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Este livro foi digiTalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a intenção de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma manifestação do pensamento humano.. FUGA PARA o NORTE t Klaus Mann FUGA PA Tradução Wladir Dupont ~ 3 p _ --,S s ,~,1c,V\Y-~ , . Editora Mandarim Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Mann, Maus, 1906 Fuga para o norte 1 Klaus Mann ; tradução Wladir Dupont.São Paulo : Mandarim, 1996. ISBN 85-267-0755-8 1. Romance alemão I. Título. 96-0828 CDD-833 Índices para catálogo sistemático: 1. Romances : Literatura alemã 833 Título original: Flucht in den Norden (c)1934, 1977, 1993 by Rowohlt Verlag GmbH, Reinbek bei Hamburg Direitos exclusivos para o Brasil cedidos à Agência Siciliano de Livros, Jornais e Revistas Ltda. Av. Raimundo Pereira de Magalhães, 3305 CEP 05145-200 - São Paulo - Brasil Coord. editorial: Ana Emília de Oliveira Revisão: Carla Soltau, Dione do E. Santo e Regina L. Santos Capa: Pit Foto do autor: Rowohlt Verlag, Bildarchiv Editora Mandarim, 1996 Biblioteca Pública Arthur Vianna KLAUS MANN O filho de Thomas e Katja Mann, Jaus Heinrich Thomas Mann, nasceu em Munique em 18 de novembro de 1906. Passou os primeiros anos de sua infância no bairro de Schwabing; quando fez quatro anos, a família Mann mudou para outra zona da cidade, Herzogspark. A escassa diferença de idade entre os primeiros quatro filhos dos Mann propiciou uma estreita relação entre eles, muito particularmente entre Erika e Maus, que foram unidos desde a infância. Em 1915, Klaus teve apendicite e quase morreu, ficando dois meses numa clínica. Há quem considere que o tão típico desejo alemão de morte que marcará toda a vida do escritor e que foi uma das causas determinantes de seu suicídio pode ter nessa doença infantil algumas de suas remotas explicações. De 1916 em diante, ele estuda no Instituto Wilhelm de Munique, em 1918 começa a escrever diários, e nesse mesmo ano escreve uma tragédia, Derarme Seemann. Segundo relata em um de seus escritos autobiográficos, Der Wendepunkt, seu irmão Golo lhe servia de reticente intermediário em suas primeiras e fracassadas tentativas de publicar o texto: Klaus mandava o irmão às editoras e revistas literárias com seus manuscritos debaixo do braço; Golo como era de esperar, nunca conseguia passar da portaria. Em 1922, Maus vai para a escola Odenwald, instituição na qual se aplicavam os princípios mais inovadores da pedagogia da época (o órgão reitor da escola, por exemplo, era um `parlamento' estudantil semelhante ao da Summerhill School). Os alunos, de origem muito variada, têm notável liberdade na escolha de suas matérias para estudar, e não são forçados a cumprir um determinado número de horas letivas. Klaus não encontra dificuldades para se desligar do ciclo habitual de estudos, e pode dedicar o tempo às suas 7 leituras e preferências literárias. O humanista e pedagogo Paul Geheeb, diretor da escola, manterá a amizade com Maus até seus últimos anos. Contudo, apesar de sua adaptação relativamente boa ao clima tolerante da escola, abandona prematuramente a instituição, por causa de um amor homossexual infeliz por um de seus colegas. Em 1923, de volta a Munique, prepara durante uns poucos meses o exame final de seus estudos secundários, mas nunca chegaria a fazê-lo. Nesse mesmo ano visita Berlim pela primeira vez, cidade cuja atmosfera decadente o cativa, tanto que decide se radicar ali. Para resolver os problemas financeiros relacionados com essa sua decisão, decide apresentar um número num dos cabarés literários de tanto sucesso na capital alemã durante a República de Weimar. Mas a estréia é um estrondoso fracasso; depois de recitar alguns poemas terríveis, o debutante tem que sair do palco em meio às vaias do escasso público presente. Anos depois o artista de cabaré Paul Schneider-Duncker, por meio de quem havia conseguido a'prova, lhe revelaria que tudo havia sido uma brincadeira: o suposto público diante do qual o jovem autor atuara se compunha de trabalhadores do teatro que, seguindo instruções de seu próprio `mentor', Schneider-Duncker, estavam ali para baixar a crista do jovem atrevido. Embora não tivessem atingido seu objetivo, conseguiram fazer com que Klaus voltasse rapidamente a Munique. Enquanto aproveita a dolce vita de Munique, começa a entrar nos círculos artísticos da capital bávara. Naquela época fica noivo de Pamela Süsskind, filha de um dramaturgo, e corrige de novo o rumo de sua vida: pensa em se tornar bailarino. Os Mann não mostram entusiasmo por nenhum de seus planos, e lhe recomendam que espere alguns meses antes de tomar uma decisão definitiva. Jaus passa algum tempo na propriedade de uns amigos da família, os barões Bernus, nos arredores de Heidelberg. Enquanto se prolonga sua `reclusão' na casa dos barões Bernus, ele continua escrevendo: três peças compostas naquela época, uns ensaios sobre Rimbaud, Huysmans e Trakl, serão os primeiros escritos que consegue pu blicar o jovem autor. Siegried Jakobson, o editor de Weltbühne, uma revista literária de certa influência então, "aceitou os três manuscritos. Infelizmente, logo verificou quem eu era, e insistiu em publicar os ensaios com meu nome, uma pequena sensação para a revista, mas para mim, provavelmente, o erro decisivo de minha jovem carreira. Pois desde então eu seria aos olhos do `mundo literário' (...) o filho impertinente de um um pai célebre que sem nenhum recato explora de forma comercial, publicitária, a vantagem de seu 8 nascimento. (...) Tudo parecia correr com tanta facilidade como no jogo, como nos sonhos: era surpreendente e divertido. Fosse o que fosse que eu pudesse oferecer, aceitavam logo, achavam tudo interessante"'. O `erro' foi, claro, decisivo; pelo menos em seus anos de exílio, nos quais exerceu outras atividades que lhe deram identidade própria, a atenção pública em relação a Klaus Mann foi, sem dúvida, um subproduto do interesse que despertava seu famoso pai. Também é verdade que Maus não era tão inocente assim quanto àquelas manipulações propagandísticas como se poderia deduzir das linhas acimas. Longe de ficar à margem desse tipo de jogadas, sabia muito bem canaliza-lanem benefício próprio. Com o dinheiro obtido por essas e outras colaborações, Maus Mann se estabelece num hotel de Berlim. Ali se dedica a terminar um livro, que emblematicamente entitula Vor dem Leben (Diante da vida), uma coleção de narrativas curtas escritas numa época anterior à sua passagem por Berlim e concentrada em tipos e problemas de sua geração. Nelas, apresenta esboços autobiográficos levemente velados, como suas experiências no instituto de Hochwaldhausen. O texto que fecha o livro, dedicado a uma das figuras arquetípicas do romantismo, Kaspar Hauser, é o único do volume que Klaus escreveu especificamente para ele, e, embora tenha o valor simbólico que o autor pretende lhe dar, talvez seja o menos coerente com o plano geral da obra. Depois de vender os direitos de sua primeira obra ao editor Kurt Enoch, o autor encontra, entre 1924 e 1925, um trabalho como crítico literário num jornal de Berlim de segunda linha, o Zwõ~&hrmittagsblatt. Maus exer ce seu novo ofício com notória superficialidade: "Lembro, por exemplo, de uma ocasião quando critiquei terrivelmente, por mero capricho, (...) o famosíssimo Ferdinand Bonn. Às vezes, contudo, era quase exageradamente tolerante. Sobretudo quando se tratava de certo jovem ator com um rosto atraente de boxeador e uma clara voz metálica (...)"2. O contínuo contato cone o mundo do teatro o anima a escrever uma peça; vai para Munique, na casa de seus pais, e escreve Anja und Esther, uma peça sentimental, cheia de ecos de Strindberg, na qual apresenta conflitos homoeróticos (a relação entre as duas protagonistas, por exemplo, é muito semelhante a que se dá entre Johanna e Karin em Fuga para o Norte. Há quem acredite que, além de seu 1. Maus Rlann, Der Mendepunkt, S. Fischer, 1953, p. 157. 2. Op. ciL, p. 160. 9 contato mais ou menos esporádico com o mundo teatral por meio de suas atividades de crítico, existam outras razões que talvez o tenham levado a se dedicar à arte dramática: "Medido durante toda sua vida por seu grande sobrenome, neste gênero literário não saía prejudicado na hora da comparação: como autor dramático, teve mais êxito que seu pai e seu tio, que fracassaram no teatro com dramas históricos (Fiorenza, de Thomas Mann, MadameLegros, de Heinrich Mann)"s. O dinheiro obtido com os direitos de Vor dem Leben e Anja und Esther lhe permite fazer uma viagem a Londres e Paris em companhia do escritor W E. Süskind, a quem conhecia desde a infância. Londres não lhe agrada, mais exatamente o impacienta: sua verdadeira meta é Paris, "a terra prometida" a. Durante sua permanência em Heidelberg, o célebre romancista Ernst Robert Curtius o apresenta a alguns destacados intelectuais franceses, entre eles André Gide, com quem se relacionaria quase até o fim de sua vida; aproveita a passagem pela capital francesa para conhecê-los pessoalmente, mas sobretudo para aproveitar a extraordinária atmosfera da Paris do entre guerras. De Paris vai a Marselha, dali a Túnis. Na viagem de volta à Alemanha, cruza a Itália, que lhe causa má impressão; além de sua antiga antipatia em relação ao país, objeto do `culto sentimental e pedante' de todo tipo de entusiastas alemães desde os tempos de Winckelmann, a Itália agora se havia convertido durante aqueles anos no laboratório dos totalitarismos que pairavam sobre a Europa: "O fascismo, cone seu ruidoso cenário de desfiles e festas, com sua falsa `ordem', seu falso `tempo', distorcia, pervertia o ritmo natural da vida italiana" 5. De volta a Alemanha, um jovem ator e diretor de teatro, Gustaf Gründgens, expõe a Klaus suas idéias para a encenação de sua primeira obra, Anja undEsther. Sete anos mais velho que Maus, Gründgens havia iniciado sua carreira como ator nos teatros de província de Saarbrucken e Dusseldorf. Em 1923 foi contratado pelos Hamburguer Kammperspiele, dirigidos por Erich Zie gel, dessa forma entrando num teatro com nome e projeção suficientes para lhe permitir dar um salto maior em direção aos palcos berlinenses, os de maior prestígio na Alemanha. Gründgens propõe a Klaus um elenco em que Pamela Wedekind e Erika interpretariam os principais papéis femini 3 Aiichael Tôteberg, Eine ur:glücklicbe Liebe zum 7beater, em Text + Kritik, caderno 93/94 de janeiro de 1986, pp. 15-16. 4. Maus Mann, Anrlré Gide und die Krise des rnoder-nen Denkens, Munique, 1966, p. 9. 5. Maus Mann, Der Ilíendepunkt, op. cit., p. 170. nos, enquanto os próprios Gründgens e Klaus encarnariam os protagonistas masculinos. A montagem, apresentada em cenários de Hamburgo e Munique, teve considerável notoriedade: a opinião pública acolheu com mórbida curiosidade uma obra na qual se trabalhava com materiais escabrosos e da qual participavam dois dos filhos de Thomas Mann e a filha de Frank Wedekind; as representações, alardeadas pelo lema "filhos de escritores interpretam teatro" 6, correram o país e também o exterior. Embora as críticas não fossem boas em sua maioria, o êxito de público, um grande succès de scandale, estava assegurado desde o princípio, sobretudo se levarmos em conta o muito que havia crescido a celebridade de Thomas Mann desde que, um ano antes, em 1924, publicara A montanha mágica: "O brilho cintilante que cercou minha estréia só pode ser entendido - e ser perdoado - se pensamos no sólido fundo da fama paterna. À sua sombra começou minha carreira, de modo que me mexi um pouco para me livrar disso, e me comportei de forma um tanto exibicionista para que a coisa não fosse ignorada. A conseqüência foi que se fixaram muito em mim; a maioria das vezes com má intenção. Irritado por adulações e alfinetadas contínuas, me comportei (...) tão indiscreta e caprichosamente como, evidentemente, se esperava de mim"7

. Dando por terminada sua participação teatral, faz uma viagem pela Costa Azul e visita uma vez mais Paris. Durante suas viagens e nos meses que seguem sua volta à Alemanha trabalha no volume de ensaios Heute und Morgen (Hoje e amanhã), orgulhosamente subtitulado Sobre á situação da jovem Europa intelectua4 consistente em uma mistura de dissertações sobre "Deus, a vida, a literatura, os dogmas marxistas, o enigma do sexo, Stefan George, a democracia, o nacionalismo alemão e outros temas de atualidade"8; como revela esta heteróclita enumeração, junto ao seu interesse de sempre pelos temas literários começa a surgir uma preocupação por questões políticas, tema que irá se acentuando ao longo dos anos seguintes até que no exílio e no pósguerra se converte num de seus interesses fundamentais, por mais que, para utilizar as palavras de Thomas Mann, "no fundo, o mórbido, erótico e `macabro'sempre o atraiu mais do que `a moral, a política e a luta"''. No momento, G. Maus Mann, op. cit, p. 174. 7. Maus Mann, op. cit., p. 181. 8. Maus Mann, op. cit., p. 180. 9. Thomas Mann, carta de 3 de julho de 1939, em Maus Mann: Briefe und Anrcorlen, 1937-19-x'9, Munique, Ellermann, 1975, p. 80. os esforços do jovem autor se concentram, sobretudo, na elaboração de u peça teatral com a qual pretende revalidar seus primeiros sucessos sobre palcos, e que intitulará Revue zu Vieren (Revista a quatro). Se sua primei obra foi um sucçès de scandale, a segunda representou simplesmente uma su cessão de escândalos. Também neste caso as críticas foram, desde o princípio muito desfavoráveis; Gründgens, cujos excelentes dotes de diretor e ator devia a encenação da primeira peça, comandou a segunda, apesar de suas dú vidas bem fundadas sobre a qualidade da obra- ele se mostrava muito reti tente: Erika, com quem havia casado em julho de 1926, precisou ameaçá-lo com uma separação (que de qualquer forma viria alguns anos depois) para qúe cancelasse seu compromisso com este novo projeto teatral. Não foi preciso tanto: o próprio Gründgens acabou se desentendendo com o grupo ao fim de algumas poucas encenações na província. Além do fracasso teatral surgiram as aflições amorosas: Pamela Wedekind, a quem Klaus havia proposto casamento - chegando até a tentar que a declarassem maior de idade para poder casar com ele-,fica noiva do no tável e excêntrico dramaturgo Carl Sternheim, que já beirava os cinqüenta, e com quem acabaria casando em 1930. Nessas circunstâncias, não é de estranhar que Klaus interpretasse como `convite' uma carta na qual seu editor novaiorquino, Horace Liveright, sondava as possibilidades de que ele desse uma série de conferências nos Estados Unidos. Vigia em outubro de 1927, acompanhado de sua irmã Erika. Manifestando uma vez mais seu agudo instinto publicitário, os dois irmãos se apresentam à imprensa de Nova York como `Os gêmeos literários Mann'. Não chegam a fazer nenhuma das conferências previstas em Nova York - mesmo com os esforços de seu agente, dificilmente teriam conseguido: naquela época, Klaus Mann mal falava inglês,embora mais tarde viesse a escrever parte de sua obra nesse idioma. Seja como for, seu sobrenome famoso lhe abre o caminho ao `gran monde' e aos círculos culturais da cidade; conhecem, entre outros, o romancista e autor teatral Thornton Wilder e o hoje quase esquecido satirista e crítico social Henry Louis Mencken, que então estava no auge de sua fama e ainda nâo havia se revelado como um dos poucos intelectuais americanos influentes que mostraram uma atitude favorável ao fascismo. O dinheiro que seu agente oferece aos irmãos Mann como compensação pela recisão do contrato facilita a viagem dos dois `gêmeos literários' a Hollywood. Antes de viajar aos Estados Unidos, Klaus havia escrito a Erich Ebermayer - com quem colaborou também na recopilação de uma antologia de jovens prosadores 12

. pedindo qúe esboçasse o roteiro do romance Alteza real, de Thomas Mann; a idéia de Klaus era interessar a Metro Goldwyn Mayer no projeto. Seus planos não se concretizaram, mas a passagem por Hollywood lhe permitiu conhecer muitos artistas europeus, em particular alemães, que tinham posição de destaque na indústria do cinema: os diretores Murnau e Ernst Lubitsch, o ator Emil Jannings, o dramaturgo Hans Müller, Greta Garbo etc. Eles não deixaram que o fracasso de sua primeira tentativa no circuito de conferências novaiorquino abatesse seu ânimo: continuaram escrevendo cartas a possíveis interessados na embaixada cultural dos `gêmeos literários'. Finalmente, conseguem uma série de compromissos firmes - alguns com instituições tão prestigiosas como a Universidade de Harvard - e voltam à cosra oeste americana. Apesar de sua situação financeira precária, pois só conseguem cobrir seus gastos básicos, quando dá-com os exíguos rendimentos de suas conferências, artigos de jornal que mandam à Europa e os adiantamentos de seus editores-, os irmãos decidem prolongar a viagem, voltando à Europa via Ásia. Graças a uma contribuição inesperada pagam a passagem até o Japão, dali passam ao continente asiático e, através da Manchúria e Sibéria, voltam à Alemanha. O produto literário apressado de sua viagem, que dura quase um ano, é uma das várias obras que os `gêmeos literários' escrevem juntos: Rundherum. Se é verdade que durante todo esse tempo a atividade literária de Klaus se faz menos intensa, também é certo que o afastamento das sufocantes brigas provincianas a que ele se via arrastado por circunstâncias peculiares e o conhecimento de outras culturas, ou quando menos o contato com elas, lhe conferem uma amplitude de perspectiva, um certo cosmopolitismo que será essencial para sua trajetória pública durante os anos seguintes, nos quais concentra seu interesse na situação espiritual do continente europeu no contexto mundial: "Enquanto não abandonei a Europa (a viagem ao norte da África não conta para todos os efeitos: Túnis e Marrocos pertencem à periferia européia), meu pensamento esteve limitado a conceitos e idéias europeus. O encontro com as enormes extensões da América e Ásia me fez consciente de que a Europa não é o mundo e de que perderá sua situação nele se continuar se esgotando e se arrebentando em lutas fratricidas suicidas. (...) Quase tudo o que escrevi ao longo dos dois ou crês anos seguintes trata, de forma mais ou menos direta, da problemática da Europa em sua relação com os demais continentes. Tratei de abordar este espinhoso e complexo assunto 13 sob vários pontos de vista (...)"'° Uma dessas tentativas é sua terceira ob teatral, Gegenüber von China (Diante da China), na qual personifica a tensã entre a suposta `energia' elementar do americano e o `espírito' europeu no. amores de um jovem californianó' e uma estudante européia. Esta peça, d um esquematismo tosco a julgar pela exposição resumida de seu argumento, foi um fracasso inapelável logo na estréia. Contudo, seu interesse pela política, apesar de um certo esteticismo ir naconalista no começo de sua carreira, continuava sendo o de um diletant escassamente informado; com toda sua retórica inflamada a favor do entrn dimento franco-alemão, de seu entusiasmo ingênuo pelo equivocado paneuropeísmo inspirado pelas doutrinas do conde Coudenhove-Kalergi, o fato é que a política naqueles anos não deixava de ser uma ocupação secundária,uma atividade para as `horas perdidas'. Ao contrário de numerosos intelectuais mais envolvidos nas lutas políticas, e tão próximos dele como seu tio Heinrich Mann (personalidade determinante, sem dúvida mais do que seu pai, no amadurecimento de suas concepções políticas), Klaus nem sequer percebe os sintomas da decomposição da República de Weimar, que se sucedem vertiginosamente durante aqueles anos (em 4 de outubro de 1929 morre o ministro de Assuntos Exteriores alemão, Stresemann, um dos personagens públicos que mais havia trabalhado para estabilizar a situação européia; nesse mesmo mês, a deteriorada economia alemã se vê arrastada pela queda da bolsa de Wall Street; em 1930, o nacional-socialismo consegue um êxito eleitoral inesperado, obtendo aproximadamente 18 por cento dos votos): "Estranhamente, a época de 1928 a 1930 não guarda em minha memória muita relação com a miséria das massas e a tensão política; na verdade, mais com o bem-estar e a intensa atividade cultural. Naturalmente, eu sabia que o número de desempregados crescia terrivelmente - Eram três milhões? Já eram cinco?; só se podia esperar que o governo criasse rapidamente subsídios... Quanto ao resto, os negócios não pareciam mal, apesar da `crise' de que tanto se falava nos jornais. Seja como for, no terreno da cultura se ganhava bastante; autores, atores, pintores, diretores, músicos alemães de sucesso quase nadavam em dinheiro"". No que diz respeito ao próprio Klaus, não se pode dizer que se beneficiara muito da generalizada bonança econômica do mundo cultural. Ele não consegue - não conseguiria 10. Klaus Dlann, Der lr~endepunkt, op. cit., pp. 21&219. 11. Klaus Mann, op. cit, pp. 224-22>. 14 nunca - uma independência econômica; depende sempre, ao menos parcialmente, do apoio financeiro de sua família, e quando Thomas Mann ganha o prêmio Nobel, em 1929, parte do dinheiro é destinado a liquidar as dívidas que Klaus e Erika haviam contraído durante sua viagem ao redor do mundo. As dificuldades econômicas não se devem, claro, à falta de produtividade. Entre 1929 e 1930 Klaus se entrega a uma febril atividade jornalística, publicando resenhas, entrevistas, relatos de viagens, ensaios sobre romancistas e poetas (depois publicados na antologia Aufdem Suche nach einen Weg (A Busca de um Caminho); edita também um livro de narrações curtas (Abenteuer), o segundo tomo de uma antologia de poesia lírica moderna (Anthologie jüngster Lyrik) e seu segundo romance: Alexandrr, Roman einer Utopie (Alexandre, romance de uma utopia), até certo ponto um romance histórico baseado na figura de Alexandre Magno, mas sobretudo uma fabulação utópica na qual dá forma às impressões deixadas por sua viagem de 1928. Contudo, nos anos seguintes que antecedem Machtergreifung, e à tomada de poder pelos nacional-socialistas em 1933, as obras que publica só têm ressonância na Alemanha. A dramatização de Les enfants terribles de Jean Cocteau (Geschwister), seus ensaios, incluindo seu romance Treffpunkt im Unendlichen (Ponto de encontro no infinito), 1932, precursor direto da mais célebre de suas obras, Mefisto, passam quase inadvertidos quando não são alvo de críticas adversas. Nesta época pode-se dizer que Klaus Mann renuncia definitivamente à vida sedentária, primeiro por inclinação, depois por circunstâncias políticas. Mora durante alguns meses em Berlim e passa uma temporada breve no sul da França, em Paris ou em Munique. Entre suas viagens importantes estão um novo passeio pela África, em 1930, e uma visita à Finlândia, em 1932, da qual tiraria a maior parte dos materiais para seu Fuga para o Norte. Por outro lado, o trauma de setembro de 1930, a impensável vitória nas urnas do nacional-socialismo, para ele - e para muitos outros intelectuais alemães - começa a mudar profundamente sua orientação intelectual: "O veneno da reação inimiga da cultura não só corrompia a vida política, como também começava a influir destrutivamente nas convicções da chamada inteligência `liberal'. O culto ao sangue e ao solo, a maligna acentuação de valores biológicos à custa dos espirituais, a supervalorização dos instintos e da intuição junto ao correspondente desprezo da crítica, todos estes sintomas da infecção fascista não s6 se podiam constatar na imprensa de direita radical, nacionalista, como no vocabulário pretensioso dos filósofos e literatos. 15 dos, independentemente de sua filiação política, embora também acolh a obra de colaboradores estrangeiros, alguns deles tão célebres como main Rolland, Jean Cocteau, Benedetto Croce, Ernest Hemingway, Ilja renburg ou Boris Pasternak. No que diz respeito aos autores de âmbito mão que fizeram uso da tribuna que lhes era oferecida em Die Sammlu basta citar os nomes de Heinrich Mann, Jakob Wassermann, Alfred DSbli Joseph Roth, Albert Einstein, Ludwig Marcuse, Bertold Brecht etc. Os jetivos da publicação e, em geral, a tarefa dos intelectuais alemães no ex estavam claros para Klaus Mann: "A gente sabia o que queria; as exigên do momento pareciam nitidamente delimitadas. O escritor alemão no lio considerava que sua função era dupla: por um lado, tratava-se de adue o mundo sobre o Terceiro Reich e expor o verdadeiro caráter do regime (. por outro lado, tratava-se de manter viva no estrangeiro e de desenvol mediante a própria contribuição criadora a grande tradição do espírito mão e do idioma alemão, uma tradição que agora já nâo tinha mais lugar seu país de origem"'~. Em reconhecimento aos seus esforços como pro gandista político-literário, em 14 de novembro de 1934 o governo nazi cassa a nacionalidade alemã de Klaus (em geral, os Mann foram espec mente contemplados com essa honra; nas primeiras quatro listas de pri~ ção da cidadania alemã havia pelo menos um membro da família: na meira delas Heinrich Mann, na segunda Klaus, na terceira Erika, na qu - em circunstâncias explicadas mais abaixo - Thomas, Katja e os qu filhos menores do casal). A trajetória d~ Die Sammlung foi breve e errática. Autores que se c prometeram com Klaus Mann em participar do primeiro número deix projeto quase no ato. A iniciativa de reunir numa mesma revista as mais versas correntes ideológicas da imigração não tardou em mostrar pró mas; as discrepâncias sobre a orientação e a temática da publicação logo saram mais que o interesse por constituir um órgão de expressão com para os intelectuais exilados. Assim, um apaixonado artigo polític Heinrich Mann publicado no primeiro número da revista dá pé para Thomas Mann abandone o projeto; desacordos de todo tipo e, sobrecu pressão dos editores alemães (muitos dos emigrantes continuaram pu cando suas obras em editoras do Reich durante os primeiros anos de motivam deserções similares (numa anotação de seu diário -15 de se 17. Klaus :Mann, Der 1C%ndepunkt, op. cit., p. 311. 18 bro de 1933 - Klaus Mann registra a `tristeza e confusão' que sente ao receber, ntim mesmo dia, cartas de seu pai, de Dõblin e de Stefan Zweig nas quais todos manifestam sua intenção de não continuar figurando como cota laboradores de Die Sammlung ; em 24 de outubro de 1933 recebe uma carta de Musil na qual este também lhe comunica que não deseja manter seu compromisso com o projeto). A estes conflitos se soma o fato de que, com todo o renome de seus colaboradores e das expectativas que despertou a revisra ao ser anunciada, seu volume de vendas foi sempre muito escasso, e por isso a editora, não obstante seu firme compromisso com a luta antifascista, se viu obrigada a suspender a publicação: o último número de Die Sammlungaparece em agosto de 1935. Um caso particularmente relevante na tarefa de `captação' de talentos para a luta contra o nazismo que Klaus Mann levou acabo foi seu empenho para conseguir que seu próprio pai se alinhasse inequivocamente com os in telectuais antinazistas militantes. Como já mencionamos, nos primeiros anos de exílio Thomas Mann procurou evitar qualquer manifestação que comprometesse irreparavelmente a possibilidade de que suas obras continuassem sendo publicadas naAlemanha'~. Klaus Mann tentou, várias vezes, fazer com que seu pai abandonasse essas prudentes reservas. Contudo, seus esforços foram inúteis até que, no melhor estilo de propaganda nazista, o diretor do Feulleiton do Neue Zürcher Zeitung, Eduard Korrodi, assegurou, em princípios de 1936, que Thomas Mann não podia figurar entre os representantes da literatura alemã no exílio dada a natureza eminentemente `judia' desta. O artigo do doutor Korrodi acabou dando uma contribuição oportuníssima aos propósitos de Klaus (e de Erika, que não mostrava menos empenho que seu irmão Klaus em conseguir que o pai se definisse politicamente). Como resposta ao texto de Korrodi, Klaus e Landshoff (diretor da seção alemã da editora Querido, na qual, além de Klaus Mann, publicavam suas obras grande parte dos principais escritores alemães emigrados) enviam a Thomas Mann um telegrama exortando-o que não deixe sem resposta as afirmações de Korrodi, já que se trata de "uma questão vital" para todos os exilados. Thomas Mann publica uma carta aberta no próprio Neue Zürcher Zeitung(3 de fevereiro de 1936) na qual, pela primeira vez, expressa aberta I8. Cf. Klaus Tlann, Tagebücher, op. cit., p. 168. 19. ~. Klaus D1ann, Klaus ~Nann: Briefe urtd AnumYeh, 1922-1937, Munique, Ellermann, 1975, PP~ 132-134. 19 lona (maio de 1935) e apresenta um trabalho no Primeiro Con A•7lTSFTS7tíiLll~fuW1•7•VI•I•6f•I,S.••Y.~•I••1•IIIVI•••1•1Y.1•I•rr.Vi.1.r•ll•A áT~::r`"T:T.~:°ï:`.á.3ïaT~Tãaí.slã•~íFaiF: _••filLi7iiTT~ii~•9i•3G3ir:7Y':ü ~iã7üi[üéfr7~~fr2üs5üiüi~

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Peter Gorski, filho adotivo de Gründgens, denunciou o prejuízo que representava para a imagem de seu pai a difusão do livro; embora a primeira sentença tenha sido desfavorável para Gorski, em instâncias superiores, incluído o tribunal constitucional (1971), ele ganhou a causa. Só em 1981, e em boa medida como resposta a uma edição pirata da obra, a editora Rowohlt decidiu reimprimir o romance, quando ainda pesava sobre ele o veredicto dos tribunais. Os dois protagonistas do litígio, já falecidos, estavam no centro da disputa, embora não concluída, em torno das responsabilidades dos artistas que permaneceram na Alemanha durante o Terceiro Reich. No `caso Mefisto', além disso, surgiram complexas questões políticas, jurídico-constitucionais e literárias, e seus elementos trágicos 23 reforçaram poderosamente o interesse do público em geral sobre o assunto. A tudo isso se juntou a adaptação teatral do romance feita por Àriane Mnouchkine e o filme homônimo do diretor húngaro István Szabó. Tudo isso contribuiu para converter Mefisto num dos casos mais notáveis de receptividade literária da Alemanha do pós-guerra: nos três meses seguintes à edição de Rowohlt foram vendidos mais de 300 mil exemplares da obra de um autor quase esquecido e do qual praticamente nenhum dos especialistas em literatura do exílio falava mais, mas cujas obras, daquele momento em diante, passaram a ser objeto de numerosas reedições e estudos. O quarto dos romances publicados no exílio, O vulcão, um estudo de certos ambientes da imigração alemã durante os anos anteriores à guerra, é o último dos romances de Klaus Mann. Depois dele, o autor só escreveria 23. Para que não faltasse neste `duelo de mortos' nenhum dos elementos patéticos tão caros à indústria cultural, existiam indícios de que o sucesso de Gründgens na Alemanha do pós-guerra, com tudo o que isso significava, foi uma das causas que desencadearam o suicídio de Maus Mann; cf. a carta de 12 de maio de 19-39 ao editor Georg Jacobi em Maus Mann: Brzefe und Anunrien, 1937-1949, p. 304; cf. também Eberhard Spangenberg, Karriere eines Ron:aus. Mefuto, Klaus Mann und Gustaf G)Mvdgens, Munique, Ellermann, 1982, pp. 131-132. 22 obras menores, do tipo ensaístico, autobiográfico ou jornalístico. Klaus Mann consideraria O vulcão, terminada depois de um esforço contínuo 4, a melhor de suas obras. Embora a crítica tenha prestado muito pouca atenção ao romance, Thomas Mann escreveu ao filho uma carta na qual elogia o livro em termos menos convencionais e genéricos do que r,)stumava fazer; contudo, essa mesma carta calidamente elogiosa nos dá uma idéia do escasso entusiasmo que Thomas Mann habitualmente dedicava às criações de seu filho, a quem confessa que examina sua obra com uma certa "má intenção" de, "provisoriamente", não fazer mais do que um rápido corte25. As prolongadas visitas aos Estados Unidos entre 1936 e 1938 tinham, segundo declara o próprio Klaus Mann, o caráter de "viagens de descoberta"; já em 1936 ele e Erika haviam decidido tentar se radicar nos Estados Unidos, aproveitando o período de exílio. Em 1938, ao terminar suas reportagens sobre a Guerra Civil Espanhola, ele se instala nos Estados Unidos. Durante seus dois primeiros anos nesse país escreve, em cola---oração com Erika, Escape to life e The other Germany, duas obras com perfis dos mais destacados intelectuais alemães imigrados, uma espécie de Who is who do exílio alemão. Em janeiro de 1941, tenta transpor aos Estados Unidos sua experiência diante da revista D e Sammlung, iniciando a publicação de outra revista, Decision. A revista, mistura instrumental da luta de idéias enfocando a promoção da cultura européia e o combate ao fascismo, teve vida breve: o último número foi o de janeiro/fevereiro do ano seguinte. Mesmo com o apoio incondicional de personalidades como Thomas Mann ou Albert Einstein, que não só contribuíram com trabalhos e assessoramento, mas que até entraram como intermediários na busca de investidores, e não obstante a qualidade de algumas das colaborações, a falta de interesse de capital americano, a já conhecida incompetência comercial do próprio Maus e o reduzido número de assinantes fizeram fracassar rapidamente a experiência. Com Decision fora de circulação, Maus tentou dar uma virada radical no seu engajamento político. Depois do ataque a Pearl Harbour, em dezembro 2+. `O 1.1r/cão (...) apareceu no verão do ano de 1939, algumas semanas antes do estouro da SeguncLa Guerra Mundial. A erupção do verdadeiro vulcão afogou meu mais silencioso anúncio. Quem o escutou? Quem o escuiti-1? (...)1\enlrunn de meus outros livros me ocupou durante tanto tempo como O zv/cão; o uaballio, iniciado no outono de 1937, foi concluído um ano e meio depois, na prirnaven de 1939... (Maus nlarun, DÉ~r Mendcpunkt, op. cif., pp. 400 - 402) Sem dúvida, um período de gestação extraordinariamente longo para um escritor acostumado a escrever romances de extensão regular em poucos meses. -'5. Cf. Maus.11ann: Bdefe undAnu~n, 1937-1949, Munique, Ellermann, 1975, pp. 78-84. 23 de 1941, decide incorporar-se ao exército americano. Enquanto dura o lo go processo de sua aceitação pelas autoridades militares2~, HIaus Mann centra seus esforços na redação de uma autobiografia, cuja primeira ver seria publicada em inglêsZ~ com o título The turning point. Thirty-fzve ye in this century. Por fim, depois de ser rejeitado em várias ocasiões, ele é co votado pelo exército americano em 28 de dezembro de 1942. Em janeiro ano seguinte inicia sua formação em diversos acampamentos militares d Estados Unidos (Arkansas, Maryland, Missouri), e em dezembro, quase mesmo tempo em que obtém a nacionalidade americana (naquela época não tinha mais a condição de apátrida, poisem 1937, três anos depois de der a nacionalidade alemã, havia se convertido em cidadão tcheco-eslova embarca para a África do Norte. Depois de ser enviado a Marrocos e Túni acompanha as tropas aliadas que começam a liberação da Itália. É mandado organização a~tglo-americana Psychological Warfare Branch, o departame to de guerra psicológica do exército aliado. Seu trabalho consiste em redig material de propaganda utilizado para minar a resistência moral das trop alemãs. Em princípios de março de 1945 começa a colaborar em Stars a Stripes, o jornal do exército americano. Logo depois da derrota alemã viaj como correspondente especial do jornal pela Áustria e pela Alemanha. Em 28 de setembro de 1945 termina seu serviço no exército. Ao long dos anos seguintes passaria temporadas mais ou menos longas na Suíça Amsterdã, Califórnia, Nova York ou Roma, fazendo trabalhos, geralmenr em períodos curtos, jornalísticos ou editoriais e cuidando da publicação d versóes alemãs de seus últimos escritos. Suas visitas à Alemanha são sempr breves e espaçadas: ele achava insuportável o ambiente moral e intelectu da Alemanha do pós-guerra, uma Alemanha que, em sua opinião, continua va marcada pelas mesmas taras que haviam gerado a vitória do nacional-so cialismo e a loucura da guerra. Por outro lado, ele vê como se desvanece 26. Deixando de lado outros tipos de dificuldades, a polícia americana considerava suspeitas as atividades do German-American Relief Commitee for Victims of Fascism, organizaçào da qual Klaus era membro e cuja finalidade era buscar refúgio em países americanos para pessoas ameaçadas pelos regimes ditatoriais europeus, mas que para o serviço secre• to americano não passava de um pretexto para reacomodar comunistas europeus em naçòes latino-americanas. Assim, o FBI fez, entre 20 de maio e 4 de junho de 19#2, uma investigação das atividades públicas e privadas de lílaus Diann. O relatório, de 29 páginas, foi remetido às instituiçòes militares americanas; cf. Fredric ICroll, Trauma Anaer-ika, Wiesbaden, Blahak, 1980, p. 372 e ss. 27. Atc meados de 19~í0, Rlaus D-tann começa a redigir pane de seus textos em inglës; cf. Içlaus illann, IOer lüeradeprazkt, op. cit., p. d28 e ss. 24 suas esperanças de que depois da guerra surgisse um novo entendimento internacional baseado numa `república universal, e como vão se definindo as posições que conduziriam ao impasse da Guerra Fria. A aliança na paz entre as democracias ocidentais e a União Soviética, utopia çom que havia sonhado ao longo de todo o exílio como a única salvação diante da `catástrofe total e final, se mostra inviável. Em seu último ensaio, "Die Heimsuchung des europeischen Geistes" ("O açoite do espírito europeu"), publicado postumamente, comentava, com amargura, sua desilusão: "A luta entre as duas superpotências antiespirituais - o dinheiro americano e o fanatismo russo -já não deixa espaço para independência e integridade intelectual", e afirma que "onda de suicídios de que foram vítimas os espíritos mais destacados e celebrados tiraria os povos de sua letargia", fazendo com que "entendessem a mortal gravidade do açoite que o homem atraiu sobre si por causa de sua estupidez e egoísmo". Em 21 de maio de 1949, depois de uma tentativa fracassada de suicídio no ano anterior, Klaus Mann morre em Carmes de uma overdose de soníferos. É evidente que seu crescente pessimismo diante da situação política não foi a causa desencadeadora de seu suicídio, como bem observa seu irmão Golo: "Urna série de causas heterogêneas, preocupações políticas e sociais, falta de dinheiro, pouca repercussão, abuso das drogas28, tudo isso se soma, mas irão constitui o todo que foi neste caso sua morte. A inclinação à morte esteve presente nele desde o princípio, jamais pôde ou quis envelhecer, havia chegado ao fim; condições mais favoráveis teriam prolongado um pouco sua vida, mas só um pouco mais. Com isso não se explica nada, só se constata alguma coisa. Isso também não explica a tese de que fracassou pelo pai. Esta identidade fracassou depois de uma vida curta, poucas vezes feliz, mas intensa e também criadora; identidade que, com outro pai, também teria sido diferente"z~. 28. Maus vlann era viciado em drogas, sobretudo a morfina, desde seus tempos de juventude. Poucos dias antes de sua morte havia sírio internado numa clínica de Niza para se curar de uma intoxicação devida à adulteraçâo da droga que usou. 29. Golo \iann, op. cit., p. 350. 25 BIBLIOGRAFIA Obras de Maus Mann Vordem Leben. Erzrihlungen, Hamburgo, Enoch, 1925. Anja und Esther. Ein romantisches Stück in sieben Bildern, Berlim, Oesterheld, 1925. Revuezu Vieren. Komódie in dreiAkten, Berlim, Oesterheld, 1926. Kindernovelle, Hamburgo, Enoch, 1926, nova edição em S. Fischer, 1978 [versão espanhola: Novella d inf nt, Laertes, 1981; tradução de Clara Tàpies]. Der fomrne Tanz. Das Abenteuerbuch einerjugem4 Hamburgo, Enoch, 1926, nova edição em Rowohlt, 1986. Heute und Morgen. Zur Situation des jungen geistigen Europas, Hamburgo, Enoch, 1927. Abenteuer. Novellen, Leipzig, Reclam, 1929. RundUrum. Ein heiteres Reisebuch, Berlim, S. Fischer, 1929 (escrito em colaboração com Erika Mann), nova edição em Rowohlt, 1982. Gegenüber vort China. Komõdie in sechs Bildern, Berlim, Oesterheld, 1929. 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Roman einer Karriere (Mefisto), Amsterdã, Querido, 1936, nova em Rowohlt, 1981 [versão espanhola: Mefisto, Salvat, 1986; tradução de celi Castro Martínez. Versão espanhola: Mefisto, Leteradura, 1982; tradu Feliú Formosa TorresJ. Uegittezres Fenster. Novelle um den Tod des Kónigs Ludwig II von Bayern, Amst Querido, 1937, nova edição em Nymphenburger Verlagshandlung, 1972, Der I~ulkan. Roman unter Emigrantes, Amsterdã, Querido, 1939, nova ediçá~ Rowohlt, 1981. Escape to Life, Boston, Houghton Mifilin, 1939 (escrito em colaboração com Mann). The other Germany, Nova York, Modern Age Press, 1940 (escrito em colabo com Erika Mann). The TurningPoint. Thirty-five Yeazs in this Centuzy, Nova York, L. B. Fischer, 1 nova edição em Markus Wiener Publishing, 1984 (versão alemã: Der We punkt. Ein Lebensbericht, Hamburgo e Frankfurt, S. Fischer, 1952, nova ed em Rowohlt, 1984). 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Der Schrifsteller und das politische Engageme Munique, Ellermann, 1985 (seleção de ensaios políticos literários organiza por Michel Grunewald). Letztes Grespr~ich. Ezxühlungen, Berlim e Weimar, Aufbau, 1986 (seleção de artig~ organizada por Friedrich Albert). Tagebücher 1931-1933, Munique, Spangenberg, 1989 (edição da primeira pa dos diários, organizada por Joachim Heimannsberg, Peter Laemmle e Wilfri F Schoeller). 28 Seleção de estudos e ensaios sobre Klaus Mann h,JpNN, Golo. Erinnerzzngen an meinen Bruder Klaus, em Klaus Manrr. Briefe und Antzvorten, 1937-1949 op. cit., pp. 319-351. SPANGENBERG, Eberhard. Karnere eives Romans. Mephisto, Klazts Manzz zznd Gz staf Gründgens, Munique, Ellermann, 1982. GR~INEW~D' Michel. KlausMann 19061949, Berna, Peter Lang, 1984. NAUMAN> Uwe. Klaus Mann mit Selbstzeugnisse und bilddokumente, Rowohlt, 1984. 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Apareceu em agosto desse mesmo ano pela editora Queri do, de Amsterdã, para a qual Maus trabalhou durante diversos períodos de sua vida, e também no jornal de imigração Pariser Tageszeitung, como um folhetim. Foi, além disso, uma das primeiras obras do autor traduzida para outro idioma (já em 1936 aparece a versão inglesa, com o título de lourney finto freedom, na editora nova-iorquina de Alfred A. Knopf). A obra está construída basicamente sobre duas experiências-pessoais: as vivências de seu primeiro ano de exílio e uma viagem à península escandinava durante a qual visita a fazenda finlandesa Ruhala, propriedade de seu amigo Hans Aminoff (o Ragnar do romance), de julho a agosto de 1932, quer dizer, uns dez meses depois de iniciar a imigração. Essa viagem foi feita depois de uma das experiências mais traumáticas da juventude de Klaus Mann: o suicídio de um amigo de infância, Ricki Hallgarten. A comparação do romance com os diários 0 e as cartas não deixa dúvida de que a passagem de Maus pela Finlândia dá muito mais que o contexto geográfico da ação: contribui com uma parte essencial dos materiais do romance, até o ponto em que é possível encontrar nos diários não só as situações e os modelos dos personagens, mas até expressões e fatos menores que posteriormente se incorporaram em Fuga para o Norte3'. 30. Klaus Mann, Tagebücber, op. cit., p. 65 e ss. 31. Por outro lado, segundo informa o estudioso da obra de Klaus Mann, Martin GregorDellin. existe mesmo um esboço da viagem à Finlândia que o escritor utilizou como fase Prévia da redação do romance (cf. o epílogo de Martin Gregor-Dellin em Klaus Mann, Fuga parir o Norte, Rowohlt, 1977, p. 244 e ss.). 31 Nesse sentido, Klaus Mann inventou muito pouco, limitando-se a dar personagens e acontecimentos os retoques suficientes para colocá-los nu linha narrativa. Não se trata em absoluto de um expediente literário n para o autor, que começou a utilizá-lo em suas primeiras narrativas - professor Pauli Geheeb, de quem falamos no princípio desta introdução, cou muito chateado com o retrato dele feito em DerAlte (O velho) numa narrativas de seu primeiro volume- e que continuou fazendo até seus úl mos romances. Tão facilmente reconhecíveis são os modelos dos perso Bens que a publicação de Fuga para o Norte levantou suspeitas entre os an triões de Klaus, que com tanta fidelidade ali se viam retratados; Thom Mann - que conhecia muito bem este tipo de problemas depois dos es dalos originados pela publicação do livro Os Buddenbrook- já havia avi do seu filho sobre as dificuldades que logo surgiriam32. Para Klaus Man registrar suas experiências em obra narrativa da forma mais direta era u técnica habitual; escrevia com grande facilidade e rapidez seus romanc pois como afirmou, se referindo a Fuga para o Norte, as situações e figu pareciam "estar já prontas" dentro dele quando escrevia (prova dessa técni quase de transcrição de suas vivências são os manuscritos de seus roman em geral e de Fuga para o Norte muito em particular: em geral o que se vê s escassos retoques ou correções, mínimos no caso do livro que comentamos A concepção original e dominante do romance responde à descrição d experiências paralelas do amor e do tédio vital, a faceta "mórbida, erótica macabra" do autor mais que àquela "moral, política e luta", para repetir palavras de Thomas Mann; contudo, como conseqüência do exílio, "a pol rica e a luta" se superpõem a este primeiro estrato do relato durante a red ção do romance. Em 1934, Klaus Mann anunciava assim a publicação Fuga para o Norte: "Faz vinte anos, este livro talvez tivesse resultado `s numa história de amor; a aventura entre duas pessoas - Ragnar e Johan - teria sido seu único tema. Hoje é também uma história de amor... taly possamos dizer: antes de tudo uma história de amor. Mas nela alguma coi diferente entrou, por trás dela há algo mais, alguma coisa que lança sombr e luzes, perturba e ao mesmo tempo eleva o decurso do destino particular atrás estão as exigências do dia. Se não se deixaram sentir no meu livro, e 32. Cf. a carta de Thomas Mann de 14 de abril de 1934, em Klaus Mann: Briefe mul Antu+o fe~~, 1922-1937, op. cit, p. 174. 32 então só me atreveria a classiftcá-lo de `interessante"'ss. Contudo, é evidente que esses hiperbólicos vinte anos de que fala Klaus Mann nem sequer completam um ano, e que esse "algo mais" desempenhava um papel secundário no próprio planejamento do romance, como se depreende dos esquemas utilizados para sua redação. Embora esteja claro que Fuga para o Norte está escrito sob as mais recentes impressões do exílio - não gratuitamente se trata de uma das primeiras entre as numerosas obras que procuravam dar forma literária à experiência da imigração política-,tem sua origem, insistimos nisso, eln experiências anteriores, numa época não muito longe na qual para Klaus Mann as tarefas políticas não tinham, de modo nenhum, a urgência que adquirem depois do exílio. O momento de transição que o próprio autor atravessa durante os meses em que redige Fuga para o Norte deixa patente o desequilíbrio dos planos narrativos da obra, na qual Klaus Mann não consegue assimilar completamente sua temática habitual (apresentada no personagem de Ragnar, e refletida também nos momentos em que em Johanna aflora uma falta de vontade de viver mais funda e quase mais Forte que sua entrega ao comunismo), motivos políticos e sociais até então só esboçados em sua obra literária. As "exigências do dia", as responsabilidades do exílio, são introduzidas no relato por meio do personagem da jovem comunista Johanna, cujo modelo, a escritora Anne-Marfe Schwarzenbach, membro de uma família pa trícia de Zurique, também havia se unido voluntariamente à imigração alemã (em agosto de 1934, poucos meses depois de concluído o romance, Anne-Marfe Schwarzenbach acompanha Klaus Mann ao congresso de escritores soviéticos em Moscou). Essas exigências se desenvolvem no romance, fundamentalmente, em dois planos: por um lado, no confronto de Johanna com dois personagens - Jens, o irmão menor de Ragnar, e Suse, a criada da família que acolhe Johanna - que representam dois tipos distintos de adesão ao fascismo. Jens, o estrangeiro vinculado ao movimento de direita radical de seu próprio país, mostra um cipo de admiração pela Alemanha que IClaus viu com freqüência no estrangeiro: para Jens, segundo se II1SIIlua Il0 primeiro capítulo e se expressa abertamente no quinto, o que a Alemanha tem de valioso e admirável é justamente aquilo que propicia o desellvolvimento do nacional-socialismo, aquilo que obriga Johanna a se exilar. A senhorita Suse, alemã, se caracteriza por uma ingênua estupidez, re 33. alado em Dlanin Gregor-Dellin, op. cit., p. 248. 33 presenta esse apoio irrefletido ao movimento de Hitler tfpico de ce ses populares às quais o nacional-socialismo consegue atingir apelara seu `orgulho nacional'. O outro plano, muito mais relevante, é o do entre o dever e o amor. Do capítulo quarto em diante, a paixão por distrai completamente Johanna, comunista totalmente devotada à cia, às suas tarefas políticas. Podíamos dizer que o abandono do que a ra orientava e encaminhava sua vida, o que constituía seu `norte', e uma expressão paradoxa na viagem ao norte que fazem os dois amant versão definitiva do romance, Johanna recuperará num último extra salvífico sentido do dever (o autor havia esboçado uma conclusão di para o livro: nela, Johanna acaba cedendo à tentação do suicídio). Como podemos ver, o romance está construído sobre o dilema próprio autor enfrentaria depois dos primeiros sucessos do nacionalmo: por um lado, o compromisso ético e político, a atividade antifascis outro, o elemento individualista, o niilismo, o desejo de morte, prese desde o princípio e que em seu próprio caso conseguiu se impor, ao ca do que ocorre com a heroína de seu relato, apoiada por um comunis próprio esquematismo e escassa força de convicção deixam entrever o estava isolado o escritor, como Ihe faltavam apoios semelhantes. 34 O navio já estava parado há alguns minutos. As pessoas, amontoadas, desciam pela escada estreita. Embaixo, no cais, eram recebidas com muitos cumprimentos, beijos e abraços. Os que chegavam logo se misturavam aos que esperavam, todo mundo fazia gestos, gritava, reinava uma grande confusão de vozes e risos. Também se derramavam lágrimas de felicidade, pois havia gente que passara muito tempo fora, em países longínquos, e agora voltava à pátria nórdica. A alegria geral, quase embriagada, que sempre produz a chegada de um navio, se somava ao prazer de um radiante dia de verão. O céu e a água eram igualmente azuis, o vôo das gaivotas, em cuja agitada plumagem brilhava a luz, de uma beleza arrebatadora. A jovem chamada Johanna' ainda não decidira sair do navio. Estava na coberta e procurava com os olhos, na multidão embaixo, uma amiga que não encontrava. Era provável que Karin nem sequer tivesse vindo, pensava, e sua desilusão era tão grande que já nem queria se mexer, sair do lugar. Mas então descobriu Karin entre aqueles que faziam sinais com os braços. Tranqüila, séria e digna em meio ao povo barulhento, talvez já tivesse descoberto Johanna fazia tempo entre os passageiros da coberta, mas só agora sorria, quando 0 olhar de Johanna reparava nela. Este sorriso suave e sério era muito familiar a Johanna; ela o conhecia há muito tempo, e isso lhe provocou emoção e bem-estar. Cruzou rapidamente a ponte e desceu a rampa intermediária, entregou ao empregado na entrada sua passagem, e desceu pela passarela inclitlada do ~h~ Personagem central do romance, Johanna, é um retrato da escritora suíça Ame-D-lane rzenbach-Clarac (1908-1942), íntima amiga de Etika e Iílaus i\Iam (cf. introdução). 35 presenta esse apoio irrefletido ao movimento de Hitler típico de certas ses populares às quais o nacional-socialismo consegue atingir apelando seu `orgulho nacional'. O outro plano, muito mais relevante, é o do confl entre o dever e o amor. Do capítulo quarto em diante, a paixão por Ra distrai completamente Johanna, comunista totalmente devotada à milit cia, às suas tarefas políticas. Podíamos dizer que o abandono do que até ra orientava e encaminhava sua vida, o que constituía seu `norte', encon uma expressão paradoxa na viagem ao norte que fazem os dois amantes. versão definitiva do romance, Johanna recuperará num último extrem salvífico sentido do dever (o autor havia esboçado uma conclusão difere para o livro: nela, Johanna acaba cedendo à tentação do suicídio). Como podemos ver, o romance está construído sobre o dilema qu próprio autor enfrentaria depois dos primeiros sucessos do nacional-social mo: por um lado, o compromisso ético e político, a atividade antifascista; outro, o elemento individualista, o niilismo, o desejo de morte, presente n desde o princípio e que em seu próprio .caso conseguiu se impor, ao contrá do que ocorre com a heroína de seu relato, apoiada por um comunismo c~; próprio esquematismo e escassa força de convicção deixam entrever o quan estava isolado o escritor, como lhe faltavam apoios semelhantes. 34 O navio já estava parado há alguns minutos. As pessoas, amontoadas, desciam pela escada estreita. Embaixo, no cais, eram recebidas com muitos cumprimentos, beijos e abraços. Os que chegavam logo se misturavam aos que esperavam, todo mundo fazia gestos, gritava, reinava uma grande confusão de vozes e risos. Também se derramavam lágrimas de felicidade, pois havia gente que passara muito tempo fora, em países longínquos, e agora voltava à pátria nórdica. A alegria geral, quase embriagada, que sempre produz a chegada de um navio, se somava ao prazer de um radiante dia de verão. O céu e a água eram igualmente azuis, o vôo das gaivotas, em cuja agitada plumagem brilhava a luz, de uma beleza arrebatadora. A jovem chamada Johanna' ainda não decidira sair do navio. Estava na coberta e procurava com os olhos, na multidão embaixo, uma amiga que não encontrava. Era provável que Karin nem sequer tivesse vindo, pensava, e sua desilusão era tão grande que já nem queria se mexer, sair do lugar. Mas então descobriu Karin entre aqueles que faziam sinais com os braços. Tranqüila, séria e digna em meio ao povo barulhento, talvez já tivesse descoberto Johanna fazia tempo entre os passageiros da coberta, mas só agora sorria, quando o olhar de Johanna reparava nela. Este sorriso suave e sério era muito familiar a Johanna; ela o conhecia há muito tempo, e isso lhe provocou emoção e bem-estar. Cruzou rapidamente a ponte e desceu a rampa intermediária, entregou ao empregado na entrada sua passagem, e desceu pela passarela inclinada do l personagem central do romance, Johanna, é um retrato da escritora suíça Anne-\-Iarie Schw.+,zenbaclr-Clarac (1908-1942), íntima amiga de Erika e Maus Mann (cf. introdução). 35 desembarque tão apressada que tropeçou e quase caiu. Corria como um roto que finalmente pôde sair da escola. Seu cabelo, agora ondulado na fre te, era como o de um menino. A certa distância podia ser confundida co um jovem bacharel. Sob a saia curta de linho tinha os joelhos desnudos. S alegria por deixar aquele barco era enorme. E não era só o navio que deixa para trás, ao descer de forma tão atabalhoada e com tanto entusiasmo a p sarela. Em sua viva alegria se misturava um pouco de medo: o que começa agora? Karin segurou a apressadinha. - Aqui estás! - disse com voz um pouco velada, doce e profunda. J hanna abraçou e beijou Karin. -- Que bom que você veio! - exclamou, ainda abraçando Karin. D pois, um pouco envergonhada por essa manifestação de ternura, coisa po co comum entre as duas, acrescentou: - Eu poderia ter ido a sua rasa de trem, tinha anotado comigo as baldea Karin perguntou pela bagagem de Johanna. Não encontraram um ca regador naquele momento. Era preciso passar pela alfândega as duas mod tas maletas de mão. Johanna estava muito decepcionada e confusa, e Kari precisou se encarregar de tudo e dirigir as formalidades. Com toda sua d çura e indolência, era enérgica e hábil. Com o funcionário da alfândega fala va um idioma totalmente estranho e confuso, e Johanna não imaginava qu algum dia pudesse entendê-lo ou então nele se expressar. Johanna, atrapa lhada e confusa, estava perto de Karin, que agia com decisão e tranqüilida de. Por fim, despacharam as maletas, e Karin indicou ao carregador o carr aonde levá-las. Era o mesmo carro com que Karin havia estado o ano passa do na Alemanha; um veículo pouco atraente, de quatro lugares, verde, co berro de manchas e pó. - Ainda o velho e bom calhambeque - disse Johanna com um olh de aprovação enquanto subia. Era ótimo ter Karin de novo junto a si e ao volante. Ninguém dirigi com maior segurança e de forma mais confiável que a amiga. Johanna a o servava divertida, com admiração, com o rabo dos olhos; como lhe impres sionava essa atitude indolente e contida, como amava esse rosto moreno sensível e ao mesmo tempo fechado, com seus olhos bons de cor indefinida (Eram cinza-escuros meio para o castanho? Ou eram castanho-claros, às ve zes com um tom azul-escuro?) Johanna já não sentia seu enorme cansaço seu desassossego e seu esgotamento nervoso. A proximidade de Karin a re 36 confortava e fortalecia, e por isso não tirava os olhos da amiga e não prestava atenção à cidade estrangeira que percorria ao lado dela. - Aonde vamos? - perguntou. -Ao hotel? Karin, ao volante, fez que não com a cabeça. - Temos uma casa aqui - disse. Johanna não sabia disso. - Uma casa na cidade? Mas você sempre fica na fazenda... Karin sorriu, sempre sem olhar Johanna, os olhos fixos no caminho. - Sim - disse -, estamos quase todo o ano fora. A casa costuma estar sempre fechada, mas a utilizamos algumas semanas no inverno... Além disso, qualquer um de nós pode vir aqui uma vez por semana - acrescentou, um pouco pensativa, depois de uma pausa. Johanna, que olhava Karin quase sem parar, como se fosse a única maneira de se agüentar, olhou agora a rua. Era um bulevar amplo e luminoso; naquele instante passavam perto de uma igreja, cuja sóbria pintura branca, na base de cal, produzia um estranho contraste com as formas bizantinas de suas cúpulas. Quanto ao resto, era a primeira vez que Johanna reparava como era silenciosa a cidade apesar do tráfico pesado. Os carros deslizavam sem barulho uns juntos aos outros. Faltava alguma coisa. Johanna perguntou a Karin o que era. - Aqui é proibido tocar a buzina - explicou Karin. - Sim, aqui não se pode fazer nenhum sinal, coisa muito razoável, porque assim se dirige com mais cuidado. Ela, contudo, dirigia bem depressa. Agora brecou bruscamente: estavam numa rua elegante e silenciosa. Havia um parque diante das fachadas das vilas e elegantes casas de aluguel. Com grande habilidade, Karin havia estacionado de frente logo na primeira tentativa, perfeitamente alinhada com a guia da calçada. - Como manobrei bem - disse, e sorriu contente. Desceram e cruzaram a calçada. A rua estava deserta; só havia uma garotinha na frente da casa diante da qual haviam parado, uma menina com olhos de rato, escuros e rasgados, que brincava de pular corda. Vestia uma blusa amarelo-berrante e sandálias marrom-claras, que faziam um barulho agradável ao baterem contra o chão. Johanna sorriu para a menina, mas esta a olhou de um jeito sério e esquivo. - É curioso o aspecto mongolóide que aqui têm as pessoas - disse Johanna a Karin, que enquanto isso já havia encontrado as chaves da casa. - Essa menina podia perfeitamente passar por chinesa. 37 - Mas eu sou japonesa - respondeu a garotinha num berlinês p embora reticente e quase com enfado, com uma careta de desagrado. Johanna levou um susto, como se um passarinho tivesse falado, e além so em berlinês, coisa que não lhe trazia nenhuma boa lembrança. Karin riu. - É a filha do cônsul-geral do Japão - disse, e a menina concordou ria. - Ela veio de Berlim para cá. Vamos, entre. Karin subiu os primeiros degraus; Johanna voltou a olhar a menina instante. Era uma escada pomposa, agradavelmente fria depois do calor do Ia de fora. Johanna só percebeu o ar opressivo da rua ao receber, agradecida, frescor do interior da casa. - Faz calor aqui no norte - disse a Karin, que subia a escada depr não correndo, mas com passos regulares e ágeis. - No verão sim - respondeu Karin, virando a cabeça e sorrindo, s deixar de subir. Johanna, que logo se sentiu cansada, olhou uma vez mais, com cari e admiração, o passo elástico e rápido da amiga antes de começar a subir escadas. Deu uma corridinha e depois passos largos, subindo os degraus dois em dois. Não havia esperado que seus passos ressoassem daquele mo (os de Karin eram muito mais silenciosos). Não havia tapete sobre os d graus de pedra; era aquilo que dava à ampla e suntuosa escada o caráter um certo vazio insípido, de um abandono ainda nobre, mas já suspeito: entrada era como a de um castelo cujos senhores já não podiam mantê-lo d acordo com sua categoria social; continua sendo magnífico, mas uma fal de comodidade e clima acolhedor que não é possível ignorar começa atra de forma inquietante a proximidade da decadência. A moradia que a família utilizava como alojamento ocasional na capit era muito grande. Karin conduziu Johanna por um corredor e através de vá rios quartos amplos nos quais, cobertos por lençóis brancos, havia poltro nas, mesas redondas de chá, canapés e aranhas. - Este é o salão - explicava Karin ao passar. - Essa é a sala de jantar, Este aqui foi o gabinete de trabalho de papai. Nos quartos frios e semi-escuros o cheiro era de naftalina e pó, as gelo sias abandonadas. Num quarto - aquele ao qual Karin havia se referid como antigo gabinete de estudo de seu pai - a fenda nos contraventos fé., caados permitia que entrasse um belo raio de sol que caía de forma oblíqua como um refletor amarelo. Em sua trêmula claridade dançavam como inse 38 tos as partículas de pó. Na parede situada diante da janela aquele raio caía sobre um quadro cuja paisagem animava de forma surpreendente. Um prado medianamente pintado - nela uma jovem mulher com vestido vermelho cuidava de umas ovelhas - se convertia no único ponto vivo, na única realidade desse lugar morto, oniricamente deserto. Karin abriu uma ampla porta branca; entraram num quarto menor no qual havia luz. - Eu moro aqui - disse. - Meu quarto era contíguo ao gabinete de trabalho de papai. O quarto de Karin estava arrumado com muita austeridade: uma cama, a cômoda branca, o armário com espelho, um par de cadeiras simples. Karin sentou na cama e acendeu um cigarro, - Você quer um chá? - perguntou, e sorriu a Johanna. - Posso fazer um rapidamente. Johanna sentou, sem responder, ao lado dela. - Estou terrivelmente cansada- disse, e fechou os olhos. - Da viagem? - perguntou Karin. Johanna, que não respondeu de cara, abriu os olhos depois de alguns segundos, como se estivesse a ponto de dormir ali mesmo, de imediato, ou de perder a consciência. - Não só da viagem - disse num tom como se lhe custasse.muito trabalho admitir isso. - Eu sei - disse Karin com voz profunda e delicada. Acariciou levemente os ombros de Johanna, caídos triste e cansadamente para a frente. Johanna se levantou. "Vou começar a chorar", pensou, e logo se aproximou da janela, diante da qual ficou parada. Olhou a pacífica e elegante rua do parque. Com todas suas forças tratou de concentrar seus pensamentos naquela vista agradável. Mas diante dos olhos tinha outra coisa. Apertou as mãos até doer. - Foi muito duro? - perguntou Karin ainda sentada na cama. - Não vamos falar disso - respondeu Johanna, quase com raiva. Fazia um ano que não se viam, e só tinham trocado algumas cartas nesse período, que para Johanna havia sido muito agitado. Mas as duas lembravam de uma amizade grande e firmemente assentada, embora tal amizade só tivesse tido seis meses para crescer e se consolidar: os seis meses que Karin estudou em Berlim. Havia conhecido Johanna na universidade, onde estudava economia política, enquanto Karin se matriculou no curso de história 39 da arte. As duas se encontraram num curso sobre filosofia e várias vezes taram juntas - um pouco por casualidade, um pouco a propósito - a de se falarem pela primeira vez. Depois começaram a se ver diariamente, que Karin precisou ir embora às pressas para o norte, logo depois de re um telegrama. Era a notícia do acidente fatal de seu pai, que mudou t Johanna acompanhou Karin ao porto do norte da Alemanha - de on saíam os navios para o norte - e viu a amiga primeiro paralisada pela depois desfeita em lágrimas. Então, no trem, Karin lhe contou pela prime vez de sua família: da fazenda em que vivia, de seus irmãos e de sua mãe. então não havia dito nada sobre tudo aquilo, talvez uma só vez, mas mui por cima, referindo-se à paisagem ampla e deserta de seu país, mencionan seu pai com algumas palavras de carinho. A dor por essa perda foi terrí para ela; ainda no ano seguinte se sentia essa dor nas suas escassas e br, cartas. Quando Karin e Johanna se separaram não sabiam ainda que o laço e tre elas tinha ficado tão forte. Perceberam isso quando não se viam ma Pensavam muito uma na outra apesar da distância e de ocupadas com amargos acontecimentos de sua própria vida. Johanna desenvolveu, lo em seguida à partida de Karin, uma atividade cada vez mais decidida, vale te e radical num âmbito em que antes só tinha tido um interesse geral e dil tante: o político. Entrou para um grupo de estudantes comunistas, fez tr balhos de propaganda, falou em assembléias; tudo isso se devia não só ao s crescimento interior e açontecimentos intelectuais, mas também, sobret do, à nova e vigorosa relação que a uniu com um dos amigos de seu irmã mais velho, Georg. Até aquela época ela estivera afastada do círculo radical e intoleran formado em torno de seu irmão, escritor filosófico e socialista militant Encontrou-se pela primeira vez com o jornalista, orador e esportista Brun fora de seu círculo político. Sua amizade com ele a aproximou também d seus correligionários, e com isso de seu irmão. Em poucas semanas, partici pava energicamente da vida política, cada dia com maior dedicação. Assim, a catástrofe que se abateu sobre sua pátria nos primeiros mes do ano seguinte a pegou da forma mais pessoal e radical. Seu irmão e algun de seus amigos, Bruno entre eles, puderam fugir para o exterior; outros fo ram detidos, outros assassinados. Ela precisou se esconder. Foi encontrada posta de novo em liberdade, e embora não quisesse ir embora, abandona seu posto, sobre ela pairava a ameaça de uma nova prisão; foi advertida 40 teve que usar os papéis falsos que tinha à sua disposição: abandonou a Alen,anha. Por meio de um camarada, mandou de Estocolmo a carta com a qual informava Karin de tudo. - Não vamos falar disso agora - disse Johanna. - Agora não, mais tarde. - Karin não continou perguntando. Tocou suavemente, por trás, cora as duas mãos, as costas de Johanna. -Agora relaxa. Johanna por fim se esticou na cama; Karin estendeu um cobertor sobre seus pés e colocou um travesseiro sob sua cabeça. Sentou perto dela. - Meu irmão Jens está hoje na cidade - disse -, é meu irmão mais novo, que está aprendendo agricultura na fazenda. Alguém tem que fazer isso. Ragnar não vai aprender nunca. Riu um pouco, mas a coisa não soou muito bem. - Onde está Ragnar? -disse sonolenta Johanna, que tinha fechado os olhos. -- Também quer vir à cidade - explicou Karin -, mas ontem teve novo problema com seu carro. Caiu numa valeta, acontece às vezes. É muito engraçado dirigindo. Riu e Johanna riu com ela. - Por que não vamos então com você, com os olhos fechados. Karin não respondeu, só deu de ombros. Levantou-se e começou a fazer outras coisas, primeiro no dormitório, depois em outros cômodos da casa, provavelmente na cozinha. Johanna ouviu tilintadas e ruídos surdos; adivinhou pelo barulho que Karin preparava chá e colocava prataria na bandeja. Enquanto Karin ia de um lado a outro cantando baixinho, abrindo ali uma gaveta, estendendo aqui uma toalha, Johanna mantinha os olhos fechados. Não dormia, mas a sensação era gostosa, como a que precede a um bom sonho. Se sentia maravilhosamente protegida com a proximidade de Karin. Existia uma segurança quase misteriosa em todas as palavras e movimentos de Karin, uma presença de ânimo delicada e uma decisão amável, como se nada pudesse afetá-la seriamente, e estivesse sob o amparo de toda confusão graças a um talismã especial, que funcionava de modo silencioso e poderoso. Enquanto bebiam chá, bateram na porta. Karin se levantou. - Deve ser Jens - constatou. - Sim, queria vir pegar a gente. no seu carro? - disse, sempre 41 Foi abrir a porta para seu irmão. Logo que entrou, ouviu-se sua voz nora e jovial. Falava sueco com Karin. Johanna, que ainda estava na com Karin havia deixado a xícara e o pratinho com biscoitos numa mesinh lado da cama -, se levantou para não recebei o irmão de Karin como se se uma doente. Ele entrou no quarto rindo e falando. Vestia um terno d suave, de cor clara, largo nas costas, grosso e alto. A primeira coisa que hanna observou nele foi um bigodinho louro claro, aparado à inglesa. El movia com uma desenvolcura que denunciava sua vaidade, e só tirou mãos do bolso quando cumprimentou Johanna. - Esta é minha amiga Johanna - disse Karin, acariciando o cabelo amiga com a ponta dos dedos. - Encantado, ouvi falar muito de você - disse Jens, e se inclinou cadamente. O alemão que ele falava tinha um sotaque ligeiramente americano. N se momento Johanna sentiu, pela primeira vez, constrangimento diante fato de que por sua culpa se tivesse que falar uma língua estrangeira. Na co versa com Karin sempre lhe havia parecido natural, quase nunca havia ou do a amiga falar outro idioma que não fosse o alemão. Ela própria não sã sueco, e muito menos o estranhíssimo idioma do país, que parecia húnga e que não era, na verdade, a língua materna de Karin e sua família, de o gem sueca. Karin serviu chá a Jens e sentou ao lado de Johanna na cama, depois pedir licença rindo. Era um homem bonitão, e até teria agradado muito Johanna não fossem seus modos barulhentos, que a irritaram um pouc Além disso, fazia muitas perguntas diretas, não mostrava muito tato. - Então, esta não é urna viagem de turismo, você veio para cá fugind da Alemanha? - perguntou, alegremente. Johana o encarou surpresa; viu em seu rosto uma expressão de desa mante ingenuidade. Tinha grandes olhos, azul-claros, um pouco saltado com umas sobrancelhas ralas e da cor do trigo. Não lhe ficava bem seu cab lo ruivo, que ao natural talvez fosse bonito e riçado, naquele corte com ris todo arrumadinho; dos lados e na nuca o cabelo fora cortado bem curtinh (na verdade, um corte bem alemão, pensou Johanna). Seu rosto estava ligei ramente avermelhado, forte, viril, com um nariz reto, uma boca muito ver melha e uma barbinha enérgica, talvez um pouco pesada. Quando de nov deixou sua xícara de chá na mesinha, Johanna reparou que tinha os braços muito grandes. Johanna lhe respondeu. 42 Sim - disse -, de fato, tive que sair rapidinho. Você tem um passaporte? - perguntou Jens. Vim com um passaporte falso. _ Você é judia? - Jens perguntou com uma cara desconfiada. que levava a bandeja do chá, deu uma risadinha. Johanna, contudo, nuou séria. - Talvez não seja ariana. - O que significa isso? - perguntou Jens, não com ironia, mas sim com curiosidade. - É uma coisa que ainda não se conhece bem - respondeu Johanna. - Pode acontecer com qualquer um. -- Mas você foi educada como cristã? - indagou Jens, com certa severidade na voz. Johanna teve que admitir isso. - Então você é cristã - afirmou Jens. Johanna disse, desviando os olhos repentinamente, com cansaço e certa repugnância: - Trata-se da raça, do sangue. Jens fez uma pausa respeitosa, enquanto parecia refletir. Finalmente, teimoso, disse: - Mas você é loira. Johanna não pôde evitar o riso. - Sim, se esse fosse o caso... - Estive uma vez na Alemanha - explicou Jens com lentidão e seriedade -, faz dois anos. Fui a Berlim, Heidelberg e Nuremberg. É um belo país, muito respeitável; romântico, mas muito respeitável. Sim, sempre fui a favor da Alemanha. Ragnar sempre foi contra a Alemanha - disse, dando com os ombros. - Seja como for - afirmou concluindo -, tudo o que acontece na Alemanha tem que ter um certo sentido. Na Alemanha não acontece nada sem sentido ou sem razão. Johanna não sabia ó que responder. Estava confusa e um pouco irritada. E também não queria discutir com ele. Karin salvou a situação. Rapidamente disse ao irmão em sueco algumas frases, e ele sorriu um pouco acanhado. Logo disse que já era hora de ir embora e dar um pequeno passeio pela cidade. Jens de repente ficou todo atencioso, galante até. Disse: - Sempre me pareceram encantadoras as mulheres alemãs; também você é encantadora, senhorita Johanna. Posso chamá-la assim? - pergun Karin, conti- 43 rou calidamente, enquanto a ajudava vestir o casaco. Tinha um sorris atraente, quase comovedor. Seus olhos bondosos brilhavam. Na escada perguntou quanto tempo ela pensava ficar neste país. Johan na tremeu; sua resposta foi vaga. - pião sei exatamente - disse -, não muito tempo, provavelment talvez náo mais de uma semana. Meus amigos estão em Paris - acrescento corri certa pressa. Na rua (atrás do carro em que haviam chegado) estava um Ford com pota baixa, bem malhado, mas eficiente. Karin disse que não tinha vonta de dirigír, por isso pegaram o Ford, que era de Jens. - Cada um de vocês tem um carro? - perguntou Johanna enquant subiam no automóvel. Jens e Karin sorriram. Jens orgulhoso, Karin um pouco irritada. -,Assim não brigamos um com o outro - afirmou. - Cada um de nós leva sua própria vida- acrescentou Jens muito dig no. Eu trabalho numa granja para aprender e depois colocar a nossa em or dem. Mas agora quero lhe mostrar a cidade; é uma bela cidade - disse or gulhoso. Karin sentou atrás, Johanna no banco da frente, ao lado de Jens, pa que este pudesse lhe mostrar as coisas notáveis da cidade. Saíram rápido, enfiando no meio do tráfego denso, mas silencioso, descendo alguns bule vares amplos e luminosos e passando ao lado de cúpulas de igrejas bizantin e de urri edifício governamental muito moderno. Jens mostrou a Johan uns armazéns, um novo edifício do Correio, estilo americano, uma estátu eqüestre e uma livraria que disse ser a maior da Europa. Johanna observ esta cidade, a capital estranha de um país estranho, sem um interesse preci samente apaixonado. Sempre havia imaginado os longínquos centros admi nistrativos da Rússia czarista de forma parecida com este lugar, com su praças demasiado espaçosas, seus edifícios representativos oficiais, com u governador vestindo um casaco de pele e falando francês num salão, m que todos os dias manda chicotear alguém. Johanna disse algo sobre isso Jens, e este parece não ter gostado muito: 44 - Sim, em certa época os russos estiveram aqui - disse. Os alemães nos ajudaram então a tirá-los daqui2. Os alemães são os melhores soldados do mundo. Aos poucos saíram da cidade e chegaram ao campo aberto. A estrada, que cruzava um bosque baixo, continuava ampla e bem pavimentada. Uma boa estrada, elogiou Johanna, e Jens, ressentido, quase grosseiro, respondeu: -Aqui, nos arredores da cidade, as estradas são ainda muito decentes. Mas adentro, contudo, no campo, bali! Na Alemanha - acrescentou depois de uma curta pausa-, ali sim, as estradas são boas em todos os lados! De repente, começou a falar de música alemã. - Oh, como eu gosto! - exclamou entusiasmado. "Na verdade, podia ser americano", pensou Johanna logo. "Tem a mesma ingenuidade enervante, mas desarmante de alguns jovens americanos." Jens, contudo, se esforçava para cantar algumas melodias alemãs; os resultados deixavam muito a desejar. - Nie sollst dá mich befragen!3 - cantava retumbante. - Sim, ouvi o Lohengrin, em Munique, nos festivais. Esqueci de contar que também estive em Munique. Mas também conheço outra coisa, espera um pouco... É a primavera, é a primavera, é a primavera de Berlim! Sim, acho que é isso mesmo! - exclamou, de forma um pouco absurda, e riu ruidosamente. - Estive dois anos na América - explicou -, e só dez dias na Alemanha. Apesar disso, a Alemanha me parece muito mais bonita. Vi e vivi tantas coisas então na Alemanha. Por exemplo, uma coisa muito rara em Berlim, como se chamava, A ópera das três vinténs 4, um pouco cínica, mas também bela, e cantavam: ja, da muss man sich doch einfach hinlegen...5 Voltou a cantar num tom alto, com a voz trêmula, com um sentimento meio na base da paródia, meio verdadeiro. Johanna gostou, apesar de achar a coisa um pouco ridícula. Mas seu jeito ingênuo a divertia, e tinha a virtude de poder distraí-Ia agradavelmente de seus pensamentos. 2 Durante a Primeira Guerra Mundial, os alemães apoiaram o movimento de liberação nacional da Finlândia contra as forças russas. As tropas alemãs também intervieram na guerra civil que se declarou imediatamente depois da independência, colaborando na repressão do movimento revolucionário e capturando Helsinque para o "Governo Branco", a facção de direita. 3. "Nunca deves perguntar"; palavras de Lohengrin no primeiro ato. 4 A ópera dos três vinténs (Dreigroscbenopen), estreada em Berlim em agosto de 1931, é uma versão do músico Kurt Weil (1900-1950) e Bertolt Brecht (1898-1956) sobre uma obra bem anterior: 7he beggars opera (1728), de John Gay (1685-1732). ~1("Sim, então resta à gente se oferecer...") Fragmento da obra mencionada na nota anterior. 45 Karin, que durante todo o tempo ficara calada, disse de repente: - Acho que devemos voltar. Johanna deve ter fome, vamos comer. -Tudo bem, respondeu Jens. Voltaram. O hotel em cujo restaurante foram almoçar também tinha o mesmo tilo czarista. Empoeirado e suntuoso, com grandes palmeiras um pouco ci zentas em vasos multicoloridos, grandes sofás estilo renascentista, colun barrocas, anjinhos de gesso que ameaçavam se jogar dos lustres, e um porte ro solene, com duras costeletas brancas e angulosas, que pareciam postiças Jens escolheu a comida; pediu ao garçom que lhe explicasse os itens do dápio, fazendo uma cara de preocupado. Durante este cerimonial Johann olhava um papel de parede na sua frente. Nele se representava, com profusão d~ cores e de forma sumamente viva, uma reunião que, era evidente, estava muit divertida. Os vestidos das damas e as roupas dos cavalheiros indicavam que cena se desenrolava por volta de 1890. Em primeiro plano estava uma jovem guta feminina com penteado alto, enormes mangas e uma exuberante exibiçã~ dos seios, com uma taça borbulhante de champanhe no alto (na imagem do pa pel de parede se refletia a espuma do champanha:). Mostrava ao espectador u perfil transbordante de alegria, mas nobre: o nariz grego, a testa muito bem for mada sob o penteado refinado... contudo, a boca radiante era quase desagrad' velem seu prazer de viver (o artista do papel de parede empregara aqui seus fi vermelhos mais fortes e brilhantes). Ao lado dela se encontrava um cavalheir em seus melhores anos; vaatia uma enorme sobrecasaca negra e tinha costelec escuras, e parecia prestes a iniciar um discurso à mesa, ao mesmo tempo sensar e divertido. Todos riam, leves e comovidos. Johanna olhava para este surpreendem papel de parede como se visse um mundo estranho, inteiramente inexplicá vel: metade dança dos deuses, metade casa de feras. Sentia um interesse tã apaixonado por todos seus detalhes que esqueceu até de rir de sua própri comicidade. - Sim, este lugar é curioso - disse Karin finalmente. Johanna levou um susto. Trouxeram à mesa as várias entradas: peixinhos, salsichas, queijo, caviar Jens havia pedido também um licor forte. Levantaram os pequenos copos fizeram um brinde. Jens disse alguma coisa sobre a cerveja de Munique, qu aqui sem dúvida não tinham. Johanna esclareceu que náo gostava de bebe cerveja. Falaram sobre vinhos, depois sobre a preparação de pratos em diver= 46 sos países. Jens voltou a falar com entusiásmo de alguma coisa de Berlim, Nuremberg e os festivais de Munique. A conversa passou para o teatro, Jens lembrou de diversas representações que havia assistido no Deutsches Theater de Berlim e em outros teatros. Johanna mencionou que o célebre diretor que havia dirigido esse teatro já não podia trabalhar na Alemanha, como outros diversos artistas que Jens lembrara com admiração durante a conversa. Jens ficou espantado ao saber disso, mas não deu maior atenção ao assunto. Karin lhe disse um par de frases em sueco, que o deixaram de mau humor, irritado até. Respondeu em voz alta, e seu rosto, acalorado pela degustação das entradas e do licor, ficou ainda mais vermelho. Desencadeou-se então uma breve, viva e para Johanna incompreensível conversa entre os dois irmãos. Finalmente Jens se manifestou tão irritado que deu um murro na mesa - não muito forte, mas ainda assim suficiente para fazer tremer os copos e provocar olhares das mesas vizinhas: - Você está igual a Ragnar! Esta frase, dita em alemão, era a primeira coisa que Johanna entendia agora. Karin riu: - Isso aqui não tem nada a ver com Ragnar, claro - disse. Depois virou para Johanna, e explicou: - É que em nosso país também há discordâncias políticas, você sabe: um partido nacionalista de direita radicah desempenha aqui certo papel, e Jens simpatiza com essa linha. Em casa não podemos falar do assunto porque senão acabamos brigando. Eu também não queria começar agora de novo. O que eu disse a ele foi só que essa gente não faria aqui as coisas de forma diferente... de forma diferente da que fizeram em seu país. - São duas coisas que não se podem comparar! - afirmou vivamente Jetls. - Eu não sei se na Alemanha o perigo bolchevista estava tão perto como aqui. Aqui estamos só a algumas horas de São Petersburgo... de Leningrado, como a chamam agora. Temos o inimigo na fronteira. Falava com raiva. O Deutsches 71~ec+ter de Berlim, fundado em 18>0 como F~iedrich-IVilhehrr Slüdlisches ~>>~~+ler; crr um dos teatros alemàes de maior prestígio do momento; adquirira fama mundial sob cr direçào de i\Iax Reinhardt - o diretor a que se refere Johatma -, que, mesmo defendendo um teatro apolítico, em 1933, viu-se obrigado a fugir da Alemanha por ser judeu. A extrema direita na Finlândia, bem organizada em movimentos de massas de cunho fascista como o Lappo (1929-1932), levou a cabo numerosos atos de terrorismo contra s" ttpatizantes comunistas, e chegou inclusive a influenciar na eleição do presidente Svinhufvud em 1931. 47 Johanna riu. Curiosamente, não teve de novo nenhuma vontade de trar na briga, embora o tema tivesse enorme interesse para ela e estivesse lhor informada do que imaginavam os dois irmãos sobre o movimento tico em questão. Contudo, notava que uma conversa semelhante iria lo e não daria nenhum resultado. Além disso, já começava a sentir os efeitos álcool. Tinha a cabeça um pouco pesada. Karin propôs que mudassem de restaurante. Jens chamou o maftre de teletas de lado, discretamente, para pagar a conta, o que pareceu a Johanna pouco patriarcal, mas ao mesmo tempo divertido e muito gentil. Saíram p rua: a tarde era quente e luminosa. Johanna se surpreendeu ao olhar o reló ver que já eram nove e meia da noite; pela luz diria que estava entardeceu Voltaram ao carro. Jens levou as duas a um grande local típico com jardins. Da rua se p va primeiro a um amplo café em forma de sala, onde havia agora poucas soas jogando cartas e xadrez, e gente de idade. Cruzando umas portas de dro abertas de parem par se entrava num espaçoso terraço no qual as m estavam muito juntas e quase todas ocupadas. Do terraço, descendo alg degraus, saía um espaçoso jardim, no qual também havia mesas; no fun desse jardim fora construído um teatro, diante de um pátio de bancos s encosto. Dali vinha a música; ouvia-se uma peça ligeira ou uma opere Viam-se alguns personagens com roupas multicoloridas, pulando co marionetes, que se mexiam pelas longínquas tábuas. Uma voz de tenor s tava lânguidas notas. Johanna tinha muita vontade de ouvi-las. Contu de repente foram sufocadas pela música da orquestrinha do baile, que meçou a tocar no terraço. Jens havia encontrado uma mesa perto do barulhento conjunto mu cal, mas a vista dali era agradável, tanto do terraço como dos jardins chei de gente, uma vista que chegava até o longínquo tablado. As pessoas dan vam. Como o terraço estava tomado de gente, os incomodados iam dan mais embaixo, no jardim, sobre o mato que havia entre as mesas e as cade tas, apesar de que ali se ouvia ao mesmo tempo, tudo confuso, a música terraço e a do teatro. Jens perguntou a Johanna se queria dançar com ele. - Na verdade, quase nunca danço - respondeu ela, embora tenha levantado e se deixado levar por ele, cruzando o terraço, para o jardim. melodia que estavam tocando tinha um ritmo de marcha. Jens a acomp nhava com grandes passos enérgicos; cantarolava entre os dentes, em v baixa, a melodia. Dançava bem e estava de excelente humor. 48 - Estas são as noites claras! - exclamou jovial. Johanna não lhe respondeu, sentia um pouco de tontura por causa da dança Não tinha uma idéia muito clara de onde estava e por que tinha ido ali, Desaparecia o que tinha por trás dela, mas o presente também não lhe parecia muito claro. Aqui havia um jardim, muitos homens se moviam e se mantinham abraçados. Dançavam de uma forma bastante apaixonada, quase indecente, ou assim parecia a Johanna. Estavam num pais muito longínquo, em algum ponto muito ao norte. Certos acontecimentos terríveis e decisivos, que afetavam as pessoas de forma tremendamente poderosa, ficavam muito longe. A maioria das pessoas aqui eram loiras, mas tinham mandíbulas fortes e salientes, quase mongólicas. Isto lhes conferia uma aparência verdadeiramente peculiar. "Aqui sim, os estudiosos das raças têm muito material", pensou Johanna, e não pôde evitar o riso. Nesse momento Jens a apertou com mais força contra ele e sua mão quente se mexia por suas costas. A música terminou. Voltaram a subir os degraus do terraço. Karin recebeu Johanna com um sorriso doce, leve, ligeiramente incomodada. Jens queria voltar a pedir alguma coisa para beber, mas Karin disse que não, que Johanna não podia agüentar mais nada. Johanna concordou: era verdade, já tinha bebido o suficiente. Jens olhou as duas e, rindo, disse: -Assim é se lhes parece. Sim, decididamente vocês são um pouco parecidas. Podiam até ser irmãs, sabiam? Karin riu ruidosamente e as duas ficaram vermelhas; o rubor cruzou o rosto de Johanna como um calor vivo, as faces de Karin avermelharam como manchas cor-de-rosa delicadas. - Sim - disse Karin -,também em Berlim nos disseram uma vez... Karin e Johanna se olharam durante um segundo nos olhos, com muita seriedade, inquisitivas, como se cada uma buscasse sua própria imagem de interrogação no olhar e no semblante da outra. Tinham em comum a maçã sensível e fina do rosto; também era semelhante o belo corte de seus grandes olhos tristes. O semblante fino de Karin, com o cabelo castanho liso penteado com uma risca, lembrava as imagens de madonas doces e inteligentes. O rosto de Johanna era mais fresco e semelhante ao de um jovem rapaz; seu cabelo loiro mate, curto, solto, podia ter reflexos muito claros, o que não dependia só da forma como a luz nele batia: tinha a peculiaridade de poder mudar de cor por si só, se animando e se apagando, por assim dizer. Karin 49 tinha uma boca fina e pálida e o desenho do lábio superior era de uma beleza. A boca de Johanna era maior, infantil e pesada; os lábios eram pouco ásperos e tinham uma inclinação que saía para a frente, o que da esta boca jovem um toque meio atrapalhado, comovedor, próprio de um colar. O traço menos feliz do belo e claro rosto de Johanna era a suave li do lábio inferior, que conduzia a um queixo não muito bem modelado, demasiada força de vontade. A testa clara era muito atraente, e magnlfi conformação da parte posterior da cabeça, que, ressaltando, ampla e no parecia pertencer a um intrépido e talentoso rapaz. - É curioso - disse Jens -,vocês são parecidas e ao mesmo tempo ferentes; uma espécie de afinidade inversa... - Dançamos outra vez? - perguntou então, e Johanna se levantou. Voltaram a dançar, a princípio no meio de toda aquela gente, entr cadeiras, mas depois Jens foi avançando em direção a um lugar mais tr quilo do jardim. Ali já não havia mesas; o ritmo da música se fez menos ro. Jens atraía Johanna com mais força para si; ela se deixava levar, os ol fechados, com abandono. Se maravilhava, quase se assustava, de que atitude inoportuna de Jens não a desagradasse. "Estou bem confusa", pensava, "totalmente confusa... deve ser por sa das novas impressões... também estou tonta..." Voltou a abrir os ol quando Jens parou de dançar e ficou perto dela. Mantinha o braço dir ao redor de seus quadris, enquanto tentava, com a mão esquerda, trazer junto dele o rosto de Johanna. Ela sentia seu cheiro de álcool, nicotin suor, sentia seu hálito. "Isto está longe demais!" pensou; se soltou de um golpe e se afastou pidamente. Calada, com raiva, envergonhada, cruzou o jardim, subind degraus até o retração. Jens correu atrás dela. Chegaram ao mesmo te onde estava Karin. Johanna explicou que queria ver ainda um pouco da opereta que re sentavam lá embaixo, no jardim. Desceram os três ao jardim, passandó lado das mesas, e sentaram no último dos bancos de madeira sem enco Durante alguns minutos Karin, Jens e Johanna observaram a ação que se senrolava no cenário brilhantemente iluminado. A música havia para chegaram bem a tempo de ouvir o diálogo entre um jovem oficial num tástico uniforme de marinheiro e uma exuberante dama com um vestido corte oriental, com véus. A conversa tinha tons patéticos: a dama, sobr do, parecia nervosa, se ajoelhava numa postura humilhantemente seduz 50 d¡ante do oficial-marinheiro, que lhe falava de forma dominante e pejorativa. Carrancudo, olhava por cima dela, severo, ao público. A dama do harém que estava ajoelhada tinha entre os lábios (um truque de seduçáo meio fora de lugar considerando as circunstâncias) uma rosa, que tirava da boca sempre que respondia ao soberbo cavalheiro, mas que, depois de falar, voltava a colocar com cevo pedantismo, deixando que balançasse. Enquanto 0 dominante cavalheiro ainda se dirigia a ela ameaçador, o coro entrou de repente por trás, formado. Estava composto por numerosas jovens que usavam o mesmo vaporoso vestido que a mulher ajoelhada, as cabeças envoltas em véus arrumados como turbantes. Todas levantaram a mão direita, na qual agitavam uma rosa vermelha muito semelhante àquela que sua humilhada colega tinha na boca. Entãó começaram a cantar ruidosamente, o que surpreendia e assustava um pouco. O oficial-marinheiro, homem com nervos de aço, nem ligou para este estrondo repentino; nem sequer se virou para as damas de cujas bocas saía estridente a melodia. Johanna, Karin e Jens começaram a rir ao mesmo tempo. Um marinheiro sentado mais na frente olhou ofendido em direção a eles. Então decidiram, os três, que já haviam aproveitado bastante aquele belo espetáculo. Na rua disse Jens que de nenhuma maneira podiam ainda voltar para casa. - Agora sim temos que nos divertir! - exigiu, quase ameaçador. Tinham que encontrar um bar que estivesse aberto toda a noite para continuar bebendo com calma. Seus olhos azuis e saltados tinham um brilho trêmulo. - Porque nunca mais voltaremos a nos encontrar sendo tão jovens, como se diz na Hofbrãuhaus de Munique! - esclareceu, com um movimento de braço amplo e muito calculado, mas que saiu meio desastrado. Contudo, Johanna não queria. - Estou mortalmente cansada, de verdade. Jens teve que ceder. Ele deixou as duas diante da casa. Quanto a ele, disse que ainda não tinha vontade de dormir. Preferia estar de manhã cedo na granja onde trabalhava. Além disso, a viagem de carro à noite era um prazer. - Logo farei uma visita para cuidar das duas! - prometeu na despedida. Depois disse algumas frases em sueco a Karin, Beijou a mão de Johanna, mas sem nenhuma paixão e sem olharem seus olhos. Quando Johanna ia atrás de Karin cruzando os escuros cômodos da casa, as cortinas fechadas, percebeu como era difícil colocar um pé adiante 51 do outro, em linha reta. Sentia uma inclinação tão forte de andarem zi zague que acabou cedendo ao impulso. Quanto ao resto, avançava com beça muito alta, embora oscilante, através dos quartos vazios. No quarto de Karin tirou rapidamente a roupa. Jogou as meias n canto e riu. Depois sentou na cama de Karin, olhando fixamente o qu nha diante de si, com os olhos vidrados. Enquanto isso, Karin lhe prep uma cama. Cantarolava baixinho, e sem se preocupar com Johanna, qu tava sentada, imóvel; colocou no dormitório um sofá que removeu do nete. Tirou roupas de um armário, estendeu os lençóis e pôs a fronha no vesseiro. Quando estava tudo pronto, sentou ao lado de Johanna. - Você bebeu demais, coitadinha? - perguntou, e lhe colocou a na testa. - Um pouco demais - confessou Johanna, consciente de sua cul O contato frio da mão de Karin e o som tranqüilo de sua voz deram uma serenidade quase total. Pôs sua cabeça contra as costas de Karin chou os olhos. Sentiu uma tontura ao fazer isso, mas não tanto como te Karin e Johanna ficaram alguns minutos sem falar. - Jens exagerou? - perguntou Karin finalmente. - Muitas vezes comportamento com as moças não é muito delicado. Mas é um bom ra De repente, Johanna achou perturbadora e penosa a lembrança de quase deixara que Jens a beijasse. Disse apenas uma coisa: - Exagerar? Nâo... Por quê? E acrescentou, já que Karin não respondia: - Na verdadé, é um rapaz muito agradável. Apertou a cabeça com mais força contra o ombro de Karin, enqu falava com uma língua bastante pesada. - Você tem muito coisa para me contar - disse Karin. - Mais t como tempo. Havia começado a acariciar o cabelo de Johanna. Acariciou tam sua testa e suas orelhas; depois soltou a mão sobre a parte detrás da ca de Johanna. - Sim - disse Johanna, com os olhos fechados (falava quase como sonhos) -, na realidade não deveria falar de outra coisa. Só disso. Mas posso, Karin.., não posso. É tão terrivelmente difícil - suspirou profu mente. - Para os meus pais é também terrivelmente diffcil - acresce com voz sonolenta. - E para o coitado do Georg. Bruno está em Paris, ças a Deus. Você deveria conhecê-lo... 52 Karin não tinha a menor idéia de quem era Bruno. Cominou acariciando o belo cabelo de Johanna. Erra se abraçou com mais força ao pescoço de Karin.

. Agora há momentos - sussurou -,agora há momentos em que cudo me parece tão absurdo, tão loucamente absurdo... Então penso: mas por que você está aqui? Podia estar exatamente em qualquer outro lugar. Penso então: por que não ficou na Alemanha? Podiam ter lhe matado na Alemanha, calvez isso tivesse sido melhor. Nesses momentos sinto como se caísse, como se caísse sem parar. É terrível, sabe... E escuta - exclamou -, escura, logo vai acontecer alguma coisa terrível para todos nós. Estamos indefesos diante disso... vai chegar! - levantou o rosto aterrado e olhou Karin com olhos que pareciam já ver aquilo tão terrível que se aproximava: estavam como cegas pela imagem espantosa. -Ai, Karin, querida Karin! - disse a pobre Johanna. Contudo, o rosto de Karin estava velado por uma paz incompreensível. Karin juntou seu suave e frio semblante ao de Johanna, que chorava. - Pobre querida - disse -,temos que suportar tudo isso. Tocou a face quente e úmida de Johanna com seus lábios; tocou com seus lábios a boca. Tratou de trazê-la mais perto, mais intimamente. Seu abraço já não era o doce gesto das amigas que à tarde conversavam em confiança. O abraço que as unia era diferente. Na camaradagem entre as duas não havia nada disso antes. Mas como estava ali e tinha tal força, Johanna, a chorosa, deixou que acontecesse... agradecendo entre soluços a infinita ternura com que Karin colocou sua cabeça no travesseiro. 53 2 Dormiram até as dez da manhã. Karin levantou primeiro, e logo depois Johanna, que não conseguiu sair da cama logo; ainda tinha muito sono. Karin preparou o chá. Sentaram na cozinha, numa mesa coberta com oleado. O cheiro deste, que lembrava a Johanna as fraldas, lhe era desagradável. Nenhuma das duas tinha muita vontade de falar. No começo, as duas se sentiam incômodas, pois encaravam sua própria taciturnidade como uma descortesia recíproca. Contudo, quando notaram que não queriam mesmo conversar uma com a outra, já não fizeram nenhum esforço para isso. Saíram da casa. Karin tinha deixado o carro na rua, não na garagem. Subiram no automóvel. A idéia de sair a campo aberto imediatamente alegrou Johanna, mas primeiro tinham que cuidar de alguns assuntos. Karin tirou da bolsa uma folha de papel na qual tinha anotado tudo o que era preciso fazer. Parou diante de várias lojas. Johanna - de um humor estranhamente apático, desatenta e cansada - entrou com ela numa delicatessen, numa farmácia e numa casa de bebidas. Este lugar era o mais divertido, pois ali tudo tinha um aspecto curioso e digno, como numa biblioteca, mas no lugar de livros estavam as garrafas de vinho e de licor, que ocupavam todas as prateleiras. Para que as pessoas levassem as garrafas era preciso cumprir certas formalidades. Era preciso preencher um formulário, mostrar outro, e tudo isso se fazia como numa repartição pública, diante de uma mesa por trás da qual sentava um senhor de óculos. Neste país não se podia comprar qualquer quantidade de álcool, havia uma cota determinada por pessoa. Kariu explicou isso a sua amiga depois de sair da loja. 55 - E isso está muito certo - acrescentou. - Pois se fosse diferent muita gente não ficaria sóbria. Pararam depois de bastante tempo em outra loja - que não estava nível da rua, mas sim no primeiro andar de uma casa nos arredores - on se fabricavam bordados. O local, bem apertado, estava repleto de fronh para travesseiros e tapetes multicoloridos, de todo tipo de toucas, capas pa bules de chá e bolsinhas. A dona, uma senhora de idade, era tia de Karin; nha um cabelo cinza desgrenhado e usava óculos. Conversou muito em su co com a sobrinha. A loja parecia ser uma instituição beneficente, que da roupa de cama para crianças pobres, alguma coisa desse tipo. Havia ali u cheiro - de linho e de todo tipo de tecidos brancos, flanela ou algodão. P lhas e pilhas de peças limpas enchiam a estreita e pouco ventilada sala. Johanna se sentiu aliviada quando finalmente saíram. Por último, tiv ram que pôr gasolina no carro ao sair da cidade. As duas jovens ficaram em silêncio durante as primeiras horas da vi gem. Atravessavam uma região plana, de bosque baixo. A estrada era be conservada. Passaram por algumas localidades que não pareciam ser muit importantes. O tempo era bom, meio opressivo até; o céu estava cobert uniformemente por uma capa de nuvens cinzentas. Por volta da uma da tarde deram uma parada numa pequena cidade d serra, bastante extensa. Karin disse que haviam percorrido mais ou menos metade do caminho. Almoçaram no primeiro andar de um hotel que da uma impressão surpreendentemente pouco atraente. Sem nenhum letreir ou cartaz indicando ser um hotel, estava numa grande praça empoeirad sem asfalto, coberta de mato. A entrada era por um corredor estreito, com o de uma casa particular, diante do qual havia uma escada empinada e tatu bém estreita. O restaurante, no primeiro andar, parecia principalmente d tinado aos pensionistas da casa, e estes já tinham almoçado. Só um senho velho e feio, com um nariz grande e vermelho, ainda estava sentado num mesa, lendo o jornal. Karin conhecia a dona do lugar, uma mulher robus de rosto fresco e vivo - embora de uma simplicidade infantil - com u penteado alto, bem diferente, de cabelos brancos. Ela indicou às duas joven uma mesa perto da janela; a toalha não estava muito limpa, e grossas mos negras se refestelavam nas manchas pegajosas e escuras, que podiam ser d marmelada, ou de molhos gordurosos. A mesma amável senhora de olh juvenis, nariz aquilino e excêntrico penteado de dama antiga trouxe os pra tos de entrada. A primeira coisa que colocou na mesa foi uma tijela co 56 compota, que permitia apreciar o quanto escurecia os dentes de quem comesse aquilo. Da janela se via a solitária praça coberta de mato. Durante o almoço Johanna foi ficando mais faladeira. A princípio de forma atropelada e depois com maior coerência, começou a falar de Berlim. Disse com grande mistério, o que conferia a seu rosto uma impressão especialmente infantil: Meu irmão previu todo este horror como conseqüência necessária de um longo processo, sabe. Sim, não podia ser de outra forma, esta república tinha que acabar assim e não de outro modo. Nós, iniciados, sabíamos disso há tempos. Conhecendo as circunstâncias... - disse sombriamente, olhando irada e reflexiva com seus olhos claros para a frente, mais adiante de Karin, que a ouvia atentamente. - Naturalmente, a gente não pode pensar em nós mesmos - prosseguiu Johanna -, e muito menos nas pessoas que estão mais próximas. Para milhões é ainda mais terrível que para nós. Mas afetou tão barbaramente a todos... Imagina seus pais... Fez uma pausa e olhou ao seu redor, como se alguém a ouvisse: o costume da desconfiança, que havia ficado da Alemanha. Mas até o senhor de nariz deformado já havia saído da sala- não notaram, foi embora em silêncio; a mesa grande no centro e as quatro ou cinco mesas menores com toalhas sujas e moscas por perto não tinham talheres nem pratos, vazias, como se nelas nunca tivesse sentado um ser humano para comer. Quanto ao resto, a sala continha, além das mesas e um móvel longo e baixo, alguma outra mobília, talvez mais adequada num salão burguês que num restaurante. Perto de duas poltronas que estavam num canto, Johanna notou uma biblioteca, alta e volumosa, cujas estantes estavam cobertas de bons e sólidos volumes encadernados em couro, que produziam um efeito digno e acolhedor. Em parte distraidamente, em parte com interesse autêntico, o olhar de Johanna se deteve sobre os livros. "Parece que aqui se lê muito", pensou fugazmente, "talvez também livros alemães. Na verdade, é comovedor... tão longe". Repentinamente, com uma mistura de bem-estar e espanto, percebeu que estava no estrangeiro e que naquele momento não tinha um caminho de volta. Estava separada de seu país, circunstâncias terríveis haviam querido assim. Em terras estrangeiras podia voltar a encontrar, de repente, como um presente, um pedaço da Alemanha numa estante de livros. Pois a gente pode estar desterrado, e ter abandonado a própria pátria com um passaporte falso; mas por toda a terra está parte deste país que não deixa de ser a pátria, e esse algo é talvez o melhor dela, alguma coisa que é bonito encon 57 trar num lugar qualquer, onde nos reconhecemos um pouco, tudo resulta muito gratificante, embora seja triste. Johanna teria gostado de falar de seus pais. No mesmo instante lhe par surpreendente que Karin os conhecesse. Por que Karin nunca havia ido à s casa? Naquela época, nem sequer a própria Johanna tinha ido com freqüência' sua casa. Naquela época se desenrolava o estúpido e vergonhoso caso entre s mãe e o doutor Kücken. Pobre mamãe. Johanna disse em voz alta: - Naturalmente, toda classe, entre cujos representantes devo inclu meus pais, está condenada a perecer. Mas isso é terrfvel, se somos obrigad a observar o processo em cada caso concreto e de muito perto. Agora n têm nem dinheiro. Que trabalho custou a mamãe juntar dinheiro para m nha viagem. Foi uma coisa fantástica o que ela fez, agora que estão tão m de vida. Sim, aí estão agora, com suas idéias liberais... mamãe é pan-eur péla - acrescentou depois de uma pausa. Enquanto terminava de falar, via diante dela sua própria mãe, entre joelhos o violoncelo com que trabalhava seriamente. Sua mãe dava con rências sobre pan-europeismo e a mulher e fazia música de câmara. Seus 1 bios eram finos e apertados, tinha um vestido cinza-escuro, uma cor be parecida à de seu cabelo liso meio grisalho. O coração de Johanna se ench de compaixão. - Naturalmente, papai já não vende mais quadros - disse, quase co raiva. - E são tão antiquados esses quadros que até os nazistas poderia gostar. Mas desgraçadamente também ele esteve metido com esse assunt pan-europeu... - repentinamente riu com raiva. - Na verdade, é grotes que pense tanto nos velhos senhores. Como se não estivessem lá meus cam radas, que correm perigo de verdade. São eles que importam, com que realmente devo me preocupar. Se eu começasse a lhe contar! Mas não po ser-disse com firmeza. Depois de breve pausa Karin acrescentou: - Roubaram a pátria de vocês. Simplesmente tiraram a pátria de tod vocês. É muito difícil imaginar essa situação... - Até que voltemos a ela, por ela - disse ameaçadoramente Johann Sobre o rígido linho branco de seu vestido se via seu semblante decidid sombrio e seguro da vitória, o rosto de um jovem guerreiro. Os olhos de Ka rin se detiveram com ternura sobre esse rosto. 58 A segunda metade da viagem foi mais bonita que a primeira. O céu se iluminou, embora não completamente; a capa de nuvens se dissolveu num branco vaporoso. O sol quase a atravessava. A estrada piorou: agora avançava, cheia de buracos, por um bosque, um bosque que não tinha fim, que parecia se estender interminavelmente. Nenhuma clareira, nenhum prado interrompiam sua extensáo, só às vezes um riachinho que corria mansamente, ou um lago que brilhava com um cinzaazulado entre o verde-escuro dos abetos. Não passaram por nenhuma aldeia, não encontraram nenhum carro, só gente. - Nunca estive numa região com tão pouca gente - disse Johanna. Um velho vergado de lenha nas costas avançava, trôpego, na direção delas. - Isto é só o começo - respondeu Karin, olhos para a frente, na estrada. - Sim, aqui não falta lugar, há infinito... Ficaram em silêncio. Johanna olhava a inquietante e rumorosa paz da paisagem. Começou outra vez seu relato, aos trancos, interrompendo, repetindo, corrigindo. Aospoucos foram sendo esclarecidos mais detalhes desses últimos e perigosamente agitados meses graças aos confusos relatos de Johanna, que os narrava apesar de sua pouca vontade. Karin, inteligente e doce, queria saber mais, passava delicadamente de uma coisa a outra. - Devo ter mudado muito desde então - interrompeu Johanna. - Então só me interessavam de longe, digamos assim, como uma curiosidade cientïfica, as coisas que hoje constituem minha vida inteira. Então ainda não tinha uma convicção. - Mas naquela época já notava que logo você teria uma - disse Karin. - Você estava esperando isso. Eu gostaria de ter estado ao seu lado quando chegou a decisão. - Começou com a amizade com Bruno - disse Johanna depois de uma pausa. - Bruno é maravilhoso, sabe. Não é um intelectual, mesmo tendo amizade com meu irmão, é inteligente. Bruno não se pergunta muito depois que chegou a uma decisão interior. Para ele só existe uma coisa: comprometer-se com uma causa dando o sangue, literalmente dando o sangue, entende? - Ao que você se refere quando fala de `a causa'? - perguntou Karin, com uma curiosidade presente, mas não urgente. Escutou atentamente: a resposta lhe interessava muito, muitíssimo. - Que as coisas sejam de outra forma - explicou Johanna -,que selam justas. Que a gente não tenha que se envergonhar dos homens. Que esta 59 terra adquira por fim um rosto racional, Que a vida se converta em algum coisa que valha a pena, que valha a pena para todos, sabe? A causa quer di simplesmente: o futuro, e este só pode s:r o socialismo. Karin ficou calada. Numa agitada eatropelada confusão Johanna lhe lava de reuniões secretas, dee perseguições, de ocultamentos, de detenções dos horrores que vinham ecm seguida. Do trabalho secreto que é um peri mortal cotidiano. - Você não pode nem. imaginar o lue se fez e o que se continua fazeis do, todos os dias. Porque n~ Alemanha continuamos trabalhando apesar tudo, entende? Se trabalha na clandestinidade. Por um panfleto arriscam vida; você tinha que ver esse gente, Karin, ficaria impressionada. Respirou agitadamente', seu rosto rFSplandecia de arrebatada seriedade.' -Até mesmo quando já estão no estrangeiro, seguros, voltam aAlema nha, de Paris - informou gquase num sxssuro. - Sempre tive medo de qu Bruno volte um dia, nunca se sabe, de repente não agüenta mais, mesmo bendo que lá de fora pode (fazer muita coisa. Seria terrível, sabe, porque t dos o conhecem e há ordene de busca contra ele, por causa de um atentad com explosivos no qual estive metido. Platuralmente tenho que ir logo a P ris para vê-lo - acrescentau de repentt, com uma estranha pressa. - Vi aqui por uns dias, para ver Nocê e para descansar um pouco. Mas se me cha mam vou embora amanhã... Karin foi em frente sern responder nada. Na nova pausa de sua inquie conversa se ouviu o rumos do bosque, com um tom profundo, como o d um órgão. - Logo chegaremos ~ disse Karin. -Aqui já nos pertence o bosque. Johanna sentiu uma etmoção estranha e um tanto penosa ao ver que u bosque tão grande, no qual o vento soava como um órgão, devia ser de Ka rin e de sua família. - Vocês também são donos desta aldeia? - perguntou, pois a estrad dava numa curva, e muita perto delas havia uma igreja com uma torre d cúpula em forma de cebola, em meio a um grupo de casas de camponeses. - Sim, o povoado também nos pertence - respondeu Karin. Deixaram o bosque para trás, cruzaram a aldeia - algumas mulheres cumprimentaram, crianças lìzeram sinais - e continuaram um pouco mai na pisca, que era mais ampla e regular, mas também muito mais empoeira= da. Entraram depois por um caminho mais estreito que transcorria primeiro um prado de suaves colinas, depois beirava o muro cinza de um parque GO finalmente chegava a um portão cujas folhas de ferro fundido estavam abertas de parem par. Dali safa uma ampla avenida de mato clara, dividida pela metade por uma faixa cheia de ervas, que subia até a casa dos donos, a qual, com sua fachada elegante e baixa, de cor amarelo-mate, configurava o belo fecho da perspectiva. Karin subiu a avenida. Pararam diante do edifício, que era quase como um castelo. Karin tocou a buzina algumas vezes, mas não apareceu ninguém, tudo continuava silencioso, a bela casa parecia morta. Karin não se chateou com isso, mas, depois de ter tocado a buzina várias vezes, desceu do carro, subiu os quatro degraus do portal e entrou na casa para que alguém a visse. Johanna ficou no carro olhando a ampla avenida até a porta do jardim e a fachada amarela, cujos nobres detalhes observou com atenção. Era especialmente bela uma sóbria e nobre ornamentação sobre a pesada porta marrom: uma fina coroa de flores, encantadoramente enroscada, da mesma cor amarela do muro, decorava o arco com um elegante arabesco. Johanna também gostou muito das janelas da casa silenciosa: grandes janelas com vidros de intensos reflexos; numa delas estavam fechados os contraventos marrons. Johanna esperou durante bastante tempo. Depois de observar a fachada à vontade, voltou os olhos para a avenida. Notou então, pela primeira vez, que no lado direito, na subida da porta da fazenda, se encontrava um edifício branco, a uns 150 metros de distância da casa principal. Por fim reapareceu Karin, acompanhada de uma jovem loura, bem fornida, que vestia um avental azul e usava um lenço branco na cabeça. Karin a apresentou como senhorita Suse. - A senhorita também é alemã? - perguntou a moça, uma pessoa jovial. - Eu sou de Hannover - constatou, resplandecente. Tiraram as malas do carro. Johanna não queria ficar na casa principal, mas sim na dependência que acabava de descobrir. A robusta jovem levou até lá suas coisas. Karin e Johanna foram atrás. A pequena sala em que entra ram estava no primeiro andar, e não dava para a avenida, mas sim para o lado de trás, o parque. Estava mobiliada com simplicidade. Depois veriam que o local era até um pouco incômodo. A jovem deixou ali as maletas e disse qi,e era muito agradável voltar a falar com alguém procedente da pátria, `da nossa Alemanha', disse, e acrescentou: - Lá agora estão acontecendo coisas importantes. Como Johanna guardou um silêncio hostil, a jovem acrescentou de forma conciliadora G1 - Bem, eu não entendo muito desses assuntos. Já estou quase dois a fora de Hannover. Karin disse que eram esperadas lá em cima para o chá; Johanna lavou mãos e arrumou o cabelo. Subiram à casa principal. Cruzando uma peq na ante-sala, entrava-se na grande sala de jantar. Ali foram recebidas p dona da casa, a mãe de Karin. A velha dama estava sentada numa cadeira de balanço perto da jane tendo aos pés dois cachorros grandes, um negro com manchas brancas e o tro amarelo. Os cachorros latiram com a entrada das duas mulheres, e n pararam mesmo com o dedo ameaçador da velha, ordenando que ficasse quietos. -Knut! Wolf! - exclamou, com uma voz que fingia ser severa. - cês querem...! Enquanto os cachorros continuavam latindo, a mãe se levantou da deita para cumprimentar a visita. Era uma mulher forte, com uma cara grande, bondosa, um pouco co fusa, e com um cabelo cinzento desarrumado. Apoiada numa grossa ben negra, se mexia com passinhos cansados; arquejando levemente se agro mou de Johanna perto da mesa. Só depois de um detido exame - sua i pressão não pareceu ser desfavorável: sorria - lhe estendeu a mão grande enrugada. - Bom dia, querida - disse; seu alemão tinha mais sotaque russo q escandinavo. - Me alegro que você esteja aqui. Karin me falou muito você. Em seguida, fez um sinal com a cabeça, um sinal de aprovação, mist rioso. Johanna inclinou-se profundamente, como um cavalheiro, dian dela, mais do que costumava fazer diante das damas a que era apresentada. - Seu vestido é muito bonito - disse a velha para Johanna, elogiando-a'< Johanna enrubesceu um pouco, enquanto baixava os olhos. Seu vesti era de corte muito simples, de linho branco e forte com um grande cinturã~ de couro de cor marrom-clara. As meias, também de cor clara, estavam e roladas abaixo do joelho, de forma gtte podiam se ver suas pernas nu quando se sentava ou quando fazia um movimento rápido. Enquanto isso, os dois cachorros grandes já tinham se levantado e aproximado, correndo para Karin. Um deles, o negro com manchas bran cas, evidentemente o mais jovem - Knut - se enroscou nela; parecia sor rir enquanto deixava que lhe acariciasse as orelhas e a cabeça. Dava para n G2 rar como isso chateava o outro cachorro, Wolf. Latindo nervoso, com irados olhos amarelados, dava voltas em torno de Karin, que preferia Knut de um ,rodo que ao outro parecia tão difícil de suportar; finalmente, doído profundamente, foi para um canto, latindo baixinho, mas com raiva. - Wolf está outra vez terrivelmente ciumento - disse Karin, se afastando Fnalmente de Knut. A mesa redonda do centro da sala estava preparada para o chá. A senhorita Suse> que havia tirado o lenço branco que levava na cabeça, mas conservava o avental azul, perguntou de forma jovial e desinibida-agente sempre a imaginava com uma simples coroa deflores no cabelo, dançando num prado: - A senhorita vai tomar leite com chá? E quantos torrões de açúcar, se me permite perguntar? - Johanna não queria nem açúcar nem leite. - Nossa, que amargo! - reclamou a jovial Suse, e juntou as mãos com um espanto engraçado. Já tinha colocado o chá, e sentaram na mesa. Também a senhorita Suse tomava chá e comia muita bolacha. Era acolhida como mais uma pessoa da família, mas ao mesmo tempo se ocupava em servir, sempre disposta a trazer água quente ou prestar qualquer outro serviço. O cachorro negro, Knut, estava aos pés de Karin, e deixava que esta o alimentasse com pedacinhos de bolachas. Wolf, que estava estendido ao lado da senhora da casa e que não ganhava nenhuma bolacha - a velha dama se esquecera de seu favorito enquanto conversava -,dava a impressão que nada disso lhe interessava e que de modo nenhum tinha vontade de comer uma coisa tão infantil como as migalhas das bolachas. Só de vez em quando não podia se conter, e lançava irados olhares de ciúmes e deixava ouvir do mais fundo de seu peito um latido cheio de roda a doída amargura de uma criatura fundamentalmente digna e terrivelmente abandonada. A mãe era faladeira, de uma forma curiosamente atropelada e dificultosa. Seus olhos bons e confusos muito abertos, com uma esforçada e quase temerosa seriedade, a cara, sulcada por numerosas rugas - tinha umas man díbulas surpreendentemente amplas e caídas -,falava de forma quase ininterrupta, com uma voz baixa e contida, o corpo um pouco inclinado para a frente, esfregando as mãos, grandes e velhas, de forma que quase as retorcia: um gesto meio plácido, meio desesperado. A princípio ficou nos tenus já conhecidos. Disse por exemplo: -Alemanha, sim, sim, um país muito belo, muito nobre, minha irmã casou na Alemanha, morreu em Dessau. É um país de muita ordem, isso todos devem reconhecer. É verdade que nos últimos tempos também lá houve G3 confusões, mas nada parecido às da Rússia. Podemos dizer que o que aco teceu agora na Alemanha é uma revolução? Johanna disse que não se podia falar de revolução. - Então é alguma coisa mais ou menos dentro da ordem vigente disse a senhora, retorcendo as mãos de forma desesperada. - Não - esclareceu Johanna brevemente -, não é uma revoluç apesar de se tratar de alguma coisa terrivelmente fora da ordem. A resposta não pareceu satisfazer a mãe. Perguntou, para dar out rumo à conversa: - Encontrou meu filho Jens na cidade? (Acentuou de forma significativa as palavras "meu filho".) -Sim-disse Johanna-, ontem à tarde estivemos juntos. - Oh, sinto muito - exclamou de repente a mãe, que por um m mento desentrelaçou sua mão direita da esquerda para, com um movime comovedoramente insinuante, dar um tapinha na testa; - oh, sinto mui esqueci por completo de me desculpar por Ragnar. Ficou em seu quart, Tem dor de cabeça. Acontece muito - acrescentou; não se sabia bem com intenção de que isso parecesse preocupação ou com ironia. (Johanna pensou que sem dúvida estava no quarto cujos contravent tinha visto fechados; quando a gente tem dores de cabeça prefere ficar nu quarto escuro.) - Vai se levantar para o jantar ou continuará deitado? - pergunt Karin, o cenho contraído, o olhar fixo na xícara de chá. - Nunca se sabe - disse a mãe, que já entrelaçara de novo as mãos talvez não; nunca se sabe com Ragnar. De repente - só deu uma paradinha - contou que ela havia nascido crescido na Rússia. -Naturalmente, não somos uma família russa-disse, e riu com co fiança -, mas meu falecido pai era funcionário em São Petersburgo, tin até relações com a corte, e também minha mãe tratava com a família do c Este é o retrato do meu pai - disse sem se virar, indicando com uma ligei inclinação de sua grande cabeça um obscuro retrato pendurado na parede suas costas, na frente de Johanna: mostrava um senhor de aspecto grave co uma barba de corte redondo, vestido com uma suntuosa farda, descansand as mãos no cabo de um sabre ricamente enfeitado. A mãe falava das vest mentas e arranjos que na época eram próprias das damas nas festas; relato 64 coisas referentes a viagens em trenó e a alguns curiosos costumes de sua governanta francesa. - Sim, jamais esquecerei mademoiselle Pigeon - constatou sonhadora e nostálgica, esfregando suavemente as mãos, uma palma roçando a outra com cuidado. -Agora também as coisas devem ter mudado em são Petersburgo. Johanna observou que Karin estava ficando nervosa com a conversa de sua mãe; seu sorriso forçado indicava isso. A senhorita Suse, ao contrário, se divertia bastante. - Essa mademoiselle Pigeon era realmente uma figura! - exclamou, dando uma risada. Karin disse que ainda queria passear um pouco com Johanna. A mãe não a contrariou, mas seus olhos mostraram certa perturbação. - Vão, meninas! - disse finalmente, sorrindo com resignação. As duas jovens se despediram até a hora do jantar. Deixaram a casa através da entrada principal, mas não desceram a avenida, mas sim tomaram logo a direita, por um caminho estreito de mato que ia em suave declive até o lago. Enquanto passeavam devagar não falaram muito, e nada em absoluto sobre a impressão que Johanna havia tido da casa ou da velha dama. Só trocaram um par de observações jocosas sobre a senhorita Suse. Em poucos minutos chegaram ao lago. Pararam num velho embarcadouro um pouco descuidado. Dali não se podia contemplar toda a superfície, só uma pequena enseada que entrava por um juncal. Johanna e Karin entraram numa passarela que ia uns dez ou quinze metros para dentro da água. Quando se chegava ao final tinha-se uma perspectiva completa do grande lago até a margem em frente, coberta de bosques. As duas jovens sentaram na murada da passarela, quente pelo sol que por ali mandara seus raios todo o dia. Balançavam as pernas em cima da água. Johanna disse: - Que negra é a água de seu lago. - Sim - afirmou Karin. - É água de pântano. O céu estava agora totalmente iluminado, ou talvez estivesse limpo durante todo o dia; o sol caía de forma oblíqua, mas ainda tinha quase a luz do meio-dia. - Agora são as noites que não escurecem - disse Karin. A paz dessa paisagem era tão inquietante que para o coração de Johanna acabou parecendo pavorosa. Nesse silêncio ela respirava aliviada e ao mes G5 mo tempo atemorizada. Com uma voz reverentemente velada, tentou di alguma coisa sobre isso. - Este silêncio perturba - manifestou. - Tem alguma coisa aqui me perturba, sabe? E enquanto voltava ao silêncio sentiu crescer a emoção por aquela jestosa ausência de som, cujo rumor era muito mais poderoso que qualq ruído a que estivesse acostumada. Karin, de repente, começou a falar do inverno nessa paisagem: - Mas no inverno é terrível. Também belo, à sua maneira, mas terrí Quando está tudo gelado aqui, totalmente morto, e o dia jamais clar como agora não escurece nunca. Que dias! Uma gigantesca escuridã Muitas vezes é difícil suportar isso. Sobretudo para Ragnar, é quase sem muito difícil... Ainda ficaram sentadas durante um tempo, olhando a água, transpar te apesar de toda sua negrura, e falaram algumas poucas palavras soltas. rin perguntou a Johanna se queria tomar um banho, mas esta não ti vontade. Nenhuma das duas tinha muita vontade de fazer qualquer c Depois de meia hora levantaram e voltaram lentamente pelo caminho seixos para casa. Karin acompanhou Johanna até a porta do quarto. Joha queria desfazer a mala e pôr outro vestido. Uma hora depois bateu na porta a senhorita Suse chamando-a pa mesa. Via-se logo na cara da senhorita Suse que seu humor havia mud desde o meio-dia, podíamos falar até numa inversão de humor. O rosto amável cidadã de Hannover estava cheio de sombras. - À tarde isso quase sempre me acontece - explicou rapidame quando Johanna perguntou as razões de sua tristeza. - É a saudade, si Chega durante a tarde, durante o dia estou de bom humor. É tão consola que haja alguém com quem falar muitas vezes sobre estas coisas. A senh entenderá logo tudo isso. O pessoal daqui é muito amável, pessoas magn cas, pode me acreditar; mas não deixam de ser estranhos. "Língua estran rã, coração estrangeiro, isso não deixa de ser verdade - (Johanna não nha jamais ouvido esse ditado; desconfiou que a senhorita Suse tinha inv tado.) - Além disso, sinto saudade do meu garoto - concluiu a senho Suse com certa obstinação. Johanna perguntou surpreendida se tinha um filho - estava diante espelho e passava nos lábios rachados um creme gorduroso. - Não, um namorado - disse a senhorita Suse em tom de reprova 66 No lugar de seu vestido branco de linho, Johanna tinha colocado um vestido mais leve, cinza-claro, com um pequeno decote redondo, gola branca cuidadosamente dobrada. Esta inocente gola, assim como seu tom esmaecido, dava.ao vestido um jeito de roupa de uma noviça, quase uma freirinha. Ela continuava com as meias enroladas debaixo do joelho. Também a senhorita Suse tinha se arrumado. Seu vestido, rebuscado embora um pouco vulgar, era branco, com mangas curtas - seus braços eram rosados e roliços-, e se mostrava mais animado no decote e na cintu ra com umas fitinhas coloridas azul-claras, em parte arrumadas como uma espécie de debrum sob o tule artificialmente aberto, em parte apareciam, ainda mais elegantes, como atrevidos lacinhos. Karin e sua mãe já esperavam na sala de jantar. Também Karin tinha trocado de roupa; um pouco elegante demais para a ocasião, apareceu Johanna: tinha um sóbrio vestido negro de noite, seda mate, muito longo e muito justo. A mãe continuava com seu vestido negro de viúva, sem formas e com uma estranha figura de saco. - Vamos sentar - disse a"pãe. Karin olhou nervosa o relógio. - Ragnar ainda não decidiu se vem jantar? - perguntou ligeiramente irritada. - Vamos jantar assim mesmo - disse a mãe, cujo hábito de esfregar as mãos já era agora um gesto inquieto, quase ameaçador. O prato principal não era servido pela senhorita Suse, mas sim por uma mulher mais velha com uma touca branca, que Johanna não tinha visto até então. A senhorita Suse sentava, com o rosto conturbado, na mesa. Quando já haviam começado a tomar a sopa, Ragnar entrou8. Johanna o imaginara menor e mais delicado que seu irmão Jens, mas era tão alto e grande como aquele. Com uma pressa um pouco nervosa cruzou a sala, diretamente até Johanna. - Esta é nossa hóspede, Johanna- disse a mãe, cujos olhos, desde o momento em que Ragnar entrou na sala, estavam ainda mais abertos e eram ainda mais fugidios. Karin manteve seu olhar escuro fixo no prato. Ragnar inclinou-se com um movimento atrapalhado diante de Johanna. 8 0 personagem de Ragnar é inspirado no latifundiário finlandês Hans Aminoff, amigo de Maus Mann (cf. introdução). G7 - EnCcantado - dsse, sorrindo apenas um segundo. Depor foi em direcão a sua mãe, sobre cuja mão inclinou-se com o m mo movinnento atrapahado. Tocou seu punho com os lábios fugazme mas não se m uma certadevoção carinhosa. Seu lugar na mesa era entre e Johanna. Começou a mmer rapidamente. Johanna disse alguma coisa a mãe sobre seu breve passeio e sobre a b za do lago ,negro. Olhou de soslaio, rápida e inquisitivamente, a cara de nar enqua rito falava. %o se parecia em nada com Jens, mas menos ai com sua irmã Karin, pelo menos assim à primeira vista. A Johanna cham a atenção O corte especial e atraente de seus pequenos olhos castanho-dou dos. Esta Gonfiguraçãodos olhos, um pouco estreitada pelos ossos do tos não oblígr.ta, mas quase oblíqua, ninguém tinha na família. Seu cabelo es ro, iá com algumas entradas, retrocedia diante da testa nos lados. Tinha bios perfe itos e fortes, talvez a única coisa de sua cara que podia lemb Jens. Mas a barbinha e;a menor, redonda e bem formada, mais que a de irmão. En quanto Joha:ina falava mantinha seu rosto inclinado sobre o p to. Quando mencionox a água negra do lago, riu brevemente. -Aqui tudo é urr, pouco fora do comum - disse, e Johanna se asso brou com o profundo tom de sua voz, quase retumbante. O aln?oço foi farto: depois da sopa, em seguida um enorme assado, p parado coxa grande esriero, com guarnição de verduras de todo tipo e en tado com uma folha de papel branco. Johanna não tinha muita fome; Ka e sua mãe também correram pouco. A senhorita Suse, apesar de toda pre cupação corri seu `garoto' e por Hannover, comeu direitinho. Também nar comea porções grandes e com uma certa pressa. A mãe, com a cara p a frente, uma expressão de temerosa atenção, contava coisas de épocas pas das em apressados sussuros. - Todo inverno íamos a Nice - relatou, olhando com timidez a Ra nar. - Ali se encontrava toda a boa sociedade de São Petersburgo. Ger mente as coisas eram organizadas de tal forma que eu ia na frente com m mãe e mademoiselle Pigeon, e papai ia depois. Mas só quando ele chegava que tudo ficava mais divertido. Ele nos levava ao cassino, mon Dieu, um 1 gar nada adequado para nós, jovens, mas a gente ia conhecendo o mund papai não tinha preconceitos. Dançava-se o cancã... - disse atormentad olhando suplicante a Ragnar. Contudo, este, sem piedade, observou irônico com sua voz retumbant - Que interessante! - sem tirar os olhos de seu prato. 68 - Senhor, Ragnar- disse a mãe, mexendo de um lado a outro sua cara achatada e esfregando com desespero as mãos -, claro que era interessante; até membros da família do czar foram a Nice... - Mas agora já não existe nenhuma família de czar- respondeu o filho cruel. - E Nice se converteu num ninho de pequenos-burgueses. Não queremos ouvir nada sobre esse tema. Seu tom grosseiro contrastava de forma chamativa com o gesto tímido e cavalheiresco com que antes havia beijado a mão de sua mãe. - Bom, eu pensava... - disse a mãe, com uma pequena e leve oposição. - Claro que são épocas passadas. A verdade, acho, é que Nice decaiu um pouco - manifestou, dirigindo-se a Johanna, como se desculpasse seu filho. - Cannes deve ser agora muito mais elegante, e talvez haja outros lugares com mais prestígio que a Riviera. Karin, que até o momento tinha ficado em silêncio, perguntou a seu irmão num tom meio carinhoso, meio gozador: - O que há com você hoje? Voltou a ter dor de cabeça? - Tinha dor de cabeça - explicou Ragnar, a cara sobre o prato, alongando as sílabas de forma queixosa e doída. Em seguida acrescentou, com maior pressa: -Além do mais, hoje de manhã tivemos problemas novamente por causa dessa estúpida venda de madeira. Não querem me pagar nada, é uma vergonha. Diante dessa observação, a mãe adotou uma expressão quase triunfal. - Com papai, esse tipo de negócios sempre se resolvia muito rápido - disse, com voz repentinamente alta. E Karin, em voz mais baixa, com um tom quase imperceptível de agressividade: - Mas por que você não deixou o assunto da madeira para quando Jens voltasse? Ragnar respondeu vivamente em sueco, tirando os olhos do prato por um momento, irado. O almoço foi transcorrendo sem que se falasse muito; trouxeram uma grande tijela com compota, outra com biscoitos. A senhorita Suse disse em tom baixo a Johanna: - Tem estado ultimamente em Hannover? Não? Que pena! Eu gostaria tanto de saber que as coisas por lá continuam muito bem, como sempre... 69 Depois do café, que tomaram na sala, numa mesa menor num canto, mãe e a senhorita Suse foram embora. A mãe disse, de forma levemente fu gidia: "Me perdoe, ainda tenho que ver alguém", o que provocou um olh irritado de Ragnar. Johanna, Karin e Ragnar foram para o salão. O salão era grande, revestido de madeira clara e parcamente mobiliad em estilo imperial. Um descolorido tapete de cor clara cobria todo o chão Os poucos e bonitos móveis da sala, estilizados, estavam ao longo das pare des: duas cômodas brancas com finos enfeires dourados, alguns sofás, um mesa redonda, num canto um piano de cauda; a sala era ampla e estava va zia, como um salão de baile. A curta parede transversal - diante da divis ria na qual estava a porta da sala de jantar- era ocupada quase somente po uma ampla porta de vidro que dava para o terraço aberto. Numa das pared longitudinais havia duas janelas altas e estreitas, e na outra duas portas: um conduzia ao corredor, a outra a uma pequena biblioteca, o gabinete de tra balho de Ragnar. Saíram ao terraço e deste, por meio de umas escadas, a um prado Fecha do em semicírculo por grupos de árvores dispostas mais ou menos simetri camente. Entre os grupos de árvores se podia ver a água. A noite estava ela e cálida, o céu de um azul-vítreo transparente. Knut e Wolf chegaram cor rendo, dando grandes pulos no prado, e se aproximaram numa corrida en ciumada, os dois chegando ao mesmo tempo diante de sua meta, Ragnar Este acolheu suas brincadeiras com amável seriedade. Com um carinho di traído, deixou que Knut saltasse até ele ladrando e babando e lhe colocas as patas sujas de terra no peito: ao mesmo tempo encontrou a oportunidad de dar uns Capinhas no pescoço e no dorso de Wolf, que dava voltas em tor no dele mexendo o rabo e ladrando como louco. Johanna percebeu como ele melhorava enquanto estava entre os dor animais, cheios de impetuoso carinho. De repente, do modo mais real e ver dadeiro, tinha alguma coisa do jovem fazendeiro, até mesmo do jovem cam ponês que à noite desfruta, diante da porta de sua casa, de sua propriedade familiar e viva. Desaparecera nele seu inquietante nervosismo. Seu rosto antes com tal suscetibilidade sombria, tinha agora de repente um aspecto a mesmo tempo mais jovem e maduro, mais amável e forte. Quanto ao resto Johanna percebia também agora, pela primeira vez, que ele, ao contrário d habitantes femininas da casa, não tinha se arrumado para o jantar. Vest uma calça de flanela cinza, amassada, com algumas manchas, e um casac marrom de camurça, que já brilhava de tanta gordura, aberto na gola. Karin voltara ao salão; talvez - como Johanna constatou divertida - um pouco incomodada pelo fato de que os cachorros haviam se ocupado de Ragnar tão apaixonadamente e tão pouco dela. Rodearam, dando pulos, ao jovem senhor da mesma forma que antes haviam feito com a jovem senhora, mas com uma paixão ainda maior; é possível que Karin sentisse isso como uma pequena traição. Ragnar, que tirou de cima o inquieto Knut, depois de algumas palavras amáveis e sérias, disse a Johanna: -Agora você tem que ver minha biblioteca. A coisa soava como se quisesse dizer que depois de conhecer os cachorros e a biblioteca já vira o mais importante da casa. Atravessando o salão, envolto numa meia-luz delicadamente cinzenta e rosa, entraram no gabinete de trabalho. Lá o mobiliário estava exclusivamente composto de estantes de livros que ocupavam as paredes, de uma pesada mesa com gavetas, de um amplo sofá de couro e de uma mesa baixinha sobre a qual estava um gramofone. Ragnar disse, rindo com certa timidez: - Sim, estes são meus livros... Fez um gesto solene de apresentação indicando as estantes. Johanna constatou que em sua maior parte estavam cheias de edições francesas, encadernadas em rústica e amarelas ou com belas capas de couro; em algumas estantes havia volumes ingleses, em outras, suecos, em algumas outras, alemães. - Como você vê - explicou Ragnar-,também leio alemão, mas não muito. Sobretudo Lessing ou Goethe, nunca Schiller e quase nunca coisas modernas. Nunca gostei muito da Alemanha - disse, e olhou para Johanna com seriedade. Falava alemão muito bem, embora com mais sotaque do que Karin e a mãe, um sotaque que também em seu caso parecia mais russo que escandinavo, e com mais erros pequenos e incorreções que as duas. - Mas aqui tem tudo dos grandes franceses - disse com orgulho. - Veja, de Racine até Claudel, e Rimbaud e Stendhal e Flaubert e André Gide, Cocteau e Verlaine9. Que literatura maravilhosa! - Nos últimos anos tive, infelizmente, tão poucas ocasiões de ler estas cois~u - disse Johanna um pouco envergonhada. - Havia tanto que fazer, sabe... 9. Kl;ws Aiann menciona aqui autores que exerceram influência decisiva sobre sua próPrci formaçào, e sobre os quais escreveu vários estudos c anigos. Em T~rt und Kritik (c~. bibliografia) encontra-se uma monografia de A(ichael Grunewald (pp. 37-61) sobre a relaçào entre Maus Dfann e a cultura francesa. 71 - Mas agora você tem tempo! - exclamou Ragnar muito vivamen - Não conhece Rimbaud? Você tem que ler Rimbaud, sem nenhuma d culpa! Pegou um livro da estante e o folheou apressadamente. - "Le bateau ivre"1° - exclamou. - Como é possível que tenha dido "Le bateu ivre"! Indo de um lado a outro da sala recitou as primeiras linhas do gran poema. - Mas, espere - interrompeu -, assim você não pode conhece poema. Tem que levá-lo com você. Tem que levá-lo e lê-lo com paixão. É buloso! Tenho inveja de você, que acaba de conhecer o poema. Colocou o livro em sua mão. Johanna estava diante dele numa atitu ávida de saber, como uma colegial. Ragnar voltou a correr pela sala. -A situação deve ser realmente repugnante agora naAlemanha-di voltou a parar diante da escrivaninha. - Nauseabunda, como se costuma zer. Eu não queria começar esse assunto na mesa. Essa senhorita Suse é u idiota - voltou a alongar as sílabas de "idiota", como ao pronunciar "dor cabeça". - Mas você deve ter tido uma participação muito ativa, não? Não esperou a resposta, e sim perguntou de repente: - Quer ouvir um disco? Espere, tenho um magnífico aqui... Foi rapidamente à mesinha sobre a qual estava o aparelho, inclinouabriu um baú com discos e começou a mexer nele. - Vou colocar para você Parlez-moi d'amour - disse de forma pio tedora. Enquanto procuravam ainda o disco, chegou música da sala contíg Era de piano. - Karin está tocando - disse Ragnar, e levantou a cabeça de seu b de discos; o sangue havia se acumulado em seu rosto, uma veia saltava testa. Johanna passou ao salão. Ali estava Karin, tocando à luz crepuscul cinza-rosada. Johanna chegou perto dela em silêncio. Não sabia que Karin soube tocar tão bem! Tinha que ser Bach. Johanna ouviu comovida. Sentia lág mas na garganta; "a gente tem os nervos destroçados", pensou, "alguma v 10. "O barco ébrio", poema em versos alexandrinos de Anhur Rimbaud (1854-1891), c posto em 1871 e publicado por Verlaine na revista Lutèce em 1883. 72 a música me causou impressão semelhante? Por que Karin nunca tocou antes para mim?" O rosto de Karin resplandecia com um grave e beatífico arroubo pelo mistério e pela claridade da fuga as quais suas mãos davam vida com a maior precisão. Não tocava apaixonadamente, mas sim com reverente exatidão. Suas mãos morenas se mexiam com uma aplicação piedosa, serviçal. Sim, pensou sua amiga: o rosto de Karin estava muito pálido, como depois de um esforço muito grande. Até seus lábios, finos, delicadamente desenhados, estavam pálidos. - Não tinha nem idéia de que você sabia tocar! - disse Johanna, em tom de repreensão e comovida. - Toco muito pouco, raras vezes - respondeu Karin apressadamente. - Raras vezes. Vamos dormir, Johanna? Você deve estar cansada. Despediram-se de Ragnar. Karin perguntou a Johanna se não queria ir ao seu quarto por um momento. - Você tem que ver meu quarto - disse, com um sorriso inseguro. O quarto de Karin estava no primeiro andar. Era muito maior e mobiliado com mais luxo do que o quarto da cidade: móveis pesados e sólidos. Johanna notou com mais atenção um armário bojudo marrom. Sobre a cansa um ícone multicolorido, uma doce virgem entre quatro adornos dourados, sob a qual ardia uma lâmpada. No criado-mudo estava a fotografia de uni senhor com um grande bigode branco e uma cara severa e reflexiva. - É o papai - explicou Karin, que tinha parado diante do criadomudo. - A fotografia não diz, claro, muito dele, mas alguma coisa sim; ele não gostava de ser fotografado. Sabe, essa seriedade e severidade eram só uma parte de seu ser. Ele tinha tudo. O que eu poderia contar?... - disse em voz baixa, muito triste, tirando os olhos da foto. - Era sem dúvida o homem mais maravilhoso que conheci. Ele se preocupava com todo mundo. Também os camponeses daqui o adoravam, apesar de ser um patrão severo. Passou a mão nos olhos e sentou na cama. - Ragnar era o único com quem ele não se dava bem - disse em voz baixa. -- Mas a culpa era de Ragnar. Ragnar tinha medo dele - silenciou, a cara afundada, perdida em lembranças sombrias. - Por isso Ragnar ficava tão pouco em casa- disse finalmente. - Sempre viajando. - Viajava muito? - perguntou Johanna, e logo percebeu que a pergunta era absurda, inoportuna até. 73 - Papai confiava muito mais em Jens - disse Karin. - O terrível que nem Jens nem eu estávamos aqui quando aconteceu a desgraça. Jens tava nos Estados Unidos e eu em Berlim. Só Ragnar estava aqui, de visi Sim, ele foi testemunha da catástrofe. Papai caiu do cavalo... Deve ter q brado o pescoço... - emudeceu e afastou os olhos. Ao fim de uma longa pausa continuou: - Aqui tem muitas coisas que vão parecer estranhas a você. Mam também mudou muito desde o acidente. E Ragnar muitas vezes fica mui impaciente com ela. Veja, por exemplo, o problema da avó... Parou e acrescentou em seguida: - Mas no fundo Ragnar a ama; sim, ele é muito ligado à mamãe... - Estou tão contente de poder estar aqui - disse Johanna, interro pendo sua fala -_embora por pouco tempo, naturalmente. Acho q agora não teria agüentado Paris. Voltar outra vez à confusão e à ativida política, assim de cara. Não, claro que não teria suportado. A gente vai cansando, um cansaço terrível, sabe? Isso acontece aos poucos. Claro q quando me chamarem, eu vou. Mas é bom estar um pouco aqui, embo corno é natural, isso a princípio também me confunda um pouco. Sobret do o silêncio, Karin... o grande silêncio... Karin levantou a mão para acariciar a cabeça caída de Johanna. Mas s estado de ânimo era diferente da noite anterior. Johanna virou sem quere cabeça para um lado; Karin tirou a mão, como que envergonhada. - Você quer dormir. Johanna assentiu com a cabeça. Levantou-se, inclinou-se sobre Kari ainda sentada, e a beijou suavemente na testa. Karin fechou os olhos, co tente pelo toque dos lábios de Johanna e confusa com a cansada fugacida desse contato. Johanna saiu do quarto, desceu as escadas e atravessou o vestíbulo. Cr zou obliquamente o prado na metade da avenida em direção à pequena de hóspedes. Havia muita claridade, mas agora estava mais fresco. Johan sentiu frio. Apertou contra si, com maior força, o livro de Rimbaud, qu não tinha soltado em nenhum momento. 74 3 N aquela noite o sono de Johanna foi tão profundo como uma anestesia. Tentou ler os poemas franceses, mas os olhos se fecharam, como se tivesse tomado uma droga hipnotizadora. No quarto de hóspedes, pouco confortável, não havia abajur no criado-mudo; dormiu com a luz do quarto - uma lâmpada com claridade agressiva coberta com uma esquálida tela branca de papel plissado, feiamente decorada com flores amarelas - ainda acesa. Quando acordou sua primeira sensação foi de intenso pânico, pois não sabia onde estava. Como essas senhoras que voltam a si depois de um desmaio no teatro, e perguntam com toda seriedade, "onde estou"? Tinha a impressão de não saber para que lado estava caindo. Só quando viu ao seu lado o livro de Rimbaud, o volume amarelado gasto pela leitura, voltou a lembrar de tudo, e, em primeiro lugar, dos minutos que havia passado com Ragnar na biblioteca. Sua segunda preocupação foi que, apesar dos maiores esforços de reflexão, não conseguia lembrar dos sonhos daquela noite. Ao mesmo tempo sentia e sabia com toda certeza que sua noite esteve povoada de grandes e notáveis sonhos. Achava importante, urgente até, pelo menos reconstituir um desses sonhos. Mas não ficara nada, tudo desaparecera em profundidades às quais ela não tinha acesso. Isso a entristecia, como uma perda impossível de reparar. Durante alguns minutos ficou na cama, se esforçando, com a maior paixão, para resgatar qualquer figura, até mesmo um som, da riqueza da história. Só quando constatou que seu esforço era realmente desesperador, levantou da cama. Na parte principal da casa notou que o café da manhã não fora servido na sala de jantar, mas sim no terraço; a família já havia 75 feito sua primeira refeição. Seria dez da manhã e o dia estava quente. No t raço, junto à mesa do café, haviam aberto um grande guarda-sol, e a mes estava tirada; só tinham deixado os talheres de Johanna, ao redor dos q estavam os pratos com frios, marmelada, mel. Numa poltrona de vime pouco afastada da mesa e na qual havia almofadas multicoloridas, sent Ragnar, afundado na leitura do jornal. Johanna se assustou um pouco, s saber por quê, quando o viu. Seu coração disparou como antes, ao sair cama, quando não sabia onde estava; de fato, este novo sobressalto foi fraco e agradável, sem aquela sensação de medo. Seja como for, Johanna tranhou aquela inesperada e, esperava, absurda reação ao ver Ragnar; sent se um pouco incomodada com isso. Para sua própria tranqüilidade - desculpa - atribuiu esse sobressalto, seu tremor, breve, mas intenso, à r pa de Ragnar, insólita para aquela hora do dia. Ele vestia um roupão que chegava até os pés, estilo meio camponês, cheio de cores, meio sacerdo suntuoso, vermelho-estridente, dourado e com motivos negros, com gr des mangas, com um corte cuja origem Johanna não conseguiu definir; ela não se sentia com liberdade de perguntar a Ragnar sobre suas rou provavelmente porque lhe parecia inadequado manifestar qualquer inter se pelas excêntricas roupas de Ragnar. Com essa roupa toda cerimoniosa Ragnar usava sapatos do tipo esq mó, forrados de pele cujas pontas estavam bem curvadas para cima, em fi ma de ponta. Como o roupão, os sapatos eram enfeitados com debru azuis e vermelhos. Ragnar, que lia atentamente o jornal com o cigarro pendurado na bo piscando por causa da fumaça, levantou para cumprimentar Johanna. - Dormiu bem?-perguntou sem maiores amabilidades, mantend cigarro entre os lábios. - Maravilhosamente - respondeu Johanna -, obrigada; profu damente. Johanna sentou na mesa do café e se serviu de chá, enquanto Ragnar alto e grande, um enérgico embora tímido sacerdote ou jovem dignitá com roupas bem cortadas multicoloridas, e sapatos de bico - ficou de diante dela, com as pernas separadas. - Tive uma sorte incrível - resmungou -, e hoje o dia volta a com çar com chateações, por culpa dessa estúpida venda de madeira. Johanna gostava de ouvir como ele alongava as vogais, cada vez que fal vã era como uma pequena tormenta. 76 - Mas como é bonito isto aqui - disse, e olhou para os prados, na direção do grupo de árvores por trás das quais podiam se ver pedaços do lago escuro. - Onde está Karin? - Vem já - disse Ragnar, e voltou a sentar na cadeira de vime. - Provavelmente está em qualquer lugar, telefonando à velha tia, por um ato de caridade - ao dizer "caridade" pronunciou as vocais de forma especialmente enfática, conseguindo um retumbar irônico. - Você está muito bonita hoje - ele disse de repente a Johanna. - Parece um rapaz. Johanna sentiu que ficava vermelha, o que a desagradou. Ela não tinha dito nada sobre sua ridícula vestimenta, mas ele, naturalmente, teve que chamar a atenção sobre a calça azul que Johanna vestia por comodidade. Era uma calça azul-marinho, de aspecto gasto, comprada no sul da França certa ocasião. A camisa azul-clara pólo, também muita gasta de tanto lavar, tinha mangas curtas e decote aberto. - Bah, não passam de trapos velhos do sul - disse, talvez com muita pressa, enquanto começava a passar manteiga num pãozinho. Sob o sol a manteiga havia amolecido um pouco, embora a mesa estivesse protegida dos raios do sol pelo grande guarda-chuva. Só então percebeu que perto dos talheres havia uma carta. Viu o selo francês, e logo, numa segunda olhada, reconheceu a caligrafia de Bruno. Teve outro sobressalto, mas diferente ao anterior e menos bonito. - Me desculpe - disse com voz repentinamente rouca a Ragnar. - Por favor... - respondeu rapidamente, e voltou a pegar seu jornal. Johanna leu a carta de seu amigo Bruno. "Querida! Mando esta carta via Inglaterra; assim espero que não caia em mãos do inimigo. Imagino que meu abraço chegará justamente quando você chegar lá em cima. Todos estamos impacientes por saber de você, para saber se tudo foi bem e se você resolveu bem o assunto. ("Por Deus", pensou Johanna, "devia ter lhes mandado um telegrama. Preciso fazer isso imediatamente".) Tem muita coisa para contar daqui, mas não tenho tempo de escrever, e logo você vai saber tudo quando eu lhe contar pessoalmente. Hoje só queria mandar um abraço. Tenho muito que fazer. Vai tudo relativamente bem com os amigos; juntos vamos em frente. Georg, é claro, desenvolve sua maravilhosa atividade. Tem mil coisas planejadas, e muitas já estamos pondo em prática. Nosso jornal daqui é muito respeitado também na Ale"lanha, que é o que mais nos diverte. G. e eu escrevemos quase tudo sozi 77 nhos. Não deixamos que nos cortem o contato direto com a Alemanha, é o principal. O que ouvimos de lá cada dia é pior, mas isso, por outro 1 desperta a esperança de que logo tem que acontecer alguma coisa, e vez será alguma coisa boa. Não faça a gente esperar tanto! Primeiro procure a casa de sua amiga pero que acolha você bem) aí em cima, mas volte logo para nós! Há t coisa para fazer! Na volta você poderia parar em Estocolmo e Copenha Lá pode resolver para nós alguns assuntos muito importantes. Espero já ter saído de Paris quando você voltar, pois é provável que logo eu tenh fazer uma pequena excursão pela Renânia, disfarçado, evidentemente. jos e um abraço combativo: B." Johanna deixou a carta de lado. Estava pálida. Seu mundo - o mu com o qual estava comprometida e ao qual sua vida pertencia - estava d pente, todo-poderoso, diante dela. Georg desenvolvia uma maravilhosa vidade: ali estava o rosto severo e inteligente de seu irmão, o nariz gran proeminente, a testa angulosa e peculiar. Uma atividade maravilhosa; nu se havia esperado outra coisa dele. Mas ela estava ali, sentada no terraço. tudo relativamente bem com os amigos; juntos vamos em frente." Junt mas ela estava ali. "Também Willi e Oskar se comportam como deve também Willi e Oskar. Dois jovens proletários, um dos quais escrevia p revolucionária. Haviam trabalhado na mesma célula que Bruno - Joha os conhecera quando entrou em contato com o partido -, se compo como devem; e ela, Johanna, nesse terraço. Sim, voltarei via Estocolmo e penhague. Tenho assuntos para resolver. Juntos vamos em frente. Com um sobressalto que lhe tirou o fôlego voltou a reparar na últi frase da carta de Bruno: "Uma pequena excursão pela Renânia, disfarça Isso significava trabalho clandestino, perigo de morte. E depois esse jo abraço, "beijos e um abraço combativo: B", que a Johanna, no espaço de segundo, havia produzido um sentimento um pouco angustiante. Uma pequena excursão pela Renânia. Trabalho clandestino, Willi e kar se comportam como devem. -Tenho que mandar um telegrama já-disse, quase bruscamente.:; - Tem um lápis? - perguntou Ragnar, com sua voz tranqüila, cima do jornal. - Não - Johanna continuava muito pálida, sua voz soava rouca, olhos claros haviam escurecido de forma sombria. - Me dá um lápis, favor! E papel. 78 - Vou pegar no quarto - disse Ragnar, e levantou lentamente. - Você recebeu más notícias? - Não - disse Johanna, que, nervosa, batucava com os dedos sobre a mesa. - Não, não posso dizer que sejam ruins. Mas são muito importantes. Ragnar entrou na casa e voltou com um bloquinho de papel. - E o lápis? - perguntou Johanna nervosa. - Está dentro do bloco - respondeu Ragnar com voz profunda, que de repente tinha um tom muito suave. Johanna escreveu precipitadamente: "Tudo bem ponto vou logo ponto tenha cuidado Johanna". - É possível ditar telegrama por telefone? É preciso que saia já, imediatamente, é imprescindível. - Posso mandar alguém de bicicleta aos Correios - disse Ragnar. Johanna lhe deu o papel dobrado. Ragnar entrou na casa. Johanna sentiu um curioso alívio agora que havia entregue o telegrama e sabia que algumas horas depois estaria em Paris. Agora podia refletir com mais tranqüilidade. O assunto da viagem a Alemanha não parecia uma questão totalmente decidida. Bruno escrevia com freqüência coisas parecidas, com certa leviandade. Talvez alguém do grupo viajara no lugar dele. Afinal, nenhum deles era tão conhecido como Bruno. Seja como for, parece que as coisas em Paris iam bem. Trabalha-se. Eu logo vou colaborar. Em alguns dias lá estarei. Na verdade tem sido um tremendo desperdício de tempo e dinheiro ter vindo primeiro aqui. Mas me disseram que era mais fácil sair pela fronteira norte. E de toda a maneira, têm tarefas para mim em Estocolmo e Copenhague. Poderei render mais se primeiro me recompor aqui alguns dias. Afinal de contas, as últimas semanas não foram tão fáceis, não foram mesmo. O tormento de todas aquelas noites se fez presente: essas noites em casas estranhas, ouvindo um barulho, qualquer rumor, ali estão, descobriram meu esconderijo, estou presa. E o medo do campo de concentração, que era o inferno. Foi sorte que tivesse sido solta depois de alguns dias, alguém de cima havia se interessado por ela, mas uma coisa assim só acontece uma vez. O último encontro secreto com a pobre mãe era uma das lembranças mais amargas; acontecera num café espantoso, em Zehlendorf, logo em Zehlendorf. Mamãe se via muito afetada, só falara em voz baixa, e tirara de seu bolso negro, com dedos trêmulos, a nota, o dinheiro para a viagem, uma nota amassada, na verdade não devia ter aceito o dinheiro, o faqueiro de prata pe 79 nhorado, papai, que já não podia furrnar, papai, cujos quadros se cobriam pó no depósito. "Adeus, menina", disse mamãe, "vai para a liberdade!" pateticamente. Antes lhe havia dado a nota amassada. Devia ter recusa Como teria saído então? Nenhum d,,os amigos tinha mais dinheiro. E podia tolerar mais aquela vida. Mais uma prisão e acabaria num campo concentração. Enquanto isso Georg havia começado sua atividade em P seu irmão sem dúvida estava sob a mais rigorosa vigilância. Podiam té-la tida como refém. Martírio inútil. Assim utilizou-se para a viagem de passaporte falso e o dinheiro do faqueiro de prata colocado no prego. Ad à liberdade. Ragnar voltara ao terraço. Ao me;smo tempo chegaram, pelo prado, rin e sua mãe, com os cachorros. - Já foi mandado o telegrama - informou Ragnar. Johanna teve sobressalto. - Oh, muito obrigada - disse. Os dois cães hoje tinham um jeitão mais conciliador e pacífico. Não ocupavam muito das pessoas, e por isso não sofriam aquelas crises de ciú que lhes havia amargado o dia anterior; podiam brincar um com o outro prado, descontraídos, e pacíficos. Wolf, o mais velho, divertia-se com ce superioridade paternal com Knut, que na maioria das vezes era tão terriv mente favorecido. Corria atrás dele, e quando finalmente o alcançava, p cia que queria arrancar-lhe a cabeça com uma mordida, mas era só u amável brincadeira. Ele pegava a negra cabeça de Knut com sua garga muito aberta, de forma tão delicada que aquilo parecia ser uma grande versão para Knut; dava para ver em sua cara, que já voltava a sorrir. A mãe, apoiada em sua bengala grossa, subiu com passos curtos as es das até o terraço. Seu vestido de viúva - um casaco sombrio - pare uma destoante mancha negra nessa manhã luminosa. Olhou furtivame para Ragnar com seus olhos bons e estrábicos; seu gesto, porém, ilumin se, cheio de confiança, quando cumprimentou Johanna. - Bom dia, menina - disse com voz oprimida e asmática enquan sentava numa das cadeiras de palha, de maneira circunspecta e com um 1 gemido. - Espero que você tenha dormido bem. Seu modo de esfregar as mãos manifestava bom humor. Em seu se blante, sempre tenso por causa das preocupações, havia um pouco de p Também Karin havia sentado à mesa com Johanna. Só Ragnar estava d 80 tante, apoiado na balaustrada do terraço: contemplava como brincavam os cachorros abaixo, no prado. Johanna achou que Karin estava pálida. - Aconteceu alguma coisa? - perguntou, e acariciou fugazmente a mão da amiga. - Não - disse Karin, mas seu sorriso parecia um pouco forçado. - Não, não aconteceu nada. Talvez eu tenha dormido bem demais... A mãe, que virava a cabeça de um lado a outro numa espécie de sereno nervosismo, disse de repente: - À noite lembrei de uma história que vai lhe parecer engraçada, Johanna. Como você sabe, meu filho Jens já era travesso desde criança... - Mas mamãe! - a voz profunda de Ragnar interrompeu, nesse ponto, a inconfidência materna. -Temos coisas melhores para fazer do que ouvir historinhas infantis de Jens. Queremos tomar um banho, acho. Até ali ninguém falara em tomar banho, mas Johanna e Karin concordaram. Só a mãe ficou sentada, com a cara fechada, e esfregou com maior força as mãos no regaço. - Bem - disse suavemente -, tomar banho, sim, mas a historinha não era tão longa assim. - Você nos conta mais tarde-disse Johanna, consoladora. A mãe sorriu então, emocionada e comovedoramente. A grande superfície de seu rosto iluminou-se com um sorriso de gratidão que clareou seus lábios fofos, pesados, sempre um pouco trêmulos. -Claro, querida-assentiu. Mas em seguida acrescentou com seriedade: - Infelizmente não costumo guardar na minha cabeça essas histórias por muito tempo. Eu as esqueço rapidamente, e aí ficam perdidas para sempre. Ragnar organizou o passeio - na verdade não com jovialidade, mas movido por uma energia e um ânimo empreendedor repentinamente inflamados. Decidiu-se que iriam remando até a margem oposta do lago e que levariam refrigerantes. Ragnar chamou com voz retumbante a senhorita Suse, que apareceu com um avental azul e seu lenço branco. Mostrava um humor resplandecente, toda a melancolia da tarde se dissipara. - É uma ótima idéia! - exclamou. - É bom sair e encher-se de sol! É necessário tomar bastante ar de vez em quando! - Karin concordou com ela sobre o que levar para o piquenique. - Aperitivos de frios! - exclamou a senhorita Suse; seus olhos brilhavam de alegria de viver. - Principalmente aperitivos de frios, claro! 81 Karin e Ragnar subiram ao primeiro andar; Johanna foi à casa de hós des para colocar a roupa de banho; se encontrariam embaixo, no emba douro. Ragnar levava sobre sua roupa de banho a mesma toalha multico rida, mas havia trocado seus chinelos por sandálias gastas pelo uso. Ka apareceu numa bela saída-de-banho negra, Johanna havia se limitado a locar uma capa sobre a malha. - Está com um aspecto lamentável! - exclamou Ragnar. Num ca da casa do embarcadouro encontraram uma roupa de banho azul puída p uso. Johanna a colocou no lugar de sua inadequada roupa. A senhorita Suse chegou com uma cestinha bem apetitosa. -Tem todo tipo de frios-explicou radiante-, mas também surp sas, bolos e coisas assim. - Ajudou com toda amabilidade a desamarr pesado bote. - Eu gostaria muito de ir também - disse alegremente (c tudo, ninguém a havia convidado para o passeio) -, mas tenho o que fa Senhor, a gente não está neste mundo só para se divertir- constatou, c lucidez e satisfação. As duas jovens e Ragnar haviam encontrado seu lugar no barco. Rag ficava junto aos remos. Do embarcadouro, a senhorita Suse lhes passa cesta: - Aí vai o lanchinho! - exclamou, e depois lhes passou o gramofo (Apesar da oposição de Karin, Ragnar havia insistido em levá-lo.) - viagem - gritou a senhorita Suse, e deu um empurrão no bote. Para Ragnar custava muito dirigir o barco; mostrou-se pouco hábil. rin dava, em voz baixa e em sueco, pequenos conselhos, que ele, com c obstinação, não ouvia. - Você rema quase tão bem como dirige um carro - voltou a di Karin, em alemão, ironicamente, mas nem por isso com menos doçura. - Espere e verá - respondeu Ragnar resmungando. Enquanto isso nha conseguido que o bote girasse e remava energicamente para a frente. movimentos exageradamente amplos com que se inclinava para trás no b: co e afundava os remos na água tinham alguma coisa patética. Seu rou multicolorido escorregava de seu corpo; e o corpo que aparecia era mus loso, um pouco encorpado, com pêlos hirsutos no peito e nos músculos. se mexia com energia. Karin sorriu para ele, séria e amável. Saíram da pequena enseada. Na margem apareceu de repente a Acompanhada dos cachorros, passeava por uma senda que desaparecia juncos. Quando viu o bote parou e levantou com lentidão o braço p 82 cumprimentar seus filhos. Karin e Johanna retribuíram o cumprimento, enquanto Ragnar não se deixou perturbar em sua tarefa de remador. Karin exclamou "Adeus, mamãe", com uma voz muito clara, embora uni pouco forçada. A velhinha, entre os dois grandes cachorros, que ouviam atentamente, movia, intranqüila, a cabeça de um lado a outro. - Tenham cuidado, crianças! - exclamou, e deixou cair o braço com a mesma lentidão com que o havia levantado. Ragnar teve que atravessar com o bote um juncal; haviam alcançado o fim da enseada. Ele se esforçava de maneira meio atrapalhada e com energia, enquanto Karin o observava com seriedade. Enrugava o cenho quase coléri co. Bufava jogando o corpo para frente e para trás com gestos exagerados. Johanna parecia se interessar unicamente pela paisagem, mas com o rabo dos olhos não perdia Ragnar de vista. Voltou a mudar inteirinho outra vez, pensava. Agora parece um belo remador. Não alguém acostumado a esse trabalho. Tem alguma coisa de escravo indignado e humilhado. Com que mau jeito emprega sua energia física! Realmente não tem solução. É magnífico... Johanna pensou num escravo de Michelangelo, era uma evocação imprecisa, mas bastante viva: o corpo agitado, quanta obstinação nesse movimento, uma obstinação puramente física, corporal. Um corpo atormentado e magnificamente tenso, levantado num renitente desperdício de energia; comovedor, comovedor até as lágrimas em sua força desamparada.

.yj Johanna fechara os olhos durante dois segundos, e perdera o momento em que o bote deixava a enseada cheia de juncos e diante deles abria-se o lago. Agora se surpreendia com a extensão das águas, não havia imaginado que fosse tão grande. O lago não era grande, mas sim tão largo que a afastada margem de sua extremidade desaparecia e perdia nitidez. - Que laguna tão grande! - disse Johanna em voz baixa. - E que escura. - Em nosso país tem muitos lagos como este - explicou Karin. - Por isso o nome de `país dos mil lagos' - acrescentou Ragnar ironicamente entre os dentes, sem parar de remar. - Seja como for, não precisamos ir até lá - disse Karin, que passou por alto a observação de Ragnar, indicando com um movimento de cabeça a distância que se desvanecia. - Só até a margem em frente, essa não está longe. A excursão de barco não durou muito mais de um quarto de hora. Ragnar permaneceu em silêncio, concentrado nos gestos exagerados de sua atividade. Tinha tirado seu roupão multicolorido - deixando que escorregas 83 se por suas costas com um movimento dos ombros - e mostrava agora calção de banho curto, azul, jadeando o peito amplo - Johanna achou t ouvido seu coração bater sob os pêlos vastos; um condenado às galeras pateticamente sombrio. - Hoje será um dia maravilhoso para um mergulho - disse Karin. J gou a cabeça para trás e aproveitou os fortes raios de sol com os olhos fecha dos. Johanna tinha a mão submergida na água escura, apesar da sensação d que dessa forma segurava o barco e aumentava indevidamente o esforço d Ragnar. Mas ela gostava do sulco que se abria, chapinhando, por trás de su mão, que deslizava suavemente na água; a umidade que salpicava era de u amarelo-escuro puxando para o dourado. - Você tem que colocar de novo o roupão - disse Johanna. - Senãd vai se resfriar. Karin ajudou Johanna a deixar o barco. Ragnar, que se cubrira cuidad samente com seu roupão, ocupava-se, assoviando baixinho, de pegar os r mos e colocá-los cuidadosamente sobre o banco. Diante deles não tinham mais do que uma margem estreita; logo adiar te começava o bosque. Ficaram perto de uns troncos caídos, sobre os qua estenderam os roupões. Era maravilhoso o cheiro de resina, musgo úmido todo tipo de ervas amargas. "Menta", pensou, olhando com indolência sol. "Isto é menta ou tomilho ou alguma coisa com um nome parecido a á crim, ou talvez se trate de outra coisa com um nome completamente di rente e que não dá em nosso país." Estava jogada, esticada com voluptuos dade na madeira quente; Ragnar se sentava perto dela. Karin estava junto tronco mais próximo. Quando Johanna abriu um pouco os olhos não v mais que um pedaço de água escura sobre a qual batia o sol. O sol não po tornar a água mais clara, é escura e pronto. Mas sim pode fazer com que br lhem luzinhas, sim, pode fazer com que alguma coisa brilhe na profundi de escura. "Os lagos negros são alguma coisa relativamente rara", pensou J hanna, e voltou a fechar os olhos. "Viajei bastante, mas até agora não tin' visto nenhum." Agora escutava - até então não havia reparado nisso - levíssimo e titubeante chapinhado da água na margem, de uma emocion te suavidade. "Que ondulação tão negra, suave e leve!" pensou Johanna movida. Agora estava ali e podia ouvir aquilo: um barco, um carro esverd do e um bote a remo a haviam levado àquele lugar, já era surpreendente q estivesse ali, mas, durante esse momento fugaz, foi uma agradável surpre 84 Ragnar havia instalado o gramofone e agora queria fazê-lo funcionar. Movia lentamente a manivela, e ao fazer isso olhou Johanna, deitada. Que corpo tão bem formado tinha. As pernas magras eram as de um corredor, le vemente morenas, talvez resultado do verão anterior, pois durante esse período não tinha dado seus mergulhos. Ragnar observou - enquanto abria devagar o gramofone- a leve penugem dourada de seus músculos; as tíbias eram lisas, enquanto nas panturrilhas a penugem se convertia num ligeiro pêlo. Contemplou também a virginal configuração de sua garganta, talvez um pouco grande, sobretudo aquelas linhas audazes e suaves que saíam da orelha e iam até o queixo e do outro lado baixavam até os ombros. De fato, essas linhas e a parte posterior da cabeça permitiriam concluir uma maior energia, uma maior força de vontade: se esse queixo não impressionava, pelo menos decepcionava por sua textura flácida. Ragnar colocara um disco. Johanna e Karin abriram simultaneamente os olhos -Johanna se semi-incorporou - quando a clara musiquinha de uma melodia muito simples e muito doce rompeu o silêncio. Interpretava essa melodia uma voz de mulher levemente rouca, mas muito doce, a voz de uma parisiense cansada, experimentada em todos os sentimentos, conver-tida numa cínica, mas ainda sentimental, já não muito jovem. A voz cantava Parlez-moi dâmour. E a insaciável especialista suplicava: "Dites-moi des choses teridres!" Soluçando e sorrindo rogava que o amigo a enganasse novamente; queria acreditar nele ainda que soubesse que não passava de uma mentira. A ele Ilie pedia desejosa e languidamente o pequeno engano, tão cínica e sentimental se havia tornado; isso era tudo para ela, produzia as notas mais comovedoras com sua voz estragada, docemente quebrada; e a doce e sedutora melodia, de uma simplicidade infantil, a melodia de que se servia para sua absurda, mas tão importante proposta, dava à sua súplica urna irresistibilidade a que também sucumbiria seu destinatário. Sem dúvida começaria a falar de amor quando ela terminasse. - É precioso - disse Johanna. - É rneu disco favorito - constatou Ragnar com sua voz retumbante. - Agora vamos todos nadar! - exclamou Karin, que havia ficado de pé. As formas de seu corpo esbelto eram um pouco mais suaves, sobretudo os quadris mais largos do que se imaginaria ao vê-Ia vestida. Correram para a água, Karin e Johanna na frente e Ragnar com passos lentos e pesados atrás delas. A água estava bastante fria, houve uma pequena algaravia antes de que finalmente decidissem mergulhar. Quando Johanna 85 finalmente estava deitada na água, quase se assustou com a transformaçã em seu corpo. O lago negro tinha a faculdade de dourar os membros d que a ele se entregavam. Johanna já havia observado isso antes, ao submergi a mão na água, quando estava no barco. Mas mesmo assim não imaginara efeito tão forte e surpreendente. E não era um dourado embaçado; tinha braços e as pernas totalmente dourados. Uma coisa fantástica! Johanna fi cou quieta para contemplar com admiração aquela maravilha em seu membros, que haviam se tornado tão estranhos. Sentiu um sobressalto. Bem atrás dela dava-se um enorme chapinh Ragnar havia chegado em silêncio até Johanna e agora saltava como um loti co perto dela. Mexia os braços de forma atrapalhada, se sacudia, resfolega " pulava; não se sabia bem se ele brincava ou se queria esquentar-se, embo esta última hipótese fosse a mais provável, já que seu rosto refletia um cera tédio. Mas de repente inclinou-se profundamente, estendeu os braços e j gou na cara de Johanna uma grande quantidade de água. Ela levou um bo susto pois não estava preparada para isso, a seriedade da cara de Ragnar nãr permitia esperar brincadeiras desse tipo. Ragnar riu. Era a primeira vez q Johanna o via rir de verdade. Ao fazer isso, Ragnar mostrou os dentes... QQ magníficos dentes brancos tinha! Johanna ainda não tinha reparado niss Seus olhos ficavam menores quando ria, se estreitavam bastante. - Buuuh...! - exclamou Ragnar, rodeado pela espuma da água, u jovem divindade marinha, e inclinou-se outra vez, estendendo de novo braços. Karin havia entrado na água. Nadava bem, com braçadas firmes e se ras. Não utilizava o nado crau~ e sim os movimentos tradicionais, mais co fiáveis da braçada. Quando atingiu distância suficiente entre ela e a marge - queria estar realmente `dentro', realmente `no lago' -, ficou de cost quase imóvel, ondeando levemente os braços, como asas, e deixou que o s batesse em sua cara. Ragnar e Johanna pegaram Karin, que descansava superfície escura do lago, como meta de uma pequena competição de nat ção. Quando os dois estavam prontos para sair, Johanna contou "um, dois três", e se lançaram no crauá sem obedecer muito as regras da arte, Johan com mais disciplina, Ragnar sem muita técnica, mas com mais energia, e dois com uma entrega apaixonada, as caras n'água, bufando e esperneand levantando espuma por todo o lado. A princípio Ragnar levava uma ligei vantagem - Johanna desconfiava que ele tinha saído um segundo antes tempo; mas logo o alcançou, e durante alguns instantes pareceu até que ia 86 car na frente. Ragnar, contudo, se refez dando braçadas furiosas, golpeando com braços e pernas. Chegaram perto de Karin juntos, ao mesmo tempo. Karin, que não mudou sua postura de costas e só tirou um pouco a cabeça da água, disse: - Vocês nadam bem! - com uma voz animada e sorrindo; Johanna, contudo, acreditou ter percebido que aquele sorriso era cansado, fatigado, forçado. (Durante um breve instante Johanna teve que pensar em outra si tuação, muito remota no tempo - Ou não era tanto assim?; um terraço num jardim, música, Karin numa mesa, sozinha; Johanna havia chegado perto de Karin, depois de uma corridinha, ao mesmo tempo que outro... que se chamava Jens. Karin sorrira então de forma parecida. Era uma lembrança desagradável. Johanna a rejeitou.) Ficaram na praia até o final da tarde. Depois de nadar, desembrulharam aquela cestinha tão apetitosa que a senhorita Suse havia preparado; perto dos ovos duros havia pacotinhos de sal - cuidadosamente fechados como misteriosas cartas em miniatura-, e a surpresa que a útil cidadã de Hannover havia se referido num momento de bom humor consistia em petit-fours amarelos, vermelhos e marrons, com aspecto um pouco venenoso, mas de excelente gosto. Depois do almoço voltaram a tomar sol. Ragnar ocupava-se do gramofone, enquanto Karin reclamava dos discos horrorosos que ele havia trazido. Contudo, Ragnar garantia que não existiam discos mais belos do que aque les. Colocou uma e outra vez Parlez-moi d ámour, e finalmente passou a outras peças musicais não tão boas e qualificou de magnífica a canção que entoava uma untuosa voz masculina: "O que sei de você, pequena Elizabeth, pequena Elizabeth, ai, ai! Ontem às nove e meia da noite vi você chorando; e você não estava sozinha, você já me entendeu!" Desatou-se uma pequena discussão entre Johanna e Ragnar sobre a chata, mais ainda, insípida ambigüidade com que o escorregadio tio pretendia ter visto "chorando" a pequena e vivaz Elizabeth, pois não ficava em absoluto claro se ele, o untuoso tio, havia chorado - seja por pedagógica indignação, seja por ciúmes - ou se a parte que chorava era a mesma pequena Elizabeth, solução certamente apoiada pela construção de uma frase, mas de forma alguma pela lógica: Pois considerando que a pequena Elizabeth não havia sido encontrada sozinha às nove e meia da noite- de modo que seguramente estaria em animada companhia - não havia motivo algum para admitir choradeiras; por 87 medo do pegajoso titio que dizia "ai, ai" e que teria preferido participar n"a tinha necessidade alguma de soluçar. Outros discos que Ragnar havia escolhido e agora colocava no gramo ne eram de qualidade semelhante; embora o certo é que nem todos susci vam problemas psicológicos de igual dificuldade. Assim, na ociosidade, passaram o tempo. Mais tarde voltaram a c na água. Quando voltaram para casa já era hora do jantar. O grupo se desfez p se encontrar dez minutos mais tarde na sala de jantar. Ragnar foi o primei a se apresentar; estava já sentado na cadeira de balanço e brincava com Kn e Wolf quando chegaram os demais. Estava vestido de forma mais elegan que na tarde anterior: calça inglesa larga de flanela, e uma gravata vermef Johanna havia colocado o mesmo vestido cinza que aquela hora do dia re mendava. Sobre o pequeno e comedido pescoço, seu rosto, luminoso, ate to e valente, parecia especialmente jovem e medíocre. Karin se vestira co maior simplicidade que na noite anterior: em homenagem a Johanna se v tira de seda negra. A senhorita Suse usava, com a dignidade de sua nostálgi melancolia vespertina, uma espécie de vestido-avental de algodão azul-es ro ornado por grinaldas de rosas amarelas. A última a aparecer foi a má,, Chegou com passinhos pesados; no vigor com que se esfregava as mãos e e seu quase radiante sorriso dava para ver que estava contente. - Tiveram um dia bom, meninos? - perguntou. - Hoje temos ranguejos. Talvez fosse isso que a deixava de tão bom humor. Acariciou o rosto Johanna, que, encantada, se deixou tocar, apesar do sobressalto que lhe ca sou esta grande mão enrugada que sentia como um pescoço rugoso. - Caranguejos, boa idéia - disse Ragnar, e a forma como arrastava vogais pelo menos desta vez não era ameaçadora. Trouxeram uma trav enorme cheia desses crustáceos, que nadavam num molho condimenta com cominho,.e logo depois outra travessa. -A gente pode comer caranguejos sem pratos - garantiu Ragnar, q desenvolveu grande prática no desmembramento e abertura dos crustáce Johanna nunca o havia visto se mexer com tanta habilidade. Todos queb vam, chupavam, engoliam; todos comeram pelo menos vinte daquel exemplares, não muito pequenos. - Descem melhor se a gente alternar com licor - animou Ragn prolongando sensualmente o `o' de `licor'. Abriu alguns caranguejos para) 88 hanna, que ainda não dominava os truques do desmembramento ide acordo com as regras. - O licor é como um remédio. Cada três caranguejos, um corpinho - explicou Ragnar. Ele se servia tão generosamente de uma bebida rmuito forte, vodca, e insinuava que os demais também deviam beber. Ate a mãe se deixou convencer a beber um copinho; aquela noite seu filho a traatava com jovialidade e delicadeza. -Ai, eu, uma velha! - se lamentava, enquanto Ragnar a servria. Tentava sorrir um pouco, embora não fosse muito além disso, uma tentativa comovente, mas não totalmente bem-sucedida. Também Johanna foii insistentemente convidada a tomar um pouco do aperitivo. - É preciso comer isso acompanhado da bebidinha - afirmava o teimoso Ragnar. - Se não, os bichinhos vermelhos fazem mal. Contudo, Johanna não quis ir além do segundo copo. Lembrava da noite no reestaurante do jardim, e do muito que desejou, de manhã, ter bebido menos. Foi um almoço magnífico. Ragnar declarou circunspecto e ccom orgulho que ali, na região, se apanhavam caranguejos magníficos em qtuantidade muito grande: - Em todos os riachos - disse-, sobretudo nos lugares mai.is profundos, sob as pedras ou lugares assim. O mais fácil é pegá-los no finalil da tarde, quando começa a escurecer, sim, então é quando saem de seus escconderijos; é só colocar pedaços de carne num pedaço de pau, e eles mordem. Explicou tudo com certa rispidez; até a senhorita Suse se esquueceu, enquanto ouvia e jantava esplendidamente, de seus amargos sentimenteos; deixou que dessem outra dose de vodca, pela segunda vez, e ameaçou com maalícia: - Tenha cuidado, senhor Ragnar, ou já verá como me esquaento - e riu a valer de sua frase atrevida. Em todos os pratos se amontoavanm as chupadas cascas de caranguejo, que eram tiradas e logo reapareciam. FFinalmente todos concordaram que já era suficiente. Não agüentavam mais.;. Ragnar disse a Johanna: - Você vai conhecer a vida de nosso país. Agora trataremos c de limpar as mãos. Mas isso fazemos na cozinha. Johanna foi atrás dele até ali. Junto à pia tinham preparado urre montão de folhas de groselhas. - Sirva-se! - disse Ragnar; nos movimentos de seus braços, a afetados e comicamente solenes, e também pela forma como ria muito, se nnotava que havia bebido vodca generosamente. - Estas são folhas de groselllha, como 89 podem ver: servem como sabão, água e toalha, de uma só vez. Tem que fregar os dedos nessas folhas, senão nunca sairá essa coisa gordurosa. Johanna limpou cuidadosamente as mãos com a erva fresca, de chei forte, enquanto Ragnar a observava com seus olhos oblíquos e estreitos, q tinham um brilho mais intenso do que de costume. - Isto sim que é uma invenção original! - exclamou Johanna. - Si as mãos têm agora um cheiro mais fresco do que se as tivesse lavado com gum sabonete fino. - Me deixa ver! - disse Ragnar, e lhe pegou a mão; mão infantil, pouco áspera, forte, com unhas não muito bem cuidadas. Durante um mento manteve as mãos de Johanna presas às suas e a observou com seri de. Johanna não se mexia. Com medo, com o coração batendo de me pensava: irá beijar minha mão? Vai "levá-la aos lábios", como se costuma zer? Mas Ragnar soltou sua mão; "outra mulher talvez tivesse se chatead pensou Johanna. Voltaram para junto dos outros. Depois do almoço a senhorita Suse despediu-se. - Senhores, tenho que levá-la para dormir! - anunciou, sem dúvi com excesso de jovialidade, além de ameaçar com o dedo. Karin não ach graça; seu gesto foi, isso sim, de contrariedade. A mãe, contudo, assen bondosamente e com seriedade. - Descanse, querida! - disse, mostrando preocupação no olhar. A nhorita Suse, desconcertada, concordou com o conselho. A mãe, apoia numa bengala, foi andando lentamente até o salão. Havia - assim pens Johanna- uma grande dignidade em seu andar, cansado, mas firme. Sentou-se num dos sofás com tramas de varas, estilo imperial, que es va ao redor da mesinha redonda. - Você tem que ver nossas fotos familiares - ela disse a Johanna nu tom solene e misterioso. - Gostaria que você visse essas fotos junto co go, menina. Sobre a mesa estavam dois álbuns pesados, encadernados em veludo gro. Karin puxou um banquinho pequeno e leve, um assento bonito, bastante incômodo, de madeira dourada em mate, forrado com uma gro seda vermelha fazendo jogo com o revestimento dos pés. Ragnar resmungou, embora sem intenção de perturbar seriamente. plano de sua mãe: - Essas velharias fúteis vão interessar enormemente a Johanna! - para seu escritório. 90 - Tem boa luz aí, menina? - disse a mãe, empurrando o álbum mais perto de Johanna. Começou a virar as grossas páginas de papelão. Johanna olhava tímida e pensativa os gestos enfadonhos, tristes ou cheios de satisfeita dignidade de membros da família mortos há muito tempo. Havia ali cavalheiros cujas barbas cortadas de forma redonda coroavam as golas bordadas de uniformes ou colarinhos altos. - Este é meu avô - explicou a mãe -, era juiz, em Estocolmo, uma pessoa muito amável - (embora não tivesse nenhum jeito de ser assim). - Este é o pai de meu falecido marido - continuou com voz contida, virando a pesada página. - Observe o magnífico uniforme, e esta é a medalha mais alta concedida pela coroa sueca. Era general. Vieram logo as fotos das damas de penteados altas, que sorriam encantadoramente ou olhavam com tristeza: as avós, tias, primas (enterradas há muito tempo) de membros da família ainda vivos; em Estocolmo ou em São Petersburgo tinham tido relações com a corte, ido a bailes, algumas delas tinham até lido Ibsen, se sentiam incompreendidas e queixavam as mais espetaculares tragédias familiares. Johanna gostava dessas velhas fotografias, feitas com bela nitidez, tão ingênua dignidade: os rostos de modelos voltados rígida e artificialmente para a luz, todos os detalhes, incluindo a queda da cauda do vestido, dispostos de forma mais intencion al e pouco natural, ao fundo uma palmeira ou uma casinha suíça. O mais ir>>pressionante eram as fotografias em grupo, nas quais o avô com brancas costeletas se sentava numa poltrona barroca no centro, rodeado de seus filhos e netos, jovens oficiais de jeito arrojado, damas cujo congelado sorriso desaparecia sob as sombras cie enormes chapéus e cujas mãos se ocultavam ai taneiramente em longas mangas; dos lados, meninos pequenos com roupas negras e rígidas golas brancas, os cabelos cuidadosamente penteados. Unza família: a palavra, pronunciada com todo seu peso, encheu Johanna de temor e reverência; uma palavra cheia de significados; quantas coisas -dependiam dela, que abundância de tragédias ocultava sob sua superfície, digna e cheia de sentimento. "Na sociedade do futuro não haverá família", pensou de repente Johanna, mas pensou isso de forma fugaz e sem a paixãor adequada, pois a mãe havia passado agora a uma fotografia que chamou fo rtemente sua atenção. Mostrava a mãe, uns vinte anos mais moça, com os três filhos. No braço tinha o menor, Jens, um bebê sem sobrancelhas e com os olhos claros muito abertos. Uma menina pequena com cara muito séria que usava um vestidinlho de pregas rígidas se agarrava a sua saia: Karin. 1E um pouco afastado, 91 com uma roupinha de marinheiro cuja calça ia até as panturrilhas, com o bonezinho de marinheiro sob o braço. Johanna se surpreen princípio com o muito que se parecia o rosto de Ragnar, como ela o co: cia, ao rosto daquele menino - os olhos e a boca não tinham mu nada; depois, com a inesperada beleza que mostrava a mãe naquele ret Que sem piedade a vidai havia mudado aquele rosto, e quanto mais gro o havia convertido o sofrimento! Aqui era magro, parecido ao de Kari sorriso tinha um encanto que não era turvo, sim enobrecido, por sua melancolia; só nos olhos, muito abertos, temerosos, podia se reconhe rosto da mãe tal como era agora. - Sim, assim era eu antes - disse a mãe, sem amargura, só com surpresa quase incrédula. - Mas desde então tantas coisas acontecera - acrescentou, enquanto, atormentada pela lembrança, mexia com te o rosto, grande e sombrio. Karin havia passado os braços sobre os ombr Johanna. Quando contemplaram o retrato das três crianças e sua bela Johanna sentiu que a pressão do braço de Karin se fazia mais carinhosa e me. Ao mesmo tempo Karin sorria para a mãe, que olhava, mais alérra foto, o sofrimento de um passado longo ou um futuro que não prometia muito mais agradável. - Querida mamãe - disse Karin, mas tão suavemente que a mãe vez não a tenha escutado. - Bom, vocês já olharam bastante estes retratos - era a voz de Rag As três mulheres que contemplavam as fotografias se viraram. Ragnar es no meio da sala, mãos nos bolsos, com expressão bastante irritada. -A que Johanna gostará de respirar um pouco de ar fresco depois de todo pó. Proponho- que façamos um passeio. Ele estava na porta que dava para o terraço. Johanna levantou-se deva - Sim, é uma boa idéia ir lá fora - disse, com um sorriso cansa Nem Karin nem a mãe responderam. Karin, com o rosto imóvel, olh para o chão, enquanto que a mãe, perdida em melancólicas fantasias, m o rosto sobre o pálido testemunho de sua beleza perdida e suas esperan enganadas, aquela velha fotografia. Johanna cruzou com passos peno todo o grande salão; a porta do terraço parecia estar infinitamente lon mas no fim chegou até ela. - Mamãe vive excessivamente essas velhas histórias - disse Ragnar, m se desculpando, meio &rrioso; nele já não se notavam os efeitos do álcool. 92 Muitas reminiscências. Não é nada agradáve=l. E agora, além disso, chateiam você com isso! - Algumas fotos eram preciosas - disse Johanna. Contudo, pensava só na foto de Ragnar quando era menino. = Não foi nenhuma chateação. Desceram as escadas do terraço, entraram um pouco no prado. A grama cortada estava ainda úmida. Do lago vinha o coaxar das rãs. O céu estava claro, transparente. Johanna quase desejava vê-lo escuro uma única vez, mas a luz se mantinha implacável. Era como se um belo toque de prata não deixasse de soar com uma persistência doce no princípio, depois atormentadora, como se ficasse suspensa no ar, como congelada, um murmúrio infinito. Entre duas árvores velhas Johanna descobriu um pesado balanço: na verdade não passava de um pequeno banquinho de madeira preso por duas cordas grosseiramente trançadas; se alguém sentava no banquinho, os pés ainda tocavam o chão. - Oh! - exclamou Johanna encantada. - Balançar é sensacional, magnífico. Quando me sento numa coisa dessas volto a lembrar de tudo, de tempos remotos, sabe, o jardim do pátio da escola, o recreio das dez horas ou o parque..., mas isto também são reminiscências, como você diz. Já estava sentada no balanço, com os pés ainda no chão, embora não tivesse se balançado nem dado impulso. De qualquer forma, Ragnar a teria impedido; estava apoiado numa das fortes cordas, rodeando-a com o braço, e não deixando que se mexesse. - Não está muito chateada com a gente' - perguntou Ragnar, olhando além dela, em direção ao lago. - Você quer ouvir elogios - disse Johanna, que apalpava o áspero tecido das cordas. - Bem, claro - disse Ragnar um pouco sombrio, sem olhá-la. - Assim, durante uma curta temporada, no verão, pode ser muito agradável. Mas, sabe, há semanas, como no inverno que isto aqui é mais difícil de agüentar... Johanna, que também falava com ele sem olhá-lo enquanto brincava com as cordas, cuja aspereza lhe davam cócegas gostosas, disse: - Sim, Karin me disse isso. Ragnar riu rapidamente: - E olha que Karin não se comove minto facilmente - disse então. - Tem suas obras de caridade e suas distrações íntimas... 93 Johafina teria gostado de perguntar a que distrações ele se referia, Ragnar continuou: - p importante é que a gente se acostume, então a coisa não é tão ruim sim. Mas eu sempre estive fora daqui, desde menino, em escolas internas, na glaterra ou na Suécia, ,e depois viajando, em Paris ou na Espanha. Sim, enq to meu par viveu não passei muito tempo aqui. - Ele falava lentamente, liberdade às pra, ruas se interrompendo. -A vida que levei durante t esse tempo foi muito estranha. Devia estudar, naturalmente, mas não me d quei muí£o a isso. Sempre havia muita gente por perto, complicações, e tos sentimentos e ciúmes e os `grandes amores', e a gente levava tudo aquilo to a sério e o tempo passava... finalmente, aqui também não acontecia nada vida do rtleu pai. Sim, e quando morreu, tive, está claro, que permanecer aq me ocupam da fazenda, embora na realidade quem se encarrega dela é o a nistrador- Mas, enfim, sou o filho mais velho, o cabeça da família, digamos sim. Não é um ofício muito agradável, a situação aqui não é fácil. Uma faze como esta está sempre cheia de dívidas, sabe, tudo é muito complicado. Ai não tomei gosto por tudo isso aqui, e agora, ainda por cima, caem os preç madeira, essa é a grande desgraça - emudeceu como que envergonha olhando para baixo. J- Enquanto isso, meu irmão Jens aprende agricultu verdade - prosseguiu, depois de uma pausa. - Ele é mais, muito mais efi, tedo que eu... - (arrastou esse `eficiente' com ironia e respeito ao mesmo t po). - for que lhe conto tudo isto? - perguntou e olhou então Johanna cheio. -Você tem preocupações mais importantes. Soltou a corda e ficou diante dela na mesma posição, com cara de q acordou e com as pernas abertas. Johanna começou a se balançar. Dava um leve impulso com os pés elevava só um centímetro, mas isso era suficiente para dar ao balanço cuidadoso movimento de vaivém. Ao se balançar, as meias enroladas de ram ver seus joelhos morenos. - Sempre fui um homem inútil - disse Ragnar, sem nenhum char nho, também sem nenhuma amargura, simplesmente constatando um - Todos somos inúteis - respondeu Johanna do balanço, com voz tranqüila e segura. - Todos... enquanto não sabemos o que querem onde estamos - $ você sabe? - perguntou Ragnar, e olhou seu rosto com serie Johanna assentiu com a cabeça. Podia afirmar isso em sã consciên Não tinha dúvidas, embora nesse momento fosse mais forte que outra c 94 mais forte que a convicção e a fé, a confusa ternura causada pelo brilho sério dos olhos inquisitivos de Ragnar. Essa ternura e uma compaixão sumamente carinhosa atravessaram seu corpo como um choque elétrico; mas o novo sentimento, iniciado de repente, não se extinguiu do mesmo modo, se manteve, estendeu-se, modificou sua veemência, embora não sua força. Ela se deixou deslizar com lentidão do balanço ao chão. - Você se refere sem dúvida a uma questão de cunho político - perguntou Ragnar inseguro. - Uma questão de cunho político - disse ela lentamente. - Sim, se você quer chamar assim. Mas o que quero dizer abrange toda a vida. É tudo... - Nunca entendi nada de política - confessou Ragnar. - Sei unicamente o que não quero; isso não é pouco, mas ainda não descobri do que eu gosto. Queria responder em grande estilo, entrar em detalhes, mas sentiu que não conseguiria, ou só o faria de forma insatisfatória, malfeita, pois outras eram as palavras que vinham à sua boca. Não se atrevia a olhá-lo; seu olhar sombrio, quase negro, teria denunciado com muita facilidade o sentimento que lhe dava tontura. - Gostaria de ir para o meu quarto - só disse isso. - Ainda tenho que escrever uma carta. - Você não quer falar comigo - disse ele, sério, sem tirar os olhos dela. -Acha que no meu caso não existem todos os requisitos para um entendimento sério. Contudo, eu gostaria de aprender tanto com você, e me alegro que esteja aqui... - Mas Ragnar - disse se afastando um pouco. - Olha, ainda temos muitas outras noites para conversar... - Então você vai ficar mais tempo por aqui? - perguntou com avidez. -Muito mais tempo? Magnífico! Acompanhou Johanna até a porta da casa de hóspedes, ao redor do edifício principal. Ela despediu-se na porta. A ampla alameda de mato que levava à entrada do jardim brilhava. A franja de céspede do meio parecia fluir como água escura entre aquele branco fosforescente. Em seu quarto, Johanna sentou na mesinha, que balançava sempre que alguém a tocava. Um de seus quatro esquálidos pés devia ser muito curto, e era preciso colocar um calço embaixo. "É necessário que você escreva uma carta", pensou. Colocou diante de si um papel e começou: "Querido Bruno", ruas deixou a caneta de lado. Olhou como hipnotizada pela janela aber 95 ta para o céu, transparente e de uma cor verde-azulada, que, sem pie dissipador, mantinha sua luminosidade... luminoso, luminoso até o d pero e o arrebatamento, durante toda a noite. Johanna apoiou o rosto mãos. Esta luz, como um incessante, leve e tilitante toque de prata, abs todos os seus pensamentos, ou melhor, os pensamentos que a pressiona os pensamentos que, segundo acreditava, eram os que lhe correspondi mas não podia concentrar-se nem na Alemanha nem em seus amigos de ris. As imagens dos últimos dias tinham uma força arrebatadora. O p dio, com Jens, bastante indigno e confuso; o abraço consolador de -" fraternal, mais que fraternal; e Ragnar. Ragnar em sua roupa multicolor o sacerdote guerreiro. Ragnar, como remador, com o corpo desampa mente inclinado; Ragnar, jovem divindade marinha, rodeada de espum água. Ragnar perto dela, e ela no banquinho encantado, no balanço, das lembranças. Os cabelos, os olhos e a boca de Ragnar. Um homem in A graça atabalhoada de seus movimentos. Sua voz, o feitio de seus ol Então vou ficar mais tempo por aqui? Contudo, talvez eu vá embora nhã. Ou depois de amanhã. "É esplêndido!" Pensou se devia fechar as nas. Se esta luz parasse de tilintar em seu quarto como uma nota suste durante muito tempo, talvez conseguisse, apesar de tudo, organizar pensamentos. Mas deixou as cortinas abertas. Percebeu que não tinha dado boa-noite a Karin. 96 4 i ohanna acertara com sua mãe que esta deveria negar na Alemanha qualquer contato com sua comprometedora filha. Só assim Johanna podia sentir-se livre no estrangeiro. Como endereço postal de Johanna utilizariam primeiro o código de Karin: mediante um determinado destinatário falso, certamente, o código informaria a Karin que a carta era para Johanna. No dia seguinte, Karin lhe entregou uma dessas cartas. O confuso e atemorizador conteúdo e estilo do texto contrastava de uma forma estranha com a caligrafia da mãe, pequena, limpa, como que burilada. Pois nesta caligrafia, que parecia a de um erudito e pedante cavalhei ro mais do que a de uma dama, se enumeravam numa incoerente confusão pequenos fatos inteiramente irrelevantes e secundários: notícias do tempo, da mudança de preços no mercado, de um chá com conhecidos, do programa de um concerto. Dispersos entre esses papéis estavam alusões à situação que padecia a autora da carta, alusões ao terror, à incerteza e à mentira imperantes; à desolação da vida, adornada com magnificência, aquietada a vozes pelo estrondo da propaganda, mas que mesmo assim progredia sem piedade. "Depois de tudo, não podemos nos queixar", concluía a mãe, com sua caligrafia severa e minuciosa. "Estamos muito contentes de saber que você está num lugar tão bonito, e a nós ainda não aconteceu nada." Em seguida, como que esboçando com traços rápidos com um lápis suave de desenho, em grandes caracteres que fluíam fugazmente, uma breve saudação do pai. Johanna leu com tristeza aquela carta de seus pais. Vinha de um mundo perdido como um grito de queixa desesperado, ignorante e sufocado. Não, os pais não estavam realmente em perigo. Mal podia provar-se a existência 97 de sangue judeu na família - embora Johanna acreditasse ter recebido gum por parte da mãe -, e não tinham feito parte de nenhum dos parti políticos agora proscritos. Seja como for, estavam comprometidos, não por causa da atividade parisiense de seu filho Georg, mas também por s próprios pecados, embora estes bem mais venais: por exemplo, o fato d mãe pertencer a organizações pan-européias, ou o pathos libertino com q; o pai costumava ainda se expressar em toda a classe de clubes de artistas, as conferências de mamãe nas associações de mulheres pacifistas. Pois lado da música de câmara, o pacifismo tinha sido o verdadeiro conteúdo vida de mamãe, sobretudo desde o final de seu desgraçado assunto co dentista Kasimir Kücken. Também papai estava a princípio contra a gue e havia assinado manifestos pacifistas; mas no fundo era mais para ver nome impresso do que por entusiasmo autêntico. Era um alemão do uma natureza fraca, um pintor medíocre com uma sólida técnica impress nista. Antes da guerra suas paisagens, naturezas-mortas e retratos, não nham vendido mal, e também na época de conjuntura entre 1925 e 192 conseguiu se desfazer de algumas delas. Agora vivia quase que exclusi mente do aluguel que recebia de quatro quartos de sua magnífica casa Berlim. Mamãe havia armado a coisa de forma muito hábil: três qua eram ocupados por um casal americano, o outro por uma estudante. P gostava de contar histórias de sua infância; crescera numa granja perto um dos lagos da Alta Baviera. Pelo jeito, mamãe não gostava de lembrar sua infância. Nascera em Berlim, o pai era advogado, ela não tinha irm nunca havia sido muito feliz. Quando conheceu papai, este era um ho bonitão - tinha uma barbicha loura; entretanto, seu rosto tinha se torn pálido e inchado, uma cara descolorida com olhos um pouco inchados quem o conhecia há tempos ainda achava vestígios de seu antigo enca Quando ainda tinha êxito entre as mulheres causou muitas preocupaçô mamãe, com seu comportamento cruel e leviano: às vezes desaparecia rante dias, que passava alegremente com uma modelo ou a esposa de al colega; quando voltava, mamãe chorava e a coisa acabava em cenas. Ao de alguns anos mamãe já não conseguia chorar, seu coração não tinha para sentir dor intensa e continuada, e além do mais não tinha tanto I l. Período de relativa bonança econômica na República de Weimar, iniciado na ve em fins de 1923, quando começaram a ser superados os efeitos da terrível inflação de primeiros anos. 98 assim pelo pintor. Seu comportamento endureceu como seu coração, sua boca se contraiu de amargura. Só no assunto do dr. Kücken - tinha então 46 anos - ela se permitiu uma vez um grande desabafo sentimental, demasiado tarde e em circunstâncias fatais. O dr. Kücken tratou casualmente de mamãe uma tarde quando ela sentiu dor de dente; ficou logo fascinada pelo fogo de seus olhos negros, sua barba esponjada, a boca, carnosa e de um vermelho escuro, a testa abaulada. Tinha dedos grossos, amarelados de nicotina; sob o avental branco de médico apareciam pesadas botas negras. Mamãe sentiu que era o homem de sua vida. O tratamento converteu-se num tormento e num prazer: pois, de um lado, sua proximidade era deliciosamente excitante; por outro, era uma coisa indecorosa que o destino lhe reservava: ter que tratar uma periodontite. Para ela era insuportável mostrar ao eleito de seu coração a boca aberta e deixar que ele observasse os danos em seus dentes. Depois da primeira sessão interrompeu o tratamento e voltou ao outro dentista; naturalmente, para grande irritação do dr. Kücken, que por causa de seu tenebroso diabolismo, perdia uma cliente. Ela não conseguiu se livrar dele e depois de numerosas chamadas telefônicas, mamãe o visitou certa tarde com o rosto coberto por um véu. Seja como for, ele se sentiu lisonjeado, e talvez até um pouco comovido por sua balbuciante ternura. As visitas se repetiram, mais toleradas que desejadas pelo dr. Kücken. Àquela altura ele já mantinha relações formais com uma viúva pudorosa que, além de tudo, e isso fazia a coisa ainda mais lamentável, era bem conhecida, quase uma amiga de mamãe. O dr. Kücken nem se preocupou em dar a entender a mamãe o que vinlla pela frente. O que o impedia de fazer isso era mais indolência que terna consideração. Assim, ela ficou sabendo da notícia do tal namoro na metade de sua febril e parca felicidade. Colapso e noite banhada em lágrimas. Esperança desfeita. Impossível acreditar naquilo, pensamentos de morte e suicídio, viagem solitária ao campo, amarga vingança, resignação atormentada e, no lugar do disparo de revólver, a carta de despedida, melancólica e contida. ("Amigo meu: não tenho nenhum direito de suscitar sua cólera; não me corresponde censurá-lo. Nunca poderá calcular os danos que me causou, pois nunca soube o que significava para mim. Não desejo à minha pior inimiga nem sequer uma parte das dores que você me causou... e assim aprendo uma vez mais a ver como é errado depositar esperanças nos homens. Me perdoe, amigo meu, se eu lhe causei horas difíceis, e que não encontre palavras de felicitação...") 99 Retomou a vida antiga, levada com um zelo ainda despojado de ale conferências pacifistas e quartetos de Beethoven; preocupação por enco trar um novo inquilino, pois o semestre universitário já chegava ao fim estudante que alugava o quarto já havia informado sobre sua saída. Para os fillhos, adultos, o episódio infeliz com o dr. Kücken fora uma lução vergonhosa; mamãe, em seu insensato momento de felicidade, ti cometido tamta indiscrição que depois lamentou atormentada. O filho velho Georg, passara pela desgraçada felicidade com um desprezo dolor mer"te irritado, enquanto o filho menor, Felix-era neste em quem Joh pensava pouco e nunca com prazer - permitiu-se observações insolent oportunas sobre o infeliz episódio. Quanto a papai, ele se colocara numa sição de ignorância irredutível e irresponsável. Foi Johanna quem mais sofi pelo erro lam(entável de sua mãe. A vergonha e a compaixão que sentia por tiveram, conitudo, a virtude de fazer mais fortes e ternos seus sentimen pela infeliz; nisso não havia nada de desprezo nem repugnância. Ela teria tado de todo coração de apoiar sua mãe, teria desejado ficar perto dela, j melete naquele momento. Foi muito dolorosa a desilusão que sua mãe causou com sua postura esquiva e de rejeição, isso tanto nas semanas de equivocada felicidade como quando, embriagada, sorria e cantarolava o r inteiro, come) também durante os dias de fracasso e abatimento. Então da família, e ao voltar mostrava outra vez uma compostura artificial. A garoe e solitária, não deixava que ninguém chegasse perto de sua dor, protegia e ocultava com ciúmes, como seu mais secreto santuário. Foi rej do o oferecimento amoroso de ajuda de Johanna, o que para sempre aca core a espontaneidade da filha para com a mãe. A relação entre ambas nunca adquiriu a grande cordialidade que t desejou Johanna. Quanto Ao resto, seus pais gostavam mais de Johanna do que dos ou filhos Haviam acompanhado com orgulho e um interesse não isenta compreensão o crescimento de seu filho Georg, que aos quatorze anos li vros de filosofia e escrevia ensaios. Mas eles pertenciam a uma tradição 1 ral democrática e estavam muito agarrados a uma compreensão da arte ratnente estética, de tal forma que as conseqüências radicais do desenv mento desse filho, extremamente dotado e ambicioso não os assustavam contrário eles até repeliram isso. Do que tinha medo não era tanto do ex mismo político do filho, mas sim o modo implacável e, segundo lhes p cia, sacrílego com que ele não só colocava em dúvida, mas até descart 100 com altanaria, valores que para eles eram sagrados - tais como a liberdade da arte, o pacifismo total ou o caráter absoluto de certos conceitos de beleza. Seus pais eram burgueses muito avançados, e havia poucos preconceitos ou dogmas de que não pudessem se separar a nenhum preço. Mas no radicalismo estético, quase de tinturas religiosas, de seu filho Georg percebiam um desprezo excessivamente gélido por suas mais elevadas idéias e seus mais queridos sentimentos; diante de sua severidade, o amor de papai por Monet era irrelevante, até mesmo inane, cpmo a música de câmara de mamãe; passava sem piedade pelos livros de Coudenhove-Kalergit2 como pelas lembranças da alegre vida boêmia do fim do século de papai ou sobre a explosão sentimental penosamente tardia de mamãe. Dessa forma, a atitude dos pais em relação a este filho era respeitosa, mas fria. Por outro lado, não tinham a possibilidade de atender de forma adequada a seu filho mais jovem, Felix, tão surpreendentemente diferente do mais velho. Este homem, belo e à sua maneira também dotado, vivia em outro nível e falava outra linguagem, diferente da da família. Alguns amigos velhos da casa, que papai conhecera na juventude, acreditavam ver uma certa semelhança entre ele e Felix; tinham em comum um encanto que seduzia com facilidade e que nada significava. Mas o pai, apesar de sua perene e irresoluta insegurança, se diferenciava de Felix, cuja jovial falta de consciência e aspereza interior eram perfeitas, mediante uma maior riqueza de sentimento, uma sensibilidade mais forte por natureza educada pelo exercício artístico, e mediante um nível intelectual sensivelmente superior. Felix não tinha sentimentos, além de uma ambição vulgar que podia se satisfazer com um pequeno Mercedes e uma amante elegante. Para a preocupação de mamãe, ele não terminara a escola secundária, e já com dezessete anos trabalhava na indústria cinematográfica. Não como ator, e para isso tinha uma bela figura, apesar da carência de talento, mas a princípio como cutter. Logo fez uma pequena e medíocre carreira e ganhou algum dinheiro. Por causa disso subiu um pouco a estima do pouco escrupuloso pai, que às vezes lhe tirava dez marcos, enquanto a mãe, mais severa, manteve intimamente uma rejeição absoluta em relação a esse filho, para ela subalterno, embora provavelmente o mais capaz de todos para os embates da vida. Não se fez mais complacente com ele quando as relações de Felix podiam ter tido uma importância espe 12, Richard Coudenhove-Kalergi (1904-1972), fundador em 1923 do Movimento Pan-Europeísta. ciai para seus pais. A sociedade cinematográfica para a qual trabalhava F e onde era cada vez mais considerado estava ligada por estreitos laços todo-poderoso Ministério da Propaganda alemão r3. Felix tinha se fili em tempo ao partido dominante; havia rompido todos os contatos com irmão alguns meses antes de que isso tivesse resultado imprescindível. em casa acontece alguma coisa, Felix podia utilizar suas relações a favor. nossos pais", pensou Johanna. Era a primeira vez desde que havia aban nado a Alemanha que o nome deste irmão indigno acudia seus pensam tos. Além disso, provavelmente deveria agradecer aos contatos de seu ir sua própria liberação na Alemanha, como supunha, contra sua vonta embora não tivesse certeza disso. Se era verdade que Felix tinha se esfor por ela, então não era nenhum caso de amor, muito menos bondade, sim só um desejo de ver fora do país essa chata e perigosa irmã. - Ai, Karin - disse Johanna. - Quem vai ajudar essas pessoas. Estava com Karin no terraço. A manhã era de uma beleza perfeita, e Wolf estavam preguiçosamente estirados ao sol. Karin estava muito bo nessa manhã, vestia uma roupa de praia de tecido branco com um casaq nho curto e calça bem larga. - Sim, quem vai ajudá-los? - perguntou com sua voz clara, séria e venil. - Não - corrigiu em cima Johanna-, não queria dizer isso, não f va de modo geral, não me entenda mal! Não me refiro `à humanidade', sim, como um conceito coletivo vago. Sim, sei que ajudará a nós, aos jov e aos trabalhadores: isso sabemos perfeitamente. Agora estava pensat> numa classe determinada e numa geração determinada. Esses, você sabe, tão afastados da barbárie agora imperante como... como do outro, de grandeza que terá de se redimir da barbárie presente - pensava, com esfi ço, com a língua na comissura dos lábios, como um rapaz que refletisse bre suas tarefas escolares. - Mas que importa: terão que se submeter - cidiu. - Não desta vez, não na catrástofe de transição, mas sim naquela virá, que a eles talvez pareça barbárie a princípio. Conseguirão se submet os melhores deles com certeza. Mamãe, por exemplo, apesar de tudo, é u mulher inteligente. Em grande medida trata-se de uma questão de nível e 13. 0 ministério Nacional para a Instrução Pública e a Propaganda, fundado depois quê nazistas tomaram o poder, tendo sido o instrumento com o qual os nacionalistas tenta controlar não só o rádio e a imprensa alemã, mas também a literatura, o cinema, a mú etc. Esteve sob o comando de Joseph Goebbels. 102 caráter. Pessoas como mamãe sem dúvida serão resistentes a princípio, tambén, diante de nós; pois a princípio a liberdade será muito restringida, e como isso é para eles o conceito mais alto, ficarão desiludidos. Mas logo perceberão que entre nós se conserva vivo muito do que são suas tradições mais belas, muito mais que entre os assassinos que agora recorrem à tradição burguesa. Falava como se estivesse sozinha, meio ausente, meio concentrada, como se decorasse um texto que fosse lhe servir de base para uma grande discussão. - Você tem muita coragem - respondeu Karin. - Acho isso porque você acredita que podem nos ajudar... nos ajudar do lado de fora. Se é isso o que você acredita... A paz de seu rosto sem mácula era um estranho contraste com o tom amargo de sua voz. Johanna a observou timidamente de relance. O que sabia ela de Karin, o que escondia Karin por trás da doçura uniforme de seu sorriso e a suave, embora enérgica, segurança de seus gestos? Estava Joharina tão arrebatada, tão embriagada pelo sentimento que já não notava nada? Não sabia ela da tristeza em que caíra Karin na noite anterior, quando Joharina desapareceu com Ragnar no jardim? Enquanto ela sentava no balanço - assento mágico das lembranças -, que tormentos e dores não havia custado a Karin ficar com a mãe dizendo algumas palavras antes de se retirar para o quarto, onde sentou petrificada, petrificada de tristeza. Também para ela a noite continuara luminosa, mas aquela luminosidade havia aumentado ainda mais sua dor. Nem um só segundo foi economizado, nenhum segundo se esfumou graças a escuridão que teria sido consoladora; todos mostraram a sua luz mágica, com uma suprema claridade, a inteira extensão de sua amargura. Karin sabia, com maior clareza que a própria Johanna, o que se abatia sobre sua amiga, o que estava diante dela. Lutaria contra Ragnar por Johanna? Aí, ela sabia, contudo, que logo sucumbiria. Esse Bruno não teria sido rival, esse Bruno não lhe infundira nenhum temor. Com ele teria podido até compartilhar Johanna; pois ele amava uma mulher que não era a Johanna infantil, a que ela amava e se dirigia. Mas Ragnar... ele era muito mais forte que ela. Sempre havia sido mais forte, ela conhecia seu irmão. Sabia pouca coisa da vida dispersa e rica de Ragnar, na qual tanta ternura havia sido desperdiçada de forma excessivamente liberal e inábil, e contudo esta vida indolente e aventureira, confusa, dilapidadora e melancólica ela conhecia de urna forma mais direta e profunda, mais que qualquer outra coisa, incluin 103 do sua própria vida, na qual só teve duas perdas. Ragnar obteve o que d fava; só não se sabia por quanto tempo. Assim tinha que contemplar Karin igual a Ragnar, o grande, pobre e lentoso irmão, que via nela uma nova aventura, doce e sem esperan quando para ela aquilo havia representado a grande esperança, a maior de a primeira, a mais forte e tão prematuramente arruinada. A noite em que voltou a experimentar tudo aquilo pareceu não ter fim. rosto da fraternal amante - tão perto dela e, contudo, agora tão longe -, o minoso, audaz, infantil rosto, cruel embora inocente, pouco atento embora no, desprevenido embora esperto, não se afastou dela, ficou junto dela, a mentador e arrebatador. Nunca até aquela manhã precisara Karin fazer tal forço para manter seu sorriso e doce postura. Como uma façanha terrív, heróica ela havia se preparado com todas as forças de seu coração e de sua al naquele dia, que teve que suportar como um dos mais amargos de sua vida. - Onde está Ragnar? - perguntou Johanna desapiedada. - Hoje de manhã tinha coisas para fazer na fazenda - disse Kar com voz muito tranqüila. - Isso acontece raras vezes. Provavelmente dando uma volta com o administrador. Depois do café da manhã, Johanna pegou caneta, tinta e papel da sala{ trabalho de Ragnar para escrever uma carta no terraço. Ficou um po mais do que seria necessário naquela sala, na qual não entrara mais d que ele lhe deu o livro de Rimbaud. Inclinada sobre a mesa - como se casse ali o conteúdo do que ia escrever - respirou o cheiro da sala (o co da poltrona, os livros, a fumaça que persistia tenaz nos tapetes e nas co nas). Karin lhe disse da porta: - Este era o gabinete de trabalho de papai. Acho que desde que isto rou o quarto de Ragnar nunca passei nem uma hora aqui dentro. Contudo, ela constatava isso sem nenhuma amargura, só de forma re xiva. Johanna procurou alguma resposta, mas não encontrou e voltou a no terraço, passando ao lado de Karin e cruzando o salão. Karin a seguiu. Johanna sentou do lado de fora, na mesa redonda, que agora não ti toalha, e começou a escrever no ato. Eram urgentes sobretudo as cartas Bruno e para a mãe. Escreveu primeiro o envelope para a mãe com o c plicado endereço secreto. (A carta era enviada a uma modista de uma am de sua mãe, o que significa passar, bem fechada, por várias mãos antes chegar até ela.) A desagradável sensação de que a carta contudo talvez fi nas mãos da modista ou da amiga e nunca chegasse às mãos de sua mãe d 104 xava Johanna atemorizada. Escrevia devagar. A cada palavra pensava se não poderia ser comprometedora ou até fatal para seus pais em caso de chegar a terceiros. Podia se confiar nessa modista, a quem ninguém conhecia? Talvez fosse uma mercenária ou uma leal servidora do regime que fazia questão de entregar a Gestapo as cartas suspeitas provenientes de estrangeiros que as enviavam utilizando-a como intermediária. Johanna, com uma prudência que a repugnava, pesando cada sílaba, informou suas impressões a respeito da paisagem, a forma da casa em que vivia, sobre os cachorros e sobre o estado de saúde de Karin. Seus pensamentos não estavam nessa carta com a qual se atormentava. Não conseguia manter os olhos no papel; se dirigia, cruzando a baixa balaustrada, ao prado. Achava que do grupo de árvores - vindo talvez do balanço, que não dava para ver dali - Ragnar tinha que aparecer. Desejava tanto isso que só duvidava que fosse acontecer de verdade. Ela o via chegar, com seu andar atrapalhado, abrindo um pouco as pernas, mãos nos bolsos, assoviando baixinho; vestia a jaqueta de couro marrom e a calça amassada, como na primeira noite. Mas por mais que levantasse os olhos até ali, a paisagem continuava sem ele, em paz, ensolarada e deserta. No lugar dele chegou finalmente a mãe, com seu passo pesado. Ela se apoiava na bengala, ziguezagueando levemente, a cara tensa e ensombrecida por mil pequenas preocupações confusas, subiu lentamente as escadas até o terraço. Implacavelmente decidida a conversar, infeliz e pesada como o destino, ela se aproximou, digna e caminhando com dificuldade, de Johanna, a ela exposta sem nenhuma defesa. - Bom dia, querida - disse, suspirando contente, sentando-se pesadamente na poltrona de vime que Johanna empurrou em sua direção. - É um dia magnífico - disse a mãe, mexendo a cara de forma atormentada, de um lado a outro e esfregando as mãos, preocupada. (Este gesto de esfregar as mãos, mecânico e aflito, lembrava um pouco os incessantes movimentos de uma triste mosca negra enormemente grande, como descobria Johanna: com a mesma laboriosa idade, maníaca, desesperada e bemhumorada com que as moscas esfregam suas patas dianteiras.) - Estava escrevendo para minha mãe - disse Johanna, para que a velha percebesse que incomodava um pouco, e também para lhe indicar, por terna cortesia, o quanto apreciava as mães, a corporação materna, e que atentamente se comportava com respeito à sua própria mãe. 105 - Pobre mulher - disse a mãe de Ragnar, Karin e Jens, deixando um momento de esfregar as mãos e ficando quieta durante uns instantes. hanna perguntou involuntariamente: - Por quê? O sorriso que a mãe mostrou diante dessa exclamação foi muito es nho. O sorriso atravessou seu rosto aturdido e enrugado, um rosto ao m mo tempo malicioso e irado, irônico e resignado. Sorrindo, levantou u pouco os lábios grossos e fofos. Funestamente divertida mexeu a cabeçal um lado a outro. - Toda mãe é digna de compaixão - disse finalmente, mais malici que queixosa. Naquele momento, Johanna quase sentiu medo dela. M jogo de gestos da mãe, bastante inquietante, não durou muito. Passou co um fugaz relâmpago. Imediatamente depois, a cara da mãe voltou a ter a pressão de sempre, de escuta temerosa, aturdida e, embora cheia de bon de, desconfiada. (A expressão do rosto da mãe era como a de uma pessoa 4,, ouve com dificuldade ou é totalmente surda, embora seus ouvidos esti sem em perfeitas condições.) - Fico contente que você esteja aqui, querida menina- começou a m com uma loquacidade convencional que escondia sua cordialidade. - T bém para mim, se você permite que diga isso, você é uma hóspede querida. sobretudo para Karin - Johanna, que esperara em segredo outro nome, t um estremecimento, quase imperceptível, e a mãe continou: - Você sabe como minha filha Karin está sozinha; claro que sabe, v é sua única amiga. Ela ficou muito contente porque você veio... Em sua voz asmática e penosa era perceptível um leve tom de severi de. Johanna disse que estava muito agradecida de poder estar ali, e que ap veitava muito; as palavras lhe saíram balbuciantes e inseguras. A mãe c cordou com sua mão grande e coriácea. - Não era isso que você queria ouvir - disse, sacudindo a cabeça jestosamente. ("É muito mais esperta do que eu pensava", pensou Johan aterrorizada, "sabe muito mais...") - Falemos de Karin. Karin necessita uma pessoa. Johanna se sentiu mergulhada numa grande confusão. Estava des cerrada e muito confusa pela forma de se expressar da mãe, repentiname tão decidida, querendo ser levada a sério. Ela havia imaginado essa conve de outra maneira. Agora estava ali, como uma colegial, brincando co porta-canetas. 106 - Mas Karin... - disse em voz baixa. - Karin não é uma pessoa que necessite de ajuda. Eu sempre a admirei. Tem uma segurança tão grande. É tão invejavelmente forte... - Oh, querida menina- respondeu a mãe, sem tirar seus olhos azuis fixos, temerosamente abertos, da cara de Johanna. - Acho que você não conhece bem as pessoas. - Nunca conheci Karin de outra maneira- disse Johanna, agora quase ofendida. - Eu também não - disse a mãe, sentada bem a vontade, cheia de preocupações e à vontade; teria podido zunir como uma mosca, pensou Johanna, de repente tomada de ódio; quando a mãe continuou falando, Johanna percebeu que as moscas não ronronam, embora haja exceções: há moscas monstruosas, e essas sim podem fazer isso. - Mas você sabe o que isso custa g Karin? - perguntou a mãe. - Sabemos o que tem que fazer para conseguir isso? - manteve o tronco poderoso, que parecia como acolchoado, bem inclinado para a frente, sem tirar os olhos de cima de Johanna, à espreita. - Naturalmente, eu não posso ajudar minha filha-sua boca, fofa e de grossos lábios, tinha um sorriso de terrível aflição ao dizer isso. -Talvez ninguém possa fazer nada, talvez ela própria tenha forças. Desde a morte de Gunar só houve uma pessoa em quem ela teve confiança: seu falecido pai - disse as últimas palavras de uma forma estranhamente solene e cerimoniosa, como quando se menciona a uma majestade morta. Johanna perguntou: - Quem era Gunar? - temia a resposta. A mãe, retorcendo as mãos, desconsolada e serena, mostrou sua surpresa diante da pergunta com um movimento mais rápido de cabeça. - Você não sabe quem era Gunar? - perguntou em tom de censura corri a voz contida. - Era o namorado de minha Karin - em suas palavras havia orgulho. - Sim, era seu noivo. Era feliz com ele, eu também gostava de Gunar, era artista, embora muito trabalhador, de Estocolmo. Karin teria sido feliz com ele para sempre. - Por que se separaram? - perguntou Johanna; sua voz tremia de medo, pois era a primeira vez que ouvia esse nome que havia desempenhado um papel tão importante na vida de Karin. - Porque ele morreu - disse a mãe, com dureza, quase triunfante. - Porque Gunar, o noivo de Karin, estava fatalmente doente desde o 107 princípio. E quando ela o conheceu (veio à fazenda trazer lembranças seus pais, de Estocolmo), ele tinha só urn pulmão e tossia tanto à noite podíamos ouvi-lo por toda a casa. Depois pareceu melhorar. O casam já estava marcado, e víamos Karin muito feliz. Depois veio o vômito de gue, e Karin precisou acompanhar o noivo a Davos. Ali cuidou dele a morte, durante meio ano. Essa é a história da felicidade de Karin. - Quando foi isso? - perguntou Johanna em voz muito baixa. Quero dizer, quando ocorreu tudo isso? - Gunar, o noivo de Karin, morreu faz dois anos e meio - respon a mãe, o torso inclinado rigidamente para a frente. - Quer dizer, mais ou menos um ano antes de ver Karin pela prim vez - calculou Johanna; sua voz quase carecia de entonação. - Então Karin tinha ainda uma pessoa - disse a mãe, continua seu relato. - Depois da morte de Gunar, ficou muito unida ao pai. Os se fizeram inseparáveis. Meu falecido marido se interessou pelos estudo Karin, da mesma forma que ela compartilhava com o pai as preocupaç negócios dele. Durante o dia o acompanhava em suas saídas, à noite sen com ele na biblioteca, que agora é o gabinete de trabalho de Ragnar. Se n ca tivéssemos tido a idéia de que passasse seis meses em Berlim! Mas pé mos - também meu falecido esposo assim pensou - que a mudança ares, o novo ambiente fariam bem a Karin. Dessa forma ela não pôde ne sentar ao pé da cama de seu pobre pai quando aconteceu a desgraça; tal isso nem teria acontecido se ela estivesse aqui. Calou-se, e Johanna também não disse mais nada. Depois de longa p sa, acrescentou à guisa de conclusão: - Deus sabe porque tudo isso teve que acontecer- sem suspirar, e m menos no tom banal de velha, mas séria, determinada, quase ameaçadora. pois disse, outra vez com sua voz de sempre, asmática e contida: - Contin escrevendo à sua mãe, menina! Levantou, cruzou o terraço apoiada na bengala, com passos pesados desapareceu na casa. Johanna tentou terminar de escrever a carta à sua mãe. Logo voltara chateá-la. Agora era a senhorita Suse, que sem ser convidada, mas com co frança, se sentou na poltrona de vime que Johanna havia empurrado p perto da mãe. Sob o lenço branco em sua cabeça, a cara da senhorita Suse nha sinais de preocupação, embora ainda não fosse noite e, portanto, n era hora de sua melancolia. 108 Incomodo? - perguntou a senhorita Suse em tom de censura. - Um pouco. Estava terminando de escrever uma carta. - Bom, vou ficar pouco tempo - manifestou a mulher de Hannover, um pouco ofendida. - Mas queria lhe pedir um conselho. Sim, senhorita Johanna, a senhora é a única que pode me acudir - a senhorita Suse tinha os olhos chorosos, seus lábios tremiam. - De estrangeiros, gente que fala outra língua, por melhor que dominem a nossa, a gente não descobre seus assuntos mais íntimos. Meu namorado não me escreve - disse rápido, um soluço na garganta, embora calculado para fazer efeito. Um "Bom, o que a senhora acha disso?" não expressado ficou no ar. - Quando recebeu sua última carta? - perguntou Johanna, infelizmente um pouco distraída. - A senhora quer mesmo saber? - perguntou desconfiada Suse, o que fez Johanna deixar de lado a caneta. - Lógico - disse -, claro que me interessa. A conversa se prolongou. A senhorita Suse deu todos os detalhes sobre a indigna criatura feminina que de todas as formas queria roubar seu namorado, um engenheiro desempregado, um rapaz fantástico, de natureza volú vel. Johanna tinha que dar conselhos sobre como acabar com a indigna criatura feminina e como reconquistar o engenheiro. Os conselhos foram de natureza generalizada, embora fossem suficientes para que a senhorita Suse voltasse a recuperar o bom humor. Johanna pensou, enquanto a senhorita Suse continuava falando com ânimo: o que me importa tudo isso? Como a gente cai em situações ridículas! Quanta estupidez aparece na frente da gente! Finalmente ficou livre e pôde terminar a carta. A senhorita Suse ficou sentada à mesa e observou, desinibida e curiosa, cada um dos movimentos dejohanna. Johanna, que durante as primeiras frases quase escrevia mecanicamente, não pensava agora nem na carta à sua mãe nem no que agora sabia de Karin, e certamente tampouco nas angústias da senhorita Suse. Pensava sem parar, com toda a força de seu corpo e de sua alma: onde está Ragnar? Por que ele não vem? Ragnar tem que vir imediatamente. Por favor, Ragnar, venha agora mesmo. Espero você. Por que você está em outro lugar, não neste terraço? Venha rápido! Tem que vir enquanto fecho o envelope: ela se deu e lhe deu uma espécie de ultimato. Umedeceu levemente a parte do envelope onde vai a cola, fechou devagar a carta. Mas Ragnar não apareceu. 109 Em vez disso, a senhorita Suse veio coma uma proposta. Disse que do almoço podiam tomar `um banhozinho'; ela, Suse, tinha um temp e gostaria muito de fazer isso. jolianpa deixoru de lado a segunda carta, realmente teria gostado de escrever - era ~ carta para Bruno -, av' Karin, e dez minutos depois se encontram no embarcadouro. Anima verdade e com problema no ooraÇão só escava a senhorita Suse, que disso mostrava umas formas agradáveis sob "um roupão de banho de cor' melho-choque; era um pouco grandona, moas bem-proporcionada e de cujos firmes, só as pernas eram demasiado grossas. Karin manteve certa distância 1 estava amável e até faladeira, m pouco distraída. Johanna se sentia incomodada com ela depois do tris lato da mãe sobre tantas coisas dolorosas do passado, cujos sinais ela, Jo na, achava reconhecer agora ria cara trangií ila da amiga. Assim, Johan dirigia a Karin com o tom de uma respeitosa timidez, sem espontaneid isso Karin só podia perceber como uma nova nuança do estranhamento. O banho não durou muito tempo. Johanna pensou o tempo t Onde está Ragnar? Tinha que vir, ti nha que chegar ali com a maior rapi oh, senhor, por que não vem? Enquanto se deixava deslizar pela água lentos movimentos, como adormecida. Também almoçaram sem Ragnar. Johanna mal falava; o desejo de estava preso em sua garganta Quando fi,ialmente ele entrou ela teve reunir todas as suas forças para não gritar. Já tinham terminado dealmoça,r quando chegou Ragnar, e estavam tados na mesa menor tomando cafQ. A mãe - o semblante mais preocu do e aturdido que nunca-contava uma longa história dos velhos tem Johanna não podia escutar, mas a partir das poucas palavras que captou casualidade deduziu que São Petersburgo era o cenário da história. Ka, sentada com muita compostura, talvez demasiado dura, sorria para a animando-a. Ragnar cruzou rapidamente a szala, sentou na mesa grande, e pediu a nhorita Suse que mandasse servir-Ne o almoço. Johanna ouviu com ansie de seu modo palatal de prolongar as; vogais. Aspirava sua presença, finalm te outorgada, com toda a alma e com todos os sentidos. Sentia sua proxi dade com todo o seu corpo. 0e vestia a jaqueta de couro marrom e a calça flanela com manchas. Seu rosto esta .va acalorado - tinha vindo rápido -, vezes limpava o suor da canedo lábio superior. Karin perguntou: - Então, finalmente resolveram o assunto da venda da madeira? - Não - disse Ragnar, as sobrancelhas grossas e negras franzidas com mau humor sobre os olhos estreitos. - Não, embora você me pergunte isso em tom de censura. As coisas não vão tão rapidamente, papai também não teria resolvido isso mais depressa. Em geral, tudo parece caminhar muito mal na fazenda. Continuou comendo rapidamente. Como ninguém disse nada, acrescentou: - Em todas as fazendas acontece a mesma coisa. O negócio não é rentável. Seremos pobres. Vamos ficar sem nada. Karin não tirou os olhos da cara séria de Ragnar, obstinadamente abatida. A mãe, retorcendo as mãos com maior intensidade, disse: - Nunca aconteceu nada parecido antes... - Bah, mamãe r-- replicou Ragnar brincando -, agora a culpa da crise mundial é minha! Sim, eu sou sempre o culpado, segundo parece agora! Serviu-se de vinho e bebeu tudo furioso, num só trago. Johanna achou insuportável ter que continuar sentada ao lado de Karin e da mãe e não poder ficar ao lado de Ragnar, tão perto dela. Dava tão pouca atenção às palavras que diziam que quase não percebeu que a conversa agora já era em sueco, idioma incompreensível para ela. Ragnar mostrou melhor humor depois de ter almoçado. Pediu que trouxessem café na mesa pequena, perto das mulheres. Finalmente falou com Johanna: - E o que você tem feito durante todo este tempo aqui? - perguntou sorrindo. Ela respondeu com uma frase que foi se enrolando e não chegou a terminar completamente. Achou muito constrangedor enrubescer por causa disso. A idéia de fazer um passeio de carro foi de Ragnar. - Podíamos visitar o tio Peter - sugeriu. - Seja como for, temos que nos despedir dele antes de ele ir para Oslo, e assim Johanna pode aproveitar e ver um pouco a região. Karin perguntou ao irmão, não sem temor, se ele tinha intenção de dirigir. - Sem dúvida - disse e sorriu amavelmente para a irmã. - O pior que pode acontecer é batermos contra uma árvore. Dos três irmãos, Ragnar era quem tinha o maior, se não o mais vistoso, dos carros. Era um automóvel escuro e grande, com seis lugares, de marca italiana, muito sujo, com os pára-lamas arredondados e a tapeçaria meio ar rancada. Todo tipo de ferramentas entortadas, cobertores cheios de pó e ma pas destroçados estavam sobre os bancos e o chão do carro. Karin subiu cilante. Ragnar perguntou a Johanna se ela queria ir na frente, ao lado d Hesitou um pouco, mas logo disse que preferia ir atrás, com Karin. quanto dizia isso esperava que Karin a contrariasse; mas Karin não uma palavra: Johanna não achava que alguém ia perceber que remin para ela, era ir atrás e sentar ao lado de Karin. Contudo, a terrível desilu por não ter podido ficar ao lado de Ragnar transparecia em sua cara e em dos os seus movimentos. Cruzaram a aldeia, Ragnar lhes chamou a atenção sobre a velha igr - ali se erguia, tosca, angulosa e com as marcas cinzentas do tempo, a cinqüenta metros de distância da casa do amo, tristemente separada d para sempre - e a casa de banhos na qual os camponeses, ao estilo ru suavam ao vapor e se golpeavam com pedaços de canas. Ao longo dessas plicações, Ragnar descuidava do volante e se virava para ver Johanna de maneira irrefletida, perigosa. Enquanto isso o carro deu um giro para a querda e aproximou-se de forma inquietante da valeta da estrada. Karin decia grandes tormentos, não conseguiu se conter e exclamou: - Ragnar, eu te suplico! Não é absolutamente necessário que se cum tua profecia sobre a árvore na qual vamos acabar todos! Ragnar respondeu em sueco e acelerou o carro ainda mais. A estrada se abria, num trecho, ao longo do lago negro - do lado que havia mergulhado na véspera - e desembocava no bosque, que a a lhia naquela penumbra que ressoava como um órgão. O caminho pelo que durou longo tempo. -Toda esta madeira é nossa-manifestou Ragnar logo depois, vol do sua atenção ao volante sem nenhuma preocupação; uma árvore de rep te aparece ameaçadora; Karin gritou, Ragnar pegou firme na direção no timo instante -, mas ninguém compra - acrescentou tranqüilamente. Situações semelhantes, de grande perigo, voltaram a se repetir. Rag tinha um jeito de dirigir - ao mesmo tempo atrapalhado e arriscado, traído e atrevido - que martirizava os passageiros do carro. Finalmente saíram do bosque. A estrada correu durante alguns qui metros entre prados, e depois começou um novo bosque. - Isso aqui já é propriedade do tio Peter - explicou Ragnar. Dez minutos depois se detiveram diante de uma vila baixa, branca, coberta de pedra e de toda classe de ervas trepadeiras, triste e abandona Saíram do carro. Depois, Johanna só lembraria daquela visita de forma muito imprecisa. Ela viveu isso como um sonho. Uma enorme tensão que a havia atormentado e feito feliz desde manhã e que, a partir da aparição de Ragnar na sala de jantar, ameaçava arrebentar seu coração, fazendo-a incapaz de reconhecer rostos ou participar de conversas. As respostas que dava às perguntas convencionais eram corretas, mas com a correção rígida e totalmente inanimada com que os hipnotizados participam de conversas, o que os torna ainda mais inquietantes do que são quando só suspiram e calam. Johanna contemplava os homens como sombras multicoloridas. O barulhento cumprimento e o "que surpresa!" logo na chegada soaram como uma conversa vazia, semelhante à gritaria das gaivotas. Entre as outras vozes só a de Ragnar, profunda, adquiria às vezes vida - a de Ragnar. A família do tio Peter era infinita, parecendo composta de gente divertida e original. Era difícil distinguir entre as numerosas moças com vestido de verão multicoloridos; Johanna tinha até a impressão de que mudavam. Rei nava um ambiente animado e contínuo, e nem sempre voltava a mesma que havia ido. Em algum lugar tinha que haver uma reserva inesgotável de jovens mulheres, de onde eram mandadas para animar a reunião; todas tinham como característica comum uma incansável vontade de rir, e só podiam se diferenciar na forma de rir: uma tinha um tom mais argentino, a outra mais estridente. Contudo, aquele que acompanhava as moças na sua maneira invariável de rir era, sem dúvida, o mesmo; o filho da casa? O irmão? Ou o flerte comum a todas, aquele a quem haviam se juntado para passar uma tarde animada? Tratava-se de um jovem doentio, de peito abaulado, com uma cabeça muito grande (sua caixa toráxica, excessivamente alta e volumosa, era como uma corcunda ao contrário, o que não parecia melhor do que uma corcunda normal nas costas). Com toda sua imprecisão, Johanna tirou uma impressão verdadeiramente estranha da mulher da casa, a mãe do divertido anão, uma pessoa sem dúvida extravagante, se não com uma doença mental. Na lembrança ficou sobretudo um gigantesco chapéu de palha amarelo, oscilante, inadequadamente decorado com todo tipo de penas coloridas e lustrosas faixas de seda; uma máscara grotesca, do tipo que se usam em bailes à fantasia ou numa brincadeira. Por baixo dela, o rosto da dama, entorpecido, da cor do marmelo, esticado, e ao qual o riso parecia causar dor; apesar disso, ria quase sem parar, se contorcendo: a boca se retorcia para o lado direito de forma inquietante. Era como se a senhora, ao rir, quisesse morder a própria orelha, o como se fizesse esforços desesperados para poder conseguir isso: um espe culo fascinante, mas repugnante. Tomaram chá na varanda coberta, na qual, idílica e descuidadamen crescia a trepadeira. As conversas, apesar de todos os gestos inauditos e risadas exageradas que as acompanhavam, foram bem mais convenciona desvaídas. O próprio tio Peter- um senhor com uma barba branca pont guda e vidrosos olhos azuis num rosto avermelhado - só se misturava conversa de vez em quando, com piadas contadas com vaidade e na maio das vezes sem grande efeito. Brincou com as moças, sobretudo com Joh na, por causa de seu penteado de menino e suas meias enroladas. Para hanna ele pareceu insuportável. Ele se achava um senhor encantador seus melhores anos. Era ministro com plenos poderes deste país em Osl só estava passando umas curtas férias em sua pequena vila cheia de risa Muito estimado por todos os lados, era tido como um notável homem sociedade. Johanna viu como Ragnar conversava com seus parentes e ria com el Assim o conheceu numa nova metamorfose. Ele se mexia, filho de u grande família, com um jeito negligente de alguém bem criado, de for que sua timidez se revelava tenuamente; ele se comportava de forma di rente da habitual, bem-educado e moderado. A risada com que receb obediente, as brincadeiras autocomplacentes do tio e os exageros grote de sua extravagante tia não era a que Johanna conhecia, mas aquela risa nha bem-educada também a comovia: entrefechava os olhos ainda mais, modo que se faziam muito pequenos; aquilo era coqueteria, mas ao mes tempo atravessava sua cara um gesto quase desesperado, como se sofre terrivelmente pela careta que aquela gente o obrigava a fazer. Johanna nun teria acreditado que ele tinha tal disciplina e tal talento para representar. Seja como for, tudo aquilo parecia cansá-lo muito. Quando voltaram carro, ele se via exausto. Karin lhe perguntou se queria que ela dirigisse a ra, e Ragnar concordou com um gesto. Assim Karin sentou na frente, ao lante, sozinha, Johanna e Ragnar atrás. Johanna percebia agora que havia passado mais tempo na varanda que imaginava. Já era tarde, a claridade do céu se transformava num ver vidroso. Aquele toque de prata sustentada que durante o dia era inaudív escondida, mas sempre presente, em segredo, em alguma parte, voltou a brar de forma leve, muito leve, um vibrar doce, atormentador, monótono. Ragnar disse, o rosto cansado e as sobrancelhas sombrias: - São uma gente terrível, meus queridos parentes... - tormenta gutural em "terríveis". - Mas esse tio Peter tem relações excelentes. Preciso me dar bem com ele, pode ser útil nos negócios. Você achou ele asqueroso? - perguntou a Johanna depois de uma pausa. - Não - disse Johanna com a voz contida. - Não, por quê? Durante todo o tempo só tive que olhar o incrível chapéu de sua tia. Os dois riram um pouco. Depois não voltaram a se falar. Karin dirigia rápido. Quando chegaram em casa a mãe os esperava-sombria, corpulenta e irritada - embaixo, junto a porta do jardim. Ragnar e Johanna desce ram e subiram com ela pela calçada, enquanto Karin levava o carro para a garagem. - Vocês foram bons com o tio Peter? - perguntou a mãe. - Ele é muito ranzinza; é preciso agitá-lo um pouco para que ele fique de bom humor. Depois do almoço Johanna pediu desculpas a todos. - Estou cansada - disse - e além do mais tenho que escrever minha segunda carta. Antes de se retirar para seu quarto caminhou um pouco pela calçada, acima e abaixo. Que liberação não ter que falar! Sabia que não podia suportar durante uma noite clara, durante um longo dia essa tensão, essa espera tormentosa, que se prolongava deliciosamente, que aumentava e que quase se fazia intolerável. Subiu para seu quarto. Não houve nenhum sobressalto, nenhum estremecimento de surpresa quando Ragnar entrou pouco depois em seu quarto. Johanna sentara na mesa bamba e o esperava. Havia visto como empalidecia e se fazia cada vez mais vidroso o céu, desapiedada e dilapidadamente claro, e o esperara. Esperando-o, escutara o terrível tilintar do toque de prata no ar. Chegara a hora, a hora tinha o poder de apagar tudo, de absorver tudo o que antes estaria presente na vida de Johanna. O poder de fazer tudo irrelevante, de desvalorizar tudo o que viria depois. Ragnar disse com voz velada: - Tinha que vê-Ia - sentou-se lentamente na cama. Ela concordou, virando o corpo para o lado dele. O quarto era tão pequeno que Ragnar poderia tocar seus ombros e seu cabelo com a mão. Mas não a moveu. - Sempre penso que tem que escurecer mais - disse Johanna, e olhou para o céu, que brilhava palidamente. - Sim, mas não escurece mais - disse Ragnar. - Você deve estar incômoda nessa cadeira. Lti anb ajuuwu o ajdwas aluas anb up!AOWOO umuiai essa i opaca WOa Ojso, assa noglo `aiurtuc Ewn 'EUUELIO f -laAÇimui ajuatupoi riogr suw 'usoAjau oeu uf 'aiuaiaudwi oru uf rzaisui Ewn iod'ajuaOoui osurasip nas ap,usade 'opeDiuçu zrdui wn ap oisoi o ')]UOaOUT Siru! 'waAO( SIELU rpaird :oLiueij -sa Eizej o ajuatuesopnD EArwjojsuuij oquos o anb oisoi wnu oprgOurwsap olaqu:) o 'uijaqu-lwas Eaoq r - oauoi waq via oeu - o.iadsu ajuauiãAa, caos wn woa 'apepüuln2ai woa a aiuaturpunjoid opur,idsai `murmo f ap suisoJ Su aigos Ejino r 'ojiad o ajgos orca 'SVISOO ap CAEisg *Eilwjop aia anb aiuawupunjoid ora 'o5iojsa woa .iru2u-d irpime nin2asuoO os Euurmo f *ajiow Ep O'op!waj a opequos SICLU o :ojsodo a tugu sirtu p aql anb ojuawow o ias apod os owoO lui 'sapupapdoid a ojijid -sa ap soprisa 'sojuaturjuas ap epugaiiuj ajuawuliojiprijuoO a Eaii ora 'oiaip -iadsap a ojinO !ugaO ouSupidulip uns a ou~5uwrlgns rwixew uns ap oiaw iod Ep!A UJIPICLU a EXIEq Ejsap OUSUAjasUO:) a ouSenuliuOO Cp OSTAias E 'aj,OLU up owixóid a Iruamai sirtu ojuawow o'zu2nj aiuawupuiadsasap a opei2 -ES opun2as o'owaidns ojuauiow o aia riud OpEgãgO ETAEL¡'EUiaia ElUOW -!jãD rp soju so opun2as 'siod :nas o woa odioO nas aigoO a alap ojjod Eiud EAal E OLUIU9UU aJUEwE o anb piu jugOaj as r LUEIJOA oeu SOPEIosUO:)sap a sazilaj'soxg soglo sassg -oxas nas :odwai ojmtu eq turlpuad'solips a sojiagr 'soL4io snas anb olinbe wrjiuo:)ua orjua suw 'uquiurp rAia Eu owoa soSii sodsa.iD a sosuap tua tuapiad as 'osuap sim zrj as odioO nas ap olád o otuo:) wajuas'oxiuq mud sopiriiu ajdwas'solsnas a'oguol siuw odwaj o ajuri -np auTu uns E nlun O orpioO ojuaigues.o lrnb ou ogrgwn ou tuájap as soigpi snas a 'odioa nas ap ajuujídlrd aiJljiadns E ElJime EpuuilDUl E.TE:) uns rioSE .u5agrO uns uxiuq u2anua anb woD -olád ap sujutu sE aijua upeOilap o-SEA -aia E'IãAisuaS iugnl O r!JliEJE saia woD a'-sopugad'sopiwn solád-oiiad nas ap solád so soigEI so woO riajoqus -solnOsnw snas tua rrf oeisa socui sons ojuunbua 'ojiad nas pju rzilsap uDoq uns a 'orpe-ap-owod o 'zou uns soiq~¡ snas ajiua rwo1, -ugiuq uns ap mmp up iop r aluas soigyl snas tua 'Ejurgir9 uns iod iuzilsap EJEd ujjagr olap EJOq E EUOpuuqu EJOq uns.) 'uiop!Ajas rP -ugnoiir E 'ala aigos EuiiOui as oujua Ejsg -aiurtur up risiA E iopnd tuas rpP -aiajo zapnu uns opuufasap 'opueiidsai 'ojial ou ujiap as anb o :sela woa rIP -uaOua ouzui tuas no saiuawas srns onuow tuas lira Exlap anb o 'olag o 'o3 -!i9OUulaw O'OSOiapod o'riojue wn ap wagutui eu owoa somOsa a sop!WP soigpl so 'SaIUEgl!iq sojlaMa SOLHO SO 'Mala OxaS o WOO WJAO('!Ir UAUIS' anb ias oeu u ala aigos iazip r EPEU ETAELI OEU 'sassod wau 'utuii wau 'DÇW EMUR wau'ICU2u-dEAEWEL4O as oeu ~f'ãJUEUJE o'ala'OIUatuow alanbeU'.sos sáii 'sossed siop 'ossed wn `Ewr:) E Ejud wuioj - sopuSujqu =odLuui riu se opurp as oeu srLu - sownf ojinW -olmo op iujjow ouSujo:) o iaj puas wn rpeO a 'apepaijas lejiow woa sojiaqu 'soglo sou Luriuglo as a puas a orno op alad r turipuos sogwr a `rla a ala `Odio3 E odjoj LUr.IaA o Isopeiudwesap soSujq so opurjurAal'ojjunb op olatu ou as-juijuoma 'ajiiawauaios'as-opuroirj 'ojmo ou orSajlp tua wn sossed sájj opue5 E 'juwixojdp aS E WEIEIIOA 'sosolOuaps 'opuenb 'wa2unguil wpgtuei a u jaj ap wuiuxlap opina =I r qos snu wuirO9 anb pjr udnoi up u5ad iod OPUEjli 'EIUXa E¥JU2iaAãi LUOJ WEpdwnJ anb apup!lunsuas Ep Eiuowlj aijrd EAEwiO3 as-irpnusap o wpgwu_L -sazãA ap saiuqüw Eppada, 'saj e ap uldnp uujaja rp LUEAei:)aajaj!p so rpuie anb sednoi su irip Eiud OS oiiawpd op turirilos as'ofasap ap opurSadoii asrnb'aiuaturjua-i

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Pois ao arroubo por sua i cente transfiguração se soma o temor diante da inconcebível estranh com que se transforma aquele que agora respira tranqüilo com o rosto mético. Ai, a enganosa esperança da comunhão é efêmera, já passada; quele que dorme já não se sabe nada mais, seus sonhos já são o segredo separa os amantes; ele agora é totalmente estranho, está longe, muito lo já não se pode chegar a ele, sua fronte é estranha, sua boca é estranha, e estranho ele se torna quando balbucia palavras incompreensíveis que de outro mundo, seu mundo... e quem sabe que olhar têm seus olhos s pálpebras que os cobrem piedosamente; é, ai, o olhar de um morto. Johanna precisou sacudi-lo várias vezes até conseguir acordá-lo e, m murando levemente, se levantou. - Você não pode ficar aqui até de manhã, Ragnar. Você tem que se tir, Ragnar. Ele levantou lentamente e foi, nu, friolento, pegar sua roupa. Vestiu Johanna o acompanhou pela escada até a porta da casa. Estava tonto de e tinha os olhos semifechados. Não voltaram a se beijar. Ragnar foi em devagar, atravessando as bandas de céspedes, até o edifício principal. Parecia três horas da madrugada. O céu mantinha seu verde-claro terável. Dos prados que baixavam até o lago vinha um chiadinho, Joh pensou que talvez fossem grilos. A terra parecia cantar. Johanna viu des recer Ragnar na casa; na porta ele virou em direção a ela. Reconheceu sorriso. No mesmo instante sentiu com horror que era mais forte que sua licidade tudo aquilo que havia acontecido, e que já havia se desvaneci que não tinha o poder de transformar em eternidade aquele segundo, essa felicidade só estava ali para se transformar em dor, em dor, cada mais dor... por causa de sua fragilidade. t ~ ~1 rJ ~, ~20n~ y única coisa que existia agora era a presença de Ragnar. Como um -AI longínquo e difuso murmúrio Johanna ouvia a conversa da mãe , cheia de lembranças, cheia de felicidade e serenidade; os ciúmes dos cachorros Wolf e Knut já não existiam assim como a florescente estupidez da senhorita Suse; e Karin empalideu até se transformar numa sombra brilhante. Na memória de Johanna, a Karin daqueles dias ficou marcada como uma figura branca e incorpórea, sem perfis definidos, com linhas claras desfeitas - como se encontram representados nos desenhos infantis os santos transfigurados que ascendem ao céu-, dizia palavras que precisavam ser contestadas, mas eram só fórmulas tilintantes que vinham de seus lábios brancos como som de sinos; a única coisa viva naquele rosto transparente eram os loquazes olhos escuros capazes de trair uma tristeza que não se atribuiria às figuras luminosas. A paisagem não significava nada mais do que um fundo flutuante diante do qual se destacava Ragnar com toda sua corporalidade. As sombras que cruzavam sua frente, sua obstinada e breve gargalhada, seu riso e o cintilar de seus olhos são as leis que determinam o dia, não existem outras. Não há nenhuma outra além de sua força e seu humor, sua ter nura, sua distração, intranqüilidade, jovialidade, leveza, melancolia. O som de sua voz tem o poder de fazer Johanna esquecer o que existe por trás disso, que penas e que deveres a esperavam. Estava totalmente enfeitiçada. Naqueles dias não teve sequer remorsos. Todos os seus escrúpulos e reparos emudeceram, ficaram encobertos, junto com as lembranças e as obrigações do futuro. Quantos dias passaram assim? Não mais de quatro ou cinco, talvez sei Johanna já não contava. Com a chegada de Jens e madame Yvonne na faze da mudou aquele clima insustentável e doce: chegou o mundo exterior. Esses quatro ou seis dias foram um só, não havia noite separando-os. céu perdia seu azul intenso que agora passava a um verde de brilho vítr esses dias-noites magicamente iluminados não traziam nenhuma distensã nenhuma tranqüilidade, raras vezes sono. Uma hora depois de sua sep ção no terraço ou no salão entrava Ragnar no pequeno quarto de Johan era então meia-noite, meridianamente iluminada, uma hora mais clara, di fana e resplandecente do que conhecia o dia. Na luz extremamente clara petiam Ragnar e Johanna, com reverência e exatidão, o jogo do desejo. Os dias já não tinham um transcurso desacostumado. Remavam de m nhã até a outra margem do lago, onde se banhavam; Karin ia sempre, às v zes era ela que remava, o que fazia com movimentos tranqüilos, uniform treinados, sem o forte desperdício de energia com que Ragnar punha mão obra. Também na natação de resistência Karin provava ser melhor que outros dois, embora Ragnar fosse mais forte que ela e Johanna parecia muito mais fundo. Mas Karin tinha um estilo esportivo firme, enquan Ragnar e Johanna chapinhavam meio afundados, Karin avançava rapid mente com suaves e enérgicas braçadas. Ao meio-dia, a mãe relatava complicadas e confusas histórias que nar interrompia grosseiramente. "Muito interessante", resmungava irôni quando a mãe narrava com prolixidade os detalhes da vida da corte em Petersburgo ou contava coisas sobre a ópera parisiense ou a época do fim século. Johanna mais tarde censurava Ragnar por causa de sua descorte para com a mãe. - Eu sei - Ragnar tinha que reconhecer constrangido. - Sempre comporto de forma intolerável, sempre. Mas é que às vezes ela me irrita t rivelmente... Prometia se regenerar; contudo, no jantar volta a interromper a cone sã serena e desconsolada da mãe. Mas ao fazer isso tinha um furtivo sorr em direção a Johanna, como que pedindo desculpas. Mostrava um pouco dentes, seus olhos estreitos brilhavam, parecia malicioso, irreflexivo e mu jovem. Johanna deixava um momento o garfo; seu coração estava comovi de ternura. Ela se sobressaltava. À noite, contudo, o censurava com toda seriedade que não podia controlar. "E, apesar de tudo, minha mãe é u mulher maravilhosa", dizia. Desde a conversa no terraço a relação de Joh 120 na com a mãe mudara. Além da compaixão que sentia por ela, agora havia também uma espécie de tímido respeito. Sentia que a velhinha a observava, que quase a havia calado. Era de se imaginar que a mãe sabia e observava com todo detalhe o que acontecia entre Johanna e Ragnar. Seu olhar confuso e temeroso -o olhar de uma experiência grande e amarga- sem dúvida captava também o que significava para Karin a aventura de Johanna. O domínio de si, quase jovial, de Karin, sua segurança, aparentemente inexpugnável, não podiam enganar a mãe. Nos almoços, Karin mostrava um jeito animado e falante, que só às vezes traía sua tensão e sua dor reprimida num sorriso desfigurado ou num cansado e fugaz movimento da mão para a frente. A mãe se dirigia a Karin num tom amorosamente velado; a Ragnar, contudo, com uma irritabilidade meio temerosa, meio tímida. Naqueles dias costumava falar de uma forma ostensiva e admonitória de "meu filho Jens", a quem colocava diante de Ragnar, em severas insinuações, como mais educado, mais digno de confiança e mais eficiente. Seu gesto de esfregar as mãos era sumamente malicioso ao lançar essas farpas com sua voz asmática e velada; quando aludia a sucessos passados do pai, ao mesmo tempo atemorizada e insidiosa, insinuações que incomodavam Ragnar de uma maneira extraordinária. Em tais ocasiões a mãe não deixava de censurar Ragnar por seu estilo de vida dilapidador, encarecido por suas compras de livros, pequenas viagens absurdas e extravagâncias do gênero. A mãe dizia então que era única e exclusivamente culpa de Ragnar o fato de que ele ainda não havia deixado a custosa casa da cidade, poucas vezes usada. Uma imputação provavelmente infundada e produto só do rancor. Eram muitas as ocasiões para aquelas conversas admonitórias, pois na fazenda as coisas não iam bem. As conversas sobre esse escabroso assunto sempre se davam em sueco, mas Johanna podia, contudo, deduzir que se tratavam de coisas tão desgraçadas como juros hipotecários que deviam ser pagos, vendas de madeira que não fechavam, trabalhadores que reclamavam de seus salários atrasados. Ragnar não se irritava tanto com esses problemas como pelos sermões de sua mãe. Nesses momentos andava de um lado a outro da sala, a passos largos, renegava com voz profunda e perguntava se era dele realmente a culpa da crise mundial: enquanto isso, a mãe ficava esfregando as mãos na poltrona, olhar atento, preocupado e malicioso em todos os seus movimentos. Em certa ocasião, a mãe concluiu uma daquelas vivas conversas em sueco com uma frase em alemão, dita em voz extremamente dura e alta: "Você tem que casar com uma mulher rica, meu filho. De outra forma a coisa não se arrumará jamais. Ragnar foi embora grunhindo ao vir essas palavras. Mas Johanna teve um sobressalto no mais profun seu coração. À tarde passeavam, quase sempre os três - Karin, Ragnar e Johann melhor, Johanna ficava com um livro no terraço. Leu as obras francesas lhe dera Ragnar: Rimbaud e um romance de Gide, a lírica de Jean Coco os surrealistas. Quando não entendia uma frasé\ia ao quarto de trabal Ragnar para pedir que a esclarecesse. Se não enco~ trava ali o que queria, curava em outros quartos da casa, para finalmente achar o que precisa seu quarto. Ficava na cama, grande e baixa, mais ou menos do mesmo indefinido, da mesma suntuosidade camponesa que o roupão que vestia andar em casa. Reclinava-se sobre Ragnar e lhe dizia alguma coisa, por plo, que ele não fizera a barba; ele ria. Enquanto isso Johanna se apoiava a mão direita em suas costas - ele se levantara um pouco -, lhe acari com os dedos da mão esquerda o queixo, duro por causa da barba, e as do rosto. Seus dedos voltavam a deslizar atrás, a dura curva de seu quei depois subiam um pouco, até o lábio superior, onde os pêlos do bigodo ziam cócegas. Mais para cima, sobre o nariz, passavam as pálpebras q contraíam; acariciava suas sobrancelhas cerradas, como se as escovasse co pontas dos dedos. Suas pontas dos dedos se detinham nas rugas da testa, só durante breves segundos. Era uma compaixão temerosa que impedia se detivessem ali, mas seja como for bastavam os segundos dessa permanê para fazê- Ia pensar: "Que idade tem Ragnar? Sem dúvida, já não era um roto; trinta anos, que havia feito com tudo isso?..." Então a mão encon seu cabelo. Levantava também a mão direita, e colocava as duas mãos em frontes. Movia ligeiramente a cabeça de Ragnar de um lado a outro, agitando-a entre as duas mãos. Não o beijava. Ragnar lhe traduzia o trech Faux monnayeursl4. À noite, Ragnar mostrava fotografias a Johanna, recortes de jorn lembranças de sua época em Paris. Eram estranhas fotografias de grupo ou o balé russo ou boxeadores nus sobre os quais alguém havia pintado de anjo - superpostas, rostos risonhos e maquiados; meninos disfarça de arlequins e gladiadores, damas de aspecto inquietante que fumavam grandes piteiras ou que montavam um cavalo de balanço vestidas com lhas negras. Johanna pôde ver um mundo de ociosa excentricidade que lá. Os ntoedeirosfalsos, obra publicada por André Gide (1869-1951) ern 1926. 122 era estranho e talvez mais penoso que aquele outro mundo dos pesados álbuns da mãe encadernados em seda que havia visto na mesma mesa. Mas como aquele mundo repelente e grotesco estava relacionado com Ragnar, olhou os estranhos documentos sem sentimentos de rejeição e gozação que teriam sido naturais. Só sentia uma ligeira estranheza ao ver o quanto estravagantes e desorientadas eram as figuras entre as quais Ragnar circulara antes de conhecê-la. "Mas o que é isso?" perguntou diante de uma fotografia na qual se viam duas mãos com luvas de fios negros que alguém mantinha estendidas diante de uma cara bonita e arruinada. Entre os dedos olhavam dois olhos maquiados, lamentavelmente tristes, os olhos brilhantes e malditos de um clown destruído pelas drogas e pela loucura. - Ah - disse Ragnar, e sorriu para a fotografia como que se desculpando -, esse foi um caso muito curioso. Vivia com minha amiga, sim, com esta aqui (a dama que montava no cavalo de balanço). - Tudo foi muito complicado. Terminou se suicidando. Não tinha outra saída, estava totalmente destroçado. Quanto tempo desperdiçou com esta gente... Estava inclinado sobre Johanna, sobre cujos joelhos estava o álbum de fotos. Johanna levantou os olhos para ele. Sua cara jovem, com os lábios um pouco toscos, a testa pura e audaz, parecia especialmente inexperiente e infantil perto das caras que sorriam, olhavam fixamente ou mostravam os dentes no álbum de lembranças de Ragnar. Voltou a esquecer rapidamente o que Ragnar havia lhe ensinado. Mas com a mesma fugacidade cuidou das notí,ias que lhe chegavam de seu mundo, que até há pouco chamava de seu. Bruno informava sobre sua atividade em Paris. Escrevia sobre assembléias, ações para ajudar ou protestar; sobre o destino de diversos camaradas na Alemanha. Chegou também uma carta de Georg; Johanna não a abriu durante várias horas. Estava escrita em curioso estilo barroco, cheio de estranhos neologismos e citações, com o qual Georg costumava se dirigir aos que lhe eram próximos. Num curioso contraste com essa caprichosa e complicada forma de escrever apareciam a escassez e o rigor do conteúdo. Também Georg informava só sobre ações, planejadas ou realizadas. Johanna leu aflita. De repente deu com esta frase: "Quanto ao resto, um de nós terá que fazer comigo a viagem à Alemanha"; contudo passou fugazmente até mesmo sobre aquela paisagens. "Bruno não pode ser tão louco!" pensou, mas só durante um segundo. A carta de Bruno não agradou Johanna. Agora não era capaz nem estava disposta a captar a advertência não-expressa que continha. "Também Beate 123 chegou aqui!" mencionava, sem intenção, o irmão. "Põe a nossa disposi sua inteligência honesta, seu bom aspecto e suas numerosas relações. T bém ela é bem-vinda. Necessitamos de todos que tenham um coração deci do e uma vontade íntegra." Beate era uma colega de estudos de Johanna, quem nem George nem ela tinham uma boa impressão. Era uma pessoa dotes especiais a quem Johanna sempre havia olhado um pouco por cim ombro. Agora havia chegado, estava à sua disposição, colaborava. Georg vã dela com respeito; e logo a chamaria de camarada. Georg sabia deixar lado suas faculdades críticas quando se tratava de questões de convicção. a bem da causa, ascético a ponto de renunciar a qualquer pretensão de s telecto se isso pudesse prejudicar a causa em vez de favorecê-la. Pois a g causa é simples. Até os mais refinados dotes de quem a serve não podem utilizados para outras coisas. Quando se tragada causa da luta, Georg, espírito continuava fiel da maneira mais profunda, não desprezava deí nhum modo nem o mais prosaico dos argumentos. Nunca considera digna a camaradagem com homens medíocres desde que estes servis causa com a mesma paixão dele. Sua convicção, firme como uma roc que antes de entrar no debate das nuanças era preciso alcançar por tod meios o objetivo primordial, a total transformação do tipo de economi isso podia ser tão estreita e incondicional sua camaradagem com os ho intelectualmente mais fracos e não problemáticos como Bruno. Todas vidas e tentações que Bruno - homem de ação valente e radical - n nhecia haviam sido vencidas por Georg graças a uma disciplina apaixo profunda. Quanto havia admirado Johanna seu irmão por essa entus consciente disciplina, que convertia o homem de fantasia intelec ponderação, observação e reflexão, num homem de ação. Dessa admi que havia transformado sua vida, naquele momento não sobrava mais semiconsciente intranqüilidade, o leve nervosismo com que voltou a g,. a carta do irmão de novo no envelope. Sentou no terraço e olhou o pedacinho de lago azul que se via e grupos de árvores. Knut, o cachorro, chegou mexendo o rabo. Johan rã se dava tão bem com os cachorros que um ficava ciumento qua dava atenção ao outro. Do interior da casa veio a voz de Ragnar. Fala a mãe. Johanna fechou os olhos. Esqueceu todo o resto e o escutou. Jens chegou, de forma totalmente inesperada, pouco depois do Um Ford parou em frente da casa. Jens desceu do carro e subiu, em largos, as escadas da entrada, sem dar atenção a uma dama de vermel 124 saiu do carro, deu dois passinhos aflitos, se deteve rapidamente para passar base no nariz- para isso tirou uma caixa de maquiagem negra, grande e estreita de uma bolsinha vermelha-, voltou a dar três passos, retrocedeu até o carro com um súbito gritinho e pegou alguma coisa que havia deixado no banco do carro. Parecia ser um animal; ela o levava nos braços. Enquanto sussurrava nomes carinhosos em vários idiomas europeus, voltou a se dirigir rapidamente para a casa. Enquanto isso, Jens explicava a mãe que não pôde evitar: - Veio assim, por sua conta. Eu a encontrei casualmente na cidade, quando vinha para cá, entrou no carro, exigiu que eu pegasse a malinha do hotel, e eu não pude evitar isso! - Oh, que desastre!- exclamou a mãe, esfregando as mãos com desesperada seriedade. - Papai não queria que esta mulher pisasse outra vez nescasa. Karin riu e disse: - Tenho muita CLxriosidade em conhecê-la. Deve ser muito divertida. Enquanto isso, Yvonne já estava dentro da sala. Encontrara sozinha o caminho. Seu vestido e casaco eram do mesmo tecido, um vermelho-estridente; a gola do casaco era forrada de pele branca. O animal que levava carinhosamente nos braços era urna tartaruga. Durante alguns segundos a situação foi terrivelmente constrangedora. Jens, que parecia muito excitado e irritadcy deu as costas à pobre Yvonne em lugar de apresentá-la a mãe, que mexia a cara de um lado a outro com expressão atormentada. Yvonne não podia fazer outra coisa se não rir de forma desamparada. Finalmecite, Karin deu alguns passos em direção a ela. - Então você é a minha prima Yvonne? - disse, com a maior naturalidade possível. Yvonne concordou com a cabeça um pouco aflita. Estendeu a mão a Karin, na outra segurando a tartaruga. - Mamãe, você já conhecia Yvonne, não é? - lembrou Karin a mãe, que, com o corpo rigidamente inclinado, esfregava ameaçadoramente as mãos e havia ficado parada no meio da sala. - Bom dia - lhe' disse, com os lábios coriáceos e pesados, que pareciam obedecê-Ia muito contra a vontade. - Eu a conheci, faz muito tempo, na casa de seu pai. Era uma menina então. Yvonne, em vez de responder, fez uma profunda reverência diante da mãe. Naquele momento finalrnente entraram na sala Ragnar e Johanna, que ta 125 estavam no terraço. Ragnar deu um grito de alegria e surpresa ao ver Yvon de repente fazendo aquela reverência diante de sua mãe. Os cumprimentos foram efusivos; Yvonne esqueceu rapidamente t seu fino comedimento, gritou e riu, até abraçou Ragnar depois de pas Jens a tartaruga para que este a segurasse. A gritaria foi em sueco, alemã francês. Ragnar e Yvonne se divertiam muitíssimo nesse reencontro. An haviam estado juntos muito tempo em Paris; Karin ria diante da ruicii alegria do reencontro, enquanto a mãe só podia, mortificada, mexer a ça de um lado a outro. - Encantada em conhecê-la - disse Yvonne a Johanna. - Você um aspecto fantástico - depois do que, sem razão aparente, soltou um estridente que a desprevenida Johanna achou um pouco forte. Johanna se sentia muito à vontade, pois o reencontro com Jens lhe era constra dor. Ele chegou perto dela com seu jeito vaidoso para lhe dar a mão. quanto fazia isso, Johanna comprovou que Jens tinha um aspecto muito, çoso e belo; só os olhos azuis dele, esbugalhados, o pequeno bigodinho braços demasiado grandes a incomodavam. - Bem, você está surpresa de nie ver aqui! - ele exclamou sorri - Queria ver como você se adaptou - acrescentou em voz baixa, ap mando seu rosto ao de Johanna com familiaridade. - Estou muito bem aqui-disse Johanna, com um sorriso emba - Seja cocho for, parece que você está mesmo ótima aqui - respo Jens elegantemente. Ato contínuo, o rosto de Jens se transformou de t neira que Johanna se assustou. Ficou vermelho como um caranguejos testa surgiu uma veia de fúria. Enquanto proferia algumas blasfêmias e co, colérico, devolveu a tartaruga a Yvonne, que conversava e ria ani mente com Ragnar. Todos viraram para Jens e riram, menos a mãe, que gou as mãos com desespero: a tartaruga deixara cair nas calças de Jens mento, unia massa viscosa tão grande, inimaginável para uma criatu tão pequena. Agora o animal escondia sua inteligente e maliciosa ca' sob a preciosa casca. Jens contemplava, cota uma impotência colérica presa depositada sobre sua calça. Yvonne, sacudida pelo riso = ria CO dência, ao redor de sua boca pintado& de cor vermelho-alaranjada se vam muitas e profundas rugas, como as fendas de um vaso quebrado' gira de novo o bichinho capaz de tão poderosa digestão. A mãe pe com a mais contida das vozes: - Mas que animal é esse que vooê trouxe? 126 Yvonne, limpando os olhos, cansada de tanto rir, enfraquecida e comedida depois de tanta diversão, respondeu: - É Heraldes, meu Heraldes. Sempre viaja comigo, é muito esperto! Veja que cabecinha mais inteligente tem! Sim, agora a esconde! Mostra a cabecinha, Heraldes! Coitado do Jens! Mas a mancha da calça sai com água quente. É incrível as coisas que Heraldes consegue fazer. Novas risadas: agora, contudo, intimidada pelo olhar fixo e sombrio da mãe, emudeceu com maior rapidez. A mãe disse, enquanto sacudia o rosto impassível: -As tartarugas são quase sempre tão repugnantes como as serpentes e, de qualquer maneira, muito mais incômodas que as rãs - ao ouvir isso, madame Yvonne fez a cara confusa e dolorida de uma colegial repreendida. A mãe continuou, dirigindo-se a Jens: - Imagino que quer passar a noite aqui. No lugar de Yvonne, respondeu Ragnar, que acariciava Heraldes com um sorriso torto: - Você acha, mamãe, que Yvonne ia voltar agora mesmo para a cidade pára passear? Claro que vai ficar aqui e espero que não seja só por uma noite! Sob o som de sua voz gutural, a mãe, irritada e impotente, inclinou sua grande cabeça grisalha. - Em que quarto vai dormir? - perguntou, mexendo os lábios contrariada, parecia paralisada. - Bom - disse Ragnar, com um brilho cruel nos olhos -, penso que no dormitório que está vazio, ao lado do de Karin. Fez-se uma breve pausa, perigosamente tensa, durettte a qual a mãe pareceu petrificar-se numa estátua negra, Yvonne batucou com os dedos nervosos na carapaça de seu Heraldes, e Ragnar olhou de forma desafiadora ao seu redor. Finalmente Karin manifestou em voz baixa, mas cheia de decisão: -Acho que seria conveniente arrumar o dormitório de papai. Faz temPo que não o usamos. Vou pedir a senhorita Suse que deixe em 1----4i Oes o segundo quarto de hóspedes para nossa prima - saiu da sala sem esPerar a resposta de Ragnar. Jens saiu para passear com Johanna pela alameda; Ragnar, enquanto °, acompanhou Yvonne ao seu quarto. - Eu fico incomodado pelo fato de ter trazido esta pessoa - explicou Jens - Por causa de você fico constrangido. Na Alemanha seguramente e não xistem mulheres assim - Mas, acredite, não tenho culpa desta desgraça. 127 Eu mal conhecia madame Yvonne, e de repente eu a vejo sentada dentro meu carro; essa é sua tática. - Olha, eu a acho muito simpática - disse Johanna. - É sua pri - Bem, prima... -Jens riu de forma um pouco debochada. - Pri de muito longe. Seu pai é uma espécie de primo de mamãe. Ainda viv, país, é um misantropo, uma pessoa estranha, pelo que sei, mas um perfi cavalheiro, um velho senhor muito distinto. Nada a objetar -Jens fez cara cheia de aprovação e dignidade. Johanna não gostou nada. - O ce que não merecia ter uma filha assim. Aos quinze anos fugiu de casa. D então só tem feito besteiras, se é que se podem chamar besteiras. Prim esteve num circo ambulante, depois, as coisas que fez em Paris e em dres, e Deus sabe onde mais... bem, correm por aí todo tipo de boatos. como far, faz tempo que ninguém da família a recebe. Só Ragnar- Ra claro - continua tendo amizade com ela. É penoso para mim que ela t subido no meu carro. Johanna, ao seu lado, guardava um silêncio hostil. Essa Yvonne - dúvida uma pessoa irritante- lhe era cada vez mais simpática com cada lavra que Jens, muito metido, dizia sobre ela. Enquanto isso Jens perc que deixava Johanna mal-humorada com seus discursos morais. Parati outro rumo à conversa, disse: - Parece que vai tudo bem para você aqui. Você se dá bem com m mãe? - Naturalmente - disse Johanna. - É encantadora comigo, muito agradecida a ela por isso... É realmente fantástica. - Sim - disse Jens. - Coitada. Sofre muito com os rompant Ragnar. Ele costuma se comportar de forma intolerável. O comporta dele com você, espero, terá sido mais ou menos digno? Disse isso meio à espreita, com os dois grandes olhos saltados diri, de forma inquisitiva a Johanna (eram os olhos da mãe, só que mais v sem sua fixa profundidade). Johanna levantou. Para sua ira impotente cebeu como a cara dele se cobria de um rubor ardente. Não tinha a m idéia do que responder. Jens não tirava de cima dela aquele olhar desco do. Provavelmente, naquele momento sentiu a situação. - Parece que você se dá bem com ele, não é? - perguntou irôni careta de sua bela e forte boca era maliciosa e vulgar. Ragnar apareceu na porta da casa de hóspedes, junto a qual Johan tava também. Jens acrescentou, rindo ruidosamente: 128 - Bom, de qualquer forma queria vir aqui para ver como estão as coisas. Além do mais, preciso discutir assuntos de negócios com rrieu irmão. Deixou Johanna ali e foi em direção a Ragnar com passadas largas. Johanna ficou indecisa durante alguns segundos, e depois foi rapiclamente para casa, passando ao lado de Ragnar e Jens. Tocou o braço de Ragnar, mas não o olhou nos olhos. Jens e Ragnar foram juntos para a casa principal, enquanto Johanna, na casa de hóspedes, subiu correndo a escada rnuíto alta e chegou ao seu quarto resfolegando. Ali encontrou madame Yvonne sentada na cama. Em lugar de se desculpar por estar num quarto alheio sem ser convidada, disse imediatamente, rindo com força: - Espero, garota, que a senhora não tenha nada contra meu F3erakles. Não, percebo que a senhora é boa gente, tenho olho para isso. 1VIon dieu, que severa era a velha senhora! Que cara ela fez. Mas ainda vou fazer com que ela ria. Olha, garota, esse é o segredo: é preciso fazer com que as pessoas riam. Ragnar é um darling. Deus, como nos divertimos em Paris. Não, foi um pouco brusco, que desesperado esteve às vezes em Paris, totalmente desesperado, acredite. Que tempos! Eu ainda tinha minha moto. Njas -vejo que a senhora é rma boa pessoa, percebo isso. Provavelmente também tem tido má sorte na sua curta vida. E agora decidiram em seu país pela falta de humanidade total, mas tota4 absoluta, não é? Sim, sim, é o que fizeram. Ela riu, seu gesto se desfez em mil rugas muito marcadas. Era dífícil determinar sua idade; talvez não tivesse mais de trinta anos, e que passado agitado podíamos adivinhar por trás de seu gesto cansado. A cara, bastante achatada, com a boca pintada de uma cor chamativa, não tinha nadam de vulgar apesar de seu estado alterado, o excesso de maquiagem e a exaltação histérica de seus gestos. Os olhos, de um verde felino, muito grarides e claros, seriam belos se não ficassem deformados por uma extraviada cititilaoo e relampeje - especialmente inquietantes quando ela ria. Sentava na beira da cama, com seu vestido vistoso, e se arrebentava de rir; sua cara estava desfeita e cortada pelas rugas, seus olhos brilhantes, sua boca vermelho-alaranjada estava muito aberta. O que a divertia de forma desaforada era que a Alemanha tivesse decidido pela desumanidade total. - Não, eu gosto das tartarugas - disse Johanna. Yvonne voltou a se concentrar de imediato em Heraldes, que, :audaz e curioso, fazia crescer sua perspicaz cabecinha de olhos expressivos sob a concha. 129 - Oh, he is tão inteligente! - exclamou, enquanto beijava sua d couraça de quadros amarelos e pardos. - Você já viu bastante do mun hem, my Infle Herakles? Viajei em avião com ele: pode acreditar que ele sentiu mal lá em cima? Pas dá toutL1 Olhava pela janela, muito esperto, dade! Mas ainda não sabe que idade tem. Noventa e cinco anos. Não é tástico? É tremendo, isso todo mundo tem que reconhecer; em nossa lia ninguém chegou tão longe. - Como se sabe a idade de uma tartaruga? - perguntou Johanna, com isso Yvonne quase desmaiou de tanto rir. - Eles contaram! - conseguiu dizer entre as mãos, com as quais oc Lava as rugas que rodeavam sua boca. - Imagine, sweetheart, eles conta Precisou levantar e andar um pouco para se recuperar desse colossal a que de jovialidade. Enquanto isso, colocou o velho Herakles no chão, o este, desvalido, começou a se arrastar. - Oh, look, look, how clever he is!- se entusiasmou Yvonne. - Ele procura, vem atrás de mim! Faz sempre isso, por difícil que pareça. Ve Herakles, darling- tentou atraí-lo, enquanto se inclinava sobre ele. - Ve com tua patroazinha! Vem, vem! Esfregava o polegar e o indicador, como se tivesse ali um pedacinho titoso de comida para tartarugas. Mas Herakles se arrastava sobre suas cu perninhas até o lado oposto do quarto. Este fracasso manifesto de sua queria tentativa até se converteu, para madame Yvonne, numa nova ocasiã, para romper em exclamações de júbilo. - Ele faz de propósito! - disse triunfante. - Oh, he is so extremely c ver! Claro que me vê perfeitamente. Mas só por brincadeira e malícia faz conta que foge de mim. Não é divertido? Yvonne se agachou para pegar a tartaruga - antes que o animal se condesse sob a cama-, a balançou nos braços e queria beijar sua cabecinh mas o bichinho voltou a se refugiar sob a casca. - Vamos nos dar bem - disse madame Yvonne a Johanna, de manei alentadora. - Você parece com o rapaz de quem fui noiva em Londr Sim, acho que sim. Era um tipo encantador. Mas eu queria lhe falar do co redor. Imagine só, ele não morreu durante as corridas, mas sim durante treinos. Sim, ia só a sessenta quilômetros quando bateu contra uma árvore¡ me trouxeram o corpo ao hotel, nós queríamos casar, teria sido a pessoa cer_, ta para mim, Ragnar também o conhecia, que desgraça, imagine, durante treinos. a 130 Joharina disse: - Espantoso! E o que aconteceu então? Mas Yvonne continuava com sua conversa. - Venho agora de Biarritz, não, na verdade de São Sebastian; bom, isso não interessa. É insuportável, tudo deserto, ufa!... - fez uma careta e mexeu os ombros como se sobre ela soprasse um vento gelado. - Terrível! - disse com um calafrio. -Aqueles hotéis meio vazios. Antes havia sido divertido. Agora foi embora até meu último americano, à noite, com neblina e tudo. A culpa de tudo isso é a queda do dólar. Tudo ali parece uma espécie de revolução. Eu disse a Herakles: Herakles, mon choux fleur, mon auge, ma beauté.. vamos embora!, vamos fazer as malas, disse. Na verdade queríamos ficar em Estocolmo, eu era convidada ali, sim, podia até passar uma temporada. Mas isso me cansava. Aqui estou em casa. Faz vinte anos que não venho aqui - seus olhos verdes, de repente sérios, adquiriram uma expressão meio reflexiva. -Agora quero me reconciliar com minha família - acrescentou em voz baixa. - É hora, mais que hora, sabe? - olhou ao redor, como se algum intrometido não devesse ouvir o que ia contar. - É muito divertido estar faché com sua família, durante um tempo distrai a gente - sussurou animada. - Mas a longo prazo é insustentável, à Ia longue não dá para ágüentar. Muito simples: os tempos já não estão próprios para isso! Murmurou a última frase por trás da mão, como se revelara com ela o segredo decisivo. - Você sabe por que estou aqui na realidade? - perguntou, subitamente no excitado tom de fofoca. - Por causa do meu filho, sim, vim aqui por Dagobert. Joharina só pôde perguntar, um pouco espantada, o que ela queria dizer; imediatamente recebeu a resposta: - Sim, tenho um filho! Me olha muito surpreendida, mas é assim: tenho um filho, Dagobert, é precioso, ele tem agora uns sete anos, sim, justamente, uns seis ou oito anos. Devo ter uma fotografia dele comigo. Espera... - procurou em seus bolsos, mas não encontrou nada. - Me roubaram de novo a foto - disse, e riu um pouco. - Certas pessoas pagam ladrões e espiões, têm que recorrer a esses recursos, sua situação exige isso. Eles me tiraram Dagobert, e agora querem me obrigar também a esquecê-lo. Pronunciou as palavras assoviando de excitação, um rubor hético cobriu seu rosto grande, coberto de pó pálido. Joharina disse: - Mas que coisas terríveis você conta! Quem separou você de Dagobert? Ao ouvir essa pergunta, madame Yvonne só pôde rir ironicamente pel nariz, batucando nervosamente na casca de Herakles com os dedos adorn dos de anéis. Quem podia ser? Perguntou de forma desairosa - e desairo mente tanto em relação a Johanna, que não adivinhava, como em relaçã aos malfeitores que a haviam separado de seu Dagobert; naturalmente, o p do filho: - Sim, estávamos casados, eu o considerava um gentleman, durant muito tempo permaneci nesse erro, mas ele era um impostor, que bom q percebi. Seu próprio pai estava aliado a esse indigno esposo, havia uma conspi ção contra ela, haviam raptado Dagobert assim, de repente, de sua casa pa siense, enquanto ela estava no norte da África; aquilo era um seqüestro. - Ali vive ele, o velho senhor - disse, indicando com o dedo pole atrás dela, como se morasse ali na esquina. - Ali mantém escondido m Dagobert. Mas vou levá-lo comigo - afirmou com repentina energia, d do uma pisadela. Um segundo depois percebeu que era hora de mudar roupa para o jantar. - Queria me arrumar um pouco - disse, com um ri misterioso. - É para agradar a velha senhora, você já me entendeu. Que ganhar o coração da velha de qualquer jeito. Ela gosta de você, não é m mo, menina? Então fale você com ela a meu favor. Saiu do quarto com Herakles nos braços. Johanna ficou num estado de certa confusão. Estava irritada com o ree contro e confusa depois de ter conhecido madame Yvonne, desesperadamen te grotesca. Johanna se inquietava com a idéia de que esta surpreendente p soa, digna de pena, fosse sangue do sangue de Ragnar, e que os ambientes n quais os dois viveram em certa época convergiam. Johanna acreditava vi lumbrar que entre Ragnar e a infeliz Yvonne havia uma espécie de distorcid parentesco; enquanto Jens e Yvonne, sem nenhuma característica comum estavam separados por mundos. De Jens a família havia tirado forças pa conseguir uma saúde perfeita e inteiramente sem problemas. Embora fi a dúvida de que sua vulgar fortaleza, de um ponto de vista biológico, fo mais valiosa ou mais resistente que a energia de seu irmão Ragnar, não só m nada e ameaçada pela neurastenia e a melancolia, mas também potenciada enobrecida por elas. Yvonne voltou ao quarto meia hora depois. Havia vestido sua roupa noite: uma jaquetinha curta de cor prateada, flores artificiais prateadas n cinturão, uma larga cauda negra, e o rosto cuidadosamente maquiado: 132 boca tinha agora uma maquiagem um pouco mais escura, as sobrancelhas depiladas estavam surpreendentemente repassadas com um lápis de cor azul. Ainda lixava as unhas, de cor vermelho-sangue, enquanto, perfumada e conversando, percorria o quarto. - Assim tenho ainda um aspecto muito elegante - disse, ocupada com suas unhas. - É um modelo Chanel do ano passado; fora daqui eu não vestiria isso, mas aqui, no deserto, mon Dieu... - teve um ligeiro calafrio, porque nos desertos faz frio. - Este ano não me foi possível comprar um vestido novo. Ela se mexia com um leve rumor numa nuvem de perfume que talvez não fosse tão caro como outros usados antes; contudo, não deixava de ser um perfume sumamente caro. Com os pés ligeiros, apesar de todas as rugas de sua boca, ela se equilibrava sobre os saltos altos de seus sapatos prateados. Assim ia, em seus melhores momentos ainda sedutora, embora um pouco decaída, mensageira de um `grande mundo' no qual as coisas também não lhe caminhavam bem. - E o que você vai vestir, menina? - dirigiu-se excitada a Johanna (que usava um vestido cinzento). Madame Yvonne era uma pessoa muito experiente, com um conhecimento sólido do terreno, e também muito amável para rir, como teria feito uma vulgar cocotteno seu lugar. - Sabe que não está tão mal? - disse muito séria. - Simples e original: você, que é jovem, pode se dar a esse luxo. Eu, ao contrário, jamais. Provavelmente você é dessas pessoas que têm idéias muito especiais,` não é? Ou estou errada? Hem? Ameaçava com o dedo e, embora conservasse uma seriedade neutra diante do sóbrio vestidinho, esse negócio de `idéias especiais' lhe provocava o riso, que desta vez não soou histérico e estridente, mas francamente divertido. Subiram juntas para a casa principal, mas entraram por trás, pelo terraço. No salão encontram Ragnar e Jens numa animada discussão. Nenhum deles a princípio percebeu a chegada das mulheres. Estavam em pé, bem dis tantes um do outro, sozinhos na sala, e falavam ao mesmo tempo. Johanna não podia entender do que se tratava, a conversa tensa era em sueco. Mas estava claro que os irmãos diziam coisas ásperas um ao outro. Falavam em voz baixa e excitada. A cara de Ragnar estava pálida, os olhos tinham um brilho de irritação. Ele se afastou enojado, com a boca contraída, como se sentisse uma repugnância física. Jens começou a rir forte e sarcasticamente. A cara 133 de Jens ficava vermelha quando ria, seus claros olhos vítreos sobressaí; ainda mais, agitava os braços muito grandes, que conferiam ao seu asp com todo seu garbo, alguma coisa que lembrava toscos traços de macaco, Yvonne deu um toque com o cotovelo em Johanna e riu por baixo. - Discutem por causa da administração da fazenda -sussurou, m ciosamente divertida. - Jens censura seu irmão que só comete erros e tudo a perder. É muito divertido ouvi-los. Pela risadinha, Jens e Ragnar perceberam a presença de Yvonne e Jo na; viraram ao mesmo tempo para elas. Jens foi o primeiro a recuper compostura. - Oh, as belas damas! - exclamou, enquanto seu rosto se fazia m tranqüilo, embora ainda vermelho. Ragnar saiu rapidamente da sala. Enquanto isso a mãe havia entrado na sala com o torso inclinado, olhos intranqüilos abertos de forma queixosa; aproximou-se de Jens, p e digna, com um leve arquejo. - São pequenas discussões entre irmãos - manifestou Jens aleg mente, dirigindo-se a Yvonne e Johanna. A mãe lhe colocou então, com u gesto quase suplicante, a mão no ombro. Começou a falar com ele em baixa. Jens, que diante dela assumiu uma atitude de respeito, quase mili deu-lhe, com a voz veladamente cortês, explicações que não parecer contudo, satisfazer plenamente a mãe; não parou de esfregar com desesp as mãos e de girar o rosto de um lado a outro, mexendo seus lábios coriáce como se cochichasse frouxas maldições ou preces inaudíveis. Karin apareceu no terraço. Escutaram como ela se despedia do lado fora dos cachorros Wolf e Knut, dizendo-lhes que se comportassem bem eles sentaram, obedientes. Entrou logo na sala, o rosto refrescado por u passeio, saudável e suave, trazendo sua atmosfera de serenidade amável e 1 vemente melancólica àquela sala na qual não fazia muito tempo se ouvi gritos irados. - Tenho fome! - exclamou, e olhou todos de forma inquisitiva. Naquele momento, a senhorita Suse abriu a porta que dava para a de jantar. Madame Yvonne disse, cheia de respeito, mas sedutora, à mãe, en quanto se dirigiam à mesa: - Por causa da senhora, deixei Herackles no meu quarto. Imagin tranquei a pobre tartaruga! A mãe então perguntou, com a voz velada, quem era esse Herakles, q ela não conhecia ninguém com esse nome. Madame Yvonne, mesmo co 134 toda sua melindrosa devoção, achou mais adequado arriscar uma ameaça com o dedo. - Senhora! - disse, com tanta gozação como lhe permitia sua boa educação. - Como pôde esquecé-lo? Herakles, meu inteligente animalzinho! - Ah, o monstro! - replicou inclemente a mãe. - É uma sorte que você não o trouxe para o jantar. Ragnar já estava sentado na mesa quando entraram os outros. Com certa descortesia ele não se levantou para responder aos cumprimentos. Enquanto começava a tomar a sopa, a senhorita Suse manifestou prolixamente seu entuasiasmo pelo elegante vestido de noite de madame Yvonne. (Modelo do ano passado, mas ainda suficientemente bom para o deserto.) - É realmente chic! - exclamou a mulher de Hannover, esquecendo em sua entusiasmada admiração todas as suas aflições vespertinas e a saudade que normalmente a acometia naquela hora do dia. -Alguma coisa muito original; desse assunto os franceses entendem! Madame Yvonne riu lisonjeada. Jens, contudo, disse com severidade: - Pois eu sempre vi as damas alemãs muito bem vestidas, sobretudo as berlinesas. - Certo, é verdade - acrescentou com energia senhorita Suse. - A mulher alemã-não é nenhuma cinderela. E neste momento acabo de ler nos jornais que agora vamos nos libertar totalmente da moda parisiense, que vamos inventar nossa própria moda alemã. - É mesmo? - resmungou irônico Ragnar. - Sempre tive a impressão de que as alemãs se vestem muito mal. Fez-se uma pequena pausa, durante a qual a mãe esfregou desesperada as mãos, madame Yvonne - um pássaro exótico multicolorido naquela mesa - riu histérica, Karin olhou abertamente e sem interesse ao seu redor. Jens pigarreou, para finalmente dizer: - Não sei se podemos considerar que essa observação - deixando totalmente de lado que é errônea - é muito gentil, tendo em conta que nos acompanham hoje, aqui, duas damas alemãs. Ragnar, que continuava comendo irritado, disse: - Johanna não tem nada de alemã. Não é uma alemã típica. - Que bobagem! - respondeu Jens, desafiador. - A cem passos eu perceberia logo que é alemã. - Como você pode ver - disse Ragnar, sem levantar o olhar sombrio do prato -, nem sequer pode viver na Alemanha. 135 Ao ouvir isso, Jens encolheu os ombros de forma sarcástica. - O que quer dizer isso que não pode? - perguntou, e dirigiu u olhar a Johanna com um relâmpago malicioso. - Provavelmente isso não o que ela imagina. - Isso me parece assunto seu - Ragnar tinha agora uma voz estr mente áspera, ameaçadora. Logo acrescentou, sempre com os olhos fixos no prato: - O fato é que nenhum país está tão pouco representado por sua el como a Alemanha. As elites alemãs sempre têm agido contra a Aleman nunca com ela; nunca tiveram influência sobre seu país, e provavelmente o odeiam. Johanna, que havia empalidecido, disse se contendo com dificuldade: - Não creio que esta seja uma conversa adequada à mesa. Vai mu longe, terrivelmente longe... Ouviu-se a respiração aliviada de Yvonne. - Isso é o que eu acho também - disse. - D áilleurs, Ia question nationalités n est pas si interessante que ça. Todos somos pessoas - afirmou lançou um olhar cordial ao seu redor, mas só encontrou gestos tensos; at cara de Karin tinha agora uma expressão de temor. A senhorita Suse, observou, orgulhosamente em pé: - Bem, eu, antes de tudo, espero ser uma boa cidadã alemã. Em pa estranhos a gente sente isso de verdade. É preciso saber a que lugar perten mos. Isso é o principal. Johanna tentou rir, mas não conseguiu; olhou, suplicante, em direçã Ragnar, que com sua voz profunda explicou: - Precisamente os melhores alemães - na verdade não sei se pode chamá-los de os `verdadeiros' alemães - devem estar horrorizados co que está acontencendo agora em seu país. É um escândalo o que acont ali, no centro da Europa! A senhorita Suse- socialmente subordinada, mas de coração leal sentiu muito ofendida. - Não entendo nada disso - disse, e Ragnar cordou com isso, confirmando suas palavras. - Mas uma coisa eu sei: o q, o meu povo e seu Führer fazem está bem feito, seja o que for! Enrubesceu um pouco por causa desse discurso firme e ousado. Foi J quem saiu em sua ajuda. - Pode ser que eu entenda um pouco desse assunto - disse com lentidão que não fazia prever nada de bom, enquanto saltavam as veias u 136 sas de sua testa. - E na minha opinião é uma arrogância, uma vergonha até, querer desvalorizar um acontecimento histórico, o movimento de um povo, como `escândalo'. Essa é minha opinião. O que acontece agora na Alemanha é história mundial. Um grande povo encontrou a si próprio ao encontrar seu Führer. Todos devíamos aprender com isso! Ele não deveria ter pensado que Johanna agüentaria tudo aquilo. Tudo o que nos últimos dias havia tirado de seus pensamentos, embora sem esquecer nada; toda a ira, o rancor, o espírito combativo despertaram agora nela com enorme força. - Cala a boca! - ela se impôs a Jens, com uma grande voz. Arquejava; em seu rosto pálido os olhos haviam escurecido, os lábios secos tremiam. O olhar de Karin e o olhar de Ragnar se cruzaram em seu rosto. Ambos esta vam assombrados com a beleza audaz de Johanna. - Sabe você por acaso o que acontece todos os dias na Alemanha? Imagina você a que catástrofes tudo isso pode conduzir, tem que conduzir, entendeu? "O movimento de um povo!" - exclamou, enquanto apertava o guardanapo entre as mãos. - Parece que estou ouvindo a rádio alemã! O mais descarado engano cometido por um bando de irresponsáveis sobre um povo desesperado... Ficou muda, com lágrimas de desespero nos olhos. Jens sorriu confuso diante de tanta dor e indignação; ao mesmo tempo foi dito que el.) era encantadora assim, justamente assim; doía que ela já não reagia diante dele. "Talvez ele pudesse tê-la tido então, quando dançamos juntos no parque", pensou. "Mas como não: Ragnar... Ragnar tinha que cruzar seu caminho novamente..." - Ela que fique assim, toda patética - disse sorrindo. - Nenhum argumento vai eliminar o fato de que o povo, o povo alemão, é na verdade quem está por trás deste movimento nacional e que acredita em seu Führer. Johanna mordeu os lábios; pensou se deveria se levantar e abandonar a mesa. O olhar suplicante e temeroso da mãe a impediu. Jens levantou galantemente o copo. - Viva a Alemanha! - disse amavelmente. - Sou estrangeiro, mas sempre amei aquele país. E agora, precisamente agora, eu o amo mais do que nunca! A senhorita Suse que, desconfiada e excitada, tentara acompanhar os acontecimentos, aderiu com entusiasmo ao brinde. Jens, contudo, continuou: 137 6 a manhã seguinte a única que parecia afetada pelo incidente era a senhorita Suse. Apareceu com os olhos chorosos, inchados e carregados de censuras. Todas a~ idéias que alimentava sobre uma feliz vida familiar haviam sido golpeadas da maneira mais dolorosa. Além dissq, desconfiava que no transcurso da infeliz discussão muitas coisas ofensivas haviam sido ditas sobre a Alemanha. O dever patriótico exigia - assim ela sentia a coisa - que deixasse aquela casa, onde poderiam ocorrer coisas semelhantes. Por outro lado, pensava razoavelmente: "é certo que o senhor Ragnar está um pouco nervoso", e que dificilmente encontraria em outro lugar um salário tão decente, e que ainda não havia economizado o suficiente como era sua intenção desde o princípio. Para ela o pior era o comportamento de Johanna, que sem dúvida não podia ser qualificado de próprio de uma dama: era uma traição à pátria. "Eu me enganei com a senhorita Johanna", concluiu Suse. "Parece, sim, uma bela jovem mulher loura de tipo alemão; mas ontem mostrou-se de forma totalmente diferente." Alguém que não tivesse estado presente ontem à noite não teria notado quase nada da catástrofe no rosto dos demais habitantes da casa. O grande semblante da mãe se mostrava talvez um pouco mais rígido e preocupado do que de costume; mexia incansavelmente as mãos, uma desconsolada mosca gigantesca que, escondida e cheia de preocupações, medita sobre seus temores misteriosos, esfregando incessantemente, mortificada e serena, as negras patas dianteiras. O magro e Mo rosto de Karin, pálido e delicadamente moreno, estava sereno e amável como sempre. Só um observador muito atento teria podido descobrir que entre as sobrancelhas alguma coisa mais se marcava do um traço cansado e dolorido. Ragnar e Johanna estavam silenciosos. Tomaram o café da manhã j tos, como se não tivessem que esconder de ninguém sua relação. Só t vam umas poucas palavras de vez em quando. A situação era muito favorável para madame Yvonne. Sua jovialida nha um efeito liberador, cujos efeitos estridentes podiam ser tolerados maior problema. Apareceu radiante no café da manhã, perfumada e m colorida num pijama de cetim de cor laranja, imensamente largo, e uma jaquetinha de curioso corte. Agia como o espírito bom e animad família, e todos se inclinavam a acreditar no papel que ela representava. giava com toda liberdade a enorme inteligência da velha tartaruga, que tas coisas e com tanto entendimento havia visto neste mundo. Jogava p alto Herakles, que esperneava com suas curtas patinhas, e ria gritando. - Oh, heisso clever, so intelligend-se regozijava; sua boca tinha ou menos a cor de sua larga calça. Afirmou, também rindo muito, qu hanna tinha o mesmo aspecto, era igualzinha ao noivo de sua amiga in (hoje era só o noivo de sua amiga, ontem era ainda seu próprio noivo). dame Yvonne dominava a situação. Distribuía suas brincadeiras e ris por todos os lados: a senhorita Suse a ouviu dizer alguma coisa tão eng da que não pôde evitar o riso; falou com respeito e humor a Karin e à Karin parecia se divertir com as palhaçadas de sua prima; havia sentido de o princípio uma simpatia meio irônica pela ave multicolorida. Até ar cou, quase contra sua vontade, um sorriso pesado da mãe. Contudo, a mãe mostrou-se de repente muito interessada qua Yvonne, ameaçando com o dedo e com muitas risadas, disse a Ragnar: -Ai, mon vieux, ai, esqueci o mais importante de tudo! Nancy ma a você mil lembranças e mille tendresses, e tudo o que você quiser; eu a vi pouco em Biarritz... Ou foi em São Sebastian? Está mais rica ainda, mor outra de suas tias na América, sempre teve uma grande sorte! Agora mais empenhada que nunca em casar com você. É curioso que vá atrás você, você tem algum poder sobre ela! - Yvonne se torcia de riso. - culpe que eu fale tantas bobagens - disse, dirigindo-se devotamente em reção à mãe. Esta, contudo, esticando o pescoço com atenção, disse: - Por favor, querida. Conheço miss Nancy de Estocolmo, uma da encantadora. Você tem amizade com ela? 142 - Claro que sim - arquejou madame Yvonne, se agitando em absurdas gargalhadas. - Há anos sou amiga íntima dela, uma doce criatura... Perdeu o fôlego, tão divertida achava aquela situação. Ragnar murmurou alguma coisa de "velha vaca" e "pouco me importam seus cumprimentos". Johanna olhou Ragnar. Com quanta desconfiança e com quanta ternura aqueles olhos se detiveram naquela cara obstinadamente fechada. Quantas coisas pressentia, quantas coisas vislumbrava enquanto contemplava sua testa inclinada, suas sobrancelhas caprichosas, sua boca estranha. Que desesperança havia já na felicidade que contemplava. Ai, que longe já estava Johanna de Ragnar, e ainda poderia reté-lo em suas mãos. Desde aquele momento, o comportamento da mãe para com madame Yvonne foi muito mais amável; chegou até a rir de suas piadas. Madame Yvonne mostrou-se muito em forma durante o banho que deram na passarela do embarcadouro. Quando se despojou de seu roupão cor de púrpura, mostrou uma beleza corporal que seu rosto desgastado não per mitia imaginar. Pernas, braços e ombros resplandeciam sem mácula, deu uns poucos passos orgulhosos mexendo com Herakles em suas mãos: tinha um aspecto verdadeiramente magnífico. Sentiu que o desvelamento de seu exuberante e puro esplendor causava sensação; riu lisonjeada. Ragnar, que tomava sol de cócoras na passarela, abraçado aos joelhos, soltou um elogio: - Você se conservou estupendamente bem durante todo este tempo, minha velha Yvonne! - A gente faz o que pode! - exclamou a alegre madame, jogando Herakles para cima para divertir-se com sua esperneada. Estava muito bem-humorada. Sentia que devia temer a comparação com Johanna e Karin, mais jovens. Karin, com seus quadris talvez um pouco grandes, na verdade, ao tirar a roupa, decepcionava. Johanna sim representava uma concorrência mais perigosa. Mas a experiente Yvonne achava que a desajeitada graça juvenil de Johanna era um caso demasiadamente `especial' para que a sua perfeição, cuidadosa e conscientemente exposta à vista, ficasse desmerecida junto a ela. Se uma assembléia de mil homens tivesse tido que entregar o prêmio de honra, a maçã de Paris, à mais bela daquelas três mulheres, Yvonne sabia que ela teria sido a agraciada. Esse sentimento fazia com que ela se sentisse bem. Também a consolava o fato de que o único homem efetivamente presente - Ragnar, de cócoras ao sol - nunca teria sentido outra coisa em relação a ela mais do que uma camaradagem ironicamente admirativa. Não houve nenhum flerte entre os 143 dois. Além disso, achava que a juvenil Johanna, com suas `idéias especi de certa maneira agradava ao gosto de Ragnar. A pequena e original ale -essa impressão tem Yvonne, que não sentia inveja-parecia uma bela. licidade estival para ele. Claro que alguma coisa assim não podia durar e namente. Quando todos estavam no melhor momento do banho no 1 Ragnar precisou voltar à passarela para secar Herakles, pois, com as animadas gargalhadas e gritinhos, Yvonne manifestou que aquela apreci criatura intelectualmente bem-dotada estava a ponto de ser arrastada águas, e que era necessário guardá-la na casa dos barcos, já que de outra ma se perderia. Naturalmente, madame Yvonne soube tirar melhor partido desse efi da água que dava uma cor dourada aos membros. Encantada pela ma lhosa transformação, se mexia como se dançasse seu corpo na água escu - Mais, cést fou!- exclamou uma e outra vez. - C est incroyable. de ouro! Sou feita de ouro! Incrível! Que valiosíssima sou! Todos tiveram que olhar para ela e contemplar sua dança de alegria pelo' próprio valor - os pulos narcisistas do bezerro de ouro ao redor de si m Ela ria tanto que quase perdeu de novo o fôlego, coisa que nesta circunstá teria como nefasta conseqüência morrer afogada. Ragnar a segurou. Yvonne tratou de evitar que o estado de espírito não caísse. Sempre ocorriam novas improvisações; de repente afirmou que alguma coisa a ha tocado, talvez até mordido, e fosse o que fosse havia sido espantoso. - É um caracol de lago! - gritou, dando braçadas loucas. - Se é existem nesta região. É uma criatura repugnante, e tem eletricidade! Ragnar levou o assunto a sério. Contou, enquanto boiava de costas água, que ele mesmo havia visto o bichinho, realmente desagradável, so tudo à noite, quando podia voar. - E é elétrico! - lembrou Yvonne. - Socorro! Agora me beij planta dos pés! Que coceguinhas! Mon dieu, é quase indecent! Disse que de nenhuma maneira podia continuar na água mais tem pois o caracol com carga elétrica se agarrava obscenamente ao seus calca res. Empapada e gritando - sempre com o cuidado de mostrar bem s formas- fugiu pelas escadas de madeira do embarcadouro e se jogou, es, tada, na passarela. Durante o almoço, madame Yvonne continou se esforçando para deixar o humor cair muito, para tanto fazendo brincadeiras e dando risa Não era só a senhorita Suse que mostrava seu aborrecimento - isso até 144 dia ser ignorado -, mas a mãe também estava mal-humorada. Sentou silenciosa na mesa, comeu pouco, com as mãos cansadas no regaço; muito esgotada até para esfregar as mãos da maneira de costume. O desvalido sorriso que madame Yvonne às vezes conseguia arrancar da mãe com uma de suas travessuras ficava pendurado durante algum tempo de seus lábios, um sorriso vazio, como distante, antes de desaparecer tristemente. Depois do almoço, enquanto tomavam café na mesa menor, a mãe mencionou o incidente da noite passada pela primeira vez no círculo familiar: - E eu que tinha tantas coisas para falar com meu filho Jens. Agora, nada. Não sei se nos perdoará... Depois, uma pausa desconcertada. Por fim, Ragnar murmurou alguma coisa que ninguém entendeu. Karin disse, com seu olhar tranqüilo e indiferente, perdido na distância. - Isso tinha que acontecer um dia. Talvez tenha sido melhor assim. A mãe pareceu passar por alto aquelas palavras tão claras. Com a pesada cabeça cinzenta inclinada, como aguardando ataques perigosos, disse em voz baixa: - Eu pensava... queria perguntar a Ragnar... se talvez não podia... um par de linhas a Jens... se desculpando... i Ficou muda, esfregou atormentada as mãos, enquanto Ragnar soltava uma-breve gargalhada. - Isso seria o cúmulo! - disse irritado. - Ir agora pedir perdão a ele! Eu me alegro de não precisar vê-lo outra vez. A mãe, sem reagir às suas palavras, voltou a dolente superfície de seu rosto a Johanna. - Quem sabe você consiga fazer com que Ragnar dê esse passo - disse, velada e solenemente. - Você não é tão inocente na briga de ontem à noite. Não tem nem idéia do que significaria para Ragnar, o que significaria para todos nós chegar a uma ruptura definitiva com meu filho Jens. Suas palavras tão diretas e francas, aquela falta de pudor solene era tremenda. Com a cabeça inclinada para a frente, parecia estar espreitando o efeito de seu pedido, tão surpreendentemente carente de tato. Johanna não respondeu; tinha o gesto indignado e desvalido de uma escolar a quem o professor dirige uma pergunta mais difícil, do que o permitido. Mordeu os lábios secos, sua testa ficou com um vermelho ardente. Naquele momento seu cabelo não tinha brilho, estava murcho e amarelado num couro cabeludo que queimava e coçava. Ragnar levantou-se e deu uns passos na sala. Ka 145 rin sorriu a Johanna. Enquanto seus olhos se detinham na cara de Joh disse para a mãe: . - Mas mamãe! O que Johanna tem a ver com nossos assuntos fa res? Isso é assunto nosso, nós é que temos de consertar isso. Madame Yvonne outra vez salvou a situação. Afirmou repentina ter se esquecido por completo de seu Heraldes; a criatura tinha fome, e também era preciso levá-lo para dar um passeio ao ar livre. Rápida erre movimentos, já estava perto da porta. Ragnar foi atrás de Yvonne. Ta Johanna levantou. Em pé, disse à mãe, que rígida e enorme ficou e poltrona: - Fico horrorizada em pensar que posso ter culpa... embora tenha só uma parte... do que aconteceu aqui ontem à noite. Sem dúvida, controle. Mas Jens falou de coisas que me afetam muito de perto, de damente perto. Entende? A senhora me perdoe que eu tenha perdido o trole, por favor! Falou de forma entrecortada, cada vez mais vermelha, a escolar qu ponde tardiamente a pergunta, em parte reticente, porque a princípio sabia a resposta, em parte triunfalmente, porque agora podia respondê-: Como réplica, a mãe mostrou um sorriso preocupado e resignado, bora quase bondosa. - Eu sei, menina - disse, enlaçando suavemente suas mãos. não devia censurá-la de coisa alguma... Em você nunca vou censurar faça Ragnar o que fizer. Mas, como mãe, devo pensar em tudo - acres tou, repentinamente convencional, enquanto os olhos fixos, intranqü conhecedores, pareciam guardar o segredo que ocultaram suas palavras mais e mortas. Levantou-se, suspirando ligeiramente pelo peso de seu co e preocupações. Andou com dificuldade pela sala. Karin tocou muito 1 mente, como se quisesse consolá-la, a mão de Johanna. Era o primeiro tante de intimidade entre elas, há muitos dias isso não acontecia. Madame Yvonne dominou o ambiente com suas brincadeiras, ca chos e loucuras ao longo da tarde e da noite. Jantaram num astral mel Havia caranguejos. Todos quebravam e sorviam com devoção; Ragnar viu aperitivos de forma abundante. A conversa se desenrolou sobretudo tre ele e madame Yvonne. Os outros ficaram um pouco à margem, pois nar trocava lembranças com ela. Com muitos "você lembra ainda?" e m risadas lembraram piadas de seus antigos dias de aventuras. Misturav sueco, alemão e francês; Ragnar ria profunda e guturalmente, e cada vez 146 servia aperitivo com maior freqüência, levando toda a conversa com certa desconsideração até os outros presentes, que não podiam participar. finalniente, Yvonne observou que os presentes estavam silenciosos; Ragnar não havia percebido. Yvonne levantou seu copo e olhou para Johanna: - Por que alguém tem que brindar comigo? - e caiu na risada, e com isso logo apareceram rugas ao redor de sua boca vermelho-alaranjada; não havia se pintado antes do jantar, só tinha passado um pouco de base no na riz, e por isso seu rosto não estava em boas condições. Ao redor das sobrancelhas tinha brilho gorduroso, e também a maquiagem dos lábios parecia exigir uma retocada. - Em nome de alguma coisa muito especial. Talvez pela queda dos malvados senhores da Alemanha? Achou isso tão divertido, que a estridente gargalhada não teve fim. Johanna contudo, sem levar em consideração a resposta de Yvonne, disse: - Prefiro fazer um brinde por seu Dagobert. Yvonne, subitamente séria, baixou o copo e perguntou: - Quem é esse Dagobert? Johanna teve um sobressalto. Teria dado um passo em falso? Não devia ter mencionado o filho raptado? Ou era tudo invenção de Yvonne e depois ela havia esquecido, e esse filho nunca existira? - Bem... - disse Johanna timidamente - Dagobert... Yvonne então riu novamente um pouco. - Ah eu contei a você que se chama Dagobert... Sim, vamos brindar por ele! - acrescentou, visivelmente nervosa. Junto com a sobremesa, a empregada trouxe uma carta urgente que entregou a Ragnar. Ele olhou a carta por cima, a colocou ao lado de seus talheres e continuou comendo. A mãe olhava fixamente, preocupada, como que rendo ignorar a carta e continuando a conversa animada com Yvonne. A mãe tinha reconhecido a caligrafia da carta: era de Jens. Johanna não tinha como saber isso, percebia só que o riso e a conversa de Ragnar estavam agora um pouco forçados, convulsos, desde que a carta chegara às suas mãos. Ele leu a carta logo que a mãe, de um canto da sala, lhes desejou bom apetite. Karin chegou perto dele. Também ela parecia saber quem era o remetente da carta, e provavelmente também sabia o que continha a carta. Jo hanna viu como Karin aproximou-se do irmão. Este não lhe respondeu logo, mas olhou fixamente o escrito que tinha nas mãos. Sua cara, com os lábios obstinadamente franzidos, tinha uma cor ,amarelo-clara, pálida e mate que sempre lhe vinha quando ele estava agitado. Finalmente fez um movi 147 mento de rejeição com a mão. Disse a Karin um par de palavras desele em voz baixa enquanto ia para o meio da sala. Yvonne, enquanto isso, estava mexendo na vitrola. Tocava a canç"a pequena Elizabeth; Yvonne pediu a Johanna que dançasse com ela. - Mas é você, menina, que me leva! - exigiu, olhando Johanna sedu mente com seus olhos bandidos. - Você é o cavalheiro -Johanna pegou tesmente o braço de Yvonne. - Puxa, parece que você tem prática nisso! clamou Yvonne, enquanto ela própria, que sabia das coisas, apertava Joh Johanna com sua calça azul de marinheiro - não havia trocado a r para o jantar- tinha a postura de um cadete inábil e galante. Dançava graça e segurança, apesar de uma certa dureza de movimentos; ma Yvonne colaborava com uma disposição que em sua perfeita e refinada sividade era quase ativa. O untuoso tio cantava no disco: "Ontem à noi nove e meia da noite vi você chorando; e você não estava sozinha..." A mãe então, esfregando as mãos com aspecto preocupado, dirigiuRagnar para saber das más notícias. Mas este se defendeu, antes que ela fiasse perto dele, com nervosos movimentos de mãos, como quando sE parira um inseto grande que zumbe em nossa direção. A mãe ficou pa Digna e implacável continuou seu funesto caminho. O filho esquivo dela, fugindo. Enquanto a mãe mostrou-se desconsolada olhando o filho - mexe outra vez os mudos lábios coriáceos como amaldiçoando ou rezando Ragnar pediu a Yvonne que dançasse com ele. O disco que acabavam de locar tinha ritmo lento: era um slowfox, como explicou Yvonne. Ra dançava com gosto, mas muito mal e sem técnica. Johanna dançara me com Yvonne. Ragnar preferia a postura pateticamente inclinada e passos cêntricos. Mas o tamanho de seu corpo dificultava esse arrojo. Às vezes peçavam. Só a grande prática de Yvonne evitava que tudo aquilo fosse fracasso estrepitoso. Ela segurava Ragnar com força, embora também uma suavidade quase maternal. Ragnar a envolvia com o braço, mas na dade era ela quem o levava mediante a pressão leve e hábil de seu corpo periente apertado contra o corpo dele. Johanna estava de pé e os observava. Quando terminou a dança, Ra, caiu numa poltrona e esticou as pernas; ele trouxera ao salão a garrafa d cor, e tomou outro trago. Johanna aproximou-se dele. - Era muito repugnante essa carta? - perguntou. Ele a olhou, co testa inclinada, com uns olhos um pouco aguados. (Suas mãos, bem est 148 didas sobre os joelhos; sua cara leviana e preocupada com os olhos estreitos. gagnar.) - Bastante - disse. - Era de Jens, você sabe. Está tão furioso comigo . alongou o `u' de 'furioso'- que quer me obrigar a lhe pagar, imediatamente, sua parte na herança. E, naturalmente, essa parte está na fazenda... - Tem direito a ela? - perguntou Johanna. - Talvez sim - disse Ragnar. - Talvez tenha até direito. -As coisas estão muito ruins? - perguntou Johanna, e ficou vermelha diante da ingenuidade da pergunta. - Estamos cheios de dívidas - disse Ragnar, e ficou olhando fixa e sombriamente as pontas de seus sapatos. -Então você terá que se desculpar com seu irmão?-propôs Johanna, muito timidamente. A resposta de Ragnar foi rir mostrando os dentes e semifechando os olhos; tinha a mesma cara jovial e cruel que costumava fazer quando queria chatear a mãe. - Não - declarou. - Isso não. Jens vai receber o que é dele. Assim, pelo menos, me livro dele. E saio d ta também, de alguma forma vou sair dessa. - Mes enfants, mes enfan~t 1 Era madame Yvonne que gritava assim, batendo palmas ao mesmo tempo. Estava no meio da sala, parecia enormemente excitada e dizia que tinha que fazer uma proposta magnífica. - Uma coisa me passou pela cabeça agora. E o que me vem à cabeca, eu ponho em prática! -exclamou, certa de sua vitória. -Aqui é gostoso, mas já faz tempo que estamos aqui. Sou partidária da mudança, essa é minha natureza. Além disso, a pequena Johanna conhece muito pouco de nosso belo país, e eu também esqueci quase tudo, e é hora de voltar a vê-lo. Por isso, proponho uma pequena viagem de carro a essas famosas cascatas que temos aqui, ou a uma dessas velhas torres e muralhas. Temos muito para escolher, acho! Ragnar ficou entusiasmado com aquela idéia. Levantou no ato. - Fantástico! - exclamou. - Magnífico! Precisamos de uma mudança! A mãe, em sua poltrona, fez cara de desconcertada, profundamente confusa e preocupada. Karin, que estava atrás da poltrona da mãe, tinha um sorriso fraco e gelado. A mãe fez uma leve exclamação de horror. Mas Yvonne, cheia de graça felina, estava perto dela, agachada ao lado do braço da poltrona, enlaçando-a com o braço. (A atitude de Yvonne para com a mãe havia se transformado inteiramente, adquirindo segurança e coqueteria, 149 pois a velha senhora reagira com um interesse inequívoco ao nome da amiga de Yvonne, Nancy.) - Mamãe não tem nada contra! - suplicou. - Os jovens querem o mundo - disse, infantilmente. A mãe esfregou as mãos preocupada. - Eu não tenho nada para dizer - afirmou, enquanto não tira olhos, desconfiados e temerosos, de Ragnar. - Que coisa tão absurda! Como você pode dizer uma coisa ass - Yvonne aproximou muito da testa e do nariz da mãe sua leve mas cabelo perfumado, de uma indefinida cor vermelho-castanha, com tintura muita artificial. - Quem mais, se não mamãe, teria alguma para dizer aqui? Mas o que poderia ter contra? Não passa de uma div são inofensiva. Ragnar prepara seu terrível carro velho, que conheço de Paris... - Quando vocês sairão? - perguntou a mãe, e tentou sorrir com lábios pálidos e feios. Ragnar se juntara a elas. Estava, que alto!, diante grupo de mulheres: a mãe na poltrona, madame Yvonne agachada jun ela, Karin, com o rosto transfigurado pela tristeza, atrás delas. -Amanhã cedo! -exclamou Ragnar, com as mãos nos bolsos; a p pectiva da partida o rejuvenescia, parecia jovem e de excelente humor. hanna observava um pouco distante como Ragnar mostrava os dentes ao quase sanguinário em sua ânsia de diversão e mudança. - Mas é preciso preparar um montão de coisas! - observou a mãe. - Não tem nada para preparar! É só fazer alguns salgadinhos, e eu nho gasolina no carro. - Você tem que arrumar algumas coisas - advertiu a mãe. Por exe plo, a correspondência com jens... Ragnar virou bruscamente: - Tem tempo para isso! - exclamou em cima, sombrio e quase gro ro (um jovem senhor em sua casa, nervoso, acostumado a mandar). - Ti nho vontade de ir embora, e é amanhã cedo. - Bem, não tenho nada contra- murmurou acovardada a mãe. Ragnar deu alguns passos pela sala; parou diante de Johanna e tocou 1 vemente sua mão. - Você também tem vontade de fazer uma viagenzinha comigo? perguntou. 150 - Sim - respondeu Johanna, olhando-o com os olhos escuros de ternura. - Claro que tenho vontade. Yvonne ficou excitada. - Fantástico! - exclamou. - Fantástico! Knut e Wolf, contagiados por tanto nervosismo alegre, começaram a ladrar juntos. Ragnar os chamou. - Vou brincar com Knut até que os ciúmes deixem Wolf louco - explicou, cruel. E inclinou-se carinhosamente em direção à cabeça de Knut, acariciou suas orelhas penduradas e suas faces úmidas, beijou-lhe a cabeça e lhe esfregou as patas até que Wolf começou a grunhir preocupado e, muito magoado, arrastou-se até um canto. Ragnar fazia como se não escutasse os grunhidos e lamentos de Wolf, dando mais atenção ainda a Knut... Só quando Wolf começou a gemer Ragnar ficou com pena dele. Então o chamou, deixou que de um salto se aproximasse e o recompensou com todo tipo de brincadeiras amistosas por todas s humilhações que havia sofrido. Mais tarde, Ragnar trouxe de seu quarto s mapas das estradas e os abriu no tapete. Com Johanna e madame Yvonne, que ria muito, se agachou no tapete e estudaram a rede rodoviária. - Amanhã podemos ir até aqui - Ragnar marcou o ponto no mapa. -Assim, podíamos estar passando amanhã nas estradas. Iremos por aqui, por este trecho... A estrada está muito boa ali. Os três se ajoelharam em posições bem incômodas; madame Yvonne disse de repente, rindo muito, que não podia se mexer, suas pernas pareciam mortas; provavelmente nunca ficariam boas outra vez. Ragnar precisou aju dá-la a ficar de pé. Houve uma grande confusão, porque Knut e Wolf correram, sem nenhuma cerimônia, por cima dos mapas estendidos no tapete, deixando as marcas de suas patas. Foi preciso recolher os mapas. Madame Yvonne voltou a tocar a vitrola. A mãe foi embora para dar ordens relativas às compras para casa e "ver alguém" - uma observação misteriosa que Johanna tinha ouvido antes, tal como lembrava agora. - Madame Yvonne divertiu-se esticando um pouco as pernas e mexendo o corpo ao ritmo da música; finalmente, começou a sapatear, mostrando uma técnica ruim. Seus saltos altos soavam com brio, seu rosto resplandecia. - Não em vão sou uma artista veterana! - exclamou, e arriscou uma figuração cada vez mais complicada. Ragnar coloco-se perto dela. Tratava de imitar seus passos, embora não conseguisse, começou uma dança que consistia em dar tropicões e provocar agitações nas juntas. Yvonne co nuou seu próprio espetáculo, animou Ragnar e exclamou: - Como nos velhos tempos! Sempre disse que você tem talento dança! Ragnar, provocado assim, se mexia mais e mais com maior entusias Caiu numa espécie de loucura, parecia mais uns pulinhos frenéticos uma dança civilizada, mas à qual não faltava uma certa graça apesar de titubeante falta de jeito. - Pula, ursinho, pula! - exclamava Yvonne, aplaudindo entusias Ninguém podia negar que Ragnar tinha realmente alguma coisa de impulsivo urso dançarino Johanna achava vergonhoso o espetáculo de Ragnar dançando. Seu surdo arroubo físico - um êxtase sem sentido e que em nada benefr Johanna - a mortificava; com a mesma força com que havia comovi nobre e confusa dilapidação de energia com que remara, com aquela m força se sentia agora magoada pelo entusiasmo de seus pulos, o entusi que o levava a agitar as juntas. Talvez Johanna só tivesse ciúmes de sua briaguez narcisista e auto-suficiente quando abandonou a sala e saiu, pouco deprimida, ao terraço. Karin estava do lado de fora, apoiada na balaustrada de pedra. Sob a ra e pálida luz da noite brilhava a maçã de seu rosto com maior sensibili de, pureza e beleza que dentro, na sala. - Oh, você está aqui... - disse Johanna, confusa diante de sua pr ça. Karin respondeu com um sorriso. (Os santos tal como vemos nos d nhos infantis; subindo ao céu... de seus lábios brancos saem as palav como sinos tocando; a única coisa viva em seu semblante transparente os olhos escuros, expressivos, capazes de desvelar uma tristeza que parece crível em figuras feitas de luz.) - Essa estranha Yvonne teve uma idéia magnífica ao propor a Ragn viagem - disse Karin -, foi um gesto hábil e amável dela: pensou ni para que ele se distraísse com outras coisas. O assunto de Jens é realmen terrível para ele. - Sim - disse Johanna -, é muito desagradável de fato. Ragnar deu a entender alguma coisa... - Ele tem que juntar dinheiro- disse Karin, olhando o jardim, mui séria. Uma luz magicamente verde sobre os campos, sobre os grupos de 152 vores, até o lago-, mas de qualquer forma teria que fazer isso logo. A situação não está boa... - Você vem junto com a gente, não é? - Johanna decidia, finalmente, perguntar isso aKarin. Karin virou-se para ela. - Não - disse -, agora não posso ir. - Por que não? - Johanna perguntou com surpresa um pouco hipócrita. Ai, que brilho brincalhão, carinhoso e profundamente melancólico apareceu nos olhos expressivos de Karin. - Porque quero ficar sozinha- disse com uma voz muito tranqüila. Karin tentou sorrir. - Bem - disse -, pelo menos você diz isso francamente. Mas não vamos deixar vocêsozinha muito tempo. Em dois dias estamos de volta. - Você vai voltar? - perguntou Karin. Johanna respondeu, sem olhar: - Bem... tcdos os meus planos são incertos, claro... Seu olhar vacila, se afasta temeroso, o olhar de uma criança~onfusa que mente e sabe que o outro percebe. (Johanna não é muito forte, nem muito valente; é forte evalente só quando o entusiasmo a acompanha.) Karin tocousuavemente sua mão. - Você tem dor na consciência - disse, estranhamente inclinada sobre Johanna: outra vez a amiga superior, mais madura, maternal e carinhosa, não a sofredora, a desiludida; o que era nela mais forte que a dor? - Você não deve se semir assim; não quero isso - disse, com suave severidade. A cara de Johanna; díscola, desamparada, refletiu certa teimosia. - Vejo quevocê está triste-disse, incomodada. Karin negot com a cabeça. - Não! - risse. - Já passou. Deixei que você percebesse? Eu não devia ter feito isso.Mas era muito forte... Os olhos dejohanna se encheram de lágrimas, lágrimas de desconcerto e confusão mais Ao que de tristeza autêntica. - O que ei. poderia ter mudado em tudo isso? - perguntou soluçando. - Para mim também foi uma coisa tremenda... tremenda... - Deixa para lá, deixa para lá! - Karin rebateu. - Não vamos falar disso. Eu superarei isso, também isso. Vamos fica ádo práticos... - não disse isso com amargrra, mas com um sorriso extremamente resplandecente, muito séria, cheá de confiança. -Adquirimos prática na transformação da dor - riu misteriosamente. - Você põe cara de surpresa, minha pequeno Johanna - tocou com seus dedos, de um brilho branqueio, a testa infan4 de Johanna. - Mas tudo isso é tão fácil... o que acontece é que não acred to... como posso dizê-lo? Não acredito num desperdício tão grande. Em a gum lugar deve se acumular tudo, também a dor; tem que se converter e coragem e força, aqui ou em cima, se é que existe alguma diferença... tan bém a dor. Sim, sim - disse, e concordou com alegria -, tem que se cone verter em resplendor. Você aprenderá! - e voltou a tocar pela segunda v~ com seus dedos benéficos a testa de Johanna. - Você acha que só o terrena o que você pode apreender, é real e válido - tinha um sorriso levemente irônico, quase de satisfação. - O que eu digo tarï,pouco está, esclareço) mais além do terrenal! O segredo está dentro disso, tão dentro disso! -dia se, e indicou com uma imagem fechando o punho na mão levantada, que1 realidade contém dentro de si o segredo e a lei de sua própria transformação como uma fruta e sua semente. - É preciso que a gente conheça bem À coisas da vida aqui para compreender que estamos sempre, sempre, mao além delas mesmas, até o segredo - falava se dirigindo à noite e não a Jâ hanna, numa espécie de êxtase frio e racional. - Ah, não posso esquecer - disse, mudando de repente de tom. Tenho que dar a você uma coisa. Espera... - tirou de seu cinturão algum coisa. Era uma nota. Johanna ficou vermelha. - Mas como você pode fazer isso? 1 - Não seja boba! - disse Karin. - Você não sabe o que pode aconto cer. Você talvez necessite. Pega, pega! - disse impaciente. - Não quem que suas decisões não sejam livres, nem sequer por um instante, porque fale dinheiro. Segurava a nota - de valor bem elevado - longe de si, como algum coisa repugnante e perigosa. Nesse momento veio do salão uma espécie de grunhido. As duas moçal passaram correndo, bem juntas - seus braços se tocavam - do terraço casa. Ragnar havia caído enquanto dançava, estava estendido, grandão, ra chão, e Yvonne estava inclinada sobre ele. - Mon dieu!- chorou. - Como aconteceu isso? - Ragnar fazia ura cara de espanto que aos poucos foi se transformando em raiva. - Maldição! - gritou. - Que porcaria! - Merde alors! Johanna e Karin riram daquele ataque de cólera, a cólera cômica de gigante caído. Johanna aproximou-se dele. 154 -- Você se machucou de verdade? - perguntou, ainda rindo um pouco, meio com medo. Ragnar, agachado, esfregava o tornozelo. - Maldição! - resmungou com voz mais profunda. - Torci o pé... Maldição! Arquejando, impedida, com preocupada pressa a mãe chegou perto. Es' fregando desesperadamente as mãos, ficou perto do lugar do acidente. - Oh, meu Deus! - exclamou com sua voz asmática, e começou a balançar como uma velha árvore sendo derrubada. - Outra desgraça! Ragnar bufou. - Não é nada, absolutamente nada. Olha, torci o pé! Fazia caretas de dor, aspirava o ar entre os dentes e o soltava como num assobio, como se isso pudesse acalmá-la. A mãe, queixosa, levantou os braços - que ternura em seus olhos! - e disse: - Temos que colocar compressas! Barro e vinagre. Isso sempre é o me. lhor. Espera, vou pegar água e vendas... Correu de cá para lá. Enquanto isso, Ragnar voltou a se levantar lentaente. Não andava tão mal, apesar de exagerar bastante, com caretas e gestos de dor. Ele se apoiava na mãe, que o ajudava em todos os seus movimenos com o maior cuidado e ternura. -Ah, filho meu, filho meu! - murmurava. Apoiado nela, quase carredo por ela, Ragnar mancava pela sala. Como podia confiar o filho recalcinte no apoio maternal! Como podia confiar em seu amor? "Disso eu não sabia", pensou Johanna, quando viu Ragnar mancar des-regando todo o peso de sua corpulência sobre a velha mulher. "Não sabia quanto o ama. Ela o ama mais do que a todos os outros filhos, o ama mais b que tudo neste mundo." - Ele pulava muito animado - disse madame Yvonne -, e de repente uve um estalido... - Bem, duvido que vamos poder viajar amanhã - disse Johanna. -Amanhã cedo tudo ficará bem. Quando Ragnar tem vontade de faalguma coiki, nada pode impedi-lo - explicou Karin. 155 f arin acertou em seus vaticínios; quando na manhã seguinte Johanna, bem cedo, foi à casa principal, Ragnarjá estava sentado à mesa do café com seu roupão multicolorido e com um esplêndido humor. r Sorriu para Johanna. -Então vamos mesmo? - Por que não? - perguntou Ragnar. - Bem, eu pensei... - disse Johanna. - Seu pé... Ragnar riu com desprezo. - Faz tempo que meu pé melhorou. À noite mamãe colocou umas mpressas - (e que caretas de dor tinha feito ontem à noite! Um inútil. ignar, um inútil). A vontade de viajar tomara conta da casa. A senhorita Suse apareceu m a cesta de comida; madame Yvonne vinha com seu vestido vermelho de iagem, levava Herakles na palma da mão e ria, fazendo brilhar seus dentes ouro e mostrando rugas ao redor de sua boca pintada há pouco. Até o esr de mãos da mãe tinha um jeito nervoso. - Então não houve fratura - disse, mexendo de um lado a outro sua kbeça. - Eu fiéluei com tanto medo... Precisou parar diante de um gesto colérico de Ragnar. Karin foi á última a sentar na mesa do café. Vestia uma roupa de trabaazul, suja, calça larga e jaqueta, um macacão para a garagem. Em conte com o tecido alinhavado, sua cara - tão acalorada como estava, com gotinhas de suor brilhando sobre o lábio superior- tinha um aspecto cialmente delicado e sensível. 157 - Dei uma olhada no carro - contou enquanto sentava. - Ainda nho as mãos sujas, e olha que as escovei durante dez minutos. Tive que ap tar os parafusos das rodas e ajustar os freios. Ragnar acha qV tudo isso se ruma sozinho - ela sorriu para ele. -Tudo vai bem quando ninguém mexe nas coisas-afirmou Ragnar-, mas agora o carro vai causar boa impressão, está impecável. - Claro que sim! - riu Karin, untando de manteiga uma torrada. Johanna a olhava com admiração, quase com temor; era difícil, se não impossível, reconhecer naquela moça empreendedora a mesma que à noite falara sobre a transformação das dores e da confiança misteriosa. Karin disse: - Seja como for, esse calhambeque já não agüenta muito. Depois do café a senhorita Suse falou com voz chorosa e fraca a Johanna, se oferecendo para ajudá-la a fazer a mala. Só então reparou Johanna qu a senhorita Suse, sob seu lenço branco, mostrava seu gesto de discórdia co o mundo, doído e irritado. (De que pó ela se protegia? No ar não havia n nhum pó; mas a senhorita Suse estava feita só para bailar nos prados co flores no cabelo ou para trabalhar em armazéns e quartos cobertos de pó.) Enquanto a senhorita Suse ajudava Johanna a reunir saias, blusas e ca misas, constatou com uma expressão mais incômoda do que irritada. - Não é bom que a senhorita vá embora agora. - Pode ser que eu volte dentro de alguns dias - respondeu Johanna inclinada sobre a maleta. - Eu não confio muito nisso - disse com bastante severidade a senhá rira Suse. - Sei lá onde vou estar amanhã - disse, com o olhar na janela, não n senhorita Suse -, ninguém sabe exatamente... - O certo é que estou chateada com a senhora - constatou a senhori-. ta Suse, alisando com ciúmes as camisas colocadas na maleta -, sim, muito chateada, senhorita Johanna! - sua irritação ela expressava pela metade, brincando e falando a verdade. - E a senhora perguntará: por quê? Porque na noite em que houve aquela feia discussão com o senhor Jens, é tão alegre o senhor Jens!, a senhora não falou da nossa pátria como eu gosto de ouvir, e como se espera que dela fale uma jovem alemã. A senhora falou com ódio! Com desprezo, com rebeldia! Posso dizer que impressão me causou isso? Olhou cordialmente a Johanna, com seus olhos azuis de evidente honradez, cheios de sentimento, estúpidos. Johanna não pôde evitar o riso dian t 158 te daquela cara solene e totalmente boba; por outro lado, não deixava de se sentir um pouco atingida por suas censuras repentinas. - Mas que coisas você diz! - disse, um pouco ruborizada. - Eu não disse nada contra a Alemanha, mas sim muitas coisas contra aqueles que governam nosso país. - Mas eles são a Alemanha! - afirmou com teimosia a senhorita Suse. - Se nosso povo alemão não quisesse essa gente, esse governo não estaria lá... Todo mundo tem que entender isso... - Johanna desviou o olhar. "É preciso orientar essa menina", pensou; nela cresceu o instinto pedagógico que na época da atividade clandestina se agudizara. - Nossa pátria não é sempre a mesma coisa que esses poucos indivíduos que se apresentam como seus representantes - disse. Mas percebeu que a senhorita Suse não entendia. Ao interromper sua fala, o fez com uma expressão tão desesperada, tão cansada, tão confusa, que até Suse comoveu-se. - Bem, eu não queria falar de novo sobre esses assuntos tão feios - garantiu a fiel cidadã de Hannover. - E a senhora leva as coisas muito a sério e pensa muito nelas. Eu sou uma boa patriota, mas não sei, e isso me basta - estava no meio do quarto: avental azul-espiga, lenço branco na cabeça, umas sapatilhas na mão. - Enfim, a gente tem outras preocupações pessoais - acrescentou, concordando seriamente. - Veja bem, é o que sempre digo: a política corresponde às pessoas. A senhora, por exemplo, ainda não me perguntou se tenho notícias do meu namorado. Como podia ter esquecido aquilo! Johanna pediu informações pormenorizadas. Infelizmente, ficou sabendo que o engenheiro estava em greve: não havia escrito, nem mesmo um cartão-postal, não havia dado o mais leve sinal de vida. A senhorita Suse tinha os olhos úmidos e os lábios trêmulos enquanto contava sua história. De novo discorreu prolixamente sobre o que devia fazer. Por fim, a senhorita Suse estreitou com força a mão de Johanna. - Obrigada - disse simplesmente. - A senhora é uma boa pessoa, sim. Sinto que vai embora. A senhora leva junto um pedaço de pátria. Em cima, a mãe já esperava Johanna na frente da casa. Parecia um pouco excitada e nervosa. - Esta viagem é, naturalmente, um completo desatino - disse ao receber Johanna -, mas seja como for fico contente de ver que Ragnar decidiu viajar. Quando fica muito tempo aqui se torna melancólico... fica me lancólico, eu o conheço. Está muito bem aqui, ótimo, é claro, mas de vez em quando precisa mudar de ares. Sua natureza o exige assim - soltou uma ri 159 II ¡I~'~~~Í L, i IIII6, I,I ~I ~IÏ I, cs Z Ç! sadinha; Johanna nunca a havia visto de tão bom humor. - Também gosto de saber que Yvonne vai acompanhá-los - continuou a mãe, de jovialidade tão inquietante. - É, sim, uma pessoa um pouco excêntrica, antes teria causado um escândalo, mas, em relação à sua vida, há tanta fofoca! De qualquer forma, tem um círculo de amizades interessante, acabo de ter uma conversa ótima com ela. Só posso desejar que Ragnar se dê bem com ela e com seu círculo de amigos. Se não, ele fica tão azedo aqui, na solidão, hi, hi, hi... - nova risadinha e um esfregar de mãos, encantada. Johanna estava tão espantada pelo comportamento quase desenvolto da mãe como pelo conteúdo de suas palavras. Mas naquele momento o rosto da velhinha voltou a ter uma expressão séria. - Preciso mostrar uma coisa para você, como despedida, menina-disse misteriosamente. - Mais exatamente: quero que você conheça uma pessoa. Subiu com passo pesado, mas rápido pelas escadas na frente da casa, diante de Johanna. Depois de subir alguns degraus, parou, arquejando ligeiramente, e virou-se para Johanna, que vinha atrás. Seu gesto era agora solene,,: - Querida menina - começou -, passei a confiar em você. Por isso gostaria que conhecesse toda a família, toda! Johanna, que estava dois degraus atrás da mãe, sorriu acanhada e expec-, tante. A mãe tocou com dois dedos enrugados e grossos a cabeça de Johan*' na, inclinando-se diante dela para se aproximar mais, com isso perdendo o fôlego; arquejou com mais força. - Espero que você tenha se sentido bem aqui com a gente - disse, so, Iene. - Você foi uma hóspede muito querida - seu pesado dedo repousava sobre a jovem cabeça de Johanna. -Algumas coisas saíram diferentes do¡ que eu imaginei a princípio - continuou a mãe, rindo misteriosa e malio ciosamente. - Você chegou como amiga de Karin, eu aprovei essa amizade, tanto por você como por Karin. Espero que continuem amigas, muito amigas, menina! Não leve muito a sério outras coisas que aconteceram aqui, Não pense que eu levo a mal tudo isso! Não levo a mal nem você, menina, nem meu filho. Mas você sabe que meu filho tem obrigações, é o chefe da família. Sim, e os tempos são duros. Eu sou a mãe, tenho que pensar em tudo. Também penso no que você terá que suportar, menina. Mas você não pode ser boba como para se queixar quando chegar a hora da separação. Por que haveria você de se livrar do que ninguém se livra? - riu um pouco e com dureza. Fizera um discursozinho, solene e sem recato; Johanna estava 160 intimamente impressionada com aquela mistura sacral de bondade, sabedoria amarga e um egoísmo familiar cinicamente admitido. Finalmente, a velhinha virou-se e continuou subindo pesadamente as escadas. Johanna a acompanhou com a cabeça abaixada. Você não será tão boba de se queixar. Por que você se livraria? Por que precisamente você, Johanna, menina? A mãe a conduziu ao longo do corredor ao primeiro andar, e depois por um corredor escuro e estreito. Entreabriu uma grossa cortina de tecido azul escuro; por trás havia uma porta. A mãe a abriu sem chamar e indicou a Jo hanna que a acompanhasse. Depois da mãe entrou Johanna. Estavam num pequeno quarto meio às escuras. Dentro ouvia-se um leve balbucio que podia ser de uma criança muito pequena. Depois, uma sombra branca e encurvada destacou-se da cadeira que estava junto à janela. Gradualmente, os olhos de Johanna foram se acos tumando à penumbra. Percebeu que da janela vinha em sua direção uma mulher velhíssima apoiada numa bengala. A mãe murmurou no ouvido daquela mulher muito frágil: - Como está a senhora hoje, mamãe? A sombra branca, contudo, não reagiu ao chamado; balbuciando e gesticulando curiosa continuou se aproximando aos trancos em direção a Johanna. Enquanto isso, a mãe, que na presença daquela mulher velhíssima parecia jovem, abriu com um movimento firme a cortina que ocultava a janela. Fez-se a claridade. A velhinha estava agora diante de Johanna. Era indescritivelmente velha. Da janela, a mãe disse: - É minha sogra. Tem quase cem anos. Naturalmente, é um pouco infantil. - Então não entende a gente? - indagou Johanna, muito confusa. - Não - respondeu a mãe, implacável. -já não ouve nada. Enquanto isso, a mulher encurvada, branca, tropeçando, estava bem perto de Johanna. A bisavó tocou o cinturão e a calça de marinheiro de Johanna, com dedos arroxeados, nodosos de reumatismo, balbuciando e babando como um bebê. Johanna olhou com horror sua cara pouco humana, que sob uma bonita touca de renda parecia uma branca e maltratada máscara simiesca; estava totalmente descolorida e era toda rugas. A única coisa que tinha cor eram as pálpebras avermelhado-azuladas entre as quais os olhos pareciam cegos - ainda enxergavam um pouco -, e a boca curiosa 11111 Illlli1 mente dura, obscenamente aberta, que tinha a cor violeta dos dedos e qual', Johanna lembrava, com repugância, o trazeiro de um macaco. A velha estue` va toda vestida de branco: branca era a pequena touca e a roupa com cai-, mento sacerdotal, brancas eram até a muleta polida, as meias e os sapatosg parecia de excelente humor, seu balbucio e seus dedos tinham alguma coi~l de travesso e brincalhão. Johanna pensou ter entendido umas poucas palmo uras suecas entre seus murmúrios semi-articulados. A mãe traduziu paraJohanna o sentido de seu discurso balbuciante. - Ela acha que você é um rapaz - explicou, e sorriu tristemente. - ) curioso: pergunta se tem um novo neto. É por causa da calça - acresce: tou, com certa severidade. Em sueco, perguntou a você se não queria senta, Mas a velha não a ouviu, e sob suas pálpebras violáceas dirigiu olhares mali ciosos a Johanna. Enquanto levantava alternadamente os dedos arroxead de sua mão direita, como num jogo absurdo, como se quisesse contar al ma coisa ou só demonstrar que ainda podia mexer os dedos. Fazia suas bri cadeiras infantis com dignidade, rindo, a saliva escorrendo abundante p boca repugnante. Por fim, a mãe, usando a força com suavidade, voltom levá-la para a poltrona junto à janela. Johanna estava muito impressionada. O encontro com aquela velhin digna e denegrida, branca, muito branca, tinha sido para ela uma peno aventura. Mas o que a incomodava mais era o Fato de terem lhe ocultado i tencionai e conseqüentemente a existência da sombra branca daquela casa - Por que vocês não me falaram nada sobre ela? - dirigiu-se à mãe voz baixa; continuava tendo medo de que a enrugada velhinha pudesse ouvi- Ragnar não quer - disse a mãe, colocando o travesseiro sob a nu da velhinha, que por fim estava outra vez sentada. - Diz que é indecen mostrá-la. A casa já tem bastante gente da família e lembranças de famíli Talvez tenha razão - disse a mãe, preocupada; - mas, naturalmente, a bre mamãe se chateia, todo o dia aqui em cima, sozinha. Enquanto isso, a velhinha branca não deixava nem por um instante balbuciar e de levantar os dedos gesticulando como um bebê. Johanna m ou menos entendeu que a velhinha queria lhe indicar os quadros e fotog fias que, com ou sem moldura, se alinhavam em grande número sobre a moda e nas prateleiras. - Diz que são seus amigos, filhos e irmãos - disse a mãe. - E que t dos estão mortos. Já tem quase cem anos - a bisavó assentiu com a cabeça soltou uma risadinha. - Agora precisamos ir embora. Não conte nada 16z Ragnar que estivemos aqui em cima. Faço esse pedido com muito empenho, ele não agüentaria saber. Mas eu achava que você deveria conhecer toda a família - a velha voltou a gritar. - Agora mesmo vamos trazer sua sopa, mamãe! - gritou isso em alemão, pois de todas as maneiras não podia entendê-la. A sombra viva fazia gestos de levantar de novo quando abriram a porta, como se quisesse sair dando rasteiras atrás de seus visitantes; a mãe teve que voltar para perto dela para que sentasse outra vez. - Sua visita a deixou muito agitada, é claro - disse a mãe depois a Johanna, no corredor. - Ela tem um bom gênio, às vezes brinco com ela durante horas (a imagem - mãe e bisavó jogando - tinha para Johanna algu ma coisa de inquietante. Brincavam de bonecas, agachadas juntas no chão? Corriam uma atrás da outra pelo quarto?). - Meu falecido marido a amava muito - disse a mãe. -Antes era muito bondosa e inteligente. Embaixo, na sala, já esperava Ragnar, vestido com um casaco de couro, calça de flanela sem passar e gorro cinzento na cabeça, e madame Yvonne, que com muitos gritos e risos segurava Herakles, que mesmo alojado em seus braços lutava para se livrar. A senhorita Suse e Karin levaram a bagagem e os casacos ao carro de Ragnar, que, em honra da viagem, limpara um pouco o veículo. No vestíbulo havia uma carta para Johanna sobre uma mesinha redonda; talvez estivesse ali durante toda a manhã e nem havia reparado nela; talvez acabava de chegar enquanto ela estava em cima, com a velhinha branca. A carta era de Bruno. Johanna pegou a carta, mas não a abriu. Daí para a frente tudo se desenrolou muito rápido. Ragnar, que estava bastante sombrio, disse com aspereza que já era muito tarde, era preciso se apressar. Madame Yvonne abraçou, rindo e conversando, a máe e Karin. - Não deixe de dar minhas lembranças a miss Nancy, quando lhe escrever! - ainda conseguiu dizer a mãe; depois pareceu perdida numa perplexidade total, passeando 0 olhar extraviado de seus olhos atemorizada mente abertos, e seu gesto de esfregar as máos chegou ao desespero. - Dirija com cuidado, meu filho - advertiu a Ragnar, que a beijou fugazmente na testa. - Cuide-se, divirta-se! Depois de Ragnar, Johanna aproximou-se da mãe para beijar-lhe a mão e agradecer por tudo. Todo mundo despediu-se de todo mundo, incluindo madame Yvonne, que deu umas palmadinhas na mão da senhorita Suse, e Johanna finalmente aproximou-se de Karin. O semblante de Karin resplandecia sobre sua roupa de trabalho comum, iluminado pela tristeza e o pensamento do amor e do adeus. -Adeus, Johanna! - disse Karin. - Que tudo corra bem com você! (Você veio como amiga de Karin, Johanna, espero que continue amiga dela. Sabe o que você perde se não conservar essa amizade? Você não pode desperdiçar tanto. Você é tão mão-aberta, Johanna? Você pode permitir que isso aconteça? Ai, quanto tempo você vai lamentar isso.) -Adeus, Karin. Suas mãos se tocaram. A noite no quarto vazio. Os meses em Berlim. Você veio como amiga de Karin. Por que você desperdiça seu amor, seu amor tão digno de confiança? Johanna, você não vai permitir isso, vai? O contato de suas mãos podia durar mais tempo. Mas por trás delas estava Ragnar com olhos obstinados, estreitos, e com lábios também obstinados, embora um pouco franzidos. Dar a mão à senhorita Suse, que fica com os olhos chorosos. Ragnar ao volante; Johanna perto de Ragnar; atrás, madame Yvonne entre as maletas, com Herakles sobre os joelhos. O carro não pega na primeira vez, finalmente arranca, avança avenida abaixo. Para trás ficam a mãe, Karin, a senhorita Suse; as três dizem adeus com as mãos; agora mesmo, um segundo mais, e terão desaparecido; o segundo passou, saem pelo portão grande do jardim, aberto de par em par. Para trás ficam a casa, os álbuns de fotos, o balanço - banquinho encantado; a mulher muito, muito branca (o espírito oculto da casa incomoda Ragnar), a casa dos barcos, água negra que doura os membros. Knut e Wolf-ninguém os viu na despedida-correm um pouco atrás do carro, arquejados pelas exclamações chorosas de madame Yvonne. Finalmente param de correr, Wolf, o pardo, e Knut, o negro, os dois ciumentos, os amigos de Ragnar. Johanna abre a carta que encontrara no último momento. O vento da viagem quase arranca o papel de suas mãos. Passa os olhos pelas linhas, estão tão confusamente escritas, provavelmente com pressa. Johanna mal conse gue decifrar o conteúdo do papel que se agita ao vento. Mas apesar de tudo entende, tem que entender: Bruno lhe escreve para dizer que vai para a Alemanha. A coisa é perigosa- escreve Bruno -, seus papéis falsos são de primeira. O que precisa resolver na Alemanha tem enorme importância e ele não pode prescindir de nenhum amigo de Paris. Primeiro fica alguns dias em Colônia, depois uma semana em Berlim. "Vou embora amanhã", termina a carta. "Me deseja sorte, Johanna!" A carta demorou três dias para chegar; Bruno, portanto, já está na Alemanha. 164 Um tremor atravessou o corpo de Johanna, saindo da nuca e indo até a espinha. Pesam muitas coisas sobre Bruno, eles o conhecem com os olhos fechados, é procurado pela Justiça. Que loucura! Participou de atentados com explosivos no norte da Alemanha. Sua viagem a Alemanha é uma loucura criminosa. Alguns dias em Colônia, uma semana em Berlim. Tem coisas importantes para resolver. Os papéis falsos são ótimos, mas a coisa é perigosa. Como Georg deixou que ele viajasse? O partido não tem nenhum direito nem nenhuma possibilidade de obrigar Bruno a fazer essa viagem terrível. Pesam sobre ele muitas coisas, e se nos atemos à lei, ele pode esperar o pior na Alemanha. Provavelmente ele próprio se impôs essa tarefa, mortalmente perigosa. Mas que falta de humanidade aceitar esse sacrifício inumano! E Johanna sabia o quanto Georg estimava Bruno. São inumanos, como na guerra. Veio-lhe à cabeça uma história sentimental de guerra (onde li isso?) sobre um oficial que manda seu mais querido amigo, um jovem tenente, a uma missão; o tenente cai, lhe trazem o caixão, nenhuma morte é tão bela como a morte pela pátria, o rosto do oficial com um domínio férreo, depois, seguramente na tenda, chora sozinho, tinha uma camarada, que é a humanidade, somos homens, só a pátria conta, é a guerra, desgraçadamente é a guerra: primeira linha de um velho poema que soa na cabeça de Johanna como uma melodia, escrito por Matthias Claudius, o que é humanidade? "Faz poucas semanas eu não teria me feito essa pergunta", pensa Johanna, de repente horrorizada. O que acontece comigo? Esqueci já tantas coisas, só porque ele, casualmente, foi meu amigo. Quando eu mesma estava lá, isso para mim tinha sido a coisa mais óbvia... A bela e severa obviedade. Johanna olhou para Ragnar, mas Ragnar não sabe nada da carta nem de seu conteúdo, não sabe absolutamente nada de Bruno, esse é outro mundo, Ragnar. Olha de frente com seus olhos estreitos. Que estranho que de re pente ele se vira para Johanna. Sim, não sabe nada de Bruno, não sabe que há guerra, e porque se luta, nunca poderá'entender isso. Ele, com seus bons sentimentos, não gosta do mesmo adversário que combatemos. Isso já é alguma coisa, é muito, mas não é suficiente. Pois seu ódio é reflexivo, incontrolado, não conhece as razões de seu ódio. É uma antipatia pessoal, que dá testemunho de seu caráter, e por isso é preciso amá-lo ainda mais. Mas ele poderá, algum dia, ser dos nossos? Você pode amá-lo quanto quiser, Johanna, ele sempre estará assim perto de você, não sabe nada de você, nenhum abraço vai aproximá-lo de você completamente, ele é estranho, estranho Ragnar. 165 - Finalmente, você conhece a avó, depois de tudo - disse de repente Ragnar com sua voz gutural. / Johanna deu um soluço. - Sim, estive um pouco com ela lá em cima - disse Johanna, muito confusa. - Por que você escondeu isso de mim? - Mamãe não pode evitar isso - resmungou itagnar. - De vez em quando tem que mostrá-la a alguém. Leva lá em cima seus hóspedes prediletos. Deve ser uma espécie de demonstração de favor. - Por que isso te chateia? - perguntou Johanna. Ragnar esclareceu ir= ritado: - Porque eu acho isso indecente. Uma coisa assim a gente não mostra aos hóspedes, esse desenterrar relíquias é um costume repugnante. - Mas é uma mulher viva - objetou Johanna. - É sua avó, afinal... - Bom, vamos lá! - disse Ragnar, e acelerou. - Graças a Deus, não estou impregnado de sentido familiar. Gente assim, que só pode balbuciar, já não está entre os vivos. E já é bem ruim que mamãe fique mostrando suas fotografias e conte suas histórias batidas. Mas ao menos no que diz respeito à velha balbuciante, mamãe devia se controlar. É uma coisa comprometedora. Dirigia bem depressa; não reduzia a velocidade nem nas curvas. Já haviam deixado para trás o povoado, a estrada corria entre campos, depois entrava no bosque. Madame Yvonne disse que Herakles gostava muito da viagem: não perdia nada, era extraordinária a inteligência com que ele captava tudo. - Herakles tem que escrever as memórias de suas viagens! - exigiu madame Yvonne. - Heis so dever. Ueja! Ragnar ria, quase atropela um cachorro que pulou para o acostamento. Para trás ficou um camponês xingando-os. Ao fim de uma hora, Yvonne disse que tinha fome; abriram uma das cestas de comida. Yvonne tirou do bolsinho vermelho uma tabaqueira recoberta de couro e ofereceu conhaque. Ragnar bebeu três copinhos de uma só vez, e depois seu humor melhorou muito. Mastigou um ovo cozido; ao redor da boca ficaram migalhas amarelas, e também caíram restos sobre o mapa de estradas que tinha em seu colo, aberto. - À noite, estaremos nas cataratas - afirmou com confiança. - Eu achava que não conseguiria chegar lá com este calhambeque. Além disso, ontem à noite parecia que eu tinha quebrado o tornozelo; mas à noite passou tudo. 1GG Ao fim de meia hora continuaram. Ragnar mostrava certa inclinação para dirigir o carro em ziguezague, cantando. Com voz profunda deliciou todos com diversas canções, começando com A pequena Elizabeth, continuando com Parlei-moi d ámour, fi cando depois no repertório francês: cantou todos os grandes sucessos de Mistinguette, Josephine Baker, Damia e outros favoritos de Paris. Madame Yvonne às vezes o acompanhava, embelezando o concerto com seu descanto. Finalmente, Ragnar passou às canções populares nórdicas. Só então Johanna o ouviu encantada. Ao cantar punha uma cara séria e reverente, seus olhos brilhavam. - Não é belíssimo? - perguntou, e sorriu a Johanna. - Sim, assim cantamos aqui... - suas mãos repousavam, soltas e sem atenção, sobre o volante. Johanna estava tão emocionada pela suavidade sonhadora de seu sorri so que esqueceu o medo de sua falta de atenção ao dirigir. Então aconteceu o acidente. Na verdade, não foi Ragnar quem teve a culpa, mas sim o ciclista que de repente apareceu diante do carro. O ciclista estava errado, ia pelo lado esquerdo da estrada e decidiu passar para o lado direito, muito em cima. Quase foi atropelado. Talvez tivesse sido possível brecar o carro, mas o susto de Ragnar foi muito grande. Deu uma virada para a direita, para evitar o ciclista que vinha do lado esquerdo. O carro bateu contra uma árvore e se enfiou de lado numa valeta. O choque foi muito violento. Enquanto as pessoas dentro do carro batiam umas contra as outras, pensavam que iam morrer naquele momento. Na verdade, contudo, não aconteceu nada. Madame Yvonne, que estava atravessada sobre as maletas, foi a primeira a levantar sua cara aterrorizada; apertava Herakles contra o peito: até a tartaruga tinha se salvado. Ragnar e Johanna foram lançados um contra o outro por causa do choque; sorrindo, aterrorizados, se soltaram do abraço involuntário. Todos falavam ao mesmo tempo, num grande tumulto. O homem, cuja bicicleta havia sido raspada pelo carro na virada repentina e que havia dado de cara na poeira da estrada, estava de pé e esfregava a mão esfolada, sacudindo a sujeira da roupa; aproximou-se deles reclamando. Os três saíram engatinhando do carro, inclinado sobre um barranco. Ragnar constatou: - Podia ter sido muito pior. O carro, naturalmente, está destroçado - acrescentou com voz tranqüila e profunda. O homem que havia caído da bicicleta era um camponês de uns quarenta anos com uma roupa branca e com barba vermelha, de corte redondo. Maldizia em voz cada vez mais forte. Aí madame Yvonne se soltou: 1G7 - Mais,~Cés~ormidable)-- gritou (tinha a cara branca e ur~pequeno filete de sangue na testa, provavelmente causado pela alça ou beirada de algo_ ma maleta). - Poderia ter sido aun pior? Sim, claro que sim! Mas é sufi. ciente para mim... ~a s t, é a única coisa que posso dizer.a I had the chn~*o*o. my head- começou a contar repentinamente, em tom conspiratório, dirigi gindo-se ao camponês, que parou, assustado, de blafesmar. - It's notaó_"~j, you know!- exclamou, muito irritada, como se estivesse sido contrariadat: Beéause- Lhad th~ chnc in my-he-ad Podia estar morta - and l in not afane I have my child, I have my ch ld, chave my son. I'm not alone~ tenho guri cuidar de outra pessoa.llt's. notso easy~, Ragnar, de forma cruel, não ouviu o lamento de Yvonne, não lhe deu a mínima atenção. Ao contrário, inclinou-se sobre Johanna com carinhosa preocupaçâo: - Então, você não se machucou? - perguntou, e pôs a mão na parta de trás de sua cabeça, fazendo a curva com a mão, como se fecham os dedal ao redor de uma fruta. Johanna devolveu-lhe o sorriso. - Mordi a língua - disse - e, além disso, esfolei um pouco a mão. Não vejo outros ferimentos. Ragnar começou a negociar com o barba vermelha, que mostrou ser uris homem razoável, controlado, depois que perdeu seu gás reclamando. Rag• nar lhe prometeu uma indenização, que não precisava ser muito grande; pois a bicicleta ainda funcionava; foi só o dono dar uma desentortada nela, a voltou a rodar como antes. Outra coisa, contudo, era o carro, que estava num estado lamentável. Estava todo arrebentado: uma roda quebrada, a maior desordem no seu interior, segundo constatou Ragnar: - A verdade é que está totalmente destroçado - afirmou pensativamente, coçando por trás da orelha. Convenceu o homem de barba vermelha que subisse em sua bicicleta recomposta e fosse buscar um guincho da cida dezinha mais próxima. Foi preciso conversar bastante com o bom homem, pois a princípio ele dizia que o povoado estava muito longe e que ele vivia na direçâo oposta e era esperado em casa. Finalmente, contudo, foi embora. Demoraria um pouco para voltar. Tinham que esperar. Deram alguns passos, comprovaram que tudo funcionava bem neles-pernas e braços - e madame Yvonne serviu conhaque de sua garrafinha. Então ela declarou também que tudo podia ter sido pior, mas voltou, como se Fosse um estribilho, ao shockque havia sofrido na cabeça, e que de nenhuma maneira era tão easy. Ragnar contemplou preocupado o carro destroçado. 1G8 - Será possível fazer Y9ssi I9vìzz~ssível fazer isso funcionar outra vez? - perguntou, centou sombriamente: :91n9rnéamente: - Bem, seja como for_io3 omo~ ~~eja como for, Karin e mamãe vão se divertir com meu Johanna, como resposnzogz9i omcomo resposta, lhe tocou carinhosamente o ombro com Não era um lugar feio oi9i zsgul rm lugar feio aquele, onde teriam que passar o tempo e do. A uns cem metros com mos zo"9rn metros começava o bosque; ali só havia musgo, matas nhos, com algumas árvore.9~rovY~ zsrnrumas árvores altas entre eles; Ragnar havia batido cor desses. O ar quente cheiravrsYisri~ 9~n9iente cheirava a ervas e bagas. Chegaram perto, para vc dente, uns garotos sujos, o ,zo~uz zo~cotos sujos, olhos amendoados, estilo mongol, e claro nórdicos. Yvonne lhes mo:orn z9ril snrtne lhes mostrou Herakles, e eles se afastaram atemos como se fosse uma serpernsgYSZ smu uma serpente venenosa. Ela lhes deu chocolates fra com os quais lambusaram : msYSZUdmambusaram a boca. Passou uma hora. O que aconteceu em s.z rn9 u9~9~nnteceu em seguida demorou mais ainda. Não consegt vantar da valeta o carro vir~tiv o1is~ o ~a o carro virado: poucos homens do povoado vieram ramentas que traziam não osn msise-raraziam não serviam. Ragnar fez força junto com ele: impressão é que ele atrapagsY~s 919 9rue ele atrapalhava mais os homens do que os ajudav, barba vermelha voltou ao ~ os rro~Iov ra voltou ao povoado para buscar reforços. Naquele momento mam o7n9rnomomento madame Yvonne perdeu a paciência. Disse c causa do shock tinha doreas~ob srlni~ z tinha dores de cabeça terríveis, que já não agüentav que estava cansada de tudbu7 9b sbsz~sada de tudo aquilo. Parecia de fato muito abatida. 1 ram que não era necessári iYszz9~9n s7°ra necessário esperar que levantassem e rebocassem c podiam pedir que alguém rn9ligls 9uFque alguém os levasse à pequena cidade mais próxüna ro que viera para socorrê-lol-9YYO~oz sara socorrê-los. O proprietário de uma garagem lhes pr~ que cuidaria de supervisiaoizivY9quz sle supervisionar o processo de reboque e de guardar c Ragnar anotou seu ender~Y9bn9 u9z r.u seu endereço. Puseram as malas no carro. Enquan uma multidão observava svrvY9zdo 0 observava tudo com curiosidade, gente do campo. riam entre si se Johanna (r) snnsríoj 9se Johanna era um rapaz ou uma moça; faziam piada madame Yvonne, sua cara sYS~ luz ,9nne, sua cara pintada e sua tartaruga. A cidade mais próximamixò7q zisrnais próxima estava a uma boa hora de caminho. Ragc tou na frente, com o motoo~om o rno~com o motorista, e Johanna atrás, com madame Yvor lou-se pouco. Ragnar, dunub asn$sA Ragnar, durante toda a viagem, só virou duas vezes l hanna. A primeira vez dissvzzib s9v s~i9ieira vez disse: - Temos que contar o zs~no~ 9up que contar em casa que a culpa foi do ciclista. Senão, mãe e Karin vão me gozansso$ 9rn o~ão me gozar muito; adorariam gritar no ouvido da a~ essa história - acrescento~o7n9~z97~s - acrescentou enfurecido. Na segunda vez pergunu$-~9q s9v s$a vez perguntou, com um sorriso carinhoso: - Você não está muitoiurns~z9 oião está muito incômoda aí atrás, Johanna? 1G9 Certamente, ela estava presa entre maletas e uma grande caixa de cha péus que madame Yvonne tinha diante dos joelhos. - Estou ótima - respondeu. Madame Yvonne, que estava mais cômoda, reclinava-se no canto com os olhos fechados e um gesto de dor na boca. Johanna achou encantadora a pequena cidade a que chegaram. Na praça do mercado se ouvia o rumor de uma fonte; estranha praça, viemos aq assim de repente. Parecia a hora do passeio, aquela saidinha noturna, mui gente de cá para lá, no meio homens fardados. Era uma cidade com u quartel militar, explicou o motorista aos forasteiros. Pararam na porta hotel. Um pouco mais tarde, no terraço que fazia as vezes de sala de jantar, dame Yvonne recuperou o bom humor. Havia trocado de roupa, dera u retoque na maquiagem, sentia-se refrescada. Também Johanna mudara s calça de marinheiro e sua blusa descolorida por um vestido cinza bem mam; Ragnar, ao contrário, continuava usando sua jaqueta de couro e calça amassada. O terraço tinha três cristaleiras, e a quarta parede dava p a sala de jantar na penumbra, que oferecia uma melancólica visão atrav, das portas abertas. Um grande grupo de oficiais estava sentado ao redor de uma mesa exT; tensa. Tinham postos e idades diferentes, mas todos se vestiam de forma travagante e estavam com humor excelente. Levantavam brindes em meio t risadas barulhentas. A cada minuto chegavam mais militares que, mais ver lhos, eram recebidos com grande profusão de calcanhares batidos e rígid movimentos de braço; se fossem mais jovens, eram eles que batiam os cale nhares. Depois sentavam uns ao lado dos outros, esqueciam todas as formar• lidades e aumentavam ainda mais o barulho. Johanna olhava com indiferença meio gozadora, Ragnar, com ranco madame Yvonne com entusiasmo aquela atividade varonil, disciplinada animada. ,,Ç', --. -r-Mon dieuf os rapazes! - sussurava Yvonne com tal entusiasmo que provavelmente eles podiam ouvi-Ia na mesa contígua. - Os rapazes, os rapazes... Fico tão nervosa! Olha para mim, Johanna, estou muito louca? Contudo, não era possível conter seus olhos; não havia forma de evitar' que mandassem olhares inflamados; um velho soldado de bigode cinza j3 percebera, e com uma galantaria secreta, fez um brinde por Yvonne. Mada me Yvonne disse que precisava tomar um champanhe, seus nervos exigiam isso, havia sofrido the choc na the head não havia sido easy, e agora os rapa 170 zes. Ragnar foi obrigado a pedir o champanhe. Yvonne ria eletrizada: o militar flertava com ela cada vez de forma mais clara. Um dos oficiais estava em pé e fazia um longo discurso. Johanna disse que queria fazer uma chamada telefônica à fazenda para dizer a Karin que não tinham ido às cataratas, onde haviam combinado, deviam mandar sua correspondência. Chamou o garçom e lhe deu o número do telefone. Era difícil conter madame Yvonne; Ragnar tinha que segurá-la pelo pulso, debaixo da toalha, para que não saísse correndo na direção `dos rapazes'; aqui estou, me peguem, três de vocês, oito de vocês, deixei para trás muitos dias numa longínqua fazenda. Chamaram Johanna ao telefone. Era a voz de Karin. - Imagina- contou Johanna-, um ciclista entrou debaixo do nosso carro, um ciclista idiota. Ragnar não pôde fazer nada. Karin deu sua risada de gozação, discreta. - Eu sabia que ia acontecer uma coisa assim - disse. - Graças a Deus que não aconteceu nada pior. Como soava forte e íntima a voz de Karin aos ouvidos de Johanna. Dentro de uma cabine sombria e suja Johanna a escutava, e não teria acreditado que essa voz podia comovê-la tanto ainda, ai Johanna: o que você perdeu? Johanna, você chegou aqui como amiga de Karin. - Como vai você? - perguntou Johanna. - O que você faz durante dia? - Faz só meio dia que você foi embora - respondeu Karin. - Tenho tantas coisas que fazer, sabe, tantas coisas que descuidei. Tenho meus assuntos de beneficência. Tive uma longa conversa por telefone com a tia, é preci so providenciar uma nova remessa, tenho que preparar uma infinidade de coisas. E você? Você está contente, Johanna? - Madame Yvonne está em plena forma. Você não pode imaginar como está engraçada agora. Aqui há oficiais, e ela gostaria de dormir com todos eles de uma só vez. - E Ragnar? Durante um momento Johanna calou antes de responder: - Ai, Karin, Karin, tenho que ser feliz cada minuto, já não vou durar muito tempo... - Não diga isso! - suplica Karin. - Quanto medo na sua voz! Dá lembranças a Ragnar. Aproveita. Bem, temos que nos despedir. - Sim, temos que nos despedir... - repete Johanna. (Ai, o que você está perdendo? Você é tão rica, Johanna, que pode se a esse luxo, de perder tanto? Está ouvindo pela última vez a voz de Kari sabe disso; este é o lugar, uma cabina suja, este é o lugar que você a ouve última vez.) - Não chegou carta para mim hoje? - pergunta Johanna, só para tar a conversa. - Oh, como fui esquecer! Tem um telegrama para você. Johanna sentiu um sobressalto no coração. - Um telegrama? Por favor, lê para mim, pode? - Está na mesa - responde Karin. - Vou pegar, espera... - se a pega o telegrama, volta. -Alô, você está me ouvindo? - Sim, sim, eu ouço você; lê para mim, por favor! Karin abre o telegrama. Uma breve pausa - uma pausa sem fim, Johanna treme de impaciência. - "Bruno preso hoje em Colônia. G." Como Johanna fica em silêncio - está na cabina sombria, apoiada tra a parede, cheia de números de telefone, corações e nomes; sorte que a bina seja tão estreita e as paredes tão próximas, assim pelo menos tem que se apoiar; e por que o telefone não lhe cai das mãos? Sua mão treme ta to... É um aparelho muito antigo, mas ela ouve Karin muito bem... Co Johanna não responde, Karin exclama do outro lado da linha: - Por que você não diz nada, Johanna? É coisa muito ruim? Finalmente Johanna diz, com um fio de voz: - Obrigada, sim... entendi, obrigada. - É tão terrível assim? - volta a perguntar Karin. - Não sei o que vai acontecer agora - responde Johanna. - Sim uma coisa terrível. Depois não sabe se disse algumas palavras antes de desligar. Segurame te combinaram que Johanna mandaria a Karin seu próximo endereço. ra só queria estar sozinha. Johanna passou por uma vitrina através da q viu gente lavando copos de cerveja, atravessou a sombria copa onde ha um cheiro azedo e voltou ao terraço onde os oficiais se divertiam cada v com maior barulho. Yvonne estava sentada com o rosto bem vermelho, gurando Herakles no alto, de forma que os tenentes pudessem brincar co a tartaruga. Também Ragnar parecia excitado por causa do champanhe; r ceberam Johanna sorrindo. 172 Johanna disse que estava cansada e que queria ir para seu quarto. Diante da pergunta de Ragnar admitiu que havia recebido uma má notícia. Despediu-se de madame Yvonn\e foi, atravessando outra vez a copa, e subindo as escadas, ao seu quarto. Um quarto totalmente estranho. Estava sozinha. Bruno havia sido preso, enquanto, de manhã, colocavam as maletas no carro; ou enquanto conversava coisas bobas com a senhorita Suse. Como posso me apresentar de novo diante dos olhos de Georg ou de seus amigos, de meus amigos? Levaram Bruno a um campo de concentração ou o fuzilaram? Não o fuzilem! Ele merece viver, é jovem e adora viver! Bruno, que havia participado de atentados com explosivos. Tinha sido um suicídio, um suícidio, ir a Alemanha. Georg o havia incitado a isso, meu irmão Georg, desumano em seu entusiasmo abstrato pela humanidade. Sacrificar o indivíduo que vive, que é real e que merece amor, com base num grande plano futuro, que não deixa de ser incerto e que pode ser errado. Não, não será errado, Johanna acredita nisso, não havia outra coisa para acreditar, nem Karin tinha alguma coisa para se acreditar, não, Karin não tinha nada, mas Georg não devia ter permitido que Bruno fosse a Alemanha. Ela tentou imaginar Bruno, não conseguira ver seu rosto com nitidez; diante dela tinha outro rosto. Bruno tinha um cabelo um pouco ralo - como o outro - recuado nas frontes. Mas na verdade era a única coisa pare cida nos dois. Bruno, com corpo robusto e testa morena, parecia um esportista; no começo ele se interessava mais por corridas de cavalos e boxe do que pela política. Seguindo as indicações de Georg havia lido Marx e Lênin, mas o que o cativara mais no comunismo havia sido sempre sobretudo a parte prática, a militância prática. Vinha de uma família de funcionários cristãconservadora; a vida na escola rural e em outros tipos de organizações juvenis o tornara acostumado às atividades coletivas, em associações. Esse costume também poderia tê-lo levado ao outro campo, mas isso fora evitado porque impediam um pensamento claro, a necessidade de pureza e a ausência de qualquer misticismo nacionalista. O momento decisivo havia sido a amizade com Georg. Este, dotado de grande talento pedagógico, lhe havia ensinado. Bruno havia sido um objeto grato. Era o lutador nato, só precisaria concentrar sua vontade num objetivo de combate. Em conversas que prolongavam noites inteiras, Georg lhe mostrou e explicou o objetivo. Bruno, sem qualquer condição, colocou-se a serviço da causa. Johanna ficou horrorizada com o trabalho que lhe custava para manter seus pensamentos concentrados nele, Bruno, tal como achava que devia ser. 173 t A ela parecia difícil, mas era impossível pensar em seu passado com Realmente, teriam se amado um dia? Não tinha presente nenhum só instante de verdadeiro carinho e eles, tudo havia sido camaradagem, descanso entre as pausas de trabalho comum, regulagem racional de necessidades fisiológicas. Quanto mais sava em Bruno - Bruno no campo de concentração, Bruno tortu Bruno correndo perigo de morte -, tanto mais selvagem, doloroso e primível o desejo de ver Ragnar. Finalmente ele chegou; teria passado uma meia hora. Johanna ap em silêncio seu rosto contra o de Ragnar. Estavam juntos, em pé. - Qual foi a notícia? - perguntou Ragnar. - Você parecia tão pobre criança... - acariciou sua nuca. - E como está gelada essa carin acrescentou. - Sim, uma coisa terrível - disse, reclinada sobre ele. - Prend uma pessoa. Uma notícia terrível. Ragnar não respondeu; talvez buscasse as palavras, mas não encon nenhuma. Pensativo e consternado observava Johanna, cujos lábios ás tremiam. Ragnar olhava com carinho para Johanna, sem dúvida te imaginar o que tudo aquilo significava: haviam prendido alguém. Mas dia fazê-lo, Ragnar, o amado, Ragnar, um estranho? Acariciou Johanna. -A parte posterior de sua cabeça é a coisa mais bonita em você - se, pensativo. - Isto... - seguiu sua linha com os dedos. - Ragnar - ela disse se apertando contra ele (seus olhos eram esc num rosto empalidecido) -, Ragnar, eu amo você infinitamente, mais que você me ama. - E como se pode medir isso? - perguntou e riu. - Sim, é possível medir isso - disse Johanna, e assentiu com serie Naquela cidadezinha o céu também não escurecia. Havia uma clari total naquele quarto estranho quando Ragnar levou Johanna para a ca Johanna, ao lado de Ragnar, caminhou hesitante, como uma sonâmb Embaixo se ouvia o barulho dos animados militares. 174 R agnar ficou no quarto de Johanna até de manhã. Não entrou em seu quarto. Era a primeira noite completa que dormiam na mesma cama. A cama era um pouco estreita para duas pessoas; Ragnar, que dormia de costas, ocupava mais espaço do que seria normal; Johanna era obrigada a se encolher. Ela acordou cedo. O cotovelo no travesseiro, a cabeça apoiada na mão, contemplou Ragnar. Com uma tensa curiosidade, uma ternura insaciável observou seu rosto adormecido. A testa de Ragnar não era pacífica. Que sonhos tinham o poder de jogar tanta escuridão sobre sua testa? Johanna olhava intranqüila aquele jogo de sombras malignas sobre suas sobrancelhas; assim ela ficou sabendo mais das angústias de Ragnar do que ele deixava vislumbrar durante o dia. Os lábios semi-abertos fingiam agora mostrar uma enganosa despreocupação, desmentida pela testa e os olhos fechados. Uma vez mais, não estava bem barbeado; a barba escura e dura chegava até sua garganta. Depois vinha, sob o pomo-de-adão, um pedaço de carne lisa e clara, até que sob a marcada clavícula começava a encrespada pelugem do peito. (Ragnar dormia nu, tinha tido preguiça para pegar o pijama em seu quarto.) Sua respiração através dos lábios abertos produzia um ruído que era quase um ronco. Com extremada precaução, para não acordá-lo, Johanna tirou de sua testa uma mecha de cabelo que havia ficado colada ali. Sentiu o calor de seu corpo quando inclinou-se sobre ele. O desejo de ter sua boca em seus lábios trêmulos foi enorme. Mas achava que ele reclamaria se o acordasse. Contra sua vontade, com grande sobressalto, disse a meia voz, mas com toda a clareza: 175 ,i~~nallll - Ai, Ragnar, essa é a verdade: eu amo você; essa é toda a verdade, sempre continuará sendo assim... X "Isso é mais certo do que qualquer outra coisa - eu amo você inteirp,para todo o sempre; tanto, Ragnar, tanto e com tanta força. Ragnar, vi caras", pensou a arrebatada, bem-aventurada, desesperada Johanna, "e nhecerei mil. Mas nunca voltarei a encontrar esta. Nunca voltarei a me contrar com uma na qual tudo, tudo me comove de tal maneira que cho ria só em tocar seu cabelo com os dedos. Por que isso não pode durar p sempre, e não posso ficar, por que tenho que sentir que isso vai acabar? que Bruno, um soldado, foi preso? Simplesmente porque há uma guer não uma guerra alheia, mas a nossa? Que ordem me convoca para ir em daqui? Que lema rigoroso me destrói a felicidade deste instante, a breve cidade de poder olhar você? O que é isso? O que é isso, Ragnar, Ragnar, q sempre estou ao seu lado como se me separasse de você?" Quando Ragnar acordou, uma hora depois, Johanna ainda estava mesma posição, com a cabeça apoiada na mão, olhando-o. Ragnar esfreg~ os olhos. - Faz tempo que você acordou? - perguntou, com voz profun Johanna o beijou na testa. - Bom dia - disse Ragnar, e a puxou para Ele a beijou, suas mãos a acariciaram. - Você dormiu bem? - perguu tou. - Para mim foi maravilhoso dormirmos juntos na mesma cam toda a noite. É uma coisa de que nunca gostei, sempre me incomodou muito que alguém partoutnão quisesse ir embora quando terminav tudo, quando o grande assunto estava acabado, la chose elle-même, o doc inevitável. Mas com você não me incomodou nada, e isso é novidadqv para mim. Bom dia - disse outra vez, e acariciou com os lábios todo s rosto. Ela ficou em silêncio. "É mais certo que nenhuma outra coisa. Para todo o sempre. Tanto; Ragnar... tanto e tão forte, Ragnar." - Mas agora quero me levantar - disse, com um sorriso discreto. - Sei, não começo outra vez. E de manhã isso não é bom, a gente fica um caco para resto do dia - saiu debaixo do cobertor e pulou da cama. - Pardon, não esto em condição de me apresentar num salão! - exclamou, e riu. - Mas eu já disá se, é hora de sair da cama! Ali estava diante dela se espreguiçando - os olhos estreitos, os dent brilhando ao rir: a figura de jovem numa cerâmica, o grande corpo palpitan-` te e nu, os braços estendidos, a cara sorridente, jovem com o sexo em pé, é 176 hora de sair da cama, de manhã não é bom ficar deitado. Para todo o sempre, Ragnar, tanto e tão fone... Correu ao banheiro com os pés descalços: a força de seus braços quando levanta a jarra e verte água na bacia (aqui não tem água corrente); jovem levantando uma jarra, jovem se afundando na água fria: a humanidade está exposta às transformações mais surpreendentes, em lutas gigantescas conquista um futuro, fica atemorizada diante dele, recua, quer evitá-lo e ao final deve conquistá-lo; depois grandes lutas produzem grandes transformações, tudo será diferente, tudo será diferente, só que leva tempo: mas algumas imagens são eternas, jovem correndo descalço; jovem levantando a jarra, enfiando a cabeça na água fria - resfolegando, fazendo gargarejo, rindo - e a amante o olha, levanta da cama que ele deixou há pouco, aproxima-se da janela, mas não deixa de olhá-lo, ele joga água no peito e nos braços, já está no meio de um charco. Johanna usava um pijama de tecido azul-claro descolorido e enrugado, uma roupa modesta, uma roupa para dormir mais apropriada para uma estudante do que para uma jovem dama. - Você vai molhar todo o quarto - ela lhe disse, e se aproximou dele. Por trás, colocou as mãos nos ombros úmidos e nus; suas mãos eram morenas, com as unhas não muito cuidadas e um pouco ásperas. Também seus lá bios eram ásperos e secos. Sua cara, com a testa brilhante e audaz, com a linha demasiado suave, inacabada, sob a boca, era daquela pureza obstinada que as mulheres não têm quase nunca, mas que muitas vezes é típica dos rapazes. A cena que naquele momento se desenrolava com Ragnar não era a da amada ao lado de seu homem, mas a do rapaz ao lado de um grande amigo. Sua postura era ousada e ao mesmo tempo de entrega, como a do jovem camarada, a do companheiro de farra; o quarto do hotel- se convertera num quarto de estudantes, e também se modificara o caráter da nudez de Ragnar, o que não só se devia à modificação fisiológica que produz a água fria: agora parecia inofensiva, própria de um amigão, esportiva. Ragnar esfregou o corso com a toalha áspera. Perguntou a Johanna se tinha alguma coisa para ele vestir. Ela lhe deu seu roupão, de linho azul, e Ragnar o colocou por cima do corpo, sem usar as mangas. - Acho este hotel encantador - disse Ragnar -, eu me sinto muito bem aqui. - Eu também - disse Johanna, olhando-o. - Gostaria de saber se será possível consertar meu carro. - Aonde você quer ir agora? - perguntou Johanna. 177 /6 L _.&afinar, que com o roupão azul continuava descalço diante do espelho e penteava os cabelos, respondeu: - Não sei. Dá na mesma. Logo vamos encontrar por aqui uma metst, qualquer. Você não acha? Johanna, que de repente ficou muito pálida - sua jovem e áspera boca; numa cara confusa -, disse, e respirou com dificuldade: - Ragnar, não pode ser... eu não agüento mais... Olha, não estou numa viagem de turismo. Não peço que você se ponha no meu lugar, não, não peço isso a você. Mas a longo prazo não posso ficar pensando como se tudo na vida fosse nadar ou fazer passeios de carro pelos bosques. Simplesmente não posso, Ragnar! - havia uma súplica em sua voz. Johanna pegou a mãos` de Ragnar. - Tenho que deixar você, Ragnar - disse. - Tenho que deixat você. Ragnar pegou a mão de Johanna com suas mãos. - Não diga isso! - rogou, e ela nunca ouvira tanta doçura em sua voz. -Por favor, não diga isso! Ainda há tempo, ainda temos um pouco de tempo, minha querida Johanna. Havia uma ternura tão desamparada, uma angústia tão terna em sua pos-~,`: cura assustada e em suas palavras, urgentes e veladas, que Johanna, transbordando de emoção, teve que virar o rosto. Sentia que as lágrimas lutavam pará sair de seus olhos. Seus lábios tremiam. Tenho que me afastar de você, Rag nar. Ele estava diante dela, em seu roupão de linho, muito curto e estreito, um homem desamparado. Tenho que ficar com ele, tenho que ficar com ele para sempre, servir ao seu humor instável, consolar sua melancolia, amá-lo a cada dia, e no dia seguinte outra vez, e mais ainda a cada novo dia. Ai, o que será que me manda embora daqui. A pressão de suas mãos e sua voz velada me pedem que eu demore mais um pouco, este enganador, ainda não é hora de destruir o encantamento. Que cara faria meu irmão Georg se visse como me comovo com o desamparo de Ragnar, por seu pedido irracional? Afetos privados, ouço Georg dizer. Afastam um jovem das tarefas que ele sabe serem suas. São a tentação. São uma ilusão covarde, um engano, insustentáveis. Pois este jovem latifundiário desocupado e você, Johanna, não têm nada em comum. Como você desperdiça seu tempo, isso precisa acabar. Ocupe-se de assuntos mais proveitosos, assuntos autênticos, não podemos prescindir de você por insignificante que você seja. Tenho que deixar você, Ragnar. 178 - Você não se sente bem comigo? - perguntou Ragnar, inclinando o torso um pouco para a frente com um gesto atrapalhado, enquanto levava a mão de Johanna a seus lábios. -Ai, amor... - respondeu ela. - Eu sei o que angustia você- continuou Ragnar, sem soltar sua mão. - São sempre essas questões gerais, políticas, eu sei, Johanna. Mas essas coisas são totalmente abstratas, irreais, tão remotas... contudo, nós estamos aqui- disse, numa voz um pouco baixa. - Não é nada irreal - disse Johanna. - Cada segundo é realidade. E cada segundo que não pensamos nisso é quase como uma traição. Agora prenderam um amigo meu na Alemanha... - (Que eu amo você, Ragnar, essa é a verdade, essa é toda a verdade, isso é mais verdadeiro do que qualquer outra coisa.) - Mas nós estamos aqui - respondeu Ragnar teimosamente. - E só estamos aqui uma vez, e não voltaremos. E quem vai nos ressarcir se perdemos tudo agora, se perdemos tudo aqui e agora? Essa é a realidade, Johanna, nossa realidade, você tem que sentir a coisa assim - disse, com um movimento amplo. - E quem nos ressarce se perdemos tudo agora? - ele a puxou para perto de si com um gesto tão violento como se quisesse iniciar uma luta e não um abraço. E sufocou com um beijo qualquer coisa que ela quisesse ter respondido. Quando Ragnar e Johanna saíram ao terraço, Yvonne já estava sentada na mesa do café, alimentando Herakles com uma erva verde. Tinha um enorme ramo de rosas e estava de bom humor. Contou aos dois o quanto havia se divertido na noite passada. Tinham dançado, os oficiais haviam sido encantadores, sobretudo aquele major, o de maior patente no grupo, com quem Yvonne havia flertado no começo. Fora ele também que havia lhe dado o bouquetde rosas que Yvonne cheirava enquanto contava tudo aquilo. - Ele tem um castelo aqui perto - disse -, um cavalheiro muito fino, além de solteiro - riu com força, ao redor de sua boca alaranjada apareceram rugas, dentro via-se brilhar o ouro. - A pequena Johanna volta a ter exatamente o mesmo aspecto que meu boyfriend de Londres. Você é uma criatura encantadora, pequena Johanna. Saúde! - levantou a xícara de café, estava de bom humor. - É gostoso chegar a uma cidade pequena, desconhecida e conhecer logo pessoas tão divertidas. Aonde vamos agora? 179 Acontece que seu admirador, o galante militar e dono de um castelo, lhes havia recomendado uma meta para a viagem; tratava-se de um pequenq hotel, perto de um lago, a umas três horas de carro dali. O que impedia o pa, queno grupo de ir a esse lugar? Se ali não estavam bem, nada os obrigava a ficar. Eles faziam uma viagem de prazer, livres, e podiam ir aonde quisessem, As cataratas estavam no plano, mas alguma coisa havia atravessado seu ca? minho, um homem de barba vermelha caíra sob as rodas do carro, provavelmente eles teriam se chateado lá nas cataratas. Ragnar pegou o mapa; deci~. diu com madame Yvonne sobre a rota a seguir. Mas também não tinham obrigação de seguir nenhuma rota específica. Podiam ir de uma a outra, hak via muitas estradas. Johanna não participou daquela deliberação. Para ela era indiferente o caminho que tomariam, ela não conhecia a região, era estranha naquele país, podiam enganá-la, iludi-Ia e levá-la ao lugar mais feio do mundo, para ela não fazia nenhuma diferença, não tinha razão de queixas nem direito de se queixar. Não tinha nada em suas costas, nenhuma pátria, e estava em mãos do favor ou do desfavor, exposta aos humores, brinca deiras e crueldades dos estrangeiros. Estava no ar, podiam bater nela como quisessem: ela iria na direção indicada. Em algum lugar, ela sabia disso, havia amigos que se defendiam e trabalhavam e não queriam se resignar. Ela tinha sido parte daquele grupo, gente sua, era o que a consciência lhe dizia. Mas talvez isso não passasse de imaginação, e ali ela estava totalmente fora de lugar, estaria sobrando, pois quem sabe já não tivesse sentido se defender. Ragnar telefonou para a oficina mecânica onde o carro estava sendo consertado. Ficou deprimido com o que lhe disseram. O carro estava totalmente quebrado, o conserto duraria várias semanas, e o próprio dono da oficina não aconselhava o conserto: custaria mais ou menos o preço de um carro novo, e não valia a pena jogar tanto dinheiro num calhambeque. Apesar disso, Ragnar insistiu no conserto, sobretudo para esconder de Karin e da mãe a verdadeira situação. - Não quero que digam que destruí meu carro - disse ele, infantil. Seja como for, naquele momento não dispunham de um carro. Ragnar disse que ali, no lugar, queria alugar outro carro. Conversaram, primeiro com o porteiro do hotel, depois com o dono da garagem. Havia um Ford em bom estado. Ragnar quis alugá-lo por um mês. Exigiram uma fiança, mas ele não tinha tanto dinheiro assim. Fez cara de orgulhoso e disse que seu nome era garantia suficiente. O nome da família de Ragnar e de sua fazenda gozavam 180 de boa reputação no país. Não cobraram fiança. Ele pagou um aluguel adiantado. Saíram ao meio-dia. A estrada corria outra vez pelo bosque, que não acabava nunca. Quando abria suas profundidades era só para permitir a vista de águas escuras, um lago pouco profundo, um pântano, ou era só a ponta de um lago maior cuja inteira extensão permanecia oculta? Não havia casas, não encontraram uma única pessoa. - Estamos agora muito longe de tudo? -perguntou Johanna sonhadora. - Muito longe - respondeu Ragnar. - No seu país só existem lagos e bosques - disse Johanna. - Também eu gostaria de ser de um país que só tem lagos e bosques. Contudo, ela não pertencia àquele país. Era uma estranha, uma fugitiva, exposta à beleza e à solidão de um país estranho. Podia olhar ao seu redor, mas nada além disso. Para ela era indiferente o caminho que tomassem, não tinha motivo nem direito de perguntar. Madame Yvonne também caiu num estado de ânimo romântico. Cheia de melancolia, suspirou: - Por que havia abandonado este belo país? Aqui eu teria me conservado mais saudável, mais jovem e bela. Ai, quantas coisas eu teria evitado! Quis resumir todas essas coisas, e assim começou a relatar. - Se não tivesse tido essa maldita paixão pelo circo! - suspirou, e contou como então, fazia muito tempo, tinha se apaixonado por um domador de leões: com ele começara, ele havia sido o primeiro. - Eu era uma boba constatou. -Andar com um domador de leões! Mas foi fantástico! E quantas coisas vieram depois, ai, quantas coisas nasceram disso - contou sobre seu compromisso em Londres, que havia fracassado, do piloto que havia morrido durante os treinos. - Eu conto isso como advertência! - gritou a Ragnar - para que você dirija com cuidado, pelo menos enquanto eu estiver aqui. Podia ser pior ainda que ontem, e ontem foi terrível, I had the choc in my head! Finalmente falou de seu pequeno, seu kid, seu filhinho, que lhe fora roubado, arrebatado, raptado. Que intriga diabólica! Seu próprio pai tinha confabulado com os inimigos. Não tiveram nenhuma piedade para com ela; seu mais sagrado sentimento, o amor materno, havia sido pisoteado. - Mas não vou deixar isso assim! - dizia, e olhava com fúria. - Vou resgatá-lo, vão saber quem eu sou. Johanna estava agora firmemente convencida de que toda a história db filho roubado era uma invenção, uma loucura. Madame Yvonne jamais ti,• vera um filho, ou ele morrera de escarlatina, ou vivia internado em Paru descuidado por Yvonne. Quem podia levar aquilo a sério, quando Yvonnbi inclinada agora sobre Herakles, sussurrava: - Espera e verás, Herakles, dear, a gente vai levá-lo! Você se divertirá cone ele, e ele com você. Esta é a verdadeira razão porque cuido de Herakles como ç menina dos meus olhos - acrescentou, virando para Johanna com um ar de mistério. - Este animalzinho pertence ao meu menino, meu filho, meu pe. queno, comprei Herakles para ele, para ele eduquei e converti Herakles no mais extraordinário animal que existe. Ele tem que ser o companheiro de meu Rtr land, seu coleguinha de brincadeiras. Johanna quase lembrou Yvonne que fazia pouco tempo ela chamara criança raptada de Dagobert. Mas não via nenhum motivo para constranger a pobre mulher. Madame Yvonne serviu conhaque, tirado da bolsa. O bos que deixava ver umas águas redondas e escuras, como se fosse um cenário, Aves negras planavam num vôo lento, descrevendo com solenidade círculos ao redor do encantado cenário sombrio. "Jamais tive um filho", pensava Jo= hanna. "Mas por que não posso mentir um pouco se isso a diverte? Além disso, estamos numa região bastante estranha, e aqui não parece que as coi= sas sejam inequivocamente reais. Por que não pode ela então acrescentar alguma coisa fantástica...?" Não havia nenhum povoado nem aldeia perto do pequeno hotel recomendado pelo militar. Estava totalmente isolado, rodeado de algumas dependências e prédios anexos. As margens do lago eram densamente povoa das pelo bosque; só no lugar utilizado para a construção do hotel, o bosque se afastava da margem. O hoteleiro era um homem alto, cara cansada, muito louro, severos olhos azuis e jeitão taciturno. Recebeu os três hóspedes sem nenhuma amabilidade especial, e ao cumprimentá-los não tirou o cachimbo da boca. Johanna achou que ele mais parecia um capitão de barco do que hoteleiro. Dava a impressão que não fazia diferença, para ele, se os hóspedes ficassem ou não em seu remoto hotel. Mesmo em plena estação alta, que já ia longe, o hotelzinho dava a impressão de estar deserto. - Parece que somos os únicos hóspedes do lugar - disse Ragnar. Depois descobriram que, além deles, viviam ali duas velhas inglesas. Yvonne, Johanna e Ragnar, reunidos no quarto de Yvonne junto à janela, viram as velhinhas chegando ao hotel. As duas usavam binóculos, sombrinhas 182 claras e saias, blusas e luvas de fios negros. Uma tinha uma cara triste e grande, queixo pontiagudo, a outra era alegre e com cara achatada. Yvonne abriu uma nova garrafa de conhaquf que sabiamente havia trazido. Ragnar chamou a recepção para que mandasse copos, mas ninguém apareceu. - É uma porcaria - resmungou, e apertou com mais força a campainha, sem causar nenhum efeito no hotel deserto. Beberam o conhaque da garrafa mesmo. Os quartos eram grandes e pouco acolhedores, com pesados edredons nas camas, janelas sombrias e móveis que cheiravam a mofo. No terraço que fazia as vezes de sala de refeições estavam postas duas mesas, a de Ragnar e a das damas, e justamente ao lado das turistas inglesas, que estavam jantando quando entraram os três, e que, com digna surpresa, mexeram a cabeça de espanto ao ver a cara pintada de madame Yvonne e a calça de marinheiro de Johanna. Ragnar, Johanna e Yvonne sentaram. A relação entre as mesas foi claramente inamistosa desde o princípio. - Voilà des damas tout-à-fait charmantes- constatou Yvonne. Chamou a camareira com voz estridente pedindo um uísque, um grande (estremecimento de indignação na mesa vizinha). Não havia uísque. A toalha es tava suja, e a comida era asquerosa. Através da porta aberta do terraço entravam nuvens de mosquitos. Um cachorro velho, sarnento e gordo rondava por ali, olhando malignamente com olhos enganosos. A velha que servia a mesa tinha bócio, e ao chegar perto deles perceberam que fedia. No fundo sentava em uma mesa perto da parede, isolado, o mal-humorado capitão, limpando as unhas com um palito de dentes. Parecia incomodado com a presença de hóspedes. - Que hotel bonito! - resmungou Ragnar. - Seu oficial recomendou um alojamento magnífico, minha boa Yvonne. - Ele, contudo, era um cavalheiro - disse a teimosa Yvonne. - Maneiras irrepreensíveis! Para não cair na melancolia, os três começaram a incomodar e irritar sistematicamente as duas damas dos binóculos. Ragnar e Yvonne se entregaram com deleite e devoção a esse jogo. Yvonne jogou Herakles para o alto, e o bicho esperneava, e ela exclamou contente: - Um passarinho encantador, querido! Cortaram as asas dele, e aí cresceu uma cascona dura, apesar de tudo pode voar, sobretudo à noite, depois de ter comido seu prato favorito; então ele se levanta feliz e trinando. Vem de uma velha raça escocesa de aves, que durante certo tempo ficou aos cui 183 dados da rainha Victoria. Um exemplar muito raro, sua comida favorita # uma sopinha de cocaína, que às vezes misturo com ópio. Um comilão! -.,. riu madame Yvonne (falava em inglês para que as surpreendidas senhoras dr,~ mesa vizinha a entendessem). Ragnar observou com total seriedade e voz profunda: - Estou contente com meu casamento com a duquesa de York. Para mim, o filho ilegítimo do rabino de Amsterdã, não é nenhuma ninharia me casar com uma dama como ela. Então, as duas indignadas viajantes do Norte abandonaram seu leite quente e foram em direção à porta com a cabeça muito alta. Os três caíram na risada. O primeiro a ficar sério de novo foi Ragnar. - Na verdade, não deveria estar sentado aqui fazendo bobagens - disse, apoiando a cabeça na mão, como se de repente estivesse esgotado. - Estou com água até o pescoço. Não sei como vou sair dessa agora. O que prefe ria era vender toda a fazenda, mas aí mamãe morre de desgosto... Você acha mesmo que Nancy quer casar comigo? - dirigiu-se a Yvonne, com uma franqueza e uma falta de inibição surpreendentes. Yvonne bateu as pálpebras divertida. - Não só quer - explicou - como está firmemente decidida a fazer isso. Você é o grande spleen da nossa Nancy. Acha que nenhum outro homem serve para ela. Pode parecer divertido, ela acha que você será a felicidade de sua vida. - Bom - disse Ragnar meio solto, a cabeça ainda apoiada na mão. - É oito anos mais velha do que eu. Johanna teve um sobressalto, como sempre acontecia quando se mencionava o nome dessa tal de Nancy. Desta vez não tanto pelo conteúdo das coisas ditas como pela falta de pudor com que Ragnar tratava o assunto diante dela. Por que ocultar dela o que' ela já sabia? (Você não é tão boba a ponto de se queixar, Johanna!) Madame Yvonne afastou o prato de sobremesa com uma careta. - Este pudim é uma vergonha - disse. - De nenhuma maneira podemos ficar aqui. Aonde vamos então? Outra vez voltaram a considerar objetivos para sua viagem, eram completamente livres, faziam uma viagem de prazer, três jovens, era indiferente o lugar a que fossem. Na parede havia um mapa. Ragnar e Yvonne se aproximaram para se orientar um pouco. Johanna ficou sentada na mesa. Seus dedos jogavam 184 com um cinzeiro feio, redondo, que servia também de acendedor. Pegou um fósforo e o mordeu com os dentes incisivos; às vezes fazia isso, quando estava pensativa. De repente, madame Yvonne, que estava diante do mapa, deu um grito. - Eu imaginava! - exclamou, levando as mãos à cabeça. - O que foi? - perguntou Johanna, levantando da mesa. Ficou de pé junto da mesa, Ragnar permaneceu ao lado do mapa, madame Yvonne deu dois passos vacilantes pela sala, parando na metade do caminho entre a mesa e o mapa, gritando outra vez. - Eu imaginava! - exclamou de novo, com as mãos nos cabelos, cotovelos levantados como asas pontiagudas. Era a primeira vez que, desde que Johanna a conhecia, descuidava de sua pose, estava com as pernas um pouco abertas, quase vulgar. - Mon Dieu, mon Dieu, mon Dieu, cést atroce!Está aqui, muito perto! - Sim, mas o quê? - perguntaram Ragnar e Johanna quase ao mesmo tempo. - Je sufis tout à fait bouleversée!- choramingou madame Yvonne. - Tout à fait bouleversée. Estou transtornada. Está a meia hora daqui. Aqui esconderam meu Ruland - disse, em voz mais baixa, e deixou enfim cair os braços. Tremia, era autêntia sua excitação. - Tenho que ir lá! - exclamou, lançando olhares selvagens com seus olhos de gata, de fosforecência verde. - Eu jurei para mim mesma! Tenho que ir! Imediatamente, agora mesmo! Voltou a dar uns passos vacilantes. - Mas não agora de noite - objetou Ragnar. - Sim, agora! - gritou madame Yvonne. -Agora mesmo! Imediatamente! Se trata do meu filho, de Ruland, finalmente vou tê-lo comigo! Johanna estava profundamente confusa. Que acontecia ali, como ia acabar tudo aquilo? Existiria de verdade esse menino raptado, não seria tudo invenção de Yvonne? O que era mentira ali, o que era realidade? Madame Yvonne, com os cabelos desarrumados, os olhos brilhantes, parecia totalmente louca. Ao final era tudo imaginação, só a dor era autêntica, mas não tinha relação com nenhuma causa real. Que loucura! Por que tinha Johanna que presenciar tudo aquilo? Yvonne aproximou-se de Ragnar, tinha mudado sua postura e sua tática. - Claro que vamos! - exclamou, com uma confiança artificialmente jovial, rindo e mexendo a cabeça. - Será muito divertido, você não conhe 185 ce o velho senhor, o velho senhor faz a gente morrer de tanto rir. Um en tador passeio noturno, afinal não é disso que se trata? Um caminho cô do, e na casa do velho senhor tem uísque. Faz quinze anos que eu não o Será divertidíssimo! - acariciou o queixo de Ragnar, saltou alternad sobre um e outro pé, e fez um gesto para Johanna. - Não é verdade, pe9 , * na Johanna, não lhe parece que vai ser fantástico? - Mas isto é um absurdo! Um completo absurdo! - resmungou nar. - O que você quer fazer na casa de seu pai, caso eu leve você até lá? s ! vai nos mandar embora, você e todos nós... Vai ser muito constrangedor. JÁ-Ai, ai!-exclamou Yvonne, rindo convulsivamente.-Nos man+ embora! Não, as coisas não chegarão a esse ponto. Eu me apresentarei di dele, e lhe direi: pai, me dá meu filho, me dá meu Ruland, meu darlingi sou a mãe, e você não pode me afastar dele. Olha, traz ele aqui - ria co uma louca. Suplicando, rindo, conversando e pulando conseguiu que fossem bora. Ragnar perguntou ao mal-humorado capitão sobre o caminho. A do velho senhor era bem conhecida na região. Há dez anos vivia ali. Não dia errar o lugar: ao fim de uns vinte quilômetros saía a rota principal de u desvio até a esquerda. Foi uma viagem muito estranha. Tinha todos os componentes de um' nho, de forma que Johanna não lembrava do episódio como uma coisa r mas sim como uma precipitada sucessão de imagens ao mesmo tempo co sa e de uma lógica desapiedada. Depois se perguntava, com freqüência, toda seriedade, se realmente havia vivido aquilo ou só tinha sonhado tu tão rápida e estranhamente as coisas tinham acontecido. Algumas dessas sas sucedidas ultimamente não tinham sido muito verossímeis. Mas no mento em que subiram no carro para iniciar a absurda, temerária e grou viagem na qual insistia a pobre Yvonne, começou o negócio da verdade provável, o que depois não podia passar por real, o que não se sustenta diante da observação cuidadosa, se desvanecia, se fazia fantasmagórico Deslizaram através da noite clara, a luz vidrosa de brilho esverdeado.' rosto de Yvonne era pálido como o de uma boneca, convulsivamente d torcido. Yvonne cantalorava, se balançava, conversando sem parar com Herakles. - Agora vamos raptar seu jovem amo, como raptaram a mim - zia. - Será divertido, little Herakles, será divertido. Agora vamos rap lo. Vai ter que ficar com a gente, você poderá brincar com ele o dia int 186 ro. Tem os cabelos dourados, vai gostar da gente, little Herakles. Será divertido, ai, ai, ai... Ela se balançava e cantarolava. Ragnar franziu ó cenho. Duas aves brancas, acompanhantes fabulosas, voavam sobre o carro e o seguiram quando pegou o caminho estreito e lateral. Estavam chegando. Era muito possível que tudo fosse um sonho. Madame Yvonne ficou de pé no carro quando viram a casa de campo na qual o pai vigiava seu filho. - Vai cair do carro - disse Johanna, e pegou Yvonne pela mão. A mão estava gelada. Johanna sentiu enorme curiosidade pelo que ia acontecer, mas essa curiosidade era própria dos sonhos; refere-se a acontecimentos que não comprometem, portanto indiferentes. Pararam, desceram do carro, se aproximaram de um portal. Era cinzento, gasto pelo tempo, com um escudo em forma de coroa. A campainha elétrica fazia um contraste estranho (as casas encantadas não deveriam ter ele tricidade). Madame Yvonne apertou o botão com um dedo branco e trêmulo com as unhas pintadas de vermelho-sangue. Um som agudo correu dentro da casa. Abriu a porta uma velha empregada - uma bruxa de histórias de fadas, com olhos remelados, nariz de abutre e unhas como garras; Yvonne quer passar em silêncio ao lado da velha, mas esta lhe fecha o caminho, Yvonne a afasta, e então a velha grita: - Ah, é a senhorita! - e ri de forma estridente. Ragnar e Johanna acompanham Yvonne, com medo e valentia oníricos. Entram numa sala semelhante a um vestíbulo, quase tudo está escuro, uma escada grande e coberta por um tapete os conduz para dentro da penumbra do primeiro andar. Ao fundo abre-se uma porta, uma figura obscura dá uns passos majestosos, ao mesmo tempo um velho empregado se apressa em subir, coxeando, as escadas. Leva uma lâmpada. Fica com a lâmpada ao lado da figura majestosa. É o pai. - Santo Deus, papai! Yvonne grita, se atreve a dar uns passos, mas protegendo o rosto com o braço, como se temesse que esse velho cavalheiro fosse golpeá-la. Veste uma sobrecasaca fora de moda com peitilho branco, barba branca; seu rosto, com o nariz ganchudo, lábios finos, é o de um dignitário espanhol da época da Inquisição. Detrás da porta aberta canta uma voz angelical, acompanhada por sons de guitarra. - Oh, é ele, meu pequeno! - grita Yvonne, e quer passar diante do pai. Este levanta o braço, imperioso. 187 - Anna, como você se atreve! - retumba uma voz terrível. - Quero chegar perto dele! - exclama, e dá rápido salto para passar largo do pai. Este, contudo, parece ter traçado uma linha Maginot que nunca vai conseguir atravessar. Detém seu salto, fica parada, o pai não cessita mover o braço estendido. Entâo aparece o menino na porta aberta. Tem na mão uma roupa brat~s ca de marinheiro, uma guitarra enfeitada com faixas multicoloridas, e tfi~ombro um gatinho branco. O filho de Anna é bonito como um anjo. y. cabelo tem reflexos dourados, e pestanas negras emolduram seus olhos, um azul profundo. A linha da boca, a severa e doce boca de um anjo é mam vilhosamente pura e est£ desenhada com precisão. - Filho meu... me deixa chegar perto dele! - grita Anna-Yvonne e s~~ ta sobre um pé e outro, no mesmo lugar, já que não pode pular por cima linha mágica. - Ele me pertence! - diz, e estende as mãos em direção filho. - Vai embora, fora! - trona o terrível velho. - Tenho que repetir pressamente minha maldição? - Ele me pertence! - soluça a infeliz. - Vou chamar a polícia! - Mas foi a polícia que tirou seu filho de você! - ri, irônico, o velho. polícia! É bom ouvir isso de você! Volta para seu quarto, Paul! - ordena o velh a ao garoto. - Continue treinando essa canção. O garoto se retira, caminhando lentamente para trás, retrocedendo até porta aberta. Seus olhos maravilhosos olham sérios e sem compaixão àqu mulher suplicante. - Filho meu, filho meu! - roga a infeliz. - Seja bom com sua mâ Não, bom não, só justo! Justiça é o que quer sua mãe! Diz que você quer comigo! Que você prefere estar comigo a partir de agora! O menino já está quase na porta. - Eu trouxe uma coisa para você! - a infeliz tenta seu último truque. Esta maravilhosa tartaruga... Aí vai ela! Pega! Para neutralizar o velho, joga Herakles diretamente ao menino. Mas o lho, pulando, com uma agilidade imprevisível, pega o animal em pleno vôo, terrompendo seu trajeto em direção ao jovenzinho, e devolve Herakles a s lugar de partida. A filha rejeitada não é menos hábil que o pai desapiedado_ pega Herakles, enquanto o rapaz já chegou à porta aberta. A luz por trás d parece um halo em sua cabeça infantil. 188 - Fora agora! Fora! - grita o pai. - Vocês também! - grita de forma irada a Ragnar e Johanna. - Fora, saiam de minha casa, gentinha! - espanta-os para fora como a três demônios malignos e inferiores, como a três demônios subordinados. - Fora, fora daqui! - repete, empurrando-os até a porta. O velho empregado o acompanha, encurvado teatralmente, fazendo oscilar a lâmpada. A empregada solta uma risada estridente. O jovem, rodeado de luz, belo e triste como um querubim, pulsa as cordas de seu enfeitado instrumento. Sobe uma nota queixosa. Quantas formas diferentes de soluçar, chorar e gemer tiveram Ragnar e Johanna que ouvir de Yvonne durante as horas seguintes. A princípio, no carro, elevava o grito ao céu e jurava vingança, talvez um assassinato, pelo menos um processo. No inóspito hotel ela se desmanchou inteira. Sim, tinha envelhecido sob o olhar condenatório de seu pai. A maquiagem discreta - flufa com uma cor vermelho-alaranjada das comissuras de sua boca, negro desde as pestanas -, ai, todos seus recursos estavam esgotados. Aonde iria? De volta ao `grande mundo', no qual agora as coisas também não andavam bem? - Aonde irei? - perguntava, e suas lágrimas caíam sobre Herakles. - Estou liquidada, liquidada, terminou tudo. Queria ser mãe, só mãe, começar uma nova vida. Não me deixam. Aonde irei? Tudo está terminado. Em Biar ritz foi uma temporada abominável, santo Deus, neste mundo já não tem lugar para mim. Johanna tem razão, vai acontecer uma coisa terrível, uma guerra, uma coisa assim, e não tenho nenhum filho que me proteja. Oh Deus meu, Deus meu... Igot the choc in my head... Talvez eu agora passe um tempo no castelo desse velho louco, o militar, ele me convidou... Seja como for, vou embora amanhã... Ai, meu pai, que desumano! Queria ser mãe! Estou liquidada. In the head - Igot it in my head, you know.~ - PoorAnna- disse ltagnar. -Just take it easy.~ 189 A partida de madame Yvonne na manhã seguinte foi feita sem muito brilho nem pompa. Johanna ainda dormia quando bateram na porta de seu quarto por volta das oito e meia. No primeiro momento não reconheceu a dama séria que, digna e triste, estava no umbral da porta vestida com uma roupa simples de cor cinza. Johanna nunca havia visto Yvonne com esse vestido, devia ser para ocasiões tristes e solenes. De seu semblante desaparecera a festa de cores, agora não tinha nada multicolorido no rosto. Quando inclinou-se sobre Johanna, esta não sentiu o aroma de costume, penetrante, aquele perfume doce, só um toquezinho suave de lavanda. - Adieu, pequena Johanna - disse a dama séria. - Sim, agora vou embora mesmo. Você não precisa levantar, durma tranqüilamente um pouco mais, o carro do hotel me levará até a estação. Johanna, com seu rosto avermelhado pelo sono e o cabelo desarrumado, o pijama azul-claro enrugado, parecia outra vez um rapaz de catorze anos. - Você vai embora de verdade? - perguntou com lábios que ainda não queriam obedecê-la. - Sim, é melhor assim - disse uma Yvonne dulcificada; tinha os olhos chorosos. - Tenho que ver o que vai ser de mim - continuou, e tirou os cabelos da testa de Johanna com os dedos, cujas unhas pintadas de cor ver melho-sangue ofereciam agora um chamativo contraste com a palidez de seu rosto. O contato desses dedos era agradavelmente frio; Johanna levantou um pouco. - Aonde você vai? - perguntou. - Talvez a Paris - respondeu Yvonne. - Não sei... talvez a Estocol, mo, talvez vá realmente a esse castelo do meu último admirador... - so cansada. - Não me esqueça, pequena Johanna - disse, e o sorriso de seyk. rosto se converteu numa grande melancolia. - Você pensa que sou uns(, bruxa ridícula, e desde ontem à noite pensa isso, naturalmente, mais ain Me perdoa por ontem à noite. Foi um terrível erro meu fazer aquilo. M^I" por favor, Johanna, não pense só nisso quando pensar em mim. Pense t~` bém que fui uma bruxa encantadora e ridícula. Ai, pobres de nós... - disse, inclinando-se de repente mais ainda sobre Johanna, com lágrimas em seara, grandes e tristes olhos verdes de gata. Depois, madame Yvonne desapareceyp& do quarto, embaixo ouviu-se um carro arrancar; fora embora, talvez parar Paris, talvez para a fazenda do velho oficial: já não estava, tinha ido embora., Johanna lamentou não ter lhe dito algumas coisas amáveis e amistosas; tinha muito sono. Nem sequer foi mencionada a possibilidade de um reen~ contro. Haviam se separado para sempre com um fugaz aperto de mãos. DW repente, isso parecia a Johanna terrivelmente triste. Poderiam ter combina,¡ do em voltar a se encontrar algum dia em Paris. Tinha muito sono. Johanna levantou, colocou o roupão e foi com Ragnar; os quartos eracgk;;: contíguos, Johanna abriu a porta de comunicação. Ragnar, vestido com.seth roupão multicolorido, estava na janela. - Yvonne foi embora - disse Johanna. Sentiu, com estremecimento repentino, que agora estava sozinha com Ragnar, sozinha com ele, num h", tel deserto, num lugar cujo nome não pôde reparar. Agora as coisas eram rias. Agora só tinha ele. Estou sozinha com ele. Não tem ninguém entre nós, e ninguém nos protege um do outro. O forte sentimento que tinha naqueles momento era uma mistura exata de medo e volúpia. Com Yvonne havia d saparecido o que os unia a ela e a Ragnar com o resto do mundo, com aquele lugar e aquele grupo de pessoas que haviam sido testemunhas de seu encon tro, a fazenda. Para Johanna, que havia soltado as amarras, aquela mulhe separada da pátria, a apátrida, para ela a fazenda se convertera - por poucos dias que tivesse passado ali - numa espécie de pátria: Karin, a ensombrecida figura luminosa, séria e doce, carinhosa e capaz de agir, a tímida, a miste•7 riosa; lago negro que doura os membros; terraço, copa, incômoda casinha de hóspedes; Knut e Wolf, a estúpida senhorita Suse, logo ofendida, depois: alegre outra vez, amante da pátria e maltratada por seu namorado, um engem+ nheiro desempregado; a mãe, figura cálida e terrível, que, esfregando ao mãos, vexada e confusa, exerce sua tirania secreta sobre a casa, atenta ao 192 bem-estar de sua família apesar de sua distração, consciente de suas metas e dura no interesse de uma família que sem tanta dignidade e energia maternas correria o perigo de desagregação, separação; no primeiro andar, a escondida e velhíssima anciã, a sombra branca, o balbuciante espírito da casa,venerável e vergonhoso, a relíquia comprometedora. Havia sido um pedaço de vida, Johanna fizera parte dela, e já passado: que rapidamente havia acontecido tudo; à despatriada só lhe havia sido outorgada uma pátria fictícia durante um breve período. O que restava agora era só o enorme e inseguro sentimento pelo amado, um estranho. Eu amo você, Ragnar. Além disso não tenho nada. Fui jogada nesse amor como num país cujo idioma nunca aprendo e de cuja geografia nada sei. Fui golpeada com esse amor. Tive que perder tudo para que em mim se fizesse lugar para este amor. Perdi tudo, também minha irmã, minha fraternal amiga, também Karin. O que você vai fazer comigo agora? Ragnar virou a cabeça lentamente em direção a ela. Estava sério e amável, os olhos estreitos olhavam um pouco distraídos, a suave e obstinada boca tinha um sorriso pensativo. - Pobre Yvonne - disse Ragnar. - Eu nunca a havia visto assim, tão desesperada. Nem sequer gritou, ficou muito silenciosa. Pode ser que agora esteja acabada. - Que vamos fazer agora? - perguntou Johanna. Ragnar pegou com as mãos os pulsos de Johanna e a puxou para junto de si. - O que você quiser fazer, Johanna - disse com seriedade. - Podemos fazer tudo que nos der vontade, Johanna. Ela pensou: tenho que me afastar de você, teria que me afastar de você, Ragnar... Mas não disse isso, disse o seguinte: - Você quer ficar aqui, Ragnar? - Claro que não! - disse Ragnar, rindo. - Aqui não. Este é um lugar um tanto repelente (tormenta gutural em "repelente"). - Voltamos então à fazenda? - Não! - disse ele. Fez uma careta. - Não, não, por favor. Em casa mamãe nos chateia com esses terríveis assuntos de dinheiro, e Karin me faz caras de censura. Não, à fazenda de jeito nenhum! - O que vamos fazer então? - perguntou Johanna. - Vamos para muito longe - disse Ragnar com sua voz profunda e sedutora. - Longe, muito longe, Johanna, longíssimo. Onde não exista nada, só nós... 193 - Eu gostaria disso... - disse Johanna, com os olhos semifechad hipnotizada por sua voz, sentindo em seu coração medo e volúpia. - Vod gostaria disso... - Será ótimo - disse a voz sedutora. - Passaremos uns dias MÉ,, ravilhosos. - Será uma viagem muito longa? - perguntou Johanna. - Quero c}i, zer, aonde vamos, até onde? - ele poderia ter dito África, a selva; ela não teria -` objetado. Mas disse (suas mãos ainda seguravam os pulsos de Johanna): - Podemos ficar neste país, neste país tem muito lugar, vou mostrar par 4, você o país. Além disso, eu mesmo conheço pouco daqui. Todos os dias che t' mos um pouco mais perto do Norte; bem lá em cima, atrás de tudo, estaíp.nt polar; ali pegamos um barco. Será um grande passeio. Não tem nada, nada no mundo que eu gostasse mais agora. Você vai adorar fazer isso, Johanna! - Claro que vou adorar - disse Johanna. Duas horas depois começou a viagem cuja meta imprecisa era o maé polar. No carro agora sobrava muito espaço - Ragnar só com Johann . colocaram a bagagem no assento de trás, e os dois sentaram na frente. nar havia pago a conta do hotel e ele mesmo se encarregou das malas. Bus' cou orientação no mapa de estradas e consultou o taciturno capitão sobre á , caminho. Johanna esperou no carro enquanto ele fazia isso. Ela havia caída num estranho estado de passividade, quase uma falta de vontade. Ragnar mostrava uma capacidade de ação pouco compatível com seu jeito mimado e volúvel. Com uma solicitude paternal ele agora se dedicava ao bem-estar de Johanna. Trouxe para ela uma limonada e perguntou se queria umt travesseiro: - É para você não endurecer o corpo, a viagem vai ser longa. - Obrigada - disse Johanna. - Estou muito bem assim. Também ao volante mostrou um controle extraordinário. - Não podemos ter outro acidente - explicou. - Senão vou ter que pagar a fiança do carro e vou ficar definitivamente arruinado. Dirigia com cuidado, embora não devagar. Concentrado plenamente na tarefa de dirigir, não tinha muito tempo para conversar. Seu rosto tinha uma expressão de concentração. Tinha a ponta da língua no ângulo direito da boca e fechava os olhos até convertê-los em duas estreitas aberturas escuras. Na primeira localidade onde chegaram, comprou uns óculos especiais para dirigir, um artefato grande com amplas laterais de couro que cobria quase por completo, como uma viseira, a metade superior do rosto. Sob os 194 óculos, descoberta, respirando, viva, estava a boca com a língua que umedecia de vez em quando os lábios, e que depois voltava a ficar na comissura da boca. Nos trechos retos e longos, quando Ragnar acelerava, a língua se retraía, os lábios se fechavam e, franzidos, adotavam uma expressão de obstinação. Viajavam em direção ao norte. - A estrada é péssima - disse Ragnar. Durante longo espaço de tempo, uma hora talvez, não tinham conversado. - Você não está cansada desta batalha? Você devia ter pego o travesseiro. O carro rangeu e oscilou ao passar por um buraco. Ragnar e Johanna riram. O bosque não acabava, dava a terrível impressão de infinitude do deserto e do mar. Como o deserto e o mar, também parecia não deixar a vida humana florescer. Dirigiram ao longo de vinte quilômetros, trinta, cinqüenta, sem encontrar vivalma. O bosque tinha um barulho semelhante ao do mar. O adormecedor e patético tom de órgão do grande barulho - música arrítmica, protomúsica, ainda não estruturada pelo ritmo, a monotonia do marulho - acompanhava sua viagem. Num dado momento a estrada acabou bruscamente, ao fazer a curva estiveram a ponto de cair na água: de repente, no lugar da estrada, na frente deles, encontraram um lago; "um dos quarenta mil lagos", explicou Ragnar. Do outro lado havia um pontão. Tiveram que fazer sinais e gritar, e depois esperar. O pontão se aproximou lentamente; Ragnar subiu com cuidado o carro de aluguel na balsa. O pontão era dirigido por um cabo estendido ao longo da água. O silencioso barqueiro - barba branca, robusto - afundava seu grande remo na profundidade. Deslizaram lentamente. Na outra margem continuava a estrada. Por volta do meio-dia, chegaram a uma pequena cidade, Ragnar disse o nome, mas era tão estranho que Johanna não conseguiu decorar. A cidade estava deserta, também aqui parecia haver pouca gente, que se encontrava em grupos indolentes na frente de alguns desolados edifícios representativos: uma farmácia reluzentemente nova, um porte surpreendente, uma prefeitura pintada de um branco-estridente. Ragnar disse que nesse lugar podiam visitar um velho castelo. O castelo estava um pouco longe da cidade, sobre uma ilhazinha redonda no meio de um lago negro. Uma lancha levava até lá os visitantes. Viram o castelo, seus pátios, torres e adegas, masmorras bolorentas, salões abandonados. Um guia lhes contou, num inglês atrevido, sobre as glórias passadas e o poder do lugar. Johanna contemplou com curiosidade neutra as formas desses arcos e cúpulas, rechonchudos e ameaçadores, os muros de majestosa espessura, embora já arruinados. O es 195 tilo do sombrio edifício onde haviam morado e reinado os déspotas nórdb'," cos parecia ter um ar oriental. - Toda esta magnificência me lembra mais os contos chineses do os alemães - disse Johanna. Ragnar riu. - De alguma maneira chegou ao nosso Norte uma veia do Orien Não sabemos bem como foi isso, essas situações não são claras. Depois de visitar a câmara de tortura e o mirador e dar uma gorjeta guia, continuaram. O bosque voltou a acolhê-los. Outra vez eram acorníp, nhados pelo grande barulho. Tiveram que parar duas vezes diante d águas que apareciam na sua frente como obstáculos repentinos, e esperam* barqueiro que os levava a outra margem, onde voltava a recebê-los o áque infinito. No transcurso da tarde o céu se fechou. Ao cair da noite começou a chos:, ver. Levantaram a capota do carro. Era bastante complicado ajustá-la no ";' , gar certo. O vento ficou mais forte e jogava chuva em suas caras. Ragrw amaldiçoou tudo. A capota não ficava no lugar, parecia que ia sair voanU Johanna havia fechado sua capa sobre os ombros, mas na pressa não ha encontrado o gorro, a água pingava de seu cabelo empapado. -Entra no carro! -insistiu Ragnar. -Eu já termino este negócio. Mas não terminava. Lutava, desajeitado, com os parafusos rebeldes da capota. Finalmente, juntos, conseguiram fechar a capota. Continuaram . Agora estavam calados. A estrada saía do bosque, a chuva caía sobre os campos que agora atra vessavam. O vento brigava com a capota tão trabalhosamente colocada. Joí hanna sentia frio. Ao mesmo tempo, sentia uma espécie de bem-estar estre mecido: sozinha com Ragnar sob esse teto inseguro que podia voar a qual quer momento; sozinha com Ragnar em meio a tempestade, sob um céu ominosamente ensombrecido; tudo com ele, só com ele; muito longe, Johanna, longe, onde não existe nada, só nós dois. A pequena cidade onde f nalmente chegaram parecia uma ilha em meio a um mar de solidão: um oá sis no deserto; contra o qual rompia o ermo, que parecia adentrar seu baru, lho em suas amplas ruas vazias, planejadas para o crescimento; se ouvia essa rumor em suas feias praças e vielas. Perguntaram o caminho até o único h tel existente ali. - Você está com frio? - perguntou Ragnar. - Não, aqui está ótimo - respondeu Johanna, que já havia se enfiado na nar trouxe uma garrafa de uísque; sentou na cama perto de Johanna. cama. 196 - Você precisa beber! - disse. - Você está decepcionada com a viagem? É uma pena que o tempo esteja tão ruim. - Eu já disse, me sinto ótima aqui - repetiu Johanna. Ragnar colocou o copo de uísque diante de seus lábios, como se segura um copo com remédio nos lábios de um menino doente. Johanna fez uma careta enquanto bebia. - Incomoda o cigarro? - perguntou. Tinha um cigarro inglês na comissura dos lábios e olhava a fumaça. - Ao contrário - disse. - Eu também quero um. Pediram alguma coisa para comer. Ragnar comeu sentado na pequena mesa que balançava; fez o prato de Johanna e o levou para a cama. Estava encantadoramente atento com ela. - Fico muito contente de que você tenha vindo comigo - ele disse. - Não há nada no mundo que eu gostaria mais de ter feito do que este passeio com você. É fantástico que você tenha vindo. Na manhã seguinte o tempo estava bom e puderam abaixar a capota do carro, o que deu tanto trabalho quanto fechá-la. Saíram por volta das nove e meia. O céu brilhava, a atmosfera se renovara sob os efeitos da chuva. Foram em direção ao norte. Tinham diante deles a região dos bosques sem fim. Agora viajavam através de uma paisagem erma e estépica, que tinha poucas elevações e só árvores. Dirigiram durante duas, três horas sem ver uma alma. - Você está chateada? - perguntou Ragnar. - Não - disse Johanna. - Mas não sabia que na Europa havia uma região tão pouco habitada. - Bem, não é propriamente Europa - disse Ragnar. Johanna, pensativa, colocou um fósforo entre os dentes, para aos poucos desfazê-lo. Num campo ilimitadamente extenso, mas ermo, viram vacas isoladas, magras e melancólicas, separadas umas das outras por grandes trechos de terra. Atravessaram um povoado - se é que se podia chamar assim umas poucas casas sujas espalhadas ao redor de uma pobre igreja. Ragnar parou e perguntou a um menino que andava por ali qual a melhor estrada entre todas as que existiam na região. O jovem tinha um rosto carrancudo, fechado. Ficou em silêncio. Chegaram perto de outro menino e um homem mais velho. Ragnar fez a mesma pergunta, mas eles também ficaram em silêncio. - Lugar encantador, este - resmungou Ragnar. Johanna ficou impressionada com o silêncio do povoado. 197 Essa gente tinha um aspecto lamentável - disse quando retomaram o caminho. Já de tarde chegaram a uma cidade maior, uma cidade portuária, segundo explicou Ragnar. Aqui havia muitos hotéis. O melhor estava na praça principal, ampla e branca, cujo centro era enfeitado com uma fonte. Depois de almoçar, passearam pelas ruas. A tarde estava clara e suave, e toda a cidade parecia estar na rua. Fazia tempo que Johanna não via tanta gente junta. Foram ao cinema, assistiram a um velho filme americano, particularmente estúpido. Durante um tempo se divertiram bastante. O teatro estava lotado, todo mundo ria e conversava muito. Finalmente perguntou Ragnar se já não era hora de irem embora. Saíram, ainda não escurecera, o céu resplandecia com uma cor azul-esverdeada. Johanna estava muito cansada para continuar passeando. No quarto do hotel beberam e conversaram um pouco. Na praça branca em frente ao hotel cantavam uns marinheiros. - Dá para pensar que lá embaixo está Tólon - disse Ragnar. - O que importa onde estamos - disse Johanna. Naquele momento não lhe importava nem um pouco onde estavam. Poderiam tê-la levado a qualquer lado. Era uma cidade portuária, podia parecer Tólon, mas talvez fosse outro lugar bem diferente. Que importava isso, amanhã já não estariam aqui, nem sabia bem nem queria saber aonde iriam. O caminho acompanhou a costa durante alguns quilômetros, sob um céu com algumas nuvens, sob o qual estava o mar Báltico como tranqüila superfície de cor cinzaclaro, cujas margens ondulavam suavemente com o leve sopro da brisa. A impressão que dava a superfície da água calma era menos patética e menos grandiosa que a do bosque. - É o mar mesmo? - perguntou Johanna. - Estou um pouco decepcionada. - A paisagem deste meu país muito especial - disse Ragnar - acostumou você aos efeitos colossais de sua solidão. Em comparação a ele, o mar parece muito civilizado. A estrada dava uma grande virada em direção ao interior, se afastava do mar em ângulo reto. Estavam outra vez numa região plana e vazia. Os poucos povoados que atravessavam, conforme passavam as horas, pareciam ain da mais alheios ao estilo europeu que os lugares que os assombraram o dia anterior. Aqui só havia grupos de casas baixas de madeira; nas portas, agachadas, estavam mulheres com rostos de esquimós, que vestiam sujas jaquetas de pele apesar do clima suave; muitas delas fumavam grandes cachim bos. Crianças de narizinhos achatados e pômulos salientes, cobertos de sujeira, pularam quando o carro se aproximou para cumprimentar os visitantes com gestos largos: se colocaram à beira da estrada, gritaram com vozes roucas e agitaram os braços. Das cabanas baixinhas se elevava uma fumaça espessa. Em sua vida Johanna viajara pouco, nunca havia visto formas de vida extra-européias. Estes selvagens assentamentos humanos lhe traziam vagas lembranças de descrições de livros de viagens, imagens de revistas, fragmen tos de documentários cinematográficos. Poderia ter pedido a Ragnar que parasse para descer do carro e observar aquela vida estranha mais de perto. Mas Ragnar tinha pressa para seguir adiante, nem sequer reduziu a marcha que os levava em direção ao norte. Era como se estivesse sob o efeito de uma espora, como se tivesse que chegar num tempo determinado, numa meta determinada. Ao meio-dia pararam num albergue turístico fora do povoado, isolado junto à estrada. A comida do dia era assado de rena. Johanna comia isso pela primeira vez, e teria achado que se tratava de carne de veado, mas alguém lhe disse que era rena. Serviram também uma compota de bagas tenras, um pouco gelatinosas: amoras dos pântanos, segundo explicou Ragnar. Os mosquitos eram ali bem chatos. Chegavam em grandes enxames e faziam um leve zumbido, e eram tão pequenos que não podiam ser apanhados. Era só dar um tapa no enxame e este se desfazia como uma nuvem. Johanna já fora picada umas duas vezes nas mãos e na garganta, e o que incomodava mais era uma picada atrás da orelha esquerda. Adoraram o assado de rena, e das bagas gelatinosas não gostaram muito. Ragnar dirigiu toda tarde numa velocidade boa e regular. Parecia que durante essa viagem aprendera a dirigir direito. Já à noitinha chegaram a outro povoado ainda maior, um ponto avançado da civilização, com um certo estilo colonial; a farmácia, o correio e o hotel eram os três edifícios básicos. Ragnar e Johanna estavam muito cansados, pediram a comida no quarto. Depois do jantar, tiraram a roupa imediatamente; Johanna já estava na cama, Ragnar se apoiava na janela. - Lá em frente a coisa está animada! - ele disse. - Escute: música! Johanna prestou atenção. - Deve ser um baile - afirmou Ragnar. - Temos que ir lá. - Mas a gente já tirou a roupa - disse Johanna. 198 199 - Sim, mas eu gostaria de dançar com você - disse Ragnar. -Apostó que é um baile de arrasar. - Vestiram-se e saíram. A festa em que Ragnar apostava tanto era numa espécie de palheiro. A; desolada sala de tábuas não tinha janelas; luzinhas vermelhas penduradas nq '' teto e nas paredes produziam uma luz crepuscular. Perto da porta estavam os músicos sobre um palquinho. Não havia bebida alcoólica. O ambiente contudo era muito animado. Toda a juventude do local e dos arredores estava ali congregada. Pelo menos uns setenta casais dançavam. O conjuntinho musical, formado só por metais, tocava, incansável, a mesma música, como, se não houvesse outra que soubessem dançar os jovens presentes. Era um, clima estridente e monótono, ao mesmo tempo embotador e excitante em sua interminável repetição. Os passos dos dançarinos produziam um som oco no chão de tábuas. Falava-se pouco, mas todos dançavam com um entusiasmo surdo. As moças se agarravam de forma pouco inocente aos seus pares, que as abraçavam de forma tosca. Já na primeira noite que Johanna havia passado neste país, na capital, notara a forma de dançar, bem descontraída. Aqui era muito pior, as travas da civilização pareciam não ter grande importância. Sem sorrir, os rostos de grandes pômulos e estreitos olhos azul-celestes, de profunda seriedade, as pequenas moças mongol-nórdicas introduziam seus músculos entre os dos homens. - Eu sabia que era um baile fantástico - disse Ragnar. Rodeou com o braço o corpo de Johanna. Dançaram, Ragnar em seu estilo excêntrico, tecnicamente deficiente, com passos oblíquos, se balançando, cigarro na boca. Quanto ao resto, aqui não chamavam a atenção, ninguém os observava, nem sequer a calça de marinheiro de Johanna provocara qualquer comentário. A banda de metais repetia sem fim sua estridente e monótona melodia. Ragnar não queria parar de dançar. Com sua jaqueta de couro, cara avermelhada, o lábio superior e a testa cheios de suor, não tinha um aspecto muito diferente dos rapazes do povoado, seus compatriotas, , Segurava Johanna como faziam aqueles outros rapazes do povoado, apertava-a também como eles faziam com suas parceiras. Ragnar não parava de dançar. Por volta da meia-noite, a orquestrinha recolheu os instrumentos Em silêncio, entrelaçados, os casais deixaram lentamente o festivo palheiro. O bodegueiro apagou as luzes, velas de estearina quase consumidas e envoltas em globos vermelhos de papel. Johanna estava realmente esgotada. Ela se apoiava em Ragnar com os olhos fechados. Ragnar ainda mexia os quadris. 200 -Agora sim, temos que dormir- disse ele. Saíram do palheiro. Depois da suspeita semi-escuridão, a noite esverdeada parecia brilhante. Ragnar e Johanna voltaram ao hotel apoiados um no outro, com passos lentos e um pouco vacilantes. Aquele lugar era a estação ferroviária mais perto do Norte: ali era o fim da linha. Até poucos anos não havia mais comunicação com a região do mar polar do que péssimas estradas. Há pouco fora aberta a estrada que conduzia a esta costa, a mais nortista da Europa. Um ônibus levava e.trazia o correio diariamente, além de mercadorias e passageiros. Esta nova estrada era maior, melhor pavimentada e mais cuidada do que o resto das rotas comuns do país: uma estrada de renome, motivo de orgulho, e o próprio Ragnar - na verdade pouco inclinado a patriotadas - reconhecia a façanha, embora de forma irônica. Foi muito difícil acordar Johanna de manhã. Quando finalmente entrou no carro ainda tinha os olhos colados pelo sonho. Contudo, uma imagem muito bonita com a qual começou a viagem naquele dia a acordou por completo. Logo depois da pequena cidade - ponto final da ferrovia, cenário de festas um pouco bárbaras nos palheiros - a estrada cruzava um grande rio. Também esta ponte era uma nova conquista da eficiência nacional, da qual Ragnar poderia, tranqüilamente, sentir um certo orgulho. Era uma ponte extremamente bela, radiantemente bela naquela manhã. Pois o ferro com sua construção arrojada, pintado de vermelho-brilhante, produzia um contraste de cor de grande força, impressionante, com a água corrente que corria lentamente, a ponte se destacava com um efeito grandioso. A este azul e vermelho brilhantemente conjugados se acrescentava o branco resplandecente das gaivotas, que traçavam vôos orgulhosos sobre o rio, e finalmente um tom dourado: pois sobre a água avançavam, em parte isolados, em parte em grandes balsas, enormes quantidades de troncos, uma riqueza madereira incalculável. O sol brilhava sobre a água, no vermelho da ponte metálica, nas asas das gaivotas, na madeira que brilhava com um tom marrom-dourado. Era um espetáculo grandioso, de uma vivacidade majestosa, quase aterradora. Johanna contemplou tudo aquilo ao lado de Ragnar. - Bem, o que você acha de tudo isso que lhe oferecemos? - perguntou Ragnar, e riu, mostrando os dentes e estreitando extraordinariamente os olhos. - O que lhe oferece meu pequeno país? - falava como um jovem rei. A diversão do baile da noite anterior parecia ter feito muito bem a ele. 201 Ao fim de uma hora de caminho mais rápido e belo pela célebre estrac(a precisaram parar. Isso porque, mediante gestos e exclamações, soldados à beira da estrada, diante de um barracão, assim o exigiram. Era urna frontd, ra. Foi preciso preencher papéis e pagar algumas taxas. - Agora estamos na Lapônia - constatou Ragnar. - Digamos assim, o país dos esquimós. É divertido, Johanna. - Nunca havia imaginado que alguma vez iria ao país dos esquimós-l-. disse Johanna. - Verdade, nunca imaginei isso. É uma grande surp" para mim. - O fantástico é que você esteja aqui! - disse Ragnar, e pegou seu bç ~ ço. Antes de voltar ao carro deram alguns passos entrando no campo; era fícil de andar, tinham que abrir caminho através do mato, uma espécie% bosque baixo e disforme de bétulas. Entre os troncos inclinados, torcida~sat, quebrados em ramos crescia mato alto e duro, típico de solo pantanoso. , - Oh, Ragnar, Ragnar, olha! - exclamou Johanna; diante deles pul alguma coisa com saltos ágeis, com as patas separadas, alguma coisa que tinha uma cornadura fabulosa. - Uma rena - constatou Ragnar satisfeito. - Você acaba de ver uma^, rena, Johanna. Precisamente aqui uma rena havia se aventurado pela primeira vez a cruzar seu caminho, logo na fronteira, onde se despediam formalmente ââ ., Europa e pagavam por isso algumas taxas. - Que saltos mais curiosos! - disse Johanna. - As pernas estavvl muito separadas, contudo o animal sabe ser gracioso. Mas eu nunca tinha visto uma cornadura tão bonita. Durante uma hora pularam sobre o carro outros animais elegantes, pá-,, tas rígidas, um pouco tímidos, às vezes ousados; ficavam um instante paràdos, olhavam Ragnar e Johanna de forma escrutadora e temerosa, mexi: em sinal de desaprovação a cabeça com os chifres mitológicos, davam pulós' afetados, mas confusamente longos. Pouco a pouco os dois se acostumarato com esses encontros. Também no campo, nos lados da estrada, viam passar esses animais, isolados ou em manadas. Tinham uma ampla perspectiva da paisagem, pois ali não havia colinas nem árvores, só uma planície semelhante a um prado, coberta de musgo e líquenes, que raiavam em tons brancoamarelado e rosa-escuro. À tarde chegaram no albergue turístico que Ragnar tinha como metade viagem daquele dia. Surpreendentemente bem cuidado, impecável e rela zente, com jardim no último andar, móveis de aço, água quente e uma pequena biblioteca. Há pouco mais de um ano havia aberto uma Sociedade para o Fomento do Extremo Norte, grande e poderosa. Uma senhora culta dirigia o remoto, mas bem cuidado negócio. Ao seu lado estavam dois jovens delicados, os dois louros, com rostos reflexivos e suaves, vestidos com jaquetas de listras azuis e brancas, que faziam também trabalhos menores, embora pertencessem - eram irmãos - às classes altas, como seus sorrisos finos mostravam às vezes. O jantar foi servido numa copa que unia as mais recentes conquistas da arquitetura de interiores européia com um toque, elegantemente insinuado, do estilo esquimó e Japão. A senhora culta, com uma blusa jaspeada de cor dourada com motivos de fantasia, acompanhava Johanna e Ragnar, que naquele momento eram seus únicos hóspedes. Ela lhes contava que tinha preparado pessoalmente o jantar- num tom de voz como se os informasse sobre alguma coisa sumamente peregrina e lograda; mas, de qualquer maneira, estava ali para isso e sem dúvida poderia ter cozinhado alguma coisa melhor: a comida não era nada especial. Eles pensaram isso enquanto usavam de todos os seus melhores recursos para levar adiante a conversa. Enquanto Johanna e Ragnar estavam ainda jantando, parou diante da casa um ônibus que vinha de sua estação final no Norte. Um montão de pessoas - turistas e nativos - entrou na sala conversando, rindo e fazendo barulho. Alguns senhores noruegueses com sobrancelhas brancas e traços avermelhados exclamaram com vozes estentóreas que tinham muita fome, e de fato tinham cara disso. A senhora culta e seus dois suaves ajudantes tiveram muito trabalho. Ragnar e Johanna observaram como serviam ao grupo o assado de rena e a compota. Ao fim de meia hora os turistas e os nativos voltaram ao ônibus e este seguiu seu caminho. Só os dois senhores noruegueses de sobrancelhas brancas - não se sabia se eram louro-claros ou se tinham cabelos grisalhos pela idade, seus rostos curtidos, mas inalteráveis não deixavam adivinhar-haviam ficado, e pedi ram uma garrafa de licor. Os delicados irmãos com suas jaquetas de garçons cochicharam um pouco com a senhora culta antes de servir a bebida. Depois, a senhora culta cochichou com Ragnar e Johanna. Os dois senhores, murmurou por trás da mão com que ocultava a boca, essa espécie de público masculino norueguês não era de seu gosto, em absoluto, ao contrário. Pois com que finalidade vêm estes senhores ao país? Precisamente por causa dessa garrafa que agora, meio contra sua vontade, vai servir a eles. 202 203 - O licor - contestou a senhora muito chateada - é para eles a única'. atração do nosso belo país. Em sua casa não conseguem essa bebida. É que lá." existe uma certa proibição. Aqui também não podem comprá-lo, mas beb& lo entre nós, até caírem de bêbados, na minha casa, isso sim podem fazer, e também vão passar algumas garrafas pela fronteira, se conseguirem. Agora, vocês me digam, estou aqui para fomentar extravagâncias estrangeiras? Estava de fato indignada. Ragnar e Johanna acharam, apesar da aversão moral da dona do alber. gue, que os beberrões noruegueses eram gente muito agradável. Agora esta" vam barulhentos e alegres, obrigando os jovens garçons a ligar o rádio. Urriv" deles se aproximou, passos vacilantes, e quis tirar Johanna para dançar. Foi" uma tarde muito divertida. Juntaram duas mesas. A senhora culta, a princfk,'' pio chateada e distante, mas finalmente lisonjeada pela ruidosa galantaria de - um dos noruegueses de cabelo branco, não conseguiu ficar longe. - Nosso país, a Noruega, é sem dúvida muito bonito, muito mais bonito do que seu país! - explicou um deles a Ragnar, com o dedo indicadorbem levantado. - Mas nosso belo, belíssimo país, nosso país ridiculamente belo tem uma desvantagem vergonhosa: a gente não pode conseguir bebida alcoólica, simplesmente não pode - disse, e mexeu preocupado a cabeça. Com um guardanapo de papel tinha feito um elmo que agora levava cor n:, ele. Em sua cara vermelha como um caranguejo, mas ainda cheia de digni= dade, estavam ameaçadoramente levantadas as sobrancelhas branco-amaréladas. Era uma da manhã. - Vamos ter que terminar esta bela festa - decidiu a senhora culta, razoável e contida, ainda quando ela também havia bebido um pouco mais da conta. Quando Johanna passou ao quarto de Ragnar na manhã seguinte, ele ti-' nha um lenço sobre a testa e mau aspecto. - Você está doente? - perguntou Johanna assustada. - Não, mas dormi muito mal - respondeu Ragnar, com voz gutural. Ai, tive uns sonhos terríveis... Acho que é uma enxaqueca. - Então está claro que não podemos continuar - disse Johanna, e a tom de sua voz traía, contra sua vontade, o medo que sentia diante daquela' perspectiva. - Está tão ruim isso? - perguntou Ragnar. - Está tudo tão bonito. Você não agüentaria passar mais um dia aqui? - Não, não é nada desagradável - acrescentou Johanna com certa pressa. - Só que tenho medo de que você fique doente. Dói a cabeça? 204 - Um pouco - disse Ragnar com os olhos fechados. - Assim, um pouco, sabe? Sinto dores na fronte. Johanna não entendia bem por que a situação a confundia e atemorizava tanto. Ela havia se aventurado com Ragnar numa região onde não havia nada mais, só ele e ela; agora dependia totalmente dele. Mas podia confiar em Ragnar, em seu inexplicável coração? Era volúvel e hipocondríaco, ali estava, com uma martelada na fronte. Ficariam um dia, pelo menos um dia inteiro, numa região que Johanna só tinha achado bonita ou sequer suportável sob a condição de que fizessem paradas breves como nas regiões que haviam atravessado nos últimos dias; sob a condição de que tudo passasse de forma pouco comprometedora, rápida e fugaz. Parar em qualquer lugar era perigoso, pois existia a possibilidade de que recobrassem a razão: mas a razão era precisamente aquilo que agora não podiam se dar ao luxo de ter. Com a razão surgiria a pergunta pelo sentido; mais ainda, teriam que pensar se aquela viagem tinha alguma desculpa. Johanna não era capaz nem se sentia inclinada a fazer isso. - Por favor, não fique doente - disse, enquanto enfiava o lenço de Ragnar na água fria. -Tem sido terrível, meu amor murmurou, com um calafrio devido tanto ao contato com o pano molhado que lhe colocava na testa como à lembrança dos rostos desagradáveis da noite anterior. -Antes sonhava, sabe, quando era ainda um menino. Não tive uma infância feliz, não, não fui um menino feliz. Talvez não fosse também um menino simpático - acrescentou pensativo. O lenço na testa, que parecia uma grossa venda, lhe dava uma aparência de doente e ao mesmo tempo de um guerreiro; a barba negra fazia masculina e severa a parte inferior do rosto: um guerreiro ferido, talvez se coagulasse o sangue escuro de uma terrível ferida sob as bandagens. Seu gesto pálido e tenso dava a impressão de que isso seria possível. -Assim, nos meus sonhos, voltei àquela época - relatou sombrio. - Voltei a perambular pelo telhado à noite. Isso é uma coisa que, quando garoto, fazia muito. Sim, fui sonâmbulo - admitiu com desgosto. Johanna ignorava tudo aquilo. Era outra coisa que a mãe dele também havia escondido dela, aquela mulher charlatona e digna em sua indiscrição. Aquela família revelava continuamente novos segredos. Em uma ocasião, uma avó balbuciante, em outra uma doença infantil bem inquietante. 205 - Você tem cara de assustada... - disse Ragnar. - É um costume repugnante, sem dúvida. Mas pensava que mamãe já comentara isso com você. Vejo que há coisas que nem ela mesmo quer tocar... - riu com amar gura. - Papai dizia sempre que algum dia eu ficaria louco - disse, e olhou para o teto. - Infelizmente, papai também apareceu esta noite - continuou. - Era uma cena igual àquelas mil outras que vivi com ele. Mamãe sentava muito encolhida perto de uma mesinha, ele dava passos largos na sala, e explodia numa tempestade de impropérios. Mamãe não o contradizia - nunca fez isso -, mas ele subia cada vez mais o tom de voz. Finalmente,, se lançava sobre ela, com um grande salto, sabe, terrível, e a agredia no rosto, com a vara, deixando um terrível vergalhão; o choro de mamãe me acordou, então. Um sonho encantador, não? Muito bem sonhado! - Alguma vez... aconteceu isso de verdade? - perguntou Johanna, muito pálida. - Não bem assim - respondeu sombrio. - Que ele a agredisse com a vara, não, nunca vi isso. Mas ela sofria todos os dias com ele, todos os dias tinha preparada uma nova crueldade para ela... terrível, ele a atormentou de uma forma terrível - calou-se, ficando imóvel, de costas, jovem guerreiro ferido, talvez o sangue se coagulasse sob a bandagem. - Por isso odiava meu pai - disse, carregando o assento em cada sílaba. - Karin e Jens sempre ficavam do lado dele, achavam que era um homem magnífico, exemplar, e mamãe boa o suficiente para ser sua escrava. Mas eu sempre o odiei, desde o princípio, de forma conseqüente. Desejei tão ardentemente que morresse - disse, respirando mais profundamente, com um tremendo ím= peto. - Quando era menino rezava para que isso acontecesse todas as noites, antes de dormir. E quando cresci, pensava que podia conseguir isso com minha força de vontade, talvez eu tenha conseguido - disse depois de uma pausa, e levantou um pouco a cabeça. - Claro que não seria nenhuma casualidade que eu estivesse presente quando isso acontecesse. Minhas preces' seriam ouvidas. É terrível receber o fim que se deseja. E quando aconteceu - disse, e soltou uma risada seca -, então o tratamento que dei a minha mãe não foi melhor do que ele dava a ela. Não, não tenho sido muito melhor para ela... Pela primeira vez desde que Johanna o conhecia não pôde suportar o negro olhar de seus olhos estreitos. Sentiu medo dele; temerosa, inclinou a testa diante dele. Quando se atreveu outra vez a levantar os olhos, Ragnar voltara a reclinar a cabeça. - Sinto um martelar horroroso na minha fronte! - disse, e ela voltou a reconhecê-lo. - Você quer ficar sozinho? - perguntou ela com cuidado. - Talvez seja melhor. Johanna inclinou-se sobre ele para alisar o pano úmido em sua testa, inclinou-se mais profundamente e roçou com os lábios seu rosto, bem em cima do começo da barba, onde a pele estava tensa sobre os pômulos salientes. - Minha pequena Johanna - disse. - O que você vai fazer agora? Johanna sentiu que nunca o amara tanto como agora. Com um sentimento inteiramente novo agora amava o menino cruel e atormentado, o sonâmbulo, o rapaz que rezava pela morte de seu pai... aquele que foi uma vez. Sentiu que o coração se encolhia, que o peito doía, tão intensamente se comovera. - Tenho que escrever para minha mãe - disse ela. - Faz tempo que eu devia ter feito isso. Desceu e junto à copa encontrou uma sala de estar com uma escrivaninha perto da janela. Da janela via-se um pequeno lago. "De todas as janelas deste país se vêem lagos", pensou, enquanto colocava o papel sobre a mesa. Queria começar a escrever. "Querida mamãe!" - mas a imagem dos pais de Ragnar se interpôs diante da de seus pais. Quando por fim conseguiu evocar a imagem do homem e da mulher de quem nascera, era de uma tristeza tão espantosa que, paralisada, deixou cair a caneta. Viu seu pai na copa meio escura, sentado sozinho numa incômoda cadeira perto da janela. Seu rosto está inchado, embotado, branquiço e pálido, com os olhos avermelhados. Com o dedc polegar esfrega o lado direito e a parte esquerda do queixo. Não fez a barba. Os fios vermelhos da barba pareciam mofo, uma lepra pálida sobre o queixo e as faces. Sobre sua testa, ombros e mãos pesa um tédio indizível. As lembranças que um dia foram um consolo agora estão gastas, desvaídas, já não pode trazê-las de volta, e agora só lhe dão repugnância. Nessa sala, nessa cidade, nesta terra é mais supérfluo que um rato. Seu tempo acabou, minuciosa, definitivamente, não há nada a esperar. Odeia a quem agora domina e está por cima; mas o que se anuncia por trás disso não lhe interessaria mais. Contudo, não terá coragem de se suicidar. Nem sequer pode tomar um porre porque não tem dinheiro para isso. No armazém suas pinturas de sólida técnica impressionista estão cobertas de pó, paisagens e retratos de damas; antigamente saía muita notícia nos jornais, hoje essas pinturas não interessam mais a ninguém. Primeiro foi 206 207 embora o último inquilino que tinham na casa, e realmente o próprio Felix, seu filho, vulgar, embora jovem de certo sucesso, lhe negou os dez marcam;; que costumava dar ao pai de vez em quando. Contudo, não tem coragem de se suicidar. O pai não ouviu a porta que se abria. Quando sua mulher se dirige a ele levanta lentamente a cabeça adormecida: - Você está cochilando? - pergunta, com a boca contraída. - Q, quarto está muito escuro. - Não -respondeu ele. - Só que... Os dóis ficam calados e se odeiam. Ambos estão na mesma situação dei sesperada. Se odeiam e se desprezam porque afundaram tão profundamen.' te, porque não podem ajudar um ao outro, porque nenhum está melhor do' que o outro. - Alguma notícia de Johanna? - pergunta ele. - Como? - responde a mãe agressiva. - Você já viu o correio. - Eu pensava que talvez ela tivesse escrito uma carta urgente - disse desvairadamente. - "Como se afina seu queixo!" - pensou, enojado e px~ saroso. Ela já não responde, altaneira lhe dá as costas. "Querida mamãe! Coitada, infeliz, desgraçada mamãe; seus filhos peN' deram sua pátria, é muito possível que você nunca volte a vê-los, é muitbi provável também que as cartas cheguem menos e menos, seria perigoso para° você receber muita correspondência desses traidores da pátria, inimigos dá estado, elementos perigosos, seus filhos; podiam lhe causar problemas sérios, vocês poderiam ser presos. Você deve se agarrar aos monótonos e desesperados pesares da sua vida, deve se agarrar a isso com um ricto na boca, coitada de você, mamãe. Os tempos são nojentos, miseráveis, uma merda, coi= tada de você, mamãe, e infelizmente não há nenhum indício de que vão,,, melhorar, ao contrário. Carinhosas lembranças, sua filha Johanna." Johanna não escreveu essa carta, não escreveu nada, unicamente ficou, com os olhos sobre o papel. Uma voz suave e um pouco forçada a despertou, ', de suas tristes reflexões. -A senhorita tem um jeito muito triste-disse um jovem, um daque-, les delicados rapazes de boa família. Johanna levantou os olhos: a bonita C. suave cara do rapaz com a jaqueta de empregado estava um pouco desfigura-í da por uma mordida de mosquito na pálpebra esquerda; a pálpebra inchara o que lhe dava um estranho aspecto de sofrimento. 208 - Os mosquitos são muito chatos aqui - disse, dolente e afetado; sua forma de acentuar suavemente os `tes' era pouco natural, tudo nele fazia pensar numa intensa vida anímica e numa sexualidade insatisfeita, provavelmente invertida. Johanna conversou um pouco com ele. Ele e seu irmão eram de Viena. - Viemos parar aqui por uma casualidade muito original... tinha que contá-lo - disse, enquanto, com grande confiança e com vontade de falar, se sentava ao lado de Johanna. E contou uma longa história. Na verdade teria gostado de ser dançarino, "mas a vida joga com agente", disse, e tentou levantar os olhos, o que, por causa da pálpebra inchada, deu péssima impressão. -Agora em Viena as coisas também não andam bem - disse Johanna. O delicado rapaz a princípio não entendeu em absoluto o que ela queria dizer, e logo esclareceu que nunca lia os jornais. - A política não me interessa - disse, esquivo, fazendo soar com dureza os `esses'. - Eu me sinto mais inclinado a outras coisas, música, poesia, tudo isso que eu amo. Meu irmão é igual a mim nesse sentido, nos damos maravilhosamente bem. Johanna lhe perguntou onde passear nas redondezas. O dia seria longo, pensou, e tinha medo dos pensamentos que pudesse ter. O delicado rapaz fez um desenho a lápis na folha de papel, mostrando o caminho que a levaria ao ponto mais bonito daquela região. - Dali você tem uma vista encantadora - garantiu. - De qualquer forma, não deve esperar nada muito especial. Johanna disse que não esperava nada de especial. O jovem delicado era sem dúvida um bom rapaz, e a vida parecia ter sido difícil para ele. Mas a ela incomodava que tivesse umas unhas pontiagudas, tão grandes que nem sequer estavam limpas, o que, de modo geral, não causavam boa impressão. 209 10 U m dia longo também acaba. Johanna havia dado passeios prolongados, conversado com a senhora culta e o rapaz delicado, dado urna folheada nos jornais, lido poemas de Rimbaud. Jogado uma partida de damas com Ragnar, observado a chegada do ônibus e o rápido almoço dos viajantes - tudo isso da mesma forma como os habitantes duma cidadezinha passeiam pela estação para ver os trens e observar o repentino e breve estrépito de escalinata-, havia escrito finalmente para sua mãe- uma carta breve, é verdade, bem inócua - e fora dormir cedo. À noite o tempo piorou, e de manhã o céu estava cinzento e soprava um vento gelado. Ragnar disse que havia se recuperado e podiam continuar. quando ele, com a gola da capa levantada, o rosto misterioso por causa da máscara de seus óculos para dirigir, voltou a sentar ao lado de Johanna no carro, ela sentiu que se abria em seu coração espaço para uma certa tranqüilidade: seja como for, uma sensação de serenidade, produzida pela volta a uma situação que, mesmo não sendo a de costume, pelo menos era ousada, mais ainda, imprópria. Continuaram, pois, em direção ao norte. Longe, Johanna, muito longe, onde já não existe nada... O certo é que era quase como se não existisse nada. Sobre uma meseta deserta sem vegetação soprava um vento que dava medo. A única interrupção dessa sombria extensão eram elevações arestadas, separadas por algumas centenas de metros, que se abriam em selvagens crateras negras, como se aqui tivessem caído meteoritos ou bombas enormes e, com atroz desmesura, tivessem descarnado a paisagem plana, de certa forma animando o local, embora de maneira devastadora e selvagem. - A lua deve ter um aspecto muito parecido com este - observou Johanna com uma voz respeitosamente velada. - Sim, sempre imaginei a lua assim... Longe, Johanna, muito longe. Você não tinha que determinar o objetivo nem o caminho de hoje, você foi raptada, era fácil levar você embora, você não tinha terra debaixo dos pés. Você, apátrida, acabou chegando numa paisagem lunar. Aqui jazem árvores na terra ressecada, arrancadas pela tempestade, levantam seus ramos como os esqueletos levantam os braços. Muito longe, Johanna, um estranho capricho quis que fosse assim, aqui está você agora, não tenha medo. - Que duro deve ser este inverno - acrescentou Johanna, com um estremecimento. - Imagina, quando este vento for tão frio a ponto de congelar a gente com um sopro, as nuvens estiverem tão baixas que toquem essas crateras. Ufa... - Posso imaginar isso muito bem - disse Ragnar com alegria. De uma forma estranha, que Johanna não conhecia ainda nele, estava, ao mesmo tempo sombrio e de bom humor. Desenvolvia planos de viagem,, mas na sua voz havia uma malignidade cruel, como se expusesse um plano de assassinato. -A cidade portuária a que vamos chegar hoje ou amanhã é um ponto extremo deste país - constatou, com sanguinária satisfação. - Mais além não se pode ir. Lá estaremos acima de tudo. Mas lá - disse, e olhou para Jo hanna com seus olhos estreitos através das lentes de seus óculos -, Johan-,, na, podemos subir no barco. Gostaria de ir à Islândia-propôs ele, com um; ânimo empreendedor homicida. - Vai ser uma bela viagem marítima, e na; Islândia deve ser tremendo. Mamãe, contudo, quando souber, vai desmaiar. Ela queria que eu viajasse a um lugar totalmente diferente, onde pudesse me.; amarrar a essa Nancy. Mas não, prefiro ir com as focas e as montanhas glaciais. Você não acha uma boa idéia passar um tempinho com as focas e as; montanhas glaciais? - perguntou, quase ameaçador. - Eu vou a qualquer lado - disse Johanna. Naquele dia chegaram à pequena cidade portuária, estação final do país., Saíram da estrada principal e se deram ao luxo de uma voltinha para ver um, mosteiro russo de que Ragnar havia ouvido falar desde criança. Os edifícios do piedoso mosteiro estavam ocultos por trás de um muro alto. Entravam através de uma porta de abóbada bizantina. Ao redor de um pátio bastante extenso estavam agrupadas as casas dos monges, prédios de baixa altura. O centro constituía a igreja, com a torre de abóbada em forma de cebola. Os santos irmãos faziam de uma das vivendas um hotel. Ragnar falou com o barbudo que, com os braços cruzados, as mãos nas amplas mangas de sua suja sotaina, havia atravessado com passos lentos o pátio em direção aos recém-chegados. Mostrou-lhes o quarto depois de querer saber se a criatura feminina era a esposa do jovem, a ele unida diante de Deus. Somos marido e mulher faz um ano e meio exatamente, explicou Ragnar com sua voz solene de baixo. Nos olhos ingenuamente astutos do pio irmão brilhou um olhar maliciosamente divertido, pensou Johanna. O homem consagrado a Deus tinha também alguma coisa repelente e fascinante em sua aparência e continente. Apesar de um grande descuido, uma degeneração até - sotaina, literalmente endurecida pela sujeira, estava em farrapos na parte dos pés; sob a roupa apareciam andrajosas sandálias -, sabia manter sua dignidade. Seu longo cabelo gorduroso estava preso na nuca em um laço; este penteado grotesco, assim como a barba crespa, sem dúvida hospedavam muitos insetos, coisa fácil de ver mesmo que não coçasse cuidadosamente a cabeça a cada minuto, o que produzia um desagradável ranger. Tinha uma cara matreira de camponês, com um nariz tosco, em forma de batata, muito grande, e uns olhinhos relampejantes sob a abundante mata das sobrancelhas. Uma espécie de Rasputin vulgar, pensou Johanna, que o observa com grande interesse. O monge então deu a Johanna uma piscada tão insolente que ela desviou, sobressaltada, os olhos de cima dele. Antes do almoço visitaram a igreja e as câmaras dos tesouros. O santuário ortodoxo tinha uma abundância surpreendente numa região tão pobre. O altar, de uma magnificência bárbara, brilhava em suas colunas douradas; ao redor dos ícones reluziam pedras preciosas. Aspirando voluptuosamente o pesado cheiro de incenso que saturava a penumbra pardo-dourada do lugar, o sujo padre do laço se mexia em todo este esplendor como se estivesse em seu elementcí genuíno, disposto por Deus. De seus discursos que soavam como obscenas propostas, se deduzia que a maioria desses artigos sagrados e suntuosos haviam sido trazidos há muito tempo de Moscou, quando a irmandade se estabeleceu naquela região selvagem para espalhar a palavra do Senhor. As sílabas MOSCOU, ressoando amplas e suaves, com um entusiasmado acento no `O', saíram de sua boca como uma prece e como um bramido do céu, piedosas e repugnantes. Com aqueles dois vocais, o homem do laço fez surgir todo um mundo de amplitude maternal, crueldade, magnificência desperdiçada, vontade de Deus, preguiça, voluptuosidade e paciência: Mos 212 213 cou... Enquanto subiam uma escada estreita e escura que levava às câmaras onde se guardavam os tesouros e as provisões do mosteiro, o filho da eternamente grata mãezinha tratou de esclarecer aos dois jovens hóspedes desconhecidos quantos vexames e desgraças haviam sido infligidos, nesse tempo maldito, ao mais sagrado dos santuários e das idéias, o altar dileto de Deus, Moscou, a cidade das muitas cúpulas. - O Anticristo! - exclamou com uma voz que ressoava surdamente através da caixa da escada estreita e sombria. - Agora é o Anticristo quem tem ali sua morada, fedendo para aflição da mãezinha, com sua foice e mar telo, o macho caprino, agora está ali... mas dali expulsará a mãezinha, pois na verdade tem força nos rins. Na câmara do tesouro, sob o telhado, onde o ar estava úmido, sem renovação, para se afogar, e onde havia um cheiro penetrante de pó e naftalina, o dublê hirsuto de Rasputin abriu com um solene e ampuloso gesto o armário pendurado na parede. Por trás apareciam pálidos panos de seda que retirou com cuidado. Finalmente brilharam as piedosas roupagens suntuárias, os gorros dos bispos e as capas sacerdotais. Naquele armazém malcheiroso e estreito se conservavam um imenso sortido de brocados de prata e ouro, de tecidos de cor violeta, peles marrons, prateadas e negras, arminho, visom e marta zibelinas; de rígidas toalhas de mesa, candelabros de ouro, crucifixos ricamente adornados, ícones cheios de pedras preciosas. Aquilo brilhava, estalava e mostrava seu quase incrível valor. Eles ficaram olhando tudo aquilo, mais consternados do que deslumbrados, e pensaram se não seria tudo uma grande enganação, fajutice, imitações, ouropel; eles se sentiam meio como na câmara de tesouro de um marajá que explora cruelmente uma província, para que centenas de milhares de párias suem sangue a fim de que ele possa se refestelar em brocados e colocar diamantes no turbante, grandes como ovos de pomba; assim ele senta no seu dossel, espantando as moscas. Seja como for, aquele quarto de cima não era muito cômodo. Só estava entusiasmado o padre, que acariciava com dedos ávidos todo aquele suave e reluzente conjunto multicolorido, as gemas, as roupagens e as adornadas relíquias. Ele parecia envolto num êxtase erótico. Seus olhos simples e perigosos reluziam, enquanto sussurava transportado: "Moscou, Moscou..."; pois era a mãezinha, sua pia magnificência, quem havia doado tudo aquilo, que não era mais do que um fragmento casuai e parvo de seu colossal tesouro. Johanna, ao olhar o monge, ao ver como estalava os lábios úmidos e se balançava para trás e para frente, tinha a impressão de ser testemunha de um repelente ato sexual, de uma exibição fatal. Era extraordinariamente repugnante. Ela se sentiu aliviada quando voltou a ficar sozinha com Ragnar, em seu amplo e frio quarto. - Você me traz a lugares curiosos - disse e sorriu esgotada. - Um palheiro onde se dança no maior barulho; uma paisagem lunar em que o vento sopra sobre as crateras; e agora nesta terrível câmara do tesouro. Como posso agüentar tudo isto?-perguntou com seriedade. - Sim, tudo isso vimos juntos - disse Ragnar, e lhe colocou a mão por trás da cabeça, com grande suavidade e ternura. Outro padre trouxe o jantar no quarto. Tinha exatamente, como o outro, laço, barba e uma sotaina suja, mas seu rosto era mais virtuoso, sem o ar repelente do outro. Quanto ao resto, o jantar era surpreendentemente mo desto, demasiado modesto se considerado o preço da hospedagem, nada barato. Havia uma sopinha, pão, queijo e uma maçã. A magnificência se guardava em armários pendurados na parede, reservados para momentos de festa; isso sim, tinha um preço - a piedosa finalidade justificava isso - bem menor que em outros lugares. Aos dois jovens fora dado um quarto com uma cama grande dupla; eram um casal, bendito fazia exatamente um ano e meio. - Nunca tive vontade de me casar - disse Johanna, sentada pensativa em seu pijama descolorido de rapaz na beira da cama. - Mas agora me alegro que nos considerem casados. Eu acho bonito, somos marido e mulher. Ragnar estava diante dela, Johanna apoiou o rosto em seus joelhos. - Você de fato tem medo da morte? - perguntou repentinamente. Ragnar não pareceu surpreso com a pergunta. - Não sei - disse pensativo, e baixou o olhar em direção à cabeça de Johanna que ela esfregava em seus joelhos. - Quando era menino tinha um medo terrível dela; às vezes me ocorria que acordava no meio da noite e gritava, chorava, sabe, porque pensava que tinha que morrer. A morte tinha então um rosto e me olhava das trevas. Um grande horror se desprendia das órbitas de seus olhos... Mas isso mudou, acho. A morte não pode ser ruim. A vida é má, sim, essa é a surpresa. A gente não estava preparado para isso. Achávamos que era mais fácil, ou pelo menos de uma tristeza mais bela. Agora acredito que a morte resultará na verdade uma surpresa agradável. - Tem horas que eu gostaria tanto de morrer - disse Johanna, o rosto apoiado tranqüilamente em seus joelhos. - Nunca contei isso a ninguém, só a você, agora. Com freqüência sinto que gostaria de morrer, gostaria mui 214 215 to, mais do que qualquer outra coisa. Não ter que voltar a mexer a mão, penso então, só não ter que voltar a mexer a mão... Que importa então lutar por alguma coisa na vida, se o que acontece não é que uma coisa vá mal na vida, mas que a vida em si é má... Infelizmente, é assim que tenho que pensar nesses momentos. Naturalmente, temos que rejeitar com todas as forças essas idéias. Mas que posso fazer quando elas às vezes chegam, como uma grande onda escura, e ensombrecem tudo? Eu nunca havia contado isso a ninguém... - Você se sente assim agora? - perguntou a voz profunda de Ragnar. - Se a morte chegasse no mesmo instante para nós dois... - respondeu. - Se nós dois pudéssemos renunciar ao mesmo tempo para sempre a esses estúpidos movimentos que não têm nenhum objetivo; pois não nos unem, nunca nos levam a uma união total, e a longo prazo nos separamos, incluindo o fato de que agora nos levem juntos até o Pólo Norte. Ele disse, inclinado sobre ela, numa tentativa inútil e desesperada de consolá-la: - Mas você sim sabe o que quer neste mundo, Johanna, você sim tem uma meta. Que posso eu dizer? - Não sei se isso é verdade agora; não tenho certeza - confessou com o rosto oculto no corpo de Ragnar, pois sentia vergonha pelo que dizia. - Neste momento talvez não seja certo. Já não tem vigência, já não atrai, já não o amo, acho que não mereço amor - e, abraçando-o, suplicou Johanna que havia perdido seu país, que havia emigrado para lutar, sujeita a leis que ela conhece e aprova. - Ai, Ragnar, Ragnar, prefiro morrer... não posso me afastar de você, prefiro morrer! Que podia responder? Só repetir, uma e outra vez, os gestos de cerimônia da ternura, só o beijo. Só, porque não se sabia quanto tempo duraria o jogo sem esperanças das carícias. Que lhes restava fazer, senão se jogar nos abraços como um casal desesperado se joga sob o trem para serem destroçados; se dando as mãos, embriagados pela proximidade do outro como a da morte, pula a torre, pula da ponte, salta de um avião sem olhar um ao outro; já não são estranhos entre si no instante dessa espantosa comunhão: em silêncio, não há nenhuma saída, e assim se precipitam na morte como na noite de amor... e assim se precipitam na noite de amor como na morte. Enquanto na manhã seguinte tomavam o modesto café trazido pelo padre não tão demoníaco nem fatal - falou com eles em russo e sorriu bon doso quando não o entenderam; provavelmente só havia perguntado como estavam -, enquanto tomavam umas colheradas de aveia e bebiam o café aguado (o doce de cerejas era a única coisa gostosa), Johanna disse repentinamente, como se fosse a conclusão de uma longa e difícil reflexão: - Tem que acontecer por fim. - O quê? - perguntou Ragnar mastigando (tinha costume de comer pedaços grandes de alimentos). - É possível que tenha chegado alguma notícia para mim - explicou Johanna com uma tranqüilidade que parecia artificial. - Seja como for, tenho que telegrafar a Karin meu endereço. Ragnar havia encontrado no guia que às vezes consultava um hotel para ficar na cidade portuária. Era o Grand Hotel de Paris e de Londres. - Este deve ser dos bons! - havia dito Ragnar. Johanna anotou o telegrama para Karin num pedaço de papel, que deu ao administrador do hotel quando Ragnar pagou a conta. Prometeu mandá-lo por telefone no ato. "É um telegrama muito importante", disse Johanna. No caminho do mosteiro à cidade portuária quase sofreram outro acidente do mesmo tipo; mas, contudo, Ragnar agora já havia adquirido mais presença de espírito e pôde frear a tempo. Desta vez não foi um ciclista de barba vermelha que atravessou o caminho, mas sim um cavalo marrom-claro, magnificamente belo e jovem, que da paisagem lunar saltou de repente na estrada, bravio, sem sela, e ficou dando voltas na frente do carro. Ficou ali como que enfeitiçado. De que misterioso estábulo, de que mágico prado havia fugido? Divinamente esbelto, maravilhoso, agitava as fartas e ondulantes crinas, se comportava como se estivesse muito confuso; parecia que ao dar de frente com o carro - que havia interrompido sua marcha - ele havia caído numa grande vertigem, numa embriaguez do pânico; dando coices, relinchando em sua arrebatadora loucura, ébrio de seu próprio movimento, perfeitamente belo em seu nobre desamparo. Ragnar e Johanna contemplaram juntos este magnífico espetáculo - poderiam ter morrido por causa do acidente: o cavalo salta com um relincho triunfal em cima do carro, este capota, Ragnar, Johanna e o cavalo mor rem -, aquele espetáculo de brava e perigosa beleza. Podiam vê-lo juntos: comovida pela visão, Johanna pensou: "Por que não pode ser esta a última imagem que me é dada a ver? Seria uma última imagem grandiosa. Por que desta vez as coisas não saíram mal, acidente no extremo Norte... Era tão digna de confiança a inabilidade de Ragnar. Queria morrer. Me perdoe, meu 216 217 severo e inteligente irmão Georg, que eu pense e sinta isso... que eu pernm isso e sinta tanto, tantíssimo. Você vencerá, sem mim. Não devo estar pre sente. Não quero estar presente. Já não mereço, de forma alguma, estar pre, sente. Não seria minha vitória. Quero morrer. Queria a morte. Não quem continuar participando das coisas que vêm por aí. Serão coisas terríveis; também grandes, eu sei. Mas já não quero saber delas. Ragnar, querido Rag nar, minha vida está em sua mão, porque você não acaba com ela, já chegueis tão longe com você, tão, tão longe, por que não podemos agora ir mais além ainda e afundarmos juntos, amor meu, ai, eu não quero saber mais de nada, porque não é este belo cavalo a última imagem que levo comigo na ausên ia de imagens da paz... da paz... O cavalo afastou-se com um maravilhoso pulo. Agitando as crinas em saltos desmedidos e aterradamente selvagens afastou-se galopando pela paisagem lunar. Ragnar voltou a acelerar. Continuaram. - Então estamos agora na cidade mais americana da Europa - explir cou Ragnar com orgulho, quando se detiveram diante do Grand Hotel de Paris e de Londres. Era um péssimo albergue pequeno, sujo e miserável. A cidade mais americana da Europa produzia além disso uma penosa impressão, como se o continente se fizesse representar naquele lugar avançado por seus característicos emissários, a pobreza e a aflição. A pequena e desolada cidade estava situada, cinzenta e tranqüila, num patéticó, e melancólico-ca. nário de rochas e mar. A serra baixa e angulosa constituía um fundo ameaçador; do porto se via a enseada. Era inimaginável a paz sepulcral e a, 'lida quietude que devia reinar aqui no inverno; e a animação de verão era mo• desta. No porto estava pronto para a viagem um pequeno vapor de passagei= tos que naquela mesma tarde devia empreender a.célebre viagem até o cabo Norte. O vapor se chamava Dronning Maud, e algumas inglesas distri buíam sua equipagem; era muito possível que de um momento a outro aparecessem as duas inglesas com óculesdo hotel. No porto reinava um estrépir to intenso e alegre. Os rapazes e mulheres que andavam por ali para ganhar algumas moedinhas de cobre transportando bagagens pareciam mal-humo. rados e famintos. Funcionários de uma empresa de navegação os afastavam com palavras grosseiras. - Uma cidade triste - disse Johanna. - E parece tudo tão cheio de fuligem, existe como uma capa negra sobre todas as coisas. - Sim, aqui tem alguma indústria - afirmou Ragnar. - Mas não há dúvida que não parece muito próspera. Entraram numa pequena agência de turismo que encontraram nas proximidades do porto para perguntar sobre barcos que faziam escala na Islândia. Ragnar perguntou todos os detalhes e o preço. - O dinheiro não vai dar - constatou pensativo. - Vou ter que pedir mais dinheiro em casa, via telégrafo. Mamãe vai se lamentar enormemente, talvez tenha que vender algumas ações, mas não me importa, que venda. - Você quer mesmo ir a Islândia? - perguntou Johanna quando saíram da agência de turismo. - Queria muito, de qualquer jeito, ir a Islândia-respondeu Ragnar. - Mas é uma loucura, Ragnar; se você pensar bem, é uma loucura total! Ragnar fez sua cara obstinada - olhos estreitos, os lábios mal humoradamente franzidos: - É muito simples: queria ficar com você, e queria estar com você num lugar onde você esteja o mais afastada possível das preocupações que sempre ensombrecem tanto seu rosto. Onde está a loucura? Eu não a vejo. Ou este mundo é feito de tal maneira que se deseja uma loucura completa quando a gente quer ficar um pouco - um pouquinho ao menos - com a pessoa a que se pertence? É a pequena aspiração à felicidade um crime louco neste mundo? - perguntou Ragnar muito irado, parando no meio da rua, nessa rua cinzenta e suja da cidade mais nortista da Europa. - Merde alors! - resmungou. - Mas não sei dizer. Isso seria uma porcaria, e este é um mundo miserável. Johanna respondeu - como se as únicas palavras que tivessem ouvido fossem essas: - De verdade você queria ficar comigo, Ragnar? Você pensou bem nisso? Isso é verdade? - Na realidade, nunca achei que pudesse viver com uma pessoa - explicou Ragnar com solenidade. - Tem mais, ainda que tivesse tido uma paixão aguda, mais forte do que desta vez - continuou com severa objetividade -, nunca acreditei que isso pudesse ser para sempre. Nunca fui, a longo prazo, um bom companheiro, tenho muitos defeitos intoleráveis, e quase todo mundo também tem defeitos intoleráveis. Então a coisa está muito bem pensada quando digo: nós temos que ficar juntos. Sinto que assim quer também uma instância superior. Não costumo me enganar. Sinto isso muito bem. Um imenso sentimento de felicidade e temor fez com que Johanna parasse e fechasse os olhos. Ela não sabia. Não estava preparada para isso. Não encontrava resposta. Só sentia uma coisa - mas podia lamentá-lo? -, que 218 219 esta felicidade que agora encolhia seu coração multiplicaria mil vezes a dor que não lhe seria poupada, porque nada é poupado. Recebeu com medo a inesperada, imerecida, desaforada felicidade; já estava perdida, já estava compreendida na perda inevitável. Perdido, perdido. Queria morrer, meu Ragnar. Mas a instância superior não quer minha morte. Quer que eu saboreie a perda em mil dias, que a viva a fundo, que a conheça com a maior minuciosidade, se bem que nunca nos deixa conhecer a felicidade, mas que muito passageiramente. Isso é justamente o que quer a instância superior, nada mais. Ai, Ragnar, estamos abandonados, perdidos, perdidos; vejo um rio de lágrimas, Ragnar, pura dor, me dá sua mão, querido Ragnar, que significa a aspiração à felicidade, nossa carne e nosso sangue estão feitos de dores, isso é o que quer a instância superior, para que serve protestar, me dá sua mão. - Então vamos à Islândia - disse Johanna. Jantaram num pequeno restaurante escuro no bairro portuário, onde eram os únicos hóspedes. Não conversaram muito. Entre eles havia um delicado e terno entendimento, como nunca houve desde que se conheceram. De uma forma maravilhosa sentiam que se pertenciam, que estavam unidos. - Você tem vontade de fazer a nova viagem? - perguntou Ragnar. Johanna assentiu com a cabeça. - Espero que não se chateiem Karin e sua mãe - disse. Logo depois acrescentou: - Karin vai ficar feliz que estejamos juntos. Tenho certeza que ela vai gostar. Depois de jantar, Johanna comprou alguns jornais alemães de quatro dias atrás. - Desde que saí de Berlim não voltei a ler esta porcaria de imprensa explicou. Sentia avidez em lê-los. Para tanto obrigou Ragnar a entrar no primeiro lugar que encontraram. Era um bar dançante bem vulgar, deserto aquela hora. Sentaram nos incômodos banquinhos altos do balção. Johanna abriu no ato um jornal. - Pede alguma coisa para beber - disse Ragnar. - Você não pode esperar um pouco para ler essa porcaria? Mas Johanna já estava lendo, o que ensombrecia seu gesto. Os olhos escureceram e ela desfez um fósforo entre os dentes. Ragnar pediu uma segunda bebida. Contemplou entediado o local. De um lado do balcão se abria um espaço, estreito e longo, espécie de corredor, que servia de pista de baile. Ao longo do corredor havia bancos nos quais ninguém sentava agora, com exceção de duas velhas putas disfor mes, uma com blusa vermelha, a outra com uma bd nmu moo a com uma blusa verde-cobre da de verde fez um sinal a Ragnar. Num pequeno _ on9up9q mm pequeno palco colocado e: nela e o balcão um velho começou a tocar acordeãos'9bioos Yso)car acordeão. O acordeão era trumento grande decorado com muito luxo, brilHlild oxul oco luxo, brilhava de ouro e n. pés do velho, proprietário de um instrumento mu um oin5muumento musical tão belo e a va jogado um velho cachorro sarnento que olhavsdlo 9up oto que olhava com olhos tri: pressivos ao seu amo enquanto este tocava. Ragnas51 .svsootocava. Ragnar assoviou ao < logo que se aproximou lentamente. Ragnar deu unu u5b lsngagnar deu um tapinha na sua no lombo e lhe deu açúcar para comer. As duas . znub zA YSer. As duas corpulentas mul vida dançavam juntas no corredor escuro; muito s.z oflum ;oliuro; muito separadas por seus ventres, tentavam se mexer ondulantes ao som do : ob moz os s ao som do acordeão. - É espantoso - disse Johanna -, é espantoolnsgz9 9 , é espantoso o que fazem. - Quem? - perguntou Ragnar. -As duas A znub zA As duas putas velhas? - Não - disse Johanna, com o rubor da indi:ibni nb Yodubor da indignação em sua te, - Na Alemanha, em Magdeburg, estão processan nszz5ooYq oio processando mais comuni; - Com o tempo você já devia ter aprendido qp obibn9Ygs aprendido que são uns porco se Ragnar, e deu ao cachorro um pedaço de açúcar_YSOb?s 9b o;ço de açúcar. - Mas, depois você já não tem nada a ver com eles. Johanna abriu outro jornal. Na vitrina por trás do balcão havia muitas co.oo zwium sia muitas coisas para olhar e Ragnar as contemplou e admirou. No centro de unnu 9b olin9xentro de um sortido de objei simos se encontravam duas imagens, uma represern5z9-ig9Y amima representava Veneza, a oi poles, ambas paisagens inundadas pelo vermelho db orl19m19v) vermelho de um pedaço de! bas tinham molduras brancas e redondas em formõmioi m9 z£Has em forma de salva-vidas. 1 tas imagens as pequenas estátuas de bronze dos bd zob 9snoz)ronze dos boxeadores: estav anões bem fornidos, todos os músculos trabalhadobsdlsdsl7 zás trabalhados da forma mais apesar de sua pequenez. Além disso havia uma caiicpciso smu simvia uma caixinha de cristal q1 de aquário, cheia de um líquido turvo no qual nadmbsn Isup omo qual nadavam, mexendo n licamente o rabo, alguns peixinhos de cor vermelhor119m19v Yor-or vermelho-sujo e amarelo-; parede em frente havia uma série de lâminas emol.lom9 zsnimìminas emolduradas, umas oi motivos de naufrágios: barcos afundando ou emldm9 lio obrando ou embarrancados. Bot vidas dançando nas altas ondas, o capitão lutando o obnsiu1 os'tão lutando corajoso contra a da, todos os passageiros já se salvaram, ele provavovsvoiq 919 1, ele provavelmente vai morr pantoso tema tinha variações muito comuns. Ha-sH .znumo:omuns. Havia também uma fotografia de família, presumivelmente do proprie5iYgo-iq ob a' do proprietário do estabelei com seus pais, descendentes e todo tipo de parentel19m5isq 9b o de parentela casada, todo o c pado diante da desolada porta da casa, uma velha sd19v smu i, uma velha no meio, menin 220 lentemente entrevados aos lados. Em cima, um monstro marinho dissecado, metade tartaruga, metade peixe-espada, não se podia saber com precisão. Ao lado, uma foto de família, pequena, amarrada entre as pontas de um chifre de cervo. Num pedestal próprio, a peça mais eminente da coleçãouma estátua colorida que representava o Bêbado, agarrado a uma lanterna, tudo muito tosco e fiel à realidade, o nariz do bebedor vermelho-vivo, suas roupas muito naturais, e na lanterna luzia uma bombinha elétrica. - É incompreensível - disse Johanna -, simplesmente não posso entender que um povo tolere isto. Ragnar já estava no quinto copo de bebida. - Mudamos de lugar? - perguntou. - Já conheço bem todos os detalhes deste. Desceram juntos a estreita e suja escada. - O jornal nazista publica também um artigo cheio de orgulho e esperança sobre o seu país - disse Johanna. - Parece que os dois acreditam muito no crescimento do fascismo. - Não sei nada disso - disse Ragnar de mau humor. -Aqui não notamos ainda muito essa gente. Nós nãc( permitiremos que cresçam ainda mais. Passaram ao lado de um local de onde saía música. - É um piano elétrico - disse Ragnar. - Tenho que ouvir isso! Entraram e sentaram outra vez no balcão. Mais adiante havia uma mesa de bilhar na qual jogavam alguns rapazes. Ragnar pediu um drinque. O balcão era muito mais luxuoso que o do lugar anterior: envernizado, negro, com numerosas coluninhas enroscadas e espelhos por trás. Ali também não faltavam curiosidades, como por exemplo um cisne vermelho que tinha no lombo uma espécie de ninho de plumas artificiais; também era notável uma ave que, reluzente de cores nas quais predominava o rosa, mas brilhavam também o azul e o amarelo, ostentava-se sobre um pedestal, não longe do balcão. Johanna quis voltar a abrir o jornal. - Larga essa porcaria de uma vez! - exigiu Ragnar. - Mas faz tanto tempo que não sei nada da Alemanha... - respondeu Johanna. - Você não precisa saber nada da Alemanha - disse Ragnar. - Não quero que você saiba nada da Alemanha. Você não pode esquecer nada? - perguntou colérico. Johanna o olhou com grande surpresa. -Às vezes acho que esqueci até demais - disse em voz baixa. - É melhor você se libertar de uma vez desse país! - gritou Ragnar, e deu um soco no balcão, fazendo os copos tilintarem. - Eu fico enojado que você continue tão ligada ao seu país. Também na inimizade você continua tão unida a ele que a coisa me chateia muito - falava numa voz bem alta, os olhos brilhavam, havia bebido muito. - Ah, que incômodo isso me causa! - exclamou, do mais fundo de seu peito. - Esse maldito país com todas as suas repugnantes características. É verdadeiramente o mais pretensioso e baixo de todàs os países. Sempre tem que redimir alguma coisa e representar a grande ópera wagneriana! E a redenção sempre se converte num kitrch brutal nesse país. Tomam um porre místico, dão golpes de gongo e fazem o anti-semitismo da Sexta-Feira Santa, mas por trás está o desfile e o anti-semitismo e os velhos generais que se apresentam como semideuses. Ah, não sabem viver, não têm nada com a civilização; mas são tão inseguros que rangem e chiam com o sabre e ordenam e atemorizam com suas vozes repelentes e preparam eternamente a guerra de revanche. Têm um talento tão ridiculamente escasso para a vida, esse povo com sua presunçosa problemática extra que nunca, nunca entrou no âmbito da civilização. Essa é a razão, a única razão porque ameaça nossa civilização, a qual não tem acesso. E agora se levanta outra vez e quer destruir tudo, e todo o mundo tem que tremer, e se preocupar, e ser cortês com esse louco maligno. Que povo! Dá nojo imaginar tudo isso... é repugnante, em sua eficácia para pensar, que sempre foi posta a serviço da baixeza, em todo o seu talento, ao qual falta uma espinha moral. Quando penso nos seus professores e jornalistas fico ainda pior do que quando imagino seus generais e carrascos, aos quais os professores proporcionam uma `cosmovisão', pronta para usar, impecavelmente embalada. E agora que este povo se desprende por fim do tênue revestimento que até agora podia conter pro formaseu fracasso colossal, e agora que surge em toda a sua desalmada sem-vergonhice... Por que a surpresa? Isso não é nenhuma surpresa para quem sabe ver. Por favor, Johanna, por favor: aprende a renunciar totalmente a essa gente! Falava com Johanna com grande animação, todo o poder que tinha sobre ela punha em suas coléricas e inflamadas palavras. O rosto de sua amada estava tão pálido como uma folha de papel. - Mas eu pertenço a esse povo - disse, quase sem voz. - Eu falo sua língua. - Você pode se libertar - replicou ele. - Você é inteligente, não tem outros preconceitos nacionais, você pode falar outros idiomas. Na expressão de Johanna se refletia um grande tormento. 222 223 - Contudo, vejo tudo isso de uma forma diferente de você - disse lentamente, vacilante (é inútil, nunca vou poder esclarecer isso com ele). - Acredito que toda a felicidade do mundo não procede de um povo determi nado, mas da dominação egoísta de uma classe. O ódio-veja se me entende, Ragnar! -, o ódio não pode nunca ser coisa de um só povo, mas sempre vem do sistema econômico que destrói tudo. Enquanto o capitalismo dominar não cessará a dor, em nenhuma parte. E uma Alemanha socialista não seria uma ameaça para o mundo. - Isso é falso - disse Ragnar esquentado. - E é tipicamente alemãs pensar assim. É tipicamente alemão converter a questão econômica numa cosmovisão; imediatamente se introduz o tema da redenção, e o mistério da Sexta-Feira Santa, e o grande estrondo. O resto dos povos poderia resolver o problema do sistema econômico, e para isso não é preciso se converter em asiático e cair no êxtase materialista depois do nacionalista... tudo isso pode ser resolvido também de forma civilizada. Mas a Prussianidade- só a Prussianidade, a mais repugnante forma de Asiatismo - terá o bom cuidado de fazer com que o razoável se converta numa catástrofe, uma catástrofe tipicamente alemã, bem alemã; produzirão a guerra, e com o terror e o espanto surgirá o socialismo da guerra. E então terão conseguido perder e corromper e fazer intolerável para o resto do mundo também as coisas naturais, necessárias, a reforma econômica, para que seu registro de pecados seja infinito - respirou esgotado, sua grande cólera o havia cansado consideravelmente. - Não há dúvida de que não tenho um perfil militante - acrescentou, em voz mais baixa. - Mas desejo à Alemanha uma derrota de magnitude colossal. Tem que virar cinzas para que não volte a se mexer. De outra forma, não haverá tranqüilidade. Na última vez se saiu até muito bem. Não aprendeu nada do presente que foi sua derrota. Johanna, eu digo que a Alemanha deve ser controlada e vigiada por estados civilizados, tem que se submeter à vontade por completo, quase se converter em sua colônia; do contrário, em seu momento destruirá os estados civilizados. Johanna estava cabisbaixa. Ragnar disse depois de uma pausa: - Johanna, ofendi você? Não queria ofender você. São só esses asquerosos pasquins que me fizeram perder a cabeça - fez um gesto desdenhoso com a cabeça em direção aos jornais alemães. - Você não me ofendeu - disse Johanna. - Só que não sabia que você tinha um ódio tão grande do meu povo; pois é o meu, Ragnar, não nos enganemos, e embora aprenda outros dez idiomas, estou unida ao alemão por laços infinitos. Sem dúvida, podia encontrar mil, dez mil argumentos para contradizer você. O que você diz podemos corrigir palavra por palavra. Mas não tenho razão nem direito de defender meu pais... tal como está agora. Sua vergonha é muito grande. Também não prestaria nenhum serviço à Alemanha agora se a defendêssemos ou a protegêssemos. De nós depende - disse lenta e solenemente a moça -, de nós depende conquistar um futuro para esse país, um futuro que contradiga o que você disse hoje. E até então que fique sem resposta qualquer calúnia, para que no dia-a-dia a cutucada nos sirva de estímulo. Saíram dali e voltaram lentamente ao hotel. O céu estava claro. Johanna sofreu de repente sob esta claridade como sob o prateado som chiado, agüentado muito tempo, que permanecia suspenso no ar. "Faz semanas que não vejo um céu escuro!" pensou. E de repente sentiu a nostalgia do céu que procura a escuridão como um benévolo presente. Chegaram ao Grand Hotel de Paris e de Londres. Entraram. O porteiro entregou um telegrama a Johanna. Ela o abriu com os dedos tremendo. Ragnar estava a seu lado. O telegrama já tinha dois dias, vinha de Paris e Karin o havia expedido. Johanna sentiu a proximidade de Ragnar enquanto lia. O texto dizia: "Bruno morreu ontem em Colônia ao fugir ponto venha a Paris, precisamos você Georg". Johanna vacilou um instante, procurou apoio por trás, não encontrou e continuou em pé. Em seu rosto nenhum músculo se mexia. - É tão ruim assim? - perguntou Ragnar sobressaltado. Então o espasmo se desfez em seu rosto paralisado; a boca se contraiu infantilmente, as lágrimas fluíram devagar pela cara, as comissuras da boca se prenderam, e continuaram caindo pelo queixo. Subiu lentamente a escada, passando primeiro por Ragnar, depois pelo porteiro. Ragnar entrou em silêncio atrás dela. Em cima, no quarto, falou com ela. - Coitada do meu amor, o que aconteceu? - Preciso ir embora - disse Johanna. Deu o telegrama a Ragnar. - Você quer ir a Paris ficar com seu irmão? - perguntou Ragnar. - E quando você volta? - Não - disse Johanna. - Não volto. - O que você quer fazer? - perguntou Ragnar. -Agora não tenho escolha-disse Johanna; não chorava mais. -Agora tenho seu exemplo. Provavelmente ele me desprezou quando morria - acrescentou depois de breve pausa. 224 225 - Mas talvez tenha dado a você um exemplo equivocado - disse Ragnar. - Ou um exemplo absurdo. Os mártires não provam nada. Johanna ergueu o rosto para ele. Alguma coisa havia mudado nele: a linha suave sob a boca desaparecera; de repente, tudo naquele rosto estava em harmonia com a bela e audaz testa. - Nenhum sacrifício é feito em vão - replicou. - E nenhuma grande fé jamais é desperdiçada. - Não é verdade - disse Ragnar; estavam frente a frente. -A história universal consiste em sacrifícios inúteis e fés jogadas fora. - Não é essa a reflexão que convém aos vivos - respondeu Johanna. - Não temos direito a essa reflexão. Não temos escolha. Todo o nosso heroísmo consistirá em aceitar nosso destino. Todo o nosso heroísmo consistirá em não sucumbir antes de que o nosso destino assim o exija. Ragnar ficou calado durante longo tempo. - E você não pensa em mim - disse finalmente. - Você terminou comigo. Eu já não estou aqui? Você já esqueceu tudo? Ela chegou mais perto dele, mas não o tocou. Seus olhos, escurecidos e dilatados num olhar intenso, voltaram a tomar sua imagem: cabelo e testa, sobrancelhas cerradas, olhos estreitados, nariz, queixo e a boca tão amada. Eu amo você Ragnar, tanto e tão forte, Ragnar: essa é a verdade. Ficaram um diante do outro, sem falar nada, naquele quarto de hotel de absoluta feiúra. Johanna, a moça adolescente, que preferiria morrer, mas que precisa aceitar o que hoje, ainda com a cabeça erguida, chama de seu destino... Qual será? Johanna, com a cabeça erguida, qual será esse destino pelo qual você tem que sacrificar tudo, de modo que seu coração machucado nunca mais possa sarar? Você viv )uma vitória, e será como a gente sonha as vitórias quando elas finalmente chegam? Pequenos quartos de hotéis em Paris, Praga e Zurique serão o cenário de seu destino. Você vai falar em assembléias e,escreverá nos jornais; vai ser mensageira e talvez distribua na Alemanha material ilegal, e talvez seja logo fuzilada, mas primeiro torturada e humilhada; ou'poderá viver ainda a grande guerra mundial, e até, talvez, sobreviva a ela, embora isso seja improvável; e durante longo tempo você será apátrida, mas não livre, e sim dependente de sua pobreza e das ordens de uma direção do partido secreta e oculta: tudo isso pela fé. Johanna, por um futuro que você mesma não verá e que mal o reconheceria se o visse. Mas você, Johanna, não tem escolha, vai ter que aceitá-lo, e que a morte não queira você, aceite isso, vá embora, você é valente, se proteja das dúvidas, fe che seu coração, do-contrário você desmorona. Seja piedosa e forte. Você vai rasgar as cartas escritas a Ragnar - longas cartas, escritas à noite depois do trabalho perigoso e.monótono do dia -, não deixará que nenhuma palavra sua chegue a ele. Ragnar vai se casar com Nancy, que nisso vem se empenhando. Assim salvará uma vez mais sua situação, um pouco ameaçada e frágil. Você vai viajar e terá novas aventuras, mas também ele está enganado por sua aspiração à felicidade, merde alors, não pode mais que adquirir cada vez mais experiência na dilapidação do sentimento, e também ele estará maduro e corroído pela tristeza quando for atingido pela grande catástrofe da qual não escapará, ninguém escapa, em cujas margens nossa vida é um jógo, e pela qual Johanna será alcançada lutando e se defendendo, mas Ragnar em posição displicente, sempre teimoso e leviano apesar de sua melancolia. Ai, Johanna e Ragnar, ainda vemos levantarem-se uma vez mais nossas mãos para as carícias, e o rosto de um e de outro. Ainda se tocam uma vez mais seus lábios. Mas já não se abrem. E no lugar desses beijos vocês terão agora um calado soluço, um para o outro, cada um na boca inconsolavelmente fechada do outro. 226 227 B'"',=teca Pública '~9rthur Viannu Impresso nas oficinas da EDITORA PARMA LTDA. Telefone: (011) 912-7822 Av. Antonio Bardella, 280 Guarulhos - São Paulo - Brasil Com filmes fornecidos pelo editor A Editora Mandarim está cadastrando os seus leitores. Em todos os nossos livros você encontra um formulário para preencher e nos enviar. Se estiver interessado (a), você poderá receber todos os meses, gratuitamente, o INFORMATIVO MANDARIM, com os nossos lançamentos, e nossos livros. para dar a sua opinião sobre os Obrigado. aproveitar Nome: Endereço: Cidade: :~iiC áwt Ì P ~ó~ Data de nascimento: 4n6 /J Quais são as áreas, dentro de nossa linha de publicação, ressam a você?: O Astrologia O Autobiografia O Biografia 0 Ciências O Crônica O Ensaio O Esoterismo O Espiritualidade 0 Filosofia Defina, ao adquirir um livro, o grau de importância dos seguintes aspectos: O Preço O Capa O Formato O Número de páginas (r) Autor De que maneira você se informa sobre os lançamentos da Editora Mandarim? 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