirar as jóias do cofre do banco. - Eu sei. já estive lá. - Quando alguém morre, todo mundo ficará o maldito banco sela o cofre. 406 - Fui até lá às nove horas da manhã, no dia seguinte à morte de David. Calculei que, quando eles lessem a notícia e dessem alguns telefonemas, seria meio-dia ou, talvez, onze ho ras e acertei. Peguei a chave, abri o cofre e tirei tudo de lá. - E onde estão as jóias? Dawn abriu a bolsa e esvaziou-a em cima da mesa de Diamond. Por alguns momentos ele contemplou as jóias, boquiaberto, pegou um colar e o admirou. - Meu Deus... Em números redondos, quanto é que isso vale? - O lote está no seguro por três milhões de dólares. - Sabia que, se conseguir um terço, pode considerar-se uma criatura de sorte? - Sei, sim. É uma pena, mas que se há de fazer? Seus amigos podem retirar as pedras das montagens e substituí-Ias por cópias. - Você já fez isso antes? - Tive uma pequena experiência, sim - confessou Dawn cautelosamente. - já faz muito tempo e foi em outro país. Aaron, mais uma coisa: quero vender o Van Gogh. E meu, não importa o que digam os credores de David. - Isso é fácil, mas como é que você pretende retirá-lo da casa? Eles ficarão de olho dia e noite. - Com efeito. Dois carros estão parados no fim da rua. Creio que são funcionários do banco. - Ou então os representantes do espólio de Sigsbee Wolff. Em casos como este, os malditos empregados são o verdadeiro problema. É a primeira coisa que os credores fazem: ameaçam os empregados, no caso de faltar algum objeto, depois lhes dão umas boas gorjetas. Dawn tirou uma foto Diamond. - Cá está o quadro e as dimensões. Você não consegue alguém que possa fazer uma cópia da noite para o dia? - Por quinhentos dólares tem uns sujeitos nos estúdios de Walt Disney que topam fazer qualquer coisa, mas não espere que o avaliador dos credores vá cair nessa. - Nem é preciso. Necessito apenas enganar os empregados. Mande fazer o quadro numa tela. Você a leva dentro de sua mala e, enquanto estivermos tomando chá, trocamos o falso pelo verdadeiro. Graças a Deus o quadro é pequeno. Como poderemos avaliã-lo? - Mayer Meyerman pode encarregar-se de tudo. Acaba de abrir uma galeria aqui. Talvez você consiga um milhão, se tivermos sorte. O que pretende fazer com ele? colorida da bolsa e mostrou-a a 407 - Viver como uma viúva rica, enquanto você negocia meu contrato. Manterei a casa durante certo tempo, bem como os empregados. Procurarei uma casa menor, pois essa é grande de mais para mim e não porque não posso sustentá-la ou porque vai ficar para o banco. Quanto menos eu precisar de Braveman, mais ele vai querer-me. - David devia tê-la ouvido mais mond, sorrindo. - Impossível. Ele fez de mim uma estrela. Não conseguia esquecer e nem me deixava esquecer. - Quer dizer então que ele não conversava com você sobre negócios? - Conversava, sim, é claro. O que mais havia para conversar, afinal de contas? Ele, porém, tomava todo o cuidado para não mostrar o jogo, se é isto que você está insinuando. - Não estou insinuando nada. Apenas pergunto. Os advogados vão levar anos até concluir o inventário. Konig provavelmente tinha companhias espalhadas por todos os cantos. Um sujeito como ele devia guardar todos os detalhes na cabeça. - Guardava, sim. - E nunca pediu a você que assinasse algo? - Claro. - Documentos? Papéis que precisava de testemunhas ou tinham de ser registrados em cartório? - De vez em quando... David não gostava que eu lhe fizesse perguntas. Ele me tornou acionista, pois dizia que era bom para o imposto de renda, e me fez tornar-me cidadã americana. - Como foi que ele conseguiu? - Mexeu uns pauzinhos... Você sabe como era David. Conhecia gente muito importante na Casa Branca. Achava uma boa idéia nos tornarmos americanos. Um funcionário muito gentil do Departamento de justiça foi até em casa e preencheu a papelada. No dia seguinte fui até a cidade e compareci diante de um juiz. - Preciso desses documentos. - Diamond abriu a gaveta e guardou as jóias. - Quer recibo? - perguntou, com ar astuto. Dawn fez que não, pois sabia que Diamond a estava testando. Era o tipo do homem capaz de fazer o que quer que fosse por alguém que confiasse nele e absolutamente nada por quem desconfiasse. Ela calculou os riscos que corria. - Não preciso de recibo. Diamond levantou-se e acompanhou-a até a porta. Você está aprendendo... Se alguém perguntar, direi que nunca pus os olhos nas jóias. vezes - observou Dia 408 De volta ao carro, Dawn imaginou como tinha coragem de pôr jóias no valor de três milhões de dólares nas mãos de Aaron Diamond. Sabia, porém, a resposta. De vez em quando era necessário correr riscos e jogar tudo, seguindo umcamente os instintos. Somente ao entrar no estúdio de Konig é que descobriu que os arquivos estavam vazios. Alguém tinha agido com a mesma rapidez que ela. A mesa de Braveman era branca e tinha o formato de um semicírculo. Estava em cima de um estrado, e quem entrava na sala via apenas seus ombros e a cabeça, aliás, bem calva. Ele tinha diante de si uma fileira de telefones e dava a impressão de que podia deter um exército inteiro, sem ajuda de ninguém. Comentava-se que ele nunca se levantava da mesa para cumprimentar uma visita, mas, assim que Dawn entrou, ele desceu do estrado e apertou-lhe a mão. Durante as três últimas semanas Braveman vinha tendo conversas com Diamond, enquanto Dawn saía todas as noites. Fazia questão de usar suas jóias, agora falsas, e exibia-se para quem quisesse vê-Ia. Diamond anunciou que ela estava pensando em abandonar o "cinema. Divulgou também que ela examinava a possibilidade de doar os quadros de Konig ao museu de Los Angeles, e que devolvia roteiros de filmes sem os ler, prova segura de que se encontrava em boa situação financeira. Para Marty Braveman ele confidenciou que sua cliente poderia fechar um acordo, caso os termos lhe conviessem. Sabia que, por detrás da fachada arrogante de Braveman, havia um estúdio sem estrela. Há alguns anos ele tinha cometido o erro básico de tornar Iria Blaze sua amante e persistiu nele, colocandoa num filme atrás do outro, a despeito das bilheterias cada vez mais fracas e das críticas impiedosas. A carreira de Iria ia de mal a pior, e a Empire acompanhava aquela trajetória descendente. O mesmo sucedia com a reputação e o casamento de Braveman. O estúdio da Empire Pictures era um dos maiores da cidade, mas, por detrás dos muros altos e alvos, em estilo pseudoespanhol, coberto de azulejos mouriscos, nada existia. Metade dos estúdios de som estavam desativados, o espelho d'água, suficientemente grande para ali se encenar uma batalha naval, estava vazio, e o vento assoviava através das construções abandonadas da cidadezinha do faroeste, construída no estúdio. Até mesmo o programa de jovens talentos, destinado a treinar garotas 409 promissoras, havia-se transformado num dos centros mais conhecidos de meninas de programa. Ainda assim o enorme ego de Braveman não diminuía. Ele agia como um verdadeiro czar, dono de um dos maiores estúdios, homem acostumado a demolir ou construir carreiras a par tir de um mero capricho. Foi cedendo passo a passo às exigências de Diamond, fazendo cada concessão com o máximo de histrionismo e de ameaças. Braveman concordou com um contrato que compreendia três filmes, mas levou duas semanas para aceitar pagar um salário de dois milhões de dólares. Em relação à aprovação dos roteiros por Dawn, mostrou-se irredutível. Nunca fizera semelhante concessão a uma atriz e não pretendia abandonar seus princípios. A cortesia não era uma das virtudes daquele homem, e foi com grande relutância que ele acabou concordando em se encontrar com Dawn, indo diretamente ao assunto. - Ninguém me diz o que devo fazer na porra da minha companhia - foi logo falando. - Nós sabemos, Marty - observou Diamond. - Cale a boca, Diamond. Se estiver sem trabalho, vá até o estúdio de Disney. Eles estão formando o elenco dos sete anões e você pode começar carreira nova. Estou conversando com sua cliente. - Eu sei - disse Dawn, muito respeitosa. Achou oportuno vestir-se para a ocasião com roupas que David Konig teria aprovado. Trajava um tailleur de seda azul-escuro, com a grife de Chanel, um chapeuzinho austero, que lhe valorizava as maçãs do rosto, pouca maquilagem e um colar de pérolas de uma única volta. Usava também luvas de pelica azul-escura, compridas. Era a própria imagem da lady e da viúva. Estendeu a mão enluvada a Braveman. De perto ele parecia ter sido esculpido na pedra por um artista sem talento. Numa indústria em que a maior parte dos gigantes era pouco mais alta do que Aaron Diamond, Braveman constituía exceção. Tinha mais de um metro e oitenta e cinco e o corpo, além dos pêlos, era o de um gorila que está envelhecendo. O dorso de sua mão era tão peludo que Dawn sentiu repugnância em tocá-lo. Ele era queimado de sol e tinha olhos pequenos, escuros e astutos. Na sua sala não fazia calor, mas ele transpirava como se estivesse num banho turco. Dawn concluiu, para sua grande surpresa, que ele estava com medo. Medo de quê?, pensou. Dificilmente poderia sentir medo dela. A reputação de Braveman, em suas relações com as mulheres, fazia parte das lendas de Hollywood. Nos velhos dias, antes que Iria Blaze lhe tivesse cortado as asas, ele se vangloriava 410 de dormir com todas as estrelas que trabalhavam na Empire, como se fosse um direito incluído no contrato que elas assinavam. Dawn percebeu que ele não sentia medo dela, mas da diretoria de sua empresa. Braveman mantivera o controle do estúdio por um verdadeiro milagre. Se não fosse a morte de Sigsbee Wolff, David Konig é quem estaria sentado naquela sala. Ele precisava de um grande sucesso, bem como de uma estrela, e necessitava de ambos muito mais do que se podia imaginar. - David falava tão bem de sua pessoa... Quero que nosso trabalho caminhe na mesma direção. - Que direção era? - perguntou Marty com ar desconfiado. - Eramos sócios. - Esses eu já tenho. Preferia não ter. - Não me refiro a esse tipo de sócio, Marty. Não se incomoda que eu o chame de Marty, não é mesmo? - Fique à vontade. - Eu confiava em David, Marty. As pessoas comentam que foi ele que me inventou. Não é inteiramente verdade, sabe? Ele tinha pleno conhecimento do que eu era capaz de fazer e sabia como me usar. Sabia também que não tinha o menor sentido colocar-me num filme onde não pudesse ser eu mesma. Conversamos muito sobre isso. Tomávamos todas as decisões em conjunto. Não quero cair nas mãos de um produtor que eu nem mesmo conheço ou ganhar um papel que não seja para mim. Pretendo ter com você o mesmo relacionamento que tive com David. - Você era casada com ele, ora essa! Não é casada comigo. - Bem, eu sei... Quero apenas sentir que você cuidará de mim pessoalmente, Marty, de tal modo que eu possa ir direto a você, quando não me sentir bem. - Pode ver-me quando quiser, mas não me venha com essas babaquices. Pelo menos não pelo dinheiro que vou lhe pagar... - Ouvi dizer que você contratou um novo diretor de produção, Marty - interferiu Diamond. - Queremos apenas que Dawn receba completa atenção do homem que está por cima, e não de alguém que seja novato no estúdio. Braveman esmagou o charuto no cinzeiro com um gesto tão brusco que o partiu em dois. Pegou um charuto novo de uma caixa de prata, que se encontrava em cima da mesinha do café, mordeu a extremidade e cuspiu no cinzeiro. - Ouça, Diamond, um estúdio do tamanho do precisa de um diretor de produção. Não posso fazer coisas que me enchem o saco, não acha? - Quanto a isso, não discuto, Marty. Empire sozinho - Quem achar que a maldita diretoria vai me obrigar a engolir o que ela bem entende, está redondamente enganado! - Ninguém acha isso, Marty - disse Dawn, calculando que era exatamente o que acontecia. Quem será que ele escolhera para diretor de produção? O que mais a deixava admirada é que alguém aceitasse. - Concordei com as propostas da diretoria porque era a atitude certa, mas quem ainda dá as cartas sou eu. - Não há dúvida - observou Diamond, conciliador. - Por isso mesmo faço questão de que no contrato, Marty, conste que você e eu, e ninguém além de nós dois, disporemos o que deverei fazer. Não venho para cá por causa da Empire Pictures, mas por causa de Marty Braveman. - Selznick a queria, Marty, e Mayer também. Harry Cohn a quer, e Dawn quer você. - Mas será que eles a aceitariam por dois milhões de dólares? - perguntou Braveman com astúcia. - Cohn é um filho da mãe que só sabe contar vantagem. Selznick não tem todo esse dinheiro, e Mayer jamais daria um contrato nesse valor, porque todas as suas estrelas iriam querer a mesma coisa. - A questão não é dinheiro, Marty - interveio Dawn. - David deixou todo o dinheiro de que necessito. Dinheiro é apenas uma questão de prestígio. Quero a garantia de que faremos grandes filmes juntos, de que você e eu aprovaremos meus papéis. Isso não deve ficar a cargo de algum produtor, do chefe do estúdio ou de um comitê. Só de nós dois. Ela observou Braveman enquanto ele calcava o charuto com força no cinzeiro. O que ela lhe oferecia era a chance de cortar as asas do novo chefe de estúdio, antes mesmo que ele começas se a trabalhar lá. Tratava-se de uma decisão de importância capital. Dava a Braveman a oportunidade de aumentar seu poder, no momento exato em que estava a ponto de perdê-lo. - Concordo. Ele apertou a mão de Dawn, levantou-se e, num gesto solene, apertou igualmente a mão de Diamond. Braveman era um homem da velha escola, para quem nada era sagrado enquanto ele não apertasse a mão de alguém. Era perfeitamente capaz de romper todas as cláusulas de um contra to sem pensar duas vezes, mas apertar a mão significava para ele um compromisso diante do qual jamais recuaria. - Quem é o novo chefe de produção, Marty? - perguntou Diamond. - Você promete guardar segredo? - perguntou Marty, com um sorriso matreiro. - Sou advogado. 412 - Isso não significa porra nenhuma. Bem, vou contar. Vai ser anunciado hoje à tarde. A diretoria queria que eu contratasse alguém e foi o que fiz. Chamei meu genro. - Mas, Marty, você não tem genro! - Desde ontem tenho um futuro genro. Minha filha ficou noiva de Myron Cantor. - Como? Myron Cantor Dawn, muito surpreendida. - Não, quem dirige o estúdio do a mim. - Mas ele é agente! - Ninguém é perfeito. Myron bará aprendendo. - Eu o conheço! - disse Dawn. Será que Cantor se lembraria dela? Depois de tantos anos, era quase certo que não se recordasse mais de Rani, a dançarina exótica. Era bem pouco provável que ele fizesse a ligação. Se isso acontecesse, que lhe importava? Ele também devia estar ansioso para que as pessoas esquecessem que fora jovem e brilhante agente, que tentara fazer jogadas escusas para subir na vida. Tal como Dawn, haveria de querer esconder o passado ou, pelo menos, torná-lo obscuro. Quando ela pensou em pôr seu futuro nas mãos de Marty Braveman e de seu novo genro, percebeu o quanto sentia falta de David Konig. Após o primeiro choque, sentiu tristeza. Era uma dor que aumentava cada vez mais e não passava. Agora, porém, sentia medo. Encontrava-se nas mãos de estranhos. Mais uma vez a única pessoa em quem podia confiar de fato era ela mesma. irá dirigir o estúdio? - indagou sou eu. Ele fica subordina é um rapaz brilhante e aca As manchetes dos jornais anunciavam o avanço dos alemães em territórios franceses. Uma das regiões onde se travavam as batalhas mais ferozes era justamente as Ardenas, onde as forças alemãs tinham conseguido derrotar as defesas francesas. Será que Lucien faria parte delas? - pensou Dawn, preocupada. Outras notícias falavam de confusão, recuos e capitulações. Os repórteres de rádio descreviam a situação das tropas francesas, extenuadas, atravancando as estradas. Relatavam que aviões alemães surgiam no céu sem nuvens a fim de bombardear os soldados, provocando desastre, humilhação e morte. À noite, Dawn permanecia na casa que David lhe deixara, juntamente com as dívidas, e pensava em Lucien. Sentia-se culpada em relação aos dois e gostaria que nenhum deles estivesse onde estava. De vez em quando a solidão era mais intensa do que ela conse 413 guia suportar. Após duas semanas dispensou a srta. Bigelow e aceitou o convite de Cynthia para ficar com ela e Dickie até encontrar outra casa. Para sua grande surpresa, precisava de Cynthia tanto quanto Cynthia precisava dela. Em toda Los Angeles os exilados e refugiados europeus ouviam as notícias e se congratulavam por ter escapado da Europa a tempo, embora muitos sofressem por seus amigos, familiares e entes queridos. Os franceses sofriam com a derrota de seu país e com o sentimento de culpa por se encontrarem lá a salvo. Os ingleses, os mais numerosos, eram os que mais padeciam, pois ainda podiam escolher voltar para casa. No Clube de Cricket de Los Angeles, C. Aubrey Smith, o decano da sociedade inglesa de Los Angeles, tranqüilizou-os, assegurando que eles faziam mais por seu país, ali, servindo como exemplo de cultura e talento nos filmes americanos, do que o fariam na Inglaterra. Mas não era todo mundo que se consolava com essa argumentação nem tanto convincente. Aos que ainda duvidavam, Smith dava um conselho: "Olhe só para Beaumont! Se ele pode ficar e trabalhar aqui, você também pode". Beaumont, porém, recusava-se a aconselhar seus compatriotas ou a explicar a própria posição, sobretudo para Cynthia, que o acusava diariamente de covardia, contrariando os conselhos de Dawn. Cynthia bebia mais do que nunca, e com um desespero que transformava cada jantar em um drama carregado de muita tensão e cada noitada em casa uma verdadeira agonia, embora Beaumont não parasse muito por lá. Bêbeda ou sóbria, queria voltar com ele para a Inglaterra, como se compartilhar a guerra resolvesse os problemas de compartilhar a cama com aquele homem. Dawn forçou-se a sorrir, ao jantar certa noite com os Beaumont e Aaron Diamond no Chasen, mas, por mais que quisesse, não conseguia atenuar a hostilidade entre os dois. Cynthia liquidou seu segundo copo de conhaque, depois de já ter tomado três uísques duplos e pelo menos meia garrafa de vinho. - Quero ir para casa - declarou. - Daqui a pouco, minha cara - disse Beaumont, nervoso, esperando evitar uma cena. - Não me refiro à casa Inglaterra. - Falaremos sobre isso mais tarde - disse tando retomar sua conversa com Diamond. - Foda-se! Falaremos agora. Como é que você chamaria um homem que se recusa a ir para casa quando seu país precisa dele, Aaron? onde moramos. Refiro-me à Beaumont, ten 414 Diamond tirou os óculos e pensou durante alguns mornentos. - Prudente...? - sugeriu. Cynthia riu, e o som aumentou de intensidade a ponto de Dawn imaginar que o cristal do cálice se partiria. - Não! Um covarde! Ela esvaziou as últimas gotas do copo e pediu mais um drinque. Só se ouvia sua voz, pois fizera-se o silêncio. - Você não acha, Dawn? Afinal de contas, Não quer voltar para casa? - Quanto a mim, é diferente. Não sou homem. - Oh, é verdade, Dawn querida - disse Cynthia com doçura. - Pelo visto Dickie também não é, quando se trata de seu rei e seu país. Dawn arrependeu-se momentaneamente por ter aceitado a hospitalidade dos Beaumont. Descobrira rapidamente que o casal queria ter uma intermediária e uma conselheira sob seu teto. Beaumont esperava que Dawn acalmasse Cynthia, enquanto esta última queria ter por perto alguém a quem pudesse explicar "sua versão do que acontecia", nos raros momentos em que estava sóbria. Não era a posição mais confortável para uma hóspede. Dawn sentia muita vontade de encontrar logo uma casa para morar e veio-lhe a tentação de voltar para a mansão dos Konig. Beaumont ficou pálido diante do insulto. Levantou-se, e Cynthia lançou-lhe um olhar insolente. - Você não tem coragem de bater em mim - disse, com ar de desafio. A mão de Beaumont deteve-se Cynthia. - Em público não! - murmurou Diamond calmamente, fazendo-o sentar-se na cadeira, com uma força surpreendente para homem tão baixo. - Se você quiser levá-la para casa e dar-lhe uma surra daquelas, não me oponho. Talvez até seja a atitude mais sensata, mas se bater aqui, amanhã estará na primeira página de todos os jornais do país! Beaumont concordou, muito tenso. Fez-se um silêncio constrangedor. Cynthia abriu a bolsa, retocou a maquilagem com mãos trêmulas e voltou a fechá-la, levantando-se. - Foi uma noite ótima, meus queridos! - disse, muito animada. - Precisamos repeti-Ia em breve! Fechou então os olhos e caiu no chão. Beaumont suspirou e acendeu um cigarro. Dawn imaginou por que ele não queria voltar para a Inglaterra... mais completo você é inglesa. a meio palmo do rosto de 415 Curioso como era fácil se tornar preguiçosa em Los Angeles, pensou Dawn. Sua recente viuvez era uma espécie de purgatório, do qual, sem dúvida, acabaria por sair. Mas, enquanto isso, restava-lhe pouco a fazer. Diamond elaborava os detalhes de seu contrato com a Empire; os advogados brigavam em torno da herança de Konig; Kraus e Goulandris haviam desaparecido e, sem dúvida, procuravam pôr entre eles e os negócios de Konig a maior distância possível; Billy Sofkin, o decorador das estrelas, tinha finalmente encontrado uma casa para ela na praia de Malibu e estava muito ocupado, redecorando-a. Sua intensa atividade, por mais que dissesse respeito a ela, quase chegava a dispensar sua presença. Levantava-se tarde, tomava banho de sol ao lado da piscina e esperava Cynthia aparecer para seu primeiro coquetel do dia. Dawn contava os dias, aguardando a casa ficar pronta. Gostaria muito de ficar sozinha, tendo apenas por companhia o barulho das ondas morrendo na praia. Seu desejo nunca fora maior quando, certa noite, Cynthia decidiu não ir para a cama e aguardar a volta de Dickie. - Desta vez eu esclareço a situação. Garanto que ele está saindo com outra mulher! Dawn suspirou, na dúvida se aquele seria o momento mais apropriado para revelar a verdade a respeito de Beaumont. Quanto maiss pensava nisso, menos gostava da idéia. Era bem pouco provável que a verdade contribuísse para melhorar a situação. Quando bateu meia-noite, Dawn desistiu de esperar, desculpou-se e foi deitar-se. Eram quase duas horas quando Cynthia a despertou. - Lá fora estão ladrões? - Deve ser Dickie - observou Dawn, sonolenta. - Não é, não. Ouvi nitidamente a voz de um homem e não é a dele. - Então chame a polícia ou acorde os empregados. Cynthia não fez nenhuma das duas coisas. Saiu cambaleando do quarto e foi para o seu, seguida por Dawn. Lá chegando, acendeu as luzes do pátio. Instintivamente Dawn passou na frente dela e afastou as cortinas o suficiente para ver o que se passava lá fora. O gramado, a piscina e a comprida alameda ficaram iluminadas subitamente. Richard Beaumont e Dominick Vale lá estavam, beijando-se apaixonadamente. Beaumont estava de costas para elas. Segurava a nuca de Vale e comprimia o rosto dele de encontro ao seu, enquanto uns homens. Ouço vozes. Será que são 416 se beijavam. Nesse exato momento Vale recuou um pouco e olhou por cima do ombro de Beaumont. Seus olhos frios, muito azuis, contemplaram Dawn com certa ironia. Ele sorriu e deu de ombros, como se estivesse desculpando-se por aquela inoportuna exibição. Fez um gesto de tirar um chapéu imaginário na direção dela, como se a estivesse cumprimentando, deu meiavolta e caminhou em direção à sombra, desaparecendo. As luzes se apagaram e, embora a cena não tivesse demorado mais do que alguns segundos e o ar estivesse úmido e quente, Dawn tremia. Ao voltar-se, notou que não havia a menor expressão no rosto de Cynthia. Esperava que ela não tivesse visto nada, pois tentara ficar na sua frente, mas não conseguiu decifrar o que o olhar dela exprimia. - Vou tomar mais um drinque e deitar-me - anunciou Cynthia. Suas mãos tremiam. - Não acha que já bebeu o suficiente? - Querida, não comece... - Cynthia encheu o copo. - Beber não vai adiantar nada. - É muito fácil dizer. Você não bebe. Ela esvaziou o copo de um só gole, tossiu e o pôs cuidadosamente em cima da mesa. Mesmo bêbeda e desesperada, Cynthia não era o tipo de pessoa que deixasse um copo molhado em cima de um móvel envernizado. - Não suporto as noites - ela confessou. - Quero tocálo e ele detesta, quando eu tento. Ele procura disfarçar, mas eu percebo. - Pois então não toque nele. Durma num outro quarto. - Não consigo. Você não tem um comprimido para dormir? - No banheiro há alguns. Fiquei com eles após a morte de David, mas não os uso. - Obrigada. Cynthia pegou a garrafa de bebida e retirou-se, fechando a porta silenciosamente. Mais tarde, naquela mesma noite, Dawn despertou com o barulho de uma discussão. Ouviu um tapa, fez-se silêncio e ela resolveu não interferir. Pela manhã, enquanto um empregado limpava a piscina, Cynthia Beaumont fez sua primeira tentativa de suicídio. Ao despertar no hospital Cedro do Líbano, percebeu, para seu grande desapontamento, que ainda vivia. Segurou a mão de Dawn e, com uma voz que estava reduzida a um simples suspiro, depois da lavagem estomacal, manifestou-se. - Não tem importância, querida. Sinto muito ter usado seus comprimidos. Mais tarde acabarei conseguindo, se continuar tentando. Dawn não duvidou. 417 O casamento de Shirley Braveman foi tão luxuoso que o noivo chegou a ficar na sombra. A ostentação era notável, até mesmo para o presidente de um estúdio, mas sabia-se que Bra veman tinha em mente algo mais do que uma simples demonstração de afeto paterno. Na verdade comemorava a própria vitória. Sigsbee Wolff e David Konig haviam tentado apoderar-se da Empire Pictures. Fracassaram e morreram, o que constituía uma falha ainda maior, a derradeira. Braveman sobreviveu, embora tendo sua autoridade e seu prestígio diminuídos. Aquele casamento custara-lhe certamente alguns milhares de dólares, que ele, de qualquer modo, debitaria ao estúdio. Além do mais, mostrava-se mais ansioso por projetar e exibir seu genro do que em agradar à filha ou até mesmo à mulher. Era Cantor que os convidados tinham vindo encontrar e parabenizar, não Shirley. Dos muitos benefícios que ele colheria como chefe de produção da Empire Pictures, o casamento com Shirley Braveman não constituía o mais importante de todos, aos olhos de muita gente. Dawn o reconheceu imediatamente. Havia engordado, não muito, mas o suficiente para lhe dar a aparência de um executivo bem-sucedido. Seu cabelo negro estava penteado para trás e brilhava como nunca, e os olhos escuros continuavam penetrantes. - Já nos conhecemos! - ele disse. - Espere aí. Ah, já sei. Foi em Londres, numa festa. Você estava com um fotógrafo. Ela concordou. Não tinha sentido negar. - Você tem boa memória. Foi há muito tempo. - Quatro ou cinco anos. Você era a mulher mais bela que eu tinha visto até então. Como haveria de esquecê-la? Continua sendo, alias. Você me enganou. Sabe que fiquei a noite inteira no Claridge, à sua espera? - Sinto muito se estraguei sua noite. - Não tem importância. São coisas que acontecem. Por detrás dos olhos perspicazes havia o brilho de algo que Dawn reconheceu como um ego atingido. Adivinhou que Cantor não era o tipo de homem que esquecesse ou perdoasse qualquer espécie de ofensa vinda de uma mulher. - Que bom que vamos trabalhar juntos! Contratá-la foi a segunda coisa mais esperta que Marty já fez. - Qual foi a primeira? - Contratar-me. Você e eu faremos uma grande dupla. Vou realizar coisas com que Konig jamais sonhou. Quero mostrar que podemos fazer uma estrela, do mesmo modo que a Metro. - Mas já sou uma estrela, Myron - disse Dawn, ligeiramente irritada. 418 - Claro que é! - ele afirmou, recuando um pouco. - Não me entenda mal. Estou falando de outra coisa: clubes de fás, multidões seguindo-a todas as vezes que for a algum lugar, mães dando seu nome às filhas que nascem... Ser estrela não tem nada a ver com fazer filmes. Gloria Swanson é uma estrela e não faz um filme há anos. - Mas o que importa são os bons papéis, Myron. Encontre um que, me sirva. - E aí que você se engana. O que conta é a publicidade. Foi por isso que Konig levou você tão longe. Sabia tudo a respeito de cinema, mas achava que a publicidade é algo que se faz depois que o filme está na lata. Eu, porém, acredito em começar pela publicidade. Por que você quer - Mas eu nunca disse isso! - Lucien Chambrun! - ele exclamou de o nome do fotógrafo, não? O que aconteceu - Está na França... no exército. - Que pena! Era um câmera muito bom. Se estivesse aqui, eu o empregaria. Você acaso leu Chamas da paixão? A mudança rápida e imprevista de assunto era típica de Cantor e de Hollywood. Dawn já tinha descoberto que aquele era um lugar onde a atenção que as pessoas prestavam umas às outras media-se em segundos ou até mesmo em frações de segundo. Conhecia igualmente certas regras. Por exemplo, jamais se devia dizer que não se havia lido ou visto algo... - E o que você achou do romance? - ela perguntou. - É sobre patriotismo e tem uma bela história de amor! As pessoas querem sentir orgulho dos Estados Unidos. Por isso mesmo está em primeiro lugar, na lista dos livros mais vendidos. Dará um belo filme, não acha? - Sim, foi o que pensei imediatamente sorrindo com entusiasmo. - Não duvido. Você é esperta. - Você comprou os direitos? - Marty comprou e deu um salto no escuro, pois nem mesmo leu o tal livro. Bem, cá entre nós, devo dizer que ele já não está mais muito por dentro de certos assuntos... - Ele me pareceu bastante afiado... - Eles agora começavam a navegar em águas perigosas, e Dawn achou preferível ser prudente. Olhou a sua volta. - Quem é Shirley? - Está lá, bem perto do pai dela. Cantor apontou em direção à casa, onde os Braveman reuniam-se sob uma pérgula. Shirley era baixa, morena e rechonchuda. Tinha o olhar duro da mãe e o nariz recurvado do pai, que lembrava o perfil de uma ave de rapina. Ainda tinha a me contrariar? repente. - Era com ele? - afirmou Dawn, 419 graça da juventude, mas que não duraria muito tempo. Usava uma gargantilha de diamantes tão grande que, a distância, dava a impressão de que ela trazia um colar de gesso em torno do pescoço. - É muito bonita... Cantor deu de ombros. A suposta beleza de Shirley Braveman não era objeto de sua atenção. - Você deve estar sentindo-se solitária, agora que Sir David nos deixou - ele comentou. - Precisamos combinar um almoço ou um jantar para conversarmos sobre o que você pretende fazer. - Bem, tão logo meu contrato seja assinado... - Não precisamos esperar até lá. Você deve saber como essas coisas demoram. Ouça-me, preciso conversar com Beaumont. Podemos jantar juntos. - Cantor estava bem junto dela e pas sou um braço em torno de seu ombro. - EL. - murmurou. - Aquilo que aconteceu no Claridge... saiba que não fiquei chateado. Quem sabe a gente pode tentar de novo? Dawn sentiu a mão de Cantor deslizar sobre suas costas e afastou-se dele. Decidiu comprar Chamas da paixão ao voltar para casa. Envolvida com seus problemas, Dawn não tomara conhecimento do livro mais comentado do ano. Aaron Diamond, erìtusiasmado, fez um breve resumo de seu enredo. Gabava-se de ter sido o primeiro a recomendar o romance a Braveman. Chamas da paixão conseguiu atrair maior atenção do público do que a Segunda Grande Guerra. Era de autoria de uma professora de Cleveland, de setenta anos de idade, que escreveu o livro em seus momentos de folga. A elaboração do romance durou cerca de dez anos, e a autora sequer percebeu que plagiara inadvertidamente a maior parte do enredo de Guerra e paz, de Tolstói, transpondo a ação para a Virgínia, durante a Guerra da Independência. O manuscrito, depois de pronto, ficou mofando numa caixa de papelão no sótão da casa da professorinha durante vários anos, até o dia em que ela conheceu, por acaso, Emmet Lincoln Starr, editor de Nova York, que realizava um ciclo de conferências no Instituto de Arte de Cleveland sobre "A arte de escrever nos Estados Unidos", assunto em relação ao qual demonstrava tanta ignorância quanto a platéia. Ele encorajou a velha senhora a resgatar das teias de aranha o trabalho de toda uma vida e a deixá-lo na portaria do hotel onde se hospedava. 420 Em circunstâncias normais Starr jamais leria o manuscrito de Maybelle Faith Darling, e não tinha a menor intenção de o fazer quando o mensageiro do hotel trouxe a caixa empoeira da ao seu quarto. Por acaso, naquela noite, estava com um princípio de resfriado e uma indisposição estomacal. Teria de ficar na cama. Se não lesse o manuscrito da sra. Darling, passaria vinte e quatro horas de tédio absoluto. Abriu então a caixa, dela retirando algumas páginas. Na manhã seguinte negociou com a atônita sra. Darling um adiantamento de cinco mil dólares, relativos aos direitos autorais. Voltou para Nova York com o livro, que convenceu seus auxiliares de que ele tomara um vastíssimo pileque em Cleveland ou então enlouquecera. Mas, dentro de seis semanas, após a publicação, era o romance mais "quente" de toda a história da ficção americana. O texto era quente no sentido mais amplo da palavra, pois conseguiu ser censurado em Boston, Atlanta e na cidade natal da sra. Darling, Cleveland. Durante um ano ficou em primeiro lugar na lista dos romances mais vendidos. No país inteiro as mulheres davam a suas filhas recém-nascidas o nome de Caresse, que era o da he roína do romance. A "linha Caresse" invadiu o mundo da moda. As mulheres, entusiasmadas, começaram a usar saias compridas e amplas, além de decotes bem audaciosos. Os cabeleireiros criaram a "onda Caresse", inspirada nos cachos loiros da heroína. Os arquitetos apressaram-se em adicionar um pórtico com pilares brancos às casas, a fim de simular a fachada de "Alma", a mansão dos Carson. Um país que já se havia esquecido da Guerra da Independência voltou a descobri-Ia subitamente, tal como ela era vista através dos olhos de uma mulher apaixonada, ao mesmo tempo, por um oficial inglês e um herói americano; e que ia para a cama com os dois, para grande horror dos sacerdotes e ministros de todas as religiões. Eles pregavam contra o livro em seus púlpitos e, graças a isso, garantiam seu sucesso. Starr vendeu os direitos de filmagem a Braveman pela fabulosa quantia de duzentos e cinquenta mil dólares. Este, por sua vez, prometeu aos milhões de leitores de Chamas da paixão uma versão cinematográfica absolutamente fiel ao romance, promessa que, aliás, se revelou precipitada e dispendiosa. Braveman, com seu instinto de empresário, prometeu realizar um concurso de âmbito nacional para escolher uma Caresse perfeita. Infelizmente o concurso revelou-se um verdadeiro fiasco quando alguns jornalistas descobriram que alguns agentes da Empire Pictures estavam solicitando às concorrentes mais jovens e bonitas que tirassem a roupa, como parte do "teste de talento..." 421 Braveman inventou o concurso e agora se via em palpos de aranha. Teimoso, recusou-se a desistir e reconhecer que havia cometido um engano. - Isso não tem o menor sentido - opinou Myron Cantor, enquanto tomava um drinque na beira da piscina, por ocasião de um jantar oferecido na casa de Braveman, em Bel Air. - Como vai Shirley? Cantor suspirou. Braveman era perito em mudar de assunto quando isso lhe convinha. - Só pode estar bem. Ouça, Marty, deixe de lado o tal concurso de talentos. Não deu certo, ouviu? As meninas estavam transando com seus agentes. Que merda, o que você pode esperar? Além do mais, isso não é o melhor jeito de escolher uma estrela para um grande filme. Mesmo se encontrarmos alguém digno de vencer o tal concurso, ainda assim vamos acabar com uma atriz amadora nas mãos. Se temos de gastar quatro ou cinco milhões de dólares, pelo menos vamos escolher alguém com fama e experiência. - Prometi ao público americano um concurso - disse teimosamente Braveman, levando a mão ao coração, como se estivesse prestando juramento à bandeira. - Ele espera que nós contratemos a vencedora. - Ofereceremos um contrato de quatro anos à vencedora e lhe daremos um papel. Ela não há de se queixar. Diremos que encontramos uma atriz tão convincente para o papel que não tivemos condições de lhe dizer não. O público sem dúvida aceitará. - Eles nos lincharão. - Ao contrário, esquecerão. Você bem sabe. Braveman não só sabia, como tinha certeza de que não havia alternativa. A estrela de Cantor estava em plena ascensão. Havia assumido o estúdio no meio de uma onda de publicidade que, aliás, ele mesmo ajudara a gerar. Os demais membros da diretoria da Empire estavam tão impressionados com a energia e a disposição de Cantor quanto o restante da indústria cinematográfica. Ele se lançava como um gênio, e Braveman, cujo desprezo pelo genro aumentava a cada reportagem a seu respeito, não se encontrava em condições de resistir. Tinha o maior interesse no sucesso de Cantor, embora sentisse imenso prazer em vê-]o falhar, mas no fundo sabia que isso não era nada aconselhável. Além do mais, Cantor tinha razão. - Vá lá. Você me convenceu. Mas com quem podemos contar? Temos Iria Blaze... Cantor olhou para o sogro que, desapontado, deu de om bros. 422 - Está bem, esqueça Iria. Podemos pedir a algum estúdio que nos ceda uma atriz famosa. A Metro poderia emprestar Joan Crawford para um filme. - É velha demais. - E Tallulah Bankhead? - Pelo amor de Deus! Todo - Rita Hayworth? - Não serve para o Quero Dawn Avalon. - Tenho outros planos - Que planos? - Ela é linda, sofisticada. Deveria fazer filmes como os de Greta Garbo. Não funcionará em Chamas da paixão. - Ela é uma estrela. Precisamos de uma estrela. - Não é loira e o público espera uma loira. - Podemos modificar o roteiro sem a menor dificuldade. - De qualquer modo, ela ainda não é uma grande estrela. Tudo bem, no que diz respeito ao mercado internacional, mas, com essa maldita guerra, o mercado pifou. A carreira dela deve ser construída lentamente, de modo que o público americano a conheça melhor. - Mandei projetar os filmes dela para mim, Marty. Ela pode muito bem fazer o papel. - O sotaque dela atrapalha. - Trata-se de um filme de época, e Dawn pode tomar algumas aulas de dicção. É a decisão mais apropriada, Marty. - A última palavra é minha! - disse Marty, muito vermelho. - Sou eu quem decide o que ela faz ou deixa de fazer. - Sim, com a aprovação dela. - Isso não significa bosta nenhuma. Cantor suspirou. Dialogar com Braveman era como enfrentar um touro na arena. Quando seu ego e sua autoridade eram desafiados, nada mais podia demovê-lo. Dawn Avalon era um bem que ele possuía. Assinara um contrato com ela e era bem capaz de deixá-la sem fazer absolutamente nada só para não cedê-la a Cantor. Este último refletiu melhor e chegou à conclusão de que existia uma única pessoa que poderia influir sobre as decisões de Marty. mundo sabe que ela é lésbica! papel. - Cantor respirou fundo. - para ela. Dawn não teve de esperar, fato que deixou muito espantadas as secretárias de Cantor, que estavam acostumadas com as queixas das estrelas, muitas das quais esquentavam as cadeiras durante horas, na luxuosa sala de espera. Como o escritório de 423 Cantor tinha outra entrada que dava diretamente para o estúdio, freqüentemente elas esperavam, sem perceber que ele não se encontrava lá. Havia dois meses que Cantor assumira o estúdio e sua arrogância e rudeza tornaram-se legendárias. No fundo ele era apenas um homem que agia obedecendo estritamente uma lista de prioridades, por ele mesmo estabelecida. Se surgia um problema com o roteiro de um filme importante, Cantor poderia passar dois dias e duas noites trancado no escritório com uma equipe de escritores, enquanto fora um bando de atores, atrizes, produtores e agentes aguardavam em vão a oportunidade de vê-lo. Sua energia era inesgotável, e na cidade não se falava de outra coisa. Ele trabalhava sem respeitar os horários de ninguém, ditando apontamentos que chegavam a ocupar vinte ou trinta páginas, as quais cobriam todos os assuntos, desde figurinos até o enredo. Era um homem que encontrara sua verdadeira vocação e gostava imensamente de dizer aos outros como eles tinham de realizar suas tarefas. - Aquele sujeito é um verdadeiro obcecado - observou Aaron Diamond a Dawn. - Nesse ritmo, vai pifar dentro de um ou dois anos. Nas raras ocasiões em que Cantor cruzou com Dawn, ela teve a nítida impressão de que ele pifaria bem antes desse prazo. De vez em quando seu nível de energia caía de modo alar mante, como uma lâmpada que queima, deixando-o tão exausto que não conseguia sequer falar. Comentava-se que, quando isso acontecia, duas pílulas com um bocado de anfetamina o revitalizavam num abrir e fechar de olhos. No estúdio não era segredo que ele tomava benzedrina, que recomendava a todo mundo. Usava também uns seis inaladores por dia, dando uma fungada toda vez que se sentia deprimido ou cansado. Fora de seu círculo íntimo de auxiliares mais imediatos, constava que ele padecia de uma forte sinusite... Era mais do que evidente que ele estava em pleno processo de se tornar uma lenda, graças a um filme espetacular. Nada podia ser feito sem sua aprovação. Ao contrário do sogro, que só se preocupava com o que ele chamava "um grande filme", Cantor interessava-se por tudo. Ele mesmo delimitou os estacionamentos do estúdio, alugando-os em seguida. Percorria os portfólios dos estúdios fotográficos, a fim de escolher as fotos de publicidade, exigia que projetassem para ele os copiões de todos os filmes que estavam sendo produzidos pela Empire, aprovava os cardápios do restaurante e ditava cenas inteiras para os roteiristas, da noite para o dia. 424 Quando Dawn entrou no seu escritório, ele estava refestelado numa cadeira de barbeiro e tinha o rosto coberto por uma toalha branca, o que lhe dava a aparência de um cadáver. O barbeiro do estúdio o barbeava, enquanto a manicure fazia suas unhas. A seus pés ajoelhava-se um pequeno engraxate, empenhado em fazer os mocassins de couro usados por Cantor brilharem para valer. Cantor fez um sinal ao barbeiro para que ele removesse a toalha embebida em água quente de seus olhos, que estavam injetados, devido ao cansaço. . - Sente-se - ele disse bruscamente. Percebendo que Dawn talvez o achasse grosseiro, mostrou-se mais cordial. - Você está uma beleza, garota. Quer beber alguma coisa? Café, quem sabe? - Chá, por favor. - Chá! - gritou, em direção a sua mesa, onde o interfone emitiu um ruído característico, ouvindo-se logo em seguida uma voz abafada. - Imediatamente, sr. Cantor. - Vivo esquecendo que você é inglesa. - Não sou mais. Adquiri a cidadania americana. David achava que era uma boa idéia. - E? Não deixa de ser verdade. Ouça: vou direto ao assunto. Quero que você interprete o papel de Caresse. Está interessada? ' Dawn havia pensado no assunto durante várias semanas. Era, sob vários aspectos, um verdadeiro salto no escuro. Quando assinou contrato com a Empire, tinha em mente três ou quatro filmes com diretores e produtores importantes, além de papéis glamourosos, que eram os que interpretava melhor. Tentou imaginar-se como a filha inquieta de um proprietário de terras da Virgínia, no período colonial. Não seria nada fácil. Além do mais, Cantor também constituía um problema. Era o primeiro filme que iria controlar, e tinha escolhido para isso encarar uma das produções mais complexas que se havia filmado até então. Existiam muitas possibilidades de que viesse a fracassar, sobretudo porque Braveman, em algum recanto obscuro de sua mente, queria que isso acontecesse. Esses eram os lados negativos da questão. O positivo era que Caresse tornara-se o papel mais ambicionado de Hollywood. Se Cantor fosse bem sucedido, quem interpretasse Caresse teria a oportunidade de tornar-se a maior estrela da história do cinema. Dawn perguntou-se o que David a aconselharia a fazer, mas já sabia a resposta. Ele acreditava em jogadas a longo prazo e, além do mais, ela já não era mais uma ingênua, a ponto de aceitar a primeira oferta que lhe fizessem. 425 - O papel é bom - disse, com certa displicência. - O papel é fantástico, ora essa! - O que aconteceu com o concurso de talentos, inventado Marty? - No que me diz respeito, - Não sei se consigo superar meu sotaque. - Posso conseguir uma professora, e sempre é possível escrever algumas linhas e explicar que você estudou na Inglaterra... enfim, uma baboseira qualquer, que convença as pessoas. Não tem problema. , Cantor deu uma fungada no inalador, a fim de reforçar seu otimismo. Imediatamente seus olhos começaram a brilhar. Levantou-se e andou rapidamente de um lado para outro, espalhando espuma por todos os lados. - Maldita sinusite - queixou-se. - Eu devia mais é passar uns três dias no campo, respirando ar puro... Quer ir comigo? Dawn sacudiu a cabeça. Não tinha a menor intenção de viajar com Cantor. Felizmente a benzedrina despertava nele tamanha energia que nem sequer reagiu à recusa. - Ouça, é o papel do século! Se recusar, estará cometendo o maior erro de sua vida. - E se aceitar? - Você é quem estabelece o salário. Se der certo, sou eu quem vai acabar dirigindo não só o estúdio, mas a companhia inteira. Rasgarei seu contrato, seja ele qual for, e você imporá suas condições. Vai tornar-se a mulher mais famosa do mundo. - Julguei que fosse famosa, Myron. Afinal de contas, não é meu primeiro filme. - Eu sei, mas não é a mesma coisa - ele disse, sentandose perto dela. - Está bem, você era uma estrela na Inglaterra, e seus filmes foram muito bem aqui, mas, quando terminar mos, seu nome ficará sendo mais conhecido do que o do presidente da República. Na Inglaterra você podia andar pelas ruas, fazer compras, que ninguém prestava atenção. Aqui você vai ser assaltada pela multidão! Cantor estalou os dedos, inquieto, e fez um sinal ao barbeiro para que retirasse a toalha de seus ombros. - Acompanhe-me, Dawn. - Ele abriu a porta, e ela se viu num imenso banheiro, equipado com sauna e mesa de massagem. Cantor fechou a porta, sentou-se na privada e convidou a para fazer o mesmo na beirada da banheira. - Aqui podemos conversar à vontade. - Por quê? Temos algum assunto particular a - E você ainda duvida? Vamos investir quatro, cinco milhões de dólares, talvez mais, nesse filme. Caresse Carson é a por você acaba de ganhar. tratar? 426 heroína mais amada e admirada dos Estados Unidos desde Betsy Ross. - Quem foi Betsy Ross? - Foi ela quem costurou a primeira bandeira, usando a própria roupa de baixo. Quando eu era criança, vi um filme sobre ela. Ouça: já existem fá-clubes de Caresse, revistas em quadrinhos de Carson, concursos de beleza com candidatas parecidas com Caresse e, na cidade de Richmond, chegaram a batizar um ginásio com o nome dela. Quase foi votada a mulher do ano pelos leitores da revista Time. Sabem tudo a respeito dela, até mesmo as medidas do busto, da cintura e o número de sapatos que calça. Da mesma forma vão querer saber tudo a seu respeito, desde o tamanho do sutiã, até as notas que você ganhou no jardim-de-infância e onde nasceu. A imprensa vasculhará seu passado, à procura de sujeiras. Se formos trabalhar juntos, tenho de saber se eles vão encontrar alguma coisa. - Não sei o que você está insinuando - ela declarou com firmeza. Cantor olhou-a com impaciência e fortaleceu-se dando mais uma fungada no inalador. Em seguida jogou-o fora e abriu mais um tubo. - Essas merdas O que vamos dizer aos jornalistas? - Nasci na índia. Meus pais eram ingleses. Meu pai era um oficial, a serviço de um marajá. Morreu quando eu ainda era menina. Vim para a Inglaterra com uma parente, estudei teatro, tornei-me dançarina, contrariando a vontade da família. Conheci David. Dawn exprimia-se com absoluta convicção. Sob muitos aspectos o passado que fora inventado para ela se tornara mais real do que o verdadeiro. Acabara acreditando nessa versão. - A Índia pode ser um problema - declarou Cantor, pensativo. - Os americanos não são lá muito fanáticos pelas colônias inglesas. As pessoas acham que temos o direito de chicotear negros no sul, mas que os ingleses fazem muito mal de chicotear negros em suas colônias. - Cresci no meio dos indianos - afirmou Dawn, o que era a pura expressão da verdade, embora muito afastada do que Cantor esperava. - Igual a Kim, o personagem do filme tirado do romance de Kipling! - observou Cantor. Ficava sempre muito animado quando recorria a um filme para explicar o que queria. Cantor, alias, enxergava a vida em termos de cinema. O heroísmo, para ele, era personificado por Beau Geste, a amizade por Os quatro cavaleiros do Apocalipse, e Stella Dallas encarnava a maternida não funcionam - queixou-se. - E daí? 427 de. Os filmes explicavam tudo e acabavam por tornar-se tudo. A infância de Dawn na índia evocou para ele os filmes O menino elefante, Gunga Din e As vidas de um lanceiro de Bengala. - Você costumava andar de elefante? - perguntou. - Não muito - disse Dawn, fazendo o possível para não cair na risada. - O Taj Mahal, o Raj, os encantadores de serpentes... nada mau! Quem sabe isso dá alguma coisa? Cantor fechou os olhos e tentou imaginar a campanha de publicidade. Logo seu entusiasmo diminuiu. A Índia era exótica, sem dúvida, mas não seria exótica demais? - Muito bem. Faremos alguns testes. - Eu não passo por testes. - Mas todo mundo faz testes, pelo amor de Deus! Você sabe disso. - Pois eu, não. já fui testada. Você assistiu a meus filmes. Para sua grande supresa, Cantor não demonstrou raiva. Ao contrário, parecia ter ficado bem impressionado. - Está bem, você ganhou! Provavelmente seria perda de tempo. Além do mais, podemos divulgar que você era tão perfeita para o papel que não foi preciso fazer testes. Descobrimos Caresse! Para que testar? - Ele fez uma pausa, vasculhando o bolso, à procura do inalador. - Tem apenas um pequeno problema. Você precisa conversar com Marty. - Eu? E para quê? - Porque está no seu dirá não. Dawn acabou concordando, embora não tiva muito animadora. - Até que ponto Marty é contrário? - Mezzo-mezzo, comme ci, comme ça. vencido, mas não por mim. De repente os olhos de Cantor ficaram vidrados, e Dawn teve a impressão de que ele iria desmaiar. Recuperou-se logo e imediatamente mudou de assunto. - Eu a convidei para passar uns dias no campo comigo? - Sim, e eu recusei, Myron. - É mesmo? Esqueci... De vez em quando me dá um branco. Talvez você tenha razão. De qualquer modo não posso viajar. Tenho muito que fazer, e Shirley haveria de querer ir junto... - Cantor suspirou. - Você deveria ter ido encontrar-me no hotel Claridge... Juntos, teríamos feito muita coisa... Nesses assuntos eu nunca me engano. Dawn decidiu que estava na hora de contrato. Se eu for procurá-lo, ele achasse a perspec Ele pode ser con retirar-se. 428 - Não duvido, Myron - ela disse com muita cautela. Não tinha sentido agredi-lo naquele momento. - Agora, porém, você é um homem casado, eu enviuvei. É um desses assuntos que só cabem na imaginação. Talvez seja melhor assim. - Melhor coisa nenhuma! Há quanto tempo Konig morreu? - Três meses, mais ou menos - disse Dawn, intrigada. Cantor cheirou o inalador, tirando em seguida os óculos, como um homem que se prepara para uma briga. Ajoelhou-se diante dela e abraçou-a, tentando obrigá-la a fazer o mesmo. - Você quer, tanto quanto eu! - ele murmurou, com a voz carregada de desejo. - Eu percebi já em Londres! Dawn não só levou um susto como sentiu medo de perder o equilíbrio e cair de costas dentro da banheira. Corria o risco de fraturar a espinha. Pareceu-lhe mais seguro cair para a fren te, mesmo que isso significasse ter de lutar com Cantor no chão. Sentiu que ele tentava abrir o fecho de seu vestido. Ele se debatia e fazia o possível para ficar em cima dela. - Você e eu fomos feitos um para o outro - ele disse com voz supostamente sensual, escolhendo inconscientemente uma frase de algum filme, como sempre fazia nos momentos importantes ou de paixão. Dawn conseguiu, porém, defender-se e o repeliu. Para seu espanto, ele simplesmente se deitou no tapete do banheiro e ficou de costas, com os olhos fechados. Dawn desconfiou de uma armadilha. Começou a levantarse com a maior cautela, e ele se pôs a roncar. Seu peito se erguia e abaixava. Cantor dormia profundamente. Ela ajeitou o vestido o melhor que pôde, embora nada pudesse fazer em relação à meia desfiada ou ao fecho arrebentado. Saiu do banheiro, deixando Cantor entregue a seus sonhos. Decidiu que ela e aquele sujeito precisariam chegar a um acordo. Ainda queria fazer o filme. - Você, para mim, é uma verdadeira filha - afirmou Braveman, afastando-se de sua monstruosa mesa. Sua expressão era pesarosa, como se a paternidade fosse um fardo pesado. Colocou uma mão sobre o coração. - E, se fosse minha filha de verdade, eu diria: "Não faça isso, meu bem!" - Você deixou sua filha casar-se com ele. - Não é que eu tenha algo contra Myron. É um rapaz esplêndido, é meu genro! Penso nele como um filho, mas está indo rápido demais. Primeiro precisaria aprender a dirigir um estúdio. Ele quis produzir Chamas da paixão, e eu concordei, mas agora está arriscando sua vida inteira num único filme. 429 - Não acha que, justamente por isso, pode dar certo? Li o roteiro. É muito bom. - É comprido demais e eu disse isso a Myron, mas ele não me ouve. Aliás, não ouve ninguém. Esqueça o assunto, Dawn. Tenho dois ou três roteiros perfeitos para você. - Já os li. - E o que achou? - São bons, de fato, papel de Caresse, Marty. - Mas ela é americana, ora essa! - Não tem importância. Quem sabe como os americanos falavam no século dezoito? Provavelmente se pareciam muito com os ingleses, e eu posso modificar meu sotaque. O que interessa é apenas isto: Caresse é uma jovem cuja beleza lhe traz problemas e que tem de aprender a cuidar-se, enfrentando o que vier pela frente. Ama dois homens jovens e fortes, que são adversários. Embora não saiba, é mais forte do que os dois. É uma sobrevivente, Marty. - É assim que Myron enxerga a história? - Não. É o meu modo de ver. Dawn esperava que Marty explodisse de raiva, mas ele parecia distraído, como se estivesse pensando em outra coisa. Ele caminhou até a janela e pôs-se a contemplar as palmeiras. Voltou-se e aproximou-se dela, com uma expressão enigmarica. - Há quanto tempo David morreu? Ela ficou sem saber o que ia pela mente daquele homem. Esperava não ser atacada mais uma vez... - Uns três meses. Por quê? - Imagino que os advogados ainda estejam cuidando do inventário. - Sim, sim. É muito complicado. Por isso mesmo quero voltar a trabalhar. Já estou cansada de ficar em casa, conversando com eles todos os dias. - David deixou tudo para você? Dawn mostrou-se muito cautelosa. Será que Braveman sabia que a herança de David consistia basicamente em dívidas e problemas? Ela assumiu um ar de tristeza, como se o assunto fosse doloroso demais para abordar. Esperava que ele passasse para a próxima pergunta e revelasse o que tinha em mente. - David devia ter investimentos espalhados por aí. - Sim. Aqui e na Inglaterra, com toda a certeza. Só a King Films basta para manter os advogados ocupados durante meses. - Eles vão sugar todo o seu sangue, Dawn. Odeio esses mas 430 malditos advogados. Ouça, conheço mais a respeito de negócios do que os advogados. Se precisar, aconselhe-se comigo. - E muita generosidade de sua parte. - Disse e repito: para mim você é como uma filha. As ações de David, por exemplo. Não dê ouvidos a ninguém. Procure-me e eu lhe direi o que deve fazer, como se fosse seu próprio pai. - David não confiava muito no mercado de ações, Marty. Ele teve grandes prejuízos na grande crise de 1929. Perdeu milhões de dólares. - Eu sei. Ainda me lembro. Sigsbee Wolff disse a ele para se retirar do mercado, mas ele não lhe deu ouvidos. Muita gente fez o mesmo. Não, não era exatamente as ações que eu tinha em mente. David tinha uma coisinha aqui, uma coisinha lá... - Braveman demonstrava certos conhecimentos, o que não, deixava de ser alarmante. Num gesto paternal, deu um tapinha na mão dela e exibiu um sorriso de vencedor. - Não ouça os advogados - voltou a recomendar. - Venha direto a mim. Na realidade Dawn estava mais preocupada em saber o que Konig devia do que com o que ele possuía. O interesse súbito de Braveman deixou-a um pouco alarmada. Precisava descobrir o que havia por trás daquilo. Enquanto isso decidiu tirar vantagem da curiosidade dele. - Todo conselho que você afirmou com muita diplomacia. - Conte comigo. - Prometo que sim. ao filme, Marty... Ele abriu os braços, como se fizesse o gesto de abençoá-la. - Se quiser fazer, vá em frente. Apenas me procure, antes de tomar uma decisão. Quero que sejamos sócios, Dawn... - Ele deu uma piscadela, o que a deixou alarmada. - Entende o que quero dizer com isso, não? Ela não entendeu, mas estava decidida a descobrir. puder me dar será pouco - - Dawn fez uma pausa. - Quanto A decisão de Cantor, no sentido de contratar Dawn, não passava de uma jogada astuciosa. Aquele gesto haveria de tornarse parte da história do cinema. Ele alegaria que jamais a tinha visto, que Aaron Diamond a trouxera para visitar as locações, enquanto estavam filmando externas, e que, ao olhar para Dawn, murmurou: "Acabo de encontrar Caresse!" A versão acabou por tornar-se parte da lenda de Cantor, bem como da lenda de Diamond, embora, na versão deste último, ele tivesse dito a Cantor: "Cá está sua Caresse, Myron". 431 Sob a supervisão de Cantor, Dawn tornou-se rapidamente a mulher mais fotografada cios Estados Unidos. A revista Lzfè fez uma reportagem sobre süa nova casa de praia de Malibu. A capa trazia uma bela foto sua, à beira-mar, contemplando o horizonte. As extremidades de seu longo vestido de gaze eram agitadas pela brisa, como se ela estivesse a ponto de voar. A revista Togue enviou um de óeus melhores fotógrafos para fazer um ensaio fotográfico sobre Dawn. Para a Harpers Baxaar ela foi fotografada usando um sari dourado e diamantes, junto a um tigre de Bengala, no qual, aliás, haviam aplicado uma droga bem forte, para que o animal se comportasse... Seguindo a sugestão de Cantor, Dawn confiou a Hedda Hopper, a célebre colunista, dona da língua mais afiada de Hollywood, que o sonho de sua infância era vir para os Estados Uni dos. A Louella Parsons, outra c-olunista tão venenosa quanto Hedda, contou que ainda não tinha planos de voltar a casar-se. Sua infância como princesinha de contos de fadas na corte de um marajá cativou a imaginação do público, bem como a dos repórteres. Porém, como a índia era exótica, estranha e distante, ninguém conseguiu descobrir detalhes embaraçosos ou comprometedores. Ela comparecia diariamerfte ao estúdio, e a tarefa de filmar complicava-se com o fato de qüe Cantor parecia incapaz de fixarse num diretor ou num roteifo- Identificara-se a tal ponto com o filme que insistia em bombardear o diretor com os mais ínfimos detalhes. De hora em hora chegavam ao local de filmagem memorandos detalhados, nos quais Cantor elaborava as motivações dos personagens ou sugária modificações de última hora no diálogo. Roddy Lackrack desistiu depois de duas semanas. Zoltan Daranyi sucumbiu de exaustão e de raiva e teve de ser retirado do estúdio numa ampulância. James Chase de Witt sobreviveu quase um mês, mas a tensão era excessiva e, após freqüentar durante quinze anos os Alcoólatras Anônimos, foi encontrado às dez horas da manhã completamente bêbedo, num bar da Avenida Sepulveda. Como nenhum diretor dP primeira linha aceitasse participar de um filme que, em geral, era considerado um desastre em gestação, Cantor acabou por chamar Roger Aptgeld. - Mas ele não tem a rrlenor energia! - protestou Braveman. Cantor não ficou impressionado. Sabia que Aptgeld era um tanto inexpressivo, mas também muito profissional. Aceitaria todas as ordens de Cantor e dei?Karia as grandes decisões em suas mãos. Com Aptgeld o filme prosseguiu num ritmo bem mais suave. Dawn não sentia a menor dificuldade em trabalhar com ele, pois era um homem paciente, que falava baixo, um tanto receo so de suas responsabilidades. Além do mais, Cantor sabia exatamente o que desejava, o que tornou a tarefa de Dawn bem mais fácil. Cada noite ele a ensaiava em seu escritório, desempenhando os demais papéis, até ela começar a sentir que era Caresse. Até mesmo Cantor acabou ficando satisfeito, embora se queixasse, de vez em quando, de que ela parecia não fotografar tão bem como nos primeiros filmes. Ainda assim, a diferença era mínima, e ela fotografava muito melhor do que qualquer estrela de Hollywood, conforme fez questão de observar com insolência. Cantor projetava os copiões repetidas vezes em seu auditório particular. Havia algo na beleza de Dawn que o desafiava e, ao mesmo tempo, assustava. Os olhos grandes e escuros naquele ros to de uma oval perfeita refletiam exatamente o que ele estava pensando, quando olhava para ela, e não devolviam nada além de uma expressão de divertimento irônico, como se Dawn lhe dissesse que ele não fazia parte de seu time. Toda vez que ele aproximava seu joelho do dela, Dawn sorria e afastava a perna. Após um dia inteiro de filmagem, Cantor mandava levá-la em casa em sua limusine. O motorista o deixava em sua residência de Bel Air e, em seguida, descia o Sunset Boulevard, levando-a até Malibu. Cantor rezava toda noite para que Shirley já estivesse dormindo, de tal modo que pudesse tomar um sonífero, ditar alguns memorandos em seu estúdio e, em seguida, deitar-se si lenciosamente quando a pílula começasse a fazer efeito. Shirley, porém, era de uma resistência a toda prova. A maior parte das noites ficava acordada, recostada nos travesseiros de cetim azulclaro, na grande cama do casal, lendo um livro. Há muitos anos sua mãe lhe dissera que a melhor maneira de manter um casamento era dar a um homem aquilo que ele queria, e todos desejavam a mesma coisa. Cantor, por mais cansado e indisposto que estivesse, era invariavelmente obrigado a dar um show de ardor, quando ia deitar-se. Não tinha a menor ilusão de que estivesse proporcio nando prazer a Shirley, mas era o que se esperava dele e procurava caprichar. Se não o fizesse, precisaria dar explicações. Descobrira que pensar em Dawn sempre funcionava. Fechava os olhos e via seu rosto, a cintura delgada, as pernas compridas. Daí a pouco tinha uma potente ereção. Se pensasse nela 433 432 despindo-se e imaginasse as nádegas macias e redondas, o chumaço negro de pêlos entre suas pernas, os seios pequeninos e firmes, conseguia gozar dentro de um ou dois minutos, de tal modo que pudesse virar para o outro lado e ficar em paz. Algumas vezes dizia a si mesmo que tinha tudo que um homem precisava. Só não tinha o que mais queria. - O que acha de Dick Beaumont? - perguntou Cantor, sentado na limusine, ao lado de Dawn. A noite o carro sempre estacionava na entrada secreta de seu escritório, de tal forma que ele pudesse retirar-se sem ter de passar pela sala de espera. Seus assistentes seguiam-no correndo até o carro, enquanto Cantor lhes ditava as ultimas instruções. De vez em quando sua secretária corria ao lado do carro que partia, jogando bilhetes e cartas pela janela, como se fossem confetes num casamento. - Dick Beaumont é um grande ator - declarou Dawn. - Pois é. Queria que a Metro me cedesse Gable, mas o sacana do Louis B. Mayer recusou... - Cantor leu alguns bilhetes e os amassou. Sua energia frenética sempre acabava deixando Dawn nervosa. - Ouvi dizer que o casamento de Beaumont está indo de mal a pior. - Mas isso não afeta sua atuação. Além do mais, parece que ele virou uma página de sua vida. Está passando mais tempo em casa. Era verdade, pensou Dawn. Beaumont representava o papel do marido dedicado, após a tentativa de suicídio de Cynthia. Sendo o ator que era, conseguia convencer todo mundo, exceção de sua mulher. - Você se sentiria à vontade trabalhando com ele? - Sempre me sinto à vontade com Dickie. Colaboramos há muito tempo. - Por acaso você e ele... - Cantor deu uma piscada confidencial e grotesca. - Não. - Só estou perguntando. - Era o máximo que ele conseguia dizer, à guisa de desculpa. Pediu perdão pela cena do banheiro enviando a Dawn flores e champanhe. Ela adivinhou que Cantor não sentia tanta vergonha por tê-la atacado quanto por não ter levado o ataque até o fim. Agora nunca perdia a oportunidade de lhe dizer o quanto se sentia cansado. Tinha adquirido o hábito de lhe fazer confidências. Adotava uma atitude muito confiante, como se, na realidade, existisse entre eles um relacionamento. - Meu Deus, como estou cansado - disse, afundando-se no banco e pondo um dedo no joelho de Dawn, como se esperasse que ela o consolasse. com 434 - Você deveria repousar. - Acho que me sentiria entediado. Este negócio de cinema é uma loucura. Braveman convoca reunião da diretoria a cada cinco minutos. Que merda! Ele é incapaz de fazer um filme para salvar o estúdio, mas pelo menos podia se importar com o que está acontecendo... - Qual é o problema? - O problema é que não tenho tempo de comparecer às tais reuniões. Metade da diretoria é de velhos vagabundos, que não fazem outra coisa a não ser bundar no clube o dia inteiro. São os coleguinhas de Marty, que fazem sauna com ele. O resto são banqueiros, pagos para estar lá... O que seu marido fez com as ações dele? - Que ações? - Agora Dawn prestava atenção. - Ele andou comprando ações como um louco, junto com Sigsbee Wolff. - Não sei muito a respeito desses assuntos - ela disse, fingindo um desinteresse que estava muito longe de sentir. - Ele, de fato, comprava muitas ações e passava horas ao telefone, adquirindo-as e vendendo-as. Presumo que não reste mais nenhuma. - Provavelmente você tem razão. Não vejo um cara como Konig investindo dinheiro a troco de nada. Os inventariantes não encontraram nada? - Ainda estão tentando descobrir quantas companhias David possuía. Por quê? - Ela agora estava muito alerta, mas Cantor, pelo visto, não se dispunha a prosseguir com o assunto. - Por nada... Provavelmente trata-se de algum engano. Marty pôs tantos parentes na companhia que ninguém consegue encontrar nada. - Cantor mudou rapidamente de assunto. - O que eu preciso é de um assistente em quem possa confiar, alguém de fora, que não deva absolutamente nada a Marty. - Deve existir alguém, Myron. - É... Meu problema é que estou procurando alguém honesto e leal. A limusine seguiu pela alameda da casa de Cantor, entre renques de palmeiras. Ele ergueu os olhos e notou que a luz do quarto de Shirley ainda estava acesa. Suspirou, aproximou-se ainda mais e pousou a mão no joelho de Dawn, desta vez com mais firmeza. Um leve cheiro de charuto pairou entre eles, levando Dawn a recordar-se de David e de seus amigos, dos jantares que não acabavam mais, das conversas sobre dinheiro, negócios e política, que se prolongavam noite adentro. Por um momento ela experimentou uma terrível sensação de solidão, como se estivesse desperdiçando sua vida. Gostaria de estar em 435 qualquer outro lugar que não fosse aquela limusine, com Myron Cantor respirando bem junto a seu pescoço. - Dê-me mais uma oportunidade - ele murmurou. - Aqui não, Myron, por favor! - ela disse, indicando o motorista. - Além do mais, sou viúva! E estacionamos bem na frente de sua casa. Até mesmo Cantor conseguia perceber a lógica daquela observação, e recuou ligeiramente. - Ouça, posso esperar. De nada adianta apressar as coisas... - Antes mesmo que Dawn pudesse dizer que de nada adiantava esperar, ele a beijou, abriu a porta do carro e retirou se rapidamente. Logo em seguida enfiou a cabeça pela janela. - Não sou o tipo do cara que você está imaginando. Entendo e respeito a dor. Não acho que você deveria guardar luto por muito tempo, mas prossiga, prossiga, enquanto achar que deve. Eu fico esperando. Sou um sujeito muito paciente, quando é preciso. - Myron... É muita gentileza perdendo tempo. Dawn ergueu o vidro do carro, lha de recuar ou ser guilhotinado. Ainda assim se sentia grata a ele, pensou, enquanto o carro afastava-se lentamente. Seria possível que David tivesse morrido conservando as ações da Empire Pictures? Parecia-lhe pouco pro vável, mas claro que era possível, sobretudo ao se levar em conta a complexidade de seus negócios. A resposta, sem dúvida, estava nos arquivos e pastas. Existia uma pessoa que estava a par de tudo. Dawn decidiu pedir a Aaron Diamond para localizá-la. de sua parte, mas você está oferecendo a Cantor a 436 17 No terraço banhado de sol da casa de praia de Dawn, Kraus era uma figura ridícula, até mesmo para os padrões de Hollywood. O rosto magro, semelhante ao de uma doninha, não ha via mudado, e ele estava branquela como nunca, mas tinha feito várias concessões ao clima e aos costumes locais. Calçava sandálias, usava um chapéu panamá e tinha trocado o austero paletó de corte europeu por um paletó de linho branco com botões de madrepérola. Parecia nervoso. - Tem certeza de que não quer beber nada? - perguntou Dawn. - É muita gentileza. Talvez - O que` anda fazendo? - Desde a morte de Sir David? hotéis e cassinos. - Está trabalhando para Dominick Vale, não é - perguntou Dawn, lançando-lhe um olhar severo. - Bem, a gente precisa comer - disse Kraus, enxugando o suor da testa. - Não entendo _por quê, Kraus. - Dawn tomou um gole de chá. - Assim que David teve problemas, você fugiu como um rato que abandona o navio. - Sim, reconheço. Fiquei aterrorizado. Primeiro Sigsbee, em seguida Konig... Bem, todos nós cometemos erros, até mesmo Sir David. Sei por que mandou chamar-me. Ouça-me, por favor. Existe alguma preocupação na Empire Pictures em relação às ações? - Talvez. O que há com esquecê-la! - É uma baleia encalhada na praia... Trata-se de um grande estúdio, com enormes possibilidades e uma direção fraca, com exceção de Cantor. Suas ações estão desvalorizadas. A mar gem de controle de Braveman é mínima. Ele consegue dominar a companhia pondo seus cupinchas na diretoria e deixando-os um copo de água... Programando showc para mesmo? a Empire? Ninguém consegue 437 saqueá-la. - Kraus prosseguiu, com entusiasmo cada vez maior. - Uma vez distribuídas as ações, é possível alguém assumir o controle de um grande estúdio mediante um investimento relativamente pequeno. Basta livrar-se de uma parte do ativo, aquela de que não se tem necessidade, e o sujeito torna-se dono de tudo, sem gastar quase nada! Em seguida é só agir com a cabeça, o que não é nada difícil. Os Estados Unidos acabarão entrando na guerra, mais dia, menos dia. E o que as pessoas fazem em tempo de guerra? - Matam-se, imagino - disse Dawn com impaciência. - Não sei o que uma coisa tem a ver com a outra. - Na Europa eles se matam, sim, mas não aqui. Aqui todo mundo tem necessidade de diversões, de escapismo, de algo que não os faça pensar na guerra. Então irão aos cinemas. O negócio duplicará. A Empire Pictures poderá tornar-se uma mina de ouro. - É o que David costumava dizer. - Claro! Sir David não era nenhum tolo. - Também costumava dizer que uma vez que alguém se tornasse dono da Empire, conseguiria ganhar uma fortuna, registrando o inventário das propriedades e o arquivo de filmes no ativo da companhia, embora as dívidas tenham sido canceladas há muitos anos. - Parabéns! A senhora aprendeu alguma coisa com ele. - Tudo isso me parece fascinante - declarou Dawn, bocejando e espreguiçando- se. - Devo tudo a Sir David - declarou Kraus. - Muitas vezes me pergunto: se ele ainda estivesse vivo, o que haveria de querer que eu fizesse? Acho que gostaria que eu fosse honesto com a senhora. - Muito provavelmente. E você - Tenho muitos problemas... - Como todos nós, Kraus. - Se o país entrar em guerra, existe a possibilidade de eu ser deportado ou mandado a um campo de concentração. - Creio que isso não acontecerá, Kraus. Ninguém que eu conheço pensa assim. - Espero que tenha razão. Quanto a mim, acho que vai acontecer, sim. Vale ofereceu-se para me ajudar com o Departamento de justiça, mas agora recuou e dá desculpas... - O que isso tem a ver comigo? - Preciso de alguém que me ajude a conseguir a cidadania americana. E preciso também de um emprego. A senhora pode fazer as duas coisas, ou então alguém na Empire. O que tenho em mente é uma troca, Lady Konig. pretende ser honesto? 438 - Troca de quê? - De informações, para início de conversa. - Kraus abriu a pasta, retirou um envelope recheado de papéis e o colocou no colo. - O que a senhora sabe a respeito dos interesses de Konig na Empire? Era a terceira vez que lhe faziam a mesma pergunta. Seus palpites estavam certos. Se Kraus sabia a resposta, não tinha sentido fingir que ignorava. - Que tal se você me disser? Afinal de contas, você esvaziou o arquivo de David. - Pareceu-me a atitude mais prudente - disse Kraus, enrubescendo. - Imagino que tenha oferecido toda a papelada a Vale. - Não foi bem assim. Apenas sugeri que sabia onde se encontrava. Foi o suficiente para ele me dar um emprego: Cheguei, porém, à conclusão de que Vale e eu não vamos conseguir nada. Creio que, a longo prazo, é mais garantido que os papéis fiquem com a senhora. - Kraus fez uma pausa e tomou um gole de água. - Sir David nunca fez nenhum comentário a respeito das ações? - Não. Na certa achava que eu não me interessaria ou até mesmo que não entenderia. Talvez julgasse que, para meu bem, era melhor eu não saber. - Coitado. "' desconfio que ele tinha razão. Lembra-se de que ele abriu uma firma para a senhora? - Sim, é claro, ele me explicou o motivo. Lembro-me de ter assinado os papéis. Ao mesmo tempo ele deu um jeito para que eu me tornasse cidadã americana... basicamente era um modo de eu pagar menos impostos. - É verdade. Isso aqui é muito comum. A Avalon Pictures Inc. possuía o direito exclusivo de usar seus serviços. Se a Empire tivesse feito um contrato com a senhora para realizar três filmes, enquanto Sir David ainda vivia, eles teriam de assinar com a Avalon Pictures e não com a senhora, pessoalmente. A senhora, claro, é acionista da Avalon Pictures. Sir David, de modo algum, facilitava a situação para seus credores. - Eu sei, mas de que adianta? O único bem da Avalon Pictures era minha pessoa. Tratava-se apenas de um meio de reduzir os impostos. - Não é bem assim. Sir David estava ansioso por se proteger. Creio que foi por isso que ele quis que a senhora assumisse a cidadania americana. Como sabe, ele tinha muitas obrigações. Pouco antes de morrer, transferiu suas ações da Empire para a Avalon Pictures. Sem dúvida se tratava de uma medida temporária, pois assim poderia alegar que não as possuía. De qualquer 439 modo, ele morreu antes que pudesse dar o próximo passo. Portanto, minha cara senhora, agora se tornou a única proprietária da Avalon Pictures, que, por sua vez, possui quase um milhão de ações da Empire... Dawn encarou Kraus, sem acreditar no que acabava de ouvir. - A senhora passa a ser um fator muito significativo nos negócios da Empire. Não possui ações suficientes para livrar-se de Braveman, mas quem quiser assumir a companhia terá de negociar com a senhora. - Percebo... Kraus colocou o envelope sobre a mesa, como alguém que põe as fichas sobre o pano verde, num jogo de roleta. - Estamos entendidos? - Você tem de provar o que afirma. Kraus abriu o envelope, tirou uma fotocópia e entregou-a a Dawn. Tinha vindo pata aquele encontro bem preparado. Ela olhou e reconheceu imediatamente a assinatura de Braveman. - Myron Cantor está à procura de um assistente de produção - disse, sem alterar o tom de voz. - Confesso que esperava coisa melhor. - É preciso começar de alguma maneira. Trabalhar para o chefe de produção da Empire é um bom início. - Dependendo do salário, etc., até que serve. Vou querer um contrato, é claro, e alguém terá de cuidar de meus problemas de imigração. Isso não deve ser nada difícil para um grande estúdio. - Entrarei em contato com você. - Sem dúvida. - Kraus inclinou-se, - Será um prazer voltar a trabalhar com velhos tempos... - Não, não será absolutamente como nos declarou Dawn, contemplando a fotocópia. sia. nos num gesto de cortesenhora, como a velhos tempos Aaron Diamond examinou bem de perto a fotocópia e fiem silêncio por alguns instantes, como um pequenino Buda. - Caí de quatro! - exclamou. - Isso me torna uma mulher rica? - perguntou Dawn. - Sim e não. Uma coisa é cena: você agora é uma mulher com muitos inimigos. - As ações devem valer um bocado de dinheiro. - Não sei quanto é que estão valendo hoje. Pedirei a minha secretária para verificar na Bolsa de Nova York, mas não deve ser muita coisa. Talvez três dólares, três dólares e meio por ação. As ações chegaram a dez ou onze dólares, quando cou 440 Sigsbee e seu marido estavam manobrando, mas muita gente se desfez delas. Subiram um pouco, graças à divulgação de Chamar da paixão, mas, enquanto Braveman for presidente, o preço não mudará muito. - Mesmo assim elas representam três milhões e meio de dólares. - Sim, mas, no momento em que você começar a vender uma parte significativa delas, o preço despenca. - Diamond pegou a fotocópia e examinou-a com uma expressão de aborre cimento. - Se quiser vender, terá de fazê-lo a Marty Braveman ou a um dos inimigos dele. É uma escolha difícil... - Braveman, com toda a certeza, deve saber que eu tenho essas ações, não? - Não. Se soubesse, já teria telefonado, fazendo uma oferta. Konig não voltou a registrar as ações, simplesmente declarou que pertenciam à Avalon Pictures. Tudo que Marty sabe é que fazem parte da herança de Konig. Ele provavelmente está esperando um telefonema do advogado ou do inventariante, quando o inventário estiver mais definido, se é que isso vai acontecer um dia. Há tantos litígios em torno das propriedades de Konig que Braveman já deve ter imaginado que talvez se passem alguns anos, antes que tudo seja resolvido. - E quando é que ele descobrirá? - Quando voltarmos a registrar as ações, acontecer... - E não será preciso? - Não. Podemos adiar durante algum tempo. Por que criar problemas, quando não precisamos deles? Mais cedo ou mais tarde alguém vai acabar investigando e descobrirá. Então vere mos o que interessa a eles. Ou você poderá partir para uma jogada diferente. - E como seria, Avaon? - Aconselho-a a agir a longo prazo. Um dia ainda poderá acabar sentada na cadeira de Marty Braveman... se é que isso vai - Os copiões me parecem bem bons - observou Cantor, guiando um jipe pelos terrenos do estúdio. - Há muito tempo que não filmo. - Ninguém diria. As cenas de amor estão ótimas. - Ele se voltou e sorriu para ela, quase atropelando uma multidão de extras, vestidos com trajes de batalha e carregando bandeiras e espadas. Não deixava de ser irônico, pensou Dawn, que sua grande cena em Chamas da paixão fosse o momento em que Caresse 441 Carson, olhando as chamas destruírem Alma, seu solar tão amado, encara a câmera e afirma: "O amor é tudo..." A frase havia inflamado a imaginação de milhões de leitores, a maior parte dos quais mulheres. Como Cantor achava que seu filme multimilionário dependeria do modo como as mulhe res reagiriam à frase, ele e Dawn a ensaiaram centenas de vezes. Aptgeld filmou a cena em close-up, a distância, com pouca iluminação, bem iluminada, mas Cantor não se satisfazia, angustiado como sempre. Sabia que milhões de mulheres se encolheriam tensas em suas cadeiras, prendendo a respiração, à espera daquela frase crucial. Se não gostassem do modo como Dawn a dizia ou do jeito como tinha sido filmada, estaria perdido. Cantor parou na pérgula do restaurante do estúdio e decidiu sentar-se a uma das mesas por alguns instantes. Dawn não teve alternativa a não ser esperar, pois seu vestido, com camadas e mais camadas de seda, tornava-lhe impossível descer do jipe sem a ajuda de Cantor. Arrependeu-se de não ter comido sozinha em seu camarim. - Devo-lhe muita coisa - declarou Cantor. - Como assim? - O tal de Kraus é um - Eu bem que disse. - Você tinha razão. - Ele foi ensinado por David. - David fez isso, David disse aquilo... é só o que de sua boca. - Cantor suspirou. - E você me livrou de Marty. - Foi bem fácil. - Eu é que sei... Ele está tão ocupado, tentando agarrar-se à presidência, que não tem tempo para me atrapalhar. Minha sogra acha que ele vai acabar tendo um colapso nervoso. Não seria uma surpresa. O pobre sujeito tem uma mulher rabugenta e uma amante ainda pior. Está num beco sem saída! - Ele se reconciliou com Estelle? - Na verdade é apenas uma trégua. Não há tiroteio, mas ninguém descarregou as armas... Iria está furiosa com ele, porque agora você é a grande estrela da Empire. E Estelle acha que merece umas tantas considerações, pelo fato de ter aceito Marty de volta. Shirley passa-me boletins diários. Ficou do lado da mãe, o que prova o quanto Freud se enganou em relação a pais e filhas. Bem, tal mãe, tal filha. Não são os tipos de mulheres que perdoam e esquecem. - Não existem muitas mulheres que ajam diferentemente, Myron. - É, talvez. Vamos comer. achado. ouço 442 Cantor desceu do jipe e ajudou Dawn a fazer o mesmo, pois ela se atrapalhava com o vestido comprido. Passou um braço em torno de sua cintura, para lhe dar apoio e, aproveitando se da proximidade, inclinou-se e beijou-a. Ela o estapeou com a mão enluvada, e ele se endireitou, com um sorriso de desculpa. De repente viu uma grande limusine passando em frente. No banco de trás, olhando Dawn com indisfarçado ódio, encontravam-se Estelle Braveman e sua filha. Cantor desafiava todas as convenções. A maior parte dos filmes obedecia a determinados esquemas. Ele, porém, ainda ficava filmando e refilmando, enquanto a película estava sendo montada. Fazia testes com finais diferentes e modificava a abertura. Tinha tantos interesses em jogo que não conseguia decidir-se. Cantor testava cada versão nova como se fosse um avião experimental. A rotina era sempre a mesma. Kraus escolhia um cinema em algum bairro de Los Angeles e anunciava uma "es tréia surpresa". A lotação da platéia estava garantida graças ao oferecimento de pratos grátis. Os pratos eram uma das obsessões de Cantor, pois atraíam gente mais velha, casais e mantinham as crianças a distância. - Todo mundo em Los Angeles estará comendo em pratos de vidro antes que este filme estréie para valer - resmungou Diamond para Dawn. Dawn sabia que os distribuidores aguardavam o filme com tremenda ansiedade, bem como Braveman, a diretoria da Empire e os exibidores. Cantor, porém, continuava, dia após dia, a cortar cenas inteiras e até mesmo a escrever novos diálogos. Enquanto isso as ações da Empire, cujo preço agora dependia do sucesso de um único filme, oscilavam diariamente na Bolsa de Valores. Seus preços tendiam a cair, graças aos boatos de que Chamas da paz'xao era uma verdadeira bomba, tão ruim que o estúdio não se dispunha a lançar o filme. Cantor insistiu para que Dawn estivesse presente no tine Pasadena, com sua platéia composta na maioria de famílias de classe média alta. Ela preferiu não discutir e conseguiu pelo me nos que Aaron Diamond a levasse. Sentar-se ao lado de Cantor, em sua limusine, era o mesmo que ficar junto a uma bomba de efeito retardado, visto o estado de ansiedade em que ele se encontrava: Há muito tempo Dawn não comparecia a um cinema, com exceção das estréias de gala. Era curioso notar como suas emo 443 ções de infância reviveram, quando ela viu a sala de espera com colunas egípcias douradas e palmeiras em vasos. - Quer pipoca? - ofereceu Diamond, mas a pipoca não fazia parte das experiências cinematográficas de Dawn. Fez-se súbito silêncio no momento em que ela entrou no cinema. Ouviu a platéia murmurar seu nome, e Dawn sorriu para todos, parando por um breve momento para que pudesse ser vista. Sentou-se, disposta a divertir-se, enquanto o grande órgão sumia no palco. As cortinas vermelhas e douradas, um tanto empoeiradas, se afastaram, mostrando a tela. Quando o nome dela foi projetado, na abertura do filme, ouviram-se aplausos. Ao chegar a vez do nome de Cantor ("Produção de Myron B. Cantor"), ouviram-se algumas vaias discre tas, sem dúvida devidas a algumas pessoas da Empire Pictures, que se aproveitavam do escuro para exprimir o que sentiam em relação a ele. A trilha sonora aumentou e o filme começou. Dawn contemplou o próprio rosto, ampliado centenas de vezes. A câmera recuou, mostrando-a de corpo inteiro, com um vestido do século dezoito, de seda e rendas, bem decotado. A câmera recuou ainda mais e agora ela era vista descendo a magnífica escadaria da mansão dos Carson. Todos os olhos se fixavam nela, enquanto parava na metade do caminho e contemplava a multidão. Seu olhar detectou Richard Beaumont, esplêndido em seu umforme vermelho e dourado de oficial britânico. A heroína prosseguia olhando e encarava agora um rapaz muito bonito, que usava um austero casaco preto. A expressão do rosto de Dawn tornou-se mais séria, a câmera partiu para um close-up e, graças a uma rápida mudança de expressão, ela indicou à platéia que existiam dois homens em sua vida. Dawn já assistira aos copiões, após ensaiar a cena repetidas vezes. Ela fora filmada e refilmada a partir de diferentes ângulos, e pelo menos umas vinte vezes. Dawn sabia de cor todas as tomadas e enquadramentos. Ver-se, porém, na tela de um cinema e fazendo parte da platéia era uma experiência muito diferente. Sentiu-se atraída pelo filme como se para ela fosse uma novidade e, ao mesmo tempo, notava que sua atuação era muito melhor do que esperava. A câmera captava sua beleza, mas ia mais fundo. Graças a um rápido olhar e, quase sem o menor esforço, ela transmitia uma certa astúcia, uma sugestão de duplicidade e malícia em seu caráter; apagava então essa sensação com um sorriso, ao chegar ao pé da escada. Não havia a menor dúvida de que proporcionara a Cantor exatamente aquilo que ele queria. Cabia ao resto do filme revelar se ele tinha sido ou não bem sucedido. 444 - Dinheiro em caixa! - murmurou Diamond. - Eles até que lhe estão pagando mal, garota. Na penumbra ela conseguiu distinguir Cantor e Kraus, debruçados sobre uma prancheta. Sem dúvida Cantor ainda ditava modificações, mas, à medida que o filme prosseguia, Dawn duvidava de que fossem necessárias. O filme resistia a tudo. Quando seu rosto preencheu a tela e ela murmurou, com um fundo musical que aumentava cada vez mais (precisava conversar com Cantor e pedir que ele diminuísse o som, na monta gem final), "O amor é tudo!", Dawn surpreendeu-se chorando, como todas as mulheres da platéia. Assim que as luzes se acenderam ela se voltou para Aaron Diamond e, para seu grande espanto, notou que ele também chorava. As lágrimas corriam por suas bochechas reluzentes, por detrás das lentes espessas de seus óculos. Dawn agora tinha plena certeza de que sucesso. Abraçou Cantor e o beijou. - Deixe o filme em paz, Myron! - Se o público gostar... mas há ainda milhares de coisas a consertar... - O público vai adorar. A platéia ficou no mais absoluto silêncio. David costumava dizer que não existe prova melhor. Se a platéia não, se mexe e aplaude no final, temos um sucesso pela frente! - Há umas duas cenas em que eu gostaria de mexer. - Não é preciso. Acho apenas que a música está muito alta no final e cobre minha fala. - Tome nota, Kraus. Sabe de uma coisa? Só mesmo uma estrela para fazer esse tipo de observação. Parabéns. Você é, de fato, uma estrela. - já era, Myron. - Mas não desse jeito, meu bem! E era verdade. Ela mal conseguia mexer-se na sala de espera, enquanto a platéia se aproximava, pedindo autógrafos ou simplesmente olhando. Sentia mãos tocando-lhe o vestido, acari ciando o casaco de pele, seu cabelo. Um homem colocou em suas mãos uma bíblia em miniatura. Uma mulher agarrou-a pelo braço, com uma expressão de êxtase, como alguém que venera um santuário. As pessoas começaram a se empurrar e a se acotovelar, forçando a passagem, a fim de poder vê-Ia melhor. Uma mulher tropeçou e caiu, gritando assustada. Ninguém a ajudou a levantar-se. Ela estava tão encurralada quanto a própria Dawn. Diamond sabia muito bem lidar com situações como aquela. Agarrou Dawn pelo braço e abriu caminho até a porta, onde o filme era um 445 os seguranças o auxiliaram. Lá fora, na calçada, a multidão era ainda maior, atraída por aqueles boatos misteriosos, que fazem com que os rãs estejam no lugar certo e na hora certa. Havia um oceano de rostos debaixo da marquise, e a multidão gritava: "Dawn, Dawn, Dawn". Duas fileiras de policiais truculentos formavam um corredor estreiro até o carro. - Sorria, acene e corra o mais rápido que puder - ordenou Diamond, e Dawn obedeceu. Somente quando entrou no carro é que percebeu que duas ou três pessoas tinham conseguido rasgar pedaços de seu vestido. Fechou os olhos e recostou a cabeça no assento. Havia algo em sua mão. Abriu os olhos e contemplou a minúscula bíblia. Na página de rosto uma mão insegura escrevera, com letras bem pequenas: "Arrepende-te, pois o dia do julgamento se aproxima". Passou a bíblia para Diamond, que a olhou com profundo desagrado. - Você sabe o que eu vou fazer? cando a bíblia no bolso. - Não tenho a menor idéia. - Vou comprar algumas ações providência que tomarei amanhã. - E minhas ações? - Guarde-as, pois elas vão subir. o filme estrear, haverá gente querendo assumir novamente o controle da Empire. Quando isso acontecer, você é quem ditará o preço. Afinal de contas, o estúdio lhe pertence, e nós faremos as jogadas certas. Ouça, você não está de caso com Cantor, está? A pergunta pegou Dawn desprevenida, pensando nas ações. - Pelo amor de Deus, não, Aaron! O que o leva a pensar semelhante coisa? Myron insiste em que eu durma com ele desde que nos conhecemos, mas é apenas uma de suas fantasias. - Você não pode censurá-lo... Quero dizer, até que é bastante normal, em se tratando apenas de uma fantasia... A única razão que me leva a perguntar é o fato de que Shirley Braveman e a mãe dela andam dizendo o diabo de você por aí. - Que bobagem! Acredite em mim, Myron não é meu tipo. - Se eu lhe contasse certas histórias, você ficaria muito surpreendida... Se as mulheres se prendessem apenas a seus tipos preferidos, ninguém iria para a cama. - Aaron, Shirley não tem o menor motivo para sentir ciúme de mim. De qualquer modo, minha vida particular só diz respeito a mim. - Claro, claro. Apenas acho que você deve tomar cuidado. Você viu aquela gentarada na sala de espera e na rua. Os fãs são loucos, mas podem tornar-se maldosos. Não se esqueça disso - perguntou ele, colo da Empire. É a primeira No momento em que 446 nunca. Darão seu nome a suas filhas, esperarão na chuva durante horas pára vê-Ia, mas basta um escândalo para que lhe virem as costas. E por isso que você tem uma cláusula de moralidade no seu contrato. - Como? Não a vi. - Ninguém vê, mas ela está lá. O estúdio pode cancelar o contrato se surgir algum problema moral. Não estou sugerindo que exista, mas não gosto de saber que Shirley e Estelle andam difamando-a por aí. - Myron tem uma queda por mim, mas é porque estamos trabalhando juntos. Isso passa, Aaron. Ele é um desses sujeitos que têm de estar sempre apaixonados por sua estrela. No próximo filme provavelmente será outra pessoa. - Talvez você tenha razão. Lembre-se, porém, de que é normal fazer inimigos no mundo do cinema, mas nunca torne as esposas inimigas, caso possa. Você está tendo ótima publici dade e isso é esplêndido, mas ficaria surpreendida se soubesse o quanto a coisa pode ir rapidamente noutra direção. - Aaron contemplou o Pacífico iluminado pelo luar, enquanto deixavam o Sunset Boulevard e seguiam pela estrada litorânea, em direção a Malibu. - Se você não tomar muito cuidado, podem liquidar com sua carreira. - Saberei cuidar-me, Aaron - ela declarou com firmeza. Sentiu um ressentimento súbito, não tanto contra Aaron, mas pelo fato de que uma fofoca imbecil poderia causar sérios danos a sua carreira, por mais falso que o comentário fosse. Resolveu, decidida, que não seria mais uma vítima. Assim que chegasse o momento apropriado, enfrentaria Braveman, falando de suas ações. Afinal de contas, só isso importava: saber que controle ela exercia sobre a Empire Pictures. Uma estrela era apenas alguém assalariado, independentemente do que ganhava. Uma acionista majoritária, porém, era alguém que se devia respeitar e temer. A chegada deles ao aeroporto de Richmond quase provocou um motim. A multidão que se apinhava na frente do cinema era tão grande que o governador convocou a Guarda Nacional, a fim de rodear o prédio. Durante alguns momentos a coisa chegou a entusiasmar, mas, depois, tornou-se assustadora. Dawn sentia que, por debaixo de toda aquela histeria, existia muita inveja. Quando criança vira suficientes multidões e motins na índia para saber que o estado de espírito da massa podia mudar de um momento para outro, transformando-se numa demons 447 tração de selvageria. Disse a si mesma que os americanos eram diferentes, mas, no fundo, duvidava. A experiência exerceu um efeito mais traumatizante sobre Richard Beaumont. As multidões o aterrorizavam. Precisava de pelo menos dois ou três drinques bem fortes, a fim de enfrentá la. O pior é que Cantor insistiu que Cynthia o acompanhasse. Não queria que nenhum escândalo estragasse a estréia, e os Beaumont compareceram, obedecendo a ordens rigorosas no sentido de fingir que eram um casal feliz. No caso de surgir algum problema, um enfermeiro da "casa de repouso", na qual Cynthia recuperou-se da tentativa de suicídio, os acompanhava, embora Cynthia fizesse questão absoluta de ignorá-lo. Dawn olhou para trás, no avião especialmente fretado, e notou que Cynthia dormia, o que não era nem um pouco surpreendente, levando em conta o número de pílulas que tomava. O jeito de Cynthia lidar com a tentativa de suicídio era simplesmente ignorar o que tinha acontecido. Não passara de um acidente, como, por exemplo, cair de um cavalo e, quanto menos atenção prestasse a isso, melhor. Recusava-se a tocar no assunto, até mesmo com Dawn, que tinha sérias dúvidas sobre a sensatez de Cynthia acompanhar o marido numa turnê exaustiva e aterrorizante. Ela não deixou de expor sua opinião. Quanto a Beaumont, seus nervos estavam tão retesados quanto as cordas de um piano, graças a uma combinação de culpa, ódio e medo, que ele procurava disfarçar. Dawn sabia muito bem que, fora do palco, ele era enigmático e sujeito a ataques de instabilidade. Sentia uma enorme necessidade de receber atenção, tanto na vida particular quanto no palco ou sob a luz dos refletores. Cynthia não se encontrava em posição de oferecê-la, e ele não a aceitaria de Cantor. Para surpresa geral, Cynthia resistiu muito bem à fadiga e ao cansaço da turnê, até melhor do que Beaumont. Talvez fosse devido às pílulas, pensou Dawn. Havia momentos em que se sentia contente por ficar a sós com Cynthia, que nada queria dela. De vez em quando Dawn surpreendia-se ao ver o quanto se preocupava com Cynthia. Tinha pouca experiência com amizade, sobretudo em se tratando de mulheres. Fazia o possível para não perder Cynthia de vista. Cynthia, por outro lado, passou a atuar como uma espécie de dama de companhia. Ficando perto de Dawn, dificultava as cantadas de Cantor, muito embora a atitude dele se modificas se. Com efeito, desde que saíram de Los Angeles, ele se tornou reservado e frio, como se remoesse a raiva que sentia por ter sido rejeitado. Aproximava-se dela sempre que havia repórteres por perto. Caso contrário, mantinha-se afastado. 448 - Estou sentindo-me podre - confidenciou certo dia, em tom de autocomiseração. - Sei que ninguém liga... Dawn decidiu desarmá-lo, se possível. Sabia muito bem o que perturbava Cantor, e era a última coisa que gostaria de discutir. - Não tem o menor sentido queixar-se das críticas, Myron. Pelo que tenho lido, são maravilhosas. - Não é por isso que estou sentindo-me podre, e você bem sabe. Você anda me esnobando desde que deixamos Los Angeles e até mesmo antes. - É que você anda num estado de ânimo insuportável... - Mas é exatamente por isso! Estou ficando louco. Ficamos no mesmo hotel, mas, quando apareço na sua suíte, quem me surge pela frente? Cynthia, ora essa! O que quero dizer é que tenho coração. Pelo menos vamos conversar. Dawn percebeu que Cantor, cuja paciência, pelo visto, se esgotara, conseguira cercá-la, daquela vez. Não conseguiria retirarse, pois ele, sem ser convidado, sentara-se ao lado dela, no assento do avião que dava para o corredor. Será que valeria a pena apertar o botão moça, pedindo-lhe um café? Dawn desistiu, Cantor ainda mais zangado. - Myron, para o bem de nós dois, esquecesse desse assunto. - Não me ameace. - Não estou ameaçando - ela disse, com um suspiro. - Simplesmente estou procurando fazê-lo entender de uma vez por todas que não teremos nenhum caso... - Em Londres você me desejou. Eu percebi. Qual é o problema? Agora que é uma estrela e uma lady, acha que é boa demais para mim? - Não se trata absolutamente disso. - Qual é? Não foi o que você sentiu, lá no - Myron, ouça. Você me atacou em seu o repeli. Logo em seguida você dormiu. - Não é do que eu me lembro. - Mas foi o que aconteceu. Você tem idéia do que Shirley e sua sogra andam espalhando a meu respeito? É culpa sua, Myron! Você anda por aí, fingindo que temos um caso, embora saiba que não é verdade. Acho sua atitude odiosa. Só digo uma coisa: se não me deixar em paz, vou procurar Shirley, quando voltar a Los Angeles, e contar-lhe a verdade. - Shirley que vá para o inferno. Posso cuidar dela, isso que a preocupa. e chamar a aeropois isso deixaria gostaria que você se meu escritório. banheiro e eu se é 449 - Duvido, Myron, e não é isso que me preocupa, não. Fale mais baixo, a menos que queira que todo mundo ouça nossa conversa. Cantor ficou muito vermelho. Detestava que lhe dissessem o que deveria fazer. Abaixou, porém, o tom de voz e aproximouse ainda mais de Dawn. - Sempre que vou para você. Isso está me matando. - Não quero saber, Myron. Cantor, agora que tinha feito o ração romântica, não parou mais. - E não é só com Shirley, não! Toda vez que transo com uma mulher, é com você que sonho transar! Sabe lá o que é isso? - Não... - É um verdadeiro inferno. Acho que estou apaixonado por você. - Ele se exprimia como se estivesse padecendo de uma doença rara e fatal. A aeromoça aproximou-se. - Vamos aterrissar, sr. Cantor. Não querem apertar o cinto? Cantor ficou rubro de cólera. - Estamos conversando, porra! - berrou. - Como ousa interromper? - Estou apenas pedindo que apertem os cintos. - Aluguei este avião fodido, com tripulação e tudo. Você trabalha para mim! Não tenho de apertar o cinto se não sentir vontade. - Como o senhor quiser - disse a aeromoça com uma expressão de desprezo. Dawn apertou seu cinto ostensivamente, para mostrar de que lado estava. - Não gosto de ser pressionado por ninguém! - explicou Cantor enquanto o avião aterrissava, de encontro à multidão. - Eu também não - disse Dawn com firmeza. Ele se levantou, ignorando sua observação, bem como o aviso da aeromoça, que recomendara a todos os passageiros permanecerem sentados até o avião parar. - Ninguém diz não a Myron Cantor - ele resmungou. Olhou para trás e franziu o cenho. - Acho melhor você ir conversar com Cynthia. Ela está com cara de quem andou bebendo. Onde será que conseguiu bebida? Este sacana do enfermeiro está sendo pago para ficar de olho nela. Dawn sabia a resposta. Os vidros de perfume de Cynthia estavam repletos de bebida. - Vá ajudá-la - ordenou Cantor, acendendo um charuto, apesar do olhar furibundo da aeromoça. - Se existe uma coisa que não quero é escândalo. nos a cama com Shirley, que considerava penso em uma decla 450 Cantor alugara o principal salão de baile do hotel Plaza, mas, assustado com a possibilidade de não conseguir enchê-lo, enviou o dobro de convites. O resultado foi que era quase im possível mover-se ou respirar. Numa das extremidades do enorme salão, Dawn, Beaumont e Cynthia estavam ao lado de Cantor, diante de um grupo afobado de fotógrafos e repórteres, enquanto Kraus, com a ajuda do pessoal do hotel e dos publicitários do estúdio, tentava manter os convidados afastados das estrelas. Quando a imprensa partiu já era uma da manhã. A essa altura os sedativos que Cynthia tomara já não faziam mais efeito. Surgia de vez em quando no meio da multidão de convida dos que giravam em torno de Dawn e Cantor. Dançava com homens a quem não conhecia e, finalmente, com um dos garçons, apertando muito seu corpo de encontro ao dele. Dawn experimentou um súbito sentimento de culpa por tê-la perdido de vista. - Onde é que Beaumont se meteu? - resmungou Cantor. - Estamos com um problema. - Creio que Dickie não terá condições de resolvê-lo. - Ora, vocês, ingleses! Temos de dar um jeito de tirá-la daqui. - Acho que ela faria uma cena, Myron. - Já está fazendo. Essa é muito boa. Está praticamente fazendo aquele cara gozar diante de metade de Nova York. E onde foi parar o maldito enfermeiro? - Você mesmo decidiu que ela não iria precisar dele hoje à noite, Myron. - Pois eu devia estar completamente panaca. Vou pedir para ela dançar comigo e então levo-a até a porta. Espere-me lá. Em seguida a gente a leva para a cama. Cantor, quando seus interesses estavam em jogo, era um homem de ação. Levou apenas dois minutos até chegar onde estavam Cynthia e o garçom, a quem deu uma nota de cem dólares. Tomou o lugar dele, apertando Cynthia de encontro a si. Empurrou-a através da multidão, como se ela fosse um refém e, ao chegar à porta, pegou-a por um braço, enquanto Dawn a tomava pelo outro. Os dois quase a arrastaram para o corredor. Um homem de smoking seguiu-os até a recepção. - Estão com algum problema? - perguntou. Tinha o rosto rechonchudo e pálido de um gerente de hotel e os olhos tristes e escuros de um homem que já viu muita coisa e não gostou nem um pouco do que contemplou. Cantor entregoulhe mais uma nota de cem dólares. 451 - Queremos levar esta senhora para o quarto dela sem chamar a atenção. Ela não está sentindo-se bem. - Sigam-me - disse o homem. Ele abriu uma porta de serviço e chamou o elevador. Quando este chegou, deu uma nota de dez dólares ao ascensorista, indicando com um gesto de cabeça que a gorjeta era oferta de Cantor. - Que andar? - Vigésimo - indicou Cantor. - Tire suas patas de mim - ordenou Cynthia. - Essas coisas acontecem o tempo todo nos hotéis - disse o homem, filosoficamente. - Vá à merda! - exclamou Cynthia. O elevador parou com um pequeno solavanco. - Chegamos - disse o funcionário do hotel. - Obrigado, Harry. - Seguiu Cantor até a suíte dos Beaumont e apalpou os bolsos. - Ora essa! Estou sem a chave mestra. - Podemos entrar por minha suíte - sugeriu Dawn. Ela abriu a porta enquanto os dois a seguiam, amparando Cynthia. Dawn abriu a porta que se comunicava com a suíte dos Beau mont, e Cynthia entrou aos tropeções. Parou por um breve instante, como se estivesse grudada ao chão, e começou a gritar. Na cama, mal iluminada pela luz mortiça do abajur, Richard Beaumont estava deitado de bruços, inteiramente nu, a não ser por um par de meias de seda pretas. Em cima dele, com o rosto contraído de prazer ou dor, estava o enfermeiro de Cynthia. O grito foi seguido por um silêncio - Meu Deus! - balbuciou Cantor. mortal. - Talvez sim, talvez não. Poderia pelo menos insinuar. Cantor suspirou e jogou o maço de notas para o homem, sem contá-lo. Dawn voltou ao banheiro e tentou abrir a porta. Estava fechada. Chamou Cynthia, mas não houve resposta. Bateu então com toda a força. Cantor e o funcionário surgiram, ao ouvir o barulho. - Ela se trancou - disse Dawn. - Abra logo esta maldita porta, meu bem! - disse Cantor, batendo furiosamente. Vendo que isso não fazia o menor efeito, encostou a boca na fechadura e usou um tom de quase súplica. - Por favor, abra, menina. Estamos aqui para ajudá-la. - Não se ouviu a menor resposta. - Caralho! - ele resmungou, endireitando-se. - Posso conseguir uma chave mestra - disse o funcionário. Cantor consentiu. De repente se ouviu o barulho das sirenes da polícia, e Cantor ficou pálido como cera. Chutou a porta, recuou e avançou com o ombro, o que o fez gemer de dor. A porta ainda assim continuou fechada. Tirou então um cortador de unhas do bolso e o enfiou na fechadura, operando com a destreza de um homem que já tinha feito aquilo mais de uma vez. A porta finalmente se abriu, e ele entrou, seguido de Dawn. O banheiro, toda forrado de mármore branco, estava vazio. Dawn rezou para que houvesse outra porta, mas em vão. A janela estava escancarada, e as cortinas, muito leves, eram agitadas pela brisa. Um dos sapatos de Cynthia, de seda azul-clara, estava no parapeito da janela. - Vou vomitar - disse Cynthia, sem se alterar. Dawn levou-a até o banheiro e voltou para sua suíte, Cantor e o funcionário do hotel conversavam. - Estamos com um problema - disse Cantor. - Sem dúvida - concordou o homem. - E até onde vai este problema? - É difícil dizer. Cantor tirou um maço de notas do bolso e nhentos dólares. O homem fingiu que não viu. - Vá logo dizendo quanto você quer! - Quanto é que o senhor tem aí? - Não seja ambicioso. Sabe que você pode ir - Posso também procurar Walter Winchell e contar o sr. Cantor. - Ele jamais publicaria. separou em cana? que onde qui - Ele quer vê-Ia imediatamente - disse Kraus. Seus olhos eram tão claros que o branco parecia mais escuro do que as pupilas. Estava com profundas olheiras. Dawn concluiu gize ela, provavelmente, não estava com aparência muito melhor. A única coisa que não tinha trazido a Nova York era um vestido preto. Começou o dia experimentan do às pressas um traje de luto, numa das lojas elegantes da cidade. Ainda bem que lá insistiram em que ela levasse um chapéu negro com véu. Ajudava-a a passar despercebida, pois havia repórteres em todos os cantos. Ela se viu obrigada a entrar no prédio da Empire Pictures pelos fundos e subiu até o escritório de Cantor, no décimo quinto andar, pelo elevador de serviço. - As notícias não poderiam ser piores. - Com efeito, a julgar pelo tom da voz de Myron... - Onde está Dickie? 453 452 - Pelo menos isso foi providenciado, graças a Deus. Partiu para a Inglaterra hoje de manhã bem cedo. Vai alistar-se Real Força Aérea e ficará fora de circulação. - Kraus óculos e esfregou os olhos. - É melhor entrar. - Sente-se - disse Cantor. Um dos cantos de tremia ligeiramente. Alguns pequeninos arranhões dicavam que ele se cortara, ao barbear-se. Parecia prestes a desmoronar. - As coisas estão tão Dawn, tentando mostrar-se na tirou os boca sua no rosto inum homem mal assim, Myron? - perguntou solidária. - Estão, sim, e vão piorar muito mais. - Cynthia morreu. Nada mais importa. - Pois saiba que corre o boato de que ela se atirou pela janela por ter descoberto você e Dickie na cama. Dawn ergueu o véu e o contemplou, atônita. - Que coisa mais ridícula! - Ninguém sabia que ele era bicha. Cynthia pelo menos não sabia. Assim, esse boato tem mais sentido do que qualquer outro. Dawn precisou reconhecer que Cantor tinha razão. Sabia-se das tendências suicidas de Cynthia. O fato de ela ver sua melhor amiga na cama com o marido bastaria para levá-la a se matar. - Quem está espalhando o boato, Myron? - perguntou Dawn calmamente. Ocorreu-lhe que a iniciativa poderia ter partido do próprio Cantor. De seu ponto de vista, qualquer coisa era preferível a um escândalo homossexual envolvendo seu astro principal. - Não estou muito certo - ele disse, quebrando o lápis que segurava. - Deixe disso, Myron. Você sabe muito bem. Está na Foram seus auxiliares que inventaram isso? - Não. Por mais. estranho que pudesse parecer, tudo indicava que dizia a verdade. - O que aconteceu com o enfermeiro? - Dei-lhe dois mil dólares e disse a ele que desaparecesse. - Ah, sei. O funcionário do hotel também desapareceu? - Sim, esta me pareceu a atitude mais sensata. - E Dickie encontra-se em algum lugar desconhecido da Inglaterra... Quer dizer então que é minha palavra contra... a de quem, Myron? Ele se levantou e foi até a janela. - Meu Deus, que modo de agir! Você acha que Cynthia tinha consciência do que lhe estava acontecendo, quando começou a despencar? ele cara. 454 - Não quero pensar no assunto, Myron. Fiz uma pergunta. - Está bem. Foi Shirley quem começou a espalhar o boato. Conversou com Louella Parsons e a esta altura Hollywood em peso deve estar comentando. Amanhã o país inteiro ficará sabendo. - É apenas um boato. Eu negarei. - Claro. Quanto mais você negar, mais as pessoas acreditarão que é verdade. - Ele se voltou para Dawn e encarou-a, com as mãos nos bolsos. - Olhe, para tudo há uma solução. Ordenarei a Shirley que cale a boca e farei até mesmo com que ela desminta a história. Tenho meios para isso. E, se eu não puder, o pai dela pode. Farei isso por você, mas somente se houver um pouquinho de compreensão entre nós... - Cantor acendeu um charuto e lançou-lhe um olhar astucioso. Dawn balançou a cabeça. Sentia-se disposta a fazer muitas coisas por sua carreira, mas dormir com Myron Cantor não era uma delas. Decidiu, porém, ganhar tempo. - Não é o melhor momento de se falar disso. A pobre Cynthia ainda nem esfriou no túmulo... - Ela ainda não está no túmulo, mas na funerária. Cantor aproximou-se e ficou parado ao lado dela, com os pés afastados, numa postura de lutador de boxe. Por um momento Dawn teve a sensação de que ele iria esmurrá-la. Levantouse rapidamente, mas ele se limitou a apontar-lhe o charuto. - Posso ajudá-la, mas, se eu ficar contra você, está perdida. Pense nisso. Não me obrigue a agir assim, garota. - Já lhe disse uma vez, Myron. Não gosto de ameaças. - Você escolheu enfrentar o sujeito errado, menina. Posso fazer com que você nunca mais trabalhe em Hollywood. - Ora, deixe-me em paz! Use ameaça com essas garotinhas que sonham em entrar para o cinema. Nenhuma cláusula de meu contrato reza que eu tenha de dormir com você. - Me dê um bom motivo para sua recusa - berrou Cantor. - Uma das razões, Myron, é que você é um sujeitinho feio, convencido e mandão. Além do mais, quando se trata de cama, acho que você provavelmente fala mais do que faz... Cantor pôs o charuto de lado e agarrou Dawn pelo pulso. Seus olhos fuzilavam de raiva, como os de um homem que acaba de receber uma pancada na cabeça. Ele a segurava com mais força do que Dawn esperava. Tentou desvencilhar-se, mas não conseguiu. Cantor aproximou o rosto do dela. Sabia que ele estava à beira da violência, mas, por estranho que fosse, não sentia medo. Há um, dois anos, talvez se assustasse, mas, agora, não mais. Tirou o charuto de Cantor 455 do cinzeiro e enfiou a ponta acesa no saco dele, com toda a força, mantendo-a lá. O efeito não foi imediato. Cantor estava tão entretido em decidir se bateria nela ou se a beijaria que se passaram vários segundos antes de ele notar o cheiro de roupa queimada. Mes mo então não reagiu, embora ficasse intrigado. Ao sentir a brasa, soltou um berro selvagem, enquanto o charuto queimava sua carne. Deu um salto para trás, soltando Dawn, e levou a mão ao saco, queimando-a, o que o levou a berrar ainda mais. Dawn contemplou a cena com a mais absoluta calma. Confiava em que o pênis de Cantor, por mais que lhe valesse, e obviamente significava muito para ele, a julgar por seu terror, não fora seriamente afetado. Ele se esforçava por dizer algo, mas era difícil entendê-lo, pois gemia e praguejava. Ela prestou atenção e percebeu a palavra "Socorro!" Pegou então um balde de gelo, na mesinha de bebidas, e esvaziou seu conteúdo no saco de Cantor. Ele deu mais um berro e foi para trás da mesa. A julgar pela expressão de seu rosto, o terror dava lugar à humilhação. Dawn pegou a bolsa e caminhou em direção à porta. - Mandarei um cheque para você comprar uma calça nova, Myron. Será que cem dólares bastam? Cantor sentou-se, percebeu que iria estragar a cadeira nova, forrada de camurça e levantou-se, trêmulo. - Foda-se! Pode dizer adeus a Hollywood. Você tem uma cláusula de moralidade em seu contrato, e este boato é tudo de que eu preciso para suspendê-la. - Estou pouco me lixando, Myron. O Empire não é o único estúdio de Hollywood. - Não tenha tanta certeza assim. Você não conta mais com Konig para protegê-la. Não existirá um único estúdio que a quando eu acabar de liquidar você. Pode crer. Quanto mais cedo voltasse para Los Angeles, a fim de conversar com Diamond, melhor, decidiu Dawn. Retirou-se do escritório sem olhar para trás. - Encare o lado positivo da situação - recomendou Aaron Diamond ao telefone. - Muita gente já passou por escândalos bem piores e voltou a filmar. - Ele fez uma pausa e tossiu. - Só que com nome diferente, é claro - acrescentou, cautelosamente. Se a situação tinha de fato um lado positivo, Dawn não conseguiu perceber. Cynthia fora ignorada pela maior parte das pessoas de Hollywood enquanto vivia. Agora que estava morta, -456 era tratada como mártir. A história de sua morte assumiu vida própria. As pessoas embelezavam os detalhes, vangloriavam-se de conhecer alguém "que estava lá", juravam saber que Dawn e Dickie Beaumont vinham tendo um caso há meses... Ela estava mais do que decidida a reagir e lutar. Suas ações encontravam-se nas mãos de Aaron, e agora parecia ter chegado o momento de usá-las. Assim que desembarcou em Los Angeles ordenou a Diamond que localizasse o enfermeiro de Cynthia. Se ele podia ser subornado a fim de desaparecer, era quase certo que poderia ser pago para dizer a verdade ou, pelo menos, parte dela. - E, acho que vale a pena - concordou Diamond, mas, durante três dias, Dawn não teve nenhuma notícia relativa ao assunto. A casa permanecia rodeada de repórteres, e ela não conseguia sair sem que os flashes iluminassem seu rosto è sem que tivesse de enfrentar uma verdadeira bateria de perguntas. O pior não era a imprensa, mas os rãs que, conforme Diamond havia previsto, voltaram-se contra ela. O dia inteiro um pequeno grupo ficava diante de sua casa, fitando suas paredes caiadas, como o coro de um drama grego, à espera de que ela aparecesse. Um homem passava o dia do outro lado da estrada, segurando um cartaz que dizia: "Arrepende-te, pois a paga do pecado é a morte". Dawn, que encontrara em Los Angeles uma espécie de liberdade, agora se via encurralada em sua própria casa. Até mesmo os raros amigos que fizera no mundo do cinema mostravam-se ansiosos por manter distância. Por dentro a casa ficava na penumbra, porque as cortinas eram mantidas fechadas. As pessoas que passeavam pela praia paravam para bisbilhotar, e algumas chegavam a trazer binócu los. Dawn fitava-os com raiva por detrás do cortinado de gaze. Não se tratava de fás, mas de gente que morava em Malibu, gente de cinema, gente como ela, que invadia sua privacidade da mesma forma que o homem do outro lado da estrada, com seu cartaz agourento, ou os repórteres que a aguardavam no final da alameda. Na terceira noite,, quando o telefone tocou, ela o atendeu com certa relutância. A semelhança da maioria das estrelas, seu nome não constava das listas telefônicas, mas o número estava nas cadernetas de endereços e nas agendas de muitas secretárias do estúdio. Para seu grande alívio, Dawn ouviu a voz rouca de Diamond. - Consegui encontrar o rapaz, garota. Ele está no meu escritório. Vou mandar um carro apanhá-la. - Ele dirá a verdade? 457 - Talvez. Ele diz que você não estava na cama com Beaumont, mas recusa-se a revelar que quem estava era ele. Não se pode censurá-lo... - Bem, é um início. - Custará dez mil dólares, e - Pode pagar. - já paguei. Metade agora, metade quando ele versão ao público. - Estou indo para aí. - Ei, não faça isso! Mandarei um carro, que estacionará a umas duas quadras de distância. Ande pela praia, o motorista ficará esperando. Ninguém perceberá que você saiu de casa. Dawn sentiu de repente uma necessidade incontrolável de liberdade. já não suportava mais ser prisioneira na própria casa. - Não se incomode, Aaron. Estarei aí dentro de meia hora. Ela amarrou um lenço na cabeça, pôs os óculos escuros e foi até a garagem. Abriu a porta o mais silenciosamente que conseguiu e espiou a alameda mal iluminada. A distância, conseguiu distinguir a luz de vários cigarros. A imprensa ainda esperava, agora reduzida, sem dúvida, a alguns repórteres pacientes. Dawn não acendeu a luz da garagem. Cada vez mais excitada, entrou no conversível branco e ligou o motor. Tudo o que lhe restava fazer era limpar seu nome e lançar mão de suas ações. Mal conseguia esperar o momento de ver a expressão do rosto de Cantor, quando lhe comunicasse que era ele quem estava trabalhando para ela. Finalmente tinha todas as cartas na mão. O motor era muito silencioso, e o carro, sem dúvida, valia o dinheiro que David Konig pagara com certa relutância. O barulho do motor era pouco mais alto do que um murmúrio, abafado umcamente pelo ruído monótono das ondas que morriam na praia. Dawn não acendeu os faróis. Se algum repórter se pusesse a sua frente, ela estava decidida a atropelá-lo, do mesmo modo que Morgan passara por cima de um amotinado nas ruas de Calcutá, há muitos anos. Ela respirou fundo, mordeu o lábio, pisou nó acelerador e sentiu que o carro disparava pela alameda estreita, quase encostando nos muros. Ouviu gritos indignados, o flash de uma câmera brilhou, viu um homem em pânico jogar fora o cigarro, lutando para encarapitar-se no muro, pálido de medo. De repente a alameda ficou para trás. Aumentou a velocidade, obrigando os repórteres a procurarem abrigo. Quando deu por si já estava no caminho que levava à rodovia do Pacífico. Não pó ele não quer negociar. der a sua 458 de deixar de sorrir. Suas mãos tremiam, mas conseguiu manter o carro estável, a cento e vinte quilômetros por hora. Pela primeira vez em três dias Dawn sentiu o otimismo voltar. Enfrentaria os boatos de cabeça erguida e os reduziria a pó. Enfrentaria Marty Braveman com suas ações. Recusava-se a ser derrotada. Sentia no ar o cheiro de madressilvas e oleandros. O aroma sobrepunha-se ao cheiro da maresia, enquanto Dawn afastava-se do mar e chegava aos arredores de Santa Mônica. De repente surgiu um carro ao lado do seu. Um homem apareceu na janela de trás, com uma máquina. O flash cegou-a momentaneamente. Ela aumentou a velocidade, pois agora havia mais um carro atrás dela. Quando olhou pelo espelho, percebeu que pelo menos uns doze carros a seguiam. A imprensa agia. Dawn não era uma motorista muito confiante em si mesma, mas a raiva tornou-a audaciosa. Fez subitamente uma curva fechada, seguindo por uma rua residencial mal iluminada, sem diminuir a velocidade. Dobrou à esquerda, novamente à esquerda e logo saía no Sunset Boulevard, onde pisou para valer no acelerador. Não havia mais ninguém atrás dela. Subitamente viu os faróis de um carro que entrava no Sunset Boulevard e concluiu que pelo menos um repórter conseguira segui-Ia. Havia um cru zamento logo adiante e ela aumentou a velocidade, decidida a despistar seu último perseguidor. Entrou por uma rua lateral, olhou pelo espelho, prestou atenção no que estava adiante e viu, de repente, um carro bem velho andando lentamente pelo centro da rua. Seus faróis surpreenderam o rosto assustado de uma velha senhora de óculos, de cabelos rinçados de azul, com os olhos esbugalhados de medo. Antes que ela abrisse a boca para gritar, Dawn deu uma guinada para o lado, evitando o velho sedã por alguns centímetros. Agora ela estava mais calma, pois o medo eliminara toda a sua excitação. Decidiu guiar a sessenta por hora. A imprensa que fosse para o inferno! Quando, porém, pôs o pé no breque, o carro derrapou violentamente, subindo na calçada, descontrolado. Dawn agarrou a direção, que não lhe obedecia mais. Viu um gramado muito bem cuidado, a bicicleta de uma criança, um hidrante vermelho, iluminado pelos faróis dianteiros do con versível. O carro agora girava, como se estivesse em câmara lenta. Dawn viu uma palmeira a sua frente, surgindo de repente como se brotasse do chão, mas, antes de perceber que iria atingila, ouviu um barulho semelhante ao de milhares de pratos se 459 quebrando e sentiu no rosto algo parecido com gotas de chuva pontiagudas. Ouviu-se o barulho de alguém que gemia. Um pára-lama caiu no chão de concreto, e Dawn percebeu que seu rosto estava molhado. Surpreendeu-se, pois não notara que chovia. Teria si do por isso que o carro derrapara? A chuva era morna, até mesmo quente. Tudo aquilo era muito misterioso, e Dawn sentiu-se cansada, só de pensar no que acontecia. Apagou e, nos sonhos, ouviu gente falando baixinho e sentiu uma agulha entrar em seu bra ço. Ouvia o uivo das sirenes, abafado e, no entanto, alto demais. Sonhou que estava num quarto muito branco, com fileiras de lâmpadas potentes iluminando-a. Seria o cenário de algum filme? Viu formas estranhas, com trajes brancos, movimentando-se em meio a uma espécie de nevoeiro, e ouviu uma voz em contagem regressiva. Por que aquilo acontecia? Notou então o som áspero e ritmado de alguém que respirava profundamente e sentiu no rosto algo quente e pegajoso. "Meu Deus, que desastre", julgou ouvir alguém dizer. Era uma voz nada familiar, fantasmagórica, distante, muito distante, como se viesse de dentro da água. Acaso seria o dono do gramado que estragara? Tentou desculpar-se, mas as palavras não saíam, embora ouvisse alguém dizer: "Desculpe!" repetidas vezes, com uma voz tão débil e apagada que não conseguiu reconhecê-la. 460 18 Na clínica do dr. Echeverría os espelhos eram proibidos. Os pacientes só se olhavam quando o médico ordenava. Ele os fotografava antes de iniciar o tratamento, para que se lembras sem de sua aparência, quando chegasse o momento de pagar a conta. Quando julgava que chegara o momento de o paciente olhar o novo rosto que ele criara, o dr. Echeverría sempre organizava uma pequena cerimônia, tirando do espelho o véu que o cobria e em sua própria sala, como se estivesse apresentando um objeto de arte. Mal Dawn chegou à clínica do médico em Cuernavaca, foi levada a sua sala. Ele a saudou com profunda cortesia. Seus olhos eram tristes, escuros, pensativos, como se ele tivesse absor vido todo o sofrimento de seus pacientes. O rosto era todo desencontrado. O nariz parecia um fragmento pontiagudo de mármore, o queixo era forte e os lábios, muito sensuais. Tinha a cabeça grande, o peito e os ombros de um halterofilista, mas as mãos, num contraste surpreendente, eram compridas e finas. Eram mãos de violinista ou de pianista, com dedos longos, graciosos, e as unhas bem aparadas de um cirurgião. Ele se sentia vaidoso devido às mãos. Dawn percebeu o fato a partir do modo como ele as usava para se exprimir. De vez em quando baixava os olhos a fim de admirá-las, como se elas pertencessem a outra pessoa. Somente quando ele se levantou é que Dawn notou o que deveria ser evidente, assim que entrou no consultório. Echeverría era anão. A cabeça leonina e o torso atlético eram suportados pelas peminhas de uma criança, como se o artista que esculpira seu corpo não tivesse terminado a tarefa. Dawn talvez não tenha conseguido disfarçar o choque que experimentara, pois Echeverría sorriu. Tinha dentes esplêndidos, alvos, fortes, bem-feitos. - Quando comecei a fazer cirurgia plástica - explicou -, surgiram muitas críticas. A cirurgia era para salvar vidas, não 461 para o propósito banal de tornar as pessoas mais felizes ou mais bonitas. Um colega chegou a me dizer: "Não é tarefa da medicina modificar o que a natureza fez, por razões frívolas". - Echeverría riu. Tinha uma voz baixa e profunda. - Quem, melhor do que eu, sabe que nem sempre a natureza realiza suas tarefas de modo apropriado? Algumas vezes ela precisa de ajuda. Quanto aos problemas que o homem criou, esses são fáceis de corrigir. Bem... há quanto tempo aconteceu o acidente? - Um mês. Ela despertara de um sono tumultuado e vira Aaron Diamond sentado a seu lado, segurando-lhe a mão. Não sentia dor. Incomodava-a apenas a náusea provocada pelo clorofórmio com que a anestesiaram, e o súbito terror de perceber que seu rosto estava envolto por ataduras. Aaron deu-lhe um tapinha afetuoso na mão e garantiu que ela ficaria boa, mas seus olhos eram mais eloqüentes do que tudo. Não conseguia encará-la, enquanto falava. Contrariando os conselhos de todo mundo, Dawn insistiu em olhar seu rosto dois dias mais tarde, quando as ataduras foram trocadas. Contemplou durante um segundo aquela visão tão pouco familiar, no espelho que a enfermeira segurava, e ficou atordoada, tamanha a dor e o choque. Seu rosto estava coberto de cicatrizes lívidas, os lábios apresentavam-se negros e inchados, havia equimoses vermelhas em torno dos olhos. Ela os fechou e desde então nunca mais quis se ver. Echeverría ligou um conjunto de lâmpadas potentes, dirigiuas sobre Dawn e sentou-se num banquinho em frente a ela, aproximando-se o mais possível. Com muito jeito removeu o véu que lhe cobria o rosto e cortou as ataduras. Durante mais de um minuto ficou a observá-la e, em seguida, deslizou os dedos sobre seu rosto com um toque tão suave que ela mal o sentiu. - As ataduras foram trocadas todos os dias? Ela fez que sim. A enfermeira as removia diariamente, lavava seu rosto com uma solução salina e os cobria com novas ataduras. Dawn fechava os olhos, para não ter que ver a expres são da enfermeira. De modo algum desejava perceber uma expressão de piedade. Recusava-se terminantemente a receber visitas, a não ser as de Diamond. Não queria saber de nenhuma notícia. Nenhum comunicado foi feito à imprensa. Somente as pessoas mais íntimas sabiam o que tinha acontecido com seu rosto. Dawn refugiou-se na casa de Diamond, em Palm Springs. Parecia um animal ferido e ficava deitada em um quarto mergulhado na penumbra, imaginando se seria capaz de aparecer novamente em público. 462 - Tem lido os jornais? - perguntou Echeverría com um sorriso encorajador. Ela fez que não. seu rosto. - Você está provocando sensação! "Estrela desaparece misteriosamente", diz a manchete de um dos jornais. Metade da imprensa está a sua procura, e a outra metade inventa histórias a seu respeito. Você até que teve sorte. Seu rosto foi atingido por milhares de estilhaços de vidro. Não é exatamente um tratamento de beleza... - Eu já sei. Já o vi. - Ah, é inevitável. A curiosidade é natural. Mesmo quando a gente não quer saber, não consegue deixar de olhar. E o que foi que você viu? Dawn não respondeu. Na realidade vira o fim de tudo que representava algo para ela. - Você viu algo feio, onde antes existia uma grande beleza - disse Echeverría, respondendo à própria pergunta. - Bem, o processo de cura não é nada agradável. O que foi que os médicos de Los Angeles disseram? - Que eu tinha muita sorte por estar viva. - E verdade, embora os médicos sempre digam isso. Que mais? - Que 'eu ficaria com algumas cicatrizes permanentes. Dawn lembrava-se do cirurgião, um homem grandalhão, compassivo, jogador de golfe ou iatista nos fins de semana, a julgar pela aparência. - Não se preocupe, você ainda será uma mulher linda - ele dissera. - Talvez enfrente alguns problemas com os closeups, mas, afinal de contas, para que eles servem? Ela pedira sua opinião sobre a cirurgia plástica, mas ele apenas dera de ombros. - Acho melhor você viver com as cicatrizes. Acabará se acostumando com elas. Afinal de contas, ninguém é perfeito. Além do mais, a maioria dos cirurgiões plásticos são charlatões. - Cicatrizes permanentes! - exclamou Echeverría. - Bem, ele não teve o menor tato, mas, de certo modo, é verdade. Não podemos remover as cicatrizes da pele, mas podemos reduzi-Ias a ponto de se tornarem invisíveis. Só você e Deus saberão que elas estão lá. Eles lhe deram um atendimento de primeira no hospital, o que é uma grande vantagem. Se você fosse homem, eu simplesmente diria: "Vá para casa, não mexa nisso". Quase não se notarão os pontos, a não ser com uma iluminação muito forte. - Quero ficar exatamente como era. Queria ouvir a opinião do médico sobre 463 - Está procurando um milagre? É precisamente o que fazemos aqui. Devo preveni-Ia, porém, que o tratamento será demorado e doloroso. Existem certos riscos. Talvez você se arrependa de ter procurado a perfeição. - De modo algum. Foi para isso que vim até aqui. - Muito bem. Devo acrescentar que o tratamento sairá caro. Também não há garantia. - Não me importo com o preço. - Não quero que a senhora imagine que ajo motivado apenas pela cobiça. Afinal de contas, quem sabe o quanto valem meus serviços? Só mesmo o paciente pode julgar. Aqui, porém, proporcionamos um ambiente no qual os pacientes sentem-se em casa. A senhora ocupará uma suíte que dá para um belo jardim, terá uma empregada a sua disposição. Neste momento ela está tirando as roupas de suas malas. Disporá de um terraço só seu, de modo que não precisará ver os demais pacientes, caso não sinta vontade. Contamos com um cozinheiro de primeira, um cabeleireiro, uma manicure e até mesmo um estilista. Temos sauna, piscina aquecida, quadras de tênis, ginásio esportivo, um encarregado de regimes de emagrecimento, embora eu ache que a senhora não precisará dele. Tudo isso custa dinheiro. Quanto às ligações telefônicas, não posso fazer nada. São demoradas e ineficientes. Estamos no México. - Não vou receber muitos telefonemas. Somente meu advogado sabe que estou aqui. - E sob o nome de... - Srta. Kelley. - Asseguro-lhe que meus auxiliares são muito discretos. Para isso recebem um ótimo salário. Echeverría inclinou-se e voltou a examinar o rosto de Dawn, desta vez mais demoradamente. Retirou do bolso uma agulha comprida e fina, mergulhou-a num recipiente contendo líquido estenlizador e tocou as cicatrizes, mal arranhando a superfície. - Sente alguma coisa? - Sim. - Ótimo! O tecido ainda está vivo. - O médico apagou as luzes. - A pele! - exclamou com entusiasmo. - E uma das maravilhas da natureza. É mais fina que o mais fino papel, elástica, incrivelmente resistente, autolubrificante, auto-regeneradora e chega mesmo a ter memória própria! A pele mais difícil de se trabalhar é a dos anglo-saxões, sobretudo os de tez clara e cabelos loiros. A pele é frágil e não se recupera facilmente, sobretudo se foi exposta ao sol com freqüência. A pele dos povos mediterrâneos ou tropicais é mais resistente e reage melhor ao tratamento. Creio que a senhora é inglesa, não? 464 - Era. Agora sou americana. - Estou querendo saber se a senhora é de origem inglesaA pele não se importa com o nome que consta de um passaporte. - Sim. - Ouça-me. Cá entre nós, não existe nenhum motivo para pequenas vaidades. Tenho de saber com o que estou lidando. Sua pele não é a de uma inglesa. A cor, a elasticidade, uma ligeira oleosidade... é uma pele esplêndida, é uma sorte tê-la, mas seus pais não eram ingleses. - Meu pai era. Bem, pelo menos - E sua mãe? Fez-se uma longa pausa. Dawn achou que era impossível mentir para Echeverría. Seus olhos exigiam a verdade. - Metade indiana - murmurou. - Nasceu em Calcutá. - Ah! - ele exclamou, com ar de triunfo. - Quase adivinhei. A tez não difere muito de alguns de nossos mestiços, mas é muito mais fina. Não há por que se envergonhar de ter sangue misto. No Brasil, por exemplo, as pessoas se orgulham disso. Noto, porém, que isso lhe traz certos problemas... - Na índia isso não constituía motivo de orgulho, doutor, e muito menos na Inglaterra. Nos Estados Unidos, menos ainda. - É a loucura anglo-saxã! Para se ter boa pele é necessário certa mistura de raças, da mesma forma que o melhor vinho se obtém graças à combinação de uvas diferentes. A pele anglosaxã evoluiu porque as pessoas viviam num clima onde existia pouco sol. Na Irlanda, onde chove o tempo todo, vêem-se jovens de pele belíssima, como pérola, como leite, mas quando elas se mudam para regiões subtropicais, como a Califórnia ou México, tomam banhos de sol prolongados. Suas peles tornamse então ressecadas, racham e adquirem uma coloração mais para o marrom. A pele branca é um aborto da natureza, minha cara senhora, uma mutação genética que se deu em clima adverso. Se sua mãe não fosse indiana, essas cicatrizes ficariam em seu rosto a vida inteira. Graças a Deus temos a possibilidade de realizar um belo trabalho. Pela primeira vez em algumas semanas Dawn riu, embora sentisse dor quando sua pele se mexia. - O senhor é muito convincente, mas, para mim, não é muito fácil aceitar. - Já percebi. - Na realidade, doutor, o senhor é a única pessoa a quem admiti este fato. - Sinto-me honrado. Ouça, não sou estúpido. A senhora é estrela de cinema e não quer que seus fãs saibam que tem sangue mestiço. Talvez não queira que os homens de sua vida era irlandês. 465 também saibam. É possível, embora, na minha opinião, seja uma tolice. Bem, no comércio e no amor uma certa discrição é necessária, de vez em quando. Não deve imaginar, porém, que essa gente tenha razão, Lady Konig. Sempre precisamos aceitar aquilo que somos, sem vergonha, mesmo que seja preciso mentir. - Não é fácil. Echeverría levantou-se e sorriu. De pé, a cabeça dele ficava na mesma altura que a dela, embora estivesse sentada. - Fácil? E quem disse que é fácil? já ouviu falar de abrasão? - Não. - Trata-se de uma técnica nova. Requer tempo e muita delicadeza. Existe um certo perigo de infecção. É preciso, portanto, dar um passo de cada vez. Não se trata de um procedi mento espetacular. Se a senhora tivesse algum problema com o nariz ou algum trauma, eu poderia realizar uma operação milagrosa, e a senhora me acharia um gênio. Em vez disso, dia após dia, reduzirei suas cicatrizes. Será tedioso e, algumas vezes, dolorido. A senhora ficará impaciente e duvidará que eu saiba o que estou fazendo. Não se preocupe, pois é normal que isso aconteça. Começarei cortando o tecido com cicatrizes, no ponto em que ele se eleva acima do nível da pele. É o tipo de cirurgia mais delicado que existe. Fecharei as incisões com pontos tão finos que serão quase invisíveis. Substituiremos as ataduras constantemente, muitas vezes ao dia. Assim que se iniciar o processo de cura, passaremos vitamina E em seu rosto, a fim de manter a pele elástica, bem como uma solução salina sulfurada, para impedir a infecção. A senhora detestará o cheiro, pois a vitamina E provém de óleo de peixe. Seguirá uma dieta rigorosa, sem estimulantes, e não poderá tomar sol. Quando eu achar que está pronta, iniciarei a abrasão da superfície da pele que foi atingida. Agirei sobre uma pequena área de cada vez. A única coisa que pedirei é que não olhe para sua pele durante o processo. Não será nada agradável de ver e qualquer tipo de choque ou depressão de sua parte prejudica o processo. A pele é afetada pelos estados de alma, bem como o resto do corpo. A senhora terá de confiar em mim. Eu é que decido quando poderá contemplar o que fiz. - Confio no senhor. Pela primeira vez, desde o acidente, Dawn sentiu esperança. Não pensaria em mais nada e permaneceria na clínica o tempo que fosse necessário. O terraço da suíte de Dawn dava para um amplo gramado, cuidadosamente aparado, em cuja extremidade via-se um luxu 466 ri ante jardim tropical. Aves exóticas, cegonhas, papagaios, pavões, faisões chineses, andavam pelo gramado ou empoleiravamse nas árvores e arbustos cobertos de flores. Quando o dia nascia os jardineiros percorriam silenciosamente o gramado, removendo as folhas secas, cuidando-o com tamanho capricho que davam a impressão de estar realizando um ritual religioso. Era nesses momentos que Dawn passeava, quando os pacientes ainda dormiam e o jardim ficava a sua disposição. A piscina de águas cristalinas, cavada em sólida rocha, era aqueci da pelo sol que se levantava no horizonte. Em torno dela havia muitas esculturas. Eram nus masculinos e femininos, em mármore e bronze, muito bem proporcionados e de uma beleza impecável. Dawn imaginou se tinham sido escolhidas pelo dr. Echeverría, pois pareciam simbolizar a graça e a perfeição de que seu corpo estava privado. No fim do jardim erguia-se um muro alto e, por detrás dele, um bosque de eucaliptos, além de um jardim ainda mais luxuriante, e via-se o telhado de uma construção que parecia ser um grande castelo espanhol. À tarde Dawn sentava-se no terraço, contemplando o jardim com curiosidade. Muitas vezes Echeverría ia a seu encontro. Fazia um sinal de aprovação, quando um criado trazia o jantar de Dawn num carrinho. Ele mesmo comia com simplicidade e preferia que seus pacientes fizessem o mesmo, embora pudessem pedir o que bem entendessem. - Frutas, verduras, um pouco de galinha... A senhora se alimenta com muita sensatez - observou. - Sempre procurei fazer isso. - Ótimo. O pior aspecto de meu trabalho é que os pacientes voltam a assumir suas vidas e as destroem. Faço o que posso com suas peles, e então o paciente vai para casa e bebe, fuma, come em demasia. Tudo isso não leva a nada. É claro que acabam voltando para cá, mas cada vez posso fazer menos por eles. - Creio que ninguém pode ficar jovem para sempre, mesmo com sua ajuda. - É fácil de dizer. A senhora tem apenas vinte e quatro anos. Nessa idade temos a sensação de que a juventude não terminará nunca. O processo de envelhecimento mal se iniciou. Não há a menor razão para que a gente não possa ficar jovem para sempre, mas é preciso agir com disciplina. - Como? - ela perguntou, fascinada com a idéia e também a paixão com que Echeverría se exprimia. Quando ele falava sobre beleza, chegava a impressionar. Os olhos tinham algo de hipnótico, os músculos do rosto enrijeciam, como se ele fosse 467 um profeta, e as pontas de seus dedos se tocavam suavemente, como se, por entre elas, passasse uma corrente elétrica. Dawn não conseguiu evitar de pensar se ele era como os outros homens, se sua sexualidade era normal, como seus ombros e a cabeça, ou deformada, como suas pernas. - Eu lhe ensinarei o que puder, Lady Konig, mas diga-me uma coisa: a senhora gosta da vida? Tem vinte e quatro anos e já li algo a seu respeito. Sem dúvida boa parte do que li é falso, mas o fato é que a senhora desposou um homem trinta anos mais velho. Trabalhou demais para tornar-se uma estrela, e agora tudo isso lhe foi retirado. Se existe um homem em sua vida, a senhora jamais o mencionou. Concluo que não há ninguém. Lembra-se do que me disse quando chegou? Que a única pessoa a quem chamaria era seu advogado. Não considero isso exatamente uma diversão. A senhora desligou-se de seu passado, de sua infância, de seus ancestrais, mas o que pôs em seu lugar? A carreira? Dinheiro? Fama? Veja só o que aconteceu. Quando eu lhe devolver a beleza, o que pretende fazer com ela? - Acho que vou começar tudo de novo - disse Dawn, em atitude de defesa. Aaron Diamond lhe telefonava diariamente, incentivando-a a fazer o mesmo. - Posso consertar seu rosto, e a senhora já está fazendo um progresso imenso. Posso ensiná-la a comer, a exercitar-se, convencê-la da importância do descanso. Isso não me custa na da. .Mas, para que seja bela, o corpo necessita de mais do que isso. Precisa de amor, felicidade, sexo, alegria, da mesma forma que precisa de controle e moderação. Talvez até mais... - Acho que tive isso um dia ou, pelo menos, quase tive. - E daí? - E daí outras coisas interferiram. Hoje não sei se elas tinham tanta importância assim. - Desejar a beleza por si mesma é uma atitude destrutiva. O propósito da beleza é a felicidade. Ela deveria torná-la feliz, bem como a outras pessoas. Caso contrário, transforma-se num fardo, que se torna cada vez mais difícil de se carregar, à medida que os anos passam. Sabe, eu queria ser psicanalista. É mais importante consertar a mente do que o rosto, mas não conseguiria suportar ouvir diariamente as confissões de culpa e os temores das pessoas. É demais, é um verdadeiro sufoco. A senhora não tem filhos? - Sofri um aborto. O médico disse que, depois disso, eu nunca mais conseguiria ter filhos. - Vi sua ficha médica. Duvido ingleses estão atrasados demais nesses que ele tivesse razão. Os assuntos. Hoje se tornou 468 questão de uma simples operação. É quase certo que a senhora pode ter todos os filhos que desejar. - Não quero ter nenhum. A julgar pelo tom com que ela se exprimia, Dawn não apreciara a notícia. Enquanto lhe fosse fisicamente impossível ter filhos, o assunto para ela estava encerrado e a culpa não era sua. Não queria de modo algum tomar conhecimento de que a escolha cabia a ela. Echeverría notou. Notava tudo, aliás. - Os filhos podem ser um grande conforto - observou. - Não para alguém de sangue mestiço, conforme o senhor colocou com muito tato. - Ah... Quanto a mim, sou favorável à vida, sob qualquer forma ou cor que ela se apresente. A senhora pode argumentar que tenho especial interesse pelo assunto. Há muito tempo fui deixado no cume de uma montanha, a fim de morrer... Concordo, porém, que não existe nada pior do que fazer algo que nos deixe infelizes. A infelicidade é um grande pecado, quando não se faz nada para evitá-la. É um desperdício de vida. Notou aquela casa muito grande, que se parece com um castelo? - Do outro lado do muro? - perguntou Dawn, aliviada com a mudança de assunto. - Exatamente. É Lã Casa de Oro, Charles Corsirü. Conhece-o? Dawn fez que não. - Pertence a uma família de banqueiros, imensamente ricos. Ele tem uma reputação um tanto ambígua, mas sempre o achei encantador. Sua mulher morreu num desastre de barco, há um ou dois anos, e Corsini até hoje não se recuperou. É algo que ele não se permite. Vem aqui raramente e a casa quase não é usada. Ele desistiu de jogar pólo, não comparece a festas, enterrou-se em seus bancos, aqui, na Argentina e só Deus sabe mais onde... Sente-se culpado e não consegue parar de sofrer. Trata-se, porém, de um exercício inútil. Ele se força a ser infeliz. Se a dor e a culpa conseguissem ressuscitar as pessoas, não haveria necessidade de túmulos... Bem, preciso deixá-la dormir - disse o dr. Echeverría com relutância. - Dentro de quatro ou cinco semanas terminaremos, então a senhora poderá contemplar seu rosto. Depois disso terá condições de sair, passear, acostumar-se novamente com o mundo. - Ir embora daqui será muito difícil para mim - declarou Dawn com um sorriso. - Não - disse o médico, levantando-se. - Quando contemplar seu rosto, ficará ansiosa por partir e voltar a viver. É minha recompensa e minha dor. pertence ao príncipe 469 Dawn chamou a criada para levar os pratos embora. Fitou a escuridão. O México parecia-se com a índia de sua infância. A noite caía rapidamente, trazendo com ela o silêncio e as trevas. A distância, por entre as árvores, julgou ver uma luz na casa dos Corsini. Como é mesmo que a chamavam? Casa de Oro? Quando voltou a olhar, ela tinha sido apagada. - É um milagre! - disse Dawn, segurando a mão do dr. Echeverría. - Não. É apenas disciplina de sua parte e habilidade da minha. Se observasse muito cuidadosamente, sob luzes fortes, perceberia leves traços de meu trabalho. Pense que é minha assinatura, como a de um artista numa tela. - O rosto não é mais meu, mas do senhor. - É nosso... Saia, vá fazer compras, acostume-se a ser vista. No início poderá usar um véu, pois a pele ainda está muito delicada. Não quero que a exponha ao sol ou à poeira. Não use maquilagem. Chegará o momento, mas, por enquanto, a pele precisa respirar. Precisamos mantê-la enfaixada parte do tempo, mas cada vez menos. Meu trabalho chegou ao fim e o seu mal começa. - Gostaria tanto de isso ao senhor! - Basta que ciente. O dr. Echeverría apertou um botão, chamando a enfermeira, e afastou-se dela, indo até a janela. Por alguns instantes Dawn sentiu sua solidão, mas uma parte de sua mente já fazia planos e pensava no futuro, impaciente por regressar a Los Angeles. Queria aproximar-se do dr. Echeverría e beijá-lo, mas sabia que era impossível. Seguiu a enfermeira, corredor afora, e naquela noite ele não foi jantar com Dawn. dizer a todo mundo que devo tudo a senhora saiba. Isso já é mais do que sufi Cada dia, como uma nadadora que mergulha cada vez mais fundo, ela saía pelas ruas de Cuernavaca, apinhadas de gente, acompanhada pela criada. Inicialmente sentiu pavor de ser reco nhecida e um medo ainda maior de um acidente, de que algo batesse em seu rosto. Aos poucos ambos os temores foram diminuindo. Cuernavaca estava repleta de estrangeiros ricos. Os moradores da cidade tinham mais o que fazer e não costumavam encará-la. Eram delicados demais para isso. A fim de evitar pessoas de seu meio, 470 que poderiam reconhecê-la e até mesmo dirigir-lhe a palavra, Dawn ia bem cedo ao mercado. Não tinha necessidade de fazer compras, mas era algo para se fazer, um prazer para o qual nunca tivera tempo, em Los Angeles ou Londres. Sentia-se estranhamente à vontade entre as barracas e a multidão, pois o mercado recordava-lhe a índia. As flores, o barulho, os mendigos e até mesmo os cheiros eram familiares. Ela usava um vestido longo, cor-de-rosa, quase semelhante a um sari, e amarrava na cabeça um lenço de seda branca. Se não fosse pelos óculos escuros, até poderia ser confundida com uma senhora hindu fazendo compras no bazar. Dawn escolheu uma bela manga, cheirou-a e apertou de leve. Afastou o lenço e tirou os óculos, a fim de pegar algumas moedas na bolsa. Ergueu a cabeça e percebeu de repente que um homem a encarava. E essa agora! Tinha sido reconhecida. Acaso seria um jornalista? Nenhum deles, porém, vestia-se tão bem quanto aquele homem. Além do mais, a expressão de seu rosto não era de curiosidade ou surpresa, mas de profun do choque e até mesmo de terror, como se tivesse acabado de ver um fantasma. Acaso seria alguém a quem conhecia? Ele estava debaixo de uma pérgula, na sombra, e era difícil dizer. Parecia ter uns quarenta anos, era alto, com cerca de um metro e oitenta, cin tura fina e os ombros largos de um atleta. O rosto que percebeu por debaixo de um caro chapéu panamã era bonito. Durante alguns instantes ela se sentiu tentada a lhe dirigir a palavra. Há muito tempo não conversava com ninguém, a não ser com o dr. Echeverría. Quando fez menção de aproximar-se, ele deu um sorriso constrangido, como se estivesse pedindo desculpas. Dava a impressão de sentir-se envergonhado por encarála ou aliviado ao constatar que ela não era um fantasma. Ele recuou e desapareceu por entre as barracas do mercado. Dawn entregou a manga à criada e, mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa, percorreu o mercado, seguindo a mesma direção que o desconhecido. Dobrando a esquina, numa rua estreita, por detrás de uma igreja, achava-se um Rolls-Royce cinza. Um motorista de libré acabava de fechar a porta. Por detrás do vidro temperado Dawn viu o homem que estivera olhando para ela. Ele recostava a cabeça no banco e limpava o rosto com um lenço, como se tivesse escapado por um triz de um terrível acidente. O motor foi ligado, e o carro avançou, espantando a multidão. O desconhecido não olhou para trás. 471 Ele não voltou a aparecer no mercado, nos dias que se seguiram. Dawn ficou surpreendida, ao notar seu desapontamento. Não mencionou o incidente ao dr. Echeverría, cuja atitude se tornara ligeiramente distante. Ela sabia que já estava quase no momento de ir embora, mas hesitava todo dia, pouco disposta a pegar o telefone e começar a combinar certos compromissos com Aaron Diamond. A visão daquele homem desconhecido a perseguia. Sentia que não conseguiria ir embora até saber quem era ele, que, no entanto, permanecia invisível, embora o visse a distância certo dia, em seu Rolls-Royce, descendo uma rua com toda a lentidão. Dawn quase desistiu de esperar, mas, uma semana depois, ele surgiu subitamente no jardim, enquanto ela dava seu passeio matinal. Inicialmente ela julgou que fosse um dos jardineiros, pois viu apenas um homem alto parado junto ao muro. Por detrás dele achava-se um portão de ferro forjado. - Buenos dias - ela disse, e logo em seguida uma voz estranha, sem sotaque espanhol, desejou-lhe bom dia. Embora fosse tão cedo, ele estava impecavelmente vestido. Usava um terno cinza-claro, camisa branca e gravata preta. Não deixava de ser uma roupa estranha para um lugar como aquele. Desta vez não usava chapéu. Tinha os cabelos loiros, lisos e penteados para trás. O rosto era forte, atraente, mas de modo algum bonito, no estilo dos astros de Hollywood. O nariz era bem grande e ligeiramente torto. A boca também parecia grande, com rugas dos lados, embora o traço mais notável do rosto, além dos olhos, fossem as maçãs altas e proeminentes. O nariz adunco atribuía àquele homem a aparência de uma ave de rapina que acaba de voltar ao ninho com um coelho nas garras. Tinha um olhar ao mesmo tempo tenso e ansioso. Os olhos chamavam a atenção. Eram de um azul acinzentado e pareciam refletir o céu; as orelhas tinham lóbulos pequenos e os cabelos de um loiro acinzentado as escondiam quase completamente. Quem quer que fosse aquele homem, tinha a aparência de uma águia. - Príncipe Charles Corsini - ele se apresentou. - Devodesculpas. Dawn riu, pois ele parecia excessivamente sério. - Poderia ter-me dado uma carona lá no mercado! Ele sorriu, um pouco inseguro. Será que entendia inglês bem quanto ela imaginava? Tinha dentes perfeitos. - Deve ter-me achado tremendamente grosseiro por encarála daquele jeito, mas é porque recordou-me alguém que conhe lhe tão 472 ço. Imagino que já deva estar acostumada com esse tipo de atitude... - Não é bem assim. Como sabia que eu estava aqui? - Estamos numa cidadezinha do interior, Lady Konig. - Oh... E eu que esperava que ninguém me reconheces se... Admiro seu jardim todas as manhãs. - É mesmo? Pois então precisa vê-lo de perto. Creio que estou interrompendo seu passeio, não? - Não tem importância. Se não tiver nada de melhor a fazer, quem sabe queira me acompanhar? - Com o maior prazer. Normalmente não tar-me tão cedo. - O príncipe ofereceu-lhe o há muito tempo em Cuernavaca? - Quase três meses. - Três meses! Deve ter-se entediado terrivelmente. Não é o lugar mais excitante do mundo. - Estava... recuperando-me de uma doença. - Ah... Echeverría é um homem notável, não acha? Vendilhe esta casa, quando ele decidiu abrir a clínica. - O senhor trabalha com negócios imobiliários? - Não, não. Possuo vários imóveis, não só aqui, como em outros lugares, mas não posso dizer que sou um investidor. As pessoas daqui eram contra a clínica. Os ricos sempre detestam mudanças. Não concordei. Echeverría é um gênio, e eu lhe vendi esta propriedade. Eu costumava vir aqui à tarde conversar com ele. - O príncipe acendeu um cigarro. - Não era sempre que seguia seus conselhos - acrescentou, sorrindo. - Ele disse que o senhor mora aqui há algum tempo. - É verdade, mas meu lar não é aqui. Meu pai veio para cá, fugindo do inverno na Argentina. Não que os invernos de lá se caracterizem pelo rigor, mas ele amava o sol. Era italiano, de Nápoles. - Pelo sotaque, Inglaterra. - Com efeito. Foi, aliás, uma experiência das mais desagradáveis. Costumávamos ser punidos fisicamente e tínhamos de tomar banhos frios. Felizmente outro menino me ensinou como fingir os sintomas da asma. De repente, quando menos se esperava, eu era capaz de ter um ataque de tosse até ficar roxo. Eu mesmo cheguei a me assustar. Foi então que meus pais me mandaram para uma escola na Suíça, onde me senti muito mais feliz. A senhora não tem idéia de como é difícil ser estrangeiro na Inglaterra, quando se é jovem. - Creio que tenho, sim, embora não imaginasse que um príncipe italiano pudesse ser tão estrangeiro assim... diria costumo levanbraço. - Está que o senhor foi educado na 473 - Ser príncipe só piorava a situação. O fato já era negativo, mas, por vir de Buenos Aires, eu era tratado como um sulamericano rastaqüera. Carcamano, rastaqüera, príncipe... que cruz mais pesada para um menino carregar! - Quer dizer então que é argentino? Corsini deu de ombros. Pelo jeito não havia resposta simples, quando se tratava de perguntas sobre sua vida. - Nasci na Argentina e ainda tenho muitos interesses lá. Na realidade, tenho a honra de ser o cônsul-geral de Mônaco naquele país, posto que, felizmente, não requer que eu resida em Buenos Aires. O vice-cônsul realiza as poucas tarefas necessárias, mas disponho de um passaporte diplomático monegasco. Sou bem recebido em todos os lugares. - O príncipe fez uma pausa e corrigiu-se. - Isto é, em quase todos. Ninguém odeia Mônaco. Neste século nada é mais importante do que escolher a nacionalidade certa. - O senhor dá a impressão de ter pensado em tudo. - Tento. Como banqueiro é, em mim, uma segunda natu reza. - O senhor não parece banqueiro. - Recebo sua observação como um elogio, mas o meu banco não é desses onde se pode receber um cheque ou levantar um empréstimo para comprar um carro. Trata-se de um pequeno banco de investimentos. Creio que todo mundo acha os banqueiros tediosos, mas não é inteiramente verdade. O banco é um negócio muito romântico, e todos os bons banqueiros são românticos. Quer almoçar comigo amanhã? Pela primeira vez em muitos anos Dawn sentiu-se subitamente excitada por um homem. Corsini acompanhou-a até o portão. Os torreões de sua casa elevavam-se por entre as árvores, e pombas brancas estavam pousadas no telhado. - Teria muito prazer - declarou Dawn. Ele se inclinou e beijou sua mão, segurando-a por alguns segundos a mais do que a formalidade exigia. Em seguida se retirou. O resto do dia custou demais a passar, o que Dawn achou muito estranho. - Corsini? Deixe para lá! A voz de Aaron Diamond mal se ouvia ao telefone. Ele estava no auge da irritação. Tinha telefonado três vezes, sem resultado, o que não deixava de ser profundamente aborrecido, pois os telefonemas interurbanos levavam horas para ser completados. 474 - Temos assuntos muito importantes para discutir. Acho melhor você vir para cá correndo! - A voz dele começou a falhar, embora Dawn percebesse as palavras "Myron", "Marty" e "ações". De repente ela o ouviu de novo, desta vez muito claramente. - Não quero entrar em detalhes. Pelo telefone não dá. - Quem é Corsini, Aaron? Conheci-o hoje e vamos almoçar juntos amanhã. - Pelo amor de Deus, não favor que você faz a si mesma. - Não me meti com ele, Aaron, apenas fiquei curiosa. Diamond não ouviu ou não acreditou. A ligação estava péssima, mas, mesmo assim, Dawn conseguia perceber a ansiedade de Aaron, que parecia querer preveni-Ia de algo. - O Banco da Europa e das Américas... é apenas testa-deferro de Corsini... O Banco do Rio de Ia Plata... Quase estourou uma revolução... ou talvez tenha estourado mesmo, não consigo me lembrar... Claro que o pai dele era um vigarista em escala gigante... Dinheiro do Vaticano e, pior ainda... - Aaron, só perguntei quem é ele. Como é que você sabe tanta coisa sobre sua vida profissional? - Leio o The Wall Street Journal, e as páginas de finanças dos jornais, .essa é muito boa! Todo mundo conhece Corsini. Não é flor que se cheire. Comenta-se que a princesa Corsini matou-se. - A mãe dele? - Que mãe, que nada! A mulher! se meta com Corsini. É um A primeira vista, a casa de Corsini era suficientemente lúgubre para tornar-se palco de uma tragédia doméstica. Escondida por entre as árvores, parecia excessivamente grande para uma cidadezinha de veraneio como Cuernavaca. Vista de certos ângucastelo da Bavária e, de outros, a um los, assemelhava-se a um monastério espanhol. Corsini recebeu-a de uma catedral. - Fora do comum, não acha? - ele perguntou, observando a reação de Dawn. - Meu pai comprou o hall na Bélgica, embarcou-o para cá e mandou refazê-lo. Levou dois anos nisso. - Devia ter sido um homem notável. - Notável? Sem dúvida. Mas isso não é nada. Em Buenos Aires construiu uma casa muito maior do que esta. Gostava de coisas sólidas... num hall tão grande que parecia a nave 475 Corsini mostrou a Dawn uma sucessão de aposentos enormes, repletos de mobiliário antigo e pesadão. Não pararam até chegar a uma sala bem menor, que dava para o jardim. Era pintada de branco, mobiliada com algumas peças antigas, de extremo bom gosto, e decorada como se ele tivesse disposto a provar que existia alguém com vida e gostos muito própri