Este livro foi digitalizado por Maria fernanda da conceição pereira. Heinz konsalik um casamento feliz círculo de Leitores À minha mulher Ebbi Título do original: Eine Gluckliche Ehe Tradução de: José A. M



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Este livro foi digitalizado por Maria fernanda da conceição pereira. HEINZ KONSALIK UM CASAMENTO FELIZ Círculo de Leitores

À minha mulher Ebbi Título do original: Eine Gluckliche Ehe Tradução de: José A. M. Sousa Revisão de: Altino do Tojal Círculo de Leitores, Lda Edição integral Composto em Garamond IO/' 11 por (c)by C. Bertelsmann Verlag Novotipo É proibida a venda Impresso e encadernado por a quem não pertença Printer Portuguesa ao Círculo 2a edição: 10 000 exemplares Novembro 1978

Capítulo primeiro Por fim, lá se realizou o funeral. Estava um dia bastante nublado, um daqueles dias de Outono em que os raios solares não conseguem penetrar através da cortina de nevoeiro e de poluição citadina. A névoa, de tão densa, colava-se às árvores do Cemitério do Sul, formando, com a humidade dos caminhos, verdadeiros charcos entre as sepulturas, pelos quais as pessoas, ao passarem, sentiam o frio penetrar-lhes nos pés, apesar de usarem calçado espesso, com solas bastante grossas. O frio cortante e húmido fazia-as levantar os colarinhos dos abafos, mas não impedia os homens presentes de, em sentida homenagem póstuma, escutarem, com respeito e de cabeça descoberta, as palavras de Encomendação proferidas, em voz sonora e grave, pelo pároco, ao encerrar a série de breves elogios fúnebres de bons amigos do falecido, tais como: representantes da Junta, do Clube dos Cavaleiros, do Clube dos Rotários, da Companhia de Atiradores, do Grémio Alemão das Farmácias, do porta-voz do P

artido, do Clube de Golfe e do Clube Naval Alemão. Os sons tristes de enormes halalis soprados por uma delegação do Clube dos Caçadores e a floresta imensa de bandeiras baixando-se sobre o caixão simples de madeira de carvalho que, em vez da cruz na tampa, tinha uma grinalda de rosas vermelhas de pé alto, davam um tom de maior tristeza ao local, já nada de si propício a manifestações de alegria. Todos os presentes sabiam quem depusera ali as rosas e, quando o pároco, no seu bonito discurso de elogio ao feliz casal, então separado pela morte, pronunciou a frase, um tanto patética para a ocasião o vosso matrimónio foi uma maravilhosa canção de amor nunca traído'', cada um olhou furtivamente e com certa tristeza para ela. Era uma senhora elegante, de estatura média e aspecto muito digno, mantendo-se impavidamente calma, junto da cova recentemente aberta. Trajava um vestido preto simples, por cima do qual caía uma capa preta de pele natural. O véu de viúva cobria a face magra, sobressaindo por baixo do capuz de feltro, redondo e discreto, os seus cabelos louros, encaracolados. Com 53 anos, bonita, era uma viúva muito jovem. Ali, naquele momento e junto àquela sepultura, cada um dos presentes 7

conhecia perfeitamente toda a história: ganhar milhões é um bom negócio, mas para que serve todo esse dinheiro quando, aos nossos olhos, ele provém de inúmeras desgraças, inclusive, de assassinos? "Você é um idiota!", dissera uma vez o Dr. Bernharts, que podia atrever-se a tal, pois há 20 anos que conhecia a família e, desde então, era mais confessor do que médico. Com cada milhão, você vai agravando o seu problema cardíaco. Faça isso mais devagar, Hellmuth!..." Junto ao túmulo ouviu-se um coro masculino cantando, não Schubert ou Brahms, cuja música o defunto amava com devoção, mas sim a velha canção dos "Bons Camaradas", acompanhado pelo conjunto de instrumentistas de sopro da igreja, a quem Hellmuth Wegener tinha doado os instrumentos. Hellmuth Wegener... Camarada, Amigo, Benfeitor, Chefe, nunca te esqueceremos! Seguiu-se o desfilar das condolências, em cortejo infindável, incessantes apertos de mão, acompanhados por palavras lentas, hipócritas, lágrimas derramadas por crocodilos humanos, com soluços ensaiados, de mistura com os abraços sinceros dos poucos amigos verdadeiros, dos beijos húmidos das amigas da viúva e das palavras lacónicas, sentidas, dos vários delegados das associações e grémios presentes... Um desgosto profundo, uma dor, uma única e inevitável dor, uma marca de reconhecimento a cada aperto de mão: "Agora estás só! Ele morreu! Tu és uma viúva! Aqui estás sozinha, à beira do seu túmulo, a recordar, nestes breves momentos, toda a tua vida passada com ele, vivida em comum, todas as vossas alegrias e tristezas, ouvindo constantemente: Os meus pêsames! Era bom homem. Pena ter desaparecido tão cedo. Minha querida, tem paciência, conforma-te, pois a vida continua! Como foi possível ter acontecido isto? Estamos inconsol

áveis! Nunca o esqueceremos... nunca esqueceremos... nunca esqueceremos..." Abraços, beijos, lágrimas, palavras, palavras, palavras, apertos de mão. Mãos gordas, mãos magras, mãos húmidas, mãos quentes, mãos frias, mãos ossudas, mãos flácidas, mãos duras... Mãos, mãos, mãos... - Foram setecentos e oitenta e nove, mamã - murmurou Peter, que se mantinha de pé ao lado dela, apoiando-a com o braço. Peter, o filho mais velho do casal, dois palmos mais alto do que a mãe e louro como ela, tinha 27 anos e era formado em química, após exame "Magna cum Laude". No outro lado, a filha. Cabelos castanhos como o pai, elegante e delgada, nesse momento com 23 anos, estudante de medicina, com sérias ambições a cantora. Tinha entrelaçado o braço à volta da anca da mãe e, com a mão direita estendida, recebia as homenagens das outras pessoas ao mesmo tempo que inclinava a cabeça em agradecimento, embora não chorasse, o que foi notado por todos. Setecentas e oitenta e nove mãos! - Mamã, já passaram todos! - segredou Peter ao ouvido da mãe, coberto pelo véu preto.-Isto até parecia um funeral nacional. Realmente o pai tinha muitos amigos. - Vamos embora, meus filhos - respondeu ela com voz mais firme e calma.-Já acabou? - O quê, mamã? -O desfile? - Sim. Peter olhou para trás, por cima dos ombros da mãe, trocando breve olhar com a irmã. Vanessa Nina inclinou a cabeça, levantando os ombros, numa interrogação muda. O nome dela, Vanessa Nina, fora inspirado num romance que a mãe lera durante a gravidez. Um nome muito musical... Vanessa Nina Wegener... O marido nada objectara, pois jamais contrariara os caprichos da consorte. Quando criança, Vanessa tivera alguns dissabores por causa do nome, mas agora sentia-se feliz, pois para cantora era um nome formidável, caía bem no ouvido e, conforme a opinião do director da Academia de Música de Colónia, metade da carreira musical já estava assegurada com tal nome. - Estamos sozinhos, mamã -disse Peter.- O pároco espera-nos à saída. Atrás deles a areia do caminho estalava sob os pés de centenas de pessoas. As bandeiras, antes desfraldadas, começavam, agora, a ser enroladas e metidas nos protectores impermeáveis, os instrumentos dos músicos nos respectivos estojos, os guarda-chuvas abriam-se, pois a humidade provocada pelo nevoeiro formava precipitação, semelhante a gotículas de chuva, da qual as pessoas queriam resguardar-se, pois havia grande epidemia de constipações. Muita gente pensou que toda aquela humidade ainda iria incomodar o velho Wegener no túmulo, porque a sensibilidade nasal era o seu ponto fraco. - Deixa-me, Peter. Agora prefiro ficar só - disse ela.



- Mamã... - Por favor! Perante isto, deixaram-na. Deu três passos em direcção à cova aberta, fixando o olhar lá no fundo. Mal via o caixão, em parte já coberto por terra e por enorme montanha de flores. "Esmagaram as minhas rosas", pensou, "mas não faz mal, porque ele sabe que elas lá estão. Todos os anos, no dia do meu aniversário, oferecia-me rosas vermelhas de pé alto e mais duas rosas brancas, uma por Peter e outra por Vanessa Nina. Há pouco tempo, quando fiz 53, procedeu da mesma maneira." "Onde está a tua rosa?", perguntava-lhe todos os anos. Ele ria, com aquele riso jovem por que outrora ela se apaixonara; um riso transbordante da sua boca e dos seus olhos azuis. "Eu não sou nenhuma rosa, Irmi, e um cardo estragaria todo o ramo.'' Alguém cochichava atrás deles. Peter fez recuar Vanessa Nina, que queria permanecer ao lado da mãe. - Agora deixa-a ficar sozinha - disse-lhe ele. - Ela prefere estar só. Tenho a impressão de que não há no mundo nenhuma mulher que tenha amado tanto um homem como a mãe amou o pai. Nini, agora está sossegada! Com as mãos postas sobre o peito e olhos fixos no túmulo, estacou junto aos ramos partidos dos abetos. Não rezava. Em profunda meditação, dirigia o olhar para as flores e pedaços de terra atirados para cima do caixão de carvalho, cuja madeira castanho-clara brilhava aqui e ali. Hellmuth Wegener. "Vinte e sete anos", pensava ela. "Há 27 anos te acompanho e agora abandonas-me. O mundo ficou vazio, apesar de os nossos filhos já serem adultos, mas em breve seguirão o seu próprio caminho. E o que me resta? Os laboratórios farmacêuticos, a moradia em Stadtwald, a casa de Verão no Tirol, o chalet em Wallis, a casa de campo na Cote d'Azur, o dinheiro, muito dinheiro... Mas o que é isto tudo sem ti? Com certeza a vida continua, há milhões de viúvas por esse mundo fora e o tempo faz desaparecer as rugas da nossa alma. Nada pára... No entanto, a minha verdadeira vida foram estes 27 anos passados contigo.'' Ela não estremeceu quando Peter se aproximou e, de novo, lhe deu o braço. Um pouco mais atrás, a filha soluçava. Vanessa Nina, a pequena Nini, o pardalinho com voz de prata, como Hellmuth lhe chamava. - Temos de ir, mamã - disse Peter, esforçando-se para que a comoção não lhe embargasse a voz, nem a despedida impossível 10 da mãe ao seu único e grande amor pusesse em risco o autodomínio masculino do filho. - Ir? Para onde? -perguntou ela, voltando a cabeça vagarosamente, fixando no filho, através do véu preto, um olhar com brilho fora do habitual. - Para o "Roseiral", mamã. - O "Roseiral"? - É este o nome do restaurante onde costumam ser servidas as refeições aos acompanhantes de funerais. Mamã, é necessária a nossa presença para a recepção com champanhe e bufete frio e recebermos as condolências oficiais. Esperamos cerca de oitocentos convidados! - Leva-me a casa -disse ela, voltando a cabeça, de novo, para a sepultura. - Mamã, os convidados... - Por favor, Peter, substitui-me. E tu, pardalinho, ajuda-o. Isso não vos custará nada, enquanto que a mim... Agora, quero ficar só. Não quero ver ninguém! Compreendem? - Mas, mamã, a recepção não dura mais do que uma hora. - Para mim, essa hora é demais. Por favor! Peter fez sinal à irmã. Ambos ampararam-na, afastando-a brandamente do túmulo. Atrás de uma grande pedra dois empregados municipais do cemitério esperavam para fazerem a entrega da sepultura. Estavam encostados aos espatos, fumando cigarros de tabaco negro, com as mãos nos bolsos, aguardando, cheios de impaciência, no meio da humidade, a saída da viúva e acompanhantes. Do lado de fora do portão ouvia-se o ruído dos automóveis, motores em funcionamento, em arranque, buzinas, pneus chiando no asfalto molhado, portas batendo e confusão de vozes, contrastando com o silêncio deixado para trás. Algumas pessoas riam, porque o advogado Dr. Schwangler acabava de contar o caso de um cataléptico que, depois de ressuscitado, ainda gerara quatro filhos... O pároco aguardava, protegido por enorme guarda-chuva preto. A seu lado, o organista, que na capela executara um trecho de Handel, última vontade do falecido. Mesmo à saída do portão, trajando um moderno vestido de luto de larga cauda preta, com uma guarnição de marta negra, encontrava-se Elena Preiss, há três anos viúva do fabricante Johann Preiss e a melhor amiga da casa Wegener. Era tão amiga que se dava ao luxo de dizer: "Hellmuth casou com a mulher errada. Irmgard é e será sempre 11

a filha de um farmacêutico. Um nobre deve procurar uma mulher da sua linhagem, mas nunca uma qualquer..." - Temos de passar por ali, Peter? - perguntou Irmgard Wegener, parando. - Nem pensar, mamã. Há, ainda, um portão lateral por onde podemos sair. - Vamos então! - Seria descortês, mamã - Peter aconchegou mais a si o braço da mãe -, o pároco e o organista querem despedir-se. - Eles não foram convidados para... a recepção? - Não, bem sabes que só determinadas pessoas... Olhou em direcção a Elena Preiss, que rondava perto, como um abutre por cima de um cadáver. Os seus longos cabelos encarniçados caíam sobre os ombros e sobre a gola de marta. Usava o vestido muito curto, provocante, para mostrar as pernas compridas e bem modeladas. "É três anos mais velha do que eu", pensava Irmgard Wegener, "mas nem sequer permaneceu um mês fiel ao marido. Nunca tive uma paixão, nem mesmo um amigo íntimo. A partir do momento do meu "sim" e de ter aceite o nome de Helmuth, nunca me passou pela cabeça atraiçoá-lo." - Quero ir-me embora -disse com dureza. Peter puxou-a a si, olhando-a fixamente. Ela prosseguiu: - Vamos para longe de toda esta gente. Saímos pelo portão lateral. Não quero ver, nem ouvir mais ninguém! Peter Wegener calou-se, lançando um olhar de compreensão para a irmã. São os nervos! Agora que tudo passou, vem o desânimo e vai ser difícil ela resistir. Durante toda esta tremenda crise, a mãe manteve-se corajosa e firme como um rochedo, tendo assistido, desde o princípio, ao amortalhar do cadáver e fecho do caixão no átrio da Villa Fedelta, "Fidelidade", nome dado igualmente ao jazigo. Muita gente interrogava-se por que razão Hellmuth atribuíra um nome italiano à sua casa; os filhos, também não sabiam. Apenas ela, Irmgard Wegener, filha do farmacêutico Lohmann de Colónia-Lindenthal tinha conhecimento desse facto. Encaminharam-se para o portão lateral, o que muito surpreendeu o pároco, o organista e todos os demais acompanhantes do funeral. Elena Preiss encolheu os ombros, franzindo os lábios pintados de ciclame, com um sorriso malicioso. Em seguida e com passinho miúdo dirigiu-se para a saída, onde o automóvel a 12 aguardava. O motorista abriu a porta do carro e tirou o boné quando ela entrou. Ele nascera na Córsega, o seu aspecto era deslumbrante e constava ter cumprido muito bem a sua tarefa numa oficina de pintura de automóveis em Viena. O carro dos Wegeners dirigiu-se para o portão lateral. Irmgard Wegener entrou depressa, dando a mão ao filho e à filha. - Agradeço-vos muito - disse ela, tentando sorrir. Tragam, discretamente, alguma comida e não se preocupem comigo. Estou contente por agora poder estar só. Fechou a porta, o motorista acelerou o carro e este partiu, seguindo velozmente pela avenida, de cujas árvores pingava humidade motivada pelo nevoeiro. O quarto do senhor - segundo a velha tradição, era este o nome dado ao gabinete de trabalho de Hellmuth, na Villa Fedelta - causou nela grande e estranha sensação, devido ao fausto renascentista ali patenteado e agora sem a inesgotável vitalidade de Hellmuth. Frio esplendor, outrora apenas iluminado com o seu sorriso, a sua vida, a sua voz, o seu todo. E aquela secretária maciça, esculpida, segundo ideia e desenho dele - ideias formidáveis, inesgotáveis e sempre eficazes, brotando da sua imaginação, mesmo de manhã, quando, na casa de banho, deitado no tapete cor de laranja, acabava de se barbear, ainda com metade da cara coberta por espuma de creme. "É um caso clássico de enfarte do miocárdio!" -dissera o Dr. Bernharts. "Isto já eu previra há muito tempo. Já estava à espera disto! Mas quê! Ele nunca acreditou nos médicos! Sou forte como um touro e são como um pêro' era sempre a sua resposta, quando o aconselhava a ter mais descanso e a pensar a sério na sua própria saúde." O Dr. Bernharts nunca pronunciou estas palavras na presença da viúva, mas sim na dos seus colegas médicos, quando se encontravam no Restaurante "Cu-Cu". Até certo ponto, tal modo de agir coadunava-se com a sua saúde de ferro, pois, em 31 anos, Hellmuth Wegener apenas estivera de cama durante 6 semanas e 14 dias seguidos, porque embriagara-se durante o alboroque de uma das suas casas recém-construídas, tendo caído e partido o tornozelo esquerdo, como mais tarde ele contava, com graça. Era um touro 13

que não se deixava vencer. Mas de repente o coração parou. O quarto do senhor, tão frio e impessoal, era, no fundo, confortável. Lá fora, a chuva aumentara; aqui, na Stadtwald, a humidade e o nevoeiro desapareceram, ouvindo-se apenas as grossas bátegas de chuva a rufarem nas vidraças... O silêncio reinava na grande Villa Fedelta. Metade do pessoal tinha ido ao funeral, encontrando-se agora a tomar a refeição no "Roseiral", enquanto a outra metade permanecia de serviço. Esta iniciativa fora tomada voluntariamente, em reconhecimento para com o chefe que a todos tratava por tu, sendo considerado mais como camarada do que como patrão. De fraque ou de "smoking", nas recepções oficiais, em concertos ou nos Festivais de Wagner, pois pertencia à Associação dos Amigos de Bayreuth, apresentava-se com todo o esplendor da sua aristocracia, o que não impedia de, em casa, chamar ao jardineiro "Franz, o Kanaille" e ao motorista que conduzia o Mercedes, "Hugo da Estrela de Stuttgart". Paula, a cozinheira, e Doris, a empregada doméstica, amavam-no secreta e platonicamente. Este amor não correspondido tinha consequências sobre a cozinha e a limpeza da casa. Irmgard aproximou-se da janela e olhou para fora, para o cinzento da chuva caindo no parque.



Encostou a testa aos vidros frios e húmidos. "Deve-se excitar a solidão", pensava ela. "Durante 27 anos ele esteve sempre ali, conversávamos, respondia a todas as perguntas, deitava-se ao meu lado e ouvia a sua respiração. Muitas vezes acordava de noite com o seu ressonar, ou quando tal não ouvia, ficava aflita, pois podia ter-lhe acontecido qualquer coisa. Este ruído natural era a prova evidente de que ele estava ali, vivia e nascia um novo dia com ele... De repente, estou só. Em pensamento, ainda oiço a sua voz ecoar por todos os cantos da casa: Irmi, tu és a minha loucura! ou Irmi, voltei a fazer progressos. No escritório, na reunião com a administração, descobri que tinha o botão da camisa sobre o estômago. É uma maçada ter de trabalhar após as refeições! Será, realmente, necessário fazer conferências depois de comer?!" Tudo isto agora faltava. A solidão é como um elmo, cuja viseira se fechou para sempre. Ouve-se e vê-se o mundo, mas tudo isso se encontra do lado de fora. Ela afastou-se da janela, em direcção ao interior do quarto, sentando-se no sofá grande, no qual muitas vezes Hellmuth se instalara comodamente, nascendo aí as suas ideias ou convencendo-se de que algo delas poderia ser 14 posto em prática. Em seguida tomava uma vodka, uma só, caindo, depois, em profunda meditação. - Em que pensas? - perguntava-lhe ela. E ele respondia: - A vida é uma loucura. O mundo está completamente louco. E ria-se; o momento de reflexão (porque reflectia ele?) passou. Sentada no sofá dele, abriu uma pequena mala preta de mão, tirando de lá uma caixinha simples. Era de madeira dourada, um desses objectos venezianos feitos à mão que se vendem em grande quantidade aos turistas. O Dr. Schwangler, advogado e amigo da família, entregou a caixa à viúva, com a recomendação de só ser aberta após a morte do marido. - Por vontade expressa de Hellmuth - dissera o causídico e, desta vez, sem gracejar - encontrará dentro desta caixa uma carta explicativa para ser lida, apenas, quando o seu marido morrer. - Leia-a, por favor -pedira ela. - Por minha morte.., Quer que continue? - Sim, por favor. - ...morte, peço ao meu amigo Schwangler para entregar esta caixa à minha mulher. Contém a chave do cofre que está dentro da parede, atrás do quadro de Gauguin. Peço-te, Irmi, abre-o apenas depois do meu funeral. Podes fazê-lo sozinha, ou na presença dos nossos filhos; isso fica ao teu critério. Mas acredita numa coisa: sempre te amei... Sem olhar para o interior, meteu imediatamente a caixinha veneziana na sua mala de mão. - Certifique-se de que a chave está aí - dissera o Dr. Schwangler. - Se Hellmuth deixou escrito que a chave está cá, é porque realmente está - respondera ela. Durante algum tempo olhara para a caixinha, interrogando-se por que motivo Hellmuth teria comprado tal coisa, pois ele não gostava de gastar dinheiro em pechisbeque, nem naqueles objectos vulgarmente conhecidos por jóias da moda, embutidos, pérolas de vidro coloridas, tronquinhos de madeira pintados, pedras artísticas e muitas outras bujigangas de preço módico. A primeira jóia que ele lhe oferecera - ela lembrava-se tão bem fora em 1948, pelo nascimento de Peter. Hellmuth pagara, ao 15

ourives, em quatro prestações mensais: tratava-se de um anel de ouro, de aro estreito, alargando-se no meio, com um minúsculo brilhante, um rubi, uma safira e uma esmeralda, formando este conjunto uma estrela. É uma jóia valiosa", declarara o ourives. Nessa época, para o jovem, que nunca oferecera nada, esse objecto tinha um valor incalculável, pois fora adquirido com o fruto do seu trabalho. O anel ainda se conservava na caixa das jóias, embora Irmgard já não o usasse, porque agora trazia colares e pulseiras de brilhantes, anéis e brincos, cujas fotografias se encontravam em poder da companhia de seguros e valiam alguns milhares, ao passo que o miserável anel sempre ficou ali. Em certas ocasiões, ao abrir o seu guarda-jóias, contemplava o anel em longa meditação e recuando no tempo; lembrava-se daquela manhã quando estava deitada e ele o colocara sobre o peito nu, enquanto a criança comia. Abriu a caixa de madeira veneziana e encostou-se ao sofá. A chuva batia nas vidraças e, de repente, ocorreu-lhe este pensamento que a assustou: "Ele agora vai ficar encharcado. Toda a sepultura se enche de água e ele tinha uma aversão a sentir os pés frios, devido à humidade provocada pelo nevoeiro. Ele que amava tanto o sol! E agora, na sua última morada..." Era uma chave com vários palhetões compridos e muitos dentes, a chave de cofre típica. Dentro da caixa só esta chave, nenhum papel, nem palavras escritas: apenas a chave. Irmgard tirou-a da caixa, olhando-a durante breves instantes, na palma da mão. O cofre do quarto do senhor era um templo sagrado que só ele podia profanar. O que lá fora escondido, durante todos aqueles anos, ninguém sabia, ninguém queria saber e -com a máxima honestidade- ninguém estava interessado nisso. Os pequenos e os grandes segredos de um homem não se desvendam quando se lhes segue o rasto ou quando se violam, pois tornam-se ainda mais inacessíveis, sobrecarregando insuportavelmente a harmonia do dia a dia. Que segredos tem já o homem? Uma mulher inteligente pensa melhor no que está certo e cala-se, tal como uma criança ao tentar esconder um chocolate roubado. Cada homem é uma criança grande que desperta de vez em quando; por isso, deixemo-lo brincar, porque tal o torna feliz, eleva a sua consciência, fazendo-o crer tratar-se de um "sujeito extravagante". Um homem precisa disto, para ser homem. 16 Ela levantou-se do grande sofá, dirigindo-se em direcção à parede da biblioteca, parando em frente do quadro de Gaueuin, representando raparigas dos mares do sul enfeitando uma cadeira com flores. Esta pintura era a original, tal como foi reconhecido por sete peritos. Nos dias de festa ou em reuniões de negócios, esta obra era iluminada por luz indirecta de um projector escondido numa tampa forrada. Deste modo, as figuras sobressaíam e a ilusão era tão perfeita que os seus peitos pareciam respirar. O quadro não era pesado, porque era constituído por um pano de linho enquadrado numa moldura estreita. Para Irmgard, foi muito fácil tirá-lo da parede, colocando-o sobre a carpete Aubusson que cobria todo o chão. O cofre estava ao mesmo nível da parede, uma pequena portinhola de aço, com um buraco de fechadura. Não havia qualquer sistema electrónico de segurança, nem alarme, nem combinação de números ou letras. Consistia, apenas, num simples cofre de parede, não excedendo em altura mais do que dois livros sobrepostos e nada adequado para guardar milhões ou qualquer outro tesouro. A chave entrou, rangendo na fechadura, quando Irma deu volta para abrir a portinhola. Não se admirou ao encontrar no interior, não qualquer tesouro, mas sim rascunhos escolares muito espessos. Eram rascunhos vulgares com uma capa mais dura, semelhantes aos que as crianças utilizam nos seus trabalhos de casa. Um dos cadernos era encarnado, um outro azul, o terceiro verde, o quarto amarelo, o quinto violeta. Nas capas e com a letra abrupta de Hellmuth estava escrito o seguinte: N.o 1, N.o 2 e assim por diante, com a anotação dos anos 1944-1948, 1948-1955, 1956-1965. O último caderno terminava em 19..., sem mais qualquer outro número. Hellmuth Wegener não tinha querido morrer. E a evidência estava à vista. Ela tirou os cadernos, trouxe-os para o sofá, sentou-se de novo, acendeu o candeeiro de pé, porque a luz exterior era insuficiente, tanto mais que o sol estava completamente escondido pelas nuvens negras de chuva, colocou-os no largo espaldar, apoiando ó queixo em ambas as mãos. "Ele escreveu tudo", pensou ela. "Anotou todos os passos da sua vida, nestes apontamentos. Como é possível ter tido tempo para escrever tudo isto, com a vida ocupada que levava? Quando o fez? É a primeira vez que vejo estes cadernos, pois ele 17

nunca me falou na existência deles. Certamente a sua vida foi tão importante que ele achou melhor escrever tudo." Foi uma vida importante? Não foi uma vida como a de milhões de outras pessoas? Sem dúvida que foi uma vida cheia de sucessos, mas normal, como só uma vida pode ser: plena de trabalho, de amor, de preocupações e amigos, de altos e baixos, de problemas e compensações. Uma pessoa que viveu 56 anos, neste nosso tempo, tem alguma coisa para contar. Mas certamente a sua narração não será muito diferente da do homem que se encontra ao seu lado. Ela agarrou no primeiro caderno -o de capa vermelha com a numeração 1944-1948. Antes de abri-lo, fechou os olhos, concentrando-se. A chuva, batendo nas vidraças, soava agora como um tiroteio distante, como o crepitar de chamas... Abriu o caderno e aproximou-se do candeeiro de pé. A letra bem alinhada de Hellmuth -em 1948, quando escreveu isto - impressionantemente jovem e incaracterística, começava uma frase que ela leu quatro vezes, antes de chegar à segunda linha. "Confesso..." "O que terá Hellmuth Wegener, no íntimo, para confessar?", pensou ela. "Conheço-o melhor do que ele próprio, pois imaginou-se tal como queria ser. Eu vi-o assim. Hellmuth Wegener era, como qualquer outra pessoa, um misto de desejo e de realidade." Poisou o caderno vermelho nos joelhos, inclinou-se sobre ele e continuou a ler. O bater da chuva na vidraça continuava a soar como o metralhar contínuo de arma de guerra... 1944. Era uma manhã soalheira de Junho com calor suportável. O abrigo do posto de comando do batalhão situado a leste de Orscha estava ornamentado com uma bandeira e duas grinaldas entrançadas de pinheiro verde. O capitão Hillemann encostou-se à parede revestida de madeira e fumava um cigarro. O tenente Brokamp estava lá fora, de pé no degrau oscilante, aguardando o comandante do regimento e o capelão do exército. Sobre uma mesa feita de estacas de bétula havia um ramo de flores silvestres 18 e uma moldura tosca com uma fotografia. Quatro velas acesas completavam a cena, avivando, com a luz bruxuleante, os olhos da rapariga fotografada que tinha aspecto olímpico, com cabelos louros, grandes olhos azuis e uma boca bonita, em cujos cantos se aninhavam ainda vestígios do tempo de criança. No peito, uma dedicatória: "Para ti, Hellmuth, com amor - Irmi". Hellmuth Wegener encontrava-se perto da entrada do abrigo, bebendo calmamente, por um copo, um pouco de conhaque. Tinha o uniforme limpo, usando os seus distintivos e condecorações: a EK II, a EK I, a da infantaria, a "Gefrierfleischorden" e a dos blindados. Debaixo do braço e, também, irrepreensivelmente limpo, segurava o capacete. A seu lado, encontrava-se o furriel Peter Hasslick, serralheiro em Osnabriick, alto e magro, mascando um bocado de cola. Do outro lado da mesa, o sargento-ajudante Emil Knoll olhava impaciente para o seu relógio de alumínio à prova de água e irritava-se porque o comandante, que exigia de todos pontualidade, já estava atrasado meia-hora. - Você escolheu a mais estúpida das épocas para se casar, Wegener - disse o capitão Hillemann, acendendo outro cigarro; era um fumador tão inveterado que no batalhão corria o boato de que quando se encontrava em zonas de vegetação rasteira, até fumava as ervas secas -, e vai haver merda! Os Ivans avançam. Acredita-se em postos superiores para não nos mijarem nas algibeiras, mas é tudo um engano. Quando os Ivans estão mais calmos, o barulho é muito maior! Conforme se verificava, o silêncio era total. Desde há dias que estavam defronte dos russos, sem que se efectuassem quaisquer operações militares dignas de menção. De vez em quando, algumas patrulhas começavam num tiroteio infernal, atirando sobre tudo o que se movia... mas não vale a pena falar nisto. Os combates eram mais violentos no norte do que no sul. Os soviéticos aqui atacavam em massa, ao que parece, para romper os flancos e o sector médio da frente alemã, obrigando-a a recuar. - Era a melhor altura, senhor capitão - disse Hellmuth Wegener, com os galões de alferes a brilharem à luz das velas. - Em todo o caso, você não terá licença para ir a casa. Todas as licenças foram canceladas. - Por isso mesmo. - Que espécie de casamento pretendem vocês, afinal? -o capitão Hillemann tentava evitar o riso. - Noite de núpcias pelo correio... Que disparate! 19

- Nós amamo-nos. - Mas que estupidez! Amanhã ou depois começará a ofensiva soviética e então cairemos com o rabo no charco e você no meio de toda essa porcaria, em vez de estar ao lado da sua mulher. Hillemann apertou o cigarro, demasiado cheio de makhorca russa.- Desculpe-me, Wegener, sei que estou a ser inconveniente. Devíamos cantar a "Aleluia" e festejarmos o acontecimento com uma bruta piela. Mas já nos conhecemos, meu rapaz. Quanto a mim, este casamento é um disparate, atendendo às circunstâncias actuais e a vocês estarem tão longe um do outro. Sem mais nem menos, ela fica viúva, mal tendo conhecido o marido. Você não acha que eu tenho razão? - Não penso na morte; apenas creio que sobreviverei, senhor capitão - disse Hellmuth Wegener, acrescentando logo em seguida: -E então, para onde devo ir? Precisa-se de ter alguém em quem se possa pensar, que nos espere, quando sairmos desta merda! O capitão Hillemann calou-se. No fundo concordava: "Este alferes Wegener não tinha ninguém; a mãe morrera alguns meses antes, durante um bombardeamento, e o pai falecera já há alguns anos." O capitão Hillemann dirigiu-se para outra mesa, voltando com uma garrafa de conhaque, com que encheu o copo de Wegener e os de Hasslick e do sargento-ajudante Knoll. Beberam, olhando em seguida, perfilando-se, para a fotografia da rapariga loura. Os seus olhos riam. "A pátria", pensava Hillemann, "ela é a pátria, é tudo de que temos saudades." - Há quanto tempo você conhece a menina Lohmann? perguntou ele. - Há meio ano. Uma vez recebi uma carta dela. Acção: " As raparigas alemãs escrevem para a frente de combate.'' Foi por um mero acaso que uma carta me veio parar às mãos. Essa carta era da Irmi. Na distribuição do correio, apanham-se destas cartas à sorte e escreve-se o nome no sobrescrito. O mesmo aconteceu em Smolensk, quando lá estive. - Um ano de merda! - Escrevi-lhe e a resposta não se fez esperar. Aqui começou a nossa correspondência, com uma frequência assombrosa. - Não ofenda o nosso serviço postal militar, Wegener disse Hillemann, com um sorriso, acrescentando: - e por carta vocês apaixonaram-se, ficaram noivos e agora vão-se casar?! 20 Você tem a fotografia dela, ela tem a sua... e pronto. Isto chega? Maravilhosa juventude! - O meu futuro sogro considera-nos loucos. - Aí está um velhote inteligente! - disse Hillemann olhando para o relógio, e o ajudante Knoll fez o mesmo.-Se o comandante não vier, estraga-nos todo o plano, porque, em Colónia, a menina Lohmann passará a ser a senhora Wegener e você não sabe de nada. Só nos restam vinte minutos. - Os Ivans devem ter descoberto a vereda, senhor capitão disse o tenente Brokamp, descendo a escada do abrigo. Experimentámos com um capacete numa bengala. Pff... e o capacete foi-se. Os siberianos são bons atiradores. Ainda não sabemos onde eles estão, mas perdi quatro homens numa acção de reconhecimento. Se o comandante e o capelão quiserem chegar até nós, terão de rastejar. - Bonito! - disse Hillemann, sorrindo ironicamente.- Linda época para um casamento! Até há ambiente, Wegener! Encheu, outra vez, o copo com conhaque, fazendo a garrafa dar a volta pelos presentes, e repartiu com eles os seus cigarros makhorca. Todos receavam o pior. "Têm uma coisa boa: são imunes a toda a espécie de gás!", constava no batalhão. "Se houver guerra com utilização de gás, o nosso batalhão sobreviverá, mesmo sem máscara!" - Só esperamos mais um quarto de hora! - declarou o capitão Hillemann. - Então, tomarei a iniciativa e arcarei com a responsabilidade de proceder ao casamento. Junho de 1944. Estava um dia de sol com calor suportável. Sobre parte do centro bombardeado de Colónia, o céu apresentava-se azul. As pessoas começavam a remover os destroços, a consertar as casas, tentando reconstruí-las com pedras e telhas, cobrindo as janelas com vidros com armação de arame. Diante das lojas formavam-se enormes bichas para a ração extraordinária de 100 gramas de açúcar e 200 gramas de pão. As mulheres idosas trocavam cigarros por leite; diante dos talhos de carne amontoava-se muita gente com jarros e tachos, para conseguir um pouco de caldo de chouriço, isto é, água quente com alguns olhos, com que a custo se preparava uma sopa de massa ou sémola, cevadinha ou farinha, da qual não se podia 21

fazer pão. Os bocados de chouriço de fígado picado, cuja cor era completamente diferente da real, eram conservados em sal e noutros condimentos. A espaçosa sala II do Registo Civil de Colónia-Lindenthal, com um esplendoroso quadro do "Fiihrer" numa das paredes, tinha a grande mesa decorada com flores e um brilhante capacete de aço. Atrás deste, numa moldura de prata (emprestada ao Registo Civil para a celebração da cerimónia), a fotografia do jovem alferes Hellmuth Wegener, com aspecto sorridente, cabelos castanhos e olhos irradiando felicidade. A boca, quase infantil, deixava transparecer energia e ternura. Diante da mesa, sentados, em fila, ao lado uns dos outros, da esquerda para a direita, o tio Hannes Lohmann, o farmacêutico Johann Lohmann e a noiva Irmgard Lohmann, esta trajando um vestido azul pálido, até aos joelhos, e nos cabelos louros ostentava uma pequena grinalda de rosas amarelas, que, devido ao facto de o pai ser farmacêutico, foram cedidas por um jardineiro de Stadtwald. Ao lado da noiva, também sentado, encontrava-se Heribert Bluttke, amigo de Johann Lohmann e industrial de transportes, cujos camiões tinham sido todos requisitados, excepto uma velha carroça, com a qual ele agora procedia à remoção dos escombros, sendo este serviço pago metade em dinheiro e a outra metade em géneros. Irmgard tinha, no regaço, um ramo de rosas vermelhas dadas pelo mesmo jardineiro indicado anteriormente, em troca de quatro quilos de sémola. Calada, com expressão grave bem vincada no rosto infantil e compenetrada da solenidade do momento, o olhar dela ora se fixava no capacete de aço, ora na fotografia. Do lado oposto da mesa e de pé, o funcionário Peter Schmitz VII, conhecia o alto significado deste acontecimento. A luz do sol passando pela janela fazia realçar o seu uniforme amarelo-torrado do partido. "Brilha como excremento de criança", pensava Lohmann pouco dado a espalhafatos. "Tudo isto é uma palhaçada. Casamento por correspondência! Como é possível a Irmi ter caído nisto? Onde terei eu falhado na educação que lhe dei? Se a mãe fosse viva, tudo seria diferente." No grande ataque a Colónia, em Maio de 1943, a Sr.a Lohmann, ao descer a escada do abrigo antiaéreo, com duas malas nas mãos, sofreu uma rotura na coxa, vindo a falecer de uma embolia, dias mais tarde. 22 - Esperemos dez minutos! -disse Schmitz VII solenemente tirando o casaco. Lohmann admirou-se que o "excremento de'criança" não se desfizesse nas mãos desse indivíduo, pois nunca sentira qualquer simpatia por tais "dirigentes políticos". Os seus amigos, que também usavam uniformes do mesmo género, porque para tal tinham recebido ordens, visitavam-no à paisana.- Com certeza que lá longe e agora mesmo, menina Lohmann - continuou SchmitzVII - o seu noivo se encontra de pé, em frente de uma mesa, a pensar em si. Que momento formidável! Um jovem herói e uma moça alemã encontram-se para a união perpétua da Alemanha em época muito difícil, mas grandiosa! Além disso, é a primeira vez que se realiza um casamento no Registo Civil de Lindenthal. "Realmente é muito raro assistir-se a um disparate destes", reflectia Johann Lohmann, olhando de soslaio para a filha. Ela mantinha-se sentada e aprumada, com o ramo de rosas no regaço, olhando para a fotografia de Hellmuth Wegener, com um sorriso sonhador. "Ela realmente gosta dele", continuava Lohmann, seguindo o seu pensamento. "Custa-me a acreditar em tal! Trava conhecimento por carta, troca fotografia retocada, embebe-se em palavreado e de repente descobre que ele é o homem da sua vida, casa e amanhã é capaz de verificar que já é viúva! Durante horas, dias, falei com ela, tentando dissuadi-la, mas foi em vão. Atravessamos um tempo de paralisação total dos cérebros; as verdades são como bolas de sabão. O problema dele já eu compreendo, porque os pais já morreram, agora ela..." Algures, o tique-taque de um relógio perturbava o silêncio reinante. Da parede, por detrás da secretária, o "Fuhrer" observava a cena, com semblante carregado. Johann Lohmann olhou-o com raiva. "Tu és o maior culpado disto tudo'', refectia ele. "Sei que não se deve pensar assim, mas se juntarmos a mais insignificante pedra de culpa a outra, a mais outra e assim sucessivamente, forma-se um monte que, mais cedo ou mais tarde, te esmagará e a nós também, porque te escolhemos. "Fuhrer", nós pertencemos a uma geração esquizofrénica..." - Ainda faltam cinco minutos! - disse Schmitz em voz alta. Abriu o livro dos registos de casamento, fixando a vista no capacete de aço. Os seus olhos dardejavam de emoção e de dignidade própria do homem germânico. - Quando for a hora exacta aqui e na Rússia, o seu noivo estará na presença do comandante. Menina Lohmann, concentre-se no que lhe acabo de dizer... 23

"Oh! Céus! Cala a boca!-pensou Johann Lohmann, cruzando as pernas. Heribert Bluttke tossicou levemente e o tio Hannes lacrimejou. Ele era como a mãe e chorava sempre que alguma coisa o comovia. - Pronto - disse Schmitz VII quebrando o silêncio. - Agora a pátria e a frente de combate estão ligadas... Dez minutos antes do prazo determinado, o comandante do regimento, major Blauer e o capelão das Forças Armadas, Dr. Zoller, desceram, a correr, a escada do abrigo, em direcção à mesa do casamento, embora o tenente Brokamp os quisesse deter. Lá fora ouvia-se um pff-pff-pff homicida, seguido dos ricochetes das balas na terra seca e nas pedras, o que levantava muita poeira. O major Blauer e o Dr. Zoller saltaram, sacudiram o pó dos uniformes e procuraram ar puro. O sargento-ajudante Emil Knoll e o furriel Hasslick mantinham-se perfilados, enquanto o capitão Hillemann e o tenente Brokamp ajudavam a limpar os uniformes dos recém-chegados. - Dois ou três de vocês, sentem-se aí!-gritou o major Blauer. - Suponho que poderemos atingir a colina além, com um lança-granadas, Hillemann! - Temos ordem do Comando da Divisão para poupar munições tanto quanto possível. Nenhuma acção isolada e ripostar só em caso de ataque. - Disfarçadamente, Hillemann sorriu com ironia. - Não posso combater os soviéticos com uma zarabatana, senhor major. - Isto é uma calamidade, Hillemann! Neste caso, vamo-nos deixar apanhar como lebres? - Tirou o boné das mãos do tenente Brokamp e sentou-se. O Dr. Zoller procurava qualquer coisa por debaixo do casaco da farda, praguejando, em atitude pouco cristã. - Merda! - disse ele. - Mas que merda! Desculpem! Perdi a minha cruz quando rastejávamos. Saltou facilmente da corrente gasta! - A agora você fica para aí a berrar, como uma rapariga a quem acabaram de desflorar? - perguntou o major Blauer com um riso descarado. - Tenho as minhas mãos - disse o capelão, Dr. Zoller, 24 esfregando-as uma na outra, apesar de sujas. - Onde existe a crença, Deus está presente. - Amen! O major Blauer consultou o seu relógio de pulso, no que foi furtivamente Irmitado pelo impecável sargento-ajudante Knoll. - Ainda temos cinco minutos! -e voltou-se para Hellmuth Wegener que permanecia diante da mesa a observar a fotografia de Irma Lohmann. "Neste momento, em Colónia, ela está sentada à frente da minha fotografia", pensou ele, "com um capacete de aço colocado simbolicamente em cima da mesa. Dentro de alguns minutos seremos marido e mulher. Irma, será realmente assim...?" - É este o feliz noivo? Wegener deu a volta, parou e bateu os calcanhares. - Sim. Sou eu, senhor major. Alferes Hellmuth Wegener da Terceira Companhia. - Há quanto tempo está connosco? - Há três meses, senhor major. Apresentei-me a Vossa Excelência quando eu... - Não fixo nem nomes, nem caras, Wegener - interrompeu o major Blauer. - Vamos a isto. Quem começa? Você, senhor capelão? - Conte só os seus feitos. O Dr. Zoller tirou da algibeira do uniforme uma caixinha de metal. Continha um recipiente para hóstias e um minúsculo cálice de prata. - Pelo menos, consegui trazer isto a salvo. Vocês têm cá vinho, Hillemann? - Não. Aqui só há conhaque. Porquê? É pecado? - O conhaque extrai-se do vinho. Portanto, está conforme a Lei de Deus - disse o Dr. Zoller, com voz suave. - Só mais um minuto, senhor major. Lá fora, os lança-granadas russos não se calavam. Os "Landser" alemães escondiam-se, invejando os Ivans pelo esbanjamento de munições, mas sentiam-se bem. Estava um dia quente e calmo, talvez fosse o último. Quando amanhã ou depois começar a ofensiva soviética, já não haverá céu azul. Então, o mundo ficará vermelho, a terra abalará e muitos dos que agora estão isolados ao sol ou a dormitar, dormirão eternamente. 25

O major Zoller pôs-se por detrás da mesa, olhou para a fotografia de Irmi Lohmann, cumprimentou Wegener, estendendo-lhe a mão. Consultou o relógio, pois queria começar o discurso à mesma hora que em Colónia-Lindenthal o membro do partido e funcionário do Registo Civil, Schmitz VII, fazia o mesmo. - Ora bem - disse ele, quando o ponteiro atingiu a hora determinada. - Alferes Wegener: você é corajoso, como todo o alemão digno deste nome, pois resolveu contrair matrimónio com uma moça alemã igualmente corajosa, na época mais difícil da nossa Pátria, tendo o inIrmigo diante de nós. O capitão Hillemann tossiu. O major Blauer olhou de soslaio para o noivo, compreendeu o gesto de Hillemann e debruçou-se um pouco sobre a mesa. - Apressemo-nos, Wegener. Sobre o amor não se deve discutir e sobre o optIrmismo da juventude ainda menos. É óptimo acontecer algo de bom e que seja sempre assim. Para mim, esta é a ideia única e verdadeira da vida eterna e não essa que o capelão conta. Alferes Hellmuth Adalbert Wegener: pergunto-lhe se é de sua livre vontade casar com Irmgard Helena Erna Lohmann? Responda "sim". - Sim! -respondeu Hellmuth Wegener em voz alta. Em seguida, todos baixaram as cabeças. A poeira espalhava-se do tecto forrado, que estalou algures. Uma granada acabava de acertar no abrigo, mas foi muito fraca para conseguir destruí-lo. - Depois lhe explicarei quais os deveres do homem e da mulher -disse o major Blauer, tossindo com força. -Mas que merda! Hillemann, você tem dez tiros de lança-granadas à sua disposição, sob minha responsabilidade. Rebente com os gajos daquela maldita colina! À mesma hora, em Colónia, Schmitz VII acabava de falar acerca do "Ftihrer" e da Pátria e dos deveres dos jovens alemães, no sentido de gerarem muitos filhos. Referia-se ao heroísmo e espírito de sacrifício, citando as epopeias de Rommel e auto-elogiava-se. Johann Lohmann, pasmado, arregalava os olhos para ele. Só o conhecia como doente que sofria de gastrose crónica e que três vezes por semana ia à farmácia adquirir reconstituintes, sem receita médica. 26 - E agora pergunto-lhe, Irmgard Helena Erna Lohmann, deseja contrair matrimónio com o alferes Hellmuth Adalbert Wegener? Se assim é, responda nítida e claramente, "sim''! - Sim! -respondeu Irmgard em voz alta. Johann Lohmann estremeceu. Foi a palavra mais dolorosa que já ouvira em toda a sua vida. Um simples "sim" e perdia a sua filha. Nesse preciso momento, ela deixava de se chamar Lohmann, para adquirir o nome Wegener. Começava uma nova vida. Schmitz VII ainda quis dizer mais qualquer coisa, antes dos cumprimentos, mas foi interrompido pelo uivo penetrantemente inconfundível da sirene anunciando Irminente ataque aéreo. Já não havia possibilidade de pronunciar mais quaisquer palavras, devido ao som estridente emitido pelo aparelho colocado mesmo no telhado do edifício do Registo Civil. - Isto é demais! Mesmo em pleno dia! - gritou Schmitz VII, apanhando os documentos à pressa. - Todos para o abrigo! Johann Lohmann não se moveu dali. Abraçou a filha, deu-lhe um beijo nos lábios frios e trémulos, tirando-lhe o ramo de rosas. Ela curvou-se sobre a mesa, retirou a fotografia do marido, metendo-a no decote do vestido entre os seios. Ao longe, já ribombava a defesa antiaérea e explodiam as primeiras bombas com um som abafado. Schmitz VII saiu a correr da sala, o tio Hannes, com lágrimas nos olhos, seguiu-o e só Heribert Bluttke ficou à porta. - Os que andam lá por cima não sabem que está aqui uma noiva feliz - disse ele, quando a sirene se calou. - Vamos para o abrigo! - Tenho uma dúvida - respondeu Lohmann tranquilamente. - Schmitz VII esqueceu-se de dizer: "Com isto e para todos os efeitos oficiais, declaro-vos marido e mulher." Acham que o casamento é válido? - Eu disse "sim"-Irmgard Wegener, como se chamava agora, deu o braço ao pai e continuou: -Tudo o resto não interessa. Helmuth terá licença no Natal. Ele não teve qualquer licença. No dia 21 de Junho os russos entraram em Bobruisk, Mogilew, Orscha e Witebsk para a ofensiva final. Com fogo cerrado de artilharia, como não havia memória, milhares de 27

canhões martelaram as divisões alemãs. O 3° Exército de Blindados alemães, assim como o 4.º e o 9.º, encontravam-se em frente de uma formação russa que rolava irresistivelmente, como uma torrente, sobre a erva seca. Quatro frentes soviéticas, a "1.a Frente Báltica" comandada por Bragamyan, a "3.a Frente de Russos-Brancos" de Tschernjakowki, a "2.a Frente de Russos-Brancos" de Zakharowe a "1.a Frente de Russos-Brancos" de Rokossowski, lançavam-se impiedosamente, sem olhar a baixas de homens e de material, contra as posições alemãs. Deste modo, uma manhã tranquila de Verão transformou-se num verdadeiro inferno; o céu, antes azul, escureceu com o fumo e com as nuvens de terra arrancada do chão. No dia 24 de Junho abriu-se, ao sul de Witebsk, uma brecha de 4 km nas posições do 3.º Exército de Blindados. As divisões russas deslocaram-se donde estavam, indo cercar os alemães, aniquilando-os ainda antes de o Quartel-General do Exército ter tempo de reagir. Neste dia, 24 de Junho, em que já se avizinhava o fim da frente média, Hitler ordenou que as posições se mantivessem, proibindo toda e qualquer retirada. No dia 25 de Junho, a ligação com o 4.o Exército ficou cortada. A "3.a Frente de Russos-Brancos" alcançou a estrada Orscha-Borissow, a principal via de abastecimento da Rússia. Por ali seguiam os transportes, após luta renhida com o 4.o Exército", agora completamente destroçado. O capitão Hillemann morrera no dia 21 de Junho, o tenente Brokamp desaparecera e quanto ao sargento-ajudante Knoll, uma granada arrancara-lhe meia face; já nada se podia fazer por ele, a não ser deixá-lo ficar a uivar como um lobo ferido, mendigando que lhe dessem uma pistola. De repente caiu para não mais se levantar, enquanto os outros continuavam a correr. Nunca mais se ouviu falar do major Blauer, porque a sua posição de combate fora esmagada pelos blindados soviéticos. Todos o Estado Maior ainda permanecia no abrigo, quando um T 34 se aproximou, apontou o canhão e, com um só disparo, transformou tudo numa massa sangrenta. Apenas o capelão das Forças Armadas, Dr. Zoller, continuava vivo, porque se refugiara atrás de uma parede. Apareceu no hospital milita" de Borissow com a farda rasgada, salpicada de sangue e barba crescida, vagueando por entre os mortos, abençoando-os. 28 ,>, Hellmuth Wegener e Peter Hasslick conseguiram chegar à pequena aldeia de Saledjow no Dnieper. Estavam completamente



sós e ignoravam a sorte dos outros companheiros. Sentaram-se na margem junto ao rio que por ali corre indolentemente. A aldeia fora abandonada e queimada a maior parte das cabanas. Para o sul do lugar onde se encontravam, continuava a ouvir-se o trovejar ininterrupto da artilharia russa, castigando, sem cessar, as posições alemãs e abrindo caminho para Mogilew. Para o norte, o céu estava negro devido ao fumo provocado pelo incêndio no oleoduto de Orscha. À frente deles, só o rio sem qualquer barco para atravessá-lo. - Temos de ir a nado! - disse Wegener. - Sabes nadar, Peter? - Não muito bem, mas nesta calmaria sou capaz de o conseguir. Desceram em direcção ao rio, despiram os uniformes, ataram-nos num feixe à volta das pistolas e lançaram-se à água. Quando já tinham a água pelos joelhos, apareceu em cima, no declive da margem, um rapazito franzino, com cerca de 9 anos. Trajava um fato esfarrapado, escurecido pela fuligem, e a sua face magra de criança tremia, correndo-lhe lágrimas abundantes pela cara suja. Nas mãos trémulas segurava uma espingarda. Ao ver os dois alemães, levantou-a, apoiando-a nos ombros, apontou-a arqueando o pequeno indicador no gatilho, e disparou. O tiro quase o fez cair, mas não perdeu o equilíbrio, tendo ficado com as pernas abertas. - Este é pelo pai! - exclamou ele.-E este pela "mamuschka"'. Vocês mataram-nos. Vocês mataram todos! Malditos ' 'germanski''2! Disparou mais uma vez, com as lágrimas correndo em abundância pela face. Hellmuth Wegener caiu na água, como se um punho de ferro em brasa o tivesse atingido nas costas. Levantou-se, vacilou, caiu para cima de Hasslick que o precedia e o amparou firmemente. Nesse momento ouviram outro tiro ecoando na amplidão da terra iluminada pelo sol. - Fui atingido, Peter! -balbuciou Wegener.- Nas costas! Maldição! y 1 Mãezinha. (N. do T.) 2 Germânicos. (N. do T.) 29

A sua voz começou a enfraquecer, espuma avermelhada brotou dos lábios, agarrou-se com força a Hasslick, fitando-o com olhar distante. - Os pulmões! - disse ele. A espuma ensanguentada impedia-o de falar. - O pulmão esquerdo, Peter... - Hellmuth, não digas disparates! Hellmuth! Hasslick segurou Wegener por debaixo dos braços e arrastou-o outra vez para o rio. Quando a água estava à altura do estômago, fez-se ouvir o segundo tiro. A bala bateu na água e atingiu Hasslick na parte superior da coxa direita. Este vergou-se, cerrou os dentes, mas agarrou Wegener com mais força. - Agora foi a tua vez! - disse Wegener com voz ofegante. Deixa-me aqui. Atira-te à água! Ainda tens uma oportunidade! Safa-te daqui, Peter... - É só um arranhão, Hellmuth. - Ainda bem! Nada sozinho! - Cala a boca... Hasslick respirava com dificuldade. A coxa ardia, sentia sacudidelas no interior de toda a perna direita e os nervos descontrolados. Virou-se, pôs Wegener às costas e tentou atravessar assim o Dnieper. - Podes ajudar-me? - perguntou arquejante. - Podes mexer um pouco as pernas? - O pulmão esquerdo!-Wegener vomitou sangue que correu pelo queixo, garganta e peito. -Peter, deixa-me aqui! Já não vale a pena. Peter... - Bico calado! Então lançaram-se à água, a corrente desviou-os lige:ramente e era mais fácil nadar com Hellmuth às costas do que Hasslick anteriormente pensara. Wegener mexeu as pernas, mas parou de repente. Agonizava e a espuma ensanguentada continuava a sair como bolas vermelhas de sabão. Entretanto, na margem situada na orla da aldeia de Saledjow, agora incendiada, e sentado por cima da erva alta, encontrava-se o rapazinho com a espingarda sobre os joelhos magros, com os olhos cravados nos dois militares alemães que se debatiam na água. - Estamos quites! - exclamou chorando. - Vocês mataram "Mamuschka", Irinuschka e todos. Vocês mataram todos! Finalmente, estão vingados. 30 Em seguida atirou-se para a erva e desapareceu por detrás dela, uivando como um lobo pequeno. Finalmente conseguiram chegar à outra margem do Dnieper. Com as poucas forças que lhe restavam, Hasslick arrastou-se para terra, puxando Wegener para fora da água. Este ainda vivia, tinha os olhos muito abertos e a respiração ofegante; a cada aspiração, aparecia nos seus lábios sangue vermelho-claro dos pulmões. Hasslick continuou a arrastar Wegener, mas já não podia mais. Ele próprio se admirava como ainda podia andar, apesar de ter levado o tiro na coxa. Parou junto a um montão de terra onde encostou Wegener e sentou-se junto dele. Enrolou, em feixe, a farda e a insígnia MP que trazia ao peito, estendeu tudo para secar ao sol e tirou da algibeira os três pacotes atados, molhados como tudo o resto, e um bocado de musselina pegajosa. Hellmuth sacudiu a cabeça. - Deixa-te de disparates, Peter - disse ele com dificuldade. A sua voz tinha mudado; estava profunda e sussurrante. -Isto está no fim. Tens de me acreditar, idiota... tenho quatro semestres de medicina... - a espuma sanguínea espalhava-se sobre o peito arquejante. - Deixa-me ficar aqui, companheiro! - Se continuas a dizer asneiras, dou-te um murro!-exclamou Hasslick, impelindo Wegener para a frente. Observou a ferida que este tinha nas costas e compreendeu que o fim do seu camarada estava realmente muito próximo. Apertou com a braçadeira a musselina molhada e acomodou Wegener no montão de terra. - Isto faz bem - disse Hellmuth sorrindo desfigurado. Refresca... Estiveram ali, na margem do Dnieper, cerca de sete horas, até que apareceram do outro lado vários camiões cor de terra. A estrela vermelha nos radiadores brilhava ao sol da tarde. Um grande número de soldados soviéticos começou a saltar dos compartimentos de carga, pôs-se em forma a observar os dois alemães. As vozes dos recém-chegados faziam-se ouvir distintamente. Em seguida tiraram um barco pneumático de um dos camiões, encheram-no de ar e lançaram-no ao rio. - Eles vêm aí -disse Hasslick. Recostou a cabeça pálida e febril de Hellmuth no seu colo. O 31

sangue espumoso, semelhante a mel turco, continuava a correr dos lábios. Wegener abriu os olhos. Reuniu forças para falar e, quando o conseguiu, agarrou na mão direita de Hasslick poisada sobre o seu peito. - Peter... - Não digas nada, Hellmuth! Dentro de meia hora aplicar-te-ão o necessário penso e amanhã estarás num hospital militar russo. - Guarda os meus papéis... - Porquê - Para a Irmi, para a minha mulher não ficar viu vá... - Eh pá! Tu levaste um tiro foi nos pulmões, não foi na cabeça. - Ela nunca deverá saber que eu morri, pois amam-me muito. Ainda para mais tu és parecido comigo... e visto que... visto que terei de dar um homem a Irmi, prefiro que esse homem sejas tu... - tossiu e ergueu levemente o corpo pálido. A espuma voltou a sair em abundância da boca. - Tu... tu és um amigo a valer, Peter... és bom rapaz... Se sobreviveres... faz-me este favor... - Pronto, cala a boca! - disse Hasslick com rudeza. - Os Ivans dirigem-se para aqui. Tem esperança, porque agora já se sobrevive com um tiro nos pulmões. Uma vez o barco pneumático encostado à margem onde se encontravam os alemães, os soldados russos lançaram-se através da erva alta e seca. - Stoj!" - gritavam eles. - Stoj!'' - Como se ainda pudéssemos correr, filhos da...!-desabafou Hasslick. Colocou o braço à volta de Hellmuth Wegener, ajeitou o seu próprio corpo até sentir a coxa direita adormecida, puxou o casaco do companheiro para si e tirou os documentos. Reflectiu um pouco sobre o caso, juntou todos os impressos e cartões de identificação, trocou só os casacos, estendendo o de furriel sobre o corpo nu de Wegener. - Obrigado, Peter - murmurou Hellmuth. -És um verdadeiro camarada e amigo. 1 Parem! (N. do T.) - Tudo isto é escusado. Vais ficar curado, Hellmuth, digo-te mais uma vez! Em seguida levantou os braços, sorrindo de esguelha. Os russos rodearam-no, gritando em confusão. Não percebia nada do que esses asiáticos diziam, mas a palavra "sanitarni" ecoou nos seus ouvidos como qualquer coisa ligada a Serviços de Saúde e isso fê-lo sentir-se feliz. Inclinou a cabeça. De repente, o rio, a terra e o céu giraram à sua volta e desmaiou. 32



Capítulo segundo Despertou com a dor que, como fogo, lhe devorava a parte superior da coxa esquerda. Tinha debaixo de si uma manta suja, cheirando a urina; o seu corpo oscilava de modo estranho, tremendo e saltando em sacudidelas constantes, acentuando-lhe ainda mais o sofrimento que até se estendia ao cérebro. Um turbilhão de ideias confusas fê-lo levantar a cabeça, antes de perder os sentidos. "Encontro-me num camião"-pensou ele. "Estou deitado debaixo do tejadilho, sobre a carga e não sei para onde me levam." Ouvia o estalar da tela, o zumbir do motor, o chiar dos pneus e, à distância, como uma tempestade monstruosa, o ribombar incessante de frente de batalha. "Estou vivo", prosseguiu. "Estou realmente vivo. Não me partiram o crânio, não me trespassaram o corpo com baionetas, não me deram qualquer tiro na nuca. Fizeram-me um curativo e agora levam-me para a retaguarda, para a terra que reconquistaram. No pais deles... A verdade é que me salvaram! Quem diria que os russos seriam capazes disto?" Deixou cair a cabeça na manta urinada, apalpou cuidadosamente a parte superior da coxa e notou que estava nu da cintura para baixo. Realmente tinham-lhe posto um penso, vestido o casaco da farda e metido num camião. Abanou a cabeça sem encontrar qualquer explicação para o caso, a não ser o facto de terem salvo um soldado alemão, enquanto que na vastíssima frente, milhares de homens jaziam por terra; para eles, a guerra já tinha acabado. Lá fora era noite, o sol já não atravessava a cobertura do tecto do carro. Estive inconsciente durante horas'', pensou, "e este cheiro horrível é da minha própria urina! Quer dizer: urinei-me enquanto estive desmaiado e para aqui estou sobre aquilo que é meu. Mas o principal é estar vivo..." Fechou os olhos, a terrível dor apanhava-o por completo, gemeu baixinho, pressionando a coxa ferida com a mão direita. E com este gemido lembrou-se de que talvez não estivesse sozinho. Quando os russos, essa subgente morena de olhos oblíquos, oriunda das estepes asiáticas, o rodearam, estava sentado num monte de terra, com a cabeça de Hellmuth Wegener deitada no colo. Tinham os casacos trocados, da boca de Wegener saía 35

espuma ensanguentada, cuja cor avermelhada se assemelhava a mel turco. - Hellmuth! Peter Hasslick voltou-se gemendo. A seu lado, junto à parede do carro e em posição contrária, vestido só com umas calças e de tronco nu, jazia Wegener. Também lhe tinham aplicado um penso, lavado a cara e limpo o sangue; somente um fiozinho corria da comissura dos lábios, por cima do queixo. Conservava os olhos fechados e expressão indiferente, nfarmórea, com nariz afilado e face magra. - Hellmuth! - chamou Hasslick em voz alta, rangendo os dentes. O carro dava solavancos, saltos por cima de buracos, de valas transversais e de pedras, rolando num chão mole e de pura consistência que se transformava em lama duas vezes por ano. - Sim... - murmurou Wegener. O derramamento de sangue aumentava, formando gotas, mas já não havia espuma. A respiração mal levantava o peito. - Estamos vivos, Hellmuth! Não acreditas no que te digo, meu velho? Temos toda esta merda connosco, mas não morremos! Trataram as nossas feridas com pensos e levam-nos para a retaguarda. A guerra acabou para nós! Hasslick colocou-se de lado, na sua manta urinada, aproximando-se de Wegener. Curvou-se sobre ele, olhando-o fixamente. "Tenho a impressão que está vivo", pensou ele assustado. Uma pessoa que está morta e ainda fala..." Apalpou a cabeça e a cara infantil de Wegener sucumbidas pela febre ardente que o deixava descorado. - Hellmuth - disse Hasslick com a garganta embargada. Hellmuth, conseguimos! Eh pá! Reage! Dentro em pouco tiram-nos daqui e entregam-nos aos cuidados de algum médico... - Dentro em pouco... - murmurou Wegener imperceptivelmente. Hasslick teve de se debruçar sobre os lábios do companheiro, para conseguir percebê-lo. "Não faz sentido..." - No hospital militar apaparicam-te. - Bala... -sussurrou Wegener entreabrindo os olhos, mas fê-lo com muita dificuldade. Através e por detrás das pálpebras flácidas olhou para Hasslick -...alojada no pulmão, Peter... operação... não pode ser... 36 O esforço fê-lo desmaiar. Fechou os olhos, outra vez. A respiração mal passava pelos lábios inchados. "Diabo! Mas para onde nos levam estes idiotas?", perguntava Hasslick a si próprio. "Podiam ter-nos deixado morrer no Dnieper ou dar-nos uma marretada na cabeça!" - Estamos a chegar, Hellmuth - disse ele, acariciando o rosto lívido e magro do seu camarada. - Estamos quase a chegar. Quando nos meteram aqui, pensei que isto não era tão longe... Uma hora depois, o carro ainda continuava a andar, mas com menos solavancos. As rodas guinchavam e a estrutura estremecia com mais ritmo. Hasslick, sentado junto de Wegener, fitava o tecto que estalava com a deslocação do ar. "Estrada empedrada", pensou ele. "Vamos entrar numa cidade!" - Eh! Rapazes, Hellmuth, estamos mesmo às portas de uma cidade! Ao abrir-se uma das cortinas, milhares de sons chegaram aos seus ouvidos: eram zumbidos de motores, ruídos de blindados, relinchar de cavalos, vozes, ribombar de tanques, chamamentos, buzinas, etc. O carro deu um balanço mais forte, talvez por ter entrado numa curva apertada, os travões rangeram e, finalmente, parou. Mais vozes, alguém bateu com um objecto duro no carro. Hasslick pôs as mãos no peito de Wegener e esperou. Levantou a cabeça quando retiraram o tecto e, no escuro - de facto já era noite- enxergou uma cabeça. - Podes andar? - perguntou uma voz. - Se tem de ser... -Hasslick levantou-se. A cabeça inclinou-se um pouco para trás. - Cá para fora! Hasslick deslizou um pouco para a frente, a portinhola da carga abriu-se. - O meu amigo - disse em voz alta. - Primeiro o meu amigo. Eu tenho tempo. Cá para fora! - repetiu a voz em tom penetrante. "Davai"!1 Imediatamente - respondeu Hasslick obedecendo. Vamos!'' Forma imperativa do verbo russo 'davath'' (ir). (N. do T.) 37

"Agora temos de nos habituar a isto", pensou ele. "Somos prisioneiros de guerra. Carneirada e nada mais. Mas estamos vivos e dão-nos oportunidade de sobreviver." Arrastou-se para a frente, pendurou as pernas e olhou em volta. O carro parara em frente de uma escola. Era uma velha construção de tijolos, bem iluminada. Diante da entrada estavam estacionadas ambulâncias russas a descarregarem feridos que os enfermeiros, em passo acelerado, transportavam para o interior do edifício. "Meu Deus! A escola conheço eu!", raciocinou Hasslick. "Estamos em Orscha." Tratava-se realmente do Hospital Militar Alemão de Orscha. Em cada sala de aula enxergões ao lado uns dos outros, na sala de geografia as camas dos oficiais feridos, na câmara dos professores a sala de operações, esta com uma mesa de operações portátil e mais três de cozinha. Na cave empilhavam-se os cadáveres. O número de mortos aumentava assustadoramente e as sepulturas começavam a ser insuficientes. Quatro mãos agarraram-no e levantaram-no do camião para ampará-lo. O motorista do carro, um pequeno calmuco, dirigiu-se a ele, rindo ironicamente. - Está bom? - perguntou ele.-Está bom? Hasslick tentou arrastar a perna direita. Contra todas as previsões, não encontrou força para conseguir movimentar-se. Apoiou-se nos dois russos que o tinham ajudado a levantar e olhou para trás, para o interior escuro do camião. - Ò meu amigo - disse ele. - Vamos! Era o russo cuja cabeça ele tinha visto quando o carro parara, um velho tenente na Reserva, encarregado de manter a disciplina na zona da retaguarda. "A retaguarda! Orscha já é na retaguarda", pensou Hasslick. "Os Ivans estabeleceram isto aqui. É uma ruptura. Não será o fim?" Coxeava, apoiando-se nos dois russos, em direcção à entrada da escola. Quando chegavam à plena luz do portão escancarado, saía uma médica russa. Era uma moça bonita e elegante com galões largos no uniforme. Olhou para as ambulâncias e, num relance, viu Hasslick. Nesse momento Hasslick reparou que não tinha qualquer roupa. Fixou a vista na simpática médica, mas ficou embaraçado, 38 sentindo o sangue afluir-lhe às fontes. Quis pôr uma mão à frente do sexo, mas não se arriscou a tal, porque, cheio de medo, não podia perder o apoio. Deste modo, manteve-se entre os russos e aguardou que a jovem médica voltasse ao edifício. Esta, porém, nem reparou nele; deu uma volta e, com voz clara, ordenou qualquer coisa, após o que regressou, correndo, ao interior, pelo corredor comprido. - "Davai!"- disse um dos russos que apoiavam Hasslick.- Vamos! Puseram-no no vestíbulo, em cima de um banco. Hasslick encostou-se, estendeu a perna direita e esperou. Estava preocupado com o seu camarada. Agora traziam Hellmuth Wegener numa maca de duas barras e um pano de tenda. Deixaram-no junto do banco de Hasslick e voltaram a sair. Este curvou-se sobre o amigo. Wegener ainda respirava, mas o rosto mantinha-se com expressão distante e sem vida. - Um médico! -gritou Hasslick de repente, quando passavam duas enfermeiras russas. - "Lékar"!1 Um médico! "Lékar"! As enfermeiras estremeceram, olharam zangadas e uma exclamou: - Germanski perdido! Percebe? Não tem salvação! Continuaram a andar, comentando o facto e rindo. Hasslick não fazia a menor ideia quanto tempo estivera ali acocorado, nu da cintura para baixo. Tantas vezes a médica soviética passou por ele, que já não se preocupava em esconder com a mão a sua masculinidade; era-lhe indiferente, sentia-se tão envergonhado como se estivesse à porta do inferno! Chamou a médica, mostrou-lhe o amigo, dizendo: - Salve-o, " pomoschtsch..." 2 A bela médica parou, observou Wegener, sacudiu os ombros e, fixando a vista em Hasslick, respondeu-lhe duramente em alemão correcto: - Em primeiro lugar, os feridos russos. - Todos nós estamos a combater e a morrer nas margens à& Dnieper! - exclamou Hasslick. : Vou-lhe mandar um médico alemão. 1 Médico. (N. do T.) 2 Amigo, ajuda. (W. do T.) 39

- O quê? Há médicos alemães aqui? -perguntou Hasslick batendo com a mão direita no peito nu. A médica esboçou um sorriso e nos seus olhos negros e frios apareceu um ponto amarelo - reflexo da lâmpada eléctrica que oscilava na parede, por cima de Hasslick. - Seu porco! - disse ela com asco. - Porco, mas orgulhoso, não é? Orgulhoso até à morte! Tocou levemente nas insígnias de infantaria e na braçadeira dos blindados que Hasslick ostentava, levantou a mão, esbofeteou-o com força, voltou-se e foi-se embora. Hasslick ficou sentado entorpecido e com olhar fixo. - Mas que merda! - exclamou, passado tempo, pois era evidente ter pertencido à mesma unidade do alferes Wegener que em 1943 fizera ir pelos ares quatro tanques inIrmigos com cargas de dinamite. A multidão de feridos nunca mais acabava. Ininterruptamente, das ambulâncias descarregavam-se corpos esfrangalhados, os enfermeiros entravam correndo, na sala de operações. Ouviam-se lamentos e gritos reprIrmidos a custo e pairava no ar um cheiro a sangue, a pus, a urina e a excrementos. - Maria Fedorowna acabou de me dizer que tinham chegado dois camaradas, disse uma voz. Hasslick sobressaltou-se; estava adormecido, exausto e quebrantado pelas dores que o atormentavam e ninguém aparecia para as atenuar. Mas, de repente, viu diante de si um homem de cabelo branco, trajando uniforme germânico com galões de capitão e uma bata branca desapertada e manchada de sangue nos ombros. - Senhor doutor... - balbuciou Hasslick. - Meu Deus, realmente o senhor está aqui? Por favor, faça alguma coisa pelo meu amigo! Ele tem uma bala nos pulmões. Hasslick olhou para o lado. A maca ainda lá estava, mas já não lhe foi possível ver Hellmuth Wegener, pois o seu corpo e a sua cara encontravam-se cobertos por uma manta. - Hellmuth... -murmurou ele. Levantou-se, deu uma volta, tentou gritar e cravou os dedos no casaco da farda. O médico encolheu os ombros, metendo as mãos nos bolsos da bata. - Ele já estava morto quando aqui cheguei. Você dormia tão bem que não deu por nada. Vamos tratar da sua coxa. Maria Fedorowna disse-me que você mal podia andar. - Essa senhora é a médica? 40 - Sim. O médico tirou da algibeira um bilhete de identidade do Exército Alemão, batendo com ele na palma da mão. - O morto é o furriel Peter Hasslick de Osnabriick? Hasslick estremeceu. Fixou os olhos no corpo imóvel que jazia debaixo da manta. Sentiu uma súbita vertigem. "Isto é uma loucura, Hellmuth", pensou ele. "Não pode ser. Na verdade prometi-te... mas isto é impossível! Não posso passar a ser tu, durante uma vida inteira... Não vou fazer com a tua mulher... Hellmuth, nem quero pensar nisso..." - Venha! Apoie-se no meu ombro!-disse o médico.- Vamos para a minha sala de tratamentos. Como se chama, alferes? - Hellmuth Wegener, senhor doutor... Foi superior às suas forças. Levantou-se, apoiou-se no oficial e coxeou até junto da marquesa. "Tenho de esclarecer tudo, Hellmuth", pensou ele. "Não posso ser tu! Uma vida inteira com outra identidade - não posso admitir isto. Sou serralheiro, Hellmuth, e tu és académico, és um estudante de medicina. E ter de começar tudo de novo! Hellmuth, não posso cumprir a minha promessa." - Os meus documentos estão na algibeira superior do lado esquerdo do meu casaco, senhor doutor - disse ele com voz abafada. O médico tirou o livro dos registos de soldo, leu-o e meteu-o de novo na algibeira. - Segundo o que está escrito aqui, você é estudante de medicina. Quarto semestre? Nesse caso, venha comigo, meu jovem colega. A sua perna salvou-lhe a vida. Para nós a guerra já passou à história. Mais tarde, depois de terem tratado a ferida de Hasslick, extraído a bala, aplicado uma injecção antitetânica e dado um potente febrífugo num copo com água, deitaram-no num enxergão junto à porta da sala de aula VI. Um enfermeiro alemão dera-lhe umas calças ensanguentadas e com o sítio da costura endurecido por sangue já seco. Foi um tiro na barriga - disse-lhe o enfermeiro. - Esse também lá se foi. O senhor alferes pode lavar-se mais tarde. Neste momento, a água está bastante racionada. Na sala onde Hasslick se encontrava jaziam sessenta feridos alemães apertados uns ao lado dos outros, sem o mínimo de 41

intervalo entre si, com os corpos quase unidos, exalando mau cheiro, sangrando, supurando e ardendo em febre. Carne amontoada e estropiada em que brilhava uma esperança: "Conseguimos sobreviver. Voltaremos um dia para casa. Um dia... quando?... Nisso não queremos pensar." Vinte e um dos sessenta morreram durante a noite. - Quando a ofensiva soviética começou, ficámos em Orscha - disse o médico. Estava sentado na enxerga junto de Hasslick, compartilhando um cigarro com ele. -Éramos quatro médicos, nove enfermeiros e quatro enfermeiras. - A epopeia do homem corajoso... - Disparate! - O médico abanou a cabeça negativamente. Nada mais nos restava. Os russos avançaram mais depressa do que podíamos imaginar. Já não tínhamos gasolina suficiente para os Sanhas. Era impossível evacuar o hospital. Tivemos de permanecer todos aqui, o que foi muito bom. Os colegas russos são na verdade formidáveis, mas ficaram pasmados com o resultado da sua própria ofensiva. Fumaram ainda mais dois cigarros; entrementes o médico registou mais três mortes, mandando retirar os falecidos da sala. - Prometeram-nos que íamos todos ser metidos em campos de concentração - disse por fim. - Estou muito satisfeito por termos travado conhecimento, senhor Wegener. Com os seus quatro semestres de medicina, você pode ser-nos muito útil aqui. Hasslick cravou os olhos no médico, quando este saiu da sala. "Eu não sou o que o senhor imagina!", quis gritar, mas calou-se. Hellmuth Wegener já estava registado na lista dos mortos, assim como Peter Hasslick, embora de modo diferente. "Mais tarde", pensou. "Mais tarde haverá possibilidade de esclarecer tudo; no quartel ou depois da alta, mas na Alemanha." Com certeza que os pais de Hellmuth já tinham morrido. Além da mulher, mais ninguém iria fazer perguntas. E esta não o conhecia pessoalmente. "E eu, Peter Hasslick? O meu pai já morreu há muito tempo; a minha mãe desapareceu durante o grande ataque aéreo a Osnabrúck. Sufocada ou queimada num abrigo... Também mais ninguém perguntaria por Peter Hasslick." 42 Como poderia ele pôr tudo a claro, mais tarde? Suspeitava já que mais tarde era demasiado tarde. K Não tinha descanso na enxerga. Estava mesmo deitado junto à porta e a sala de aula VI funcionava como uma grande câmara ardente, para onde eram levados os "Landser" alemães esfrangalhados, que já não tinham possibilidades de recuperação; era uma entrada constante de restos humanos ensanguentados, que gemiam e choravam, e uma saída ininterrupta de corpos pálidos, mudos e moles. Eram lançados algures. "Para isso temos uma cave", dissera um enfermeiro a Hasslick, "onde os colocamos em três camadas, uns sobre os outros'' - e mais tarde são transportados para fora em camiões. Já não valia a pena dar-se ao incómodo de preencher a lista dos mortos, comprovar os nomes ou abrir os dois lados das chapas de identificação para, com base nisto, ser possível, mais tarde, saber ao certo o número de mortos. Quem se interessava que tivessem morrido ou desaparecido na Rússia? Sobretudo, quem se iria recordar disto, mais tarde? Mais tarde era manhã, era a hora mais próxima, a asp

iração mais próxima. A vida encolhia-se perante a felicidade de comer um bocado de pão negro ou poder beber um copo de água insípida. Hasslick caíra num pesado abatimento. O movimento à sua volta e as mortes contínuas cansaram-no. Pensava em Hellmuth Wegener e como este se fora, enquanto ele dormia. A ferida na coxa direita continuava a moer-lhe, como se tivesse dentro um motor em funcionamento constante. Sentia a perna quente, mas mal doía, o que bastante o admirava. "Lá dentro há febre", pensava, "tenho a impressão de que estou a gelar aos poucos. Será isto que se sente quando se fica paralítico? O que teriam eles feito à minha perna? Quando o frio voltar a aumentar e, desta vez, no coração, está tudo acabado! Duma ou doutra maneira, ela será sempre uma viúva, essa bela loura Irmgard de Colónia..." Sobressaltou-se e a custo abriu os olhos. Alguém se tinha aproximado em bicos de pés. A médica russa estava a seu lado e precisamente quando fixou a vista, ela batia com a ponta da bota na anca esquerda dele. Maria Fedorowna tinha os cabelos atados para cima da cabeça. Emoldurando os seus maravilhosos olhos cinzentos notavam-se as olheiras do esgotamento. 43



- Tu és médico? - perguntou ela com dureza.-És realmente médico e estás para aí deitado? Levanta-te! - Sou estudante de medicina - foi a resposta de Hasslick. - Eu sei. O médico alemão deu-me os documentos. Quatro semestres. A universidade alemã é muito boa. - Muito obrigado. - Não é para agradecer! Põe-te de pé! Vamos operar! "Operar? Meu Deus! Como é isto possível? Apetece-me gritar: eu não sou o que pensam! Matem-me com pancada, não por decepção, mas por acreditarem tratar-se de sabotagem. Esta é uma palavra que vocês muito prezam: sabotagem que significa morte.'' - Estou ferido - disse, permanecendo onde estava. - Onde estás ferido? - perguntou Maria Fedorowna metendo as mãos nas algibeiras das calças da farda. - Nas pernas? E as mãos? Não estão bem? Estão partidas?! Mesmo que um médico não tenha mãos, pode trabalhar! Vamos, de pé! E deu-lhe um toque com a bota. Um enfermeiro alemão que se encontrava perto, aproximou-se da enxerga de Hasslick e sorriu desfigurado para a médica. Havia receio no seu olhar. Parecia conhecê-la e ele próprio não sabia onde ir buscar a coragem para intervir. - Camarada, não faças merda - disse ele a Hasslick. - És médico? - Sim... - Nesse caso, tenta levantar-te. Com um sorriso frio ela parte-te a cara a pontapé. Se és um reles soldado, alferes ou oficial, para ela é a mesma coisa, pois és alemão, és mais um bocado da merda que para aí está! Podes levantar-te? - Vou experimentar. Agarrou a mão do enfermeiro, tentou erguer-se e, fazendo peso na perna esquerda, começou a levantar a perna ferida que estava insensível e pendia da coxa, como se não tivesse nem ossos, nem nervos, e quando procurava prudentemente pôr-se de pé, resvalou como borracha mole. - Vamos para a sala de operações III! - comandou Maria Fedorowna friamente. Olhou zangada para Hasslick e mais uma vez a lâmpada eléctrica do tecto se reflectiu com um ponto dourado na iris cinzenta dela. - Estou à espera. Saiu à frente deles em passinho miúdo, com as pernas 44 elegantes metidas nas botas apertadas e flexíveis. O traseiro redondo bamboleava com o seu caminhar leve. O que ela quer, sei eu!-exclamou o enfermeiro com rudeza. - Todos os dias, dez vezes! O tempo necessário para o fogo lhe correr pelas pernas abaixo. - Tenho outras preocupações. Hasslick apoiou-se no enfermeiro. Seguiram a médica, passando pelo corredor, e compreenderam por que Maria Fedorowna precisava de todas as mãos para a ajudarem. Algures estava a ser levado a efeito um contra-ataque alemão, possivelmente na pista de descolagem. Camião após camião despejava feridos que ficavam deitados por toda a parte, até no pátio da escola. Um monte de corpos dilacerados, um coro de gemidos e de gritos. No meio, os cirurgiões soviéticos, senhores da vida e da morte, seleccionavam os feridos que mal se arrastavam. Na sala de operações III, a maior divisão da escola e prIrmitivamente destinada a salão nobre, os médicos trabalhavam em mesas novas. O mesmo acontecia com o médico alemão de cabelos brancos. De camisola, diante de uma mesa de cozinha, cortava um ombro com precisão. - Chega-te aqui! -ordenou Maria Fedorowna. Estava parada à entrada, o mais próximo possível de uma mesa de operações estreita e dobrada, desinfectando uma larga e profunda ferida no ombro de um militar, provocada por estilhaço de granada. A omoplata estava desfeita, os ossos esmagados nos músculos inchados como bolsas. A médica puxou com o pé uma cadeira para si, fazendo sinal a Hasslick. - Tira a esquírola alojada ali! -indicou ela. Hasslick sentou-se cuidadosamente, apoiando-se no enfermeiro. Desamparado, agoniado, fitou os olhos naquelas costas esfrangalhadas. - Despe o casaco! - disse Maria Fedorowna. - O casaco? Porquê? Ela voltou-se e, tocando levemente com uma pinça grande, com a qual tratava as feridas, nas insígnias de infantaria e no bracelete dos blindados, gritou: - Queres ajudar os russos com isso no peito? Até agora tens morto russos, mas daqui por diante terás de os salvar! Levantou o braço e deu-lhe uma bofetada que o atordoou. O enfermeiro fê-lo voltar a si. À porta voltou-se, levantando as mãos. 45

Patife! Dez vezes por dia, que vergonha!'', pensou ele. Hasslick tirou o casaco da farda e dirigiu-se para a mesa de operações. - Também é preciso tirar as calças? - perguntou quando Maria Fedorowna olhou outra vez para ele. Parecia que ela não queria ofendê-lo. Passou uma pinça embotada para as mãos de Hasslick e deu uma canelada a um enfermeiro soviético que deliberadamente tinha ido de encontro a um ferido recém-chegado. Diante da escola os camiões uivavam, chegando um após outro. - Apesar de tudo, não ganharás a guerra! - disse Maria Fedorowna.- Mesmo que mates um milhão de russos, virão sempre outros milhões para substituir estes! "Não quero ganhar a guerra'', pensava Hasslick observando a enorme pinça. "Como seria útil este objecto no meu ofício de serralheiro. Procura-se a esquírola entre a carne e puxa-se para fora. Mais, não. O homem já não dá por isso, pois está sem sentidos." Debruçou-se sobre o ferido russo e com a pinça agarrou uma enorme esquírola que, de um só golpe, extraiu da carne. Fê-lo rapidamente e sem hesitar, porque, nestes casos, deve-se demonstrar, com segurança, o máximo de competência. - Porque estás na Rússia? - A médica laqueava uma veia, cujo corte dilatava ainda mais a ferida. - Recebi ordens para isso. - Ordens para assassinar! - Para combater. Contaram-nos muitas histórias e acreditámos em tudo. - Porque vocês são parvos! - Todos os povos que fazem guerra são parvos! - Com estas palavras, tirou mais um estilhaço do ombro do ferido e durante breve instante conservou-o na pinça, em frente de Maria Fedorowna. - Este tem as costas esfaceladas e ficará aleijado. Eu tenho a perna partida, como se vê - fez um movimento circular com a esquírola. - Só sangue, só homens destroçados, que não têm qualquer culpa... - Os russos ainda têm menos culpa! - Eu também nada tenho a ver com isso. Neste momento, 46 gostaria muito mais de estar na cama com uma rapariga nos braços, do que estar aqui a extrair esquírolas. Hasslick permaneceu até de manhã na sala de operações III a ajudar a médica, desempenhando melhor a tarefa do que ele próprio supunha. Como é evidente, não se notou nele qualquer falta de conhecimentos de cirurgia e de tratamento de feridos, e quando lhe chegava às mãos algum dos instrumentos, já os conhecia pelo nome: esta é uma pinça, uma lima, uma serra, uma broca. Assombrosamente tudo corria às mil maravilhas. Mais tarde, à noite, o médico militar aproximou-se da mesa de Hasslick e deu-lhe uma palmada no ombro. - Bravo, meu jovem colega! Você tem aptidão natural. No quarto semestre mostra ter uma espantosa inclinação para a cirurgia. Já tinha alguma prática antes ou dedicava-se a algum ofício? A cirurgia é coragem e saber trabalhar com as mãos. Tudo o resto vern de si próprio. Conte-me isso, caro colega. - Efectivamente sou um bom artífice - disse Hasslick. Estava demasiado cansado para aproveitar a oportunidade de uma confissão. - Antes de mais nada, tenho comigo a arte de serralheiro. - Serralheiro! Você tem muita piada! O médico riu. Mas o momento de descanso na sala de operações foi interrompido pelo anúncio da chegada de mais um camião com feridos. Havia alguns minutos para respirar. - Serralheiro, pequenas reparações, muitos parabéns! Por que razão não tenta também a ginecologia? - Tentarei talvez um dia!-respondeu Hasslick cansado. Vacilava na cadeira. Maria Fedorowna apareceu com um cigarro de mortalhas ao canto da boca. O seu rosto bonito e magro estava pálido e lívido, bem marcado pelo esgotamento. - Fora do quarto! - disse ela a Hasslick. E em seguida grito11: - Pjotr! Stanis! Levem-no para o número oito! Dois enfermeiros soviéticos arrancaram Hasslick da cadeira, agarraram-no por debaixo dos braços e levaram-no para fora da sala de operações. O médico acompanhou-os um pouco, até à porta. - Você é um felizardo, Wegener! -disse em voz baixa. Maria Fedorowna gosta de si. - Ela esbofeteia-me constantemente. Isto é simpatia? - Você sobreviverá, acredite-me. Sabe o que é o número oito? - Não. O que é? 47

- É o quarto de Fedorowna -o médico sorriu paternalmente. - Tenha calma, Wegener, no mais verdadeiro sentido... Hasslick dormiu dois dias e duas noites. Ao terceiro dia, por volta das dez horas da manhã, acordou finalmente, porque Maria Fedorowna esbofeteou-o de novo. Sentia-se mais fresco, mais forte, só o incomodando a dor penetrante na ferida da perna. - Bom dia! - disse ele. - O dia começa como de costume. Você dá-me pancadaria... Ela deixou cair a mão no regaço e fixou-o com os seus olhos frios, cinzentos, investigadores. Hoje vestia uma apertada blusa azul escura e à volta do pescoço um cachecol vermelho que não pertencia ao uniforme, pois era civil. Era dia de folga ou os feridos estavam todos mortos, não havendo mais nada para fazer? - Não há trabalho? -perguntou Hasslick. - Os alemães regressaram. -Ah! - Fugiram como lebres. Levamo-los à nossa frente e até ao Mar do Norte, se fosse possível. - Então hoje é feriado? Ele levantou a cabeça e viu que ela também trazia um casaco de pano azul, cortado em sino. As pernas nuas apresentavam uma cor de pele bronzeada e saudável. Calçava pantufas aveludadas, bordadas e guarnecidas com pérolas artísticas e bocadinhos de vidro: um artefacto arménio. Mas Peter Hasslick não tinha qualquer ideia. Sabia que ela estava sentada na cama, tinha-o mesmo esbofeteado para despertá-lo do sono e agora punha as mãos no quadril dele. - Hoje é domingo! - disse Maria Fedorowna. - Estiveste a dormir desde sexta-feira. Tens fome? - Não. Deixou cair a cabeça na almofada dura, mas alguma coisa lhe despertava o olfacto. "Não há nada, pensou ele.Deve ser da febre. Cheira-me a perfume e é bastante activo." - Porque estou aqui? - perguntou ele. - Onde estão os outros? 48 - Os outros? Mortos! Levados! Soterrados! - E o médico militar? - Está hoje de serviço com Ostap Leonidowitsch Pachomow; - Um médico soviético? - Porque perguntas isso? Tens dores na perna? - Não muito. Isso é bom. Dei-te seis injecções enquanto dormias. Deixou de fazer pressão com as mãos na coxa, indo colocá-las sobre o abdómen. Isso perturbou-o, pois sentia uma leve impressão que lhe despertava deliciosamente os sentidos. E continuou : - Devem ter morrido seis, porque eu dei-te as injecções que lhes pertenciam. - Isso é terrível. É um assassínio! - Tudo à nossa volta é assassínio. Sabes então o que é a vida? Está aqui a vida? Agarrou com a mão direita a deformação natural das calças dele, deixando escorregar a esquerda por entre as pernas tamborilando com os dedos. - Maria Fedorowna, você está louca! - disse ele. A sua respiração encurtou de repente. A saliva juntou-se na boca em maior quantidade do que ele conseguia engolir, mesmo fazendo esforço para isso. - Sei que estou na sua mão, sou impotente, você pode mandar fuzilar-me ou matar-me à cacetada, cortar-me as goelas e enforcar-me. Ninguém lhe fará perguntas, ninguém apresentará queixa. Apesar de tudo, continuo a dizer: você está louca! Os russos não lhe satisfazem? E este doutor Pachomow? - Falas de mais! Ela tirou o cinto das calças pela fivela, desabotoou-as com dedos rápidos e puxou-as para baixo com um só esticão. Ele soltou um grito abafado. Uma dor súbita na perna fê-lo estremecer como se tivesse sido atingido por um raio. - Tens dores, não é verdade? - perguntou ela num sussurro.- No princípio, morrem de mais, depois falam de mais. Vocês, alemães, têm tudo de mais. Vocês próprios são de mais no mundo! Tentou segurar as mãos dela estiradas pelo seu corpo, mas ela venceu-o; puxou-lhe, até aos joelhos, as calças sujas de sangue seco dos mortos que ela alguma vez possuíra. Em seguida socou brutalmente a perna ferida. 49

Ele gritou de novo, levantou o traseiro num movimento reflexo, procurando aliviar a dor ardente, mas ela aproveitou-se conseguindo puxar-lhe as calças até aos pés encolhidos. - Não digas mais nada - segredou-lhe ela, quando ele abriu os olhos, fixando-a com a expressão de um indefeso, vítima da agressão da uma alienada. - Nem uma palavra! Ela arrojou-se sobre ele, sentando-se em cima, enquanto ele gemia, porque a perna ferida fora apanhada pelo joelho dela, deitou a cabeça junto à nuca dele, pronunciando palavras sem nexo que saíam em torrente do seu íntimo, enquanto os dedos se agarravam aos ombros de Hasslick, como as garras pequenas e cortantes de um animal selvagem. Tudo passou muito rápido, semelhante a um sopro de vento quente. Com um suspiro, Maria Fedorowna poisou a cara no peito de Hasslick, mordeu-o até que a última vibração agitou o seu ser, depois levantou a cabeça, observando-o com olhar estranho e longínquo como se o visse pela primeira vez; desprendeu-se dele, deslizou para baixo, roçando o casaco nas pernas, dobrou-se sobre Hasslick batendo-lhe na face esquerda e direita. - Obrigada, cão! -disse ela em voz baixa. - Obrigada. Tu sobreviverás, prometo-te! Uma hora mais tarde dois enfermeiros soviéticos foram buscar Peter Hasslick ao quarto da médica, levando-o para a grande enfermaria. Pairava naquela atmosfera pesada um cheiro repugnante a pus, a sangue, a transpiração e a fenol. O médico militar dirigiu-se imediatamente para ele, sentando-se ao seu lado, quando o puseram na enxerga, no chão. - Voltou a ser esbofeteado? - perguntou ele, sorrindo ironicamente. - Sim. - E mais nada? - O médico militar riu sarcasticamente. - O que você faz com Maria Fedorowna, faz por todos nós. Não lhe parece? - Ela é um animal. - Mas que animalzinho! Ela não lhe falou acerca da transferência? - Não. - Se sairmos vivos de Orscha, teremos uma verdadeira oportunidade para também sobreviver à guerra. Colega, vamos 50 regressar a casa! Quando, não podemos adivinhar... mas não seria difícil de conseguir. Você tem isso à mão. Mantenha Maria Fedorowna bem disposta! Duvido que o consiga, senhor doutor - Hasslick fechou os olhos. Era impossível deixar de pensar no caso. - Pense nos seus camaradas, Wegener! Somos ainda cento e oitenta e nove homens! Ainda alguns morrerão, mas a maioria pode ser salva! - Entretanto deixo-me adestrar por Maria Fedorowna! - Isto também é guerra, Wegener. Ficamos todos doidos com o que se passa na guerra. Quando, mais tarde, ela acabar, você poderá contar à posteridade admirada que salvou cerca de cento e setenta soldados alemães à custa da sua própria erecção e de muito trabalho. Mesmo a sua mulher terá de compreender este problema. Cansado, Hasslick levantou a mão. "A minha mulher", pensou ele. "Irmgard Wegener em Colónia. Hellmuth, vê só o que me deixaste em testamento..." - Por favor, deixe-me estar só!-pediu ele debilmente.- Não espere nenhum milagre. O médico militar levantou-se e foi-se embora. À sua volta zumbia uma mistura de sons contínuos, sobressaindo os gemidos, lamentos, tosses, falas e gritos. Um enfermeiro que passava dizia a outro: - Três já se foram! E a malandragem russa não dá remédios que sarem a maior parte destas feridas! A tardinha os enfermeiros soviéticos vieram buscá-lo de novo. E mais uma vez levaram-no para o quarto número 8. Colocaram-no na cama de aço com coberturas brancas e um deles piscou-lhe o olho, com compreensão. - Fazes bem, germânico. A boa disposição de Maria Fedorowna é-nos também muito favorável. Ela chegou meia hora mais tarde, de uniforme, com calças e com botas de coiro mole. - Como vai isso? - perguntou ela. Um russo ferido que trabalhava na cozinha do hospital, trouxe uma bandeja de lata com ovos mexidos, chouriço duro e um canto de pão, o típico pão russo conzento-pardo, mole por dentro e acabado de cozer, porque ainda estava quente; com o seu cheiro agradável, era um perigo para um estômago esfomeado e seco. 51

- Come! -ordenou ela, sentando-se ao seu lado na cama, dando-lhe de comer, como se ele já não tivesse braços. - Depois bebes o chá! Cheio de coragem engolia tudo o que aparecia na colher. O chá estava quente e muito amargo. Apesar disso, bebeu-o em pequenos e cuidadosos goles. Ela apoiou a cabeça dele, observou o seu trago e beijou-lhe repetidamente os olhos. - Vês como te faz bem?-perguntou ela. - Sim. - O que estás a comer e a beber tirei-o aos outros. - Não está certo, Maria Fedorowna. - Cala a boca! Durante a noite dormiu com ele. Enrolada como uma gata, enroscada na curva do seu abdómen, os corpos nus transmitiam calor um ao outro. Naquele momento ela era uma pequenina feliz que durante o dia representava o papel de diabo. Ficaram dois meses em Orscha. Os exércitos soviéticos avançaram para oeste, tomaram a maior extensão da estrada principal que se estende desde a fronteira polaca até Moscovo, a qual constituía já um símbolo da heroicidade russa e, o mais importante, era um indício seguro da vitória final. As divisões alemãs, por seu lado, agarravam-se desesperadamente a cada palmo de terreno, mantendo as suas posições a todo o custo e isto a preço de muito sangue. Apesar disso, iam recuando mais rapidamente do que desejavam, embora o quartel-general envidasse todos os esforços para que tal não acontecesse. Nestas condições, toda e qualquer resistência conduziria a um destroçar completo do poderio militar alemão: era a derrota completa na frente russa, o colapso total antes do fim. A escola já era o ponto de transbordo de corpos esfrangalhados; recolhia agora os feridos recuperáveis que eram alojados em todos os sítios principais e nas ambulâncias fechadas, onde tinham possibilidades de um tratamento mais eficaz. Orscha voltou a ser território russo, porque a guerra se afastara da cidade. De Smolensk começaram a chegar camiões com camas e roupas e um pequeno exército de voluntárias lançou-se na reconstrução, removendo destroços, aproveitando 52

pedras para muros e paredes, cuidando da instalação eléctrica e do calcetamento das ruas. Observava-se um facto muito curioso: ali já não se via um único alemão. A médica Maria Fedorowna fora promovida a capitão do serviço de saúde e nomeada para a restruturação do hospital militar. Começou por dar alta aos feridos alemães, providenciando no seu transporte para campos de concentração, donde seriam libertados mais tarde. - Isto aqui não é nenhum sanatório! - disse ela ao médico militar alemão que protestava contra esta medida, indicando que 145 dos feridos estavam instalados no ginásio da escola em pleno tratamento e apenas 64 estavam em condições de serem transportados. - Acha que temos obrigação de engordar os nossos assassinos? - Você é médica, Maria Fedorowna!-replicou o médico militar com voz rouca. - Eu sou russa! -respondeu ela com dureza. - Sou apenas russa, nada mais! Num domingo foram levados em camiões para a estação e aí embarcados em vagões com palha. No meio de cada vagão existia um fogão de ferro, pequeno e redondo, com um tubo comprido e dobrado e saída para uma estreita abertura da janela. - O que é que você pensa disto tudo, Wegener? - perguntou o médico militar. Percorriam todo o comboio, Wegener com uma bengala que ele próprio cortara de uma ripa do telhado. Já tinha a coxa bem sarada, apenas se notando uma grande cicatriz da operação. - Você tem uma bela cicatriz! - dissera o médico militar, mais tarde. - Com certeza o meu jovem colega sabe que há pessoas com ferimentos cujos vestígios se encontram bem à vista. No entanto, isso não é problema, porque a situação na Alemanha está de novo normalizada e com uma pequena operação estética tudo se resolve. Soltara uma risada, como se acabasse de contar uma anedota, porque, ainda em Orscha e deitados na palha ensanguentada, falavam em operações estéticas. Depois começaram a verificar os vagões de gado e a controlar os feridos, assegurando-se de que todos estavam bem instalados, dentro dos condicionalismos da ocasião. Viajavam com eles os enfermeiros alemães, trazidos de outros hospitais militares e de demais estabelecimentos hospitalares e reunidos em Orscha e que agora eram transferidos para outro lado. 53

- Este fogão -disse o médico militar - significa que viajamos no Inverno. Colega Wegener, levam-nos para a Sibéria onde cada um de nós terá a sua tarefa específica. "Eu não sou Wegener; eu sou o serralheiro Hasslick de Osnabrúck!", queria ele dizer agora, pois era uma boa oportunidade, porque estavam sós no vagão e ninguém os ouvia. As sentinelas russas vociferavam, porque a transferência, segundo a sua opinião, processava-se com demasiada lentidão. Maria Fedorowna, sentada num jipe aberto, estacionado a certa distância do comboio, observava calada toda esta operação. Ele não conseguia proferir qualquer palavra, tinha dificuldade em se exprIrmir e parecia-lhe absurdo dar explicações nesse momento, que já considerava demasiado tarde. As listas dos mortos já tinham sido enviadas para Moscovo e aí entregues à Cruz Vermelha Internacional, conforme lhe fora dito por Maria Fedorowna. - Não menosprezem a nossa humanidade - acrescentara ela arregalando os olhos para Hasslick, parecendo querer saltar para cima dele-, vocês não merecem nada disto! Peter Hasslick morrera, segundo constava em documentos oficiais, e nada poderia modificar tal estado de coisas. O alferes e estudante de medicina Hellmuth Wegener, natural de Hannover, ainda estava vivo. Hasslick nunca fora a Hannover; apenas sabia que nessa cidade existia uma fábrica de pneus e nos arredores uma famosa pista de corridas. "Hellmuth Wegener", pensava ele apoiando-se na bengala de ripas, "sou eu. Tenho mulher em Colónia. Chama-se Irmgard, cujo tratamento familiar é Irmi. É jovem, loura e bonita, com grandes olhos azuis. Nem sequer chegou a saber que já era viúva e o marido morrera deitado no chão, no vestíbulo da escola de Orscha, pensando nela e feliz, porque Peter Hasslick, o seu amigo, continuaria a fazer vida com ela. - Em que pensa você? - perguntou o médico militar. Hasslick estremeceu. - Penso na Alemanha.



-Estes pensamentos vão atormentá-lo nos próximos anos. - Penso na minha mulher. - Você é casado? - Sim. Há pouco tempo. Casámo-nos em Junho, por correspondência. - Muitas felicidades! - Deveria ter ido de licença no Natal. - A licença tem-na você agora. Férias no país da neve eterna, Wegener, onde durante o Verão só derrete cerca de 20 cm, ficando o resto gelado. Os últimos carros foram descarregados. Maria Fedorowna saltou do jipe, dirigindo-se vagarosamente para o comboio, onde os dois se encontravam. - Aí vem a respeitável bruxa - disse o médico militar. Vem despedir-se de nós e dizer-nos que não merecemos tal tratamento humano. Você realmente casou-se? - Sim e amo a minha mulher. "Como isto soa bem: amo a minha mulher. E nem sequer a conheço. Só por fotografia. Dar-se-á o caso de Hellmuth Wegener ter sabido de mais alguma coisa a respeito dela? E ela em relação a ele? O que é certo é que se apaixonaram um pelo outro, o que já lhe permitia dizer: amo a minha mulher. - Embarquem todos! - gritou um capitão alemão, oficial de ligação com o comandante soviético do comboio. - As portas vão ser trancadas. - Trancadas? - perguntou Hasslick olhando para os vagões. - Sim. Vão ser trancadas por fora. Somos mercadoria. Cerca de setecentos seres que formam um montão de carne. - E como trataremos os feridos? - Isso não lhes interessa. O importante é que nos levam para a Sibéria. Três horas depois, o comboio de mercadorias saía da estação de Orscha. Os vagões foram fechados; eram enormes caixotes de madeira com rodas, possuindo duas fendas gradeadas para a ventilação, situadas sob o tecto. Os feridos gemiam, choramingavam e praguejavam. O chão era duro, a camada de palha demasiado delgada, o que tornava a viagem ainda mais tormentosa para os corpos doridos. O vagão de Hasslick transportava quarenta feridos graves. Rodeava-o um coro de gemidos e de soluços. Um 2.o cabo, com um braço amputado, chegou-se a ele, oferecendo-lhe uma maçã. - Roubei-a da cozinha - disse ele - e para despedida tirei mais do barril de farinha. Só de manhã, quando forem cozer o pão, irão dar por isso. Ou talvez não... Riu e deu uma dentada na maçã. Hasslick apanhou-a, arrancando um grande bocado com os dentes. Como te chamas? - perguntou o 2.o cabo. 54 55

- Hellmuth Wegener - respondeu Hasslick. E daqui em diante é com este nome que o vamos chamar. Hellmuth Wegener, estudante de medicina em Liibeck, casado com Irmgard Lohmann, filha de um farmacêutico de Colónia-Lindenthal. Chegaram a Nowo Nigaisk, uma aldeola mal assinalada nos mapas e situada entre o pedregoso Tunguska e o gigantesco rio Lena. Era um lugarejo florestal no Taiga, com trinta cabanas, rodeado por uma paliçada de madeira e por novas torres de observação e protegido, no interior, por uma linha de arame farpado, coberta de areia, até à paliçada, sete metros de fronteira fechada. No lugarejo alguém ria. Quem estaria interessado em fugir daqui? Fugir para onde? Para o Taiga? A que distância se estava da Alemanha? A 500 ou 5000 quilómetros? Aqui havia um tecto, uma tarimba, sopa de ração com cevadinha ou "kapusta'', pão escuro, os camaradas, a casa de banho, o hospital militar, o trabalho cansativo de lenhador com normas estupidamente avançadas. Mas nunca se estava só. Fugir? Para o infinito? Para a solidão que mata um homem? Quem entrasse em Nowo Nigaisk só tinha uma alternativa: morrer ou esperar. Hellmuth Wegener trabalhava no pequeno hospital e tinha, juntamente com sete enfermeiros, um quarto junto da enfermaria. Dos 700 que saíram de Orscha, tinham chegado 503 a Nowo Nigaisk, quatro meses depois. O médico militar já não existia; tinha morrido de uma estúpida septicemia que contraíra no tratamento de uma ferida supurada. Morreu, como muitos outros, durante o transporte, sendo o seu corpo simplesmente lançado no Taiga, aproveitando uma pausa da viagem. Sete meses depois foram distribuídos cartões pautados amarelo-claro aos prisioneiros, por iniciativa da administração local; um cartão por cada um. - O que se faz com isto? - perguntou Wegener ao escrivão alemão. Os encarregados do campo estavam sob as ordens de um 56 tenente, Piotr Nikodemowitsch Lutkin, e tinham de distribuir todos esses cartões. Vocês escrevem para a Germânia! - respondeu Lutkin, sorrindo ironicamente. - Mandem dizer que estão bem aqui. Nós não somos boas pessoas? - Que nos dão estalos! - disse um dos prisioneiros. - Como se os cartões alguma vez chegassem lá! - Creio que sim. - O escrivão alemão continuou a distribuir cartões. - São censurados, para que apenas transmitam a verdade dos factos. A guerra acabou, mas a propaganda não. Digam aos outros para não escreverem asneiras. Apenas frases como esta: Estou bem, etc., etc. - Estou mais gordo e mais bonito - disse um dos presos, um sujeito alto e magro com barba grisalha. - Vigiam-me dia e noite e três vezes por semana estou de faxina à cozinha! Está bem assim? - Não gozem com isto, rapazes! -disse o escrivão alemão. - Este é o nosso primeiro sinal de vida! Na pátria há muita gente que vai adorar estes cartões! São uma prova real de que estamos vivos! Nessa noite, Wegener enviou o cartão para Colónia, para a sua mulher Irmi. E então surgiu a primeira dificuldade: de que modo escrevera Hellmuth? Como era a sua letra? Pelos papéis deixados não encontrou nada, pois eram documentos oficiais. Só possuía consigo a assinatura, mas já se exercitara nela de tal modo que mais ninguém poderia duvidar da sua verdadeira autenticidade. Posto isto, escreveu o seu primeiro cartão em letra de imprensa. Ela iria pensar que isto era devido ao controlo russo, raciocinou ele. Por isso, escreveu: Minha querida Irmi, meu amor! Estou algures na Rússia e, felizmente, bem. Estamos todos esperançados que muito em breve regressaremos a casa. Nenhum dia passa sem que pense em ti. Amo-te. Quando puderes, envia-me uma lembrança: um pullover, um cachecol, meias de lã, roupa interior quente, porque aqui faz muito frio. Irmi, acredita que tenho muitas saudades tuas. Dou-te um beijo,

Hellmuth 57



O cartão ficou completamente preenchido. Não era permitido escrever fora das linhas marcadas. No cartão existia também um espaço pautado para a resposta. Ela viria? "Sr.a Irmgard Wegener", escreveu Wegener, soletrando em voz baixa. "Tenho de me habituar que sou casado com uma linda rapariga", pensou ele. E continuou a escrever: " Colónia-Lindenthal Stadtwaldgiirtel 171A Alemanha" - A frase "aqui faz muito frio'' tem de ser suprIrmida - disse o escrivão no secretariado, quando Wegener foi entregar o cartão. - O Ivan deve considerá-la como indicação do lugar onde nos encontramos. -Agarrou num pincel, molhou-o num frasco com tinta da China preta e passou-o sobre as palavras proibidas. - Quanto ao resto, está bem. Asseguro-lhe que as encomendas virão, de facto. Só é preciso que esteja lá escrito Nowo Nigaisk. E depois foi a espera. A terrível espera. A espera sem fim. A dúvida. Teria Irmi sobrevivido à guerra?! Meu Deus, que tormento! Por que razão distribuíram estes cartões? E se ela não escrever? E o que farás, se os outros camaradas receberem os cartões de resposta e tu não receberes nada? Desempenhava as suas funções no pequeno hospital, tratando furúnculos e asma, contusões e feridas, tuberculose e distrofia. E esperava. "Na verdade, amo-te", dizia para si, muitas vezes, à noite, contemplando a fotografia de Irmi, tirada para a cerimónia do casamento e que ele tinha conseguido trazer para a Sibéria. Os seus companheiros de quarto estavam de serviço, de modo que se encontrava sozinho e podia falar, à vontade, com ela. "Sou Hellmuth Wegener, o teu marido. És linda, Irmi, és maravilhosa!" Quatro meses depois era Primavera no Taiga, a gigantesca floresta de abetos, bétulas e outras árvores florescia e exalava perfume- uma coluna de abastecimento trouxe um saco de correio para o lugarejo de Nowo Nigaisk. Quando o grupo de lenhadores, cansados e já sem forças, voltava ao acampamento - com o degelo, as normas também foram levantadas -, ouviu com alegria, à entrada da aldeola, o grito amigo do encarregado do serviço interno: 58 - Correio, camaradas! Correio de casa! Chegaram os cartões de resposta! E cartas, também! Cartas! Nessa noite tudo estava calmo no acampamento. Os prisioneiros acocoravam-se nas tarimbas, comiam a sopa de ração do prato de lata e mastigavam as fatias de pão escuro. Depois liam os cartões aguardados há longo tempo com ansiedade e calavam-se com olhos lacrimejantes. Quem tinha recebido correio, lia-o com recolhimento e para si, como se de uma oração se tratasse: "Meu querido Ludwig, finalmente sei que estás vivo..." Irmgard Wegener escreveu: Hellmuth, querido! Tenho a certeza de que não há na vida mais nenhum dia como hoje, quando chegou o teu cartão. Vives e isso é que interessa, tudo o mais é secundário. Vives! A guerra acabou bem para nós, a casa mantém-se de pé. O papá reabriu a farmácia e eu trabalho com ele. Todos estamos à tua espera. A encomenda seguirá amanhã. Oh, meu querido, amo-te muito, muito, muito. Tem cuidado contigo! A tua Irmi. Mais palavras além destas não era possível escrever no pequeno espaço do cartão, mas eram o suficiente para mobilizar as maiores forças interiores, sendo a principal a vontade de sobreviver àquela Sibéria. "Amo-te", pensava ele. "Estamos todos à tua espera. Feliz Hellmuth Wegener -que agora sou eu! Na semana seguinte ele iria fazer o trabalho no pequeno hospital, já não tão mecanicamente, como até então. Participava mesmo no serviço de operações. No próprio hospital militar trabalhavam uma médica russa, um médico assistente russo e três médicos militares alemães. - Se quiser, colega - disse o decano dos médicos, um ginecologista de Hamm na Vestefália -, será uma grande ajuda para nós. Contacte a colega soviética. Ela é que dirige isto. Trata-se de saber quem poderá substituir você na enfermaria. Bateram à porta. Era Anna Semjowna Tschutkasski, uma mulher gorda, não deformada, muito gasta pelo serviço, mas à noite modificava-se por completo, distribuindo, com um riso sonoro, o serviço dos médicos. Nos casos de baixa, sujeitava os 59

que participavam estar doentes a uma inspecção imediata, enviando os que simulavam para as florestas. Quanto aos outros, os que andavam de gatas e já não se conseguiam manter em pé, tinham ordem de se meter na cama e, muitas vezes, já não se levantavam mais. Quando Helmuth Wegener se apresentou para prestar o primeiro serviço à mesa de operações, as mãos tremiam-lhe. Suores frios brotavam da testa e quando viu um homem nu deitado na mesa, com uma ferida gangrenosa na perna inchada e azulada, teve de se apoiar à parede. - Só se salva com uma amputação! - disse o médico militar. - É gangrena. Se tivéssemos um pouco desse novo remédio americano... Como se chama isso? Penicilina ou coisa que o valha. - Olhou para Wegener. - Você está pálido, Hellmuth. É a primeira amputação que faz, não é? - Até agora só vi casos destes na Anatomia... - Temos que passar por tudo, até por prisioneiros de guerra na Sibéria. Cortar uma perna não é nenhuma arte. Você só precisa de um bocado de atenção. É tão rápido como matar um coelho. Wegener passou a manhã a aprender termos técnicos, decorá-los e a utilizá-los mais tarde, com as explicações necessárias. Seis semanas depois já discutia com os outros médicos, por exemplo, o caso de uma hérnia "inguinalis interna". Ninguém notou que ele era serralheiro. Só no escalpelo é que pegava mal. Segurava a erina, massajava levemente, injectava, colocava pensos, mudava-os, assistia aos moribundos, segurando nas suas mãos que arrefeciam. Três anos se passaram. A encomenda de Irmi chegou a Nowo Nigaisk. Durante o ano, os outros receberam encomendas, com grandes diferenças, mas, aparentemente, na de Irmi havia coisas boas, que seriam mais úteis a um controlador soviético do que a um crIrminoso de guerra desterrado no distante Taiga. Mas as cartas e cartões chegavam todos os meses, como demonstração do amor, da lealdade, da esperança, da fé no futuro. "A vida começa a normalizar'', escrevia Irmi numa carta em 1947, "só os abastecimentos ainda escasseiam. O que se recebe em senhas é miserável. É uma felicidade o papá ser farmacêutico, porque temos mais facilidade em obter muitos géneros. Mas 60 tenho a certeza de que um dia tudo ficará bem. O mais imnortante agora é vires para casa e o mais breve possível.'' Com esta carta vinha uma nova fotografia de Irmi Wegener tirada junto a uma moita florida no parque da cidade de Colónia. Pela primeira vez, Wegener via a esposa em corpo inteiro. Até agora só tinha visto a cara dela. Era elegante, com os seios pequenos sobressaindo na camisola de Verão; tinha pernas bem proporcionadas e sorria não só com a boca, mas também com os olhos e com o corpo maravilhoso. O sol brilhava nos cabelos louros dela. Wegener colocou a fotografia à altura dos olhos... Sentia o perfume das flores, os cabelos dela, a sua pele, a feminilidade, a sua magnífica juventude, as saudades que ela devia sentir dele. "Meu Deus, como te amo", pensava com a garganta seca. "Quero ser sempre bom para ti e Deus castigar-me-á severamente, se alguma vez suceder o contrário..." Numa manhã de Janeiro de 1948, em que o gelo batia nas janelas, fora do acampamento a vida entorpecia e os próprios russos das torres de observação eram obrigados a fazer movimentos constantes, os encarregados das barracas foram convocados ao governo militar, onde lhes foram entregues várias listas com muitos nomes. Quem figurava nelas entrava hesitante e com olhar de interrogação no corredor situado a meio das barracas. - Os aqui indicados arrumam as suas coisas e amanhã cedo estão prontos para partir! - avisaram os encarregados. Meninos, não perguntem nada, porque os Ivans não nos deram qualquer explicação; só nos entregaram as listas, com a ordem expressa de fazermos a leitura total delas. Provavelmente, trata-se da vossa transferência. Tudo isto é uma merda! - Palpita-me - disse o médico militar a Wegener, que também figurava na lista - que começam a pôr-nos em liberdade. É só uma suposição, mas gostaria de ter a certeza. Libertar-nos? Mandar-nos para a Alemanha - balbuciou Wegener. - Será verdade? E eu também vou? - Que critério seguem, ninguém sabe. Dos russos esperam-se todas as surpresas, isso já nós sabemos. Em todo o caso, o seu nome está ali, Hellmuth. E se você for para casa, vai levar uma carta à minha mulher. Você faz-me inveja. A Alemanha... rói à janela, soprou a neve que se amontoava, desobstruiu um buraco para observar através dele, lançou um olhar rápido às 61

barracas mergulhadas no imenso tapete branco, à sebe de arame farpado, à linha-lIrmite, à paliçada de madeira e às torres de vigilância, começando a chorar em silêncio. No dia 19 de Fevereiro de 1948, Hellmuth Wegener chegou a Friedland, com mais 120 prisioneiros de guerra, numa carruagem especial, desengatada do comboio soviético em Frankfurt-no-Oder. Atravessaram toda a Rússia, desde a Sibéria até Moscovo, passando pelos Urais. Nesta cidade foram examinados, tomaram, pela primeira vez desde há quatro anos, uma refeição substancial e ficaram com a barriga tão cheia como crianças insensatas no Natal - que vinte e três deles tiveram de ficar internados em Moscovo, devido a indigestão. Também Wegener sofreu de disenteria ininterrupta durante três dias, mas teve de guardar segredo do caso. Depois desta crise sentiu-se tão fraco que se acocorou apaticamente a um canto do comboio, tendo passado a dormir a última parte do percurso. Porém, a partir de Frankfurt-no-Oder, levantou-se, comeu cuidadosamente os bocados de pão e de chouriço que lhe distribuíram, bebeu chá quente e chorou como os outros, quando o comboio parou na fronteira alemã e as damas da Cruz Vermelha lhes deram as boas-vindas com sopa quente de ervilhas, raminhos de abetos e pinhas. "Amanhã estarei junto de Irmi, pensou ele quando o comboio retomou a marcha, ao anoitecer. Devia ter-lhe escrito de Moscovo, mas asseguraram-me que a carta chegaria ao mesmo tempo que nós. E se ela me veio esperar a Friedland e eu não a vi? Todas costumam fazer isso? Será que a vou reconhecer imediatamente? O que lhe direi? As primeiras palavras são as mais importantes. O que farei quando ela reparar melhor em mim e me disser: Você não é o meu marido Hellmuth Wegener! Meu Deus, o que farei então?!" A carruagem especial foi engatada outra vez antes de chegarem a Friedland. Na plataforma da estação muita gente, repórteres de jornais e locutores de rádio empurravam-se, formando uma passagem para os que regressavam da Sibéria. Atrás, os familiares e amigos que ali os aguardavam há dias ou semanas, mães e pais, mulheres e noivas, seguravam varas com fotografias mantidas acima das cabeças. Quem conhece Hermann Schubert? Quem viu Emil Hagemeister? Quem esteve com Willi Damme? Você conhece um Heinrich Obertz? Nomes, nomes, caras de jovens soldados sorrindo orgulhosamente para os fotógrafos ou fotografias ampliadas e pouco nítidas, de outros tempos, representando rapazes à paisana - possivelmente as últimas que restavam deles. Quem conhece Ludwig Meister... Quem conhece Holger Miiller de Stuttgart... Quem conhece Peter Weinberg... Quem...Quem... Quem? Digam alguma coisa, rapazes! Você encontrou o meu filho? Onde o encontrou? Ainda está vivo? Tem de estar vivo... sei que ele ainda vive... Quem conhece Hans Funcke? Centenas de olhares ansiosos seguiam os recém-chegados mendigando, suplicando, alimentando uma vã esperança que se renovava dia após dia. Olhares onde se notava todo o amor e toda a fé que as pessoas ainda sentiam no íntimo. Por favor, diga-me que o meu filho ainda está vivo, que você chegou a vê-lo... por favor, por favor... Hellmuth Wegener olhou para o grupo de pessoas que levantavam pequenas fotografias e não lhe faziam perguntas. Eram os felizes que sabiam as suas orações terem sido ouvidas, com o maravilhoso regresso dos seus entes queridos dessa antecâmara da morte, a Sibéria. E então, ele viu-a. Reconheceu imediatamente os cabelos louros e o rosto inocente de Irmi. Ela estava na segunda fila de pessoas que se mexiam na plataforma e se ponham em bicos de pés para verem melhor os desgraçados que chegavam. Afastou um repórter de estação emissora que lhe perguntava: - Quais são as suas primeiras impressões ao regressar à pátria? De que parte da Sibéria vem você? Nessa altura já estava diante dela, alto e magro, com uma barba de três dias, vestindo um uniforme pequeno e modificado, donde saíam os braços muito compridos. Tirou o boné da "Wehrmacht", que o estorvava, guardou-o no cinto atado à volta do corpo. - Irmi... - disse ele. Custava-lhe dizer isto. - Irmi, estou aqui. - És tu? -perguntou ela, olhando-o com aqueles olhos azuis, com os quais ele falara quatro longos anos e que sabiam tudo acerca dele e aos quais tudo confessara. Naquele momento estavam à sua frente, fixando-o ternamente, enquadrados numa race bem feita, por cima de um narizinho magro e de lábios 62 63

trémulos. Estendeu-lhe, de repente, as mãos, pondo-as nos ombros ossudos e puxando-o para si. -Hellmuth! - Irmi! Beijaram-se e ela chorou, porque era impossível deter este soluço. Encostou a cabeça ao seio dela e chorou como uma criança. Ela acariciou-lhe o pescoço, os cabelos, as costas que estremeciam e disse: - Agora estás em casa. Agora está tudo bem. Agora tudo passou. Agora será uma nova vida... Inclinou a cabeça, deixando-a ficar entre os seios dela e aspirou o aroma do seu corpo. Finalmente o novo Hellmuth estava em casa, pronto para iniciar uma vida nova e diferente, tendo contraído matrimónio em Junho de 1944 com esta maravilhosa mulher. Ela nunca chegará a saber como foi. Nunca! A pessoa em si é só um nome? Seremos o casal mais feliz do mundo, Irmi." Mais tarde, depois das formalidades necessárias e de uma entrevista para a rádio, na qual Wegener anunciava que havia ainda muitos prisioneiros de guerra na Sibéria e mais outros algures na Rússia, era finalmente um homem livre e saía, pelo braço de Irmi, do serviço de desmobilização. Por toda a parte, coladas nas paredes de madeira havia fotografias e nomes de homens. Um exército completamente desaparecido, destroçado e, como é óbvio, desmoralizado. Seria caso para perguntar: "A quem pedir responsabilidades?" - Estás um pouco diferente da fotografia - disse Irmi repentinamente. - Sempre foram quatro anos de cativeiro, que modificam uma pessoa. - Parou.-Estou assim tão magro? - Não, que ideia! - Ela riu apoiando-se com um saltinho aos braços dele. - Faremos de ti, outra vez, um homem. Dirigiram-se para um parque de estacionamento e para um automóvel preto, cujas portas Irmgard se preparava para abrir. Wegener agarrou-lhe firmemente o braço. - Tens carro? - É do papá. É um Opel P 4. - E a gasolina? - Como farmacêutico, o meu pai tem direito a receber alguma, assim como o canto vermelho para a licença de condução. - Nesse caso, tem de se tirar? - Com certeza. - E ela riu. - Como poderíamos governar a nossa vida, sem isto? Os seus olhos brilhavam. Por amor, poderia levá-la a fazer tudo o que ele quisesse. Percorreram alguns quilómetros e chegaram a um bosque, onde Irmgard desviou o carro da estrada, indo entrar num atalho da pequena floresta. Aí, travou, desligou o motor e soprou as mãos. Estava frio, era um dia de neve, sem sol e cinzento. Agora é que, pensava Wegener, "me vai dizer: Não és o meu marido! Depois pendura-me no ramo da árvore mais próxima..." Em vez disso, ela perguntou: - Tens fome, querido? Wegener sorriu com ar abstracto. Já não tinha controlo da sua própria cara; o coração batia desordenadamente. - Talvez - respondeu com voz rouca. Ela inclinou-se para trás, indo buscar uma caixa de cartão ao assento traseiro, abrindo-a. Dentro havia uma grande lata e, quando levantou a tampa, um cheiro delicioso inundou o pequeno carro. - É galinha!-disse ela. - Eu própria a assei há pouco tempo na cozinha. E tenho também salada de batata. - Irmi! Ele abraçou-a e de novo deixou cair a cabeça no peito dela, recomeçando a chorar. - Amo-te... - balbuciou ele. - Bem sei, porque sou a tua mulher. Ela pôs o braço à volta dele, chegando-o a si. Ele sentia a turbação dela e, por isso, atrevia-se a beijar-lhe os seios através do vestido. Também te quero afirmar - disse ele com voz embargada-, Irmi nunca te esqueças: amo-te muito e nunca deixarei de te amar. - Mas ainda não começaste nada - disse ela levantando a cabeça dele do seu peito e beijando-o no nariz. - Come a tua galinha, antes que arrefeça. - Observou-o de novo com admiração quase infantil, dizendo-lhe em seguida: -Não sabia a tua altura, pois quando me escreveste dizias-me que tinhas um metro e setenta e quatro! 64 65

- Devo ter perdido uns dez centímetros - explicou ele dando uma dentada na galinha, como se fosse um canibal. Ela procurou um prato de folha na caixa e remexeu a salada de batata. - Está bem assim - disse ele, acrescentando: - Tenho mais dez centímetros de amor. Capítulo terceiro



Ao cair da noite chegaram a Schmallenberg na Sauerland. O pequeno P 4 deslizava sobre as estradas e ruas cobertas de neve; era necessário conduzir devagar e com muita prudência, porque os pneus só tinham um perfil e o carro entrava, muitas vezes, em derrapagem. Nessas alturas Hellmuth saía e empurrava-o, afastava a neve e, como o gelo se estendia a perder de vista, instalou dois sacos entre as rodas traseiras, o que não obstava a que avançassem muito cautelosamente, metro a metro, até se sentirem libertos das zonas perigosas. Irmi tinha colocado quatro sacos de juta, um saco com areia e uma pequena espátula no porta-bagagem, assim como um termo com chá quente. - És uma boa condutora - disse Wegener. - E pensaste em tudo. - Durante a guerra aprende-se muito de que antes nem sequer nos apercebemos - respondeu ela. - Muito bem, assim é que é! Ele encostou-se ao capot frio do carro, saboreou o chá quente, observando a sua mulher, cuja face infantil estava corada por causa do frio e do esforço da viagem. O cinzento negro do céu dava lugar a um crepúsculo muito rápido. Mais meia-hora e seria noite completa. - Hoje já não chegamos a Colónia - disse ele. - De modo algum. Pernoitamos a meio caminho. Devemos estar perto de Schmallenberg. Schmallenberg? Nunca ouvira tal nome. O que sabe um serralheiro de Osnabriick acerca de Schmallenberg? - É um lugar muito bonito daqui, da Sauerland. Ela sorriu e atarraxou o termo. - Ah!-Acenou como se se recordassse. - E encontraremos alojamento aí? - Sim. Uma cama encontra-se sempre. É verdade. Uma cama! Pois, com certeza. Esta noite dormirei com ela na cama. Ela é minha mulher. L>eitar-se-á ao meu lado, abraçar-me-á, fará amor comigo, dizendo-me: Hellmuth, meu querido'. E eu sou Hellmuth Wegener..." Continuaram a viagem, até que chegaram a Schmallenberg, 67

com as suas bonitas casas de madeira, e pararam diante de um grande edifício que ostentava por cima, à entrada, a palavra "Hotel". - Espera por mim no carro - disse Irmi, e desceu. - Já trato do caso. - Porque vais tu? Isso compete a mim. - O que tens para oferecer? - Sorriu para sossegá-lo, ficando, de súbito, com uma expressão maternal e compreensiva parecendo mais velha do que realmente era. - Uma colher de lata da Sibéria! Mas isso finalmente acabou. Ela fechou a porta do carro e entrou no hotel. Demorou bastante até ter saído de novo, acompanhada por um homem idoso que a seguia; ela sorriu, fazendo sinal a Wegener. - Vem, Hellmuth! O ancião levou-os por um corredor para um quarto situado nas traseiras; passaram pela porta de um salão grande, por cima da qual existia o letreiro "Restaurante", onde se ouviam vozes de homens. No quarto havia três mesas. Não era aquecido, mas também o frio não era muito. A porta para a cozinha estava encostada, deixando entrar algum calor. - Querido, temos um quarto - anunciou Irmgard -e há assado com batatas e ervilhas, sem ser necessário pagarmos. Tudo isto em troca de duas caixas de sacarina, três de Pyramidon e três de essência de licor. Com estes ingredientes preparam uma aguardente bastante forte que, apesar de tudo, é uma delícia. Ela tirou a trouxa de lona que ele ainda trazia atada com uma corda aos ombros, desde Nowo Nigaisk, poisando-a a um canto. Wegener sentou-se. Da cozinha vinha o cheiro a assado. Hellmuth começou, de repente, a transpirar, pelo que teve de desapertar o uniforme, e fechou os olhos. "MeuDeus", pensou ele, "esta é a nossa noite de núpcias." A noite pela qual sempre sonhara, da qual sempre falara. Mas, em vez disso, encontrava-se no caminho entre Friedland e Colónia, numa cama de hotel, num quarto mal aquecido, que ela tinha pago caro com sacarina, Pyramidon e essência de licor. Não tinha fome, mas comeu uma pequena parte da excelente peça de carne assada, um bocado de porco, criado na cave e em seguida abatido, as batatas farinhentas, as favas de estaca moles, achatadas e sem fios, certamente cultivadas no quintal situado atrás da casa. Tudo tinha o sabor a bolinho de argila. Hellmuth 68 reprirmia os vómitos a cada dentada, mas ia engolindo tudo, porque via como Irmi estava feliz e contente. A mulher do velho, pessoa gorda e simpática, saiu da cozinha, sentou-se à mesa e começou a chorar. - O nosso filho ficou lá fora - disse ela apertando o avental contra os olhos. - Foi em 1943, na Rússia. Morreu como um herói, assim escreveu o seu comandante de companhia. O que lucrou ele pelo facto de ser herói? O que lucrámos nós, os pais, que ficámos sem o nosso querido filho? O hotel era para ele, pois tinha muito jeito para isto. Agora para aqui estamos, já velhos e sozinhos. Como vai ser daqui em diante, ninguém sabe. - Secou as lágrimas dos olhos enrugados, suspirando e inclinando a cabeça várias vezes. - E a Sibéria? É terrível, não é? - Eu sobrevivi, mas milhares de muitos outros, não. - Maldita guerra! - Nunca mais haverá guerra. Depois desta, é absolutamente necessário que haja paz! - O senhor acredita nisso? - A velha passou o avental ao de leve pelo nariz. - Infelizmente os governantes dos povos nunca aprendem estas lições, porque nunca sofrem na carne os horríveis efeitos delas. Vamos fazer guerra à guerra'', estas foram, mais ou menos, as belas palavras que esses senhores nos disseram em 1918. Lembro-me perfeitamente. E o que se conseguiu com isso? Nada, absolutamente nada! Vocês são ainda novos... Pensem no que vai ser dentro de 20 ou 30 anos. Como será o mundo então? Exactamente o mesmo ou mais absurdo ainda do que hoje, isto é o que vos digo agora. Wegener concordava acenando com a cabeça. Serviu-se da comida, brincou com a carne e as ervilhas no prato, empurrando tudo de um lado para o outro. Tinha medo do quarto que esperava por ele, medo da cama, medo por estar só com Irmi. Mas ao mesmo tempo sentia uma profunda ânsia pelo seu amor, pelo seu corpo jovem, pelo seu calor tenro. Irmgard observava-o; já acabara de comer há muito tempo. Ele admirava-se da sua paciência e do seu sofrimento silencioso. A mulher idosa ergueu-se, dizendo: - Então, boa noite a vocês os dois. Desejo que a passam melhor do que nós. E saiu com passos lentos em direcção à cozinha. Wegener pousou a faca e o garfo. Já não podia engolir mais, 69

pois sentia a garganta estrangulada. Bebeu a cerveja espessa amarelo-clara, que lhe sabia melhor do que a água quente da Sibéria, a que os russos chamavam "kipjatok'', limpou a boca com as costas da mão, mas assustou-se, porque isto não condizia, de modo algum, com o comportamento de um estudante de medicina, mesmo que tivesse acabado de chegar de Nowo Nigaisk. Sorriu para Irmi de soslaio, pondo as mãos nas ancas. - Estou cansado - disse ele de repente. - Vamos para cima? - Sim, vamos. "Estou com uma voz estranha", pensava ele. "Tenho uma voz esquisita que soa como o ranger de correntes.'' Levantou-se e foi atrás de Irmi, que tinha a chave do quarto. Junto à porta da sala de estar, voltou-se, correu atrás, indo buscar a trouxa de lona que deixara a um canto. Ela esperou e sorriu-lhe. - São os teus utensílios de barbear? - Sim. É um aparelho velho com duas lâminas. Deram-me no posto da Cruz Vermelha em Frankfurt-no-Oder - respondeu ele passando a mão pela barba rala. - Vou já fazer a barba, Irmi. Depois, ficarei talvez como estou na fotografia... Entraram no quarto n.o 9 e olharam à volta. Como esperavam, não estava aquecido, havia só água fria canalizada, um armário tosco junto à parede, à janela uma mesa com duas cadeiras; ao longo da parede, a cama de casal. Por cima desta, um quadro representando um cisne num pequeno lago. Para Wegener era um quarto de luxo. Na cama até existia uma coberta de lã de ovelha, de cor natural. - Vou-te buscar água quente à cozinha - disse Irmgard para fazeres a barba. Com água fria nada consegues. - Sabes assim tanto acerca do barbear dos homens? perguntou ele com ar jovial. Ela não achou graça; os seus olhos abriram-se mais, com expressão de censura. - Achas isso? - Irmi -disse ele sem jeito. - Aprendi isto com o papá, porque quando se barbeia com água fria magoa sempre a pele. Ela saiu fechando a porta atrás de si. Wegener sentou-se numa cadeira junto à janela e respirou profundamente. "Sou um bruto", pensou. "Não tenho educação, sou um estúpido." Se o subtil Hellmuth Wegener se tivesse comportado 70 de modo diferente, com certeza teria encontrado as palavras exactas e apertado a si a sua mulher durante muito tempo. Deveria ser meigo, espirituoso, precisamente o homem com quem Irmgard Lohmann casara. A enorme cama atraiu o seu olhar. Dentro de meia hora, talvez até antes, deitar-se-ia ao lado dela. Ela esperaria que ele tomasse a iniciativa, depois apertariam as mãos e os seus corpos nus contactariam um com o outro; seria a primeira meiguice... Competia mostrar-lhe que era homem: "És minha. Amo-te." Levantou-se, dirigiu-se para o lavatório e abriu a torneira da água. Em seguida, despiu o uniforme, a camisola cinzenta e ficou de tronco nu à frente do espelho situado por cima da bacia. Olhou para a sua figura reflectida e, mais uma vez, constatou que só tinha ossos: era um esqueleto coberto de pele. "Até se podiam enumerar os ossos: a clavícula, o esterno, os arcos das costelas, o 'sternum'", pensou ele. Ao esterno chamam os estudantes de medicina "sternum", que pertence àquelas centenas de palavras que ele anotara e que dias depois lhe permitiria tomar parte na discussão com os médicos no hospital de Nowo Nigaisk, sem se fazer notar ou levantar qualquer suspeita. Metacarpus - metacarpo; Metatarsus - metatarso; Pneumonic - pneumonia; Trauma lesão, ferida; Exzision - corte; Exitus - morte. Atrás dele, a porta bateu. Irmi regressava com uma panela de água quente. Pôs-se ao lado dele, colocou a rolha de borracha no escoamento e deitou a água no lavatório. - Em que pensas? -perguntou ela. - Numa operação feita no acampamento - respondeu com ousadia. - Operaste? - perguntou ela impressionada. - Com certeza. Cirurgia total. Amputações, operações ao estômago, uma vez até um praeter ao ânus... Soava bem, a credibilidade, a coisa evidente. Ele praticara o suficiente, muitas vezes, na retrete do hospital militar de Nowo Nigaisk. Ali, na tábua da fossa, sentava-se por cima do corte redondo existente nesse bocado de madeira, ouvindo-se a si próprio. Qual é o termo científico para meningite? - Meningitis. E para encefalite? - Encephalitis. Era difícil, mas devagar e com segurança compreendeu isso, guardando o pensamento para si. 71

- Com quatro semestres já podes fazer operações? perguntou Irmi em seguida. - Na Sibéria, mesmo os leigos faziam amputações, porque era necessário aproveitar toda a gente válida. Para sobreviver não se olhavam a gastos com embelezamentos das nossas cicatrizes. - Deve ter sido terrível, meu amor... - Felizmente tudo passou. Voltou-se, beijou-a na testa, dirigiu-se à trouxa e abriu-a. Depois espalhou o sabão pela barba, passando o aparelho três vezes, porque era tão dura que as lâminas gastas não conseguiam resultado eficaz só com duas passagens. Quando se voltou e passou as mãos pelas bochechas sem pêlos, ela já estava deitada. Não tinha dado por tal, pois ela despira-se sem fazer ruído. O vestido estava sobre uma cadeira e os sapatos junto à cama. Irmi puxara o edredão até ao pescoço, o suficiente para ele perceber que se deitara completamente nua. - Agora finalmente vês como eu sou na realidade - disse ele acanhado. - Foi com uma coisa destas com quem te casaste. - Mas gosto de ti, apesar de tudo - O seu cabelo louro brilhava à luz frouxa do candeeiro da mesa de cabeceira, irradiando reflexos magníficos. - E tu bem o sabes, Hellmuth. Ele arrotou. - Sim, eu sei - disse em voz baixa. - Deita-te. Estou cheia de frio. - Deviam ter aquecido isto! - Não há carvão e a madeira tem de ser racionada. Quem quiser, que se aqueça na cama, é o que por aí dizem. - Concordo plenamente. Sentou-se na cama, sobre o colchão, desapertou os atacadores das botas de meio salto que lhe tinham cedido gratuitamente, pela altura da transferência, e preparou-se para tirar as calças. Atrás de ti espera-te a tua mulher'', pensou ele. "Há quatro anos que ela aguarda esta noite, com ansiedade. Quatro longos anos à espera da ternura de uma noite, para a qual ela dissera 'sim' diante de uma mesa com um capacete de aço e uma fotografia". Puxou as calças para baixo, pô-las para um canto e amaldiçoou o corpo que reagia de modo diverso dos seus pensamentos. Quando se meteu na cama, certamente ela percebera o problema do marido, porque disse com voz infantil, mas senhoril: 72 - Vem, esquece tudo agora... Neste momento, estou junto de ti e sempre estarei. Pôs-se em cima dele; o contacto com a sua pele quente e lisa fê-lo estremecer, como se um raio o atingisse. As mãos dela acariciavam-no de tal modo que, com o despertar dos sentidos, gemeu de prazer quando ela rastejou sobre ele, apertando os seios contra o seu peito magro. Tudo o que ele queria dizer, foi sufocado por um beijo. - Amo-te - disse ele daí a pouco. - Amo-te. Assim se pudesse amar, pelo menos, uma vez na vida... E ela respondeu: - Sou muito feliz por ser tua mulher. O farmacêutico Johann Lohmann estava atrás do balcão vendendo medicamentos para a tosse, contra a apresentação de receita, quando Irmgard e Hellmuth Wegener entraram na farmácia. Tinham arrumado o barulhento P 4 ao lado da montra, em sítio onde Lohmann não podia vê-lo quando olhava para a rua. Vamos surpreendê-lo - disse ela agarrando na mão do marido, como se ele fosse uma criança no primeiro dia de aulas. - Surpreender? Porquê? Sorriu com brandura. - Não há dúvida de que vieste da Rússia. Ninguém sabia com exactidão o que se passava. Estava resolvida a ir a Friedland, quando recebi o teu cartão com carimbo de Moscovo. A direcção do acampamento informou: "Diariamente chegam transportes, umas vezes com muitos soldados recém-libertados, outras vezes com poucos. Mas os russos não nos enviam listas com os nomes. Se quiser, pode esperar, mas é natural que leve muito tempo." - E tu esperaste? - Sim - inclinou a cabeça, aconchegando-se mais a ele.- Cinco dias. Éramos 39 mulheres num dormitório - Puxou-o mais para a rua, oferecendo resistência em acompanhá-lo. - O papá mantinha a opinião de que não virias para casa, porque talvez fosses transferido para outro campo de concentração. Ao ouvir estas palavras, parou; ela não lhe largava as mãos, apesar de estarem distantes dois passos um do outro. O que pensa o teu pai a meu respeito? - perguntou ele. Só te conhece pela fotografia, querido. ~-O que pensa ele da minha fotografia? 73

Ela soltou uma gargalhada sonora, tão bela que ele sentiu un toque no coração. - Eu casei contigo, não foi com ele. Os pais são sempre ciumentos em relação às filhas únicas e estão constantemente prontos a criticar. O meu tinha esperança de que me casaria com um farmacêutico, porque nunca tive interesse em estudar farmácia. O papá sempre preparou medicamentos para transformar o negócio em exploração industrial. Laboratórios Lohmann sempre foi o seu sonho dourado. O que o torna conciliador é o facto de teres estudado medicina. Wegener acenou com a cabeça sem pronunciar palavra. "Agora tenho de lhe dizer", pensou, "neste preciso momento, aqui na rua, porque não há lugar mais apropriado para uma confissão, mas quando entrar na farmácia e cumprimentar Lohmann, surgirá, outra vez, o enorme pedregulho a impedir a passagem para a verdade. Torna-se cada vez mais impossível esclarecer que eu sou o serralheiro Peter Hasslick de Osnabrúck..." Olhou para ela, ela sorriu, puxou-lhe pelo braço, aproximando-o da sua cara que, corada pelo frio, brilhava como madrepérola. Era uma rapariga tão feliz e perfeita, que ele respirou fundo, parando de novo. 'É um caso muito sério!, pensou ele. Nunca mais me liberto disto. Tenho de esquecer tudo o resto! Peter Hasslick morreu e está sepultado em Orscha. Só Hellmuth Wegener está vivo.'' Johann Lohmann trabalhava quando os dois entraram na loja. Um cliente aguardava, pois fora aviar uma receita de pomada que Lohmann estava a preparar naquele momento. - Esperamos aqui, como se fôssemos clientes - murmurou Irmi. - O papá verá com os seus próprios olhos! Mantiveram-se um pouco afastados. Lohmann voltou, entregou a caixinha de pomada ao cliente e ia outra vez para dentro, quando reparou em Irmgard e em Hellmuth. Parou, voltou-se para eles e estremeceu, apanhado de surpresa, com as mãos metidas nas algibeiras da bata branca. - Papá, ele está aqui!-exclamou Irmgard, feliz, apoiando-se a Wegener e entrelaçando o braço à volta da cintura magra do marido. - Estás a ver, ele realmente chegou! Apresento-to e olha que o conheci logo! Por que razão estará ela a mentir, pensou Wegener, 'pois 74 trazia uma fotografia de há quatro anos atrás?". Deve ter sido un choque para ela em Friedland quando a aparência dele era diferente. Bom dia, senhor Wegener - saudou Lohmann pouco seguro de si. Aproximou-se sem tirar as mãos das algibeiras da bata. - Ele chama-se Hellmuth, papá. - Com certeza, Hellmuth. Tenho de me ir habituando à ideia de que agora tenho um filho. Observaram-se, silenciosamente. Era a mesma situação desconcertante e forçada, semelhante à que se passara com Irmi em Friedland. Ele não sabia como começar, tinha outra ideia do genro, enganara-se, por causa da fotografia que, há quatro anos atrás, vira em cima da secretária do funcionário do Registo Civil e quando Irmgard dissera "sim". - Senhor Lohmann - começou Wegener e emudeceu imediatamente. Irmi colocou-se atrás dele, comprIrmindo os seios nas suas costas. Ela respirava mais rapidamente do que o habitual, com intermitências, apoiando-se no pescoço dele. - Trata-o por Johann - Lohmann estendeu a mão direita. Pai, de qualquer modo, isto é demasiado infantil para nós. - No seu rosto esboçou-se um sorriso. - O pior de tudo está dentro de ti. - Vem até cá, meu rapaz... Caíram nos braços uns dos outros, beijando-se nas faces. Irmi começou a chorar de felicidade. - Dentro de meia hora fecharei a farmácia - disse Lohmann -, mas teremos pouco tempo para conversar, porque hoje estou de serviço nocturno. Vou dar-te um exemplo do trabalho de um vendedor clássico: alguém toca à campainha às três da madrugada e faz-te saltar da cama, porque não consegue dar peidos. - Papá! -exclamou Irmi, interrompendo-o e corando. Ele é de Barras e na Rússia ficou habituado a certas expressões, não é verdade, Hellmuth? - Lohmann riu com vontade. Mas esta é a verdade: setenta por cento dos clientes nocturnos podiam, muito bem, esperar até de manhã. Mas não... Chegam-se à luz, como borboletas. No outro dia, um bateu à Porta, por volta da uma hora da madrugada, e, aflito, perguntou-me: "Senhor farmacêutico, o que devo fazer? Tenho 75

vontade de cagar, mas não consigo fazer nada, apesar de estar sentado duas horas na sanita! É como se tivesse uma rolha pelo lado de dentro! Acreditem que perdi a linha.Nesse caso, meu caro senhor", respondi então ao sujeito, só há uma coisa a fazer: meta um dedo no cu!" E foi-se embora. Ao amanhecer apareceu-me, de novo, na loja, radiante: "Ajudou-me bastante. Muito obrigado, senhor farmacêutico!" Mais tarde, estavam os três na pequena casa de Irmi, situada num 2.o andar e que ela conseguira transformar em habitação: uma sala de estar, um quarto de dormir, uma cozinha pequena, vestíbulo e casa de banho. Nas janelas, cortinas de tule representando flores campestres. Rodeando uma mesa de nogueira, um jogo de maples forrados com pelúcia. Na parede um aparador grande com portas entalhadas, por cima do qual estava pendurado um quadro a óleo: "Nascer do sol no Lago de Constança." Chão de parquete e no meio uma carpete com motivos persas. Um lustre de latão com cinco braços e pantalhas de seda vegetal amarela com borlas brancas. Ao lado do jogo de maples, um Candeeiro de pé com uma enorme pantalha de papel. Uma lareira de carvão revestida de tijolos irradiava um calor agradável. O farmacêutico Lohmann chegava ao ponto de ter briquetes à sua disposição. Wegener ficou à porta do quarto, com os dedos cravados no peito do uniforme coçado. - É um paraíso - murmurava ele. - Isto é um paraíso... À tarde tiveram um jantar feudal: coelho assado com couve de Bruxelas. Lohmann sentou-se à mesa em mangas de camisa, embora Irmi lhe piscasse o olho várias vezes, mas ele fingia que não via, com uma irreverência quase provocatória. - Tenho uma filha terrivelmente fina - disse finalmente, quando Hellmuth olhava para ela. - Fica cheia de calafrios, porque me sento à mesa como um plebeu que sou, em vez de me apresentar com um fato escuro, camisa branca e gravata. Mas quando se trabalha todo o dia atrás de um balcão mostrando ser-se um exemplo de castidade, é maravilhoso pôr-se à vontade ao chegar a casa à tarde. Não achas, Hellmuth? - Tens razão, Johann. - Não sei onde a Irmi aprendeu todas estas etiquetas. Não me parece que tenha sido no BdM. Aí arrastavam os pés metidos em 76 natos abotinados, usavam uniformes idiotas, formidavelmente rústicos e chauvinistas ao máximo! Comeram o coelho todo; Lohmann fez expressamente questão de tomarem genebra para digerirem melhor a comida e esperou que a Irma voltasse de lavar a loiça na cozinha. Sentaram-se nos maples, no canto agradável debaixo do candeeiro de pé, e fumaram uma cigarrilha, o que demonstrava bem as possibilidades ilimitadas de um farmacêutico adquirir artigos no mercado negro. - Meu rapaz, não se deve fazer isto na primeira noite - disse Lohmann atirando grandes fumaças para o candeeiro e brincando com a nuvem branca e espessa -, mas eu sou um homem que gosta de acompanhar tudo com muita calma. Perdemos a guerra, o nosso povo ficou com um grande 'bigode'', como nunca tinha acontecido antes, o dinheiro nada vale, meio quilo de manteiga custa trezentos e cinquenta marcos, meio quilo de carne trezentos, um maço de cigarros dos mais pequenos seis marcos. Quem consegue adquirir café pode pôr à sua volta um cinto de ouro! Com os camponeses de Vorgebirge ou de Munsterland é possível a troca de pianos por batatas, carpetes por toucinho, armários barrocos por presunto. Quem apanhar os comboios de mercadorias que vão ao estrangeiro, aos países vencedores, e conseguir trazer carvão, tem a bênção do cardeal Frings. Meu rapaz, esta é uma época completamente louca que se aproxima do ponto de ruptura. Consta que dentro de alguns

meses haverá uma reforma monetária. Como a farão... é um enigma para mim! Ainda será possível salvar a Alemanha? - Todos nós temos duas mãos, Johann - disse Wegener. Com elas pode-se começar a fazer alguma coisa. - Nem que seja coçar o rabo, quando se tem comichão! Agora há uma coisa que te queria perguntar e passo já a fazê-lo: os médicos são sempre necessários. Não sei se sabes que a Universidade de Colónia já está outra vez a funcionar. Vais completar o teu curso? Não! - respondeu Wegener sem hesitação. - Não? - Lohmann olhou estupefacto para o genro, através do fumo da cigarrilha. - Mas porque não? Ah! Trata-se de dinheiro?! Principalmente isso - disse Wegener - já não tenho nenhum. Os meus pais em Hannover, a nossa casa, tudo desapareceu... 77



Calou-se. Continuaram a fumar em silêncio, mergulhados no crepúsculo do quarto. "Agora não posso mentir", pensou ele. "Hellmuth contou-me que os pais já morreram e a casa fora destruída por uma bomba. E Osnabrúck? Igualmente. A mãe desaparecera. Talvez tivesse sido um dos muitos corpos anónimos, irreconhecíveis, retirado dos destroços, coberto de poeira cinzenta e lançado na vala comum. - Pagarei os teus estudos! - declarou Lohmann de repente.-Está resolvido! Wegener estremeceu. Já não havia papéis, apenas existiam os documentos da Wehrmacht, o certificado comprovativo da libertação emitido em Friedland, autenticado por entidade oficial e, como tal, baseado na verdade: Hellmuth Wegener, estudante de medicina, e o cartão de identidade provisório com a fotografia dele, de Hellmuth Wegener, bem entendido. Era tão simples transformar-se noutro homem. Mas ser outro homem, seria mais difícil! Quatro semestres do curso de medicina? E o que se aprende durante um curso de quatro semestres? Com certeza muito mais do que as trezentas palavras da especialidade de que ele tinha tomado nota em Nowo Nigaisk e aprendera de cor na retrete. Com certeza mais do que a prática médica adquirida no hospital militar, consistindo de injecções, operações, massagens e aplicação de pensos e de compressas. Serão estes os conhecimentos adquiridos em quatro semestres? Ou haveria mais qualquer coisa? Ainda seria necessário levar em linha de conta a fisiologia orgânica - da qual não fazia a mínima ideia. E a ginecologia! E a pediatria! E a hematologia! E a neurologia! Conhecia todos os nomes, mas não ia além do aprendido e visto na cama-, e mesas de operação do hospital de Nowo Nigaisk. E, ainda por cima, o médico militar chamava-o "caro colega". - Não continuo - repetiu Wegener, evitando o olhar de Lohmann. - Mas porque não? Com certeza não terás dificuldade em continuar! Concluirás o teu curso e ganharás um nariz de ouro! Com 2000 doentes que atenderás com a máxima facilidade, o sol brilhará sempre no fundo do teu porta-moedas! E isto no que diz respeito, apenas, aos teus doentes particulares. Rapaz, parece-me que tens medo de recomeçar e reaprender, após estes anos. Mas não há razão para tais receios! Entrarás muito facilmente no 78 assunto, verás. O espírito humano é mais flexível do que se pensa. Vais descansar alguns meses, comes e bebes bem e no semestre do Verão de 1948 entrarás de novo na sala de aula. - Creio que não, Johann. Wegener sacudiu a cabeça ao pronunciar estas palavras. Através da porta aberta, passando pelo vestíbulo, ouvia Irmi a arrumar a loiça. - Nunca tive a ideia de ser médico. - Penso que se entrasses lá de corpo e alma... - Noutros tempos ainda por lá andei, para não contrariar um tio meu. - E pronto! Agora deitas tudo fora e abandonas a medicina, não é? - É mais ou menos isso. - Parece-me que fazes asneira, rapaz -- Lohmann deitou a cigarrilha no cinzeiro de barro. Via-se que estava bastante preocupado quanto ao futuro. O futuro da sua filha única que nunca acreditara no regresso do marido, até à altura em que ele escrevera. - Se não queres tirar o curso de medicina, qual é então o que escolhes? Queres mudar para farmacologia? Esse seria, realmente, o ideal! Assim, ficarias responsável pela farmácia... - Pai! -de repente Wegener empregou a palavra "pai" ao dirigir-se a Lohmann, como se sentisse necessidade de protecção. O sogro arregalou os olhos para ele, mas era evidente que a discussão lhe agradava.-Desejo esclarecer uma coisa... - continuou Wegener, mas calou-se. Encostou-se para trás, fugindo da luz do candeeiro de pé, indo refugiar-se na penumbra, desejando que esta se adensasse, a lâmpada se fundisse ou se apagasse. "Por onde começarei?" -pensava ele. "Pelo casamento no abrigo, onde fui padrinho? Pelo ferimento de Hellmuth na margem do Dnieper? Pela sua morte no vestíbulo da escola em Orscha? Seja qual for o começo - será sempre um suicídio. No preciso momento em que ia revelar toda a verdade, Irrngard voltava da cozinha. Sentou-se no braço do maple junto a Wegener, abraçou o marido pelo pescoço, beijando-o na testa. Assim já não havia qualquer possibilidade de autodissecar-se, tendo o seu propósito rebentado como um balão. Deixou cair a cabeça, pôs a cara na palma das mãos da mulher e sentiu-se satisfeito por ela ter chegado na altura própria. 79

"Amo-a", pensou. "Seria o homem mais só do mundo, se agora fosse obrigado a separar-me dela." - Qual é o vosso problema? - perguntou ela alegremente. Vocês estão com um aspecto sério. O que se passa? - Hellmuth não quer continuar a estudar medicina queixou-se Lohmann - e acho que pretende esclarecer qualquer coisa. - Parece impossível! Mal ele chega a casa, já estás a aborrecê-lo com essa questão. - Acho que se deve falar sobre o assunto - disse Wegener. - Mas hoje, não. Ainda temos vinho, papá, não é verdade? - Então vai buscá-lo, pardalinho! Ela beijou o marido outra vez e saiu a correr. Lohmann passou as mãos pelo cabelo branco. - É estranho - disse. - É estranho um pai agir deste modo, mas ainda não me habituei à ideia de Irmi ser terna para outro homem. E agora aqui estou sentado a ver como ela te beija. É um sentimento estúpido, quando se assiste a isto pela primeira vez. Perde-se um bocado da nossa vida. - Nós ficamos contigo, pai - disse Wegener. - O que querias dizer há pouco, Hellmuth? - Julgo que talvez fosse melhor iniciar-me na vida comercial, porque não sei se algum dia virei a ser um bom médico. Pratiquei bastante na frente de combate, assim como mais tarde em Nowo Nigaisk. Sofri com os meus feridos e doentes, como se eu próprio estivesse doente, e se um deles morria, chorava à sua cabeceira Será isto verdadeira vocação? Um médico tem de ser humano, é certo, mas não ao ponto de se desfazer em lágrimas à cabeceira dos seus pacientes. A mim falta-me ser suficientemente duro para criar uma carapaça isoladora que me torne completamente estanque à dor alheia, pois tenho sempre pena dos outros. - É tudo uma questão de prática, meu rapaz. Quando, na farmácia, me aparece um doente e vejo perfeitamente tratar-se de um canceroso, não lhe vou dizer: "Meu caro amigo, não tomes mais medicamentos, porque já não adianta, só tens umas semanas de vida e o que devias fazer era gozá-la ao máximo! Tenho de reagir e encarar a coisa como um caso vulgar do dia a dia - Lohmann inclinou-se para a frente, pondo as mãos nos joelhos de Wegener.-Hellmuth, pelo menos, tenta! - Não, pai. Seria perder tempo e já perdi quatro anos. Talvez fosse possível recuperá-los de outra maneira. 80 - Mas como? vou para a tua farmácia e tentarei aprender todas as artimanhas comerciais. - Isso não dá nada, Hellmuth! Uma farmácia necessita de um farmacêutico e não de um guarda-livros. Se quiseres estudar farmacologia... Tenho a certeza que possuo bom espírito de organização. Irmi tem-me falado em algumas das tuas invenções e preparados. Se fundássemos uma firma que explorasse isso... - Uma firma nos tempos que correm? - Lohmann deu um murro no braço da cadeira. - Achas que se pode preparar medicamentos num caldeirão? - Se tudo funcionar bem, porque não?! - És doido, rapaz, desculpa-me que te diga! - Os tempos mudarão, pai. A Alemanha é hoje um montão de destroços, uma terra reduzida a zero, onde renascerá o espírito de pioneiros que recomeçarão tudo, introduzindo novos métodos. Devemos acreditar no futuro, organizando tudo e com os olhos nos felizes dias de amanhã. Quanto a mim, acho que se deveria preparar os teus medicamentos no pequeno laboratório da farmácia e vendê-los, mesmo embrulhados em papel de jornal, mas com a nossa presença lá! O importante será estarmos ali, no nosso posto, quando a Alemanha voltar a ser um estado de razão. - E tu acreditas nisso tudo? - Sim. Claro que acredito! Quando cuspimos nas mãos, elas não ficam secas! Só isto conta. E isto nenhum vencedor, qualquer que seja, nos pode tirar. Pai, se agora estamos deitados por terra, nada nos impede de respirar e de raciocinarmos concretamente quanto àquilo a que, no futuro imediato, teremos de deitar ombros! Mais tarde, já era noite -Wegener já se tinha ido deitar e Irmgard limpava os copos de vinho e os cinzeiros- Johann Lohmann disse à filha: - O teu marido é um fantasista, mas um fantasista com ideias formidavelmente válidas! Se o tivesse visto hoje pela primeira vez em niniatura, tenho a certeza de que mudaria de opinião. A fotografia dele que há para aí é deveras um quadro das mil e uma noites, se a confrontarmos com a realidade! Quando está no duche salta para cá e para lá, para ficar completamente molhado, e não descansa enquanto não o consegue! - Ele veio da Sibéria, papá! 81

- E agora pretende, à viva força, que eu abra uma fábrica de medicamentos! - Mas isso é formidável! - E com quê? - Lohmann agarrou na garrafa e, como ainda continha um resto de vinho, pô-la à boca e bebeu tudo, atitude esta que a filha detestava e por isso fez de conta que nada vira. Ele já não quer estudar, só pensa em organizar, organizar! Com teoria tudo se faz. E na prática? O rapaz vive nas nuvens, não há dúvida. Apesar de tudo, começo a habituar-me a ele. - Isso é muito bom, papá - disse ela, sentando-se de perna cruzada no maple em frente do pai, no mesmo maple sobre o qual II Wegener se acocorara. Irmgard vestia calças largas e compridas. - Hellmuth sabe o que quer. - Tens a certeza? - Se ele não soubesse o que queria, nunca te teria feito a proposta da fábrica. - Cá está um caso típico de lógica feminina - concluiu Lohmann. - E com tudo isto vocês querem construir uma Alemanha nova... Quatro semanas mais tarde Irmgard disse ao marido: - Querido, hoje fui ao médico. Está tudo bem, só que vamos ter um bebé. Wegener respondeu: - É formidável, Irmi, porque sempre o desejei e o ideal seria termos dois, um casalinho: uma menina e um rapaz. - Terei cuidado comigo - disse ela. Ficaram na cama, nus como sempre, corpo com corpo, cada um vivendo do calor do outro. Não era da necessidade de recuperar quatro anos de um matrimónio não realizado - mas sim da ternura que cada um deles precisava como de um copo de água ou de um pedaço de pão: era matéria-prima para a vida. - Será um rapaz e chamar-se-á Peter - disse ele. - Porquê Peter? - Porque era o nome do meu melhor amigo, que morreu em Orscha, na Rússia, junto de mim, com um tiro nos pulmões. Gostaria que o nosso filho tivesse o mesmo nome que ele. Voltou-se sobre as costas e fixou os olhos no tecto. Ela calou-se, acariciou-o e pôs a mão na sua virilidade. Ele gostava 82 quando ela fazia isso e formava uma pequena cova com a mão, apoderando-se e protegendo-o no calor dos dedos. - Com certeza que se chamará Peter. Ele pôs a mão sobre a mão dela, no seu seio, e fechou os olhos em profunda meditação. "O meu filho Peter... Saberás alguma vez quem é o teu pai? - Em que pensas? - perguntou ela. E sempre assim procedia quando ele estava calado. Ela queria saber tudo acerca dele, inclusive os seus pensamentos. Queria (estar no íntimo do seu ser, pois ficava inquieta quando não o (compreendia; e só viviam juntos há cinco semanas. Em Peter - respondeu ele convictamente. - Ele chamava-se Peter Hasslick e era serralheiro em Osnabruck. Era um bom rapaz, coitado. -Acredito em ti. -É pena não o teres conhecido. l Calou-se de repente, bastante chocado por este papel que ela agora desempenhava, sentindo que também era uma maneira de se martirizar a si próprio, uma espécie de auto-sacrifício. "Deve-se couraçar a nossa própria consciência para que um dia, apesar de todos os choques, não comece moral e dolorosamente a sangrar. Só existe um Helmuth Wegener - com esta frase e com este único fundamento, tenho de construir a minha vida." Na manhã seguinte percorreu dois blocos residenciais e entrou na "Papelaria Knoll", onde comprou um caderno de rascunho com capa vermelha. Para isso não necessitava de utilizar papel especial: Knoll era cliente de Lohmann, que lhe fornecia comprimidos de vitaminas. E assim começou Hellmuth o seu primeiro diário, recuando no tempo, até ao dia de Junho de 1944 em que se encontrava na frente de combate, encarnado no abrigo fortificado, fumando majorka e servindo de padrinho ao seu amigo. Quem ler isto, começou por escrever nas memórias, 'não se deve admirar. É a vida de um homem da sua época, a quem o tempo fez o que ele na realidade foi: confesso! - Isto é correcto? Ou deverei dizer: saio da minha couraça de protecção? Ou ainda esta frase que considero a melhor: só peço compreensão? Qualquer que seja a vossa intenção ao lerdes estas linhas, quero que fique bem claro que nunca deixei de amar Irmi... Parou. 83

Posso dizer que nunca deixei de amar Irmi? Poderei afirmar isto, após seis semanas de convívio mútuo?! Atrevo-me a dizer que sim, como se já pudesse lançar um olhar retrospectivo a toda uma vida vivida em comum!" Mas não riscou a frase, antes acrescentou: "Tudo o que fiz, foi com amor." Tinha a certeza absoluta disso e a prova é que, passados anos depois de ter escrito estas palavras, nunca se atreveu a alterar tal afirmação. Ocultou o rascunho no armazém, debaixo de umas tábuas pondo um caixote por cima. Daí em diante, reservava, pelo menos, uma hora por semana para acrescentar qualquer coisa ao diário, geralmente quando Irmi ia às compras ou levava medicamentos às pessoas idosas que já não podiam ir à farmácia e a quem os médicos prescreviam as receitas pelo telefone. No dia seguinte o correio trazia os impressos, Lohmann conferia-os e verificava se coincidiam com as indicações dadas pelos médicos. De um armazenista de medicamentos que uma vez por mês aparecia na farmácia de Lohmann perguntando se precisavam de alguma coisa, sem ser necessária a cobertura oficial, Wegener recebeu o conselho de não ser tão estúpido que com a mania das honestidades e das integridades se deixasse ultrapassar, mas actuasse como comerciante de vistas largas e olhasse o futuro, tendo em vista o facto de o tempo nunca parar. Com o velho Lohamnn nada se podia fazer: não se deixava corromper. - Só uma pessoa de carácter tem possibilidades de sobreviver-disse ele uma vez, quando lhe pediram cem frasquinhos de Pyramidon em troca de determinada quantidade de ossos de presunto da Vestefália - e se vocês todos acham bem este tipo de tráfico... podem ter a certeza de que nunca vos acompanharei! - Assim não se pode fazer nada! - queixou-se o armazenista a Hellmuth Wegener. - O seu sogro é um fóssil da época prussiana! Mas você, meu caro! Você foi "Landser", mais tarde feito prisioneiro dos russos, enfim, um lutador... Consigo até se poderia abrir uma loja de mercado negro, cujas paredes seriam constituídas por montanhas de manteiga e de presunto! E a sua esposa? E o bebé? Eles não se alimentam de ossos! Dar-se-á o caso de a sua esposa querer dar à luz um esqueleto? Com certeza que não! Temos de começar com qualquer coisa em grande. 84 Foi o primeiro arranque. Oscar Hobolka - assim | se chamava o armazenista, natural de uma aldeia da Alta Silésia, de nome Szeynamszyk, que não podia manifestar-se a ninguém, pois ao perguntarem-lhe de onde era, respondia sempre, de bom humor: - A minha origem é Bumski. Este Oscar fora o encarregado de uma farmácia esquecida da Wehrmacht, descoberta algures num abrigo da frente ocidental. Comprara todo o refugo e três porcos, adquiridos a uma camponesa de Múnsterland, a outra do Hesse e a uma terceira do Pfalz; dormia regularmente na casa de cada uma delas durante as suas visitas de farmácia em farmácia, cumprindo, de certo modo, um horário certo. No velho e grande camião, sob uma cruz vermelha, existia a seguinte inscrição: "Transporte de Medicamentos"; tanto bastava para ninguém se atrever a controlá-lo ou a confiscar-lhe a mercadoria, pois nem os franceses, nem os ingleses, nem os belgas, nem os americanos detinham Oscar; para eles, a cruz vermelha era objecto do maior respeito. A polícia alemã ainda examinava os documentos, mas só alguns deles eram carimbados nas repartições de controlo, sendo esta marca a garantia mais importante aos olhos dos serviços públicos; a ninguém vinha ao pensamento que l=

1 atrás, debaixo do tejadilho e ao lado das caixas de Prontosil e embalagens com xaropes, pudesse estar também um porco morto. A velha farmácia da Wehrmacht era um tesouro. Quem a descobrira não tinha a mais pequena ideia do que se tratava: foram dois trabalhadores das minas de carvão, para os quais os três porcos eram tão evidentes como os milhares de embrulhos e pacotes com nomes latinos. Por este mesmo processo, Hellmuth Wegener conseguiu passar vinte pedaços de sabão. - Até agora tive o trabalho principal - disse Oscar Hobolka, quando terminaram o inventário da farmácia da Wehrmacht. Lá só existiam 120 ampolas com morfina, 300 embrulhos de comprimidos para a gripe, 10 garrafas de éter, uma colecção completa de febrífugos, cardiazol, preparados de iodo e -Oscar Hobolka rejubilava- uma caixa de preservativos sempre embrulhados em par. - Era um armazém que dignificava a memória de Lutero exclamou Hobolka alegremente. - E a propósito cito uma frase ele que é, mais ou menos, assim: "Na semana seguinte, nem 85



tu, nem isso serão prejudicados." Wegener, faço votos para que seja feliz no grande negócio! Se nada mais progredir, isto, pelo menos, nunca parará! Verificou um embrulho, encheu de água dois sacos até incharem como balões e olhou para Wegener que não cabia em si de contente. - Não há nada a declarar! Isto é ainda boa mercadoria, Made in Germany". Mas em casos extremos as condições nunca são normais. Então, passamos a ser tudo, até marroquinos, se for necessário. Wegener, a sua função é trabalhar o mercado. Quanto a mim, ficarei em segundo plano. Em caso de rusga, você pode declarar como farmacêutico e como médico: Fui visitar doentes.'' A mim não me tiram nada, porque um negociante tem outros clientes e você é um deles. Era mais fácil dar a Wegener uma ideia de tudo isto. Em Colónia havia determinadas ruas e praças onde se encontravam todos, porque aproveitavam o facto de estes locais serem sempre muito movimentados, e, embora muitas casas tivessem sido destruídas, no fundo não havia qualquer motivo evidente para se passear ali. Perto encontrava-se o mercado novo com as suas ruas laterais ainda em ruínas, mas onde se localizavam a Thieboldsgasse ou a Fleischmengergasse, o mercado do feno e da manteiga com o antigo bairro das prostitutas e, por detrás da estação central, lá estava o local onde, após diálogo travado quase em segredo, se poderia obter tudo, desde pistolas americanas até cartões de identidade falsos, víveres e senhas para aquisição de tabaco ou notas de compra para tecidos que já não pertenciam aos artigos considerados supérfluos. Quando Wegener apareceu com os preservativos, toda a gente se riu. Mas quando apresentou a primeira ampola de morfina, verificou com assombro que se transformara rapidamente num comerciante de primeira categoria, capaz de conseguir tudo, até o mais difícil. Com este fim, vamos encontrá-lo numa das entradas de casas cujo interior fora destruído pelo fogo. Conservava as mãos nas algibeiras, em atitude defensiva, por não conhecer o outro indivíduo de perfil glacial que rosnava palavrões e em monólogo oferecia a sua mercadoria: - Relógios! Sacarina! Sabonetes! Preparados para tirar nódoas de café das calças! 86 Grandes fortunas se fizeram com este tipo de negócio. Leve uma matraca consigo! - aconselhou Hobolka quando Wegener, oito dias depois, já era tão conhecido que até lhe quiseram fazer uma espera. Trazia sempre quatro ampolas de morfina e alguns pacotes de outros medicamentos, além de receitas falsas para se safar elegantemente, caso houvesse alguma rusga. - Já mataram um homem por causa de um repolho e agora sabem o que temos! Hellmuth, você está, outra vez, na frente de combate, e nas traseiras da estação principal o perigo é tão grande como em região infestada por guerrilheiros. Tenha cuidado! Wegener tomou as suas precauções: na mão direita segurava a pistola e na esquerda as ampolas. Três vezes foi necessário tirar a arma da algibeira do sobretudo, porque três homens quiseram cercá-lo. - Muito bem, camarada! - disse um deles. - Queremos fazer negócio e não questionar. Que artigos tens ainda em armazém? - Isso não sei - respondeu Wegener prudentemente. - Se estivesse lá, era fácil responder. Mas como estou aqui... - É lógico! Dinheiro contado ou sujeito a oferta? Sujeito a oferta queria dizer: informação sobre os mais variados objectos para troca que se tinha para oferecer. Havia pianos, carpetes, estantes para livros, fogões, colchões de penas e um dia até apareceu a Loura Marlies'', um quadro de uma rapariga de 23 anos, a cujo baixo ventre muitos artistas do mercado negro atribuíam grande valor. Wegener já estava metido dentro de toda esta engrenagem: uma vez levou manteiga, toucinho, chouriço, café, compota e carne salgada; noutra ocasião, trouxe consigo moeda corrente. - Mas para que quer você o dinheiro? - perguntou Oscar Hobolka, quando Wegener certo dia regressou com 1700 marcos. - Tenho a impressão de que em breve tudo isso vai servir para você limpar o cu! Dinheiro! E isso para que serve? Hellmuth, oiça o meu conselho: deixe-se de fantasias e encha a cave de mercadoria! Tenho em mente um grande projecto - disse Wegener com ar pensativo - para o qual necessito de bastante dinheiro. Oscar, eu aprendi muito atrás da estação central. E ali sabe-se de muita coisa... Mas que projecto louco é esse, pode-se saber? - perguntou 87

Hobolka estupefacto. - Tudo o que não é planeado a longo prazo dá merda pela certa! - Mais tarde falar-lhe-ei no assunto. Wegener começou a dispor o dinheiro para distribuir, mas Hobolka fez-lhe sinal, negando-se a recebê-lo. Aquele ia juntando valor real, principalmente jóias de ouro, brilhantes e - por esta ideia genial entusiasmara-se muito- sobretudo, bens de raiz. - Você come meio quilo de manteiga e mais tarde caga tudo isso - disse ele de repente. - Bebe meio quilo de café e mija tudo daí a bocado. Mas a terra e o chão ficam. Isto ninguém lhe pode levar, não apodrece, não ganha bolor, não azeda, nem cria ranço. E eu que sou idiota, limito-me a juntar dinheiro. O velho Lohmann e Irmi não percebiam muito bem que espécie de negócio Wegener tinha atrás da estação central ou na Thieboldsgasse. Com efeito, levava as receitas quando visitava o armazém de fornecimentos, só voltando a Lindenthal, no barulhento Opel P4, passadas uma ou duas horas, sem que ninguém se lembrasse de que ele pudesse ser uma daquelas figuras do mercado negro que esperava todas as noites e sofria sempre a maior ansiedade. - No fundo, sou um porco! - confessou uma vez a Oscar Hobolka. - Se eu sei por onde passa a morfina?! Direi não, mas conheço a história toda. Quantas vidas destruímos nós com isso, Oscar... - Quantas vidas foram destruídas na guerra? Calcula-se à volta de cinquenta e cinco milhões! - Já não haverá mais guerra! - Aí é que está o engano! E que situação é esta em que vivemos? Será isto uma época normal? Deixe-se de disparates acerca de humanidades e de ética médica, nem me venha invocar a sua consciência de médico. Meu caro amigo, desculpe-me a franqueza, mas hoje em dia cada um governa-se: se o vizinho consegue obter determinada coisa, por que razão você não o consegue também? Trate você da sua vida e não se preocupe com o resto! Wegener nunca chegou a falar a Hobolka no seu projecto, que cada vez mais ia tomando forma. Irmi e Lohmann desconheciam completamente o caso, porque Hellmuth nunca lhes falara nisso. Aquele continuava a considerar o genro um fantasista, não podendo compreender por que ele não queria continuar a estudar por isso, limitava-se a observá-lo a certa distância, principalmente porque Wegener tratava certas conversas com os fornecedores da farmácia cujo conteúdo ele não entendia. Assim, tentava sondar a filha, que lhe respondia evasivamente: Realmente já percebi que ele tem certas ideias. - Também eu!-exclamou o velho Lohmann de mau humor. - Mas ele não te conta nada? Não faz alusões? - Não. - Céus! Então sobre o que falam vocês na cama? - Somos felizes, pai! Somos felizes e esperamos um bebé! O velho Lohmann fungou; recebeu a resposta como uma bofetada sem mão. - E tudo isso não é monótono? - E com a mãe, também não era monótono? - Todos os passos da minha vida, dava a conhecer à tua mãe! - Hellmuth também trata de tudo comigo. Tens de ter paciência, pai. Logo que ele achar conveniente, com certeza te dará conhecimento. - Mas porque não lhe perguntas, Irmi? - Não, porque o que ele faz, está certo. Lohmann rendeu-se: contra tanto amor não havia quaisquer argumentos. "Portanto, aguardemos", pensou. "O meu genro está a tramar alguma. Queira Deus que seja algo de razoável." Como se afirmou anteriormente, nunca mais se chegou a saber nada de Oscar Hobolka, só que um polícia alemão em Sinzig-no-Reno desconfiou dele e decidiu passar uma busca ao camião, apesar de ostentar a cruz vermelha e o letreiro "Transporte de Medicamentos". Hobolka protestou depois, quando o polícia descobriu cinco quilos de café, quatro quilos de manteiga e uma tonelada de carne salgada, tentou suborná-lo, oferecendo-lhe uma comparticipação de 40 a 60 %; isto ainda agravou mais a situação. O carro foi confiscado e ele deu entrada na prisão de Koblenz. Aí apanhou uma pneumonia e embora tivesse todas as possibilidades, como comerciante de produtos tarmacêuticos, de obter penicilina, morreu de um ataque de coração quatro dias depois. Ninguém soube do seu funeral, pois não tinha parentes. Quando Wegener, dez dias mais tarde, esperava Oscar, soube pelos vizinhos de que devia ir a Koblenz visitar a campa de Hobolka. "ara começar, decidiu aguardar que os serviços públicos 89

dessem publicidade do facto, procurando possíveis conhecidos e amigos do defunto. Efectivamente, a polícia despejara a cave de Hobolka, completamente cheia de mercadorias do mercado negro, procurando, agora, ligações e cúmplices, pois era impensável que um homem sozinho pudesse transportar aquela quantidade enorme de objectos. Assim, era melhor para Hellmuth Wegener estar sossegado e prometer a Oscar no céu ou no inferno - o próprio cardeal Frings também não devia saber qual a classificação dada por Deus a este membro activo do mercado negro- que cuidaria da sua sepultura. A Primavera cobria as ruínas de verde, o mês de Maio chegava com calor fora do vulgar, as formas femininas de Irmi acentuavam-se mais, os seios aumentavam, mas nada se notava ainda no resto do corpo. A sua dedicação terna era cada vez maior. - Sinto-me como se alguma coisa crescesse dentro de mim dizia ela - mas é maravilhoso, querido. Hellmuth Wegener nada fazia agora - embora percebesse que existia qualquer coisa de produtivo na "actividade". Continuava a ir à farmácia, movimentava os medicamentos das prateleiras, transportava no velho Opel P4 todos os produtos necessários dos armazenistas fornecedores e cuidava dos novos "stocks", passando como um gato pelas ruas onde abundavam os traficantes do mercado negro, e observava com minúcia tudo à sua volta. O mais importante de tudo era adquirir novas relações, aprender a conhecer muitas pessoas, quantas mais melhor, e a estabelecer contactos a todos os níveis. Certa noite chegou a casa com a seguinte informação: - Dentro em breve o nosso dinheiro actual valerá menos do que uma folha de papel higiénico, porque está em preparação uma reforma monetária. Nesta conformidade, os aliados já mandaram imprimir o dinheiro; a nova moeda deverá chamar-se DM-"Deutsche Mark"! Se nos safarmos agora, poderemos começar em beleza depois do dia X! - Mas o que queres dizer com isso de nos safarmos e de começarmos em beleza? - perguntou Johann Lohmann. - Para nós, safarmo-nos quer dizer: estar em óptimas condições para liquidar o existente por bom dinheiro. Começarmos em 90 heleza significa: com um capital base fundarmos a fábrica de medicamentos Lohmann & Wegener. - O rapaz realmente argumenta bem! - disse Lohmann à filha.- Isto trocado em miúdos tem a seguinte explicação: continuo a trabalhar como sempre trabalhei, não podendo açambarcar qualquer medicamento vital. Tal acção seria um jogo sujo! - Mas quem está a falar em medicamentos? Apenas me refiro a reconstituintes, calmantes, vitaminas, alimentos para bebé, glicose, sabão autêntico (não as várias espécies de sabonetes), sumos de fruta, peptona, enfim, todos os produtos de maior procura, principalmente quando a sua venda passou a ser livre, como agora em que há de tudo outra vez, sem quaisquer limites ou racionamentos! Agora os calmantes são mais importantes do que tudo o resto! - O gajinho aprendeu a ser brilhante como gente grande e isto com elegância! - exclamou o velho Lohmann comovido. Diz-me só se já descobriste alguém que nos forneça material para a construção da fábrica. - Pois já! Trata-se da firma Ebershams & Co. em Colónia-Niehl. Logo após a oficialização da reforma monetária deves ir ter com eles e declarar o que precisas. Faremos um contrato de crédito para ser pago em prestações amortizáveis... - É uma acrobacia arriscada e sem rede! - Na verdade, assim é. - E se cairmos com o focinho no chão? - Temos sempre possibilidade de nos aguentarmos e de cabeça erguida! - Não te compreendo, Hellmuth. - Johann Lohmann apagou apressadamente a cigarrilha. Como sempre, discussões destas tinham lugar à tarde, depois do jantar, na salinha de estar à volta da mesa. - Afinal não és nenhum fantasista. És um jogador que não deixa fugir as oportunidades! No dia 20 de Junho de 1948 os milionários ficaram reduzidos a miséria. Houve uma desvalorização do dinheiro antigo, sendo possível roçá-lo na proporção de 1.10, mas só para quantias limitadas. Nesse dia, cada um dos cidadãos alemães recebeu 40 DM em ao. foi um dia em que pela primeira vez -e esperava-se 91

que fosse a última - o velho sonho da Humanidade se tornava realidade, mesmo só por algumas horas: todos eram economicamente iguais! Depois, cada um seguiu o seu próprio caminho. Nas casas comerciais ocorreram verdadeiras maravilhas: as montras encheram-se de vários artigos, como se uma chuva de inúmeras delícias, há muito desejadas, caísse do céu. Havia sapatos e fatos, presuntos e toucinho, conhaque e vinho, perfumes e sabonetes, além de outros artigos de cuja existência as pessoas se tinham esquecido com o decorrer do tempo, tais como: casacos de peles e jóias de brilhantes. Nos talhos o limite de um grama fora banido e as leitarias já não vendiam a manteiga em papel de embrulho grosso, o que representava, no fim da semana, um lucro líquido de peso acima do meio quilo. A farmácia de Johann Lohmann, mesmo nos piores tempos, era um lugar onde nunca ninguém fora mal atendido, porque sempre tivera pequena reserva de produtos, inclusive na própria cave. - Tudo para cima da mesa, pai!-exclamou Wegener ofegante. - Parece que as pessoas estão embriagadas: é uma autêntica loucura, pois compram tudo, desde chuchas para bebé até pensos higiénicos, o que é certo é que compram! - Mas que vergonha! - murmurou Johann Lohmann aviando as receitas atrás do balcão e observando as pessoas que se empurravam dentro da loja. Irmgard e Wegener atendiam apenas as pessoas que se apresentavam com receita; Lohmann já não podia mais e resolveu sair, pedindo desculpas. Ao passar pelo genro disse-lhe: - Somos uns abutres, Hellmuth! - É uma libertação, pai. Dá-se um marco e recebe-se qualquer coisa em troca. Quanto tempo durará isto, ninguém sabe. Na próxima segunda-feira iremos a Niehl e trataremos do nosso caso com a direcção da fábrica. As semanas passaram. Durante o dia ficavam na loja e à noite Wegener partia para ir buscar novos fornecimentos. Finalmente reconhecia-se o valor incalculável dos endereços de negociantes do mercado negro que ele coleccionara. De manhã caía extenuado na cama, arrastava-se para junto do corpo quente de Irmi e adormecia imediatamente. Não ouvia nem mesmo a estridência do despertador, nem o pequeno ruído 92 e a mulher fazia ao levantar-se ou o barulho natural da casa de banho e continuava ferrado no sono quando Irmi lhe dava um beijo na testa e descia com o pai para preparar o café, levantar as persianas da farmácia e abrir a porta da loja. Ao descer, na maior parte das vezes, às 11.30, já ia encontrar a mulher de faces coradas a trabalhar atrás do balcão. A caixa registadora não tinha descanso. Johann Lohmann estendia constantemente as mãos, porque tinha muito prazer em cumprimentar todas as boas pessoas de Colónia-Lindenthal. Atrás da casa, uma máquina misturadora trabalhava na construção de uma parede, bloco em cima de bloco. Aos poucos erguia-se o pátio e começava a surgir a primeira galeria da fábrica de medicamentos. Em Outubro, o oitavo mês do seu estado interessante, Irmi estava tão grossa que já não se podia manter de pé atrás do balcão. Geralmente sentava-se na cadeira, comia muita fruta - 'chegou a comer sozinha um quintal de fruta!"- afirmou Lohmann certa vez, no tempo das cerejas, e escutava o seu interior: era uma criança cheia de vida, que incessantemente pedalava e dava murros na barriga da mãe e não parava de crescer. - Será um gigante!-afirmou Lohmann com orgulho antecipado de avô. - E um grande beberrão, com horror a copos vazios! Riu-se do gracejo dito à mesa e, com entusiasmo, bebeu um copo à saúde do seu neto.

Capítulo quarto Como sempre, utilizavam só um lado da larga cama de casal: ajustavam-se um ao outro, entrelaçavam as pernas, ela colocava a cabeça na curva do braço dele ou a cara dele assentava na base sensível à volta dos seios aumentados. Nesta altura, no corpo dela, já bastante arqueado, percebiam-se nitidamente os movimentos da criança, notando-se, ora um pé, ora um braço. O casal dormia tão junto quanto possível e como ela já não se podia virar, ele deitava-se levemente dobrado, formando uma curva com o corpo, de modo a ela se ajustar com as costas, encontrando assim uma posição mais cómoda para o marido pôr um braço por baixo do pescoço, colocando o outro sobre o braço dela, agarrando-lhe os seios... Para ela era a melhor maneira de dormirem em comum, quentes, com o sentimento da mais absoluta naturalidade, sem sonhos e em completa felicidade, formando um todo único. - Só mais um mês e teremos a nossa criança. Tens medo, Hellmuth? - Fico doido quando penso nisso... Só as tuas dores me preocupam... - Mas milhares de mulheres já passaram por tudo isso! - Tenho a impressão de que me vou embriagar nesse dia. Pela primeira vez na minha vida, vou tomar uma bebedeira a sério. - Pela primeira vez? - Sim, pela primeira vez, porque desejo tanto ter um filho, como nunca desejei nada na vida. Dantes quando... quando era estudante... Estas palavras vieram-lhe estranhamente aos lábios, porque muitas vezes ouvira dizer que os estudantes bebiam muito e gabavam-se de passarem grande parte das noites em pequenos botequins (não se lembrava bem do nome próprio dado a estes estabelecimentos) ou tabernas, onde, em consequência de grandes bebedeiras, se cometiam muitos excessos. Os rapazes encontravam-se secretamente, golpeando-se com sabres nas caras; estas praxes tinham nomes determinados. Wegener não se lembrava bem e a fadiga ainda mais lhe entorpecia o cérebro, até que na mente lhe ocorreu: "Esgrima", era isso! Os sítios onde tinham lugar os recontros, chamavam-se "terrenos de esgrima" 95



e havia um "médico de esgrima": ao conjunto de toda essa violência chamava-se 'duelo", tendo sido tudo proibido durante o regime nazi. As marcas deixadas na cara designavam-se por "cicatrizes" e os rapazes ficavam extremamente orgulhosos porque elas significavam para eles algo semelhante a uma legitimação eterna, um sinal de reconhecimento dos académicos uma identidade marcada na face, que muitas vezes lhes abria as portas que para outros se fechavam, como se fosse pela acção de uma chave mágica. - Em que pensas? -perguntou ela.- O que se passou quando eras estudante? - Bem, naturalmente que eu também me embriaguei! respondeu ele sem pensar. - Na taberna, depois da esgrima, no fim do duelo. Achou que estava bem assim e como ela não pretendeu saber mais nada, nem a viu admirada, julgou ter usado as palavras apropriadas. - Mas isso era outra coisa muito diferente. Compreendes, querida? - Sim. Compreendo - disse ela beijando-o. - Mas não apareças embriagado ao hospital, para o bebé não ficar com uma impressão falsa a teu respeito... Ela riu e aconchegou-se mais ao marido, sussurrando junto ao pescoço dele: - Eu também tenho medo, mas é um medo que me dá alegria imensa. Nessa noite, pouco depois da uma hora, Irmgard estremeceu de repente. Só podia levantar a cabeça, porque as mãos de Hellmuth apertavam os seus seios. Ele murmurou meio adormecido : - Bateu outra vez? A quem sairá a criança em temperamento? - Foi um tiro, Hellmuth - disse ela suspendendo a respiração. - Disparate! Um tiro? Talvez fosse um golpe de vento. "Oh! Raios!", pensou ele. "Já não estou na tropa, nem já sou o serralheiro Hasslick, mas sim o estudante de medicina e o herdeiro da farmácia, Hellmuth Wegener." Largou o peito de Irmi e em seguida sentaram-se os dois na cama, em expectativa. Algures qualquer coisa estalou, soando como metal, mas nada que se parecesse com um tiro. - Ouve! -disse Irmi, apertando a mão de Hellmuth. 96 - Querida, o que quer que seja, bate. Deve ser por causa do ootn na oarte nova em construção. Sossega e vê se dormes! VClll-C'l iAt* f .ITT- l *1 l - Mas eu ouvi um tiro! não acordo com um simples estalar de madeira ou de metal! A guerra acabou. Já não haverá tiros - afirmou Hellmuth. No entanto, levantou-se e, descalço, às apalpadelas, dirigiu-se à janela, correndo a cortina. O quarto de dormir situava-se a seguir ao pátio, onde se começava a levantar a obra de alvenaria no átrio da fábrica. Antigamente era o local mais sossegado, mas agora estremecia todo o dia devido ao barulho da obra. Até haveria mais barulho, se a fábrica já estivesse pronta e em plena laboração, mesmo durante a noite. Então, o quarto passaria para outro lado, porque havia a hipótese de construção de uma nova casa num terreno bonito situado muito perto. Só eram necessários três minutos para ir até à farmácia, o que era muito bom, principalmente de noite e em serviço de urgência, sendo desnecessária a presença de qualquer pessoa a dormir no divã duro atrás do balcão. No local onde se erguia agora a nova construção de alvenaria não havia qualquer iluminação, pelo que numa noite escura de Outubro, como esta, tudo se confundia na sombra. Montões de pedra e de areia, sacos de cimento destapados, uma máquina misturadora, um guindaste, tábuas de madeira e de contraplacado, traves, tubos, um grande torneador... enfim, um número infinito de material próprio e de utilização necessária na construção civil. De facto, o vento ali provocava certo ruído e estalidos de diversa ordem. Wegener acalmou-se mais e já se preparava para dizer: ''É o vento, é só o vento; o filho que Deus nos depara agora..." quando, de repente, viu um vulto a deslizar por entre os sacos de cimento e as pedras: era algo ainda mais escuro do que a própria escuridão da noite e que saía furtivamente do átrio da fábrica. Pronto! Temos merda!"-disse para si, mas nada pronunciou em voz alta. Fechou as cortinas e pensou em Irmi, que atrás dele aguardava. "É absolutamente necessário que ela não se assuste, nem se excite, pois a criança é agora o mais importante de tudo. E se lá em baixo está alguém que queira levar tubos ou pedras da construção, que o faça; o essencial é ignorar o que se está a passar neste momento. Mas como uviu ela um tiro? Quem teria disparado na nova construção, se 97

só veio cá para roubar? E principalmente: sobre quem teria sido disparado o tiro? - O que se passa? - perguntou Irmi, ainda sentada na cama Contrariando o pedido do marido, erguera-se nua, com os seios abundantemente cheios e o cabelo louro colado à testa. A sua face infantil reflectia bem o medo de uma rapariguinha que receia lhe possam arrancar a cabeça da sua boneca preferida. - Nada. Absolutamente nada! - respondeu ele. Mais uma vez mentia, pois tal aprendera, continuava a praticar e a mentira era para ele uma constante da vida. - Mas para ficares mais tranquila, vou lá abaixo e procurarei saber o que se passa. Vestiu as calças que estavam penduradas numa cadeira diante da cama e pôs o casaco sobre o tronco nu. "O sujeito está ali", pensou. "Já o vi. Só vou lá para Irmi sossegar e ver que não sou nenhum cobarde. - Vou contigo! - disse ela de repente, pondo as pernas fora da cama. - Ficas aqui! Estarei de volta dentro de cinco minutos. - Hellmuth, eu... - Deita-te, por favor! Tapa-te. Pensa na criança! Este era sempre o argumento mais forte e melhor aceite ao ser invocado. Naquele momento, nada era mais importante do que a criança. - Talvez tivesse ouvido mal - disse ela, pois parecia-lhe ridículo e fazia-lhe pena ter acordado Hellmuth por tão pouco. "Devia-me ter calado", pensou, "mesmo que tivesse ouvido um tiro.'' Agora a ansiedade aumentava. - Talvez nem tenha havido qualquer tiro. Com certeza foi sonho... - Nisso também acredito, querida - disse ele calçando os sapatos sem amarrar os atacadores-, mas veremos daqui a pouco. - Sonho sempre com a guerra! - Ela sentou-se nua e disforme na borda da cama, disforme, fruto do seu amor por ele. Ainda oiço tiros e granadas e o sibilar das bombas, o uivo das sirenes, os motores dos bombardeiros, o crepitar das chamas nas casas incendiadas, as explosões... - Não nos vamos esquecer disso tão depressa, é verdade, disse ele. - Nem sequer passados três anos e nem mesmo trinta. Talvez nunca mais! A nossa geração passará toda a vida a ouvir esses terríveis ruídos. Mas os nossos filhos, não! E absolutamente necessário que eles nunca passem por essa 98 verdadeira maldição! deita-te e tapa-te, querida. Realmente ouvi um pequeno estalar de tábuas. Já venho... Obedecendo ao pedido do marido, ela deitou-se outra vez, puxou o plumeau para cima de si (desde o tempo de Napoleão e em casa dos Lohmanns, o adredão tomara o nome de "plumeau"), juntando as mãos sobre o peito. Não vás - pediu ela de repente - vem para junto de mim, Hellmuth. Realmente foi um sonho... Voltarei dentro de cinco minutos! "Quero ver o que ele roubou'', pensou Hellmuth Wegener, "e por esta razão deu o tiro. Um ladrão só dispara se for completamente doido!" Voltou à cama, beijou Irmi na boca - ela tinha os lábios gelados, o que o comoveu - puxou o edredão até ao queixo da mulher e saiu do quarto. Não acendeu a luz, desceu a escada, dirigiu-se primeiramente à farmácia e tirou da gaveta, debaixo do balcão, onde estavam fechadas as receitas de narcóticos, uma pistola 08 bem lubrificada que ele trocara no mercado negro por cem comprimidos de aspirina... no dia 10 de Maio de 1948, quando um maço de cigarros americanos valia mais do que um piano. Nessa data efectuara a troca, não só pela 08, mas também por três carregadores e trezentas balas, porque o negociante tinha tipo tão faminto e lhe explicara que, por sua vez, fornecia a aspirina a um doente (nesse tempo também se podia estar doente, porque a alimentação era preparada à base de sobras de comida cozidas em gorduras, fervendo-se pele de arenque até fazer sopa), para sobreviver uma semana. Este doente dava toucinho em troca... Hellmuth empurrou o carregador cheio para dentro do punho da 08, destravou o fecho de segurança e colocou a arma entre a cintura das calças e a barriga nua, saindo em seguida. Era uma noite de Outubro não muito fria, mas pouco agradável, característica do fim do Outono, com muita humidade no ar. Wegener atravessou o pátio, passou junto do montão de material e entrou no átrio novo com a mão agarrando firmemente o punho da 08. Aqui as sombras tornavam-se mais profundas, o que era natural; se realmente faltasse um bocado de tubo de cobre da canalização, dissparava-se para o ar", pensou ele. Assim, Irmi dormiria mais sossegada e quando voltasse a sonhar de novo com tiros, já não se assustaria tanto. deteve-se à entrada do átrio e já se preparava para voltar a 99

casa, quando, da escuridão, ouviu um som estranho e surdo semelhante à queda de um saco. Mas os sacos não caem por si e ainda menos com a suave aragem que soprava levemente através da construção recém-erguida. Wegener tirou a pistola da cintura e - coisa muito curiosa -- sentia-se tão bem como outrora em Ranowjewo quando, à boca da noite, foram atacados de surpresa por guerrilheiros que surgiam de todos os lados e depois tiveram de lutar corpo-a-corpo pela própria sobrevivência. Nessa época desenvolvera-se o instinto de animal, farejava-se e descobria-se onde se encontrava o ininigo ainda antes de o ver. Avançou para trás do sistema de aquecimento para se abrigar, ajoelhou-se e pôs-se à escuta, sustendo a respiração. Não voltou a ouvir-se qualquer ruído, a não ser o imperceptível zumbido da aragem que soprava no átrio. "Esperemos", pensou Wegener. "Ali está qualquer coisa, disso estou convencido; Irmi tinha razão... está alguém na parte nova! Mas, o tiro?! Qual teria sido o motivo para alguém disparar? Pelo menos, deviam ser dois gajos com o mesmo pensamento; discutiram e resolveram o problema com a arma. Ainda aguardou um pouco mais, sem se mexer donde se encontrava, depois rastejou - quando era militar aprendera este tipo de movimento, ideal para neutralizar qualquer adversário em qualquer terreno- através da poeira existente, em direcção contrário ao sítio donde partira o ruído do saco. Os seus olhos já estavam habituados à escuridão do átrio. Deste modo, podia distinguir mais claramente todos os objectos dispersos por ali, tais como: um monte de pedra a meio da sala, alguns caixotes com material diverso, manilhas de cimento arrumadas em pilha para os esgotos, fazendo lembrar tubos de canhão, uma tina grande e branca com cal preparada, alguns suportes de ferro, redes compridas de aço, rolos de arame, etc. E por entre os montes de pedras e bocados de madeira, qualquer coisa silenciosa e sem forma definida se movia devagar, estremecendo de modo estranho. A atenção de Wegener foi atraída para este ser estranho, porque era a única coisa que se mexia, no meio de todos aqueles objectos rígidos. Sentiu o sangue gelar nas veias. Irmi'', pensou, "como é bom ela ter ficado deitada! Não há 100 dúvida de que ali está uma pessoa atingida por um tiro. Ainda "existe mas em breve morrerá." Ele sabia isto, porque na guerra aprendem-se todos os movimentos dos moribundos. Wegener levantou a pistola e ergueu-se nos joelhos. Nunca se sabia como reagiria a parte contrária, pois tinha visto russos que só levantavam as mãos e disparavam, mesmo quando já não havia vida nos seus olhos. Tudo podia acontecer - para ser possível sobreviver na frente de combate. - Fica deitado! -ordenou Hellmuth Wegener a meia-voz, para dentro do átrio. - Estende os braços para os lados, mas continua deitado! Rapaz, tenho uma 08 na mão. Sabes quantos buracos é capaz de fazer?! Agora vou aproximar-me de ti, mas se te mexeres, faço fogo! Esperou por resposta, mas o vulto manteve-se silencioso, embora mexesse levemente uma perna, ficando depois completamente imóvel. Wegener saltou rapidamente, aproximou-se e curvou-se sobre o corpo que jazia por terra. A cara estava cheia de pó de cal, branca como a de um palhaço empoado, sobressaindo desta massa branca dois olhos muito abertos que o fitavam. A boca mexeu-se, mas a pessoa já não podia proferir qualquer palavra. Wegener ajoelhou-se, pousou a pistola no chão e colocou as mãos sob a cabeça do moribundo, fixando a vista nele. - Pai... -balbuciou ele.- Meu Deus, pai! O que aconteceu?! Pai! Pai! Pai! As palavras saíam-lhe com esforço, pois, nestes breves segundos, tomou conhecimento, com espanto, da situação de desamparo em que subitamente caía. Johann Lohmann fitou os olhos em Hellmuth Wegener. Os seus lábios moveram-se, mas já nenhuma palavra podia sair daquela boca. Pretendia certamente narrar o que acontecera: ao regressar a casa e ao passar junto ao material de construção vira o clarão de uma lanterna eléctrica de bolso, apanhara uma barra de tetro para enfrentar o intruso que não conseguira ver - pois o feixe de luz cegara-o -, levando, ao mesmo tempo, um golpe no peito e perdendo a consciência... Ele queria contar tudo, mas da sua boca não havia possiilidade de sair qualquer som e, embora o cérebro ainda raciocinasse, o corpo já morrera. 101

Wegener continuava a segurar a cabeça de Lohmann con ambas as mãos. Um médico, pensou ele. Uma ambulância! E lá em cima Irmi esperava na cama... Já não tenho tempo de levar o pai para casa. A melhor solução é deixá-lo aqui, correr para casa e prevenir um médico e o hospital. Devo... devo..." Mas nada fez. Permaneceu ajoelhado, continuando a segurar firmemente a cabeça branca de Lohmann, não tirando os olhos dele. Já nada se podia fazer. Talvez mais um minuto, nem tanto... só alguns segundos e tudo acabaria. - Pai - disse ele em voz baixa. - Pai, prometo-te ficar sempre ao lado de Irmi. Sempre! Irmi será toda a minha vida. Juro-te que assim será... Johann sucumbiu. Exalou o último suspiro, com a cabeça sempre apoiada nas mãos de Wegener. Este, ao verificar que Lohmann estava morto, pôs o ouvido nos lábios frios do sogro, pousando-lhe a cabeça suavemente no chão de cimento. Nesse preciso momento, a luz intensa de uma lâmpada eléctrica de algibeira envolveu-o por completo. Instintivamente e com um impulso selvagem atirou-se para o lado, rolou no chão, agarrou a pistola e voltou a refugiar-se atrás do sistema de aquecimento. "É demasiado tarde, seu malandro!, pensou ele, quando ficou em segurança. "Garanto-te que não me esquecerei disto tão depressa! Tenho a mão no gatilho e dispararei, como fizeste a Johann Lohmann!" - Ele está morto? - perguntou uma voz infantil atrás da torrente luminosa. - Quem o matou? Wegener deixou cair a pistola. Levantou-se num pulo, atirou-se para o centro da luz e estendeu os braços, numa tentativa de ocultar o corpo morto de Lohmann do olhar da mulher. - Irmi! -gritou ele com voz clara. - Devias estar... Irmi! Precipitou-se para ela, tirou-lhe a lâmpada da mão e apagou a luz. Na escuridão súbita agarrou e estreitou Irmgard nos braços. Sentiu como ela tremia e percebia perfeitamente a vida no interior do seu corpo arqueado. - Devias ter ficado na cama! -gritou para ela. Só lhe apetecia gritar, embora soubesse que nem os gritos, nem o sossego absoluto podiam ter agora qualquer resultado. - Porque vieste. Ele comprimia a cara dela contra o seu peito e verificava que o 102 volume do seu corpo de grávida aumentava violentamente, debaixo da camisa de dormir e do roupão pespontado. Ele está morto, não é verdade? - perguntou ela abraçada ao marido. - Afinal não sonhei. Estas palavras foram pronunciadas com uma calma tão grande e ele começou a gelar, como se estivesse deitado nu em cima de um bloco de gelo. Pareciam proferidas por uma alma do outro mundo; Hellmuth tinha vontade de gritar continuamente, porque a sua angústia era indescritível. Vem!-disse ele com dificuldade. - Irmi, vamos para casa. Temos de chamar o médico, a polícia... Calou-se. Queria levá-la consigo para fora do átrio, mas ela não se movia. - Porquê? Porquê? Porquê?-perguntou ela de repente, e cada 'porquê" era em voz cada vez mais alta. - Porquê? - Irmi, peço-te... vem comigo! Pensa no nosso filho! Ela acenou com a cabeça. As palavras mágicas começaram a surtir efeito: "O nosso filho!'' Deixou-se levar até à porta e quis entrar na farmácia, sentando-se na cadeira giratória atrás do balcão, escutando indiferente Hellmuth a telefonar, primeiro ao médico e depois à polícia. Queria assistir a tudo, sendo inútil qualquer tentativa do marido para a fazer ir para casa. A frase morto a tiro'' foi pronunciada várias vezes, porque o polícia de serviço nocturno ao bairro voltava sempre a fazer perguntas, como se "morto a tiro'' soasse tão bem como a coisa mais agradável deste mundo e que as pessoas gostassem de ouvir muitas vezes. - Mataram a tiro o farmacêutico Johann Lohmann! - gritou Wegener por fim.- Foi um ladrão! Sim! Morto a tiro! Há alguns minutos! Você é de compreensão lenta ou quê? Ao que parece, o polícia no outro lado da linha deve ter feito reparo por causa do tom insolente por que era tratado, ao que Wegener replicou: "Está visto que é verdade: as fardas embotam a mentalidade das pessoas." I depois foi tudo muito rápido: o Dr. Hampel, há muitos anos médico assistente de Lohmann, compareceu imediatamente, Porque morava apenas a três blocos residenciais de distância;

chegaram dois automóveis: um velho Adlerwagen e um w barulhento, donde saíram sete funcionários à paisana - era o piquete de investigação criminal- e um fardado, que Perguntou logo: 103

- Quem é que telefonou há pouco?! Apresente-se aqui imediatamente! Irmi continuava sentada na cadeira giratória, em- camisa de dormir e com o roupão vestido e, nos pés, pantufas com borlas de algodão. Hellmuth pôs-lhe um casaco por cima, porque ela se tinha recusado a esperar lá em cima, na residência. A única coisa que Wegener conseguira era que o médico e os funcionários do piquete de investigação crimminal fossem sozinhos ao local das obras, sem exigirem que Irmi os acompanhasse. Apareceu em seguida um terceiro carro com um homem de cabelo branco que se apresentou como médico da polícia e se dirigiu igualmente para o átrio novo. Dez minutos depois voltaram alguns homens e com eles os dois médicos e o funcionário fardado. - Posso telefonar? - perguntou um deles, que se apresentou como comissário Runckel. Hellmuth Wegener indicou-lhe o telefone: - Com certeza! Faça o favor! Runckel levantou o auscultador. O agente fardado olhou zangado para Wegener. - Você é então o cavalheiro que há bocado foi insolente comigo! Reconheço a sua voz! - exclamou ele em voz alta. - Faça o favor de se calar! - gritou Wegener. Runckel interrompeu-os com um sinal enérgico, pois estava a tentar contactar um superior seu, possivelmente alguém do Ministério Público que estivesse de serviço nocturno. - Sim, trata-se efectivamente de um homicídio! - informou Runckel com o à-vontade próprio de um homem para quem casos destes são rotina diária. - Levou um tiro no peito, mesmo no coração. Deve ter sido disparado por um bom atirador! Apesar disso e conforme declaração do genro do falecido, ainda esteve vivo durante alguns minutos. Pelos vistos tinha fôlego de gato. - Mas o que é isto? - conseguiu Wegener dizer com voz rouca. - Na presença da minha mulher, o senhor atreve-se..- - A propósito, já pedi à senhora para se retirar lá para cima - interrompeu-o Runckel irritado. - Peço desculpa, mas as investigações oficiais deverão prosseguir, quer a sua esposa esteja aqui, quer não. - Mas devia ter evitado o seu comentário estúpido! - gritou Wegener. 104

está a ver, senhor comissário - disse com ar triunfante o agente fardado -já lhe tinha participado que... Runckel fez sinal outra vez. Irmi -disse ao telefone. - Mande o carro para aqui. Entretanto vamos fotografando todas as pistas que julgamos nos ajudarão. Sim, foi um assalto com assassínio. Isto agora já é vulgar, mas é repugnante! Entendido! Colocou o auscultador no descanso, deitou um olhar rápido a Irmgard, pôs-lhe uma mão no ombro para confortá-la e saiu outra vez. O médico da polícia e o agente fardado seguiram-no, como se a justiça ali representada fosse um jogo a três. O Dr. Humpel que, como é natural, conhecia o farmacêutico Lohmann muito bem, dirigiu-se a Irmgard. O olhar dela mantinha-se fixo e vazio, a sua face jovem, que de forma alguma se podia ajustar ao corpo pesado de grávida, estava pálida como porcelana sem cor. - Senhora Wegener, agora é melhor ir descansar um pouco - aconselhou o médico paternalmente. - Dou-lhe uma injecção para a acalmar. - Não! Estou bastante calma - respondeu ela em voz baixa. - Tenha paciência, mas tem de se ir deitar! - Não. - Pensa na criança! - interveio Wegener. Mas agora nenhuma destas advertências surtiu efeito. Ela permaneceu sentada na cadeira giratória atrás do balcão, observando a escuridão da noite através da grande montra que dava para a rua. "Não há qualquer hipótese de a tirar daqui", pensou Wegener. "Temos de lhe evitar tudo isto, dar-lhe a injecção aqui mesmo, depois levá-la para cima e deitá-la." Os homens do piquete de investigação criminal permaneciam à volta da casa. O fotógrafo voltou com a máquina a tiracolo, o médico da polícia foi-se embora, sem se despedir dos Wegeners. Irmi - murmurou Wegener acariciando o cabelo louro da mulher -por favor, vem para cima. ela abanou a cabeça e encostou-se, aconchegando mais o casaco. O médico olhou para Wegener e, sem dizer palavra, encolheu os ombros. Com certeza, era possível intervir com firmeza. Um médico - isto é importante e relaciona-se com a justificação desta profissão - deve ser enérgico e em geral fase obedecer pelos doentes que se renderão perante a sua 105



autoridade e poder. Mas ali, naquele momento, não hav' quaisquer condições para actuar dessa maneira. Como era poss'ível gritar com uma mulher jovem e grávida, cujo pai fora assassinado e jazia num chão de cimento a uns escassos trinta metros de distância? Também já era muito tarde para levar Irmgard para cima, fazendo uso de qualquer truque. Entretanto, diante da casa parara um camião negro de caixa fechada. Dois homens sairam do carro e tiraram da caixa um objecto alongado e pouco definido, semelhante a uma banheira com tampa que a escuridão da noite não deixava ver bem do que se tratava. Hellmuth Wegener sacudiu os ombros. Irmi levantou-se. Ajeitou à pressa o casaco no peito e no corpo e dirigiu-se vagarosamente para a porta da loja. - Doutor, faça alguma coisa! - segredou Wegener espantado. - A única coisa viável, agora, é detê-la... - Se a detiver agora... pode ser perigoso... - Você conhece a sua mulher melhor do que eu - respondeu o médico esfregando os olhos. - Neste momento nada mais se pode fazer além de nos mantermos junto dela. Irmgard aproximou-se da porta, mas não a abriu. Encostou-se ao vidro e fixou a vista na rua, no camião negro e nos funcionários da investigação criminal. O comissário Rinckel voltava. Seguiam-no os dois homens com o objecto comprido indicado anteriormente e depois o agente uniformizado. Wegener e o médico da família puseram-se um de cada lado de Irmgard e deram-lhe os braços. Esta permanecia calada, continuando a fitar, através do vidro da porta da loja, o caixão de zinco transportado pelos homens. Ouvia-se distintamente o barulho que eles faziam, no cumprimento da sua função. Daí a pouco os homens transportando o caixão regressaram ao carro e tudo começou, aos poucos, a voltar à normalidade. A porta fechou-se. Johann Lohmann já lá não estava. E, de repente, sem que Hellmuth Wegener ou o médico tivessem podido esboçar qualquer gesto, Irmgard começou a gritar. Gritava tanto, tão desesperadamente e com estridência tão pouco humana, que Wegener lhe agarrou a cabeça, sem saber se devia ou não tapar-lhe a boca. E ao ouvir o ruído do motor do camião escuro arrancando com três falhas na ignição, semelhantes a tiros, ela gritou ainda mais; o médico abriu a mala e tirou de lá uma seringa e uma ampola. 106 - Levaram-no num caixão branco! - gritava ela. - O meu pai num caixão! Pai! Pai! - E agora com voz mais perceptível e alto. -Papá! Papá! Porque te vais embora? Porque vais... m Hellmuth Wegener estreitou-a mais a si. Mas cada vez ela gritava mais, com a boca no peito dele, e quando o Dr. Hampel lhe arregaçou a manga e lhe aplicou a injecção, mordeu o peito de Hellmuth, que suportou a dor -mas logo a seguir começou também a chorar... De repente, e na sequência deste terrível acesso, ela perdeu os sentidos. Wegener amparou-a e trouxe-a com o médico para o divã onde a deitaram. - Ela tem de ir imediatamente para a casa de saúde! exclamou o médico. - Foi por causa deste choque. Não esperava que ela tivesse uma reacção destas. E você, caro colega... Wegener fitou-o com lágrimas nos olhos. Colega? Sim, com certeza, ele continuava a ser o estudante de medicina Wegener que não concluíra o curso, mas para os médicos, era um colega de profissão... Nesse momento, tornava-se necessário esquecer de vez o serralheiro Hasslick. O médico já telefonara para a casa de saúde situada ali perto, logo ao voltar da esquina, mas ninguém se atrevia a transportar Irmgard num carro particular. Ela permanecia deitada no divã, respirando com dificuldade; o corpo abaulado e frio arquejava; o marido, ao acariciar a cabeça dela, bonita e pura, donde sobressaíam os maravilhosos cabelos louros, notou no seu corpo de grávida movimentos cada vez mais violentos. - Quando vem essa ambulância? - gritou Wegener. Então essa ambulância de merda vem ou não?! O comissário Runckel deu uma olhadela à farmácia, mas quando ia para despedir-se, compreendeu logo a situação, fechou de novo a porta e descompôs o agente fardado que teimava em pedir satisfações a Wegener por causa do insulto proferido por este ao telefone. Por ordem de Runckel, os carros do piquete de investigação criminal facilitaram a marcha da ambulância que naquele momento acabava de parar junto à porta da casa, com um grande chiar de travões. Us enfermeiros já estavam ao corrente dos acontecimentos, mais pela informação oral da vizinhança do que através do funcionamento impecável dos telefones e teletipos: "O farmacêutico Lohmann, pessoa muito estimada por toda a gente, fora assassinado; a filha dele, a senhora Wegener, tivera um 107

choque e, o mais grave ainda, no oitavo mês! Quando tudo corre bem, não há problema... e Deitaram Irmi na maca, sem lhe porem as correias, porque distância era curta; além disso Hellmuth e o médico entraram no carro e agacharam-se ao lado da maca. - Você contava com isto, colega? - perguntou o médico, de novo.- Tão corajosa e, de repente, acontece uma destas!' Na casa de saúde, o médico de serviço encontrava-se em melhor forma - não havia razão para perder o autodomínio Dois médicos levaram Irmgard para a sala de observações depois de a terem colocado numa cama de rodas e partido em andamento apressado. Uma grande porta de vidro fosco, à prova de ruídos, fechou-se atrás deles. Wegener tinha o ar de quem vai servir de testemunha pela segunda vez, com o aspecto de uma pessoa que pretende esconder-se para sempre. Anteriormente, muito perto de um caixão de zinco da morgue - agora perante uma cama de rodas do hospital da cidade... Seria esta a sua condição perpétua? Uma enfermeira dirigiu-se-lhe com um sorriso consolador e voz suave: - O senhor não se importa de me acompanhar? Temos de preencher os papéis de identificação. - Isso é assim tão importante? - perguntou ele parando atrás da porta onde se iria resolver o destino de Irmi. - Com certeza que sim! -A enfermeira sorriu. -É para a Caixa de Previdência, para o ficheiro e para o relatório diário do médico de serviço e para o mais que for necessário. - Para o ficheiro, de acordo, sim, plenamente de acordo! E para... o mais que for necessário, com certeza... Passou as mãos pela cara e só então reparou como elas tremiam e como estava alagado em suor. O Dr. Hampel conversava animadamente, diante da porta envidraçada, com um outro médico mais velho, que saíra apressadamente por uma porta lateral. Este era o médico-chefe da equipa que levara Irmi - - A minha mulher vai para um quarto particular - disse Wegener, num sussurro, para a enfermeira. - O senhor professor já cá está - informou a enfermeira indicando discretamente o médico recém-chegado. - Nada receie, senhor... - Wegener. Hellmuth Wegener - gaguejou ele. - Senhor Wegener, casos de parto prematuro, como este, 108 aparecem-nos constantemente; portanto, não se preocupe, fica calma! Agora vamos tratar dos papéis... Weeener acenou com a cabeça afirmativamente, acompanhou A enfermeira e ambos entraram num escritório, onde aquele eencheu as declarações exigidas: nome e sobrenome da doente, do e onde nasceu, se era casada oficialmente (este requisito era necessário, porque não são só as casadas que dão à luz crianças), onde residia, quem era o responsável pelas despesas e o adiantamento habitual de determinada quantia em dinheiro. Wegener fez sinal afirmativo e ia respondendo maquinalmente, aguardando, com enorme nervosismo, a entrada de alguém que lhe dissesse: "A sua esposa está a passar bem e de boa saúde! Como médico, asseguro-lhe que tudo está a correr o melhor possível." Meu Deus, mas porque não aparece alguém? Porque me deixaram para aqui, sem me dizerem nada? Trata-se da minha mulher! Com certeza que, para os médicos, tudo isto é um trabalho de rotina. Mas a verdade é que durante dias e dias, e talvez noites, os homens sentam-se aqui, esperando ansiosos, fazendo perguntas estúpidas e comportando-se como loucos, só porque a uns escassos metros de distância as suas mulheres estão deitadas, cheias de dores e a morderem bocados de ligaduras, para não gritarem muito alto. E eles também se sentem culpados, porque nove meses antes... Mas, nesses momentos de felicidade, quem poderá imaginar que os gritinhos de prazer se transformarão, mais tarde, em gritos de dores

de parto? Qual será o homem capaz de pensar nisto? - Ela está no oitavo mês!-disse Wegener à enfermeira, quando a ficha ficou completamente preenchida. - Já aqui tivemos nascimentos de seis meses e, felizmente, todos se salvaram. Com o senhor professor isso já é possível. Ela sorriu para Wegener, numa atitude de tão grande segurança profissional que lhe inspirou confiança. Em seguida, pôs a ficha debaixo do braço e levantou-se. - Vai-se embora? - Vou. Tenho de levar as coisas para a enfermaria. - E deixa-me só aqui? Acentuou o sorriso e respondeu: - Não posso ficar aqui sentada consigo, senhor Wegener. tenho o meu serviço... - Posso... posso sair? - perguntou Wegener saltando da cadeira. 109



- Com certeza que sim. - Obrigado, enfermeira. Acompanhou-a ao corredor, ela meteu-se num elevador, cuja porta se fechou. O professor já não estava ali, apenas se encontrando o Dr. Hampel que, à janela e entre dois vasos de gerânios, observava a rua onde passava uma ou outra ambulância: é isto o serviço nocturno num grande hospital. O reflexo das lâmpadas fluorescentes no vidro da janela produzia na cara do médico um aspecto fantástico. - Senhor doutor - perguntou Wegener aflito, quando chegou junto dele - o que lhe disse o professor? - Ah! Já tem os documentos em ordem? O aspecto do Dr. Hampel, apesar da hora tardia, não acusava cansaço. - O professor, como é evidente, nada pode dizer, porque acabou de entrar agora na sala de partos. Mas eu tenho a certeza absoluta de que tudo correrá bem, apesar de ser o oitavo mês assegurou o médico. - O senhor é uma pessoa muito optimista, doutor Hampel. - O optimismo é meia ajuda para a medicina, meu caro Wegener! - O nascimento de oito meses é sempre crítico, não é verdade? - Realmente, não gostamos muito disso. Mas de que é que um médico gosta? O Dr. Hampel pronunciou estas palavras com intenção de bom humor, mas passaram por Wegener como gotas de água sobre um oleado. Apesar disso, o médico prosseguiu: - A sua mulher tem uma constituição física excelente, como sabemos. - Não se esqueça de que o pai dela está, neste momento, num caixão de zinco na morgue - lembrou Wegener em voz baixa. A situação não era brilhante, como o professor Goldstein logo constatou, mesmo antes de ter observado a parturiente, porque um nascimento prematuro, sob a acção de um choque daquela espécie, fazia prever complicações. Ele falara pouco antes com o Dr. Hampel sobre o assunto e referira que conhecia pessoalmente o farmacêutico Lohmann e vira uma vez a filha Irma de fugida, verificando, então, que ela era uma moça maravilhosa, de cabelos louros, não aparentando ter vinte e seis anos: era uma mulher-criança, se tal classificação se pode aplicar a pessoas 110 estas, portadoras de formidáveis energias desconhecidas. Não há dúvida de que casos como este são verdadeiros prodígios da natureza. _ _ Também parecia impossível um homem honesto e seno ter sido assassinado por um ladrão vulgar, por causa de um calorífero ou de um bocado de cimento. O Dr. Hampel tivera uma conversa proveitosa que poderia ter sido mais fria, se não fosse o seu dever de médico. Em 1943 o Dr. Ludwig Goldstein fora expulso da Alemanha, mas conseguira alcançar um porto belga, mesmo a tempo de apanhar um navio que o levou aos Estados Unidos, antes de a estrela amarela dos judeus se estampar no seu fato, indício seguro de breve envio para um dos inúmeros campos de extermínio. Em Richmond subiu à categoria de professor. Logo após o colapso do regime hitleriano, fora um dos primeiros judeus a regressar à Alemanha, arrastado pelas saudades que nunca o abandonaram. Foi-lhe, então, entregue a chefia da clínica de ginecologia em Lindenthal e nomeado professor da universidade de Colónia. Com este cargo, foi-lhe fácil conhecer o farmacêutico Lohmann e a família, principalmente um Hannes Lohmann. Os Lohmans adquiriram grande prestígio durante a vigência do chamado 3.o Reich. O farmacêutico propriamente, não - só o resto da família. O Dr. Hampel estava muito satisfeito, porque a conversa com o professor Goldstein fora muito amigável, o que justificava também a sua atitude de completa serenidade naquela hora crítica. - O que... o que se passou? - perguntou Wegener em voz baixa. - Nada se passou!-trovejou o Dr. Hampel. - Tenha calma, homem! Você é quase um médico, no tempo da guerra foi alferes e ferido com gravidade, aguentou toda aquela merda na frente de combate, ganhou o bracelete de luta corpo-a-corpo e a fcKI, e agora, a dois passos da esposa, comporta-se como... como... nem sequer me ocorre com que possa compará-lo, senhor Wegener! O Goldstein encarrega-se de ajudar o nascimento da criança, se ela for difícil de vir ao mundo por si, e epois disto, basta! Não há nenhum ginecologista melhor do que acredito eu - disse Wegener encostando-se à parede Caiada de branco do corredor. Em baixo, na rua, parou uma ambulância com o farolim azul 111

intermitente aceso; parecia que as mulheres se tinham com binado todas para dar à luz naquela noite. - Mas por que razão não aparece nenhum? - perguntou Wegener impaciente. - Mas quem quer você que apareça? - Um médico que me informe como está Irmi. - Nesse caso você acha que devia existir um médico destacado só para confortar cada um dos homens que virá a ser pai Wegener, não seja criança! Desculpe-me, mas como médico da família, tenho de lhe falar assim. Bem! E agora, se me dá licença, vou-me embora. - E deixa-me só aqui? - Acabo de registar a morte do meu velho e bom amigo Lohmann e em seguida entregar a filha dele na maternidade. Para uma noite, já chega. Logo de manhã tenho de estar na clínica e em plena forma, ao passo que você pode manter a farmácia fechada durante alguns dias, por duplo motivo, aliás justificado. O Dr. Hampel pôs a mão no ombro de Wegener, que ficou pensativo, e dirigiu-se para o elevador. "Pobre rapaz, vai começar por ter problemas", pensou ele. "Em primeiro lugar, com a farmácia. O que se irá passar com ele? É um estudante de medicina que interrompeu os estudos e agora ajudava o sogro no negócio, Ou tira o curso de farmácia e torna-se farmacêutico a sério, ou trespassa a loja e conclui o curso de medicina, transformando-se num verdadeiro acumulador de funções. Seria a situação ideal: médico com farmácia própria! Se tiver juízo é capaz de, dentro de alguns anos, ser possuidor de um pé de meia muito interessante." Wegener ficou completamente só no corredor do hospital, entregue aos seus pensamentos, ninguém se preocupava mais com ele (embora tivesse a mulher internada em quarto particular) e presenciava o movimento constante de enfermeiras e de médicos entrando e saindo dos quartos, mulheres a gemer, transportadas em camas com rodas, homens, futuros pais, como ele, passeando nervosamente para um lado e para o outro e recebendo informações das enfermeiras que os levavam dali para uma espécie de sala de espera, onde se sentavam fumando, bebendo qualquer coisa de alguma garrafa que um deles trazia e apostando entre si se seriam pais de um rapaz robusto ou de uma limda menina. E ele? Para ali estava abandonado naquele corredor. Seria que 112 alguma coisa corria mal? Teria alguém antecipadamente pena dele? Já o teriam inscrito como pai ou dar-se-ia o caso de atrás daquela maldita porta de vidro fosco a mãe e a criança já não existirem?! Começou a andar no corredor para ca e para la, imaginando as mais incríveis situações. "Ela já não vive" pensou ele. "Irmi morreu e eles não têm coragem para me dar a triste notícia. É isso! Raios! Aqui abafa-se! E depois vem um desses aprendizes de médico, com cara de parvo, dar-me parte de uma grande tragédia e que fizeram todos os possíveis, "você compreende...', etc., etc., mas garanto que lhe mostrarei e a todos os outros, com um bom murro nos queixos, o que é o punho de um serralheiro, o punho que agarra um martelo de ferreiro e com o qual Peter Hasslick batia o ferro em brasa. Não se safam desta, lá isso não! Venham-me cá com condolências e depois verão como elas lhes mordem. Rebento com todos..." De repente parou. A porta envidraçada abriu-se e o médico-chefe, professor Goldstein, apareceu. Quando reparou em Wegener, deteve-se uns momentos, dirigindo-se de seguida para ele. - O senhor ainda está aqui? - perguntou ele. - É o senhor Wegener, não é? Chamo-me Goldstein. - Porque havia de me ir embora, senhor professor? Wegener nem cerrou o punho, nem reagiu de qualquer outro modo violento... sentiu-se muito pequeno e devorou o médico com o olhar ansioso: - E a minha mulher, senhor professor? - Muitos parabéns! - exclamou Goldstein estendendo-lhe a mão.- É um rapaz! Um... rapaz... - balbuciou Wegener, sentindo os ossos como se fossem de borracha, mas caiu em si, logo de seguida. Um rapaz... São como um pêro e muito bem disposto. A enfermeira informar-lhe-á qual é o peso e a altura. Tivemos que fazer uma cesariana porque a sua mulher tem uma bacia estreita, invulgarmente e a cabeça da criança estava entalada. Wegener agarrou a mão de Goldstein e apertou-a. - Posso ir ver a minha mulher...? - Com certeza! Ela ainda está sob o efeito da anestesia, mas o senhor pode já ir lá. O número do quarto... caramba! 113

Esqueci-me, mas não faz mal; dirija-se à enfermeira-chefe senhor Wegener. Mas não fale demasiadamente à sua esposa dos acontecimentos desta noite, o choque, a cesariana feita nestas condições... julgo não ser necessário dizer-lhe mais nada, caro colega. Mais uma vez: muitos parabéns pelo nascimento do Seu filho! O professor Goldstein deu-lhe mais um aperto de mão e foi-se embora, notando-se sobre os seus ombros o cansaço que a voz não revelara. "Colega! Colega! Como odeio esta palavra! Entre colegas é tudo sempre mais fácil, não é verdade? Entre colegas compreende-se tudo! Entre colegas médicos, a própria morte é um fim biológico, mais nada. Colega... Meu Deus, quando será possível eu dizer a verdade?! Professor Goldstein, quanto mais tempo eu viver, menos tempo poderei manter esta mentira! Ela dá cabo de mim!" Acompanhou o médico com a vista até ele desaparecer numa das portas do extenso corredor, dirigindo-se em seguida para o elevador que o conduziu ao pavilhão dos quartos particulares. Aí, foi recebido por uma enfermeira de meia idade, chamada Esmalda, que o levou a um quarto sem cama e o informou: - A sua esposa já vem. São só uns minutos, senhor Wegener. É um rapaz! Muitos parabéns! E foi necessária uma cesariana! As crianças que nascem de cesarianas são sempre bonitas e não se apresentam com rugas como as outras... - Eu sei - respondeu Wegener cansado, sorrindo estupidamente.- Sou... estudei medicina. "Aprendem-se sempre muitas coisas", pensou, "quando se está de acordo com as outras pessoas. Tenho que me certificar disto; se as crianças que nascem por meio de cesariana não têm rugas. É um assunto bom para uma conversa, para se fazer figura e causar sensação." Apoiou a cabeça nas mãos e cravou os olhos no soalho de oleado. "Como és miserável", continuou a pensar. "Como és mesquinho. E tens de continuar a representar o teu papel, porque já não há qualquer saída e principalmente porque amas Irma e agora tens um filho. Como o mundo seria maravilhoso se... Esperou cerca de meia hora, até Irmi dar entrada no quarto. Ela estava fraca, magra, o seu rosto infantil, pálido, mas reuniu forças para sorrir para o marido. as relações não aguentou mais e começou a chorar. Silenciosamente as lágrimas corriam-lhe pela cara, apesar dos seus esforços para as reter, Mas quem será capaz de o conseguir, após tantas emoções fortes? Irmi voltou a adormecer depois de lhe ter dado a mão. Hellmuth sentou-se à cabeceira contemplando ternamente aquela que acabara de lhe dar um filho. Aos poucos, com o despontar de um novo dia, as sombras do passado iam-se dissipando e o grande hospital despertava com inúmeros ruídos... Mas Irmi continuava a dormir, embora, de vez em quando, o seu corpo estremecesse. Ele manteve a mão dela entre as suas, sem a largar. "Amo-te", pensou, "amo-te muito, muito! Amo-te e dou graças a Deus pelo milagre concedido por termos um rapaz. Chamar-se-á Peter. Peter, em memória do meu velho amigo, o serralheiro Peter Hasslick, morto no corredor do hospital militar de Orscha." Neste momento, ele não era outro, senão Hellmuth Wegener. O novo dia começava a clarear, com nuvens no céu e uma atmosfera cinzenta, abafada, saturada da humidade de Outubro. "Hoje terei muito que fazer", continuava a pensar, segurando na mão de Irmi. Era necessário apresentar à polícia mais uma declaração escrita e uma petição ao Ministério Público solicitando a entrega do cadáver de Lohmann, quando a autópsia estivesse concluída. Depois, teria de tratar de todas as burocracias necessárias à realização do funeral. Flores para Irmi e para a criança. Felicidades e condolências com todas as letras, começariam as pessoas a dizer. Aqui começava-se a remexer a terra de uma sepultura, ali ornamentava-se um berço. E tudo ao mesmo tempo. Voltava-se uma página da história e um novo mundo nascia... Quando a enfermeira entrou com o termómetro, Irmi acordou. 114

Capítulo quinto Há olhares que nunca se esquecem. Olhares que se marcam profundamente na alma e que, com a sua intensidade e força, são susceptíveis de modificar radicalmente uma pessoa; é o nascimento de um mundo novo aberto a todas as maravilhas nunca antes suspeitadas. O primeiro olhar de Irmi, o seu primeiro olhar, mais claro e mais seguro, ao recuperar a consciência, foi dirigido ao marido que, nesse preciso momento, expulsou de si toda a escória que ainda o ligava ao passado. Agarrou a mão dela, mole e branca, a mesma mão de criança que nas horas de amor sabia acariciar tão ternamente, com uma suavidade irresistível, capaz de levar um homem ao êxtase. Naquele momento, essa mão sem força, semelhante a um animalzinho à procura de abrigo seguro, descansava imóvel entre os dedos de Hellmuth. Ele sorriu para ela, em diálogo mudo, ao passo que a sua mão, recuperando aos poucos a vida, cravava as unhas na pele sensível do marido. - Estás... estás aqui... - disse com voz fraca, sorrindo angelicamente e acariciando-o com um olhar pleno de ternura. - Com certeza que estou - respondeu Hellmuth bruscamente, perdendo o controlo da voz. - O tempo todo...? - Sim, o tempo todo. - Que bom! Inclinou-se para ela, beijou-lhe cuidadosamente a fronte e os olhos, notando, com espanto, que ela transpirava. Assustado, recuou. Um corpo quente e mãos frias... seria isto normal? - Como... como te sentes, meu amor? era uma pergunta desnecessária", pensou. Nunca se deve Perguntar a um doente como se sente, mas sim desviar a sua atenção da doença. Nem sequer te trouxe flores - continuou ele com ar de censura. - Passei toda a noite aqui e não quis mexer nas flores que estão lá fora no corredor. Como se tudo dependesse de flores, meu querido - respondeu ela com voz mais fraca, fechando de novo os olhos. "estás aqui e é quanto basta...! - suspirou levemente, passando de seguida a uma respiração 117



mais forte e regular, o que o tranquilizou bastante. Quis mexer-se, mas ele não deixou, inclinando-se mais para ela e segurando-lhe o braço direito. - Não te deves mexer, Irmi, porque tens o termómetro debaixo do braço. - O que se passa, Hellmuth? - quis ela saber, conservando os olhos fechados. - Onde está o nosso bebé? - Não te disseram? Isto é inaudito... - Sim, sim... disseram, quando acordei. Alguém me disse qualquer coisa ao ouvido, mas não percebi bem o que era. Depois, foi-se embora... - É um rapaz, Irmi. É um rapaz! É um rapaz lindo, forte e são como um pêro, conforme me disse o professor! As crianças que nascem de cesariana são sempre bonitas e não têm tantas rugas como as provenientes de partos normais! Ela sorriu de novo, abrindo os seus maravilhosos olhos azuis, cujo brilho reflectia muito amor. - É uma alegria para um estudante de medicina, não é verdade? - perguntou ela. - Já o observaste? - Ainda não lhe vi a cara, mas a enfermeira disse-me que traria Peter mais tarde... - Peter... -murmurou ela cravando de novo as unhas na mão do marido. - Portanto, vamos realmente dar-lhe o nome de Peter? - Sim, Peter Johann... -respondeu ele, empurrando a cadeira para longe da cama e retirando o termómetro da axila de Irmi, para ver a temperatura: 38,1; ainda era febre, motivada certamente pela reacção de defesa normal do organismo à intervenção cirúrgica - isto tinha ele aprendido no hospital do presídio militar, durante a guerra. "É tal qual o que se passa em relação a qualquer supuração'', pensou. Se isto era verdade ou não, não sabia. "Tenho que esclarecer esta dúvida, porque as coisas mais simples são, na maior parte das vezes, as que levantarão no futuro maiores dificuldades." - Parece que está bem! -exclamou ele, para dizer alguma coisa. - É só uma febrezita. Amanhã estarás melhor. - É a famosa crise, não é? - quis ela saber. - Sim, o que é normal. - Peter Wegener - murmurou ela em voz baixa, devagar e 118 insistindo: -Peter Johann Wegener. Realmente soa muito bem: é um nome tipicamente alemão. Aos poucos, os seus gestos tornavam-se mais firmes e as mãos, antes sem acção, recomeçavam agora a encher-se de vida palpitante. - Gostaste muito do teu amigo Peter, não é verdade? - Sim, muito - foi a sua resposta, dada com ar taciturno. - Pouco ou nada me contaste dele. - Mas o que há para contar, minha querida? Tudo aquilo foi uma época triste e a morte dele uma terrível provação, ocorrida num soalho sujo na escola de Orscha, porque não havia tempo para as pessoas se ocuparem dele e por ser tarde demais. - E tu não tiveste possibilidades de ajudá-lo? - Não! Era completamente impossível, porque não trazia qualquer material comigo. "Ajudar", pensou. "Sentei-me para ali e mesmo que chorasse ou barafustasse, não adiantava: tudo era parede intransponível e o serralheiro Peter Hasslick sentia-se como se não tivesse braços. Só a maldita promessa feita junto do camarada moribundo se mantinha, transformando-me naquilo que sou agora. Maldita? Esta vida é maldita?! Não tenho Irmi e agora a criança? O meu filho, algo de mim próprio, não será nada do que me comprometi a fazer?! Já não estarei completamente realizado na vida?! Eu, Hellmuth Wegener! Isto é apenas um nome. Mas a outra parte é a completa realização de uma vida que eu próprio construí. Eu sou eu e mais nada, só dependendo da identificação que passar a usar." Irmi percebeu que ele reflectia em problemas graves. Puxou a mão dele para junto dos lábios e beijou-a. Hellmuth sentiu-os quentes, estremeceu e deixou de pensar em Peter Hasslick. - Peter é um nome bonito - disse ela, deixando ficar a mão dele junto dos seus lábios ásperos, secos e gretados. - Tenho sede, querido. Tanto quanto sei, acho que não deves beber nada agora respondeu passando a polpa dos dedos pelos lábios encortiçados dela. - Não te esqueças de que te fizeram uma operação de barriga aberta... - Eu sei, senhor doutor - gracejou ela com um sorriso, mas a expressão "senhor doutor" teve nele o efeito de uma picadela. 119

"Como será possível vencer esta maldita situação? Tem de haver uma maneira qualquer que me permita esquecer o que realmente sou! Talvez o nome Peter para o meu filho seja um erro tremendo, mesmo o maior de todos; confesso que não reflecti bem. E durante uma vida inteira, todas as horas, minutos e segundos, este pensamento não me abandonará: estará sempre comigo, onde estiver o meu filho, quando chamarem por ele, quando lhe escreverem, enfim, para todo o sempre... Peter Hasslick já não será escorraçado, ficará implantado em tudo o que Irmi e eu fizermos. Deste modo, a sua memória nunca mais será esquecida e agora é impossível dar outro nome ao meu filho. Como poderia eu explicar qualquer alteração?!" - Apesar de tudo, tenho sede - insistiu Irmi, em voz baixa. - É uma sede terrível; os lábios, a boca, tudo queima. Além disso, o meu aspecto deve ser horroroso, não é, querido? Sinto-me inchada, horrível... -Passou a língua seca pelos lábios. - Tudo me sabe a papel de lixa. Dá-me só umas gotinhas de água, Hellmuth! Por favor! Perante este pedido, Wegener abandonou a mão dela, levantou-se e olhou à volta. Na mesa de cabeceira encontrava-se um frasco redondo com pensos de algodão. Com o polegar e o indicador tirou um deles, dirigiu-se ao lavatório situado num dos cantos do quarto, humedeceu-o, espremeu-o e voltou para junto de Irmi. - Só o ponho por cima! - disse ele. - Chupa-o um pouco! Colocou o penso húmido na boca da mulher, segurou-o e reparou que ela não o espremia com os lábios. Seguira à risca o conselho do marido. Sorriu para ele com um olhar de reconhecimento e, nos momentos seguintes, Hellmuth andou numa roda viva entre a cama e o lavatório, molhando pensos, espremendo-os e passando-os em seguida pelos lábios gretados, pelas fontes, pelas órbitas dos olhos, pela curva do pescoço e pelas pequenas covas da garganta de Irmi, que se sentiu tão bem que, de repente, agarrou de novo na mão dele e beijou-a. - És tão bom, Hellmuth - disse ela em voz baixa. - Tão bom... - Apertou ainda mais a mão do marido e continuou, falando para dentro dela: -E o caso do pai? Perante esta pergunta que mais cedo ou mais tarde tinha de vir, ele teve receio. De um lado um nascimento, do outro uma morte. Hellmuth esboçou um esgar e olhou por cima da cabeça de Irmi encostando a sua à parede pintada a óleo verde-esbranquiçado do quarto. - tenho... tenho de ir ainda ao Ministério Público respondeu carrancudo-, à Polícia Judiciária e só Deus sabe aonde mais. Este emaranhado de serviços públicos é o pior que pode aparecer à frente de um cidadão. Mas não penses nisso agora, Irmi. A porta abriu-se. "Graças a Deus!", pensou Wegener. "Finalmente chega a enfermeira, o que vai distraí-la. Em seguida trarão a criança e possivelmente o professor Goldstein aparece por aí, tanto mais que Irmi está internada em quarto particular. Se trouxerem a criança, a mãe não terá tempo para pensar em mais nada. Só quando eu sair para ir aturar a praga das repartições públicas e ela ficar sozinha, então terá tempo para meditar. Mas obrigar os outros a deixar de pensar é coisa que ninguém pode fazer. Também não vou pedir ao professor Goldstein para lhe dar uma injecção que a ponha a dormir. Fixaria em mim - um colega dele- um olhar de completa estupefacção!" - Enfermeira, ela tem 38,1- anunciou Wegener entregando-lhe o termómetro. A enfermeira pegou nesse instrumento de indicação de temperatura, observou-o, sacudiu-o para baixar a coluna de mercúrio e meteu-o num estojo cromado cheio de uma solução desinfectante. - Completamente normal - informou ela - para depois de uma operação. - Não temos qualquer receio, enfermeira - respondeu Wegener. - E como ela estava cheia de sede, coloquei um penso húmido nos lábios da minha mulher. - Muito bem, senhor doutor - respondeu a enfermeira sorrindo amigavelmente. Em seguida, tomou o pulso de Irmi, registando tudo na ficha. Depois, puxou a coberta da cama. A camisa de Irmi estava levantada, a parte inferior do corpo, as pernas, a coxa, o abdómen, tudo se encontrava emvolvido em ligaduras soltas. Entre as coxas, camadas espessas de celulóide... a camada superior estava ensanguentada, o que causou um enorme susto a Hellmuth, que conseguiu disfarçar, escondido atrás de uma expressão de sabedoria. Entretanto, a enfermeira continuava imperturbavelmente a sua tarefa, afastava o celulóide, parecendo tudo normal: colocou 120 121

um pano de borracha sob o traseiro de Irmi, foi buscar um alguidar que encheu de água quente, onde despejou um pouco de solução de Sagrotan, e começou a lavar Irmi. Nesta altura olhou de soslaio para Wegener. - Geralmente - disse a enfermeira - pedimos aos maridos para saírem dos quartos. Mas como o senhor é médico... - Sim. Seria absurdo - respondeu Wegener esboçando leve sorriso - , mas devia-se conceder a todos os maridos uma pequena oportunidade para conhecerem certas situações por que passam as suas mulheres... - De qualquer modo, há determinados limites, senhor doutor. Wegener calou-se. "Tenho de parar, disse para si, 'para não provocar alguma situação embaraçosa ou ser levado a uma discussão sem saída possível! Tenho de ficar aqui, engolir o 'senhor doutor' e comportar-me do mesmo modo que um médico em posição semelhante à minha. Ao fim e ao cabo, todos os pais são iguais, quer sejam serralheiros, quer sejam estudantes de medicina." - Sim, com certeza que há limites - respondeu Wegener, porque a enfermeira aguardava uma resposta, enquanto colocava nova camada de celulóide na parte superior da coxa, cobrindo de novo a doente.- Na verdade, há maridos bastante insensatos. - E muitos outros exageram! O senhor doutor nem calcula, quantos eu já vi cair e aos bocados!-A enfermeira fez um grande gesto com as duas mãos, querendo demonstrar que os de maior estatura eram os que desmaiavam com maior facilidade. Os mais resistentes são justamente os mais pequenos e franzinos. É curioso, não é? - No exército também era assim. Julgo que este fenómeno deve ter relação com o metabolismo. "Aqui está uma frase inteligente e feliz", pensou Wegener, "mas, com certeza vazia de sentido. E qual será a enfermeira com estofo suficiente para contradizer um médico? Esta, certamente, não o fará; limita-se a abrir a janela durante uns breves instantes, depois de ter abafado bem Irmi, arruma o quarto e vai-se embora satisfeita." "Bem! A visita virá", continuou Wegener seguindo os seus pensamentos, "e deve ser o professor Goldstein. Isto começa a ficar tudo pronto para a passagem em revista. E trarão a criança. Finalmente, finalmente a criança. O meu, o nosso 122 Peter... Peter Johann Wegener! A criança com o nome falso de um falso pai. Mas isto nunca se saberá, porque todos os documentos existentes aqui estão completamente correctos e os outros, os mais importantes, foram destruídos durante a guerra. Porque se deteria ele perante a simples lembrança dos papéis de Hellmuth Wegener? No ano anterior demonstrara como fora fácil transformar-se noutra pessoa - e depois tudo se arranjava: para o caso, bastavam umas palavras de juramento. Ainda havia a considerar os funcionários, camaradas de guerra e seus contemporâneos, conhecedores de toda aquela imundície. Mais tarde, tudo se modificaria, porque, para os funcionários mais jovens, a guerra não passava de uma palavra - e uma dívida da geração de seus pais. Para aqueles, todos estes documentos, autenticados e confirmados com carimbos, não tinham qualquer significado. Mas agora, em Outubro de 1948, continuam todos metidos, até aos ossos, na merda dos anos an

teriores. Onde esteve você? Em Welikiji Luki? Em Smolensk? Em Donez-Bogen? Nas principais vias de acesso? Nas pistas de descolagem? Homem, essa foi uma época muito brilhante, não é verdade?! O que nós passámos! Como será possível ter resistido a tanto? E em que campo? No 1/2319... homem, esse foi o nosso, perto de Àstbest. Você também esteve lá? Como se chama? Hellmuth Wegener, estudante de medicina no sexto semestre? Quer continuar a estudar? Perdeu os documentos durante toda aquela porcaria? Uma declaração escrita de juramento é suficiente, camarada. Mas estudar, para quê? Para se manter vivo e comer, sem ter de recorrer ao mercado negro - isto é mais importante, homem. Pode estudar em qualquer altura. A ciência não foge, mas a fome fica." Assim era. Cada um pode ser o que quiser - se tiver a força interior para se manter firme, se conseguir lutar contra a sua própria patifaria, envenenando a consciência e subornando a maldita moral! - A parteira está a chegar com a criança - anunciou, à porta, a simpática enfermeira. - Ela averiguará, também, se pode colocar o bebé junto de si. Creio que tem pouco leite, senhora Wegener. - Quando a enfermeira saiu do quarto, os dois sorriram um para o outro. - O nosso filho não sofrerá de subalimentação - disse Wegener alegremente. - Trarei tudo o que for possível e quando ampliar a farmácia com secção especial para crianças, será ainda 123



mais fácil! -Riram. Irmi fez uma careta, porque o abalo motivado pelo riso provocou-lhe uma pequena dor na barriga; no entanto, conteve-se corajosamente. Nesse momento, a porta abriu-se, bateu na parede e entrou uma senhora gorda, de cara rosada e bem disposta e com cabelos grisalhos atados atrás em nó espesso. Trajava um vestido azul e uma blusa branca, trazendo na mão um embrulho roliço com fraldas. - Eis que chega o pequeno tirano! - exclamou ela, fechando a porta com um pé, antes de Wegener ter tido tempo de correr para ajudá-la, começando, em seguida, a bater na cama. Suponho que o senhor é o pai, não é? Chamo-me Else Viernisch e sou parteira. Chegue-se aqui para ver melhor o seu rebento, mas não se aproxime muito! O senhor cheira a álcool? - Não bebi absolutamente nada, pois passei toda a noite aqui à espera e... - Nem sequer beber café? - Não. Nem isso. - Então venha - A senhora Viernisch apertou mais a si o rolo de pano. - A sua esposa nada pode beber, só cheirar! Mas o senhor pode ir tomar o seu. Tem café puro? - Tenho em casa. Aqui, não. - Traga amanhã uma boa dose de café moído. Aqui ainda vai havendo café fraco ou moca, mesmo no pavilhão dos quartos particulares! Como é possível uma pessoa aguentar-se nas pernas, com semelhante mixórdia, não sei! Mas com uma chavenazinha de café verdadeiro, é outra história... - Então está combinado: amanhã trago-lhe um quilo de café bom, senhora Viernisch. Wegener fixou o olhar no embrulho e sentiu um tremor interior. "O nosso filho! O nosso Peter. Com quem se parecerá ele? Terá os olhos azuis de Irmi? O seu talhe bonito de boca? Os seus cabelos louros? Ou será parecido comigo? Isso não gostaria eu. Meu Deus, fazei com que ele seja parecido com Irmi!'' - E agora o principezinho! -exclamou a parteira Viernisch abrindo um dos panos. Uma cabecinha apareceu, uma cabeça redonda, com cabelos louros, semelhantes a penugem suave e transparente; mais abaixo, os olhos, piscando por causa da claridade; o nariz franzido, um pouco achatado; a boca comprimida. Hellmuth Wegener 124 respirou profundamente, sentia o coração palpitar e as pernas a pesarem-lhe como chumbo quando pretendeu aproximar-se e inclinar-se sobre o bebé. Sob o queixo redondo estavam as mãozinhas, os punhos cerrados, as unhas minúsculas rosadas e uma pele como porcelana de tom suave. Não pôde evitar que a comissura dos seus lábios estremecesse. - Tem 48,3cm de comprimento - disse a senhora Viernisch em voz alta -e 3,752kgs. de peso! Isto não é uma obra-prima? Não sai a si, senhor doutor, mas sim à sua esposa. Da sua contribuição para isto, nada apareceu, desculpe-me que lhe diga! A parteira desembrulhou a criança, colocou-a na cama ao lado de Irmi e meteu as mãos nas algibeiras da bata. Não há no mundo momento igual àquele em que a mãe vê o seu querido bebé pela primeira vez. Nada há de mais espiritual do que essa imensa bênção de Deus. O primeiro olhar entre a mãe e a criança é a base segura de uma vida inteira bem vivida. E pensarmos nós nos hediondos crimes cometidos por mães e pais desnaturados que ensombram diariamente as colunas dos nossos jornais! Deus tenha compaixão de todos nós! - Meu pequenino - sussurrou Irmi ternamente, pondo o braço, com cuidado, à volta da criança e aconchegando-a a si. Ficaram com as cabeças perto uma da outra, as mãozinhas estenderam-se, a boca, até então fechada, abriu-se, arregalou os olhos, como se compreendesse as palavras da mãe. Com infinita ternura, Irmi estendeu os lábios e beijou o bebé na face. Em seguida olhou para o marido, com ar celestial. - Não é umamor? - murmurou ela. - Olha para isto! Já me compreende e até sorri... - Ele tem fome - informou a senhora Viernisch num tom de voz que Wegener achou excessivamente alto para a ocasião. - E pressente o leite. Vejamos se já existe suficiente. Ela puxou a coberta da cama, abriu a camisa de Irmi, fez sair o seio esquerdo, apalpou-o com jeito conhecedor e fez sinal afirmativo a Wegener. - Parece-me que há qualquer coisa e logo de manhã! Às vezes uma cesariana faz deter o leite. Mas neste peito não há qualquer problema. - Ela agarrou o recipiente de musse, mergulhou um penso em água morna, lavou rapidamente o mamilo e levantou depois o bebé, colocando-o no outro lado de Irmi. Pôs a cabecita encostada aos seios e as mãozinhas no peito 125

de Irmi. - Agora, seu maroto, toca a procurar, vamos! - disse ela alegremente. - Depois ficarás farto e não quererás mais. Colocou a boquinha voraz no mamilo, pôs a criança em posição correcta nos braços da mãe e esperou. Quando os lábios minúsculos começaram de repente a chupar. Irmi estremeceu, olhando radiante para Hellmuth. - Ele bebe... - murmurou ela. - Hellmuth, ele está a beber! - Pois com certeza, isso sabemos nós. -A senhora Viernisch sentou-se numa cadeira e olhava para a porta à espera do café. Quando os miúdos descobrem o peito das mães, para mim é um momento maravilhoso! Para si, senhor doutor, faz parte da rotina diária. Wegener, comovido, curvou-se sobre Irmi e o pequeno Peter, que levantou a carinha ligeiramente, sem deixar de chupar. Irmi tinha uma mão debaixo do peito para servir de apoio. - Isso não te faz doer? - perguntou ele. - É maravilhoso! - respondeu ela, fechando os olhos, como se falasse de um mundo distante.-É tão maravilhoso, Hellmuth... todo o meu corpo se sente muito bem. O nosso filho... Cinco minutos depois, chegou o professor Goldstein. A senhora Viernisch permaneceu sentada, não por falta de respeito, mas por se sentir cansada, pois assistira, durante toda a noite, ao nascimento de quatro crianças, sem ter compensado a fadiga com uma boa chávena de café puro. Além disso os médicos bons já começavam a aparecer, mas as parteiras ainda eram raras. Goldstein não levou isto a mal, cumprimentou-a com um ligeiro movimento de cabeça e observou o conjunto feliz formado pela mãe e pelo filho. Logo em seguida dirigiu-se a Wegener. - Você ainda está aqui, caro colega? Olhe que 'em uma resistência formidável! Eu durmo sempre três horas! Mas como verifico, está tudo nas melhores condições! Observou a ficha da doente: a curva da febre, o pulso e os medicamentos prescritos para post-operação. Neste momento entrou no quarto a enfermeira simpática, que explicou em poucas palavras como tinha decorrido a troca da camada de celulóide entre as coxas. - Tem dores? - quis saber Goldstein. Irmi abanou a cabeça em sinal negativo. - Ainda bem! Tem o primeiro filho aos vinte e seis anos, o que é muito bom. O bom Deus concedeu-lhe a graça de ter uma bacia flexível. 126 - Isso deve ser devido ao desporto, senhor professor - Irmi comprIrmiu o peito. O bebé chupou em seco. - Pratiquei muito atletismo, há muito tempo, no BdM... e cheguei a ser atleta. Wegener levantou a vista para Goldstein. "Como enfrentar esta situação", pensou. "O BdM era a Liga das Raparigas Alemãs, organização criada no tempo do Nacional-Socialismo, de triste recordação. O professor Goldstein é judeu. Todos os seus parentes e entes queridos foram assassinados, ele foi o único que escapou. O que iria ele dizer agora? - Eu sei - respondeu o professor Goldstein sorrindo paternalmente. - O médico da vossa família, o Dr. Hampel, contou-me tudo o que sabia a seu respeito. O desporto! O desporto é fonte de saúde! Mas só tem valor quando bem doseado e como filosofia prática. Endurece os músculos das mulheres, o que leva a complicações quando estão a dar à luz, e quanto aos homens... pois, caro colega, isso você sabe tanto como eu, com certeza!-Ao pronunciar estas palavras, voltou-se para Hellmuth e continuou: - O que vi nos Estados Unidos devido aos excessos de desporto e que tem provocado lesões graves no coração, por causa dessa coisa estúpida a que chamam nobre arte e à maneira frenética como são aplaudidos os grandes desportistas, que só são bons quando se encontram em plena forma, uma catástrofe! Os médicos são os verdadeiros heróis da arena que ainda não estão aleijados! Mas nada existe a favor de um treino sensato do corpo, porque o ho

mem está sempre disposto a exagerar. O triunfo paralisa as mentes e estupidifica as massas, chegando ao ponto de as transformar em verdadeiras hordas selvagens. Wegener concordou com a cabeça. O professor Goldstein tirou cuidadosamente a colcha para não incomodar o pequenino que mamava, observou a ligadura, apalpando com os seus dedos sensíveis o abdómen de Irmi: ali estava a cicatriz, muito curta, já seca e bastante evidente! Em seguida cobriu-a de novo. - Nenhuma tensão, está tudo muito normal. A senhora enfermeira vai-lhe dar ainda, como profilaxia, 200.000 I.E. de penicilina numa solução de glucose. - E para Wegener: - Está a perceber, caro colega? - Perfeitamente, senhor professor. O suor corria pela testa de Wegener, mas ninguém falou acerca do tratamento após a cesariana! O que ele temia eram as possibilidades de complicações: uma infecção e uma trombose. 127



Sobre estas graves consequências, podiam-se usar termos banais, sem entrar em pormenores. Mas Goldstein parecia ter pouco tempo. Acariciou a cara feliz de Irmi, tocou levemente na cabecinha do amoroso Peter e saudou o colega Wegener, aconselhando: - Agora você deve ir descansar um grande bocado - disse ele à porta. - A sua mulher também tem de dormir. O mundo não acaba hoje. Bom dia, caro colega. - Bom dia, senhor professor. Wegener reconheceu que a sua presença ali já não era necessária, porque ainda tinha muito para fazer fora do hospital. Com a ajuda da senhora Viernisch, Peter passou do peito esquerdo para o direito. Irmi estava sonolenta, bocejando muitas vezes. - Voltarei à tarde - disse ele. Irmi acenou com a cabeça. Agora estava muito cansada. O que o miúdo tinha bebido dela, constituía a última reserva das suas forças. A senhora Viernisch fez sinal, indicando que Wegener podia ir-se embora. Quando Wegener saiu do quarto, sem fazer qualquer ruído, Irmi já dormia. A senhora Viernisch sentou-se à cabeceira da cama, agarrou na criança e, com a outra mão, protegeu o peito bonito, branco e materno de Irmi. Na Polícia Judiciária o comissário Runckel aguardava-o. Estava sentado a uma velha secretária, sobre a qual se amontoavam processos. Fumava uma cigarrilha e bebia café de uma garrafa termo, café puro que inundava o ambiente de agradável aroma. Ao lado, sobre um guardanapo de papel, a metade de um pão, cortada à unha, aguardava a vez de ser consumida. - Presunto!-exclamou Runckel bem disposto. - Desde que se tem de percorrer trezentos quilómetros para se conseguir meio quilo de presunto fumado é, para mim, qualquer coisa de erótico! - Indicou, com a cigarrilha na mão, uma cadeira, onde Wegener se sentou. Este tinha a vista fixa num quadro emoldurado em madeira grossa, pendurado na parede caiada de branco atrás de Runckel e que representava a figura austera de Bismarck com uma couraça de prata resplandecente. O comissário cumprimentou-o com um aceno de cabeça. - Em compensação, nada temos das autoridades de ocupação. Bismarck permite isso. Porquê, não sei. Mas se quiser volte o quadro. Atrás ainda está colado o focinho do Adolfo! Mostrei esta maravilha aos ingleses, que se mijaram a rir. Tenho interesse em saber qual é a próxima figura que será posta aí. Será o nosso Adenauer ou Schumacher? Tem que estar sempre um ali, para isto cheirar a repartição pública e simbolizar a autoridade. O senhor fuma? - Não, obrigado! -respondeu Wegener apertando as mãos entre os joelhos. - Então, vai uma chávena de café? - Também não. - Como está a sua esposa? - Esta noite nasceu-nos um filho... - Então, muitos parabéns! Um rapaz! Muito bem! E o senhor ainda está em jejum?! Espere, na minha "cave" tenho qualquer coisa... Runckel inclinou-se, abriu uma gaveta da secretária e tirou uma garrafa de aguardente. - Copo, não tenho. Beba pela garrafa! - Ofereceu-a a Wegener, que hesitou, mas bebeu um pequeno gole; o conteúdo queimou-o, mas não esboçou qualquer gesto. Em seguida, o comissário bebeu com sofreguidão, voltando a fechar a garrafa. - O seu sogro... - disse ele por fim -, pois, o caso é evidente, mas não está concluído. A morte foi causada por um tiro de pistola de calibre 7,65mm, mas isto é uma pista sem importância, porque no local onde se situam as vossas obras existem inúmeras pegadas. O motivo é claro: o indivíduo, ou indivíduos, pretendiam roubar-vos, porque obras como essas atraem os ladrões, como o mel atrai os ursos. Mas agora os elementos estão dispersos! Há anos atrás estava tudo ao contrário, hoje em dia, apesar de as coisas estarem quase todas em ordem, os roubos continuam, da maneira mais simples; faz-se fogo baixo, para as vítimas sofrerem menos. As pessoas aprenderam a matar e grande parte delas com treino especial, obedecendo a um pensamento comum: o homem é homem e, para isto, tanto faz ser russo, americano ou francês, o essencial é ser capaz de matar! Não há muito tempo, as pessoas eram condenadas por assassinarem em massa! E todos nós sabemo

s isso, senhor Wegener - Runckel deu um murro no monte de processos em cima da secretária. - Toda esta papelada pertence a casos não esclarecidos! O farmacêutico Lohmann é o terceiro a contar de 128 129



cima... durante esta noite, já pela madrugada, houve mais dois casos de homicídio em Colónia-Ehrenfeld, num armazém de material metalúrgico. Estamos a atravessar uma época horrível, senhor Wegener. - Posso levar o corpo do meu sogro? - perguntou Wegener. Runckel gracejou: - Porque não? Eu não o roubei! Soltou uma gargalhada e deitou mais café no copo da garrafa termo. - O Ministério Público... - começou a dizer Wegener. - Mas com certeza! A autópsia terminou, o relatório do Instituto de Medicina Legal está pronto. De resto, o seu sogro fazia uma vida relativamente larga, pois os farmacêuticos, mesmos nos tempos maus, viviam muito bem, porque todos nós precisamos de medicamentos. Não há quaisquer problemas que obstem à entrega do cadáver. Pode mandar buscar o corpo do senhor Lohmann quando desejar: o Ministério Público dá-lhe autorização para encarregar uma agência funerária de todas as formalidades necessárias. O senhor, daqui por diante, toma conta das rédeas. - O senhor está a gracejar! - disse Wegener levantando-se. - Quando? - Quando desejar. Regularize todas as formalidades. O corpo do seu sogro está conservado em gelo. Só mais uma coisa, senhor Wegener... -Runckel ficou visivelmente sério.- Se o senhor não quiser ser o próximo a ficar deitado na mesa das autópsias, daqui em diante, faça de conta que não ouve, à noite, ruídos, estalos ou quaisquer outros sons provenientes do local das obras. Acha que um reles calorífero ou um bocado de tijolo valem a vida de um homem? - A nova moral da lei é assim? - Tudo isto é a aleluia da nossa fraqueza, senhor Wegener. Talvez melhore um dia, ou talvez piore, ninguém sabe. De momento, é o que está a ver e o melhor a fazer é não ligar e cantar "O du frõhliche!" e dar graças a Deus por nos deixarem viver. - Nunca poderei aceitar isso. - Eu também não. Mas a pensarmos assim só nos prejudicamos cada vez mais. Se precisar de qualquer coisa, venha ter comigo, senhor Wegener. Estarei sempre ao seu dispor. Aquele foi um dia de correria contínua. Nos jornais diários -sob o título "Noticiário Regional" aparecia o assassínio do farmacêutico Johann Lohmann descrito com todos os pormenores. Dois deles até publicavam uma fotografia do falecido, não do cadáver, mas uma reprodução da fotografia que se encontrava no estabelecimento do Sr. Lohmann quando ele tinha quarenta e dois anos, ao ser nomeado presidente do grémio das farmácias. Bastavam estas notícias para afluir à farmácia uma quantidade enorme de cartas e mensagens de condolências, não só trazidas pelos carteiros normais (este correio começou logo a chegar no dia seguinte), como também por mão própria. Entre os remetentes encontravam-se: quatro agências funerárias, três floristas, um canteiro, três organistas desempregados, quatro escultores-amadores, dois mestres reconhecidos das artes plásticas que propunham um relevo alegórico feito em mosaico, três escultores de madeira que se encarregavam de esculpir cruzes sacras com expressões carregadas de mágoa, uma firma de decoração especializada em adornar câmaras funerárias e capelas de cemitério, uma associação de cantores que mediante o pagamento de 200 marcos novos (DM) se comprometiam a cantar três solenes cânticos fúnebres, sendo um de Gustav Mahler. O morto não devia esquecer que ainda há bastantes vivos que querem viver. Hellmuth Wegener suspirou ao estudar com minúcia todas as ofertas e quando folheou o velho álbum da família Lohmann que o farmacêutico escriturara tão consdenciosamente, encontrou quem tinha sepultado a mãe de Irmgard - uma pequena empresa em Lindenthal, não muito longe dali, situada mesmo nas vizinhanças de Lindenburg, a grande clínica de Colónia. O Instituto tomou o nome do seu proprietário, Fortmann, passando a chamar-se "Instituto Fortmann", que se encarregava de toda a espécie de funerais, era uma verdadeira mina de ouro (devido à sua situação!), mas o Sr. Fortmann, agora com setenta anos, tinha permanecido modesto, certamente porque verificara, dia a dia, que a única coisa capaz de levar para a sepultura era uma camisa. O Sr. Fortmann manifestava a sua mais profunda compaixão e que se sentia honrado, pois conhecia os Lohmanns há décadas; lembrava-se mesmo do caixão da Sr.a Lohmann e prometera arranjar um igual para o marido dela e também assumir a 131

direcção dos serviços. Qual era o cemitério? Com certeza o Melaten, o cemitério mais importante de Colónia. Um jazigo de família - poder-se-ia trasladar a Sr.a Lohmann. Além disso - os jornais já tinham noticiado a morte - serviria para alcançar uma grande expressão de saudade. Isto ninguém podia parar, nem sequer Deus, Todo-Poderoso, com relâmpagos, trovões e chuvas torrenciais. O assassínio da criança em Braunsfeld ocorrera há dois anos; o seu funeral realizara-se num dia de grande nevão e o vento era tanto que quase se levantava voo! Mas as pessoas permaneceram durante todo o tempo dessa triste homenagem, ficando até ao fim e procurando abrigo por detrás das campas. - E agora, com o popular farmacêutico Lohmann, devem vir cá umas 2000 pessoas, isso digo-lhes eu!-profetizou o Sr. Fortmann. - Temos de tomar em consideração as florzinhas que cada um quer espalhar sobre o caixão. Wegener tinha tudo pronto. Assinou alguns documentos, Fortmann telefonou para o Ministério Público, para perguntar quando poderia ir buscar o cadáver, combinando em seguida com a administração do cemitério de Melaten a data do funeral e a colocação do jazigo em local bem destacado. Wegener foi para casa e dirigiu-se à farmácia vazia, onde se sentou. Lá fora, à porta, estava pendurada a tabuleta: "Por motivo de falecimento, encerrada temporariamente. De serviço nocturno. Farmácia Nohren,'' Wegener bebeu um conhaque e cravou os olhos na prateleira repleta de garrafas e de embalagens de medicamentos. "E agora", pensou ele. "Como se vai continuar? Lá atrás cresce a construção de uma fábrica de medicamentos, à minha volta existe a velha e famosa farmácia Lohmann. Tudo isto me pertence, quer dizer, pertence a Irmi, mas daqui para o futuro terei toda esta responsabilidade em cima de mim. E o mais grave é que não tenho qualquer ideia disto, nem a mínima noção, pois só me limitei a fazer coisas sob a orientação do velho Lohmann. Aviei algumas receitas sem importância, tais como: soluções de Rivanol, água oxigenada, várias pomadas... Sou capaz de ler receitas e vender medicamentos porque sei onde estão armazenados e, se alguém quiser um conselho acerca da prisão de ventre, dou-lhe laxativos que toda a gente conhece. Mas será possível viver-se assim uma vida inteira? Será o suficiente? O que faria Hellmuth Wegener no meu lugar? Que pergunta estúpida! Ele teria feito tanto como eu, só com a diferença de que teria 132 certamente continuado a estudar medicina e seria agora mais um membro desse grupo feudal. Mas isso também posso fazer, porque possuo todos os documentos necessários. Portanto, sou estudante de medicina, forçado a abandonar os estudos durante a guerra. Até me podia inscrever no 7.º semestre "in der Chose''. E depois, podia especializar-me em Anatomia ou em Ciência Laboratorial... mas como, se nem sequer sei iniciar uma destilação Bunsen? Cá fora, na chamada vida livre, pode-se fazer tudo, com todos os tópicos. Mas lá, no Instituto Universitário, reconhece-se imediatamente que aquele pássaro, ali, está pousado em ninho falso. Portanto, será melhor continuar como até aqui. Quanto mais velhos somos, mais indulgente se torna o ambiente à nossa volta. Depois, há a considerar o choque causado pela guerra, as faltas de memória parciais. Portanto, todos somos vítimas, mesmo quando sobrevivemos. Quando se conta isto em qualquer lado, ganha-se uma

auréola que alguém se encarrega de aumentar ainda mais. É um mártir do nosso tempo. Não toque nele, porque tem uma história longa e triste atrás de si!..." À tarde Wegener voltou ao hospital. Irmi ia bem; estava sentada na cama, apoiada em almofadas, e fora autorizada a beber dois golos de chá que lhe tiraram toda a sensação de sede. As dores da ferida voltaram, mas os analgésicos conseguiram passá-las para limites suportáveis. - Viste o pai outra vez? - perguntou quando se beijaram e depois de terem afirmado um ao outro que o pequeno Peter era a criança mais bonita do mundo. - Não. Fortmann tratará de tudo. - Quando é o funeral? - Na terça-feira da semana que vem, no Melaten. A mãe será trasladada e o pai enterrado lá. - Está bem. Estou-te muito grata, Hellmuth. Pôs o braço à volta do pescoço dele, puxou-o para baixo e beijou-lhe os olhos. Pareceu com isto ter terminado o assunto Johann Lohmann. A nova vida que voltaria para junto dela dentro de meia hora e que beberia com força, do seu peito, era mais forte. Todo o medo estava vencido e Irmi poderia voltar em melhores condições ao local do crime. A sua maternidade, o cumprimento do seu dever resumia-se, agora, em ser mãe e esposa; para ela só contavam o bebé e o marido. - Tenho bastante leite - disse com felicidade. - Imagina que a senhora Viernich disse que chegava até para dois, porque 133



apareceu em ambos os seios, ao mesmo tempo e em grande quantidade. Apalpa... Ele inclinou-se, pôs a mão na abertura da camisa e agarrou o peito dela com ternura. Primeiro o esquerdo, depois o direito. Peitos duros, tensos e redondos com mamilos erguidos. - Muito bem - disse ele. - Muito bem, Irmi. Deste modo, ele será um jovem forte! - Tão forte como tu, querido. - Ela colocou firmemente as mãos na mão dele, quando ele queria retirá-las do seu peito direito. - Será tão esperto e tão inteligente como tu. Ele envergonhou-se, baixou a cabeça e beijou os lábios da mulher. A febre baixara certamente devido à acção da penicilina, por isso sentira os lábios da mulher menos ressequidos, isto também certamente devido aos dois golos de chá que os tornara mais sensíveis, voltando, aos poucos, a serem aquilo que eram. Ele percebeu que a sensibilidade dela voltara, quando acariciou o seu corpo, as ancas e depois os ombros. Por detrás da sua pele, Irmi florescia de novo. À tardinha o professor Goldstein entrou de novo no quarto, já de casaco, portanto em visita não oficial. Apalpou o pulso de Irmi, mas via-se que ele fizera isso para justificar a sua presença. Em seguida, olhou para o ramo de flores que Wegener trouxera; rosas e crisântemos, um ramo tão grande que só se podia agarrar com ambos os braços, para transportá-lo para fora. - Tanto dinheiro! -exclamara ela.- E em breve tudo isto murchará! Agora temos de pensar nos três, querido! - Tenho muita pena, mas as flores têm de ficar, de noite, lá fora! - disse o professor Goldstein. - Eu sei, senhor professor - Wegener dirigiu-se à mesa.- Eu próprio levo-as para o corredor, porque são muito pesadas para a enfermeira. Arrastou de seguida o ramo colocado no grande vaso para fora do quarto. Goldstein seguiu-o imediatamente e fechou a porta. - Era justamente isso que eu pretendia - anunciou ele, quando Wegener acabou de arrumar o vaso. - Eu queria falar consigo - Goldstein tossicou levemente. - Não ouviu as últimas notícias na rádio? - Não, senhor professor. - Parece que apanharam o assassino do seu sogro. Por mera coincidência e em flagrante delito ao roubar numa construção em Ehreníeld. Não há bem a certeza, mas o comissário Runckel julga 134 tratar-se do mesmo bandido. Até a arma é a mesma: uma pistola de 7,65mm. Trata-se de um jovem com dezasseis anos! Imagine: com dezasseis anos e já assassino! Tristes tempos os nossos, aliás bem começados com "salutares" exemplos vindos de cima! Este menino gaba-se de ter começado aos treze anos a roubar granadas à guarnição de uma bateria antiaérea, aos catorze tornou-se salteador, aos quinze assaltou um depósito de abastecimentos dos aliados. As circunstâncias fazem embrutecer os homens... - Todos nós temos os nossos pontos fracos, senhor professor. - Mas não nos devemos render a eles, nem você, nem eu, como médicos. Você tenciona continuar os estudos? - Talvez, senhor professor. - E em que especialidade? - Possivelmente cirurgia. - Então, muitas felicidades. O professor Goldstein estendeu a mão a Wegener, dirigindo-se depressa para o corredor e daí para a saída do pavilhão dos quartos particulares. "Cirurgia, pensou Wegener.No hospital militar, durante o meu tempo de prisioneiro, vi de tudo: ferimentos horrorosos, doenças terríveis e mortes. E quando já nada havia a fazer, o único recurso possível era deixar morrer, e em que circunstâncias, Deus meu! E assim assisti ao fim de muitos desgraçados. Noutros casos, recorria-se principalmente à cirurgia, às amputações, aos tratamentos a furúnculos de mau cariz, mas tudo isto fazia parte do dia a dia, até surgiam resfriamentos e automutilações! Mas que merda! Será possível uma pessoa nunca mais se livrar disto? Dar-se-á o caso de eu ter de carregar esta maldita canga até aos últimos dias da minha vida? Mas quando soará, finalmente, a alvorada radiosa da libertação?" Ele acompanhou com a vista o professor Goldstein até este sair pela porta envidraçada que ficou a oscilar à sua passagem. Em seguida tirou uma rosa vermelha do enorme ramo e trouxe-a para o quarto de Irmi. Certamente uma única rosa não poria em risco o ar da noite. Com esta bela flor enfeitou o maravilhoso cabelo loiro da mulher, beijou-lhe as mãos e esperou pela senhora Viernisch e pelo filho Peter Johann. 135

As sepulturas são algo de terrível. Porém, para muita gente, apenas significa uma mudança social da monotonia fatigante do quotidiano. Vêem-se conhecidos e travam-se novas amizades, sabe-se muita coisa nova e pode-se ver, pode-se falar sobre o estimado defunto, misturando-se assistentes com familiares, havendo, ainda, assunto de conversa para todo o dia. O funeral do farmacêutico Johann Lohmann no cemitério de Lematen, em Colónia, foi um acontecimento especial que encheu páginas inteiras da necrologia da imprensa diária local. O Instituto Fortmann fizera todos os possíveis para sepultar Lohmann dignamente. Verificava-se agora que o farmacêutico Lohmann fora um filantropo, um benfeitor da freguesia, o que levava cada um a tecer os maiores elogios à sua memória, elogios estes bem merecidos e de plena justiça, diga-se em louvor da verdade! Fizeram-se representar diversas entidades: uma delegação do grémio das farmácias, do clube desportivo, da Cruz Vermelha Alemã, da Liga dos Antigos Combatentes, dos delegados do Partido Liberal, a quem Lohmann nunca se filiara apesar de serem muitas as esperanças nele depositadas, três porta-vozes de fábricas de medicamentos, quatro velhos camaradas (um pouco acanhados, porque traziam escondido debaixo da lapela dos casacos o distintivo do partido N.S.), uma recém-criada associação cívica (ainda sem alvará dos serviços municipalizados de ocupação), dois representantes da Ordem dos Médicos e, finalmente, o irmão mais novo do falecido, o tio Hannes Lohmann e o seu amigo, o industrial Heribert Bluttke. Ambos vieram de Hamburg, para onde se tinham retirado, depois de ter constado em Colónia, em 1945, que eram procurados como membros do antigo partido e, por consequência, como cúmplices de toda aquela gigantesca onda criminosa que varrera a



Europa na época hitleriana. O perigo agora tinha passado, sendo eles, assim como muitos outros, ilibados de culpas e considerados partidários inofensivos. Em Hamburg organizaram a sua nova existência permanecendo no norte, embora com grande tristeza no coração. - Conhecemos-te bem, Hellmuth - disse Hannes Lohmann apertando a mão de Wegener. - Então ficaste admirado? Nós somos os padrinhos do vosso casamento... eu e o Heribert Bluttke. Estavas na fotografia diante de nós, em cima da mesa e ao lado do capacete de aço. Nessa altura, perguntei a mim 136 próprio: "Que imbecil é este que casa sem sequer a noiva o ter visto?" Logo a seguir ouviu-se o sinal de alarme e a cerimónia terminou um bocado atabalhoadamente. Agora finalmente conhecemo-nos e não pareces nada como eras na fotografia! - Obrigado - respondeu Wegener calmamente. - Foi uma época louca. Foi muito bom vocês terem vindo. - Para assistirmos ao funeral de Johann. Mas é uma questão de honra. E ainda por cima assassinado! É inconcebível! Heribert Bluttke, mais gordo do que nunca, pesando agora cerca de dois quintais e meio, ofegava e limpava o nariz. Os outros acompanhantes -cerca de dois mil- apinhavam-se na capela do cemitério, enchiam os caminhos entre os túmulos e esperavam. Deus concedera um dia de sol brilhante e embora fosse já fim de Outubro, com ar bastante fresco, o solo encontrava-se seco, não havendo motivo para os pés ficarem molhados. Na capela, o organista tocava, por 50 DM à hora antigamente a arte era muito apreciada- o início da "Marcha Fúnebre" do "Crepúsculo dos Deuses" de Richard Wagner, mas naquele meio as pessoas só percebiam de baixa política. - Tens de nos contar tudo depois, meu caro Hellmuth pediu Hannes Lohmann. - Onde está Irmi? Já está na igreja? - Não. Ela está no hospital. - Meu Deus! A morte de Johann deitou-a abaixo? - Teve uma criança, um rapaz, o nosso Peter. - Isso já é outra coisa! -exclamou Bluttke em voz alta.- Johann foi assassinado e Irmi, nessa mesma hora, dá à luz uma criança! O que é a ironia do destino... - Bem. Então, vamos. Wegener voltou as costas e quase correu para a capela do cemitério. Atrás dele Bluttke arfava, o que lhe causava certa impressão. Não tardará muito que me volte e lhe exija toda a verdade'', pensou ele. "O que teria detido Hannes Lohmann até aqui? Nunca se manifestou antes, e agora... Mas tenho que averiguar a verdade, dê por onde der, e dentro em breve saberei tudo. O que é certo é que até hoje nenhum deles se tinha mexido. Johann Lohmann também nunca me falou dele. De resto Irmi também não, embora tivessem sido os seus padrinhos. Mas por onde começar? Ambos parecem ser os únicos parentes vivos. Apetecia-me enchê-los de aguardente e depois despachá-los para Hamburg." 137

Atrás da igreja encontrava-se também o comissário Runckel, que fez sinal a Wegener. Mais distante e em frente de Wegener, o professor Goldstein, cujo cabelo brilhava ao sol. O Sr. Fortmann veio ao encontro de Wegener, pegou-lhe na mão como se fosse uma criança e conduziu-o à primeira fila de bancos em frente do caixão quase invisível, escondido debaixo de enorme montanha de flores. O organista executava a "Marcha Fúnebre", com muita afinação e bastante sentimento. Wegener sentou-se. O gordo Bluttke continuava arfando, mas Wegener só o ouviu quando aquele se sentou com Hannes Lohmann atrás dele. Em compensação, mais ninguém lhe fez sinal; quem se sentara à sua direita e o cumprimentara, era um homem de estômago redondo e um bigodinho atrevido no lábio superior, e na face esquerda ostentava uma enorme cicatriz, uma "Durchzieher", como tal distintivo é vulgarmente conhecido naquele meio. Wegener correspondeu ao cumprimento, preparando-se para um encontro desagradável. "Quem será este?", pensou ele. "Um médico? O que faz ele ao meu lado, no banco de honra? Em todo o caso, julgo tratar-se de um académico, pois tem uma cicatriz na face, como quase todas as pessoas com essa categoria. Ele falará comigo e depois dependerá do que me disser. Ser flexível - é o melhor a fazer. Ouvir atentamente e só replicar quando se tiver a certeza da exactidão das nossas afirmações. A "Marcha Fúnebre" da "Siegfried" chegou ao fim. O padre subiu ao púlpito situado a meia nave do templo. O homem da cicatriz aproveitou o intervalo e fez uma vénia a Wegener. - Permita que me apresente. Chamo-me Schwangler - disse ele. - Eduard Schwangler, não Schwangerer... Wegener sentiu-se aliviado. "Ah! É este o Dr. Schwangler, o advogado de Johann Lohmann", pensou ele.Nunca o tinha visto, mas muitas vezes ouvira falar dele. É o melhor advogado que conheço, dissera uma vez Lohmann e não há outro como ele! Só tem um contra: quando diz cinco palavras, quatro são porcaria." O programa ia ser cumprido escrupulosamente e a cerimónia começaria dentro de instantes. Wegener encostou-se ao espaldar do banco e escutava o pároco que, depois da oração de entrada e do versículo da Bíblia apropriado à vida e obra do farmacêutico Lohmann, provocou nos 138 presentes uma sensação retrospectiva que convidava à meditação de cada um. Lohmann fora um verdadeiro crente, que doava sempre, em todas as reuniões da igreja, uma determinada quantia em dinheiro com que infelizmente já não se podia contar dali em diante. - Esgotou-se uma preciosa fonte de vida - afirmou o padre, visivelmente comovido. - Johann Lohmann foi sempre para os outros, como farmacêutico, como homem, como cristão, um bom samaritano na verdadeira acepção da palavra. Nunca foi capaz de abandonar o seu semelhante, deixando-o à beira da miséria ou do desespero. Enfim: cumpriu e muito bem a sua missão! Ao terminar estas palavras, o padre lançou um olhar firme a Hellmuth Wegener. "Passar-se-á o mesmo em relação a ti?", queria dizer a pergunta muda. Como resposta, Wegener fitou-o com um olhar frio e defensivo, cruzou os braços sobre o peito e fixou a vista no caixão que desaparecia por completo sob a enorme quantidade de flores. Com certeza que o Dr. Schwangler administrava o testamento do velho Lohmann e esta era a razão por que ocupava o lugar de honra na primeira fila. Não era, de modo algum, um testamento complicado. Irmi herdava tudo, porque ela fora a razão de ser da vida do pai. De resto não havia mais ninguém que pudesse apresentar qualquer reivindicação. O padre chegou ao fim, rezou outra vez, o organista executou o "Largo" de Handel, uma senhora soluçava atrás de Wegener, o que dava um aspecto solenemente pesado a esta cerimónia fúnebre. "Quando for o meu funeral", pensava Wegener, "gostaria que fosse algo diferente: silencioso e sem luxos, uma saída discreta, uma viagem para o nada. A tristeza não tem nada a ver com bandeiras e os discursos espalhafatosos e enormes nada dizem. A dor permanece no coração de cada um e não sai de lá." Passado algum tempo, tudo estava terminado. Os curiosos abandonavam em grupo o cemitério Melaten, como se estivessem a sair de um estádio, após um jogo de futebol. Alguns fotógrafos de jornais tiravam fotografias para terem reportagem da enorme assistência de pessoas ao funeral de uma vítima de cobarde homicídio. Perguntaram a Wegener se ele era a favor da pena capital ou se o jovem de dezasseis anos era, segundo a sua 139

opinião, um assassino de sangue-frio, ou apenas uma vítima embrutecida pela guerra selvagem terminada há pouco. - O meu sogro foi morto - respondeu Wegener com dureza. - O resto compete aos serviços públicos e à lei. Pensamentos de vingança, não os tenho. Por mim, pode escrever o que entender.. . A minha versão já eu sei qual é! Com estas palavras ele tornou-se imediatamente antipático perante os homens da informação, o que lhe era totalmente indiferente. O Dr. Schwangler, mais tarde, chamou-o à parte, quando ambos ainda se encontravam junto à sepultura, e disse-lhe: - Você deve ser mais diplomático, meu caro Wegener. Uma nova Alemanha está a ressurgir e tenho a certeza de que não será tão estúpida e fanática como a anterior, pois isso depende de nós, que temos de a construir para nós e para os nossos filhos e viver nela. Creio que ainda teremos uma palavra a dizer, mas nunca mais movidos por ódios ou ambições histéricas. A maioria dos homens aceita a vida como ela é e com todos os defeitos que ela realmente tem, mas já não aceita que volte a ser uma prostituição perpétua! Desde modo, Hellmuth Wegener e o Dr. Eduard Schwangler aprenderam a conhecer-se à beira de uma sepultura aberta. Hannes Lohmann estava junto deles e concordou, dizendo: - Na verdade, assim é, Hellmuth! E o gordo Bluttke, transpirando de emoção e desta vez ainda mais asmático do que nunca, ofegava no outro lado, anunciando, após breve instante de meditação, que tinha uma sede enorme de um gigantesco copo de cerveja. - Isso cairá tão bem como se uma formidável miúda nos braços me estivesse a matar outra espécie de sede! - exclamou ele com olho lúbrico. Em seguida começaram a sair dali, abandonando o local da sepultura aos coveiros, e dirigiram-se para um restaurante situado ali perto, na Aachenerstrasse, no qual Wegener alugara uma pequena sala para beberem pela alma'' de Johann Lohmann. Era um número restrito de pessoas, constituindo o expoente máximo da associação de comerciantes e do grémio das farmácias, os vizinhos mais próximos, alguns desconhecidos que a si próprios se chamavam de velhos amigos - algumas horas depois todos passaram a ser uma companhia muito alegre que se divertia com anedotas picantes, contadas principalmente pelo 140 Dr. Schwangler. Neste aspecto ele era inesgotável na sua verve espirituosa, que brotava da sua boca com a expressão de um actor de comédia. - Dê cumprimentos meus à senhora sua esposa - disse Schwangler, quando se despediram à tarde. - Eu vou consigo até ao hospital. - Sim, realmente vou para lá. - Pode-se visitá-la? - Com certeza. - Não acha que se devia esperar pela abertura do testamento até a sua esposa ir para casa? - Sim. Acho que seria melhor. - Isto é apenas uma formalidade. Eu conheço o texto. Ela é a única herdeira. Tenciona modificar alguma coisa em relação à farmácia, senhor Wegener? - Não. Creio que não. Vou contratar um farmacêutico, enquanto me ocupo da construção da fábrica - Wegener manteve-se muito reservado. -Para falar com a máxima franqueza... já não tenho qualquer prazer em me sentar nos bancos da escola, nem pachorra para encornar livros, nem gramar a estupidez dos exames. A guerra tirou-me a vontade e a paciência para voltar a aturar essas fantochadas, mas abriu-me novos caminhos. Tenho a impressão de que, através deles, poderei descobrir outros mundos que não ficarão muito longe dos reais caminhos do progresso. A tarde sentou-se de novo junto à cama de Irmi, cheirando a conhaque e a cerveja, mas mal jantou, porque não tinha apetite, embora a ementa constasse de almôndegas de vitela com molho de alcaparra e puré de batata, seguindo-se um mousse de chocolate com natas, acompanhado por chá de hortelã-pimenta. A comida dos hospitais tem sempre um sabor muito especial. - Foi um funeral digno - informou Wegener, quando Irmi lhe falou no caso. - O pai deve ter ficado muito satisfeito. A pessoa mais comovida de todas, foi o padre, que lamentou o falecimento de um doador tão assíduo. Wegener permaneceu no hospital até a enfermeira nocturna ter entrado de serviço. A senhora Viernisch voltou outra vez para vir buscar o seu quilo de café puro e ficou muito satisfeita porque Irmi tinha bastante leite, o suficiente para alimentar em abundância mais outro bebé, se porventura tivessem nascido dois gémeos. 141

- Querido, tu estás cansado - disse Irmi acariciando o cabelo de Wegener. - Agora vai para casa e dorme a valer. Tens olheiras profundas. Ele concordou, acenando com a cabeça, beijou a mulher, dirigiu-se em bicos de pés com a parteira para o pavilhão dos recém-nascidos e contemplou o filho mais uma vez, o qual dormia feliz e contente; era um homem minúsculo e perfeito. - Realmente é uma maravilha - disse ele em voz baixa para a senhora Viernisch - que uma pessoa traga em si uma coisinha daquelas. - É muito curioso o que podem conseguir quarenta e seis cromossomas - respondeu ela, aconchegando Peter, que esperneava. Wegener calou-se, interrompendo a conversa e propondo-se a si próprio estudar alguma coisa respeitante a cromossomas, para passar a ter competência necessária a fim de tomar parte nessas discussões. "Eu devia frequentar a universidade como aluno voluntário, nos meus tempos livres. É importante! Poderia, até, adquirir conhecimentos, mesmo fragmentados", pensava ele. Saiu, nas pontas dos pés, do pavilhão dos recém-nascidos, cuja admissão era interdita aos visitantes (ele, como médico, era uma excepção, como a senhora Viernisch bem acentuou) e dirigiu-se para casa. Ali, nada encontrou de anormal... Irmi teve alta dez dias depois. O seu regresso a casa foi um passeio triunfal. Todos os quartos estavam repletos de flores e uma montanha de postais de felicitações esperava por ela. Wegener chamou a este "o dia das portas abertas", no qual todos os vizinhos e amigos de Irmi vieram admirar o pequeno Peter; houve um cocktail, pãezinhos cobertos desapareceram rapidamente dos pratos e uma chuva de elogios cobriu Irmi e a criança. Tudo se passou e o dia de trabalho voltou àquela casa. O Dr. Schwangler trouxe-os à realidade, sob a forma de uma pergunta: - E isto agora como vai ser? A farmácia deve continuar. Você, meu caro, não tem qualquer preparação profissional, nem sequer tem o curso de medicina completo, mas foi um bom vendedor no tempo do seu sogro. Segundo a lei, as farmácias deverão ser dirigidas por um farmacêutico diplomado, pois os medicamentos 142



distinguem-se dos arenques, principalmente se estes estão podres e se o seu cheiro desagradável penetra nas nossas narinas. Já falei no grémio das farmácia sobre o seu caso. Parece-me que tencionam propor a nomeação de um ajudante. Deste modo, um jovem é a solução mais lógica e barata. Entretanto, você permanece como proprietário e quando o seu projecto for apresentado e devidamente aprovado, não precisa de se chatear mais... - O Dr. Schwangler pigarreou e sorriu jovialmente, o que fazia sempre no fim de uma das suas tiradas. - Você realmente quer fabricar medicamentos na sua nova fábrica de produtos farmacêuticos? - Sim. Comprimidos de vitaminas, calmantes, pensos rápidos, toda a espécie de revigorantes... - Por outras palavras: reconstituintes!-concluiu o Dr. Schwangler, rindo. - É a sua versão, doutor! Quero ajudar as pessoas que foram prejudicadas pela guerra a fortalecerem os seus organismos. - E também os seus orgasmos!-exclamou o Dr. Schwangler batendo palmas. - Meu caro Wegener, você acertou em cheio e está no caminho para se tornar milionário! A venda da potência é o negócio mais rendoso que existe, porque a crença do comprador entra nele. Devíamos discutir isto. Ofereço-me para seu sócio neste negócio. Porque não?! Dentro de três anos inundamos a Europa inteira com pílulas revigorantes "Lohmann"! Agora estou pronto a colaborar consigo: não o tinha compreendido antes, porque o tomei por uma pessoa sem acção, mas você saiu-me um verdadeiro génio! O benfeitor sério que aparentemente não move uma palha! Homem, isto é um grande negócio! Na manhã do dia 1 de Novembro entrou um ajudante na farmácia Lohmann. O seu nome era René Seifenhaar e habituou-se depressa ao trabalho. Não se pode seleccionar por apelido. O ajudante Seifenhaar era um rapaz simpático, daqueles que só aparecem em revistas ou no cinema, alto, delgado, com cabelos escuros encaracolados como um meridional, de apresentação elegante, voz afável e olhos castanhos muito expressivos, o que constituía verdadeira atracção para as moças e as senhoras casadas novas e idosas que quase formavam bicha na farmácia; para todas René Seifenhaar tinha uma expressão meiga, nunca indo além disso. - O gajo deve ser homosexual até à medula! - exclamou o 143

Dr. Schwangler. - É uma verdadeira sorte, porque vamos aproveitar para apresentar fotografias dele nos nossos preparados. Assim, as pessoas vão acreditar que, após cinquenta drageias, a metade das calças ficará coberta por chapa de ferro. Pouco antes do Natal, Hellmuth Wegener, com a ajuda dos livros da especialidade, conseguiu estudar todas as palavras e, com o apoio de René Seifenhaar, fabricar no pequeno laboratório da farmácia as primeiras drageias da série zero, que submeteu à apreciação da comissão de medicamentos. O Dr. Schwangler quis dar a este tónico o nome de Priaposan'', derivado do nome do deus grego Príapo, cuja erecção constante causava êxtase a todas as deusas. Porém, achou-se mais conveniente alterar esta denominação para um outro palavrão menos chocante e mais inofensivo, "Votalan", e lançou-se a primeira embalagem, na qual René Seifenhaar posava com uns calções de banho escassos, exibindo a beleza pujante de um adolescente. - Isto vai dar brado! -gritou o Dr. Schwangler radiante. Ele tem as curvas próprias nos lugares próprios. No dia 17 de Janeiro de 1949 chegou um convite surpreendente. Em Zurich reunia-se um congresso de farmacêuticos e Hellmuth Wegener foi o único alemão convidado para apresentar um relatório cujo tema era: "O papel da ambulância em tempo de guerra'' - uma obra histórica retrospectiva, cheia de interesse. Wegener leu o convite várias vezes: isto equivalia a ter de proferir uma conferência perante uma enorme assembleia de representantes de países europeus! Quem o teria metido naquilo?! Procurou o Dr. Hampel, queixando-se de uma dor nervosa na perna esquerda - o que ninguém consegue controlar, nem pode contestar - e regressou a casa com a certeza de que devia ficar na cama durante oito dias para se tratar dos nervos. - Não nos faltava mais nada!-resmungou o Dr. Schwangler de mau humor. - É justamente em Zurich onde você poderia sensibilizar a opinião pública para o nosso "Vitalan"! Bem, vamos enviar lá o nosso bonito René. Deste modo, Wegener chegou a saber quem o tinha metido naquela embrulhada e deitou-se satisfeito. Irmi tratou-o com todo o carinho, envolveu-lhe a perna com uma ligadura elástica, para 144 que os nervos pudessem descansar e descontrair-se e, quando o filho Peter já estava saciado, ficava deitado junto de Wegener debaixo do cobertor e adormecia feliz e quente, ressonando muito bem pelo pequenino nariz arrebitado. Daqui em diante, começou uma vida plena de interesse. René Seifenhaar executou primorosamente a sua tarefa em Zurich. Com as suas maneiras simpáticas e a sua aptidão especial, conseguiu adquirir uma série de contactos internacionais, tornando conhecida a fábrica de "Vitalan", ainda em embrião. - Tal oportunidade não deixaremos fugir - disse o Dr. Schwangler rindo, quando leu a Wegener, ainda na cama, as primeiras noticias de Zurich. - O que não conseguiste com a tua inteligência e eu com malabarismos, fê-lo o rapaz com as suas costas eróticas! Eis a trindade perfeita e ideal para um sucesso duradoiro. - O senhor saiu-me uma boa bisca!-disse Wegener ironicamente. - Mas temos de lhe dar razão. Se não fosse a maldita perna! Em 1941 estive de tal maneira exposto ao gelo que os nervos se ressentiram seriamente... "Sempre é bom deixar uma saída em aberto, através de uma doença crónica," pensou ele, orgulhoso. "Com casos destes podemo-nos desviar de muita coisa e esquivar-nos a situações desagradáveis, fazendo crer aos outros que realmente estamos doentes! A guerra é um ajudante precioso até ao fim da vida, servindo sempre de desculpa formidável! Pelo menos, trouxe qualquer coisa de útil: podemos esconder-nos atrás dela. É o nosso alibi." Pouco tempo antes do Carnaval - em Colónia é sempre festejado com grande alegria e pompa, pois quem o tirar aos naturais desta cidade correrá o risco de ser aniquilado aos olhos do mundo- a primeira distribuição do correio trouxe uma carta invulgar. Wegener encontrava-se nas obras de construção da fábrica e assistia ao assentamento do tecto - chapas onduladas - quando o aprendiz Norbert Schmitz, que desde há um mês se encontrava na Farmácia Lohmann com as funções de praticante, lhe levou a correspondência. Já o remetente do elegante sobrescrito constituía sinal de perigo: Associação dos Antigos Alunos Finalistas do Liceu Goethe de Hannover. Era o convite para uma conferência, um novo encontro depois da guerra. - Tens de ir lá? - perguntou Irmi. 145

Ele passaria dali em diante a ter o ouvido apurado. Dar-se-ia o caso de ela querer experimentá-lo? Mas porquê? Ou teria desconfiado de patifaria? Não, isso era impensável... - Porque não? - respondeu ele sem convição, mas querendo saber até que ponto Irmi reagiria perante a sua recusa. Dar-me-á muito prazer voltar a ver os velhos companheiros. Ela só sacudiu os ombros e retorquiu sem intenção: - Se isso te alegra, então vai... Repentinamente percebeu que para ele já não havia qualquer possibilidade de recuar. "Sou um idiota!", reflectiu, insultando-se a si próprio. "Bastava ter dito: não, não tenho necessidade de lá ir. Que me importa a escola?! Deste modo o problema ficaria resolvido!" E a sua corrente de pensamentos prosseguiu em velocidade vertiginosa: "Assim dar-se-á uma catástrofe. Os meus condiscípulos, os meus companheiros do liceu! Estarei ali, como um cego, ao qual se mostra um pôr-do-sol. Não conheço nenhum deles. Só se me queixar da perna, desta vez, da direita, daquela que foi ferida. Meu Deus! Hannover será uma catástrofe!" - Hellmuth - disse Irmi suavemente. - Queres que vá contigo? Estaria ela realmente preocupada? Ele apenas a viu de lado porque ela se desviou para voltar o sobrescrito. Engoliu em seco e acenou com a cabeça. Realmente, já não era possível recuar. Ele respondeu que isso não era necessário, porque certamente se trataria de uma simples reunião de homens; com certeza iria, mas não sabia se a ferida da coxa direita o incomodaria, porque já há dias suspeitava de qualquer coisa a manifestar-se naquele sítio, mas como ainda faltavam dez dias, tinha tempo suficiente para se decidir. Naqueles dias Wegener tentou arranjar os nomes do "seus" condiscípulos de então. Não foi difícil, porque uma agência de informações forneceu-lhe a lista completa com os nomes dos componentes da sua turma. Mas quais eram os nomes mais importantes? Como reconhecer cada um dos rapazes de então? Que acontecimentos tinham vivido em comum? Hellmuth Wegener teria alguma alcunha? E as dos outros colegas? Como se chamavam os professores? ... Carregado de incertezas e de terríveis receios, Hellmuth Wegener partiu para a conferência em Hannover. 'É necessário aguentar isso'', pensou. "Tal facto constituirá uma prova geral: se tudo correr bem, daqui em diante poderei actuar com a máxima segurança e ninguém se atreverá a expulsar-me do terreno conquistado! Talvez, nessa altura, a personalidade de Hellmuth Wegener atinja a perfeição. Talvez..." Quando chegou a Hannover, tinha as mãos húmidas de suor e um estremecimento interior percorria-lhe todo o corpo. 146

Capítulo sexto Hannover, nessa época, era uma cidade erma, cheia de destroços, mas asseada, apesar de ainda se encontrarem inúmeras ruínas, às quais Wegener já se habituara em Colónia. Quadros semelhantes pertenciam ao dia a dia da grande maioria das cidades alemãs. Esta, no entanto, demonstrava à evidência que o facto de um país ter ficado completamente derrotado numa guerra não o forçava, de modo algum, a rastejar perpetuamente na poeira dos destroços, cruzando os braços, sem nada fazer, numa atitude de desespero patético, alimentando misérias sociais, para cair, mais cedo ou mais tarde, mas mãos de falsos amigos e de exploradores sem escrúpulos. A Associação de Alunos do Liceu Goethe de Hannover alugara um pequeno hotel restaurado recentemente, encontrando-se em conselho numa sala das traseiras, chamada orgulhosamente "Sãlchen". Wegener fora um dos primeiros hóspedes a chegar. O gerente do hotel recebera-o com todas as atenções e deferências, dando-lhe um quarto de duas camas, com casa de banho privativa (o que era um verdadeiro luxo), embora o visitante preferisse um quarto de pessoa só, porque não sabia quem iria dormir na outra cama, o que teria de contar, o que devia saber e o que não devia. - Não temos quartos de pessoa só - informou o gerente nem voltaremos a ter nesta secção de hotel. Só os teremos na parte de trás do edifício, ainda em construção. De momento, os quartos duplos são o melhor negócio - acrescentou com um sorriso malicioso. Wegener desfez a mala, mudou de roupa, observou-se ao espelho e comparou a sua figura com a da velha fotografia tipicamente militar: Hellmuth Wegener fardado de alferes, ostentando as Cruzes de Ferro de 1.a e de 2.a classes, a Gefrierfleischorden'' e o distintivo das tropas de choque. Além disso, o cabelo cortado rente carregava ainda mais a sua pose de herói, mas não revelava, de modo algum, o tempo de privação passado na Rússia, as rugas profundas cavadas na face, embora entre a fotografia e a época actual devesse existir sempre uma certa semelhança. Wegener guardou a fotografia na divisão reservada da 149

carteira, penteou os cabelos castanhos, agora mais compridos e grisalhos do que em 1944, e consultou o relógio de pulso: ainda faltavam três horas para a reunião. Sentou-se no único sofá coberto de pelúcia, que rangia por todos os lados, e tirou da mala um compêndio de medicina interior e de cirurgia geral, um espesso calhamaço intitulado "Livro de Bolso do Diagnóstico Médico-Clínico", começando, como nos meses anteriores, a ler página por página, palavra por palavra. Consultava no dicionário clínico os conceitos que não entendia, lia e relia em voz alta passagens completas, ouvindo-se a si próprio. Usou este velho truque, recordação dos seus tempos de escola quando ainda era aprendiz de serralheiro, pois realmente fixa-se melhor ao construir a imagem visual e auditiva. Nesse tempo, tinham-lhe dito que o método ideal para aprender bem era os actores lerem em voz alta e os cantores cantarem, sem receio de perturbarem os vizinhos, porque todo o texto ficaria permanentemente gravado no pensamento. Realmente assim era e já verificara tal, por experiência própria, salvando-se muitas vezes de situa=



7ões embaraçosas, no decorrer de conversas demasiada e perigosamente técnicas. Bateram à porta. Era o gerente do hotel acompanhado por outro cavalheiro, certamente o companheiro de quarto e vizinho de cama. Wegener fechou os livros e manteve-se de pé. Enquanto o gerente colocava a mala perto da porta e desaparecia, os dois hóspedes observaram-se desconfiados e impacientes. O recém-chegado pigarreou levemente, porque este primeiro minuto era um pouco embaraçoso para ele e a primeira palavra custava sempre a ser pronunciada. Por fim, lá se resolveu e apresentou-se: - Chamo-me Zyschka. Walter Zyschka. Wegener ficou um momento calado, mas por fim disse: - O meu nome é Hellmuth Wegener. - Deus do Céu! Tu és o Hellmuth? - Zyschka bateu com a mão uma na outra, dirigiu-se a Wegener, abraçou-o e beijou-o nas faces.-É fantástico, Hellmuth! Como mudámos! E tudo por causa desta guerra de merda! Tenho a certeza de que já não me conhecias! - Não... - respondeu Wegener com a máxima franqueza. Mas... espera. Ah! Sim, és o Walter. Mas não usavas óculos antigamente? 150 - Não. Esse era o Brylla. Não sabes o que lhe aconteceu? Pobre rapaz! Morreu em Minsk, em 1942. - É verdade! - confirmou Wegener, dando uma palmada no ombro de Zyschka e tomando nota de todos os pormenores. O Brylla usava óculos... esta informação podia ser útil no futuro. E tu, meu velho, como estás? - Sou acessor jurídico, lido com todos os processos e cadastros horrorosos. É tudo uma merda! Quero ver se entro no Ministério Público. E tu, Hellmuth? Quanto te falta para o exame de estado? - Nada. Abandonei os estudos, Walter. - Tu és louco! Mas tu eras o 'barra'' da nossa turma! Eras o único que sabia a matéria toda, ao passo que nós... Nem vale a pena falar nisso. Enquanto à tarde passeavas com miúdas no parque ou davas uma bela volta de barco no lago, nós decorávamos palavrões esquisitos e torturávamos o cérebro com fórmulas químicas. E, apesar de tudo, estás resolvido a deixar de estudar, Hellmuth? - Depois do cativeiro, fiquei farto de toda essa bodega, Walter. Além disso, casei-me e tenho um filho que se chama Peter. - Efectivamente assim foi!-exclamou Zyschka recordando-se, e riu-se. - Soube que te casaste por procuração. Só o Wegener é que faria uma dessas, pensei nessa altura. E realmente acertaste bem! - Lá isso é verdade! Irmgard é uma mulher maravilhosa e sou realmente feliz. - E como ganhas o pão nosso de cada dia? - Irmi herdou a melhor farmácia de Colónia. Neste momento, estou a construir uma fábrica de produtos farmacêuticos... - Está visto que te estou a fazer uma série de perguntas parvas, pois não é possível conceber-se a ideia de ver em Hellmuth Wegener um homem sem sorte. Tal nunca aconteceria! Como se costuma dizer: a sorte caiu-te do céu aos trambolhões e tu consegues atraí-la como se tivesses um imã entre as pernas! E Zyschka riu grosseiramente... Os juristas e os médicos têm uma predilecção especial por piadas deste género. - Se um dia precisares de um procurador para a tua fábrica, pensa em Walter, teu antigo colega de escola! - Com certeza, meu caro. Aquele foi um reencontro maravilhoso de antigos camaradas, no "Sãlchen", onde correram em abundância a aguardente, a cerveja, o vinho e, para terminar, o champanhe, tudo à conta de Eberhard von Hommer, ainda hoje, como outrora, o mais rico de todos os presentes. O velho Hommer, abastado proprietário de indústria siderúrgica, casara pela quarta vez com uma senhora mais nova do que Eberhard, nascendo daqui uma secreta e amorosa ligação. - Acho que vocês devem aceitar casos destes!-berrava Eberhard, bastante alegre, por acção do vinho. - Aconselhem os vossos pais já velhos e viúvos a desposarem senhoras jovens. Mais prático do que isto, não sei o que haja: o velho sustenta tudo e o novo vai gozando! É uma vida familiar calma, com felicidade a dividir por três: o papá fica orgulhoso por ter uma esposa jovem que só quer jóias, peles, automóvel e nome, enquanto o rapaz cultiva as artes domésticas, ficando, deste modo, dispensado da incómoda procura de outras camas muito mais dispendiosas. Deste modo, cada um fica com o seu quinhão de felicidade! Concordo não ser a situação ideal, mas tem muito interesse! Para Hellmuth Wegener, só houve naquela tarde dois momentos realmente difíceis: o primeiro foi quando teve de ir cumprimentar dois velhos professores que, naturalmente, não conhecia; o segundo foi na altura em que o seu antigo companheiro de banco, Fritzchen Leber, agora arquitecto, se lhe dirigiu com estas palavras: - Eh! pá! Hellmuth! Dou-te a minha palavra que não te reconheceria, embora durante nove anos estivéssemos sentados lado a lado! Ficaste com a cabeça mais redonda, homem! - Deve ter sido devido ao uso obrigatório e excessivo do capacete de aço - respondeu Wegener, sem hesitação. Os presentes desataram a rir às gargalhadas e o assunto morreu. Mas Fritzchen Leber ainda teve outra razão que muito o admirou naquela noite e à qual Wegener nem sequer aludira: foi o problema com Lore, a moça de compridas tranças ruivas que aos 16 anos fora motivo de disputa renhida entre Wegener e Leber. Aquele ganhou, mas o seu romance com Lore não foi além de um beijo, um apalpão no peito e uma carícia ao quadril; dali em diante, ela recusara toda e qualquer iniciativa mais ousada. - Pobre pequena! -lastimava Leber profundamente comovido. 152

- Lore morreu em 1944 durante um bombardeamento. Não sabias? - Não. Wegener tentava imaginar Lore com as tranças ruivas e compridas, a sua figura, o peito que lhe diziam ter apalpado e a carícia na coxa. "Nem sequer me lembro de ter beijado tal miúda!...", pensava ele. - E agora um brinde com champanhe!-gritou Eberhard von Hommer. - Rapazes, nós fomos uma boa classe. Qual é a opinião do nosso querido professor? - Vocês tinham sangue na guelra - bradou o velho professor Sachtmann. - Foi a pior turma em matemática, principalmente você, Wegener. - Já não preciso de raízes para extrair, pois não sou dentista!-respondeu Wegener, acrescentando corajosamente: Sou mais competente em apendicites. - E o vosso latim, meus senhore?! -lembrou o professor Linders, a quem os alunos alcunharam de Beata'' porque usava sempre uma ponta de cigarro apagado na boca, colocando-a, todos os dias, muito cuidadosamente, ao canto da secretária, até que uma vez o pequeno Hammerlein - que morreu como voluntário em França em 1940 -, fez um movimento com o dedo, fazendo cair a beata no chão. - Em latim vocês eram todos completamente desmiolados, principalmente você, Von Hommer! Mas que catástrofe! E você, Wegener! Como é que você se saiu com o seu miserável latim, no curso de medicina? - Muito bem! Consegui fazer física com um! A reunião prosseguiu até ao romper da alvorada. Os professores despediram-se e foram-se embora mais cedo. Um táxi levou os cavalheiros levemente vacilantes para casa. A "velha turma" ainda ficou ali, relembrando os velhos tempos. - E aparece-nos sempre a palavra "velho" repetida não sei quantas vezes!-exclamou Fritzchen Leber. - Rapazes, nós ainda não estamos caquéticos. As nossas idades variam entre os vinte e nove e os trinta. Falemos, agora, do futuro! Tiraram-nos sete anos e a muitos de nós ainda acrescentaremos mais três anos. Dois dos nossos companheiros encontram-se algures na Sibéria e nove morreram ou desapareceram. Restamos só nós... ao todo somos doze! Haja o que houver, devemos manter-nos juntos e unidos, para ver se conseguimos fazer desta época de merda alguma coisa de jeito e não voltarmos a cair nos abismos do 153



passado! Leguemos aos nossos filhos algo melhor do que os nossos pais nos deixaram a nós! - Este é o orador do partido!-berrou Zyschka, já tão embriagado que foi necessário transportá-lo para o quarto. Rapazes, não queiram nada com o partido! Para mim acabou! Quando um alemão tem em seu poder uma caderneta de membro do partido, não descansa enquanto não modifica por completo o mundo inteiro! Porque não tentamos outro sistema, por exemplo, uma associação mundial contra a violência e a intolerância? Conduziram Zyschka ao quarto, antes que apresentasse à empregada Hannelore qual era o seu programa de partido. Mas também os outros não estavam muito seguros da cabeça. Apenas Wegener se mantinha lúcido, escutava tudo com muito interesse, bebia com moderação e de tudo ia tomando nota, aproveitando-se da verbosidade dos companheiros para mais tarde, quando precisasse, não perder as oportunidades de recorrer aos seus serviços: Hommer seria o elo de ligação para a indústria pesada, Zyschka para a jurisprudência, Fritzchen Leber para problemas ligados à arquitectura, Kalle Vorbergh para a organização de ligações com o comércio retalhista, Hans Lehmann para as empresas internacionais de transporte, Fitter Ortwin para a edição de publicações a sair brevemente em forma de revista. Ali, no "Sãlchen", estavam reunidas as mais diversas profissões, excepto a de médico, o que acalmou Wegener, pois era uma sorte não estar presente qual

quer pessoa que o atrapalhasse com discussões da especialidade, antes pelo contrário, quando ele incluiu na conversa algum problema ligado à medicina, como por exemplo esta observação: "Recentemente fui chamado a pronunciar-me acerca de um homem com um tórax invulgarmente cifósico...", percebeu nos seus camaradas algo de respeitoso, embora soubesse que acabava de proferir um disparate, porque uma cifose é uma deformação da espinha dorsal, quer seja congénita como uma condrodistrofia, quer seja adquirida como doença durante o crescimento, a cifose dos adolescentes. Para evitar complicações, Wegener não adiantou mais a conversa. O que acabava de demonstrar, chegava perfeitamente para consolidar a sua fama como "fonte de sapiência'' junto dos seus antigos colegas de turma. Somente quando alvorecia, separaram-se, já bem bebidos. Walter Zyschka ressonava formidavelmente, estirado na 154 cama, quando Wegener o puxou para pô-lo direito. Todo o quarto cheirava a álcool. "Não seria nada mal pensado", reflectia Wegener, de cabeça fresca, "se as reuniões da turma se realizassem todos os anos, sempre em sítios diferentes: uma vez lá em Colónia, outra vez noutro lado qualquer. Devem-se manter de pé iniciativas deste género e nunca deixá-las morrer. Não seria conveniente pensar-se já em marcar a próxima?" Descalçou os sapatos e deixou sossegado o seu "camarada de escola". "Ainda poderei precisar deles todos", raciocinava Wegener. "Do industrial dos aços, do jurista, do arquitecto, do coordenador de comércio retalhista, do empresário de transportes, do publicista, do comerciante de móveis... Todos faziam parte de actividades possíveis de girarem à sua volta. Era o herdeiro da farmácia, o futuro proprietário de uma fábrica de medicamentos, o médico com o curso interrompido e com conhecimentos e competência suficientes para as suas opiniões serem ouvidas e tomadas na devida consideração. Hellmuth Wegener, se não conseguires tudo e não construíres uma existência digna, passarás a ser uma ameixa podre! Então, o melhor que tens a fazer é fugir para Osnabrúck e voltares ao ofício de serralheiro, profissão honesta, diga-se em louvor da verdade! O que agora te estimula e te estimulará no futuro é uma perpétua dança na corda bamba, mas sem rede!" "Mas tens de conseguir! Tens a Irmi, tens o pequenino Peter, tens o teu próprio mundo... E principalmente: amas todas as obras que decidiste levar a cabo, com um amor quase santo, e diariamente devias dar graças a Deus por teres possibilidades de as continuar, pois tornas todos felizes, sem prejudicar ninguém, antes pelo contrário, trabalhas para a tua mulher e para o teu filho e, com tudo o que tencionas fazer, ser-te-á possível ajudar também muitas outras pessoas. Finalmente, descansa, porque a tua consciência não te acusará, nem a ouvirás segredar-te: Peter, és um patife..." Hellmuth Wegener não conseguiu dormir, embora fechasse as pálpebras, mergulhando numa semi-inconsciência, vendo tudo como se fosse realidade... Zyschka era o lenhador que serrava uma floresta inteira, enquanto no quarto ao lado Fritzchen Leber praguejava, porque não correra depressa para a casa de banho situada no corredor, tivera de abrir a janela -e isto 155

ouvia-se perfeitamente - e queria urinar para a rua. Num outro quarto, também ali perto, ouvia-se uma discussão entre Eberhard von Hommer e o gerente do hotel, porque este se recusava a ir buscar lá abaixo a empregada Hannelore, mesmo pagando a enorme quantia de 500 bons marcos novos. Finalmente, fez-se silêncio no hotel. Wegener estava quase a dormir quando se sobressaltou com um ruído surdo: Zyschka caíra da cama, mas continuava a dormir. Wegener abriu a janela para deixar sair o mau cheiro e olhou para a rua adormecida. "Amanhã estarei de novo em Colónia", pensou, "junto de Irmi, nos seus braços sensuais e quentes, em contacto estreito com a sua pele maravilhosa, os dedos a afagarem os seus belos cabelos louros, as pernas entrelaçadas, acariciando a sua anca e os seus belos seios bem proporcionados e quentes." "Meu Deus, só vos peço que me concedeis sempre uma vida assim tão feliz!" Já a manhã ia bastante adiantada, quando se reuniram de novo para tomarem o pequeno-almoço. Sentaram-se todos a uma mesa, com indícios evidentes de uma noite passada em alegre convívio a que as bebidas alcoólicas não foram alheias: um certo peso no andar, olhos vermelhos, respiração penosa, alguma palidez e cansaço de nervos, se bem que se mostrassem alegres e bem dispostos, dando pouca importância ao esforço dessa noite. - Seria bom se nos voltássemos a encontrar outra vez! alvitrou Fritzchen Leber. - Nessa ocasião, a minha revista estará presente e o assunto dará para uma enorme reportagem, com um título a toda a largura: "Deste modo se reúne a nossa elite intelectual!" anunciou Fitter Ortwin. Todos se riram estrondosamente. Na verdade fora uma excelente camaradagem, tudo correra como em família, felizes por terem sobrevivido à guerra, a terríveis anos de fome e às misérias do mercado negro. Finalmente satisfeitos por terem descoberto o melhor caminho que conduziria a uma existência mais lucrativa e muito mais interessante. - Nós vamo-nos escrever, pelo menos uma vez por mês. Isto em nada perturba o nosso trabalho, pois temos uma camaradagem formidável e os amigos estarão sempre acima de outras coisas de somenos importância! -prometeram uns aos outros, após o café, antes de se meterem nos carros, pois todos eles tinham um, desde o Mercedes (certamente de Von Hommer) 156 até ao DKW com carroçaria de contraplacado, pertença do arquitecto Leber. Em seguida, tomaram as mais diversas direcções, buzinando e acenando das janelas, sabendo todos que mensalmente teriam notícias uns dos outros. No ano seguinte estariam de novo reunidos em Múnster, na casa de Leber, e quanto mais depressa, melhor. Os dois professores - de matemática e de latim - se ainda fossem vivos, lá estariam também. "Se a guerra não nos tivesse traumatizado... como seríamos ainda mais felizes!" Hellmuth Wegener foi o último a partir. Aguardou até todos se terem ido embora, respirou aliviado quando os viu desaparecer e meteu-se no seu Opel. Nunca conseguira acreditar que se sairia tão bem, perante um caso que se apresentou tão bicudo de início. "Para isto é preciso ter talento'', pensou, "reflexos rápidos e a capacidade de reagir nos momentos certos, integrando-se na própria história dos acontecimentos, na altura exacta - isto é muito importante. Deve-se ser eloquente e vigilante, principalmente se se gira à volta de assuntos aparentemente secundários e sem importância, pois, por causa de uma pequena distracção, já houve generais que perderam batalhas. A solicitude bem doseada e o encanto pessoal na sociedade burguesa actual são factores importantes a não esquecer, sob pena de se deixar fugir uma ou várias oportunidades preciosas. Assim, pode-se conquistar o mundo! Hellmuth Wegener, podes considerar-te um irracional, mas, pelo menos, sê digno de ter e de conceder amor!'' O Dr. Schwangler aguardava-o com boas notícias. A viagem do ajudante René Seifenhaar a Zurich fora coroada de êxito, principalmente por ter travado conhecimento, extracongresso, com um industrial italiano, chamado Giulio Betrucci. Este contava 56 anos, tinha um motorista marroquino, um jardineiro tunisino, um secretário sardo, um cozinheiro venezuelano e apaixonara-se por René Seifenhaar. Entretanto, tinham já chegado de Roma uma carta e três telegramas. Betrucci vivia num palácio na capital italiana e sonhava com René. - O que se passou em Hannover? - perguntou o Dr. Schwangler entusiasmado. - Reconheceste todos? Com certeza que não! O que temos em nós, aos poucos vai-se modificando, 157

mesmo sem darmos por isso. Os rostos ficam mais enrugados, enquanto outras coisas se vão alisando. Muito bem! Em face do que se passou na Suíça e através do nosso amigo Seifenhaar, recebemos cooperação com um dos maiores consórcios italianos, em troca de não interessa o quê! Betrucci pretende associar-se a nós, desejando lançar o produto a nível europeu. Está bastante interessado no nosso "Vitalan", farejando aí negócio certo! Wegener sentou-se. Estava cansado da viagem. Os seus nervos tensos precisavam de descontracção. - Não será possível conversar consigo sem me falar de porcaria? -perguntou ele.- Doutor Schwangler, o que pretende afinal o tal Betrucci de Roma? - Do René, a sua... a sua inclinação amorosa, e de nós, uma estreita colaboração. Com o "Vitalan" lançado no mercado e objecto de uma publicidade bem orientada, é certo e seguro que outros produtos similares serão relegados para segundo plano! Dentro de dois anos, o "Vitalan" estará em cima de todas as mesas de cabeceira. Depois, os nossos consumidores não quererão outro produto, rebentando com todos os outros. No verdadeiro sentido da palavra... - Consigo não se pode conversar - disse Wegener levantando-se. - Além disso, estou cansado. Se não se importa, voltaremos ao assunto amanhã, mas sem se falar em porcaria! Deteve-se à porta do escritório e perguntou: -Tem elementos concretos? - Sim. Muitos elementos e todos concretos. Betrucci tenciona vir a Colónia dentro de duas semanas. René Seifenhaar aguarda-o, cheio de saudades... Havia mulheres na vossa reunião de turma? - Não. Éramos só nós, doutor! - gritou Wegener. - Foi só um encontro de antigos colegas, nada mais! - Nesse caso, devia ter sido uma verdadeira obra-prima! Schwangler sacudiu a cabeça. - Então, até amanhã. Eu preparo tudo. Betrucci quer entrar imediatamente na produção! - Mas o preparado mal acaba de sair do laboratório, doutor! - E então? Sair, juridicamente, significa estar na linha de produção. Há algum material tóxico na sua composição? - Com certeza que não! - E substâncias prejudiciais à saúde? - Também não. - Só tem vitaminas e componentes semelhantes? :: 158 - Sim, entre outros. Trata-se de uma combinação inofensiva e eficaz de... - Não é preciso mais nada, meu caro. Possui todos os elementos necessários para uma procura sensacional! E todas as pessoas têm um sentido especial para isso! Você já pensou no nome Vitalan'' ? Até isso tem muita lógica! Sim, "Vitalan'' é lógico! Vamos conquistar o mundo! Hellmuth abanou a cabeça e saiu do quarto. "Schwangler é um génio à sua maneira", pensou Wegener "e nunca se deixa enlouquecer pelas suas ideias. Talvez morra por comer demasiado, por beber muito ou por fornicar em excesso, mas, se tal acontecer, será tudo muito natural." "Betrucci na Itália, um consórcio multinacional; e tudo isto porque o meu ajudante René Seifenhaar se apresenta no anúncio com calças muito justas ao corpo." "Como este mundo é louco! Será necessário ser assim tão louco, para se conseguir viver nele? Sim, estou a ver que assim é, pelo menos, para não nos rirmos tanto dos que são mais loucos do que nós. Assim, ficará tudo mais equilibrado e não teremos tanta inveja uns dos outros!" Tacteou as escadas e subiu, dizendo de si para si que não o conseguiria fazer, o que era normal. Sentiu-se muito bem quando, após o banho, se meteu na cama e Irmi lhe levou à cabeceira uma chávena de café aromático. - Leva-o - pediu ele indolentemente, agitado por uma carícia dela, mas morto de cansaço. - Vem dormir comigo! Bem sabes que durmo melhor quando te sinto ao pé de mim... Dormiu profundamente quase quatro horas, até à altura do jantar. Irmi estava deitada ao seu lado, escutando a respiração constante e feliz por se encontrar ali. Pusera uma mão sobre o sexo dele e com a outra folheava cuidadosamente a publicação referente às actualidades farmacêuticas colocada nos seus joelhos, para não fazer ruído com o voltar das páginas. Finalmente levantou-se, porque o pequeno Peter exigia a sua ração alimentar mista: uma parte de leite materno e outra de um preparado lácteo de uma garrafinha. O leite da mãe diminuiu e a senhora Viernisch, que de vez em quando visitava Irma Wegener, 159

aconselhou-a a ir suprimindo aos poucos a amamentação natural, por causa do peito. - Assim, voltarão a ficar firmes -disse a parteira.- A senhora Wegener tem uns seios formidáveis e deve mante-los assim. Os homens gostam deles tensos e robustos. Um peito demasiado vazio e chupado, fica mole e sem interesse para qualquer homem que, embora nada diga, não deixa de pensar nisso! Não deixe o peito estalar... e garanto que o seu marido ficará sempre em casa! Irmi voltou para a cama, quando acabou de tratar de Peter Hellmuth dormia ainda. Ela foi buscar uma revista, tapou as pernas e começou a ler, pondo uma das mãos no baixo-ventre do marido e sentiu qualquer coisa a crescer e a arredondar-se. "Continua a dormir", pensou ela. "Mais tarde, depois do jantar... Agora não! Dorme, meu amor. Estás tão cansado... mas amo-te tanto. Tenho a certeza que me desfaria em pó, se te acontecesse algo de terrível. Não posso passar sem ti. Dorme, meu amor." Ele suspirou baixinho e, sempre a dormir, ergueu o abdómen, indo ao encontro da mão quente dela. Mas nada aconteceu - ele realmente estava muito cansado. Naquele dia ocorreram dois acontecimentos que modificaram a paisagem da vida de Wegener. Na segunda-feira anterior à Quaresma chegou de Roma o industrial Betrucci para levar a efeito reuniões com Hellmuth Wegener e com o jovem René Seifenhaar, concernentes à realização do projecto "Vitalan". O Dr. Schwangler dominou-se a muito custo, escusando-se a comentários, quando lhe surgiu à frente o idoso Betrucci mascarado de "cow-boy", enquanto René Seifenhaar se disfarçava de pirata com uma venda num dos olhos. Em seguida saíram no meio do ruído próprio da época carnavalesca em Colónia, só regressando na quarta-feira de Cinzas. - Já não é necessário preocuparmo-nos com a parte respeitante aos contratos! - exclamou, radiante, o Dr. Schwangler, dirigindo-se a Wegener. - Pelo menos, os selos já estão assinados ... - Doutor! -bradou Wegener em tom de censura. Schwangler riu descaradamente e saiu do escritório. Há duas semanas já reunira tudo: o procurador e a gerência de Vitalan-GmbH... Os negócios foram bem conduzidos, a clientela 160 bem trabalhada por toda a parte e, também devido à normalização de condições de vária ordem, os lucros começaram a aumentar. As ruínas iam desaparecendo e, em sua substituição, foram-se erguendo cidades com nova face, as pessoas apresentavam-se com melhor aspecto, graças à restauração das indústrias e ao espírito de autêntico pesquisador de ouro, mas muito disciplinado e verdadeiramente trabalhador do povo alemão. Começaram a aparecer casos de divórcio, nos quais o Dr. Schwangler era o grande especialista. Neles, representava sempre os maridos. Contra ele, as esposas não tinham a mínima hipótese, pois as perguntas de Shwangler eram tão íntimas que as pobres senhoras coravam, perdendo toda a coragem de procurarem defesa possível. O comportamento deste advogado era tão adverso em relação às queixosas que, mesmo sem qualquer prova, fazia tal jogo de equilíbrio com conceitos referentes a relações sexuais aberrantes, que as esposas abandonavam os processos, preferindo cederem vez de passarem pela vergonha de uma forçada presença em tribunal. Para tal não tinham nervos. - O meu constituinte tem sempre razão! -era a divisa do Dr. Schwangler. Nos tribunais ganhara má fama, pois até uma vez conseguira provar, durante a instauração de um processo, que o Procurador da República saíra de manhã de um hotel, onde pernoitara com uma testemunha... O instinto de Schwangler não se enganava: Betrucci solicitara para a quinta-feira a seguir ao Carnaval uma entrevista com Hellmuth Wegener. Porém, nessa quinta-feira chegou uma carta do Dr. Siemsmeier, notário em Hannover. Dr. Siemsmeier? Quem diabo era este agora? Não, não se tratava de qualquer antigo colega de turma. O único jurista conhecido era Walter Zyschka. Todos estes pensamentos ocorreram à mente de Hellmuth, enquanto se preparava para abrir o sobrescrito. Wegener leu a carta duas vezes, meteu-a na algibeira, correu à sala e atirou-se para cima de um sofá. Irmi observava-o admirada, porque o marido parecia completamente derrotado. Depois de tratar de pequeno Peter, deitou-o no berço, sentando-se junto do marido. - O que se passa, querido? - perguntou ela com suavidade, porque sabia que a sua voz tinha nele o efeito de um calmante. Quando havia problemas, pedia-lhe: "Diz qualquer coisa, Irmi. 161

Qualquer coisa..." Ou: "Vem, vamos dar uma volta por aí!" Irmi sentava-se ao volante do Opel, Wegener acocorava-se ao seu lado sem dizer nada, olhando em silêncio para a paisagem (que nem sequer via) e mantinha-se assim durante uma hora, até chegarem a Stadtwald, onde quase sempre iam, até ele dizer: Pronto, Irmi. Agora, vamos para casa!'' Em seguida ele contava tudo o que o afligia durante a viagem de regresso ou calava-se, discutindo depois o assunto quando chegavam. - Um notário, um tal doutor Siemsmeier escreveu-me de Hannover - disse Wegener, tirando a carta da algibeira do casaco. Dobrou-a e coçou a ponta do nariz. - Quem é o doutor Siemsmeier? - perguntou Irmi. - Eu... eu tenho de estudar bem o assunto - Wegener olhou fixamente para a carta. O que explicou à mulher sobre o caso, soubera através das palavras ali escritas. - Até aqui, sempre pensei que os meus parentes tinham morrido todos. Estava absolutamente convencido de que o último dos Wegeners de Hannover era eu, porque o guerra dizimara toda a família. Porém, hoje tomei conhecimento de um facto muito diferente: em Hannover havia um tio meu, irmão da minha mãe, chamado Axel Hellebrecht. O nome de solteira da minha mãe era Hellebrecht. - Até aí, sei eu. - Nunca conheci este tio. Quer dizer: devo tê-lo conhecido em criança! E preocupou-se tanto comigo e com o meu futuro, sem que o tivesse notado. Wegener sentiu qualquer coisa aquecer debaixo do crânio e começou a suar. "Não há pessoas sem passado", pensou, "pois ele volta sempre inesperadamente, num dia qualquer e de qualquer maneira, surgindo da escuridão do esquecimento, como um espectro. É este o caso do tio Axel Hellebrecht. Morreu e a sua morte faz esse mesmo passado vir à luz agora.'' - Vou-te ler o que o doutor Siemsmeier escreve,1 para compreenderes melhor o assunto - disse ele, dando à sua voz um tom comercial. - Presta atenção: "Caro Sr. Wegener, É meu dever levar ao seu conhecimento a lamentável notícia de que o seu tio, o Sr. Axel Hellebrecht, morador em Hannover-Harrenhausen, Schlosstrasse 19, morreu subitamente há três dias. Aproveito a oportunidade para lhe apresentar as minhas sentidas condolências. 162 Há mais de trinta anos represento notarialmente os interesses do agora falecido e tenho a informá-lo, Sr. Wegener, de que o último desejo de seu tio, bem expresso aliás no preâmbulo do testamento, seria fazer-se o seu funeral com a simplicidade máxima, prescindindo de uma vulgar participação da sua morte. Mas neste mesmo preâmbulo comprometia-me também a dar-lhe parte desta triste ocorrência só passados três dias, autorizando-me, então, a abrir o testamento e a fazer aceitar V. Sá. como seu único herdeiro. Visto que o ardente desejo do seu tio era V. Sá. estudar medicina, o que foi cumprido, cabe-lhe agora toda a herança, consistindo do seguinte: uma vivenda com todo o seu recheio e três mil quilómetros quadrados de parque em Hannover-Herrenhausen, uma conta-depósito, cujo total representa todo o conjunto do Complexo Químico Protosano. Com o fim de apreciar todo o montante da sua herança e analisar o lado jurídico, queira ter a

bondade de me comunicar quando poderá vir a Hannover, ao meu escritório, para se proceder à abertura do testamento, etc., etc." Wegener deixou cair a carta. - O tio Axel... -balbuciou ele.- Sim, está certo. Estudei medicina porque tal era o seu desejo... Irmi não tirava os olhos do marido. Tinha as mãos postas e os dedos estalavam, tal era a excitação. - O Complexo Protosano - murmurou ela. - Hellmuth, isso pertencia ao teu tio? Todo esse Complexo? E tu... tu herdaste-o? Nós somos os proprietários do Protosano? Estou banzada... - Também eu! Wegener passou as mãos pela cara banhada em suor. "Pronto! Acabou-se! Isto é o fim", pensou ele. "Uma herança destas não se pode meter na algibeira como se fosse um relógio. Tenho de verificar se, de facto, o último Wegener vivo sou eu, Hellmuth Wegener, e isso competirá aos serviços públicos, porque estão em jogo muitos milhões e um complexo químico conhecido no mundo inteiro. E agora surge a bronca: qual a razão por que Hellmuth Wegener nunca fez referência a este tio Axel, irmão de sua mãe e que toda a gente conhece? Como poderei sair desta embrulhada?! E que bases tenho eu para fazer crer a todos que sou o último Wegener?! A documentação da Sibéria será suficiente? E o bilhete de identidade emitido em Colónia, mediante juramento público, valerá alguma coisa?! Se 163



as actas do Registo Civil de Hannover não se queimaram todas, o meu nome ainda lá deve figurar. Onde nasci? Em casa ou numa maternidade? Quais eram os nomes de baptismo do meu pai e da minha mãe? Quando nasceram eles? Disso já não preciso... pois já sou casado, regressado da Sibéria, e, depois disto, mais ninguém me fará perguntas." - Temos agora o Complexo Protosano - disse Irmi, com voz trémula. - Querido, nós... Meu Deus, de repente, pertencem-nos milhões... - Ainda não! - Mas se tu és o único herdeiro... - Isso tem de ser esclarecido, Irmi. Uma herança dessas não se traz dentro de um saco. Há muitas voltas a dar, uma enorme quantidade de negociações com os serviços públicos, cerimónias de posse e... e ainda não sei nada de concreto sobre o assunto. - Tu estás doido, Hellmuth! - exclamou ela. Pela primeira vez, a sua voz era dura e enérgica. Ele olhou-a pasmado. - Na verdade, deves estar doido ao recusares uma coisa destas. Mas porquê? E o que se fará com o Complexo? - Talvez transformá-lo numa sociedade anónima, na qual eu seja o principal accionista, sem funções. E porquê? Irmi, esta herança vai arruinar a nossa família! Pronto! Aceito! E em seguida o que acontece? Começas a receber cartas e postais meus de Nova Iorque, do Rio de Janeiro, de Tóquio... E quando nos voltarmos a ver, dirijo-me a ti dizendo: "Minha senhora...", .tão estranhos nos vamos tornar um ao outro! Não! Não sacrificarei a minha mulher ao prazer de ser dono de um consórcio e milionário! - E Peter? - perguntou ela com simplicidade. - Não pensas em Peter? Hellmuth estremeceu, como se lhe dessem uma pancada na cabeça. - Qual Peter? - gaguejou ele. - Mas que pergunta! O nosso filho, querido... o que deitas a Peter? - Ele fica com o suficiente: tem a farmácia e a nossa fábrica de "Vitalan", Irmi... -Abraçou-a por detrás e beijou-lhe os olhos fechados. - Tenho medo de receber esta enorme herança. - Medo? - A sua voz perdeu-se no meio dos beijos dele. - E se eu te ajudar? - Como me podes ajudar? 164 - Estou sempre junto de ti, sempre contigo, dou-te massagens quando estás cansado e esgotado, enfim, o que sempre te ajudou, não é verdade...? - Essa monstruosidade que vem ter connosco, Irmi, vai-nos esmagar - respondeu Hellmuth em voz baixa.- Tudo isto é demasiado para nós. Não é um simples monte, é uma montanha inteira que nos cai em cima! - És mais fraco do que o teu tio Axel? - perguntou ela. - Se ele o conseguiu... que idade tinha ele? - Setenta e oito. - Se com setenta e oito anos ele conseguiu... um Hellmuth Wegener, com trinta, conseguirá muito mais e com maior razão! Anima-te, querido, e trata de todo o caso. Não estarás só. Terás directores e chefes de serviço, químicos e procuradores, juristas e economistas. - E eles todos receberão um chefe que se senta num enorme cadeirão, como um rei sapo se senta no trono! - Mas o rei sapo do conto era um rei verdadeiro a quem o amor salvou. O amor! - replicou Irmi, agarrando a cabeça do marido e beijando-a. - No conto havia uma mulher que amava tanto como eu te amo. Vamos a Hannover, Hellmuth! O Dr. Schwangler era da mesma opinião. Ficou completamente electrizado com as possibilidades que agora se deparavam. O Consórcio Vitalan, o Complexo Protosano, a cooperação com o signer Betrucci de Roma, constituíam o embrião de um império Wegener numa época em que a maioria dos alemães procurava ainda o prazer de um passado de boa comida e de bebida abundante, preocupando-se com a apresentação exterior de um vestuário elegante. - Vocês são mais do que felizardos! - afirmou o Dr. Schwangler a Wegener, quando estudava a mensagem de Hannover. - E ficam completamente sossegados quanto ao futuro, meu caro. Vocês têm o talento e o encanto e podem dormir descansados, pois os milhões não vos faltarão. O Complexo Protosano! Agora passamos a ter uma posição de vantagem em relação a Betrucci, para o qual já não precisamos do encanto de Seifenhaar. Era absurdo o Dr. Schwangler começar agora a falar uma outra linguagem. Talvez se modificasse quando fosse nomeado 165

senhor todo-poderoso do empório Wegener. Talvez sim, ou talvez não. Nesse caso, seria de prever que as sessões da direcção degenerassem em colóquios pornográficos. O assunto com Betrucci foi tratado na quinta-feira, como estava previsto, mas em curto espaço de tempo. O italiano estava disposto a tudo, desde que tivesse René Seifenhaar junto de si, nas suas instalações em Roma. - Se quiser, pode ficar com ele, Betrucci! -declarou o Dr. Schwangler cheio de amabilidades, dizendo, mais tarde, a Wegener: -Assim teremos um agente de confiança no lugar onde pertence! Tudo o que se passar em Roma, saberemos aqui, algumas horas mais tarde! E agora, vamos para Hannover! Schwangler telefonou ao colega Siemsmeier e numa conversa breve anunciou o objectivo da sua visita. Em consequência dela, partiram na manhã seguinte em dois automóveis. O notário, Dr. Siemsmeier, era um cavalheiro já encanecido, formado na velha escola de advogacia. À chegada, beijou a mão de Irmi, não se rindo quando o Dr. Schwangler, em clara alusão às secretárias idosas, declarou não poder compreender como o seu colega se sentia tão bem no meio de tanta fruta seca, e foi direito à questão, indo buscar o testamento do tio Axel, começando a abrir os selos. Schwangler contou sete. - É precisamente o testamento em estilo antigo! - observou ele. O testamento era breve e claro: Hellmuth Wegener era o único herdeiro. O Dr. Siemsmeier reconheceu o cartão de identidade... as datas estavam de acordo com a certidão de nascimento requerida há muito tempo. As actas do Registo Civil de Hannover não tinham sido destruídas. Wegener permanecia impávido e sereno perante os acontecimentos. "Com que simplicidade está isto tudo a decorrer", pensou ele, "tal como em muitas outras ocasiões! Ninguém faz perguntas. Bastam datas e carimbos. E como está provado que sou o último da família, não são necessários mais quaisquer esclarecimentos, pois é mais do que suficiente já terem encontrado o último Wegener." - Vejamos tudo isso - disse Irmi, manifestando grande interesse e actividade. - Já se pode preparar tudo? Por agora é a fábrica, não é? - Pois claro! Quando desejar!-respondeu o Dr. Siemsmeier 166



observando Wegener, procurando reconhecer nele, talvez, traços familiares com o falecido. Fazia-o como um negociante de cavalos das margens do Don, ao tentar vender um desses animais, aparentemente vigoroso e saudável, graças a prévia introdução de ar na barriga. Após a compra e já no dia seguinte, a rolha de estopa e pez salta, saindo a rama de cenoura e o ar em silvo, mas o ladino vendedor há muito desapareceu. - Aceita o testamento? - perguntou o Dr. Siemsmeier com a expressão de uma raposa esfomeada. - Antes, acho conveniente, e se não se importam, dar uma vista de olhos - respondeu, radiante, o Dr. Schwangler. - Já me habituei a receber donzelas em roupão! Oh! Perdão, minha senhora! - Fez uma ligeira vénia a Irmi e prosseguiu: - Pois se compararmos com a vida real, será mais fácil de nos convencermos. Demonstrava-se aqui que, apesar de disparatadas e por vezes inconvenientes, as ideias do Dr. Schwangler tinham razão de ser: o Complexo Protosano situava-se na periferia de Hannover - era um enorme conjunto de ruínas, onde foram reconstruídas duas galerias, saindo fumo de uma única chaminé. Um cheiro penetrante a medicamento, semelhante a aspirina, empestava o ar, como se este estivesse colocado sobre uma placa de ferro aquecida ao rubro. - Eis a grande obra! -exclamou Wegener furioso. -O tio Axel sempre teve muita piada! Encontravam-se numa colina de destroços, sobre a qual crescia erva e onde alguém colocara quatro bancos. - Aqui é a estância de repouso do Complexo! - informou o Dr. Siemsmeier com a alegria do desespero. - Na Primavera poderão plantar-se umas dez árvores, bétulas, por exemplo. - É realmente muito repousante - concordou o Dr. Schwangler espraiando a vista pela imensa extensão de destroços, pelas duas galerias toscas e pela chaminé. - O que se fabrica ali? Comprimidos para a decomposição do cérebro? - Na verdade, é parecido - o notário, Dr. Siemsmeier, tirou da algibeira do sobretudo uma pequena garrafa de conhaque, com o rótulo Flachmann''. Fê-la dar a volta, tendo todos bebido um gole, pois nesse dia de Março estava bastante fresco. -A produção, devido às circunstâncias actuais, limita-se só a um medicamento, o "Cerebralon", utilizado contra a arteriosclerose. 167

- Precisamente!-exclamou o Dr. Schwangler. - Também o vendemos na nossa farmácia - disse Irmi. - E será vendido em todo o lado. - O Dr. Siemsmeier tomou mais um gole de Flachmann". - Foi bem lançado, podendo ser a base para... - A quanto monta a conta-corrente? - perguntou HelImuth. - A cento e vinte mil novos marcos. - Conta particular? - Sim. As contas comerciais funcionam na base de crédito bancário. - Sonhei com um passarinho, afirmou a donzela, quando o médico a observou ao fim de três meses - gracejou o Dr. Schwangler, abrindo a sua pasta e preparando a caneta. - Muito bem, caro colega. Mas acha que toda esta porcaria vale tanto? Vejamos o valor real. - O terreno, dois milhões. Os edifícios que ainda não funcionam, apenas cem mil. As máquinas, quinhentos mil! Os destroços... - O senhor é um bom ponto! E qual será o valor de tudo isto, completamente limpo? O Dr. Schwangler tomava notas. Wegener deu o braço a Irmi. Calados, continuavam a observar o terreno cheio de ruínas, respirando o cheiro a remédios que, em fumo espesso e amarelo, brotava da chaminé. - Qual é a despesa por hora? - quis saber Schwangler. - Quarenta, assim distribuídos: quinze para administração e investigação e vinte e cinco para a produção. - Também existe investigação? - Sim, três químicos bem qualificados, admitidos pelo senhor Hellbrecht, após terem cumprido o serviço militar. E olhe que só têm demonstrado muita competência. Além disso, uma outra secção do Complexo Protosano produz gás tóxico. - Assim, a porcaria fica completa! - exclamou o Dr. Schwangler fechando a pasta e fazendo com a mão um amplo movimento, abrangendo todo o campo de destroços. -Mas, afinal, o que aconteceu aqui? Algum bombardeamento em cheio?! - Não! - respondeu o Dr. Siemsmeier, tomando mais um gole de conhaque. Já conhecia Axel Hellebrecht há muito tempo, desenvolvendo-se entre ambos estreitas relações de amizade. Mas o que acontecera devia ser dito naquela altura. - As 168 instalações foram dinamitadas pelos aliados, porque o gás tóxico era utilizado pelas SS para os mais inconfessáveis fins. - Renuncio à herança!-bradou Hellmuth Wegener.- Vamo-nos embora daqui! Já não precisamos de falar mais nisto. Acabou-se! - Alto aí! - gritou o Dr. Schwangler agarrando Wegener pela manga do sobretudo. - O produto agora fabricado aqui é contra a arteriosclerose e qualquer outro que aqui se produzir será utilizado por toda a humanidade! Axel Hellebrecht morreu, a construção foi dinamitada; nas precárias condições actuais, trabalha uma nova geração. Wegener, você também pertence a ela, a esta nova geração! Que diabo! Eu também sou contra os crimes do passado! Você não vai continuar a produzir gás, mas quem mais tarde irá aproveitar o que o seu tio fez, meterá todo o lucro à bolsa! Compreende?! Portanto, a nossa resposta é: aceitamos a herança! - Com todas as dívidas?! - Sim, com tudo isso! Para já, procederemos à venda de toda aquela porcaria ali em baixo. Depois, lançaremos os alicerces do novo Complexo Protosano, mas desta vez em Colónia! - Muito bem pensado! - concordou o Dr. Siemsmeier estendendo a mão a Wegener.- Eu tinha justamente isto reservado para o fim, caso o senhor reconsiderasse. Como vê, já tem licença de produção para medicamentos autênticos e o nome "Protosano" constitui, em si, uma verdadeira garantia. Com o fim de regularizarem a situação junto dos serviços públicos respectivos, resolveram permanecer uma semana em Hannover. Irmi encarregou uma vizinha, em quem tinha a máxima confiança, de se encarregar do pequeno Peter; uma semana sem ele - Irmi não aguentava, mas não teve outro remédio. A vizinha levava-o a passear ao parque do palácio Herrenhausen. Quando regressaram a Colónia no domingo seguinte, Hellmuth Wegener era um milionário. Deste modo e com este argumento, bastante importante, desvaneciam-se, para sempre, as possibilidades de ele jamais confessar quem era o serralheiro Peter Hasslick. O que Hellmuth Wegener, Irmi e o Dr. Shwangler realizaram nos meses e anos seguintes não se explica só pelo facto de terem recebido do destino as condições de partida favoráveis, mas 169

também pela necessidade de recuperarem os melhores anos da sua vida, perdidos durante uma guerra estúpida, aliás, como todas as guerras. Como antigamente, continuavam a trabalhar dezoito horas por dia, só dormindo seis e, mesmo estas, nem sempre em calma absoluta, porque o cérebro não se podia libertar do esforço a que decidiram lançar mão e os riscos aumentavam à medida que as obras do novo Complexo Protosano prosseguiam nos arredores de Colónia, num vasto terreno abundante em lenhite. Por toda a parte laboravam escavadoras em permanente actividade e o aspecto de desolação era evidente, apesar de uma equipa de arquitectos paisagistas trabalhar exaustivamente no plano Wegener, o que certamente daria em futuro próximo uma perspectiva mais agradável àquela enorme região -tudo isto, mais tarde, deixaria de interessar, tanto aos sindicatos como aos revolucionários de esquerda, por mais que gritassem contra a exploração, a expropriação, os golpes e contra-golpes e a ambição do poder, porque já seria tarde de mais. Nos anos de 1949, 1950 e 1951 os delegados sindicais passaram a gozar de maiores regalias. Anteriormente ainda cuspiam nas mãos ao trabalharem com picaretas e ao misturarem betão, ficando muito felizes quando as empresas lhes davam trabalho. Construir e organizar, queria tudo isto dizer. Fora com a imundície! Fora com as ruínas! Nenhum povo do mundo ficou tão de rastos como o nosso - mas mostraremos a toda a gente como se pode renascer do nada. Logo no 1.º de Maio de 1951, o novo "Protosano" fez a sua primeira apresentação. O Dr. Schwangler conseguira-o, constituindo grande ajuda a venda dos terrenos de Hannover, o que daria como resultado um grande incremento da construção das novas instalações. Paralela e simultaneamente, atrás da velha farmácia em Lindenthal iam-se erguendo, destinados à fabricação de "Vitalan", os novos edifícios todos envidraçados, com outra fachada, uma passagem ao meio e quatro grandes montras, onde Wegener expunha pinturas e esculturas de jovens artistas. Era uma revolução sem precedentes na história: a arte lado a lado com purgantes! Como se esperava, durante estes meses, Irmi gozou pouco a companhia do marido, pois, quando este chegava à noite e 170 se deitava, lia durante 10 minutos um romance policial - já não era sensível a afazeres espirituais- encostava-se de vez em quando à mulher, acariciava-lhe a anca ou o peito, adormecendo imediatamente. Conseguiam juntar-se, porque o seu amor fortalecia à medida que cada novo projecto de construção se tornava realidade, apesar de cada sessão, cada conferência, cada esforço físico ou espiritual reduzir as possibilidades de união. No entanto, uma paixão curta a princípio e, depois, cada vez mais selvática, foi-se apoderando deles, acentuada com as felizes recordações de outros tempos; as horas, até a um novo encontro, transformavam-se em longos períodos de espera e de luta quase desesperada, pois nunca chegavam a atingir a sensação do prazer absoluto - era uma completa desilusão, motivada pelo facto de estarem deitados lado a lado e nem sequer terem tempo para o prolongamento da mais pequena carícia: "Irmi, foi tudo muito belo, marav

ilhoso, amo-te como antigamente, até te amo mais, muito mais, com maior intensidade, amo-te de todo o coração mas hoje estive de pé cerca de dezanove horas e nesta breve meia hora aqui, contigo, sinto-me completamente estoirado. Foste feliz, Irmi?" Logo a seguir adormecia pesadamente, com a cabeça no peito dela, boca semicerrada, ressonando em assobio e com um estremecimento nos músculos, motivado pela tensão nervosa em que se encontrava, como se estivesse a passar por uma dura prova, torturando-se até ao limite do tolerável: era realmente terrível. Irmi ficava muito quieta ao seu lado, com os olhos abertos, fixos no tecto, passava os braços à volta do corpo de Hellmuth, alagado em suor, e não sabia se chorava ou se tinha a coragem para lhe dizer: "Estás a dar cabo da tua saúde e da minha também, Hellmuth! Mas por que razão tudo isto acontece e porquê assim tão rápido? Temos todo o tempo à nossa frente..." Porém, de manhã, desvanecia-se toda a atmosfera carregada da noite anterior. Muito antes de o despertador tocar, Hellmuth sentava-se na cama, cheio de nova energia, beijava Irmi, dizendo : - Dentro de duas semanas adquiriremos nos Estados Unidos uma nova linha para a fabricação de pílulas. Sabes como funciona? É muito simples: à frente, deitas o pó e atrás começam a aparecer as caixas para o medicamento, pronto para ser empacotado. A máquina faz isso tudo, as misturas e as proporções até ao milésimo grama. A brincadeira custa dois milhões! 171



- E temos dinheiro? - perguntou ela. - Temos um nome e crédito! - respondeu ele, rindo -É necessário arriscarmo-nos, querida. Uma época igual a esta, nunca mais volta! Temos todas as possibilidades de voltarmos a ser pioneiros, pois estende-se à nossa frente a nova terra inexplorada! Ou, como diz o Schwangler, agarra num bocado de trampa, polvilha-a com cal ligeiramente azulada, vende-a como estrume para roseiras e verás o lucro que tiras! - Credo! Que porcaria! - exclamou ela, saltando da cama e dirigindo-se ao duche situado numa pequena divisão ladrilhada, situada ao lado do quarto de dormir. Fazia-o todas as manhãs, mas naquele dia tinha vontade de chorar de felicidade. A inauguração do Complexo Protosano contou com a presença de Peter Wegener, agora com um pouco mais de três anos. Herdara os cabelos louros da mãe, a figura robusta do pai, o olhar crítico do avô Johann Lohmann e - só por enquanto o modo de exprimir-se do Dr. Schwangler, a quem chamava tio Edi. Mal o pequeno Peter pronunciou as palavras "papá" e ' 'mamã", logo o Dr. Schwangler se apressou a ensinar-lhe a dizer claramente "merda", o que para o "mestre" constituía uma grande obra de pedagogia. Em consequência, Wegener teve uma enorme discussão com Schwangler. Já se tratavam por tu e Hellmuth gritou-lhe: - Se continuas a ensinar mais porcarias à criança, vais tu e toda a nossa amizade pela porta fora! Portanto, Peter Wegener inaugurou a fábrica, pronunciando, em lenga-lenga e sem erros, uma pequena quadra da autoria de René Seifenhaar, que viera expressamente de Roma para assistir à cerimónia. Trajava um elegante fato completo, última moda, com uma orquídea na lapela, cinco anéis de brilhantes distribuídos pelas mãos, sapatos de biqueira estreita, muito aguçados, e constava que nos últimos tempos se dedicava a jogar o arre-burrinho. A vozinha clara de Peter fazia-se ouvir muito distintamente no grande átrio I. Entre os presentes, sentados em silêncio, contendo a custo a impaciência, encontravam-se as seguintes entidades: o Primeiro Burgomestre, o Presidente da Câmara Municipal, o Chefe do Distrito, o Presidente da Câmara de Indústria e Comércio, o Comandante Militar Britânico da Zona, delegados da Ordem dos Médicos, do Grémio das Farmácias, da Associação da 172 indústria Química, representantes dos Sindicatos e do Conselho Técnico. Logo a seguir à última fila de cadeiras, encontravam-se todos os trabalhadores, empregados e colaboradores, num total de 112 pessoas. Peter pronunciou fluentemente as seguintes palavras: Eis a fábrica. Abram o portão! Que haja saúde por toda a parte! O que Deus não nos concede na magnífica natureza, Seja produzido nestas retortas! - Pronto! Já houve merda! - segredou o Dr. Schwangler ao ouvido de Wegener. - Por que razão não me falaste nisto antes? O rapazinho não me mostrou o texto, que devia ser uma surpresa final. Agora vai falar o Chefe do Distrito e depois que mais disparates teremos? Os convidados de honra e as outras pessoas pareciam ser de opinião diversa. Aplausos frenéticos irromperam de todos os lados, quando Peter se dirigiu, em passinhos miúdos, para a sua cadeira; o Primeiro Burgomestre abraçou-o e beijou-o; Irmi estava muito orgulhosa, olhando radiante para o marido, que parecia de mau humor. A esposa do Chefe do Distrito aproximou-se de Wegener e elogiou: - Que criança amorosa! O Dr. Schwangler salvou a situação, indicando a cadeira do orador, e anunciou: - Tem a palavra o senhor Chefe do Distrito! - Papá, foi assim tão bom? - perguntou, quando conseguiu chegar à cadeira junto de Wegener. - Sim, filho. Disseste tudo muito bem e sem erros. - Mas foi difícil, papá! O que é uma retorta, papá? Tem alguma relação com torta de maçã? - Não. Mais tarde explico-te tudo - respondeu Wegener tentando esquivar-se, pois conhecia o tipo de perguntas difíceis do filho. - Agora vamos ouvir o senhor Presidente. - Merda! - exclamou Peter ofendido. Wegener estremeceu, enquanto o Dr. Schwangler aprovava satisfeito. - O miúdo realmente tem muito talento! -murmurou ele. - A sabedoria é-lhe inata! Foi uma grande cerimónia, com um bufete frio que, nessa 173

época 1951- apareceu em grandes fotografias nos jornais, pois era necessário dar publicidade a tão formidável acontecimento. Houve baile pela noite fora no átrio I. Os convidados de honra já se tinham retirado há muito e o pessoal colocara as comidas e bebidas junto aos balcões. O Dr. Schwangler sentou-se a uma mesa do fundo, com René Seifenhaar, o signor Betrucci, o pároco da freguesia, o regente florestal e -em reuniões destas tem de se suportar tudo e todos- o chefe da Repartição de Finanças. O jurista fartou-se de dizer piadas já com barbas. Nesta mesma ocasião, Irmi sentava-se à beira da cama e observava Hellmuth a despir o fato escuro e a desabotoar a camisa branca. Nada se tinha modificado aqui; ainda moravam no quarto estreito por cima da Farmácia Lohmann. Apenas a mobília fora substituída: havia agora um jogo de maples de cabedal, um antigo armário alemão, uma genuína carpete oriental e algumas excelentes pinturas nas paredes, que Irmi achava horríveis e cujos autores os nazis haviam denominado de "degenerados". - Dentro de alguns anos valerão uma fortuna!-dissera Wegener, quando os comprou -Klee, Macke, Dali, Chagall... Verás, olha que tenho faro para isso! Também o quarto de dormir era novo: cama moderna com colchão de espuma de borracha e, encaixado em toda a parede longitudinalmente, um armário com portas de vidro. Quando se estava na cama, podia-se ver o espelho: constituía um verdadeiro afrodisíaco, mas "tinha chegado alguns anos atrasado", disse uma vez Irmi. E não o afirmou em voz alta para Hellmuth, mas sim baixinho para consigo própria, enquanto observava a figura dele reflectida no espelho: era um homem extenuado e com sono de chumbo. Agora o espelho tinha uma função profana: Wegener contemplava-se em cuecas de frente e de lado, passando a mão por cima do corpo nu. - Irmi! - exclamou assustado. - Tenho o estômago muito saliente! - Eu sei, querido. - Desde quando? - Noto que estás mais pesado, quando te pões em cima de mim... - Irmi!-exclamou ele, tirando as cuecas e vestindo as calças do pijama. - Achas que te magoo? 174 - Querido - respondeu ela com voz meiga -gosto muito, porque já não tens os ossos tão salientes. - Isso é verdade? - perguntou beijando-a na testa. Deitou-se e bocejou.-Foi uma cerimónia bonita, Irmi! Creio que causámos boa impressão e arranjámos amigos. E o Pedrinho teve muita classe, apesar daquela poesia imbecil em todo o tamanho! Ela acenou com a cabeça, ficou sentada no canto da cama e esperou. Ainda estava nua, a sua camisa de dormir com corte em bico caíra aos seus pés. O brilho suave do candeeiro da mesa de cabeceira com um abafa-luz de seda cor de rosa projectava-se sobre os seus seios maravilhosos. - Boa noite, querida! - murmurou Wegener bocejando outra vez. - Também gostei muito de te ver com o teu vestido novo e o cabelo arranjado. Sim senhor, acompanhaste-me muito bem. Agora estou cansado... Voltou-se para o outro lado e adormeceu imediatamente. Irmi deitou-se nua ao lado do marido, pôs as mãos entre as coxas e começou a chorar baixinho. Anos de trabalho mais intenso encurtam as horas de vida. Nenhum relógio consegue parar a marcha do tempo, a Terra já não gira mais depressa à volta do Sol e, apesar disso, os dias ficam tão curtos que muitas vezes se diz: "O dia devia ter trinta e seis horas. Já não me é possível fazer seja o que for, com o pouco tempo de que disponho..." Wegener ainda compareceu duas vezes ao encontro com os seus antigos colegas de turma - uma vez em Múnster, outra em Regensburg. O próximo devia ser em Bruxelas, onde Adolf Húmmeling trabalhava como economista numa empresa multinacional. Precisamente Húmmeling fora o mais cábula do último ano de estudos e só passara no exame, para seguir a carreira de militar, como oficial. Conseguira chegar a tenente, não na frente de combate, mas sim no Estado-Maior, onde se tratava do envio de reforços e de abastecimentos. A isto dava-se o nome de logística. O professor de latim havia falecido. Por isso, o grupo aprazara a reunião para Colónia, porque Wegener pretendia utilizar os seus colegas de então nos seus projectos: o pequeno Leber, como arquitecto; Hans Lehmann, como transportador de máquinas; Eberhard von Hommer trataria de todos os problemas relacionados 175

com o aço, principalmente as construções das galerias, fornecidas ao preço de compra; Walter Zyschka, o jurista, ficaria encarregado da organização dos serviços da sua competência, visto que o Dr. Schwangler, como supervisor geral,já não conseguia ter tempo para mais nada; e Fetter Ortwin forneceria os seus préstimos nas relações com a imprensa, reportagens ilustradas em revistas e jornais, tendentes a notícias e informações preciosas quanto ao despertar da nova indústria farmacêutica alemã. Wegener continuava esperançado de que ninguém jamais descobriria quem ele era na realidade, embora muitas vezes estivesse Iminente uma ou outra forma de desmascaramento: se Hellmuth Wegener nas velhas fotografias do tempo de escola tinha um aspecto diferente do actual, cabelos claros, face oval, outra expressão de olhar, mas, principalmente um talhe diferente de nariz - aceitava-se, então, que a guerra, a Rússia, a Sibéria pudessem modificar tanto uma pessoa que o seu aspecto exterior também se alterasse. O brio antigo ainda lá existia, a habilidade entusiasta, a coragem frente ao risco, enfim, tudo o que eles já admiravam em Wegener na escola - quem poderia supor que ele não fosse o verdadeiro Hellmuth Wegener!? Assim decorria a vida em três vias diferentes: em primeiro lugar, a construção das fábricas; em segundo, as horas de descanso diário, aproveitadas no estudo intensivo de livros de medicina e de farmácia e, finalmente, à noite, a vida em família, brincando com o pequeno Peter, as suas inúmeras funções de ajuda à mulher na lida da casa e as meiguices na cama, em que, na maioria das vezes, se rendia, deixando a iniciativa a Irmi, acabando por adormecer completamente estafado. Com tudo isto se passaram três anos. Para admiração geral, engordou, pesando mais de metade do que quando regressara da Sibéria. Em Junho de 1952, Irmi teve mais uma criança; foi necessária outra cesariana, executada na mesma maternidade pelo professor Goldstein. E tudo se passou como quando Peter nasceu: Wegener sentado na mesma sala, com a mesma ansiedade da outra época e com um enorme peso na cabeça. O Dr. Schwangler apareceu com um volumoso cesto de flores, pois, conforme os cálculos, Irmi devia estar a sair, a todo o momento, da sala de operações, mas como demorava um pouco mais, foi o 176 suficiente para Wegener começar a vaguear à volta da sala como um lobo furioso. - É a última vez! -exclamou fora de si. -Juro... que é a última vez! - Tenho a impressão de que acabo por te mandar para a sala de operações II e lá ficarás isolado! - respondeu o Dr. Schwangler à sua maneira. - Hellmuth, segundo a segundo nascem crianças no mundo inteiro e também por meio de cesariana. - Mas os meus nervos já não aguentam mais! - gritou Wegener. - Quando me lembro que Irmi voltou a cortar a barriga, só porque nós em cinco minutos... Não, o preço é demasiado elevado para mim! Logo em seguida, Irmi deu entrada no quarto, ainda mais alegre e muitíssimo mais viva do que na altura do nascimento de Peter. À porta, acenou a Hellmuth, dizendo: - Querido, é uma rapariga! Imagina, uma rapariga! Já a vi. Tem cabelos negros e é um amor de rapariga! - Muitos parabéns! -trovejou o Dr. Schwangler, atrás do gigantesco cesto de flores. - Este gajinho consegue tudo de uma palhetada: uma esposa maravilhosa, uma herança formidável, um filho e, agora, também uma filha! O professor Goldstein surgiu pouco depois, menos alegre do que da primeira vez que falara com Wegener. - Vocês agora devem parar - aconselhou ele. - Duas cesarianas são mais do que suficientes para a sua mulher. Notei formações de cicatrizes da primeira operação e, embora a sua esposa seja de boa constituição física, é meu dever aconselhá-lo a deixarem-se ficar por aqui, com os dois filhos que Deus vos deparou. A sua mulher só poderá dar à luz por meio de cesariana, isto lhe garanto eu, e uma barriga não é um bocado de fazenda, onde se pode aplicar um fecho de correr. - Já tinha pensado nisso, senhor professor - respondeu Wegener. - Dois filhos já conseguem completar uma família. - Você tem uma mulher maravilhosamente corajosa, caro colega! - elogiou o professor Goldstein, que nos últimos quatro anos envelhecera bastante e estendia agora as mãos a Wegener. - Fala-se muito de si e da sua fabricação de comprimidos em série. De resto, passarei a adoptar, na experiência clínica, o novo método já muito desenvolvido de ostrogenterapia, com a extirpação total dos ovários. 177

- Isso alegra-me muito, senhor professor. Quando Wegener voltou ao quarto, o Dr. Schwangler já tinha saído -havia sempre reuniões e conferências; em casos de doença, lá estava o Dr. Emil Hampel, o velho médico da família Lohmann. Não podia viver dos Wegeners, pessoas saudáveis por natureza, isto sem contar com a bronquite que cronicamente atacava Irmi na Primavera, embora não precisasse de médico, porque qualquer farmácia vendia o remédio contra esse mal. O Dr. Hampel entrava em casa dos Wegeners mais pela afeição e amizade que o ligava ao falecido Johann Lohmann. Ali nada mudara: até se conservava ainda o velho sofá de pelúcia, no qual o médico gostava muito de se sentar, saboreando café com conhaque. Apenas Hampel se modificara: agora vestia à moderna, com camisas coloridas, deixara crescer o cabelo branco e cheirava a perfume. O Dr. Schwangler via-o, algumas vezes, na companhia de jovens senhoras, a quem, com muita benevolência e a muito custo, se poderia dar este nome. - Ele está na sexta Primavera! - dizia Schwangler. - Sexta e no masculino, de "sexo"! Nuns, as hormonas desaparecem, ficando caquéticos e cheios de gota; com o doutor Hampel dá-se o contrário e a virilidade mantém-se. O homem é um fenómeno! Por quanto tempo se manterá assim? - Tenho inveja de si, senhor Wegener - confessou o Dr. Hampel. - Nunca me casei e, por consequência, nunca tive a sorte de constituir família. Porquê? Toda a minha vida assisti a doentes, durante toda ela só vi corpos nus, mas nunca toquei em nenhum. Além disso, era um idealista, uma espécie de Santo António da medicina! Sabe qual foi o médico que ajudou a Irmi a vir ao mundo? Fui eu. Para mim, ela é como se fosse minha filha e, portanto, sinto-me muito feliz por ela ter acertado tão bem com um homem como você. É o meu quinhão de felicidade. Sempre senti isso e agora aproveito a oportunidade para lho dizer, meu amigo. Quatro semanas mais tarde - Irmi e Hellmuth pensavam em passar as suas primeiras férias numa pequena pensão em Schwarzwald - o Dr. Hampel morreu inesperadamente. Morreu segundo a sua concepção de vida, com "timbales e trombetas", conforme expressão do Dr. Schwangler. - Quando Hampel quis derribar com um sopro impetuoso, próprio de narrativa do Antigo Testamento, as muralhas de 178 Jericó - declamou o Dr. Schwangler em tom solene - teve um colapso e zás! Morreu no nove da Holzgasse, nos braços da ruiva Lilly. A polícia identificou-o, porque não trazia qualquer documentação consigo. Também não tinha quaisquer parentes. O Dr. Hampel teve um funeral rico, sendo sepultado ao lado do seu velho amigo Johann Lohmann, no cemitério Melaten. No seu testamento legava tudo a Irmi, isto é: uma clientela de pessoas bastante idosas e o ficheiro dos doentes referentes ao último trimestre. Numa noite de Junho de 1953, o Dr. Schwangler veio jantar a casa dos Wegeners e Hellmuth confidenciou-lhe: - É horrível. A minha agenda está tão cheia que tenho de suprimir dez reuniões, cortando, pelo menos, cinco minutos em cada uma das outras, para me ser possível dispor de aproximadamente cinquenta minutos para uma pequena folga! O amigo esvaziou uma garrafa de vinho tinto, em seguida acendeu um charuto e olhou à volta. Wegener percebeu o que iria acontecer e aconteceu mesmo. - Diz-me... - começou o Dr. Schwangler, quando Irmi desapareceu pela porta da cozinha, ou vindo-se em seguida o barulho de loiça a ser lavada no alguidar.-És um idiota, um avarento ou um caso patológico de modo de vida? - Talvez tudo - respondeu Wegener tranquilamente. - Sempre viveste neste velho cubículo por cima da farmácia? - Sim, como vês. - Não tens empregada doméstica e, apesar dos teus dois filhos, Irmi faz tudo sozinha? - Sim. - Ela cozinha, vai às compras, lava, enxagua, encera, bate carpetes e tapetes, limpa as janelas, enfim, faz todo o trabalho doméstico... - É esta a tarefa de uma mulher. - Que tu és um grande senhor e um burguês em potência, isso já eu sei! Mas sabes, por acaso, a quanto monta a tua conta-corrente? - Sim. Com certeza. - E isso não te estimula a mandar construir uma casa?! Uma casa decente para uma família formidável como a tua? Hellmuth Wegener inclinou-se, tirou o charuto da boca de Schwangler, puxou duas grandes fumaças, soprou o fumo contra a cara dele, metendo-lhe, em seguida, o charuto entre os lábios. 179

- Dentro de três semanas proceder-se-á ao lançamento da primeira pedra - declarou ele. - Trata-se de um belo terreno situado num maravilhoso parque na orla da Stadtwald. Fritzchen Leber fez o projecto... se for para a frente, todos me irão considerar louco? - Mas que patifaria!-exclamou o Dr. Schwangler mascando o charuto. - E ninguém tem conhecimento disso? - Ninguém! - E Irmi? - Também não, porque vai ser o meu presente de Natal para ela. Edi, ai de ti se lhe dizes alguma coisa! - Plantar uma árvore, construir uma casa, gerar um filho: eis a finalidade de um verdadeiro homem!-declarou solenemente o Dr. Schwangler, atitude pouco vulgar nele, e prosseguiu: -Rapaz, estás a lançar as bases para o futuro de uma geração! Olha para trás e observa bem o que criámos em cinco anos, desde o teu regresso da Sibéria, quando cá chegaste completamente exausto e com palha nas botas! Capítulo sétimo Quem mandasse construir uma vivenda em 1953, tal como a projectada por Fritzchen Leber para o seu colega de turma Wegener, com todas as comodidades e fantasias de arquitecto, não por ostentação, mas por falta de encomendas adequadas (como Fritzchen Leber referira), não só seria invejado por todos como também seria considerado um dos maiores vigaristas da miserável e infame época da reforma monetária. Desde 1948 até 1953, exactamente nesses cinco anos, houve quem conseguisse ganhar fortunas à custa do seu próprio trabalho - embora poucas pessoas acreditassem nisso. Mas, na verdade, Wegener herdara uma fábrica de medicamentos em Hannover, vendera bem o terreno e o montão de destroços (correndo, também, à boca pequena, que ali houvera grande dose de oportunismo), produzira e desenvolvera alguns preparados como o "Vitalan" que, conforme se dizia, devia dar novas energias, o que até era verdade, porque só ele enriquecera e quando o novo Complexo Protosano GmbH começou a funcionar os milhões entravam nos seus cofres com uma velocidade vertiginosa. Até ali - desde a inauguração das novas instalações pelo pequeno Peter, recitando a poesia imbecil de René Seifenhaar (agora subdirector de todo o grupo industrial do signor Betrucci, e isto era uma prova evidente das várias facetas de Seifenhaar e da sua propensão para o extravagante!)- até ali, dizíamos, o



Complexo Protosano só tentava restaurar a sua imagem, que fora, tempos atrás, completamente destruída aos olhos do mercado mundial. Wegener não desistia e, através de todos os meios inofensivos existentes nos formulários da empresa outrora pertencente ao tio Axel Hellebrecht, como ele a chamava, ia lançando os mais diversos produtos, tais como: sedativos, analgésicos, xaropes para a tosse, comprimidos antigripais, um antibiótico contra a nefrite, um laxativo (preparado muito bom contra a prisão de ventre e perturbações da digestão, após a venda de chocolate ter-se tornado livre e os doces já não serem tão procurados) e um tampão para os dias críticos das senhoras, criação de Kniiller do Complexo Protosano. Apesar de todos estes esforços foi difícil -principalmente no estrangeiro - afastar a má impressão causada pelo tio Axel, 181

devido aos seus fornecimentos de gás às SS. Os representantes de Wegener em diversos países do mundo ouviam, frequentemente, as palavras maliciosas: "Muito obrigado, mas não temos presos políticos. Talvez a Rússia..." - Temos de eliminar o passado! - repetia muitas vezes o Dr. Schwangler. - Raios partam isto! Herdaste uma fábrica com um nome tristemente conhecido e, embora nada tenhas a ver com essas velhas histórias, da fama não te livrarás tão cedo! - Há sempre uma coisa contra - respondeu Wegener certa manhã, sacudindo os ombros, desanimado. - Ou queres pôr algum anúncio nestes termos, em todos os jornais: "O Complexo Protosano lamenta profundamente ter sido obrigado a produzir gás tóxico no passado, mas hoje em dia fabrica drageias contra a preguiça intestinal." É isso que sugeres? - E se mudássemos o nome do Complexo? - lembrou o Dr. Schwangler. - Isso nunca!-bradou Wegener, dando um murro na secretária. Era uma negativa peremptória e, perante ela, não havia qualquer argumento. - Andei de rastos pela Rússia, no meio de toda aquela porcaria, passei na Sibéria os piores anos da minha vida, mas jamais me rendi! Mas ainda há mais, Eduard, nunca voltei as costas à adversidade e ao perigo! Achas que agora, por via de uma herança de culpa do tio Axel, vou fazê-lo? Não, meu amigo! Deve-se dar às novas gerações a prova real do nosso esforço para a construção de um mundo melhor e garanto-te que vou aproveitar e bem todas as oportunidades abertas à minha frente! - Bravo! Hipp, hipp, hurra!-aplaudiu o Dr. Schwangler. - Mas por que diabo não entras tu na política? Todo este imbecil povo ficaria atraído de tal maneira por ti como um gato pelo cheiro da valeriana! Tais eram as condições em 1953, quando Wegener começou a construção da casa perto da Stadtwald, em Colónia. A situação não era boa, mas também não era desesperada, antes pelo contrário: financeiramente não havia preocupações e sobre os assuntos comerciais Wegener falava pouco em casa, pois conseguira isolar Irmi de tudo isso: tinha os dois filhos, o governo da casa, um esposo meigo, embora com alguns sintomas de cansaço; ela vestia, de vez em quando, um fato de noite (sempre um novo que o próprio marido escolhia para ela) para as grandes recepções, tais como: convites de firmas, concertos, bailes em casas particulares (que, pouco a pouco, iam caindo de 182 novo na moda), viagens ao estrangeiro, principalmente à Suíça, à Áustria, à França e à Itália, onde se voltava outra vez a vestir com grande elegância, como resposta à triste recordação do vestuário austero usado nos tempos posteriores à guerra e que ainda há seis anos era costume trajar. Uma vez, em Roma, num dos bailes do signer Betrucci, onde se reunia a aristocracia romana, Irmi recebeu do rei Faruk do Egipto um beija-mão e uma proposta disfarçada para se encontrarem no dia seguinte, pois Irmgard Wegener era como uma jóia encantada, só usada pelo marido. Quem se atrevesse a avançar demasiadamente, impulsionado pela beleza e encanto de Irmgard, teria de aguentar a consequência imediata da sua ousadia, traduzida numa resposta pronta e desagradável, susceptível de desanimar o mais audaz admirador. A reacção pronta é uma boa qualidade, mas usá-la em excesso constitui um atentado grave contra a integridade comercial do seu sócio. É só isto: vejam só! Wegener manda construir uma casa na Stadtwald, como se fosse um príncipe! Observem só esta planta! Só um hall de entrada! O que pretende ele afinal? Trata-se de uma megalomania. Então sempre se criticou o gordo marechal Goering do III Reich e toda a sua opulência e está-se a fazer o mesmo que ele. E agora? Vá à Stadtwald e observe a moradia de Wegener. Aquilo é um autêntico "Palazzo Protzo". E donde procedeu toda aquela riqueza? Das drageias contra os desarranjos intestinais! De xaropes! De vitaminas! De comprimidos para revigorar o cérebro. Assim pode-se avaliar quanto custa a produção de tais drogas e a quanto monta a publicidade para as lançar até conquistarem o mérito devido. Oh! Gentes, é tudo uma porcaria! Mas ninguém se atrevia a dizer isto cara a cara. Enquanto a construção prosseguia, as pessoas aglomeravam-se junto à sebe, admirando as obras que não paravam. Fritzchen Leber, o arquitecto, estava

tão orgulhoso como se construísse as novas pirâmides. Duas vezes na semana vinha a Colónia, subia ao ponto mais alto da obra, incentivava os trabalhadores, ajudando-os, modificava permanentemente os pormenores (o que, como se sabe, custa muito dinheiro) e bebia com os empreiteiros encarregados daquela construção quando o levavam mais tarde ao hotel. Também o Dr. Schwangler visitava várias vezes o terreno, consultava o projecto e Wegener concordava que esta villa era demasiadamente grande para ele, não só no respeitante aos alicerces mas também quanto à disposição geral do edifício. 183

- Ainda estou a meio da minha vida - confessou Wegener -pois só tenho trinta e quatro anos. - Se continuares assim, não atingirás os quarenta e quatro! - preveniu o Dr. Schwangler com rudeza. - Quando te vais dar por satisfeito? Vê se tens mais descanso, homem! Schwangler tinha razão. Mas Wegener ainda não estava satisfeito, como tudo levava a crer. Arrendou uma casa na rua principal da Baixa de Colónia, onde recebia lições particulares de um professor reformado. Era um dos seus maiores segredos. Após dois encontros com os seus antigos colegas de turma e alguns congressos, notara, com grande espanto, que todos os conhecimentos adquiridos à sua custa de autodidacta em Medicina, Farmácia e até nas matérias de cultura geral eram insuficientes para serem discutidos em reuniões que se prolongavam, por vezes, além de uma hora. Certos tópicos e termos técnicos podiam ajudar a causar impressão, mas quando se entrava em pormenores, principalmente numa discussão mais profunda, Wegener prestava maior atenção, ouvindo calado ou falando de outros casos, para desviar mais facilmente a atenção dos presentes. O que sabe um serralheiro, por exemplo, dos sátrapas persas, de Ptolomeu, do paleolítico, do túmulo de Filipe ou da pintura de Greco? Quem iria exigir de Peter Hasslick os seus conhecimentos acerca dos manuscritos maniqueístas ou de algo referente ao Tratado de Paz de Utrecht? Quando este assunto surgiu uma

vez num pequeno círculo de médicos (porque ele não sabia o que era a Paz de Utrecht), Wegener pensou imediatamente na palavra que conhecia: Útero. - Com certeza que a paz com o útero é formidável! afirmou ele. Todos desataram a rir; esta frase transformou-se numa piada de médico e Wegener salvou-se, embora compreendesse nesse momento que não seria tão fácil safar-se sempre, como acontecera então. Em clara alusão a este facto, o Dr. Schwangler disse-lhe, quando voltavam a casa: - Com certeza, tens muito espírito, Hellmuth! Garanto-te que desconhecia essa faceta em ti. Por esta razão, admiro-te cada vez mais e principalmente quando atiras cá para fora algumas das tuas... Mas para Wegener eram sinais de aviso. Por isso passou a tomar lições com um professor de liceu reformado, a quem se 184 apresentou como Johann Kõnig e a quem pagava 1 DM (nessa época era um dinheirão por hora) para adquirir maior cultura geral com as explicações que tinham lugar três vezes na semana durante quatro horas. Wegener estava tão estafado que muitas vezes adormecia logo após se sentar à secretária do seu gabinete na fábrica. Os trabalhos de casa - também exigidos pelo professor, muito severo - eram igualmente feitos no maior segredo. Não achou melhor solução para o caso - sem ser observado do que alugar uma divisão mobilada na Gereonswall, em Colónia, também sob o pseudónimo de Kõnig. Aí permanecia algum tempo, preparando os trabalhos, copiando vocábulos e conceitos e falando em voz alta. Na Sibéria, durante o tempo de cativeiro passado no posto médico, notara a sua facilidade de assimilação de conhecimentos visuais e auditivos, ficando tudo armazenado no cérebro, como se se tratasse de um autêntico "video-tape", pronto a ser r

eproduzido em caso de necessidade. Certo dia, nas vésperas do Natal, o destino pregou-lhe uma grande partida: o Dr. Schwangler percorria Colónia, fazendo algumas compras próprias da época festiva que se aproximava há três semanas tivera uma questão com um estagiário do tribunal - e, para encurtar caminho, através da ampla cidade ainda cheia de ruínas, metera-se em direcção ao Mercado Novo, chocando com Wegener na Geronswall, precisamente quando este saía da casa, onde no 3.º andar, numa divisão das traseiras, estudava intensamente a História da Idade Média. - Mas o que é isto?!-exclamou o Dr. Schwangler, desconcertado. Levantou a vista para a casa e sorriu ironicamente. Tu aqui?! - E tu o que fazes na cidade? - quis saber Wegener. - Faço compras para o Pai Natal! - respondeu Schwangler, olhando para Wegener e rindo maliciosamente. - Mas tu pareces cansado! A casa deve ter algo de interessante para ti! - Edi, se falares disto... - Wegener respirava apressado.- Pela nossa amizade... - Sou um monstro, não sou?! E tu... tu, o esposo ideal... E ela é loura, morena ou ruiva? - Morena - respondeu Wegener com voz sumida, confirmando, assim, o pensamento de Schwangler. Era o melhor que tinha a fazer, porque, para isso, poderia contar com a compreensão imediata do amigo. - É nova? .,. . 185

- Sim, tem cerca de vinte anos... - Não abuses, rapaz! -Schwangler riu e deu uma palmada no ombro de Wegener. - Há uma semana que eu suspeitava de qualquer coisa, sem saber verdadeiramente do que se tratava! Caíste numa fraqueza da carne! Refreia-te um pouco! Vou aconselhar-te um truque bastante simples, para não teres problemas e te safares com elegância, caso haja necessidade, bem entendido. Ora, presta atenção... - Deixa isso, Edi! -interrompeu-o Wegener, cansado.- Basta não dizeres nada! E agora continua nas compras para o Pai Natal. -E tu? - Vou para a fábrica. Vais hoje à noite a nossa casa? - Como alibi? Com muito prazer! Estivemos hoje todo o dia na firma Múllerjan e Companhia... Está bem assim? - E agora desaparece!-exclamou Wegener voltando-se e afastando-se vagarosamente em direcção à catedral. O Dr. Schwangler observou-o, olhou para cima, para a fachada da casa, sorriu ironicamente, imaginando como tais coisas eram possíveis num homem tão exemplar, e continuou o seu caminho, reflectindo: "Quem havia de dizer! O casto Hellmuth também caiu! A moreninha fez-lhe olhinhos bonitos e pronto! Ainda não estou em mim! E qual será a reacção de Irmi, se ela alguma vez vier a saber?! Schwangler parou, olhando para as ruínas de um edifício de escritórios, ainda não reconstruído. Nos abrigos abertos crescia erva brava. "Irmi é o tipo de ciumenta silenciosa", pensou. "Sofreria calada. Mas também nos podemos enganar. Talvez parta tudo dela, o que, até agora, não me parece tenha acontecido. E o seu ímpeto feminino? Depois, Hellmuth tem ainda algo para viver. Mas tenho a certeza de que Irmi nunca se vingaria com a mesma arma, isto é, arranjar um amante, sair com um amigo desconhecido, como vulgarmente se diz. Ela é, na verdade, quase a imagem santa da lealdade e, porque assim o é, pressupõe o mesmo em Hellmuth. Um homem com uma mulher destas tem um anjo em casa. Mas nós não vivemos no céu e damos cada pontapé na vida! Mas, infelizmente, é o que mais acontece por aí! Isto é mesmo um inferno! E o mais infernal no inferno, são as mulheres bonitas, severas, junto das quais nada se pode fazer! Quer dizer: quer queiramos qu

er não, temos forçosamente de 186 nos queimar nesse fogo! Realmente, é de dar com a cabeça na parede! Mas qual é a mulher que compreende isto? Irmi, esse anjo puro, com certeza que não." Continuou a andar, preocupado com este problema, comprometendo-se a si próprio falar à consciência de Hellmuth Wegener, pelo menos para que ele um dia não tivesse de ser transportado numa ambulância da casa de Gereonswall. Ao princípio da noite de 24 de Dezembro, denominada Noite Santa, Wegener parou o carro - agora um Opel Kapitán diante da farmácia e subiu, como sempre, a dois e dois, a escada para a sala. Irmi ornamentara a árvore de Natal, com poucas cores, como de costume, apenas com bolas vermelhas de madeira, fios brilhantes e um anjo dourado em êxtase, no cimo da árvore. Era um pinheiro grande, do chão ao tecto, ocupando metade da sala. O novo ajudante da farmácia trouxera a árvore da floresta, da Kõnigsforst, naturalmente à noite, com receio de ser apanhado. - Não diga nada ao meu marido!-aconselhou-o Irmi.- Diga-lhe que a comprou no Mercado do Feno. O meu marido era capaz de a deitar pela janela fora e a você também! - As árvores ornamentadas tornam o Natal muito bonito respondeu, contente, o ajudante. - Com certeza que isto não é nada normal, é até muito feio, mas desde criança que não sei proceder de outro modo. Por baixo da árvore encontrava-se o presépio que Wegener comprara no ano anterior. O local da manjedoura com telhado de palha, as figuras de gesso, pintadas, as quais, devido ao efeito da luz, ainda brilhavam mais. Todas estas coisas constituíam para Peter um acontecimento nunca visto. Agora existia também Vanessa Nina, e se ela, com o seu meio ano, ainda não entendia bem o que via, despertavam-lhe muito interesse as luzes vermelhas, as bolas, o brilho dos fios, o colorido dos anjos e o carrocel com as figuras de latão que giravam pelo efeito do calor gerado por duas velas acesas. Wegener sentiu-se feliz naquele momento, manifestando-se com exuberância quase infantil: Peter, o "mais velho", diante dos seus presentes, e a pequena Vanessa Nina ao colo do pai, fixavam os grandes olhos castanhos nas velas, cujo brilho suave e bruxuleante se reflectia neles. "Não conheço momento mais belo na vida do que este", pensou Wegener, ao sentir a alegria própria desse dia. "Neste 187

preciso momento, eu próprio, que nunca falei com Deus, tinha vontade de lhe agradecer." - Toca a vestir! -gritou já no pequeno vestíbulo, deixando a porta da escada aberta. - Irmi! Peter! Vamos dar um passeio. Irmi, embrulha o Pardalinho, porque lá fora está um frio tremendo! O Pardalinho era Vanessa Nina. Irmi veio da cozinha, trazendo vestido um avental colorido e exalava um cheiro a anis. Preparava, certamente, uma gulodice qualquer. Peter espreitou pela porta do quarto das crianças, com a sua cabecita cheia de caracóis louros. Trazia um fato de gala de que não gostava: calças e casaco de veludo azul-escuro e uma camisa branca com uma gravata de veludo azul. Desde o Natal anterior que sabia: agora já não se podia sujar. Deveria manter-se sentado, esperar, folhear livros estampados e reprimir o medo, que mais tarde, à noite, sentiria diante das velas da árvore, quando aparecesse o Pai Natal, para saber das suas acções no decorrer do ano. O ajudante da farmácia deu a entender que Peter devia descobrir só dois anos mais tarde quem era realmente o Pai Natal. Mas então o rapaz tomaria parte na brincadeira, em primeiro lugar, para não estragar a alegria aos pais de Peter e de Vanessa Nina - mais tarde, porque brincava com



tudo e, por fim, já como adulto, visto se ter tornado tradição, na casa Wegener, receber na Noite Santa o Pai Natal. - E agora? - perguntou Peter.-Aonde vamos? - É uma surpresa, meu filho - respondeu Wegener. - Tenho os bolinhos no forno, Hellmuth... - Desliga-o ou faz qualquer coisa do género! O que tenho para vos mostrar não depende de uns bolinhos! Trata-se de algo maior! Vistam-se todos! É uma surpresa, já disse! Wegener riu e meteu as mãos no seu grosso sobretudo de lã. - Para o Natal? - perguntou Peter, que gostava de fazer tudo depressa. -Sim! - Vamos no carro? - perguntou Irmi, descrente. - O que terias imaginado agora, querido?! - Nada de perguntas! Vão-se vestir! Um quarto de hora mais tarde estavam sentados no automóvel e vinte minutos depois Wegener descia vagarosamente a estrada na orla da Stadtwald, nos arredores de Colónia. Encontravam-se ali completamente sós; uma leve camada de neve cobria as 188 árvores e arbustos, estava frio a valer e ele tinha de conduzir devagar, para evitar derrapagens no piso escorregadio. Diante da construção, deixou o carro ir abrandando gradualmente até o ter imobilizado por completo. Irmi e Peter viram através das vidraças as paredes da casa... Uma nova construção, em esqueleto, sem telhado, rodeada de montões de pedra e areia, máquinas misturadoras, vigas de madeira, enfim, o verdadeiro caos de um terreno com obras. Wegener esperou, tamborilando com os dedos sobre o volante. "O que dirão eles agora?", pensou. "O que perguntarão? Compreenderão isto logo?" Mas Irmi e Peter mantinham-se calados. Vanessa Nina cerrou as mãozinhas e bateu com os punhos pequeninos contra a janela do carro. - Então? -quis saber Wegener, porque ninguém fazia qualquer pergunta. - Querem descer? Irmi olhou pasmada para ele. - Queres passear aqui? Agora?! - Sim, quero. Ele abriu a porta e saiu. Peter e Irmi olharam-no quando ele soltou de repente um grito sem motivo, mas a mulher e o filho permaneceram sentados no carro. - Um passeio na noite de Natal! Se é esta a tua surpresa observou Irmi, em tom de aborrecimento - os meus bolinhos estavam a ficar melhores. Wegener não respondeu. Deu a volta ao carro, abriu a outra porta e fez uma vénia como um motorista de automóvel de grande luxo. - Minha senhora - disse ele - e o jovem senhor e a menina, façam o obséquio! - Estás doido! Saíram e encontraram-se em frente da grande construção, mas sentiam muito frio. - Muito bem! E agora?-perguntou Irmi. - Viemos aqui para isto e depois voltamos para casa? Wegener nunca a vira tão agressiva e furiosa, porque se notava perfeitamente na cara dela, mas Irmi dominou-se como sempre. Só os seus olhos azuis se queixavam. - Sair assim na noite de Natal! O que se passa contigo, Hellmuth? Wegener deu o braço a Irmi, que levava ao colo a pequena 189

Vanessa Nina, e puxou-a mais para perto da nova obra. Peter seguiu-os a soprar as mãos, porque se esquecera, como sempre, das luvas. - O que vês agora? - perguntou Wegener ao chegarem mais junto da grande cova para o lançamento da construção. Irmi aconchegou mais Vanessa Nina. De repente, como se fosse iluminada por um relâmpago no coração, ela compreendeu. Fixou melhor a vista no terreno. Ao fundo, velhas e grandes árvores formavam uma espécie de parque. Em frente - antevia-se já uma entrada com canteiros e arbustos- a casa. Seria uma casa enorme! Mas o esqueleto da obra não tinha telhado, embora as paredes de só uma divisão já estivessem levantadas e com um bocadinho de fantasia e de boa vontade já se poderia fazer alguma ideia de como ficaria a casa quando estivesse pronta. - Tu... tu estás doido! Estás, na verdade, louco, Hellmuth - balbuciou Irmi. -Vá, diz-nos depressa, sim, depressa, que nos queres pregar uma partida! - Uma partida!? -exclamou Wegener batendo com os pés no chão. - Vocês devem dar pulos de alegria! Esta será a vossa casa! Toda a vossa casa! A nossa casa! E chamar-lhe-ei Villa Fedelta. Fedelta quer dizer lealdade. Este é o meu presente de Natal para vocês. - És doido! És completamente doido!-murmurou Irmi, encostando-se a Wegener, como se precisasse de apoio para ainda se manter de pé. O seu olhar vagueava por toda a construção. O que os outros, os estranhos, teriam sentido ao ver tudo aquilo, passava agora pela sua cabeça: "Quem consegue mandar construir uma casa daquelas no ano de 1953, deve ser tão rico como o lendário rei Creso! Mas Hellmuth Wegener não era nenhum Creso." - Hellmuth - balbuciou ela. A sua voz tremia. Hellmuth... - Não estás contente? - perguntou ele, orgulhoso.- Fritzchen Leber deu a esta obra toda a sua imaginação. - Isso vejo eu! E quem a pagará? - O Complexo Protosano começa a lançar-se no mercado europeu - explicou Wegener um pouco frustrado, porque a sua surpresa não tivera qualquer efeito em Irmi. - A fábrica Vitalan já dá bastante lucro, a farmácia progride muito bem; dentro de dois anos organizarei uma espécie de cadeia de farmácias, assim como hoje já se passa com a cadeia de supermercados. 190 - Mas isto... - respondeu ela, indicando o local das obras isto não é uma casa, é um palácio. - Se compararmos com a nossa casa actual, por cima da farmácia, realmente chega-se a essa conclusão. - Quantas divisões terá? - Quinze. - E para quê? - Serão três quartos de dormir, um escritório para mim, um grande salão com um fogão enorme, uma sala de jantar, dois quartos para os empregados da casa, um jardim de inverno, uma biblioteca, uma cozinha, um salão de senhoras... - Tenho medo, Hellmuth - murmurou ela, chegando-se para junto do marido. - Tenho mesmo medo. Esta casa é como uma montanha que temos de dominar. Compreendo realmente a tua alegria, é um maravilhoso presente de Natal, é tudo indescritivelmente belo: o terreno, a situação, o parque atrás... mas, apesar de tudo, tenho medo. Fico muito inquieta com tanta felicidade, Hellmuth. Isto não vai dar bom resultado. - Tudo correrá bem, Irmi - declarou ele em voz alta e firme. - Somos ainda jovens e tenho em mim muita força e a felicidade só tu ma consegues dar, Irmi. Só o fim do mundo me faria deter agora. - Ele pôs o braço à volta das ancas da mulher, puxou-a e beijou-lhe os lábios gelados. Vanessa Nina, que continuava ao colo, deu um murro na testa do pai. -Faço tudo por ti - prosseguiu, mas agora em voz baixa e com um estremecimento na voz. - Tudo. Sem ti seria um zero absoluto! - Isso não é verdade - respondeu Irmi. Os seus grandes olhos azuis sorriam-lhe. - És o mais maravilhoso dos homens deste mundo... - Diz que estás contente!-murmurou ele, mal podendo falar. "Se tu soubesses quem eu realmente sou'', pensou ele. "Ó céus! Se tu soubesses!'' E continuou em voz alta: - Diz-me que estás contente com a casa! - Estou contente, querido. É um conto de fadas. Ela fechou os olhos e apertou a si Vanessa Nina. Peter estava junto das obras e compreendera há muito que aquilo seria também uma casa para ele, mas lutava com outras preocupações. - Será também inaugurada? - perguntou. - Com certeza! - respondeu Wegener. - E terei de recitar uma poesia parva, como da outra vez? 191

- Não! Não! De modo algum! - respondeu Wegener, rindo livre e estrondosamente: era quase um grito. O meu filho! O meu filho faz-me entrar na realidade. - Isso faremos entre nós, sozinhos e sossegados! - E agora vamos para casa - pediu Irmi, querendo sair dali. - O Pardalinho tem frio e eu também! E dentro de três horas será a distribuição dos presentes... Ela voltou para o carro, sentou-se e fechou a porta. Wegener deu mais uma vista de olhos pelo esqueleto da casa. Peter atirou uma pedra contra a parede da cave em construção. ' 'No Natal do próximo ano já moraremos aqui", pensou ele, "e colocaremos a árvore no átrio que se eleva até ao nível da altura da casa. Será uma árvore muito grande. Hellmuth Wegener, tu o autêntico Hellmuth - lá no Reino dos Céus, estás contente com o teu camarada Peter Hasslick?! Tenho de te declarar uma coisa: já não me pesa na consciência o facto de passar a ser tu... A construção da casa durou dois anos. Fritzchen Leber ultrapassou toda a sua fantasia... Quando a Villa Fedelta ficou pronta, como os planos de construção reproduziam a casa em todos os pormenores e como o arquitecto Leber se vangloriava de ser um dos mais frutuosos criadores de construções do género, de que o colega de turma Fitter Ortwin dera a maior publicidade na imprensa, Fritzchen Leber cometeu uma loucura, deixando-se apaixonar por uma loura que na verdade era exuberante mas parva. O Dr. Schwangler teve por isso - como sempre, em casos semelhantes- muita compreensão. - Uma filósofa poderia assassinar-me na cama - disse ele mas entre um disparate daqueles e pimenta verde no traseiro, eu preferia uma garrafa de uísque! Quando Hellmuth Wegener se mudou, mandando renovar a residência situada por cima da farmácia, e o novo arrendatário se instalou, provou-se que Wegener estava romanticamente instalado. Embora tivessem decorado a Villa com um superluxo de ideias e de dinheiro, isto é, com móveis novos, carpetes e candelabros que Fritzchen Leber encomendara em Amsterdam, Roma e Londres, peças únicas antigas e muito bonitas, Wegener levou consigo as mobílias velhas para a nova casa. 192 O que anteriormente coubera em quatro quartos, ele agora arrumava tudo num único recinto grande. Colocou a mobília antiga com a mesma disposição em que se encontrava na velha casa sobre a farmácia, forrou as paredes de separação com contraplacado - e lá estavam, de novo, a sala-de-estar, o quarto das crianças, o quarto de dormir e o pequeno gabinete de trabalho. Apenas a cozinha não fora transferida deste modo, devido à ligação da água. - É completamente doido! - exclamou Fritzchen Leber, encarando isto como uma profanação da "obra da sua vida". Por que razão pratica ele tal monstruosidade, ao trazer para aqui todos aqueles trastes como se fossem altares sagrados?! - Porque ele assim sente-se feliz - respondeu Irmi, esboçando leve sorriso. - Mas parece-me que não percebes isso. - De acordo. Nesse caso, vamos pensar nesta base: todos os homens têm o seu brinquedo; este colecciona selos, aquele dedica-se aos comboios eléctricos... - Acho essa a melhor maneira de encarar o caso respondeu Irmi, fechando o grande quarto com os velhos móveis lá dentro. Isto queria dizer que Wegener ainda se encontrava na fábrica. Na realidade, recebia no seu gabinete um ensaiador de coro e estudava todos os pormenores de cirurgia abdominal, mediante bom pagamento. Depois de grandes trocas de impressões com o assistente científico, que lhe ensinava tudo, conduzia a conversa para o assunto pretendido, porque a cirurgia abdominal representa sempre um vasto assunto a debater. O mesmo se passa em relação às operações ao tórax, o que, para Wegener, parecia ser muito difícil. Após um ano de aprendizagem intensiva considerava-se bem preparado, pelo menos para definir num congresso de médicos em Bruxelas que uma nova forma de gastrectomia era uma operação de corte de qualquer parte do estômago, para não falar já em anastomose, ou seja, a designação que, em anatomia, se dá ao ponto em que se abocam dois vasos ou canais... Estava satisfeito com as suas próprias experiências e muito orgulhoso por se sentar ao lado de sumidades famosas e poder entremear algumas observações acertadas, que davam a perceber logo profundos conhecimentos da matéria. Entretanto, Peter fora para a escola e tinha muitos amigos, cada um deles insistindo em ir brincar para a moradia luxuosa da Stadtwald. 193

As fábricas Wegener trabalhavam em regime de turnos, desenvolvendo a criação de novos preparados, entre eles um antibiótico que conseguia atacar micróbios resistentes. Na Villa Fedelta havia sempre cocktails e pequenas recepções a clientes estrangeiros, aparecendo também alguns políticos, para tentarem aliciar Wegener a ingressar nos seus respectivos partidos, pois, como patrão, era uma força a favor deles. Mas Wegener respondia friamente: - Deve-se nascer para político. Para mim tal ocupação não serve, porque não sei falar de modo diferente do que penso... Com atitudes destas, era evidente que Hellmuth Wegener perdia as simpatias em círculos políticos de todas as tendências. Mas isso preocupava-o menos do que o Dr. Schwangler, que, se quisesse acidentalmente arranjar problemas, começaria a espalhar que Wegener, devido aos seus preconceitos, pertencia ao mesmo grupo dos génios e dos indivíduos esquisitos. Em Fevereiro de 1956 Vanessa Nina adoeceu, pela primeira vez. Até aqui não tivera qualquer das doenças que costumam atacar as outras crianças da mesma idade, tais como sarampo, varicela, papeira, nem sequer uma constipação. Mas agora estava mesmo doente, tinha febre alta -38,7o- todo o corpo ardia como se tivesse sido cozido no forno e, quando falava, tossia convulsivamente. Irmi observou-lhe a garganta e declarou com ar entendido: - Ela está atacada de anginas. Vê, querido! Wegener notou uma capa amarela e espessa sobre as amígdalas inchadas e vermelhas e foi tomar providências, telefonando para o professor Goldstein, pedindo-lhe uma visita domiciliária urgente. - Mas, caro colega - respondeu Goldstein calmamente nada sei de amígdalas, porque sou ginecologista. Nos pisos superiores estão outros colegas dessa especialidade e bastante competentes. E ainda há mais, porque você tem tudo em casa! Você próprio fabrica o melhor antibiótico existente no mercado. - Sim, é verdade... - Wegener mordeu o lábio inferior. Esta maldita expressão caro colega!'' - Mas, por favor, indique-me um colega. Compreende... - Com certeza! - O professor Goldstein reflectiu. Os médicos tratam sempre de má vontade os próprios membros da sua família, principalmente a mulher e os filhos; um cirurgião só operaria em caso de absoluta necessidade parentes tão chegados, 194 e Wegener, isso sabia Goldstein, era um cirurgião sem o curso concluído. - Recomendo-lhe o colega doutor Bernharts, Ewald Bernharts, com t no fim. Ele mora perto de si, no Stadtwaldgúrtel, creio eu... O Dr. Bernharts veio imediatamente, examinou a garganta de Vanessa Nina e aconselhou: - Vai ser necessário sair daqui. - De modo algum! O Dr. Bernharts meneou a cabeça. - Tem toda a razão, caro colega. Com esta supuração, está completamente excluído o caso de amigdalite. Em primeiro lugar, vamos tratar das amígdalas, até ficarem limpas, mas pelos métodos antigos; depois, teremos de cortá-las! Gracejou, acariciando as faces quentes de Nina e sacudiu os ombros. - Você não precisa de receita, não é verdade? -e gracejando, continuou: - Ou terei de lhe receitar o que você próprio fabrica, para apresentar na Caixa de Previdência? Riu e saiu do quarto das danças que, segundo o projecto de Fritzchen Leber, era também em estilo veneziano, assim como fora mobilado o quarto de dormir, o que fazia com que os visitantes tivessem pena da pequena Vanessa Nina. O Dr. Bernharts ainda ficou três horas em casa de Wegener, bebeu quatro conhaques, cumprimentou Irmi -ninguém a excedia em cuidados, em relação aos seus dois filhos- e em seguida contou a sua vida durante a guerra (o Dr. Bernharts fora médico do Estado Maior, no 2.º Exército, e assistira a toda a retirada) e quando se foi embora, já passava da meia-noite. - Podia habituar-me a ele - disse Irmi, mais tarde, na cama. A cama tinha um enorme sobrecéu com ponta francesa, era o que se chamava uma cama francesa, antigamente uma tentação. Ô espelho da parede em frente incomodava muito Irmi, mas não o mandou tirar, porque Fritzchen Leber estava muito orgulhoso com este quarto de dormir. - É uma cópia do palácio de Catarina, a Grande, da Rússia dizia ele. E o Dr. Schwangler, obsceno, como sempre, fez logo o seguinte comentário: - Não acredito que, por causa disso, Irmi passe a encontrar-se na cama com qualquer jovem bem constituído! 195

) - O Dr. Bernharts é um sujeito simpático, não achas? - perguntou Wegener, bocejando. Irmi realmente verificara isso. - Devíamos passar a considerá-lo o médico da nossa família. - Temos-te a ti, amor - respondeu Irmi. - Está bem, mas algumas vezes, como agora, com o Pardalinho... Sempre é melhor, quando um colega ajuda. Além disso, nunca terminei os estudos, não te esqueças. - E tenho a certeza de que foi um erro. - Ela chegou-se para ele, o que era fácil numa cama francesa. - Talvez tenha sido o teu único erro, amor. Wegener pôs o braço à volta do pescoço de Irmi e cobriu com a mão o seio direito dela. Assim adormeciam muitas vezes, um sentindo e segurando o outro, na feliz certeza: "Pertences só a mim!" - Caso tivesse concluído o curso, eu seria agora um cirurgião numa clínica e não tínhamos fábricas de medicamentos. - O que preferias, querido? - Justamente aquilo que sou agora! Já há bastantes cirurgiões, mas só há um Hellmuth Wegener, do mesmo modo que há só uma mulher como tu. Nessa noite, Irmi não objectou pelo facto de a parede diante da cama se compor de um único espelho. O Dr. Bernharts vinha agora muito mais vezes do que era necessário. As amígdalas de Vanessa Nina desincharam, a cobertura de pus desapareceu, a febre diminuiu no dia seguinte, mas o Dr. Bernharts voltava sempre a aparecer, mesmo já quando o Pardalinho brincava há muito no jardim. Louvou o antibiótico de Wegener, defendeu a extracção das amígdalas, demorando-se de preferência no salão das senhoras, perto de Irmi. Bebia chá de que não gostava, comia bolinhos, embora gostasse muito dos pães com fiambre, e narrava, encantado e espirituoso, as suas aventuras como médico e as suas viagens. - O gajo é solteiro - observou o Dr. Schwangler, quando reparou nestas visitas frequentes -e Irmi é uma mulher encantadora e bastante jovem! Onde ela aparece, os homens ficam com os olhos brilhantes! Ou dar-se-á o caso de tu pensares que o Bernharts reage de modo diferente?! Por que razão ele tem, como nenhum outro, a primeira posição junto de Irmi? Com que 196 então, médico da família! Nem calculas como ele tremerá quando, alguma vez, tiver de auscultar os pulmões de Irmi ou de lhe "colocar adesivos no tórax", como dizem os médicos estupidamente. E depois de auscultar o coração, junto ao qual terá de lhe levantar o seio esquerdo... - Devias ser castrado!-exclamou Wegener, furioso.- Não quero prognósticos "à Ia Schwangler", quero o teu conselho! - O Bernharts tem alguma hipótese? - Ele é um médico muito bom. -E daí? - E ainda me fazes essa pergunta imbecil? Tu conhece-lo. É um bom companheiro. Pode-se falar com ele. - Depois brinca à cabra-cega - acrescentou o Dr. Schwangler ironicamente. - Tens absoluta confiança em Irmi? - Sim, absoluta. Por ela, até deixaria que me cortassem a cabeça! - Que mais queres? Deixa ao doutor Bernharts a alegria da presença de Irmi e depois não te queixes. O certo é que Irmi nunca se quererá aproveitar disso! Wegener interrompeu a conversa, como todas as vezes, quando se tratava de assuntos semelhantes. Os conselhos do Dr. Schwangler só eram úteis na organização de sessões particulares pornográficas. Mas Wegener ficou atento. As amígdalas já tinham sido há muito extraídas a Vanessa Nina, Peter tivera sarampo, mas não contagiara a irmã, o que o Dr. Bernharts achou estranho. Formara-se uma amizade que ainda não tinha renunciado ao formal' 'você''; para um tratamento por "tu", Wegener não tivera oportunidade nem motivo. Irmi tornava-se cada vez mais bonita; era uma beleza que nunca murchava, pelo menos, assim parecia: constituía um louvor constante à maravilhosa obra da Criação. O Dr. Schwangler disse certo dia: - Outrora, na Idade Média, as mulheres fechavam-se, escondiam-se e até se recorria à morte, se algum indivíduo indesejável começasse a fazer gaifonas. Meu caro Hellmuth, eu ficaria doido de ciúme se Irmi fosse ao cabeleireiro e demorasse mais uma hora além do normal. Onde teria estado ela durante essa hora? O que teria feito? O que te justificaria ela? Teria realmente encontrado uma amiga e estaria com ela no café? Ou no salão de modas? Ou teria estado em casa de qualquer gajinho, 197

ou com ele num quarto de hotel, mal te dando tempo de pensares, porque ela surge aqui, desaparece daquela cama, para ti estranha, onde supões que ela esteja? Rapaz, não te tortures! Haveria realmente perigo, mas não é o teu caso, porque foste abençoado e casaste com um anjo! Wegener desta vez não levou a mal, nem interrompeu o Dr. Schwangler para chamá-lo porco. Pelo contrário, ficou a meditar nestas palavras e mais lhes deu razão quando o Dr. Bernharts, na sua visita seguinte, lhe sugeriu: - Meu caro senhor Wegener: como médico da família e confidente, acho meu dever aconselhá-lo a fazer qualquer coisa por si próprio! Você está a ficar bastante gordo e tem predisposição para engordar ainda mais. Dantes, durante a guerra e no tempo da carência, não precisávamos de nos preocupar com tais problemas. Nessa época, até éramos muito mais saudáveis do que hoje. Os vinte gramas de manteiga e as duas fatias de broa de milho, por dia, nunca levaram ninguém a morrer com gordura no fígado. Quanto pesa você na realidade? - A volta de noventa e três quilos e meio. - E tem 1,76m de altura. É muito. É demais, meu caro! Verifique por si próprio, nas suas calças. Tudo isto está relacionado. Você já tem uma barriga considerável! Temos de começar a pensar a sério no seu caso! Quando o Dr. Bernharts se foi embora, Wegener disse: - Ele até tem razão, Irmi. Mas o que me preocupa é a forma como ele me diz. É verdade, realmente estou a engordar! No entanto, até agora, nunca me disseste que te incomodava. - Nunca te diria tal coisa, querido - respondeu ela, limpando os copos. Era bastante tarde e a criada já se tinha ido deitar. - Então, quando é que de facto te incomodava? - Depois... - Nesse caso, não estou assim tão gordo? - Estás no limite, querido... - Isso é que é falar! -exclamou Wegener, tirando a gravata. - Quantos são hoje? Seis de Abril? Na Suíça e nos Alpes italianos existe ainda bastante neve. Amanhã, logo de manhã, vou mandar a minha secretária reservar umas férias na neve. E depois praticaremos esqui para ver se as gorduras supérfluas desaparecem. - Combinado!-concordou Irmi. Pousou os copos, deu volta à mesa e beijou-o. - Obrigado, querido! 198 - Obrigado, porquê? - Há quanto tempo estamos casados? - ó diabo! - bradou ele, fixando-a entusiasmado.- Justamente há catorze anos! Ou seja, dez anos certos, se quisermos ser exactos... E são as nossas primeiras férias desde há dez anos. Ela beijou-o outra vez, dizendo: - Obrigada por isso, meu amor! O local chamava-se San Geronimo e situava-se nos Dolomitas italianos. Da janela do quarto do hotel, onde se encontravam hóspedes, podia-se admirar o Maciço Marmolata que a luz do sol poente doirava e depois ia passando gradualmente para um tom purpúreo antes que a noite envolvesse tudo em profunda escuridão. Mas toda esta beleza romântica em nada confortava Hellmuth Wegener, não o conseguia acalmar, antes o enfurecia ainda mais. Sentara-se à janela, com a perna esquerda estendida, odiando tudo o que existia à sua volta. A perna estava em gesso até ao quadril. Há três dias, e de uma forma estúpida, encontrava-se ali imobilizado, porque, ao deslizar por uma colinazinha pela qual até as crianças mais pequenas desciam facilmente, caíra, por não saber esquiar. Ficou deitado na neve, com a perna partida. Irmi gritou, pedindo ajuda. Dois professores de esqui acorreram em auxílio e conseguiram trazê-lo, comentando com sorrisos irónicos: - Perna partida! Muito tempo em gesso! É pena, uma senhora bonita, tanto tempo sozinha... Era a época em que um professor de esqui se esforçava menos na pista do que na cama. A fome das turistas nórdicas por companheiros morenos era enorme. O Dr. Schwangler encontrou, como sempre, as palavras exactas, pois Wegener pediu-lhe que viesse para San Geronimo como "bombeiro". - Os russos acreditam que o diabo tem nove rabos - disse ele alegremente. - É com situações destas que os professores de esqui sonham... O médico italiano que colocara o gesso não falava alemão, mas mostrou a Wegener a radiografia e deu-lhe a entender que teria de ficar, no gesso, de seis a oito semanas. 199

- São umas férias estúpidas! - bradou Wegener. - Mas não percas a tua boa disposição, por minha causa, Irmi! Precisas mais de férias do que eu. Vou fazer dieta rigorosa e, deste modo, perderei bastante peso. Quem nada come, nada engorda. Irmi aprendeu muito depressa a andar de esqui e o pequeno Peter ainda mais. Muitas vezes Irmi deslizava pela encosta abaixo, sempre acompanhada pelo sorridente e moreno professor de esqui. Bebiam aguardente de fruta em cabanas isoladas, comiam pão de trigo e queijo, provavam o vinho tinto aromático e gozavam a valer o chamado ' après-ski, o que, para os maridos metidos no gesso, era um tormento, porque não podiam estar presentes. Enquanto Wegener permanecia sentado no quarto com a sua complicada fractura e lia revistas, romances policiais e histórias de guerras, mesmo por baixo da janela ribombavam os instrumentos de percussão, um tenor cantava canções de embalar e ouviam-se gargalhadas e gritos, quando alguém informou qualquer coisa em três línguas. Daí a pouco, Peter anunciava ele devia ir para a cama às nove horas -: - Papá, a mamã sabe dançar bem, ontem foi eleita "Miss Après-Ski". O que é isso? Nessa altura, Wegener, apesar da sua perna em gesso, sentiu-se restabelecido. Nada disse a Irmi acerca dessa eleição e ainda mais admirado ficou pelo facto de ela não lhe ter falado no assunto, o que o chocou bastante. "Ela tem segredos para mim", pensou, "é capaz de me ocultar qualquer coisa, mas nada se passou em dez anos... ou teria passado? Dar-se-á o caso de não ter dado por nada, devido ao meu trabalho? Vivemos juntos como um só coração, mas sempre tivemos duas cabeças... Nunca tinha pensado em tal. Pois bem: ela não me abre a boca a respeito da eleição de Miss, para ela é uma insignificância e por isso se mantém calada. Mas por que diabo me aflijo eu?! Toda a minha vida, toda a minha situação perante ela é uma mentira do princípio ao fim. No entanto, é tudo diferente! É difícil esclarecer bem isto, mas calar insignificâncias pode conduzir a um gravíssimo foco de desconfiança. Mas há uma coisa muito importante: por que razão se dá um título de "Miss" a uma mulher com dois filhos? Wegener falou nisto ao chefe de criados do hotel. O homem falava alemão, sorriu amavelmente e respondeu: 200 - A sua esposa, signor, é como uma rainha de San Geronimo. Eu felicito-o. Wegener ficou muito pouco satisfeito com esta felicitação. Para mais sentia nascer agora em si uma sensação a que, até então, fora estranho - nem sequer sentira tal quando o Dr. Bernharts visitava frequentemente a sua casa. "Raios partam isto! Na verdade, sou ciumento", pensou. "Sinceramente, algo se passa comigo, mas em toda esta encenação há, de certeza, um outro homem que atraiu Irmi para si. Mas é uma situação horrível!" Telefonou ao Dr. Schwangler: - Edi, vem imediatamente a San Geronimo! E desligou antes que o amigo pudesse perguntar o que de facto se passava. Depois mandou chamar dois criados e deu a cada um mil liras. Isto passou-se numa noite em que no grande salão do hotel se realizaria um baile com as pessoas fantasiadas, sob o tema: "Uma noite em Veneza". - Que imbecilidade!-exclamou Wegener com amargura, sentando-se com a perna em gesso à janela e observando como Irmi se transformara, com a ajuda de xailes coloridos e colares de vidro, numa princesa veneziana formosíssima, e o pequeno Peter, com uma faixa à volta da barriga, num jovem bandoleiro. - Haverá alguma possibilidade - perguntou aos criados que falavam alemão, porque era naturais do Súdtirol -de me levarem ao salão para que eu possa observar tudo, sem ser visto? Os criados reflectiram e encontraram a solução para o caso: - Há só uma, signor - respondeu um deles, metendo, com indiferença, a nota na algibeira do avental. - Levamo-lo para o sótão. Por uma fresta que serve também para ventilação, pode ver toda a sala. Mas lá em cima vai estar calor, signor, porque o aquecimento é feito por essa fresta. - Eu não sufocarei! -Wegener deu ainda mais mil liras e à noite, quando o grande baile começou, os criados trouxeram-no, com a cadeira, pela escada de serviço para o sítio indicado, colocaram-no junto da fresta e abriram-na um pouco mais, para que ele pudesse abranger com a vista a sala, e desejaram-lhe que se divertisse muito, com um sorriso descarado. Wegener engoliu em seco, mas calou-se. Descobriu Irmi imediatamente, rodeada de homens com fatos de gondoleiros. Ela dava atenção a todos, ria, bebia champanhe, enfim, estava completamente diferente. Era, de facto, o centro da festa. 201

"Estou a desconhecê-la por completo'', pensou Wegener, e o aperto no coração tornou-se mais forte. Será possível o que vejo? E esta alegria, esta liberdade fora do dia a dia, tudo isto será a fingir?" Acomodou-se na sua cadeira desconfortável, estendeu a perna de gesso, sentenciada à imobilidade, soprou o ar necessário que o rodeava, quando viu a mulher a dançar, despejando sobre os homens que a disputavam um enorme repertório de nomes feios. Ficou contente, quando, após duas horas, os dois criados apareceram de novo no sótão para o levarem para o quarto. Quando Irmi voltou da sala de baile, ele já estava deitado há muito tempo, fingindo dormir profundamente. Até ressonava, e de tal maneira que ela se despiu sem ruído e muito cuidadosamente, para não o acordar, deslizou na cama até junto dele. Wegener, que estava deitado de lado, olhou para o relógio e constatou já serem quase quatro horas da madrugada! "Isto foi a última vez", pensou ele. "Já não aguento mais! Se tiver de ficar mais algum dia na cama, deito-me no sítio onde ela está agora! Ainda acabo por endoidecer..." Dois dias mais tarde, chegou o Dr. Schwangler. - Sempre me saíste um grande corno! - disse ele a Wegener. - Agora estás para aí a mastigar em seco e cheio de ciúmes... e que fazes tu? E o negócio da casa na Gereonswall? E aquela maravilhosa morena?! Não me venhas agora com invejas, pelo facto de a Irmi arranjar um "flirt" inofensivo na época de esqui. - Gereonswall, isso é outra coisa, Edi - respondeu Wegener, apático. - Com certeza, connosco é sempre tudo diferente. E agora diz-me, qual é o meu papel aqui? Espancar os professores de esqui? Olha que eles são mais fortes do que eu. " ' - Ocupa-te de Irmi. - Como substituto de Wegener? ' - Sim, mais ou menos isso, Edi. - Para isso, eu sirvo - respondeu o Dr. Schwangler, suspirando resignado. - Quanto tempo ficas ainda? - Dez dias. - Mas que merda! Por que diabo me tornei teu amigo?... Dos dez dias, ficaram só três, porque o Dr. Bernharts telefonou na manhã do quarto dia, bastante excitado e com voz trémula: 202 - Não quero estragar-lhes as férias, senhor Wegener - disse ele. - Mas considero meu dever comunicar-lhes que estamos aqui todos profundamente desgostosos, porque ontem à noite o professor Goldstein tentou suicidar-se! - Meu Deus - murmurou Wegener. Da janela observava o verdadeiro deslumbramento de uma bela manhã de inverno nos Alpes. As montanhas cobertas de neve, ao fundo, tinham uma maravilhosa tonalidade azulada. Era um belo dia. - Porquê? Mas porquê? - Isso ninguém sabe. Estão a tentar salvá-lo, mas não há qualquer informação. Pensei que isso o interessasse. Como conhece o professor Goldstein tão bem... - Agradeço-lhe muito, doutor - respondeu Wegener, perplexo. - Muito obrigado. Desligou, afastou-se da janela e esperou até Irmi sair da casa de banho. Estava nua, a água quente pingava pela sua pele lisa. - Quem era? -perguntou ela. -Logo de manhã?! Vem, enxuga-me... - Chegou-se para o marido, virou-lhe as costas, ele beijou o começo dos quadris, a covinha do seu traseiro e acariciou-lhe com a mão a penugem encaracolada entre as coxas.

Ela pertence-me'', pensou ele. "Só a mim, só a mim. Dou cabo do malandro que a afastar de mim. Sem esta mulher, sou um monte de porcaria! Vivo só para ela." - Querido, enxuga-me - pediu ela, aproximando o baixo- - ventre da mão acariciante - mas, mais nada! - Vamo-nos embora hoje mesmo - anunciou Wegener asperamente. - Vamos fazer as malas imediatamente!-Foi buscar a toalha e começou a secar a pele de Irmi. - Goldstein tentou suicidar-se... - Por amor de Deus, não! - exclamou ela, voltando-se horrorizada. - Foi o que te disseram ao telefone? - Sim. Foi o doutor Bernharts. Tenho de ir ver o Goldstein! Ele ajudou os nossos filhos a virem ao mundo e salvou-te duas vezes a vida... Só há uma coisa a fazer: tenho de ir. - Com certeza! Evidentemente! Mas porquê? Porque fez ele isso? - Ninguém sabe - respondeu Hellmuth, observando como Irmi se vestia. - De qualquer forma, partimos imediatamente. Já era noite quando chegaram a Colónia, após uma viagem sem paragens, durante a qual Wegener e o Dr. Schwangler se 203



revezavam ao volante, porque Schwangler apanhara o comboio para se juntar a Wegener. Mal chegou a casa, telefonou para a clínica. Uma enfermeira de serviço nocturno respondeu, zangada: - Não damos qualquer informação! Em seguida desligou. - Esta resposta é muito natural! - começou por dizer o Dr. Schwangler, mas Wegener interrompeu-o, alcunhando a enfermeira de velha bruxa e outros obséquios" do género. - Sobre que assunto pensas que a imprensa se ocupou? Precisamente sobre o caso Goldstein! Tenho a certeza de que não te deixarão aproximar dele. Mas conseguiu-o. O médico chefe da 1.a Clínica Médica, em cuja enfermaria particular se encontrava o professor a receber oxigénio, permitiu que ele visitasse Goldstein durante alguns minutos. O professor estava consciente quando Wegener entrou silenciosamente. O cabelo branco formava uma grinalda à volta da cara empalidecida e magra. Os olhos fixaram Wegener, como se quisessem dizer: '' Também tu já nada podes fazer.'' "Este já está arrumado", pensou Wegener. "Aqui está um homem que dedicou toda a sua vida a trazer outros ao mundo. E é justamente o professor Goldstein, esse homem! Quem poderá compreender semelhante ironia do destino?" Em dez minutos Hellmuth Wegener compreendeu a situação. Goldstein começou a falar em voz baixa, mas muito bem articulada, como sempre. Mesmo à hora da morte, portava-se como um aristocrata. - Você não é um confessor - disse ele - e, mesmo a si, nada diria, se você não tivesse qualquer coisa indirecta a ver com o caso. - Eu? - perguntou Wegener, olhando surpreendido para o professor Goldstein. - Porquê? - O passado alcançou-me. O que antes ninguém conseguiu, conseguiu-se agora. Tenho nervos fracos, senhor Wegener, isso ninguém sabe. A fuga aos nazis causou-me profundo traumatismo que me arrasou completamente - Goldstein fixou a vista na tenda de oxigénio. - Tudo começou na semana passada, quando me apareceu uma senhora na minha mesa de operações. Não lhe posso dizer o nome... Mas era isso! Era uma senhora de cinquenta e três anos, à qual tinha de fazer uma ovariotomia 204 total, por causa de um tumor epiteliano. A operação decorreu sem complicação. No terceiro dia, a mulher fez-me uma série de perguntas: "Chama-se Goldstein, senhor professor? Posso falar consigo à vontade? Tem segredo profissional como um sacerdote? Posso confessar-me junto de si?" E eu respondi: "Com certeza! Um médico tem de ser sempre um pouco sacerdote." Posto isto, a mulher continuou: "Senhor professor, fui guarda do campo de concentração de Flossenbúrg, mas sempre mantive segredo. Agora tenho outro nome. Se a memória não me falha, em Flossenbiirg tínhamos alguns internados que se chamavam Goldstein. Pode ser? Tenho... tenho de lhe perguntar!" Quase endoideci, porque em Flossenbúrg foram assassinadas a minha mãe, a minha irmã e a minha cunhada... - Com o gás tóxico do meu tio Axel Hellebrecht acrescentou Wegener inaudivelmente. - Talvez - respondeu Goldstein, fechando os olhos.-A mulher pediu-me para me calar, porque tratava-se de uma confissão, mas os meus nervos já não suportavam mais. Por isso tenho... -Calou-se, deu um suspiro e respirou profundamente. - Então fui apanhado, os nazis... - Quem é a mulher? -perguntou Wegener. - Isso não lhe posso dizer! Apesar de tudo, não! Esbarro contra a minha ética de médico! Agora já sabe o que se passou, mas, por favor, não faça nada, caro colega! Talvez me volte a entusiasmar. É um tormento ser tão sensível, creia-me! Admiro a sua força! Wegener saiu pensativo da sala de recuperação. "Ele admira a minha força", reflectia, "mas desconhece o meu medo contínuo que também desmoraliza. O passado volta sempre e eis o exemplo de Goldstein. Não se pode passar a vida a fugir ao passado, porque ele vem sempre ter connosco. Existem centenas de factores desconhecidos susceptíveis de provocar a catástrofe." Medo! Não há qualquer força que vença o medo! Quem tal afirmar é um mentiroso. O professor Goldstein não morreu na tenda de oxigénio. Teve alta três semanas depois. Nessa noite estava contente e até ofereceu um serão de cerveja aos seus colegas médicos na sua vivenda. Dias depois proferiu uma conferência em Geneve e partiu 205

em seguida para férias. Escolheu a Ilha de Capri para visitar a casa "San Michele" do seu colega Axel Munthe. E tudo aconteceu em Capri: ao passar por cima de uma rocha sobre o mar, escorregou e precipitou-se no abismo. Nunca encontraram o corpo, possivelmente arrastado pela corrente, em direcção ao norte de África, onde o cadáver desconhecido poderia ter sido encontrado por pescadores. Testemunhas oculares declararam não se tratar de suicídio, pois viram como ele escorregara nas pedras. Foi realmente um trágico acidente. Mas Wegener não acreditou. Não falou no assunto a ninguém, nem sequer a Irmi ou ao Dr. Schwangler. Pensou: "Para isso é preciso coragem. Uma rocha, o mar à sua frente, a profundidade, os segundos de dominação e depois deixar-se cair! Meu Deus, quanta coragem! Tê-la-ia eu? Creio que não. Nunca a tive, nem sequer para confessar a Irmi em Friedland: tu abraças um outro Hellmuth Wegener, porque aquele por quem esperas morreu em Orscha, no corredor de uma escola... Sim, morreu, como tantos outros, não pela pátria, pois não há morte heróica, e quando os militares e os políticos a pronunciam, é pura demagogia. Incitar outros homens, sob o seu comando e responsabilidade, a matarem-se uns aos outros, forçando-os a ficarem estropiados, a morrerem miseravelmente na imundície, banhados num mar de sangue e de pus, longe da família, para satisfação dos mais inconfessáveis fins, será isto a tal 'morte heróica'? Que os responsáveis por tant



as mortandades se atrevam a contestar-me! Já alguma vez ouviram as últimas palavras desses pobres moribundos? Ouviram-nos, alguma vez, gritar: Viva a minha pátria'!? Ou não seriam, antes, outras palavras, bem diferentes, aliás: Mãe! Minha mãezinha!'? Quantas vezes eu próprio presenciei cenas destas, meu Deus! - Nunca iremos a Capri - declarou Irmi, ao tomar conhecimento do acidente. - O que tem Capri a ver com o caso? - Apesar disso... Nas exéquias celebradas por iniciativa da Ordem dos Médicos, Hellmuth Wegener falou também, não do médico, mas sim do homem Goldstein. Viam-se lágrimas nos olhos de muitos médicos. 206 - Tu ainda um dia entras na política!-afirmou o Dr. Schwangler, mais tarde, a Wegener. - Com toda essa retórica, ainda vais conseguir transformar granito em borracha. Cada pessoa tem o seu próprio destino e é sempre um "grande" destino, quando todos os factores se reúnem, formando um todo harmónico. A vida de uma pessoa resume-se aos seguintes dados importantes: multiplicidade, capacidade de decisão em situações difíceis, continência das paixões, sofrimentos, alegrias e tristezas, de modo que cada um de nós, ao fazer uma retrospectiva de toda a sua existência, poderá afirmar: "Vivi uma grande vida!" Os anos nada modificam, correndo uniformemente como a água de um ribeiro. Assim foi, também, a vida de Hellmuth Wegener nos anos que se seguiram, caracterizados por um aumento automático da produtividade, do trabalho, do êxito. Os filhos cresceram; Peter frequentava o liceu, a Villa Fedelta enchia-se, de ano para ano, com mais móveis de valor, carpetes e quadros valiosos. O Complexo Protosano e a Fábrica Vitalan, conforme ideia já muito antiga de Wegener, fundiram-se em 1964 numa só firma, com o nome de Complexo Euromédica. O motivo desta decisão foi um insultuoso artigo publicado num jornal alemão, cujo redactor-chefe fora antes correspondente de guerra. Neste artigo, voltava-se a falar nas histórias do tio Axel Hellebrecht e no seu gás tóxico. Wegener telefonou para a redacção. - O senhor está a tornar-se demasiadamente grande para nós!-afirmou o redactor-chefe, com sinceridade. Você pessoalmente não nos interessa. Mas o seu monopólio, dentro do mercado farmacêutico, é muito importante! Você é o protótipo do capitalista! Se tivesse obtido tudo através do seu trabalho duro e com o suor do seu rosto, não nos preocupávamos consigo! Agora é rico, enquanto outros milhões de pessoas são pobres, isto é que é importante! O que seríamos nós, se não fossem os entusiastas deste país? Wegener pôs fim ao telefonema, porque chegou à conclusão de que daquela maneira nada conseguiria. Tudo isto começou a cair no domínio público e a redacção não teve outro remédio a 207

não ser desmentir as suas afirmações quando se deu a conhecer esta conversa. A Villa Fedelta, na Stadtwald, em Colónia, transformou-se num ponto de encontro da sociedade, cujo centro girava à volta de Irmi que, aparentemente, não envelhecia, antes pelo contrário! Wegener, que agora pesava 95 kg e fazia tudo para emagrecer, reconhecia todos os esforços serem vãos, visto que por semana tinha de aguentar três refeições no trabalho, sentindo-se completamente perdido quando Irmi não podia comparecer às recepções. Como a maior parte dos contratos de comida e bebida eram rigorosamente cumpridos, de nada serviam as recomendações do Dr. Bernharts. Também Henrique VIII comeu até à morte e cada meio quilo a mais acima do normal reduzia a vida para cerca de um ano. Wegener levou-o duas vezes às negociações com sócios estrangeiros, colocando o Dr. Bernharts à mesa entre os directores. Em seguida, o médico sentou-se num sofá, bebeu café muito forte e observou Wegener com uma expressão de derrota. - Isto é um suicídio!-gemeu ele. - Você mata-se a si mesmo, com a colher, o garfo e a faca. - Tem outra proposta, doutor? -perguntou Wegener. - Para casos semelhantes, não. Você, só nesta noite, leva consigo pelo menos quatrocentas calorias! - E um contrato assinado que valerá para cima de trinta milhões! Dê-me um conselho razoável! - Com números destes não sei dar conselhos, senhor Wegener. - O Dr. Bernharts bebeu o café bastante quente, com pequenos goles. - Para si não é suficiente? - Não! Mas dou emprego a três mil e quinhentos trabalhadores e funcionários administrativos. - Arranje mas é bons colaboradores que o obriguem a fazer dieta! - Já tenho cinco directores. Mas em determinadas ordens de grandeza, quero ver-me a mim próprio. Mal comparado, é tal qual a satisfação que você sentiria, se tivesse de dar, pelo telefone, diagnósticos aos seus doentes particulares mais importantes. O Dr. Bernharts rendeu-se. O Dr. Schwangler, pelo contrário, não podia compreender a 208 razão por que o seu amigo não caísse na vida dos prazeres carnais, embora fosse sempre de opinião que Wegener se entregava a paixões ardentes na Gereonswall. Durante semanas inteiras refreara a sua curiosidade, mas um dia não conseguiu conter-se mais. Irmi e o marido (desde que Hellmuth regressara da Sibéria) tinham comprado tudo em comum. Não havia vestido que Wegener não tivesse escolhido, nenhum par de sapatos acerca do qual não desse a sua opinião, nenhuma blusa que Irmi não lhe tivesse mostrado. Frequentemente, passavam longas horas nas casas de moda, porque Irmi comprava, em princípio, só o que Hellmuth achava bem. Algumas vezes ele próprio revolvia os cabides, tirava o que lhe agradava, ou mandava modificar. Chegava ao ponto de entrar nas lojas de roupas interiores para senhora e dava opinião sobre os soutiens e cuecas que Irmi teria de provar antes da aquisição. - Tenho a impressão de que queres ser embalsamado, quando morreres! - observou o Dr. Schwangler quando teve conhecimento deste modo de fazer compras. -Já agora, prova, também, os soutiens! Não me digas que também és assim com a tua amante da Gereonswall! - Não tenho nenhuma amante, seu patife! - exclamou Hellmuth Wegener, com rudeza. Com efeito, o caso da Gereonswall foi caindo no esquecimento: as lições particulares, em casa do professor, terminaram. Wegener já se considerava suficientemente apto, em relação à sua cultura geral. Sabia tudo acerca de operações à barriga e assinara todas as revistas de medicina existentes, lendo-as cuidadosamente, tomando nota das mais recentes descobertas e organizando um arquivo com recortes, além da aquisição de uma biblioteca especializada que causava inveja a todos os médicos. "Já não pode acontecer mais nada", pensou Wegener, naquele ano. "Nada, mesmo nada. O passado acabou por completo. Eu sou eu - quer dizer: eu sou Hellmuth Wegener - e isso toda a gente sabe." Assim se chegou a 7 de Setembro de 1965, um dia como os outros. Wegener encontrava-se no seu enorme gabinete do Complexo Euromédica a ouvir uma exposição do seu chefe dos laboratórios químicos sobre uma descoberta recente de um medicamento contra a hipertensão. 209

Vanessa Nina - agora com 13 anos - estava em casa de uma amiga para resolver com ela os terríveis exercícios de matemática. Irma oferecia um chá a algumas senhoras, esposas de diplomatas acreditados em Bona, e discutia-se o teatro absurdo de lonesco. O filho Peter, agora com 17 anos e, segundo o Dr. Schwangler, uma "inteligência bestial'', que pouco se esforçava para manter a posição de primeiro na classe, deu-se ao trabalho de procurar, nessa mesma tarde, no enorme sótão da Villa Fedelta, quaisquer velharias que pudessem ser usadas num baile trapalhão. Assim, descobriu uma velha arca, proveniente da dinastia dos farmacêuticos Lohmann. Abriu os fechos e encontrou bonecas e brinquedos, certamente pertencentes à mãe quando era criança. Com certo receio, removeu-os e reparou que junto deles se encontrava um pequeno pacote com cartas, atado com uma fita de seda lilás. O carimbo sobre o selo do primeiro sobrescrito despertou-lhe interesse. Era correio militar. Sentou-se na arca, soltou a fita e começou a ler as cartas. Eram cartas expedidas através do correio militar, escritas pelo pai à mãe, a então menina Irmgard Lohmann, em Colónia. A primeira, datada de 1943, provinha da Rússia e era remetida pelo furriel Hellmuth Wegener, mais tarde, alferes Hellmuth Wegener. Outra, de Fevereiro de 1944, continha a grande pergunta: "Queres ser minha mulher...?" Três fotografias amarelecidas e desfocadas estavam junto das cartas e mostravam o alferes Wegener com os seus camaradas, algures na frente leste. Peter observou as fotografias, leu as cartas, embrulhou tudo de seguida e desceu do sótão. Esperou até as senhoras se irem embora e foi ter com a mãe ao salão. - Mamã, estive no sótão e encontrei isto - disse ele, pondo as cartas em cima da mesa. Irmi reconheceu-as logo e sorriu. - Tenho um filho muito curioso - observou ela. - Leste alguma coisa? - Sim, mamã. - Já tens idade suficiente para compreenderes que foi através destas cartas que me apaixonei pelo teu pai. - Tirou uma delas do pacote e percorreu-a com a vista. - Tal como ontem - disse ela em voz baixa. - Ainda me lembro como elas chegaram. Ata-as de novo e leva-as para a arca. 210 - Com certeza, mamã. Peter agarrou numa outra carta e dobrou-a separadamente. Sobre o papel amarelecido, ordinário e duro, muitas palavras bonitas. - Ora vejam só! Eis um exemplo muitíssimo interessante de como as pessoas podem mudar, conforme as circunstâncias. Muito curioso! A escrita do pai antigamente e a sua escrita hoje... são completamente diferentes! ,



Capítulo oitavo Irmgard Wegener observava, calada, o filho. Olhares daqueles na família eram de recear. Durante todos aqueles anos raramente se ouvira uma palavra pronunciada em tom mais elevado, não havendo memória de se ter assistido a uma zanga a sério, nem sequer se vira os pais levantarem as mãos para baterem nos filhos, vestígios daquela "educação exemplar" que supunha tudo resolver com um par de bofetadas... Bastava, quase sempre, um olhar e, a partir daí, cada um avaliava por si se valeria a pena continuar a discutir certos assuntos críticos. Peter voltou a pôr rapidamente as cartas em cima da mesa, dobrando aquela que conservava na mão. - Mamã, só penso...balbuciou ele. - Não sabes como isto era antigamente, meu filho -disse Irmi, empilhando de novo as cartas e atando-as com a fitinha. Mas devias calcular como se passou tudo, pois já tens idade e inteligência suficientes para saber o que significa a guerra, a Rússia e muitos anos de cativeiro na Sibéria. Quando o pai voltou das margens do Taiga, era outro homem, embora fosse a mesma pessoa. Mal o podia reconhecer, só tinha as fotografias, representando o seu rosto jovem, simpático e sorridente. Depois, quando nos encontrámos em Friedland, foram necessárias algumas horas para chegarmos a esta conclusão: efectivamente, assim é! Foi o que a guerra fez de nós e como a Sibéria restituiu Hellmuth Wegener à liberdade. Teríamos de nos conformar com isso. Mas depois, tudo passou, como imaginávamos. Compreendes, Peter? - Com certeza, mamã. E a letra dele?... - A letra pode-se ter modificado, se atendermos à longa permanência como prisioneiro - respondeu ela, olhando para o sobrescrito. - Antigamente, o papá escrevia com uma letra inclinada para a esquerda, hoje tem-na com tendência para a direita. Tratar-se-á de algum protesto? Algum rompimento com o passado... - Deve ser isso - Peter parecia convencido. - A princípio, deve ter sido cómico, não é verdade, mamã? - Não. Não foi cómico, Peter... foi trágico!-exclamou ela, passando-lhe o pacotinho das cartas, por cima da mesa. 213

Põe-nas novamente aí, onde as encontraste, e imagina bem o que será vegetar na Sibéria, sem qualquer esperança de regressar a casa com saúde. Apesar de tudo, regressou, após longa permanência lá. Nem calculas como ele vinha: magro, faces encovadas, metido num velho uniforme militar, sujo da longa viagem, com olhos febris... era um homem que voltava à vida. E como nos tornámos felizes, meu Deus! - Compreendo - Peter agarrou nas cartas e arrumou-as facilmente. - A vossa união foi, realmente, feliz, comparada com a de outros casais, e conforme os meus colegas de turma me contam o que se passa na casa deles, ó Deus do Céu! É isso! O vosso casamento feliz torna-se quase anormal! - Efectivamente, é assim, meu filho -Irmi sorriu com meiguice. Quando tal acontecia, ela adquiria um ar celestial, e ao falar, sorrindo dessa maneira, era-se forçado a aceitar tudo como definitivo, como uma revelação. - Que importância tem o facto de o pai antigamente escrever letras inclinadas para a esquerda e agora incliná-las para a direita? Se o seu k parece outra coisa, o seu/é só constituído por três traços e antes ornamentava tudo com gatafunhos esquisitos, achas que o devemos enforcar por isso? - Pronto, mamã. Não se fala mais no caso - respondeu Peter levantando-se. - A vossa geração tem um não sei quê de camaleão. - Muito agradecida, meu filho! - Não é uma censura, mamã. Mas não compreendo a razão por que o pai não continuou a estudar. Em 1948 isso seria fácil. - Tu nasceste em 1948. - Por isso mesmo, para ele, era possível estudar! - A farmácia era mais importante, filho. O papá devia contar-te tudo, porque vocês não têm qualquer ideia do que significava sobreviver numa época dessas! E, além disso, os nervos dele já nada mais aguentavam. - Por causa da Sibéria. - Se compreenderes o significado dessa palavra, não terás dificuldade em compreender muito da nossa geração! - Nunca ninguém compreenderá a vossa loucura cega por Hitler. - E como se comportam os chineses, em relação a Mao-Tsé-Tung?! 214 - Isso é completamente diferente, pois trata-se de uma revolução social que transformará o mundo radicalmente. - Quando tínhamos dezassete anos pensávamos em Hitler da mesma maneira! Todos os povos, todas as gerações têm os seus problemas, com bons ou maus exemplos, tragédias e horas felizes, erros históricos, etc. E tudo isto acontece só porque somos estúpidos! - Tu és inteligente, mamã! - Aprendi tudo com o teu pai. Dantes, só sabia onde estava a aspirina e em que prateleira estava a pomada contra as feridas nos pés. Sabes que tens um pai formidavelmente inteligente? - Sim. É verdade, porque consegue aguentar todas estas fábricas... - Isso é só a capa exterior, Peter! Existe também uma inteligência escondida. Mas falaremos sobre o caso noutra ocasião. Nessa noite, Peter voltou a pôr as velhas cartas na arca, indo agora, segundo disse, para a casa de um amigo jogar bilhar, mas, na realidade, a intenção era encontrarem-se na Stadtwald com alunas do liceu Rainha Luísa. A essa mesma hora, Irmi e Hellmuth estavam no jardim de Inverno. Como de costume, quando iam para ali, ele sentava-se com as duas pernas sobre o tamborete, olhava para a televisão, bebia meia garrafa de vinho francês, conversava sobre o que lhe vinha à ideia, os acontecimentos do dia, fazia troça da mais recente piada porca do Dr. Schwangler - em resumo: era uma noite como há muito tempo não tinham. Irmi censurou as porcarias do Dr. Schwangler e voltou-se para a televisão, que apresentava um espectáculo de dança, enquanto Vanessa Nina estava no quarto a ouvir discos de jazz. Hellmuth sentia-se cansado após um dia atarefado, mas ficou ali, porque Irmi gostava de ver bons dançarinos. Ele próprio preferia estar na cama há muito tempo, lendo um livro até adormecer. Ler três, quatro páginas, com a sensação de ter Irmi junto de si, a feliz sensação que o acometia quando se estendia na cama ( "Devia-se mandar erigir, em todos os aglomerados po

pulacionais de todo o mundo, um monumento digno ao talentoso inventor da cama'', disse Hellmuth certo dia), e sentia o cansaço a diluir-se aos poucos; depois de apagar a luz do candeeiro da mesa de cabeceira, voltava-se para o lado de Irmi e ela apagava também a luz e preparava-se... tudo isto era um maravilhoso começo de noite, para a qual valia a pena viver, após o trabalho árduo da lida diária. 215



- Na semana que vem, tenho de ir a Roma - anunciou ele, no intervalo da actuação de um cantor conhecido que cuspia perdigotos para o microfone enquanto actuava. Wegener acalentava a esperança de que o homem talvez engolisse o microfone. Vanessa Nina conhecia certamente o rapaz e teria denominado aquela gritaria de "aroma". Para Hellmuth Wegener soava como se limasse as unhas dos pés. - Está bem! -disse Irmi, fixando os olhos no cantor que abanava as ancas e soltava notáveis gritos. - Vais a Roma? - Tenho tanta vontade de lá ir como um vadio profissional tem pelo trabalho. Irmi encostou-se; era a vez de um novo número de bailado entrar em cena. - Sabes uma coisa? Peter encontrou as cartas que me escreveste durante a guerra... Hellmuth Wegener não mostrou qualquer surpresa, mas ficou atento, como se um sinal de alarme soasse no seu cérebro, o que já não acontecia há muito tempo. Continuou a sorver o vinho tinto, segurando o copo com a mão calma. - Ainda existem? - perguntou ele imperturbavelmente, olhando de soslaio para Irmi que, muito interessada, continuava com a vista fixa no pequeno écran. - Sim. Ainda as tenho todas, atadas com uma fitinha à volta. Peter remexeu na velha arca e encontrou-as. Nunca me poderia separar da tua correspondência escrita na frente de combate, querido. - E o rapaz leu-as? - Não o terias feito, também? - Bem! Mas quando penso em tudo o que te escrevi e agora que Peter o sabe... É uma sensação estranha. - As cartas não são assim tão más - respondeu Irmi, sorrindo. - Nós éramos, em comparação com a juventude actual, valentes como alunos de seminário. - Éramos assim? - perguntou ele, aparentando indiferença. - Isso sabes tu! As tuas cartas... as minhas cartas, lêem-se hoje tão bem como se fossem de um outro século. - Apesar de tudo, eram os nossos segredos íntimos mais profundos e o maroto conhece-os agora... - Elas não lhe interessaram absolutamente nada. O que lhe deu na vista foi a tua escrita. - A minha... quê ? - perguntou Wegener, sentindo de novo 216 a impressão de queimadura no couro cabeludo. "É para desesperar", disse para si. "Pensei em tudo, de facto em tudo, mas não no pormenor de Hellmuth Wegener ter escrito cartas, como militar, e travado conhecimento desta maneira com Irmi "Raparigas alemãs escrevem para a frente de combate" - mas como seria possível pensar também no facto de ela ter guardado estas cartas, atadas com uma fitinha? E após 22 anos, o meu filho encontra estas malditas cartas e guarda-as... Mas após 22 anos vou tropeçar em meia dúzia de letras? E é o meu próprio filho que me atira com isto à cara?" - A tua escrita - continuou Irmi, calmamente, olhando a televisão, onde se dançava um maravilhoso tango - com o decorrer do tempo, tem-se modificado muito. Foi Peter quem me chamou a atenção para esse facto. - A guerra! A Rússia! A Sibéria! - bradou Wegener. - Foi justamente isso que lhe disse, discutimos sobre o caso e sobre a nossa geração perdida, mas activa, apesar de tudo. - E onde estão agora as cartas? - Estão, outra vez, no sótão, dentro da arca. - Queres guardá-las lá? - Com certeza, querido. Se não fosse tão ridículo, para os outros, colocá-las-ia num pedestal de mármore, dentro de um saco isolador. As tuas cartas da frente de combate na Rússia e a tua pergunta: ''Queres ser minha mulher?..." Uma coisa destas não se destrói muito facilmente, querido! Ele inclinou a cabeça e fechou os olhos.

As letras, pensou. Amanhã vou tirar uma carta do maço e praticarei a escrita de Hellmuth Wegener. Já devia ter feito isto, sou mesmo burro. Mas que estupidez! Como me teria esquecido disto? Escrevi a Irmi do cativeiro, mas em letras de imprensa. Depois os acontecimentos desenrolaram-se com tal rapidez que nunca mais pensei na merda da escrita. Sempre escrevi assim, o que quer dizer, muito diferente do que Hellmuth Wegener escreveu, o que é natural." - Em que pensas, querido? - perguntou Irmi. O cantor estava de novo no écran, com o microfone muito perto dos lábios. Wegener abriu os olhos. - Na viagem a Roma-respondeu ele. "Não, não vou praticar", pensou. "Isso notar-se-ia e seria uma confissão da culpa. Vou continuar a escrever como até aqui, porque sou uma das pessoas modificadas pela Sibéria. Para 217

mim, voltei diferente: sou o que ficou, o que Irmi tomou nos braços em Friedland e a quem ela disse: "Finalmente, finalmente vieste!'' E aqui está o homem com a cara modificada e a escrita alterada! E agora é o industrial Hellmuth Wegener, um milionário conhecido na Europa, com 95 kg de peso e, segundo a declaração do seu médico assistente, predestinado para ficar com diabetes, porque o pâncreas um belo dia dará sinal." "Sou Hellmuth Wegener", continuou a reflectir. "Merda para a forma da escrita. Por aqui se vê como as pedras podem ser tão pequenas que tropeçamos nelas, enquanto que noutras nos podemos apoiar!" "Há 17 anos que vivo ao lado de Irmi. A felicidade persegue-me e habituei-me a determinadas situações e a ter a consciência delas. Mas, algumas vezes, diante do espelho, vejo em mim o serralheiro Peter Hasslick. E nada alterou esta cara impertinente, destroçada, destruída, extinta. No fundo, fica-se sempre o que se era." - Ainda gostaria de reler as cartas -disse ele, bocejando sem cerimónia. - Já não me lembro de qualquer das frases que te escrevi outrora. - Sei de cor ainda algumas cartas - disse ela. - Queres que te recite alguma? - Por favor, não! O cantor já me basta. Irmi, amor, estou cansado. Tive hoje seis reuniões e a apresentação de um novo produto para ser lançado no mercado: trata-se de um preparado para a hemofilia e hemorragias. Parece-me que descobrimos um remédio para a coagulação do sangue. - Que bom! - exclamou ela, observando-o com os seus grandes olhos azuis. - Vocês produzem tudo. Qualquer dia ainda recebes o Prémio Nobel. - Agora só faltava mais essa! E depois já não teria tempo de ouvir estes horríveis beijos ao microfone. - Ele bocejou outra vez e estendeu-se no sofá de damasco. - Irmi, não devíamos... - Se quiseres, vai à frente, querido. O espectáculo termina dentro de dez minutos. Ele levantou-se, saiu do jardim de Inverno e, no átrio, subiu a larga escadaria para o 1.º andar, entrando no quarto de dormir "veneziano".

Dentro de dez minutos ela virá", pensou, permanecendo de pé diante da faustosa cama. "Agora dispo-me, tomo duche, lavo os dentes, visto o pijama, deito-me, pego no livro, leio algumas 218 páginas e talvez já durma quando Irmi vier. Dantes não era assim! Vínhamos juntos para a cama e, deitados, ajustávamo-nos um ao outro, depois cada um sentia que o calor do outro corpo não era suficiente." Então apalpavam-se, acariciavam-se, beijavam-se por toda a parte e, finalmente, uniam-se. Era assim a noite, a escuridão e os passos para a cama, sinais evidentes de que depois de um dia, só duas pessoas anunciavam felicidade. "E agora? Vai à frente... Dentro de dez minutos, também vou... Sobe-se a escada, deita-se e ajeita-se na cama e já nem sequer se repara, se, de facto, foram dez minutos. Há quanto tempo isto já é assim? Passou-se sem que notássemos. Foi coisa que se introduziu furtivamente e agora tornou-se natural. Ó Céus! Nada morreu no nosso amor, absolutamente nada, pelo contrário, Irmi ficou mais bonita, estou orgulhoso dela; enlouqueceria, se lhe acontecesse alguma coisa e poderia transformar-me num assassino, se descobrisse um homem a fazer-se a ela. Mas é inconcebível! E, contudo, diz-me muito naturalmente: vai andando. Dentro de dez minutos também vou, quando acabar o espectáculo, na televisão, que quero ver até ao fim..." Hellmuth não se despiu, não foi para a casa de banho; ficou de pé diante da cama; em seguida sentou-se na parte esculpida e dourada, aos pés do leito, e esperou. O seu cansaço era grande, fixou o olhar na cama aberta que o atraía irresistivelmente. Viu-se reflectido na grande parede-espelho e examinou-se auxiliado pela luz dos candeeiros venezianos.



Ficaste com ombros largos'', pensou. "Mas que estômago! Se te sentares aos pés da cama, a barriga salta-te por cima do cinto e vê-se que cada vez tens menos comprimento de cinto para prenderes as calças, mas és demasiado vaidoso para admitires que realmente aumentaste 2,3cm de cintura. Mas parece preferires que as calças te fujam para baixo da cintura, que o estômago saia, a camisa aperte e a fazenda das calças atrás e nas ancas fique estreita. Atenção: 95 quilos já é demasiado. Mas não te deixes engordar mais. Vê-te bem ao espelho, homem, examina-te, seu palerma! Vê a tua figura, quando estás sentado! E ainda não sabes quantos homens fazem a corte a Irmi! Em compensação, és uma montanha de gordura, um elefante, um urso de circo, gordo e resmungão. Apesar disso, ela ama-te. Não compreendes, seu barrigudo? E lá vens tu sozinho para a cama, deixando-a lá em baixo a assistir ao espectáculo preferido de televisão! E tu, seu 219

bode cansado, não poderias ficar mais dez minutos ao lado dela? A tua cama! A tua magnífica cama! O teu livro à cabeceira, em cima da mesa. A gostosa sensação do adormecer, do pegar no sono: mas preferes isso à Irmi, às já raras vezes, mesmo raríssimas em que o seu corpo jovem, sensual e enérgico, com os esplêndidos seios, se deita na cama ao mesmo tempo que tu!" Despiu-se, sentou-se de novo aos pés da cama, completamente nu, e observou-se, outra vez, ao espelho. "Que estômago! Se eu fosse uma mulher fugia deste monstro. Onde está a estética? Aí sentado, pareces um porco enorme, com pele cor-de-rosa, e ainda julgas ser um homem atraente! Basta olhares para ti, homem! Outros, como tu, deveriam fazer o mesmo: ver-se ao espelho e pensar a sério nas figuras ridículas que na verdade são." "Pronto! Agora deita-te e dorme. Tem confiança santa e ilimitada no amor que Irmi nutre por ti e sempre nutrirá, mesmo quando o teu estômago se tornar balão cativo." Não sabia quanto tempo esteve sentado na cama em frente do espelho a insultar-se. De repente Irmi entrou no quarto de dormir e começou a observá-lo, admirada. Não porque ele estivesse nu, mas porque permanecia sentado e imóvel. Aquele monte nu de gordura espessa pertencia à sua vida. - Ainda estás acordado? - perguntou ela. - Como vês, ainda estou. - Porque não dormes, querido? - O teu espectáculo já acabou? - Sim. No fim dançaram um formidável Charleston! - Ah! Sim?! Que bom!-respondeu ele, permanecendo sentado onde estava e a observar Irmi a despir-se. Manteve-se nessa posição quando ela foi tomar duche, só se levantando quando ela atou o lençol de banho à volta do corpo nu e voltou para o quarto. Sem pronunciar palavra, Hellmuth puxou-lhe a toalha e agarrou-lhe os seios. - Estás louco? - perguntou ela, honestamente desconcertada. -Sim! - Hellmuth... Ele puxou-a para a cama, Irmi caiu em cima do colchão e ele sobre ela. Instintivamente, ela apertou-o com as pernas compridas e esbeltas. 220 - Hellmuth! - exclamou quase zangada. - Deixa-te de disparates! - Onde está o disparate?! - Repara que estás cansado e amanhã tens reuniões... - Sou um monstro gordo, não é verdade?! - perguntou ele, com voz surda. - Mas, querido... - Se não o sou, então ama-me! Vem! Ama-me como dantes! Ainda sou capaz, nada esqueci e posso provar-te. Vamos! Posso... posso concorrer com todos. Com todos! - Mas o que se passa contigo?.- Ela mexeu-se debaixo dele, tentando fugir, mas ele apertou-a na cama e, com aquela barriga, não era tecnicamente possível escapar. - O que estás a dizer não faz sentido! Toma cuidado com o teu coração... - O meu coração és tu! - bradou ele. - Tu és tudo, tudo, Irmi! O que nos aconteceu? Ficámos todos cobertos de seda, mohair, jóias e peles! Irmi... isto tem de mudar e mudar radicalmente, e não: "Eu vou dentro de dez minutos." Quando chegas já estou a ressonar! Achas que isto é ainda amor? - Mas, Hellmuth! Eu amo-te e sempre te amei. Não sei o que te deu de repente! Bem sabes como te amo! - Apesar dos meus noventa e cinco quilos!? - Tens efectivamente noventa e cinco quilos! Só isso é importante! Beijou-a, ela apertou as pernas à volta dele, ele penetrou nela, não sendo exactamente como dantes, porque a barriga aparecia por toda a parte, estorvando o caminho. Ela gemeu baixinho, cravou as unhas na nudez gorda e correspondeu ao ritmo dele, à sua respiração. Hellmuth atreveu-se a olhar uma só vez para a grande parede-espelho, contemplando o seu amor, o que dantes lhe dava prazer. Agora via-se deitado em cima dela, com o poderoso traseiro a abaular-se, as enormes nádegas a estremecerem, devido aos movimentos para cima e para baixo: esta imagem bateu-lhe na cabeça como uma moca. Então gemeu dolorosamente, enterrou a cara entre os encantadores seios de Irmi e sentiu-se invadido por grande vontade de chorar. "Vou dar cabo do espelho", pensou. "Vou dar cabo dele! Esta verdade mata-me: vejo um fauno repugnantemente gordo em cima de uma ninfa encantadora!" 221

Começou mesmo a soluçar, saiu de cima de Irmi, deitou-se de costas, batendo com as duas mãos na cara. - Já não vai! -murmurou ele. - Já não vai! É horrível! - Só se tiveres a intenção de te quereres privar de alguma coisa - disse o Dr. Schwangler na manhã seguinte, antes de começar a reunião do conselho fiscal da Euromédica. - Deves ir a Roma! Eu não posso, porque tenho a viagem a Estocolmo. Lá aperfeiçoaram, imagina só!, uma coisa muito interessante, cuja licença devíamos adquirir: um preservativo com gosto a framboesa! - Sai imediatamente daqui! -gritou Wegener. - Hoje não estou disposto a suportar as tuas porcarias! - Não é nada disso! Olha que é verdade - respondeu Schwangler impassível. - Pronto. Não se fala mais nisso. Vou a Estocolmo. Os outros directores percorrem o mundo e tu és o único que, neste momento, se encontra livre. Além disso, transpirar um pouco não te faz mal! - Em Setembro! - Em Roma, nesta altura, estão trinta e nove graus. Nos bordéis exigem pagamento de horas extraordinárias... Não! Não saio do quarto! Tu és o único homem com quem Betrucci pode negociar, sem haver perigo de fazer "olhinhos"; além disso, não és o tipo de homem de que ele gosta. E sabes bem o que está a depender do negócio de Roma! - Nada conheço de Roma! - exclamou Wegener com dureza. - René Seifenhaar mostrar-te-á tudo e além disso não se trata de qualquer viagem cultural às antiguidades, mas sim de preparar um contrato. Já levas pronta a parte jurídica! Não hostilizes o Betrucci, almoça ou janta com ele, bebe e aumenta o teu peso de novo! É este o teu ofício. - Não sei por que razão não te atiro pela janela! -bradou Wegener. - Mas não vale a pena, porque dentro de seis ou oito semanas ficarei livre de ti. Vou para uma clínica, onde abaterei o peso! É radical! Já não me posso ver! - Mas, primeiro, Roma! O que está nos teus planos, é-me totalmente indiferente! Irmi fez alguma objecção? - Se não sais imediatamente - respondeu Wegener em voz baixa - meto-te o corta-papéis pela goela abaixo. Juro-o por Deus! O Dr. Schwangler fitou o amigo e compreendeu que não se 222 tratava de brincadeira: era mesmo a sério. Abanou a cabeça, deu meia volta e saiu do gabinete. Lá fora, bufou ruidosamente e foi até à janela. Daqui, do décimo andar, tinha-se uma ampla perspectiva da Baixa de Colónia. A torre da catedral destacava-se bem na claridade do dia. "Tenho de empacá-lo para qualquer lado", pensou Schwangler. "O que se teria passado e onde? Na cama? A atmosfera não lhe é favorável? De qualquer modo, ele está desesperado e não se deve perturbá-lo com conversas parvas. Talvez se distraia em Roma... pelo menos, por alguns dias. O Dr. Schwangler entrou no seu gabinete, telefonou para René Seifenhaar em Roma e falou com ele durante um quarto de hora. Depois pousou, satisfeito, o auscultador. "Muitas vezes intervenho no raio do destino", pensou. "Tenho feito tanto pelo Hellmuth, sem ele dar por isso, tirando-o de situações críticas! E tenho a certeza de que me sairei bem desta vez. Ele seria o primeiro homem a não redescobrir a sua juventude sob a influência do sol meridional." René Seifenhaar aguardava no aeroporto, quando o avião de Wegener aterrou. Diante da aerogare, encontrava-se estacionado um Maserati (oferta de Bertrucci a René) com estofos de cabedal. Ao volante, uma senhora com um vestido branco curto que se abria até ao começo da coxa. Tinha um lenço amarelo-dourado atado à volta dos longos cabelos escuros e quando Wegener sorriu, ela correspondeu com um sorriso maravilhoso que iluminou uma boca rubra, cheia de promessas tentadoras. Wegener deteve-se. - Quem é esta? - segredou ele. - É a condessa Elietta Dagliatti. - Aqui no carro, contigo? Dar-se-á o caso de teres novas ambições? René Seifenhaar, que estava longe de ouvir tal insulto, sorriu fatigado. - Elietta está divorciada há um ano, pertence à grande aristocracia romana, tem um palácio, dá recepções, nas quais se encontram as pessoas mais importantes de Roma. Isto tem muito interesse para si, senhor Wegener. Além disso, é considerada a mais bela mulher de Roma. - Nisso acredito! Mas para que me serve? 223

- O temperamento dela é célebre. - Disso não duvido. Mas o que devo fazer com a condessa? - Nada! Absolutamente nada! -Seifenhaar abanou as mãos para acentuar a sua afirmação. - Apenas creio que o conhecimento com a condessa Dagliatti poderá abrir-nos muitas portas... e novos associados. O mesmo pensa o signor Betrucci. Wegener abanou a cabeça. "Por isso incluíram, também, a condessa no plano da viagem a Roma", pensou ele. "Para mim, vem tudo a dar na mesma!" Recordou a noite com Irmi, a sua importância, os seus soluços, as palavras dela que diziam sempre: "Amo-te muito! Amo-te, tal como és! Tu és tu mesmo! O amor não consiste só em... querido, tudo o que dizes é tolice! Tu és o meu marido! Sempre, sempre, para sempre..." E ele para ali ficara, nu, gordo e impotente, ela beijou-o todo, mas no interior dele não houve qualquer movimento, ardência ou início erótico. Nele, tudo estavo oco, como uma voz vazia. Foi a noite mais pavorosa, desde a morte de Hellmuth Wegener no corredor da escola em Orscha. "Estou morto", pensou ele, mais uma vez "Sou uma montanha de carne morta. Quando fala, quando se agita, automatiza-se. Mas no interior, tudo o que um homem é, deixa de repente de o ser. Já começo a sofrer com tudo isto...'' Dirigiu-se ao carro tipo sport, agarrou na mão delgada que a condessa lhe estendia, beijou-a fugazmente e olhou-a, admirado, quando ela comprimiu os dedos com unhas vermelho-claras à volta da mão dele. - Tenho muito prazer em conhecê-lo - declarou ela num alemão ensinado em internato suíço. - Tenho ouvido falar muito de si. Venha, suba! - Neste carro? Vamos ficar prensados como arenques. - René e a sua bagagem vão noutro carro. Convido-o a vir comigo, ou tem medo de andar num automóvel conduzido por uma mulher? - Se é você a conduzir, pelo seu aspecto, isto é... Começou a gaguejar, mas Elietta já era senhora da situação, como o percebeu pelo tremor da mão de Wegener. - Compreendo - respondeu ela. Em seguida riu com um trinado agradável e estendeu-se um pouco para trás, no estofo avermelhado. O vestido branco abriu-se mais... mostrando um 224 corpo maravilhosamente perfeito.-É uma amabilidade sua, senhor Wegener. Suba. Largou-lhe a mão, Wegener deu a volta ao carro e sentou-se ao lado. Seifenhaar ia a trote num Fiat, com as malas, ignorando-os em absoluto, pois executara a tarefa para que fora incumbido. - Para onde vai? - perguntou a condessa. - Não sei. O hotel foi escolhido pelo René. - Deve ser o Excelsior! Levo-o lá. - Ela pôs a mão à volta do volante e nada fez para ligar o motor. Estendeu as pernas para os pedais, fazendo o vestido abrir-se em duas partes. Wegener viu a coxa dela lisa e queimada pelo sol, os joelhos pequenos e os pés descalços. - Conduzo sempre sem sapatos -disse, voltando a sorrir para ele.- Assim, sente-se a condução. As pessoas, em geral, deviam seguir os seus sentimentos. - Essa é a opinião de uma mulher... - E a de um homem não é a mesma coisa? A boca dela, ligeiramente aberta, com lábios vermelhos, como se fossem molhados pelo orvalho, estava perigosamente perto dele. O seu perfume era estranho e exótico, ele não podia classificar, embora conhecesse muitos, da secção de cosméticos da farmácia. Mas esta fragrância exalada como de uma floresta de orquídeas, era arriscada e simultaneamente suave, sedutora e atraente. - O senhor tem medo dos sentimentos? - perguntou ela. Wegener notou em si o despertar de qualquer coisa que ele já considerava morto: os seus sentimentos começavam a manifestar-se agradavelmente perante a presença de uma mulher bonita. Era uma sensação à qual devia fugir, porque encadeia um homem de tal maneira que o leva a ter de tomar um destes dois caminhos: ou fica enleado nesta cadeia, ou renuncia à proximidade da mulher. - Não conheço o medo - respondeu Wegener calmamente. - Nunca teve medo? - Nunca, condessa. - Elietta soa melhor. - Ajusta-se bem à sua pessoa, como uma rosa vermelha enfeita o seu cabelo. - Está a ver, já me está a cortejar, Hellmut... - Era só uma divagação, Elietta. - Nesse caso, incito-o à poesia? 225

Ela voltou a rir-se com o mesmo trinado agradável, deu volta à chave de ignição e manobrou o Maserati para sair do parque de estacionamento e meter-se na estrada. Wegener susteve a respiração, não só porque ela conduzia com audácia, mas também porque perguntava a si próprio: "O que se passa contigo?! Como chegaste a dizer-lhe, sem mais nem menos: Uma rosa vermelha no cabelo... Vê só do que te tens privado, durante toda a tua vida!'' Ele observava Elietta Dagliatti e a maneira arrojada e segura como conduzia o carro rapidamente através do tráfego desordenadamente louco da cidade de Roma. Aquelas pernas elegantes, nuas até à coxa, levaram-no a interrogar-se se ela, de facto, não usava calças debaixo do vestido. Tudo isto o excitava enormemente - pela primeira vez, desde há alguns anos. De novo, mordeu o lábio inferior e olhou ostensivamente para o outro lado. Mas a proximidade dela, a sua irradiação, o aroma a floresta, o vento a bater nos seus longos cabelos negros enfeitados com uma rosa, como se numa outra latitude uma brisa nocturna agitasse as folhas de um palmar, conseguiam chegar até ele muito mais distintamente do que o ruído normal da rua... De repente, viu-se ao espelho e surgiu uma figura de porcaria, uma figura monstruosa com noventa e cinco quilos de peso, a qual a condessa Elietta achava ridícula! "Olha para esse espelho do teu quarto, pensa na tua barriga esbranqui E7ada, na tua impotência, no momento em que tiveres de novo Irmi contigo e lhe quiseres dar o que um homem pode dar a uma mulher. Eis a verdade, rosas no cabelo, não! És um parvo! Um imbecil! Um palhaço!" - Porque está tão silencioso, Hellmuth?! - perguntou Elietta, de repente. - Estou a apreciar isto - respondeu ele, laconicamente. - Roma ou eu? - Refiro-me a ambas. - Não considero isso um cumprimento. Roma, embora seja bonita, é uma antiguidade. Julga-me algum objecto antigo? - Elietta, você está a envergonhar-me. - Não. Por este disparate, você deve-me uma noite! - Tem razão. Disponha de mim! - Pode ser esta noite às vinte e uma horas? Mando-o buscar ao hotel e vamo-nos divertir na Via Veneto. Jantamos em qualquer sítio, não em restaurante de luxo, mas num lugar 226 íntimo, num cantinho onde cheire a vinho, alho, colorau e tomate. Ao dizer estas palavras, pôs a mão direita na perna dele e continuou a conduzir. Uma sensação estranha atravessou-o, desde a coxa até ao couro cabeludo, quando ela o tocou... Aquele à-vontade tão íntimo e aparentemente sem intenção fê-lo sentir-se livre de compromissos, ao mesmo tempo que um erotismo explosivo lhe percorria todo o corpo. Respirou profundamente e olhou para ela, que lhe correspondeu com um olhar oblíquo. Os olhos dela eram negros com luminosidade dourada, lembrando olhos de pantera. - Estamos a chegar - observou ela, ao notar que ele não respondia. - São só três ruas e depois estaremos em frente do Excelsior. Portanto, às vinte e uma, não é? - Aproveitarei o tempo livre para me ensaiar, como um actor sem talento, tentando decorar o seu papel. - Você tem bastante talento, Hellmuth. - Só para o teatro: sou o dragão gordo da cena, o monstro estúpido que só vomita fogo e se deixa matar. - Conheço o conto - disse Elietta Dagliatti - no qual havia também um dragão enorme. Toda a gente tinha medo dele, porque ele dominava toda a terra. Então apareceu uma menina que não tinha medo, beijou-o na boca, e, de repente, ele transformou-se num lindo príncipe. - A menina não era condessa? - perguntou ele com voz surda. - Não sei. Há muito tempo que ouvi o conto. Já não me lembro dos pormenores, só sei o conteúdo em traços largos. - Algumas vezes, bastam os pormenores, Elietta! - É verdade. Tentarei recordar-me como aconteceu tudo, no conto... -Pararam diante do hotel. Elietta permaneceu no carro, Hellmuth beijou-lhe outra vez a mão. A boca risonha e vermelha, como um rebento de flor, os olhos com brilho dourado, todo o corpo dela que se escondia debaixo do vestido fino, no estofo de cabedal vermelho, as suas pernas nuas, descobertas até à coxa, os pés descalços junto aos pedais do automóvel, o perfume... Ele devia fugir. Saiu depressa do carro, acenou e correu para a porta giratória do ball do hotel. Junto à recepção, René Seifenhaar esperava-o com as malas. - Maldito Satanás!-bradou Wegener. 227

Imperturbável, Seifenhaar estendeu-lhe a chave do quarto. Era um adolescente, a quem os problemas de Wegener deixavam indiferente. - Tem a suite número quinze, senhor Wegener. - Uma suite completa? Está doido? - É um quarto de dormir com cama francesa, uma sala-de-estar, um salão com bar, um gabinete... - Quero dormir, mas não residir, René! - Tem de receber visitas - René Seifenhaar era a calma em pessoa. - Virá cá gente muito importante para si. Em Roma é assim e os costumes da terra dão sempre, ao dono da casa, a oportunidade de oferecer a última recepção. Como vê, estas paredes de cristal obrigam o senhor a ser como elas. - Mas é um disparate em todo o tamanho! Q - É assim a nova sociedade, senhor Wegener. - Mesmo depois de uma guerra destas! - A guerra acabou há vinte anos e entrou na História, mais nada. Nesta sociedade, mais ninguém quererá lembrar-se disso! O melhor a fazer é aproveitar tudo o que a vida tem de bom para nos oferecer! - Pois eu narrarei ininterruptamente a minha triste experiência da guerra - teimou Wegener, em grosseira oposição. Seifenhaar mantinha-se impassível. - Ouvi-lo-ão fascinados. Fale sobre a nova paixão do conde Laparollo ou sobre o combate em Smolensk; para esta gente, os dois assuntos são exactamente a mesma... coisa. - Isso até é capaz de ter piada! -respondeu Wegener desabridamente, dirigindo-se para a recepção. - Quem será o intérprete? Eu só sei cinco palavras italianas. - Será a condessa Dagliatti. - Ah! Sempre ela! - Sim - Seifenhaar olhou obstinadamente à volta. - Ela estará sempre consigo. - Obrigado. Wegener voltou-se, dirigiu-se para o elevador e subiu até ao andar onde ficava a suite 15. Esta divisão não o surpreendeu, pois tinha-a imaginado assim: abarrotada de luxo esmagador, como se fosse destinada a um príncipe do Renascimento, mas tudo disposto de maneira fascinante. Só uma coisa o incomodava extraordinariamente: o enorme espelho em frente da cama. Viu-se, de novo, desta vez muito bem vestido, segundo o 228 corte de um bom alfaiate. Mas mais tarde, quando despir o fato, aquela terrível nudez provocar-lhe-á o complexo que o obriga a falhar. - Não comerei nada em Roma! - gritou ao espelho da parede. - Tenho de abater vinte quilos. Estás a ouvir? Vinte quilos! Correu para a casa de banho, deixou correr a água na banheira e já receava a noite e Elietta Dagliatti... Comportar-se-ia tão reservado e cerimonioso quanto possível, evitando todas as conversas perigosas, principalmente a definição de sentimentos, ao que parece o tema preferido de Elietta. Pontualmente, às 21 horas, estava ela lá em baixo, no hall, com um vestido... Wegener perdeu a respiração. Os seios pequenos e espetados, como os de Irmi, pareciam prestes a saltar, sob o xaile pequeno. No cabelo comprido entrelaçara rosas vermelhas. - Acha-me bem assim? - perguntou ela, quando Wegener a cumprimentou. - Na viagem, o senhor falou pouco, mas as suas palavras deixaram-me a meditar. Agrado-lhe agora? O seu propósito de passar a ser um camponês cabeçudo, um alemão palerma, desvaneceu-se. - Não sou um poeta, faltam-me, de facto, as palavras - disse ele, e pegou na mão da condessa. Sentiu a reacção dela, manifestada num leve aperto, como se se entregasse através das pontas dos dedos. - Quando me calo, significa que estou a pronunciar mil palavras. - Obrigada, Hellmuth. Vamos passear? A saída, ainda viu mais uma vez a sua figura ao espelho. Era um homem impotente, num smoking branco. "Deves louvar o alfaiate! Continuarás sempre a ser um homem que agrada às mulheres", pensou. "Os únicos e malditos problemas são a barriga enorme, o traseiro redondo, a papada, mas tudo isto são defeitos da beleza, que não constituem objecção a alguém que te preferia mais do que a um homem mais jovem e elegante. Mas realmente o meu será um corpo bem proporcionado? Dar-se-á o caso de um homem só ter músculos para oferecer à vista?!" Elietta, já na porta giratória, voltou-se. - Onde está você, Hellmuth? - Sou um vaidoso, Elietta - respondeu ele dirigindo-se para a rua. - Estava a mirar-me outra vez ao espelho. - E estava descontente consigo? 229

- Porquê? -perguntou, sustendo a respiração. - Mas tem a certeza? - Como sabe isso? - Posso ler nos seus olhos bonitos e fiéis, como num livro aberto. Não tem jeito para mentir! Wegener calou-se. "Se você soubesse tudo", pensou ele, "então o conhecimento da natureza humana seria uma ciência rara." Sentia-se grato, porque Elietta não percebia muito disso. Encontraram um pequeno restaurante, um pouco desviado da Via Veneto, onde não havia qualquer luxo nem pretensões; sentaram-se a uma mesa isolada a um canto, encomendaram uma pizza vulgar com tomate e alcachofras, tudo acompanhado por uma garrafa de vinho branco da região. Personificavam a riqueza, mas comiam como camponeses. - Tenho curiosidade de saber mais a seu respeito - disse a condessa. - Que mais haverá? Tem à sua frente um monte com quase dois quintais de peso. - Porque brinca com o seu peso? Vejo os seus olhos, oiço a sua voz, aprecio as suas palavras, sinto a sua superioridade e a sua calma dá-me uma tranquilidade infinita. Os dois quintais são gorduras supérfluas que pode, se e quando quiser, reduzir um pouco. - Você quer-me consolar, Elietta? Mas juro-lhe: vou emagrecer. Assim que regressar à Alemanha, irei logo para uma clínica e sujeitar-me-ei a um tratamento e dieta respectiva. - E depois fica com uma cara enrugada e toda a gente o lastimará em silêncio. Você ficará orgulhoso por ter perdido o peso, mas os seus nervos rebentarão. Porquê, Hellmuth? Tem algum complexo? Ele sacudiu os ombros, mostrando pouca segurança de si próprio. - Sim - respondeu em voz baixa. - E agora, também. - Por minha causa? - Você é a mulher mais bonita que se possa imaginar. Não conheço alguém mais bonito. E eu... - Porque estou aqui sentada consigo, Hellmuth? - Porque você vai ser a minha intérprete em Roma. - Hellmuth, você foge de si próprio! Até sabe perfeitamente que está a dizer agora uma grande mentira. 230 - Não sei. "'••' - Nesse caso, vou-lhe dizer. Agarraram os copos de vinho em saudação muda, olharam-se através deles, durante algum tempo, bebendo em seguida. Após



este olhar, adivinhavam que algo de novo iria acontecer entre eles, mas já não era necessário falar sobre isso. - Vamos - disse ela. Ele pagou, saíram e apanharam um táxi; Elietta indicou um endereço ao motorista e Wegener nada perguntou. Enquanto o carro percorria o trajecto, ela pôs a cabeça no ombro de Hellmuth, que levantou o braço e o colocou à volta dela. O seu calor, o seu corpo, o aroma do cabelo encantavam-no. Permaneceram calados durante todo o percurso, olharam pelas janelas, apalparam-se então e quando ela escorregou mais no fundo e a sua cabeça se ajustou na curva do pescoço do companheiro, colocou a mão dele sobre o seu seio direito. Ele não deixou cair a mão, mas também não a fechou. Só sentia a pele lisa, a curva do seio acabando em bico, a dureza do mamilo, a sensação como se passasse a mão sobre veludo. - Devíamo-nos ter conhecido há muito mais tempo - disse ele, de repente, em voz baixa.- É terrível, se pensarmos que falta tudo na vida, quando o tempo deixa de ser presente e não volta atrás. O carro parou fora de Roma, nas proximidades da Via Appia Antiqua, diante de um palácio rodeado por uma alta muralha. Wegener sentiu palpitações fortes, quando desceram. - É a nossa propriedade de família - anunciou ela. - Da minha. Dos meus pais. - Ah! Sim... - Achar-me-ias com tanta falta de gosto, levar-te para casa do meu marido, de quem estou separada? Esta também me pertence. Ele seguia-a, enquanto o táxi partia de novo. Atravessaram um parque que dava para o pequeno palácio e, antes que ela abrisse a pesada porta gradeada, lançou-se a ele, agarrando-se ao pescoço, e beijou-o. O beijo dela era selvagem, os lábios estavam tão abertos que os dentes morderam-lhe os lábios e ele sentiu o gosto a sangue. Era um beijo como nunca recebera. - Amo-te - murmurou ela ofegante. - Não sei porquê, nada fiz para isto... mas amo-te. - Também me sinto outro ao pé de ti -respondeu ele. 231

- Tudo é tão diferente, tão maravilhoso, é um sonho formidável. Já não sou Hellmuth Wegener. "Irmi", pensou ele, quando Elietta abriu a porta e a luz o mergulhou no luxo de um grande passado. "Uma coisa destas, Fritzchen Leber não pode construir. Irmi! Irmi, estou a enganar-te. Pela primeira vez, há outra mulher além de ti! Talvez seja bom assim, é uma prova do destino. Também sei o que tenho a fazer junto de Elietta. São poucos os motivos para um homem se deixar odiar, mas são os suficientes para ele acabar consigo. Mais tarde, já era manhã, Elietta estava deitada sem fôlego, tremendo ao lado dele. Parecia arruinada, com os cabelos desgrenhados, o corpo brilhando de suor, pequenas mordeduras vermelhas no peito e nas ancas e, a seu lado, Wegener deitado, com o coração a galope, com medo de ter um colapso, com as costas ardendo, como se lhe tivessem batido com um chicote, uma ferida sangrando no pescoço, onde ela tinha chupado e mordido durante o orgasmo. - Nunca vi tal... - afirmou ela com a voz quase infantil que usava quando estava muito sensível. - Realmente, nunca. Mas que amante tu me saíste! Livra, que homem! Ela voltou-se para o lado, beijou o corpo dele, de cima para baixo, assim como a cicatriz na coxa direita, a recordação da Rússia. - Foi a guerra? - perguntou ela. - Sim. Na Rússia. - Faço habilidades com as cicatrizes. Beijou-lhe a cicatriz, chupou-lhe a pele, ele sentiu uma sensação feliz como nunca e uma nova vida animou a sua virilidade. - Outra vez, não - murmurou ela, rastejando para cima dele. - Deixa-me respirar! Dás cabo de mim! Estou completamente arrasada... Mais tarde beberam champanhe, sentaram-se nus ao lado um do outro à cabeceira da cama e beijaram-se depois de cada gole. - Que idade tens? - perguntou ela. - Tenho quarenta e seis anos. - Isso é impossível! Ele inclinou-se, tirou o passaporte do casaco do fato e deu-lho. Ela leu a data do nascimento e tudo o resto e olhou para ele de repente, admirada. 232 - Vem, vem depressa para aqui! Tenho ainda de beijar uma cicatriz... - Uma cicatriz? Qual? - Wegener sentiu, como se subisse nele a sensação de perigo. - Porquê? - Está aqui escrito: cicatriz de tiro na parte superior do braço esquerdo. Dá cá o teu braço esquerdo! Wegener sentou-se, como petrificado. Elietta agarrou-lhe no braço, à procura da cicatriz, mas ali não havia qualquer cicatriz. Mais uma insignificância que o poderia destruir. Cá está uma porcaria sem importância que poderia exterminar tudo. Quem havia de dizer! Uma cicatriz na parte superior do braço esquerdo. - Mas onde está? - perguntou ela, apalpando com os lábios o braço esquerdo dele. - Há anos mandei tirá-la - respondeu asperamente. - Foi uma operação de estética. Sabes: eu sou vaidoso! A cicatriz incomodava-me, quando estava em fato de banho. - E a da anca, não? - Realmente, não. "A cicatriz! Será possível Irmi nunca ter reparado? Ela nunca me falou em tal. Meu Deus, ela sabe, pois, que Hellmuth Wegener foi ferido no braço esquerdo. E não existe qualquer ferida sem cicatriz." Ele afastou o copo de champanhe e deitou-se de costas, enquanto Elietta se punha em cima dele como uma gata e, com flexibilidade animalesca, prendeu-o com as pernas, começando outra vez a chupar-lhe o pescoço e a arranhá-lo com os dentes pontiagudos. Entretanto, ele reflectia: "A cicatriz tem de existir, caso contrário, terei de provocar uma, mesmo aqui, em Roma. Tudo o que Wegener podia ser, tenho de representar - mas não uma cicatriz registada no passaporte. É indelével. É um sinal de reconhecimento. Tenho de mandar provocar esta cicatriz, na parte superior do braço esquerdo! Com dinheiro, e em Roma, tudo é possível." Pôs os braços nas costas flexíveis de pele aveludada de Elietta e apertou-a contra si. O cabelo dela cobriu a cara dele, como um véu, enquanto Wegener ouvia a respiração ofegante, galopante, junto ao seu pescoço, sentindo, de novo, um violento estremecimento percorrendo o esplêndido corpo de Elietta. Agora ela só era desejo, desejo para sentir e se entregar totalmente até à realização completa. - Ficarei doida - murmurou, mordendo-lhe o pescoço como um vampiro. - És tu que me fazes perder a cabeça... 233

Capítulo nono Não só passaram a noite na enorme cama, na qual, como Elietta disse, dormira uma vez o cardeal Sampieri, do que Wegener não tinha qualquer ideia, mas também todo o dia seguinte. Tanto de noite, como de dia, a cama foi o único lugar do palácio onde eles se mantiveram. A condessa Dagliatti, insaciável na sua paixão e cheia de talento para as mais fantasiosas variações, transferiu toda a actividade para esta divisão do palácio. Uma criada jovem, de grandes olhos negros, trouxe café, pastéis, presunto e ovos. Elietta, sem qualquer pudor, nua e com os cabelos soltos, recebeu o tabuleiro à porta do quarto. O mesmo aconteceu à hora do almoço, à tarde e à noite, sendo sempre a mesma criada, de fato preto e avental branco, muito discreta, que nem se atrevia a deitar a vista para a cama, quem trazia o tabuleiro com deliciosos bolos romanos. Hellmuth Wegener passou duas noites e um dia completamente entregue às lides amorosas. Admirou-se consigo próprio e confirmou as esperanças de que também um homem de meia idade pode repetir determinados pontos culminantes da sua vida, sob condições extremas. Elietta - era uma dessas condições. Wegener, por seu lado, perdera os complexos, pois sentara-se na cama, com a cabeça de Elietta sobre as pernas, comendo caviar gelado com pão torrado. Tudo lhe correu tão bem, que sentiu grande orgulho pelo êxito alcançado. Não, a terrível recusa aos abraços de Irmi não se repetiria. Pelo contrário... pois, apesar do peso e da barriga que muitas vezes se interpunha entre ele e o objectivo a atingir e após ritmos selvagens e quentes, ficava encharcado em suor, como se viesse de uma sauna. Nesse momento, encontrava-se nessa situação e, segundo a sua opinião, já admiravelmente pronto, depois de pequenos intervalos de descanso, para abraçar o c

orpo de Elietta e deixar-se levar pela sua fantasia erótica. Três vezes recebeu chamadas telefónicas no quarto. Numa delas, era o signor Betrucci a falar um pouco sobre o bom tempo e que Wegener, em Roma, devia sentir-se como em casa, e as outras vezes era René Seifenhaar a prestar informações sobre assuntos comerciais. Fê-lo com pouca delicadeza e friamente, 235

embora tivesse de saber - à letra - como se encontrava Wegener. - A partir de agora, lambe-me o cu! -exclamou Wegener exasperado, ao atender o terceiro telefonema. - Claro, em sentido figurado, bem entendido! Seifenhaar deu por finda a conversa e não voltou a telefonar, sentindo-se, deveras, ofendido. - És um homem maravilhoso! - murmurou Elietta várias vezes, junto dele. - Meigo, rude, forte e aveludado, pesado como um rochedo maciço e leve como uma pena, quando me penetras. Será que te amo? Sim, amo-te... Na manhã seguinte, Wegener contemplava-se nos grandes espelhos do salão de banho de mármore dos Dagliattis e não compreendia como uma mulher tão maravilhosa como Elietta podia amá-lo. Não podia ser por causa do dinheiro - ela tinha bastante de seu. Também por causa do nome dele, como fabricante, não o era. Em tempos antigos, os condes Dagliatti participaram nas cruzadas e o seu nome já era célebre através dos séculos. Beleza viril em Wegener, também não existia muito: e, apesar de tudo, ela amava-o. Não eram simples palavras, estas confissões balbuciantes pois vinham do seu íntimo, constituíam uma entrega desenfreada. Ao observar o corpo de Elietta esbelto e corado, já exausto, deitado ao seu lado, o cabelo caindo sobre as faces magras, formando um negro véu esfarrapado e um estremecimento percorrendo as suas ancas e rins, fazendo realçar os caracóis pretos e encrespados do seu sexo, calava-se e, em profunda meditação, pensava



em Irmi e não compreendia a razão por que não descobria em si qualquer vestígio de arrependimento ou rebate de consciência. "Amo Irmi", reflectia ele calmamente, enquanto Elietta arranhava com os dedos dos pés a coxa dele, procurando sempre o prazer do seu contacto. "Neste momento, pensar em Irmi é um absurdo, uma loucura mesmo, mas eu amo-a! E amo também Elietta! Não só como corpo, mas também como pessoa. Será isto possível? Pode-se amar duas mulheres ao mesmo tempo, com a mesma disposição psíquica? Sobre isto tenho de conversar com um psicólogo ou um psiquiatra, como sempre, como colega, mas seu cliente. Terei de lhe dizer: caro colega, conheço um homem, com quarenta anos de idade, já feitos, feliz no casamento, tem dois filhos, leva uma vida sem preocupações, não lhe faltando absolutamente nada, tem a melhor mulher do 236 mundo, que, se fosse necessário, iria com ele até ao inferno - e já o provou - mas, apesar disto tudo, ele mantém uma amante e descobre que também esta podia ser sua mulher, sem desprimor para a outra. Ambas formam uma só, fundindo-se numa única pessoa, nascendo daqui um conceito que ele ama: mulher! Acha isto normal? Não se trata de poligamia do homem! Mas é o que está a acontecer! Explique-me logicamente como se pode amar duas mulheres ao mesmo tempo e com todo o afecto do coração! Tomou banho, vestiu-se, depois de muitas horas de nudez, e necessitou de uma hora para fazer lembrar a Elietta que a sua presença em Roma fora para concluir contratos e não para passar noites e dias numa cama Renascença. Finalmente, ela compreendeu, mas prometeu amá-lo sempre, houvesse o que houvesse. Depois chamou um táxi. Mas Wegener não foi para o escritório de Betrucci negociar o contrato - nisto não levaria mais do que uma hora - e conhecer novos associados comerciais. Deu uma morada ao motorista e seguiu em direcção à Villa Doria Bamphili. Ali, num grande parque, encontrava-se situado um edifício branco de dois andares que, do exterior, parecia um complexo industrial. Contudo, era a sede de uma moderna clínica de estética. O médico-chefe, Dr. Mário Salieri, enviou-lhe a chefe das enfermeiras com a incumbência de pedir ao novo paciente para esperar um pouco, porque, naquele preciso momento, fazia uma operação plástica ao peito de uma doente. Wegener sentou-se numa sala climatizada, folheando revistas. Vinte minutos depois, apareceu um homem alto e de aparência superinteligente, com uma bata branca cortada, segundo o estilo Mão. - Chamo-me Salieri - apresentou-se ele. Falava bom alemão e examinou depressa e discretamente o seu novo cliente. Este não tinha o nariz torcido, nem era muito grande, nem muito pequeno. As orelhas, também não se mostravam despegadas. Não era necessário qualquer elevação, nem transplantação da cabeça.. . Seria a barriga? Talvez fosse isso, pois outros estragos não estavam visíveis, mas debaixo de fatos bem cortados pode-se esconder muita deformidade. - Tenho um problema - começou Wegener, quando o Dr. Salieri se sentou em frente. Salieri sorria suavemente. - Então porque me consulta? De que se trata? 237

- Trata-se de uma cicatriz. - Se ela o incomoda, fazemo-la desaparecer e não haverá mais qualquer problema. Tem mais alguma coisa? Talvez esteja interessado em diminuir a gordura da barriga e do traseiro. Se você continuar a comer bem, volta tudo à mesma. Há um método revolucionário, oriundo da América, muito discutido nos círculos especializados, mas garantido para manter a elegância: extrai-se um bocado do intestino delgado, a passagem torna-se mais rápida, os alimentos já não levam tanto tempo no fenómeno químico... Só existe um óbice: esta operação nunca será feita na minha casa! Posso corrigir a natureza caprichosa, mas não estou interessado em mutilar, seja quem for. - Preciso de uma cicatriz - disse Wegener, levantando-se como se estivesse de saída. O Dr. Salieri olhou-o, como se o seu visitante fosse um doido. - Afinal, o que pretende o senhor? - Quero que me faça uma cicatriz na parte superior do braço esquerdo. Tem de parecer como se fosse uma cicatriz de um tiro levado há vinte anos atrás - Wegener inclinou-se. - Pode fazer isso, doutor? - Posso fazer tudo com a faca. Mas - perdão - antes não será melhor consultar um psiquiatra? - Esta reacção já esperava eu e compreendo perfeitamente; também estudei medicina, mas não concluí o curso. - Wegener tirou o seu livro de cheques da algibeira, pondo-o em cima da mesa, num gesto já muito conhecido e bastante usado. - Preciso de uma cicatriz na parte superior do braço esquerdo, mas com urgência! - Como alibi? ; -A conclusão é sua, colega. - Em dinheiro alemão, isso perfaz a quantia de quatro mil DM. - É uma cicatriz muito cara. Na Rússia recebê-la-ia de graça! . -As loucuras voluntárias custam sempre dinheiro replicou o Dr. Salieri com um sorriso cortês.- Para quando deseja a operação? Imediatamente? - Para o dia vinte e nove de Setembro. - Mesmo nesse dia? - Sim, porque nessa data partirei para Hong-Kong. - Ah! Ainda por cima vai para Hong-Kong? •>., 238 - Sim. Quanto tempo precisa, caro colega? - Para gravar a sua cicatriz? Isso dura um segundo. Mas para fazer com que uma cicatriz pareça ter a idade de vinte e dois anos, já é mais difícil. Digamos, duas semanas. - E depois, garante-me que a cicatriz de tiro pareça mesmo real, aos olhos dos outros? - Se tratar mal o seu próprio corpo e não aparecerem complicações, isso pode ser possível. Mas, antes, tenho de fazer alguns testes à sua pele. Com certeza que sabe bem quantas possibilidades há de formação de cicatrizes... Wegener sacudiu a cabeça. Nada sabia sobre o assunto, mas confiou no Dr. Salieri. - Então, até Setembro - disse ele, levantando-se. Salieri fez o mesmo. - Não! Os testes faço-os imediatamente. E depois estudo o seu caso e essa maldita cicatriz. Quem lhe falou em mim? - Foi o signor Betrucci. - On! Você conhece o Betrucci... - Somos associados comerciais, mais nada - Wegener fez um esgar e Salieri sorriu ironicamente. - Acompanhe-me, por favor -pediu Salieri. A pequena sala de operações, na qual Salieri procedeu a pesquisas antecipadas ou prova de tecido, fora instalada à prova de som, climatizada e com todos os requisitos modernos. O Dr. Salieri não chamou qualquer enfermeira, ou médico assistente. - Isto, fazemos sozinhos - disse ele.- Dispa-se, por favor. Esperou até Wegener se despir, olhando em seguida, perplexo, para o corpo maciço. - Gosta de brincar com feras? - perguntou ele. Wegener sentiu-se corar. - Pode começar, colega - murmurou ele entre dentes. Salieri andou à volta dele e inspeccionou-o como se quisesse comprar um escravo. - Tem bastantes manchas... que quase parecem dentadas. Ela é assim tão temperamental...? - É esse o seu teste? - resmungou Wegener, e irritou-se, porque corou. - Madonna, deve ser uma mulher formidável! -exclamou Salieri, sentando-se em frente de Wegener, numa cadeira giratória. - Não tem receio do seu coração? Esta mulher é uma pantera! 239

Observou o corpo de Wegener, examinando com ar entendido os arranhões causados pelas compridas unhas de Elietta, e pareceu ficar satisfeito. - As feridas foram feitas há cerca de três horas - declarou ele. - O primeiro arranhão já cicatriza. Tem uma boa carnadura, colega. - Creio que é um génio, doutor Salieri - comentou Wegener, vestindo-se outra vez. - Os seus cálculos estão certos. - As minhas contas, também - respondeu Salieri, sorrindo amavelmente. - Portanto, no dia vinte e nove de Setembro. Reservo-lhe um quarto de pessoa só, no pavilhão dos quartos particulares. A sua cicatriz não se pode mostrar às visitas. Isso faz-se entre nós. - Agradeço-lhe, doutor Salieri - respondeu Wegener, aliviado.-E não continua a fazer perguntas? - Não. Você não é um gangster, a quem tenho de modificar a cara! A maioria das pessoas vêm cá para suprimir cicatrizes. Você pretende exactamente o contrário! Um caso destes só surge uma vez na vida, na história da cirurgia estética. Espero que em Setembro próximo me conte algo mais sobre esta cicatriz... - Talvez - Wegener voltou a cabeça.- É tudo? - Sim, tudo -Salieri acompanhou-o até à frente da casa, onde o táxi esperava. Estendeu a mão a Wegener e segurou-a. Emagreça - aconselhou ele.-Emagreça, colega! É radical! Estou preocupado, porque o seu coração adiposo é capaz de não aguentar, por muito tempo, o ataque desse tigre fêmea. O seu corpo suporta bem as unhas, mas, como se trata de toques do amor, palpitações excessivas do coração podem dar origem a problemas muito graves! - Dentro de duas semanas irei para as termas e sujeitar-me-ei a dieta especial. Já me assusto, só de me ver ao espelho. - É casado? - Sim e sou realmente feliz! - Tem uma esposa amorosa e uma fera como amante... É caso para invejar. Você deve ser pretendido pelo género de mulheres que amam homens cega e incondicionalmente. Isto é muito raro, nos tempos que correm. Apesar disso, não pode aguentar tal tipo de vida. Sacrifique-se um pouco por si... e pelas suas mulheres. 240 Hellmuth Wegener ficou ainda quatro dias em Roma... portanto, mais quatro dias do que tinha planeado. Disse a Irmi que se arrastavam as negociações com os novos associados da Tunísia e do Egipto, que eram todos rapazes formidáveis, do género antes quebrar que torcer. Ao Dr. Schwangler disse: - Roma recebe-me bem. Contei a Irmi que... - Eu sei, eu sei - respondeu Schwangler, rindo, ao telefone. - Irmi tem pena de ti. Tanto trabalho numa Roma tão quente! Ele até me telefonou a perguntar-me se não devia ir... - O que quer ela? - berrou Wegener do outro lado do fio. Edi, peço-te... - Por quem me tomas? - perguntou Schwangler quase ofendido. - Com certeza que lhe tirei isso da cabeça, pois reconheceu que ficar sentada no hotel, enquanto trabalhasses, não tinha qualquer interesse. E quanto ao resto: como vai isso? - Está no fim!-preveniu Wegener ao telefone, mas não desligou. - René tem-me informado de tudo. Ao que parece estás ocupado em conseguir o distintivo de bode dourado... Desta vez Wegener calou-se e sorriu. "Modifiquei-me", pensou ele. "A mulher mais bonita de Roma, morde-me... Só o impulso que isto dá a um homem! Não sou velho, mas não sou já muito novo e, apesar disso, é como se não corresse nas minhas veias sangue, mas sim essência de rosas." "É uma situação arrebatadora, tão fácil de deslizar, uma imensidade paradisíaca num corpo humano. Todo o mundo se modifica. Continua-se a viver e a morrer-se nos braços de mulheres belas, como esta. Todos me podem ver, todos me podem falar, existo e contudo estou tão completo nela, nesta mulher, que, de repente, compreendo: uma pessoa pode dividir-se em diferentes partes sem que se note." À noite regressou ao palácio dos Dagliattis, na Via Appia Antiqua. No salão verde, Elietta esperava-o já com um fato dourado e calças estreitas, deixando prever que ela estava nua por baixo. Dormira todo o dia, repousara e agora estava muito alegre. Ao beijar Wegener, mordeu-o no lábio superior e enterrou as unhas pelo tecido do fato, nas costas. Com o impulso do beijo, empurrou o seu corpo contra o dele, que de novo sentiu toda a vibração dos seus nervos. - Passei um dia inteiro sem ti... já não aguento isto! 241

exclamou ela. As ancas vibravam, como se fossem percorridas por choques eléctricos. - Não me deixes outra vez só um dia inteiro. Tens de me levar contigo. Já fico satisfeita, quando te posso agarrar, tocar-te com as pontas dos dedos, ouvir a tua voz, ver os teus olhos. Ó meu Deus, como somos loucos... Nesses quatro dias não diminuiu a sua força paradisíaca. Amaram-se, como se esperassem o fim do mundo ao raiar do dia. Mas estavam menos animados do que nas primeiras horas de encontro. Ela já não mordia, nem arranhava, já não o chupava, deixou-se indolentemente acalmar no confranger do seu corpo. - Ela verá isso, quando regressares a casa - disse-lhe uma vez. - Tão louco, que nem sequer te ocorreu: devemos refrear-nos. O que lhe dirás quando ela vir as manchas e os arranhões? Ela... era Irmi. Wegener já tinha pensado quais seriam as justificações mais fidedignas. Era evidente Irmi imediatamente reconhecer esta espécie de lesões, porque ela própria hoje já não era uma amante sofredora, só capaz de ternuras suaves. Também para Irmi e Hellmuth havia noites de verdadeiras explosões amorosas, mas tornavam-se cada vez mais raras, sem eles poderem dizer porquê. Perdeu-se completamente a paixão dos primeiros tempos; muitíssimas vezes tal aconteceu e quando ele vinha da farmácia ou da fábrica, Irmi despia-se estremecendo de paixão e mergulhava no divã da sala-de-estar. Mas tal como agora, com Elietta, em que, cheios de desejos lascivos, dias e noites deslizavam um para o outro, isso ele nunca experimentara. Tentava lembrar-se e pensava nas horas em que sentira saudades de Irmi, saíra da fábrica para casa, andava às voltas, dizia qualquer coisa, como se procurasse algo e, de novo, saía no carro. Ao regressar mais



tarde a casa, notara já nada ser possível e, quando beijava Irmi com verdadeiro desespero, tentava, a todo o custo, através do contacto dos corpos, voltar a despertar esta saudade estimulada, mas verificava a impotência do seu organismo. Nessa época vivia em pânico constante, até àquela cena terrível de há alguns dias, ao deitar-se a chorar ao lado de Irmi, aniquilado pelo fracasso. Magnífico foi o seu novo despertar, foi a consciência de poder triunfar ainda sobre uma mulher, destruindo, por um certo tempo, a ideia de que não era capaz de cumprir a sua função. Quatro dias depois, René Seifenhaar, o signor Betrucci e Elietta Dagliatti levaram Hellmuth Wegener ao aeroporto. 242 Betrucci e Seifenhaar mantiveram-se discretos à despedida. Ali encontraram-se todos; a despedida causou sensação que não se ligava a modificações hormonais. - Quando voltarás? - perguntou Elietta. Pendurou-se ao pescoço de Wegener, não se importando que toda aquela gente olhasse para ela. Muitas pessoas conheciam-na, principalmente os empregados do aeroporto, pois a condessa Dagliatti pertencia às individualidades VIP, que se sentiam tão à vontade num hall de aeroporto como em casa. - Em breve - respondeu Wegener, olhando de soslaio para o lado.- Muito em breve, porque normalmente farei o percurso entre Colónia e Roma e vice-versa. - Amo-te! Amo-te! - Elietta! Repara nas pessoas... - Para mim, é completamente indiferente! Pois muita gente já nos viu! Amo-te! No fundo, não devias partir. Amanhã endoidecerei sem ti... - É impossível! - Sim. Eu sei, sei, sei... As tuas fábricas, a tua profissão, a tua mulher, os teus filhos, o teu mundo, que tu organizaste! - Assim é! "' - E sei também que nunca te divorciarias... Ele olhou-a surpreendido. Nisso, nunca pensara. - Não! - replicou asperamente.- Não! Nunca me divorciarei de Irmi. Só se fosse por sua iniciativa e, neste caso, teria de aceitá-lo. Agora até tinha razão para isso! Mas eu? Por minha parte, não! Amo a minha mulher. Além disso, muita coisa nos iria desunir além do matrimónio! - Mas eu amo-te! Já não me conheço a mim própria! Toda a minha vida se modificou por tua causa e nestes dias! Penso com o teu pensamento, vejo o mundo com os teus olhos, sei já como pões a cabeça, quando atendes o telefone, como reages, quando estás embaraçado, sei como resmungas quando estás excitado ou algo te pesa, conheço a tua cor preferida e sei que te podes sentar impassível quando se ouve um concerto de piano de Beethoven ou Tchaikowsky... Sei já muito de ti, estou toda em ti... Quando voltas? - Dentro de três semanas - prometeu ele, só para acalmá-la. Soltou os braços dela do seu pescoço e olhou para o grande relógio na parede e para o horário dos aviões, colocado ao lado. As lampadazinhas anunciando a partida do avião para Colónia piscavam. 243

Soou a última chamada. - Tenho de ir - disse ele. - O avião não espera. Meu Deus, deixo aqui um bocado de mim! Beijou-a, mais uma vez, e afastou-a de si, agarrou na mala de cabina e correu para a sala de embarque. "Corre, corre, corre, não olhes para trás... senão voltas para ela e começa o grande drama. Sabes que ela está ali e acena-te, ela corre de um lado para o outro, junto à interdição, para te ver até ao fim. Não olhes para trás, já não terias coragem de ir para o avião. Tens de embarcar para Colónia! Para Irmi, para Peter, para Vanessa Nina, para as tuas fábricas, para o teu trabalho, para o grande êxito da tua enorme e nunca apagada mentira! Tens de ir! Foste sempre uma pessoa de juízo - isso salvou-te sempre! Salva-te agora, também! Sê sensato ainda! Nada obsta a que ames a mulher que está lá para trás, junto à multidão. Amas até à loucura. Pois tudo o que aconteceu com Elietta nestes dias em Roma é uma espécie de loucura. Corre, rapaz., corre! E não olhes para trás!" Passou pelo controlo de passaportes, pela alfândega e respirou fundo, sentindo o coração a bater mais compassadamente, quando se sentou no avião, num lugar à janela, donde podia olhar para fora, para a tribuna dos visitantes. Ela era uma mancha colorida entre as centenas de pessoas e continuava ali a acenar, mesmo quando o avião começou a rodar na placa de estacionamento. "Mas não a vejo desta distância, o seu aceno está entre o de muitos outros braços. Mas eu sei, eu sei que ela está além e pensa: Amo-te! Amo-te! Recostou-se melhor e afastou-se da janela. A hospedeira distribuía jornais. Agarrou num, em inglês, mas nada sabia dessa língua e limitou-se a ver as fotografias e bonecos. "Como foi possível tudo isto ter acontecido?", pensou. "Roma partiu-me aos bocados. Transformei-me numa pessoa dupla ou, mais precisamente até, tripla. Irmi, eu amo-te. Elietta, eu amo-te. Quando endoidecerei?" Adormeceu um pouco com o ruído monótono dos motores e despertou quando alguém lhe sacudiu os ombros. Olhou e viu uma cara um pouco inchada, tendo a sensação de já a ter visto em qualquer lado. - Será possível?!-bradou o homem, sem cerimónia, sentando-se no lugar vago ao lado de Wegener e batendo-lhe no ombro. - Eh! Pá! Peter! Depois de tantos anos! E ainda por 244 cima, em pleno voo! Ia aos lavabos, vi-te e pensei: conheces aquele. Na verdade, não tão gordo, mas vá lá! E depois de mijar, lembrei-me: este só pode ser o Peter da 3.a Companhia de Baranowitschi. Eh! Pá! Tu és pois o Peter Hasslick?! Puseram-nos juntos na lama! Já não me reconheces? Sou o Rudi Velbert, o 1.º cabo Velbert! Como o mundo é pequeno, meu velho! A sua alegria era tão grande como se tivesse ganho um milhão na lotaria. Nas veias de Wegener o sangue gelou. Passaram-se mais de vinte anos e ali se encontrava, ao lado dele, alguém que o conhecia com o nome de Peter Hasslick. Ele sempre previra ter de enfrentar uma situação semelhante. Não se vive só no mundo e havia bastantes sobreviventes da 3.a Companhia. Mas vinte anos se passaram, a sua fotografia apareceu nos jornais e ninguém se apresentara a desmascará-lo: este não é Wegener, mas sim, Hasslick! E agora, no avião de Roma para Colónia, voltava o passado de novo a vir ter com ele. - Eu... eu não me posso lembrar - murmurou Wegener perturbado. Todos os documentos que examinara, referentes ao caso, não o inculpavam. Rudi Velbert riu agradavelmente. A sua cara inchada ficou vermelha. - Mas tu estavas na 3.a Companhia em Baranowitschi! Eh! Pá! Roubámos juntos o ganso! Já não te lembras do camponês russo que tinha um ganso escondido, mas ouvimo-lo, durante a noite... Peter, como estás?! Pareces brilhante! Não eras serralheiro? E agora tens uma fábrica, não é? Que maravilha de economia! E o que fabricas lá? Parafusos, molas e outras peças? - Encostou-se e cruzou as pernas. - Eu moro em Hamburgo e tenho o consultório em St. Pauli, pois sou advogado. Depois da guerra consegui concluir a licenciatura em direito. Mas, de qualquer modo, a situação não é favorável, pois nunca ganhei muito. Agora defendo prostitutas e rufias... não é bom negócio, mas vai-se vivendo. Já dá para o uísque e para as mulheres, ah! ah! ah! Ainda moras em... em, como se chama o sítio? É algures na Vestefália, não é? - Osnabrilck... - respondeu Wegener surdamente. - É isso! É isso mesmo, Peter! Era bom nos voltarmos a encontrar! É pena eu ter de mudar de avião em Colónia e apanhar a ligação para Hamburgo. O que teríamos de contar um ao outro! Continuas depois a viagem de comboio para Osnabriick? 245

- Não, estão à minha espera aqui. - É mais cómodo. O Dr. Velbert aceitou uma chávena de café que a hospedeira lhe trouxe. Wegener recusou, porque sentia a garganta apertada. - Deseja qualquer outra coisa, senhor Wegener? perguntou a hospedeira. - Não, obrigado!-respondeu Wegener com voz sumida. O abismo cavou-se. O Dr. Velbert, espantado, arregalou os olhos para Wegener. - O que disse ela? Wegener? - Deve ter confundido o meu nome. - Wegener! Na nossa Companhia tínhamos um alferes Wegener. É isso: Hellmuth Wegener. Era bom rapaz! Vocês até eram amigos. O Wegener não era estudante de medicina?! Com a retirada, ficou tudo em confusão e vocês foram dados como desaparecidos, como se dizia na época. Diz-me: qual a razão por que ela te chamou Wegener? - o Dr. Velbert voltou-se para o outro lado. - Afinal, tu és o Peter Hasslick, ou corto já os... rentes! O Wegener era um bocado diferente... - Pousou a mão no ombro de Wegener, puxando-o mais para junto de si. - Eh! Pá! O que se passa? Ora, conta lá! Qual é o teu papel no meio disto tudo? Não sou nenhum atrasado mental! Estou a ver que vocês ambos fizeram um truque. Espera! Deixa cá o Rudi trocar isto em miúdos! "Este já me apanhou", pensou Wegener friamente. "Apanhou-me completamente. Não há qualquer buraco por onde escapar! Quer dizer: tu ou eu... Ou, nós ambos ?'' - Em que te ocupas, Hellmuth Wegener? - perguntou o Dr. Velbert maliciosamente. - Já és médico-chefe?! Onde ficou Peter Hasslick?! - Hellmuth morreu no corredor de uma escola em Orscha, porque uma médica soviética não teve tempo para o salvar respondeu Wegener em voz baixa. O Dr. Velbert mal o ouvia. - E tu ficaste com os documentos dele e quem morreu foi o Hasslick! - concluiu Velbert com a lógica de um advogado. Está tudo muito bem. Mas porquê? E depois, o que passaste a ser? Alferes? E quando foste feito prisioneiro dos russos? Nunca foste muito estúpido! - Muito obrigado - respondeu Wegener e pensou para si: Não vale a pena esquivar-me. Para ele é fácil descobrir o que 246 Wegener fez". E acrescentou em voz alta: -Passei a ser o Hellmuth, quando ele morreu. - Vocês fizeram a troca antes? - Sim. - Mas porquê, por amor de Deus ?! Isso não faz sentido! - Agora tenho uma farmácia, um negócio de medicamentos e três fábricas de produtos farmacêuticos. - Ah! - exclamou o Dr. Velbert examinando Wegener e depois olhando-o de frente. - Mas tudo isto é formidável! Parabéns, Peter, ou será melhor dizer Hellmuth? - Se te puderes habituar a Hellmuth... - Mas, imediatamente! Eu sou o homem mais flexível que conheço! E comigo - discrição! Como advogado, Hellmuth! Existem três confessores: o padre, o médico e o advogado.- O Dr. Velbert entregou a chávena de café vazia e tamborilou com os dedos nas costas do lugar da frente, onde não estava ninguém. - Como já te disse, sou advogado em St. Pauli: advogado de prostitutas! Nunca imaginei chegar a tal. Mas se a uns entra ouro pelo cu acima, os outros têm de bater com o focinho na merda. Porém, não estou completamente inocente, Hellmuth. Mulheres, bebidas alcoólicas, algumas histórias escuras de rufiões... Desce-se mais depressa do que se sobe. Mas isto não é o meu estilo, porque os meus projectos eram bem diferentes. Calou-se e continuou a tamborilar. De repente olhou para Wegener e perguntou-lhe:-Não precisas, nas tuas três fábricas, de um jurista? - Não - respondeu Wegener asperamente. - Qualquer lugar para um advogado? - Não há nada. - Mas é impossível! Numa das três fábricas! - Pergunta ao meu chefe do pessoal! - Mas que grande organização! Com que então, chefe do pessoal! E quem é o chefe de tudo? És tu! E mandas-me ao...? Hellmuth, pensa bem e vê se não tens algum lugar vago em qualquer lado! - Para isso não tenho influência. - Ah! Sim!-O Dr. Velbert recostou-se. - Nota-se que a guerra já foi há vinte e tal anos! A camaradagem foi-se à viola! - Não digas disparates! - Chafurdo na porcaria, Hellmuth, e tu podias-me livrar de apuros! 247

- Mas vais a Roma, quando está tudo tão sujo? - Fui lá para tentar arranjar alguns clientes... Sou um passador. Imagina bem: sou jurista, passei em todos os exames com muito bom. Mas para que serve isso? Para me tornar um passador, com meio quilo de heroína cosido no forro do casaco... - Rudi, não deves dizer isso - aconselhou Wegener. O Dr. Velbert olhou-o quase divertido. - Porque não? Queres denunciar-me? Pretenderá Peter Hasslick, que agora se chama Hellmuth Wegener, aniquilar o passador de heroína, doutor Velbert? Isso dá muito pano para mangas! - Heroína! Não sabes as desgraças a que isso conduz? - Para mim, é o mesmo. Quero é que me paguem, até porque o meu destino não é brilhante. - Então, livra-te disso, Rudi! - Pois é justamente o que pretendo! E com a tua ajuda! Foi o jcéu que me mandou vir ter contigo, Hellmuth. No verdadeiro sentido. Estamos em pleno voo. Com três mil DM líquidos ficaria contente. É alguma ofensa pedir-te tanto? Mas prometo-te que trabalharei! Merecerei o dinheiro que ganho. E depois, somos camaradas, Peter-Hellmuth... Wegener calou-se. Peter-Hellmuth, era a ameaça que ele esperava. Já era um sinal! - Faz alguma coisa, senão haverá bronca! Nada tenho a perder... - Telefona para este número - disse ele, escrevendo nas costas do saco de papel para o enjoo o número de telefone do Dr. Schwangler. - Fala em mim. - A quem pertence este número? - Ao meu procurador-geral. - Soa bem. E o nome dele? - Doutor Schwangler. - É jurista? - Sim. - Obrigado, Hellmuth -O Dr. Velbert deu-lhe, de novo, uma palmada no ombro. - Obrigado. Em Colónia, Irmi, Peter, Vanessa Nina e o motorista aguardavam Hellmuth Wegener. O Dr. Velbert, que mudava de avião para apanhar a ligação para Hamburgo, despediu-se de Wegener, conscientemente exaltado. Cada um devia ver como estava o outro. Além disso, perguntariam pela senhora loura e ele devia estar preparado para 248 dar a resposta adequada. A ponte não foi só cortada, resistiria também. Irmi! Como parecia bonita! Um vestido novo, um penteado diferente... tudo para lhe fazer surpresa. E nos fatos dele ainda existia o perfume de Elietta. Beijaram-se, ele disse-lhe como estava amorosa e de repente sentiu saudades da outra. Peter e o motorista foram buscar as malas, Vanessa Nina, agarrada à mão do pai, roía já um chocolate romano. - Pareces cansado - observou Irmi. - Estás exausto e com olheiras. Tiveste problemas com o aparelho circulatório? - Não. Sinto-me bem! -respondeu, rindo grosseiramente. Meteu as mãos nas algibeiras das calças e dirigiu-se para a saída. - Roma foi fatigante, com certeza - afirmou ele. Reuniões e mais reuniões. Para a próxima vez vai lá o Edi! Não sou do tipo de aguentar negociações, sentado à mesa, durante horas e horas! Assobiou baixinho e continuou a andar. Irmi percebeu que ele estava pensativo, porque o seguia a três passos de distância. "Alguma coisa fracassou", pensou ela. "Assobia baixo! Está nervoso, excitado, intimamente ferido. E assobia! E é isto o sexo forte! O que se teria passado em Roma? Ele não pode mentir, porque os seus olhos revelam tudo. Tem de se tratar com ele muito cuidadosamente." À noite, Wegener dormiu como um urso, sem ter tocado em Irmi. Mas ela ficou acordada, observava-o calada e tentou ler algo na sua cara. Embora estivesse uma noite quente, ele vestiu um pijama fechado até acima. Mas ela não reparou neste facto. "Roma", pensou ela, "só Roma. Aconteceu qualquer coisa em Roma..." Por fim, adormeceu, muito cansada. Quando acordou, Wegener já estava vestido e lia o jornal da manhã, lá em baixo, ao tomar o pequeno almoço. A sorte estava, desta vez, do seu lado: Irmi não lhe tinha visto as costas arranhadas. Três dias mais tarde, disse o Dr. Schwangler: - Telefonou-me alguém que se referiu a ti, um tal doutor Velbert, de Hamburgo, a quem prometeste um emprego numa das nossas casas. - E então? - Despachei-o. O gajo ou estava embriagado ou tinha estupefaciente no corpo. Nunca ouvi coisa tão disparatada. Conhece-lo, de facto? 249

- Sim - respondeu Wegener à toa. - Foi primeiro cabo na minha Companhia, na Rússia. Encontrámo-nos, por acaso, no voo de Roma para Colónia. - Em todo o caso, não é homem que nos sirva.- O Dr. Schwangler abriu a primeira página da acta de um processo. Era a informação matutina: despacho com o chefe, como tal se designa, nas grandes empresas. - Vê lá, a esta hora e já embriagado! Disse mais ou menos: "Caro colega, telefono-lhe de um bordel..." - Talvez estivesse de facto num antro desses! -respondeu Wegener. - O que há de novo? O Dr. Schwangler fixou-o entusiasmado. Pela primeira vez, Wegener não lhe dissera: Nem uma palavra, seu porco, e sai já daqui!" Qualquer coisa não batia certo. Dois dias mais tarde, Wegener recebeu uma carta particular de Hamburgo. "Encontro-me, outra vez, no meio de uma merda, camarada", escrevia o Dr. Velbert, e em toda a linha: "Necessito urgentemente de 10.000 DM!" E Hellmuth Wegener pagou. O signer Betrucci endurecera nos últimos tempos a sua posição, tornando-se um associado bastante difícil, perdido mesmo: Hellmuth Wegener, nos meses seguintes, foi várias vezes, por alguns dias, a Roma, para tentar "restabelecer a ordem", como ele dizia. Das suas quatro semanas de cura de emagrecimento nas termas, com dieta especial, num sanatório no Tegernsee, incluíra cinco dias em Roma, onde esteve deitado nos braços de Elietta. Sentia-se como um jovem deus e amava dionisicamente; várias vezes era a condessa Dagliatti quem se rendia e lhe suplicava para ele não lhe tirar o fôlego. Mesmo assim, emagrecera facilmente quinze quilos, a barriga quase desapareceu até à indicação do médico-chefe: - Nunca conseguiremos eliminá-la por completo. A sua tensão arterial é sempre variável e o peso tende a baixar. Felizmente, tudo começou a normalizar-se e, quando se via ao espelho, a imagem reflectida mostrava uma cara demasiado magra, é certo, mas um corpo que lhe permitia trajar de novo 250 fatos mais cintados. Já não tinha a mesma figura dos vinte anos, tal era impossível, mas, como bom quarentão, já podia valer alguma coisa, o que foi confirmado por Elietta. Depois de mais uma dentada e chupadelas, deitou-se em cima dele, apertou-o com os braços e as pernas e sussurrou-lhe ao ouvido: - És um belo homem! Não me importava morrer, quando me abraças! Roma! Hellmuth Wegener pensou no dia 29 de Setembro, marcado pelo Dr. Salieri para a operação da cicatriz de tiro na parte superior do braço esquerdo. E quanto mais se aproximava a data, mais tinha a certeza de que este dia também significava o fim do seu amor por Elietta. Não se podia explicar a razão por que mandara provocar a ferida, ela vira o seu passaporte e descobrira que faltava a cicatriz -e então seria feita uma ferida no braço, havendo ainda a possibilidade de anular tal, porque Irmi nunca se preocupou com a cicatriz, talvez nem sequer soubesse que ele devia ter uma e não há qualquer mulher que chegue a verificar no passaporte do marido uma coisa dessas. Irmi só conhecia a grande cicatriz na coxa direita, sabia de um ferimento de Hellmuth Wegener, mas se era no braço ou na coxa, os vinte anos passados encarregaram-se de esquecer isso. Só Elietta constatara este facto e a explicação desajeitada dele fora absorvida pelas meiguices vulcânicas desse momento. Nunca mais falou no caso, mas faria isso se ele aparecesse de repente com uma cicatriz com aspecto antigo. No dia 10 de Setembro, Wegener foi, pela última vez, à casa de Elietta em Roma. Ele não sabia o que devia dizer, não havia qualquer motivo para se despedir dela, pois era-lhe fiel, tal como René Seifenhaar relatara. No entanto, ela ignorava todas estas diligências, vivia no seu palácio ou passava o tempo nos salões de moda de Roma, como uma esposa feliz, não havendo nada que ele lhe pudesse apontar, o que facilitaria mais a separação. Além disso, ele amava-a e só tinha de a sacrificar, porque o passado alcançava-o e tinha de duplicar o seu trabalho. Com o Dr. Velbert podia estar descansado, era um problema financeiro, fácil de ultrapassar... Mas a cicatriz era um pesadelo; sem ela, não podia ser Hellmuth Wegener. Para o inevitável não havia sacrifício muito grande - embora se chamasse Elietta. Wegener pronunciava esta frase estúpida várias vezes, até ele próprio acreditar nela. Mas quando, no dia 10 de Setembro, 251

cerca das 11,39 horas, viu Elietta no aeroporto, sabia que nesse dia devia aniquilar uma parte do seu "eu". Foi mais simples e mais rápido do que supunha. Quando chegaram ao palácio não caíram em cima um do outro, como noutros tempos, mas sentaram-se calmamente no profundo sofá de damasco; era um sinal de que ambos sabiam ter chegado o fim de tudo. A criada serviu café e pastéis, desta vez no salão e não em frente da porta do quarto de dormir. Beberam um pouco, sem falar, fixaram o olhar no tapete de seda, sentindo já, de novo, saudades um do outro. - Porque não o dizes? - perguntou ela finalmente. A sua voz soava infantil, como sempre, quando Elietta, no esgotamento do amor, se deitava ao lado dele e lhe dizia: "Dá-me um cigarro, urso querido..." - O que devo dizer? - perguntou Wegener. Sentia o coração a bater descompassadamente contra as costelas. "Será isto um enfarte miocárdio?", pensou. "Meu Deus, não aguento isto! Contudo, não a posso deitar fora, como um pedaço de papel. Não a vou tratar como uma prostituta. E ninguém me ajuda. Ninguém!" - Diz o que pensas - retorquiu ela em voz baixa. - Não tenho argumentos. - A tua mulher? - Isso em nada altera o caso. Eu amo-a e amo-te! - Mas quero-te só para mim! É um argumento?! Ele fitou-a e não a compreendeu. - Sabes...-começou, sem convicção. - Não quero saber de nada! Tens algum motivo? - Porquê? Queres fornecer-me algum? - O teu amigo telefonou-me. Esse doutor Schwangler... - A voz dela tornou-se infantil, quase chorosa, mas dominou-se. - É um mestre de argumentação. - Isso é verdade. - Podia segui-lo. - Ela encostou-se e fechou os olhos. Como sempre, estava nua debaixo do fato-calça dourado. Ele viu as pontas dos seios e a leve curva do seu colo. "Conheço todos os pontos deste corpo, pensou ele, 'todos os sinais escondidos, todos os estremecimentos nervosos. Será possível um homem desligar-se disto tudo?" - Sabia tudo desde o princípio - começou ela, juntando as 252 mãos. - Mas lá chegou a hora. O amor é a coisa mais egoísta que existe, mas tu deves pensar de maneira diferente. De ti depende a tua pessoa, a tua colocação, os teus trabalhos, o teu futuro... - Foi o que Schwangler disse? - Sim, mais ou menos. Eu tinha de compreender isso. No princípio pensei que não conseguiria sobreviver a esta prova. Não me queria afogar no Tibre, lançar-me do Coliseu, cortar as artérias no banho, beber veneno... Não queria passar por tal! Mas, como vês, estou aqui sentada, completamente sossegada e a falar contigo sobre o assunto. Porque sou capaz... eu própria não compreendo. Talvez te ame tanto, que mesmo a separação seja um acto de amor, a maior prova de amor que te posso dar... - Elietta, sou um porco - confessou Wegener. A sua cara estremecia, era impossível manter-se calmo.-Sou um porco sujo... Deita-me fora! Corre-me a pontapé! Trata-me como mereço! Assim, era mais fácil! - Continuas a ser o meu urso grande e forte... - Ela saltou, correu para a porta e abriu-a. Wegener seguiu-a com o olhar. Parecia um tigre atirando-se contra as grades da jaula. - Já não posso mais! -gritou ela. -Vai-te embora, urso! Vai, vai, vai! Mato-te a ti e a mim, se ficares, juro-te! Aqui, na gaveta, está uma pistola carregada. Meu Deus, ó Madonna... só te queria matar! - Talvez fosse o melhor - respondeu ele com voz surda. - E o teu Complexo Euromédica? A tua mulher, os teus filhos? Mereço assim tanto? - Sim. - Sai já daqui! - bradou ela, mostrando-lhe a porta aberta e estendendo o braço. - Sai já, seu idiota! Não te matarei! Ele levantou-se como um velho cansado, deu alguns passos na sala e parou diante dela, junto à porta aberta. -E tu? - Eu também. Há bastantes amantes por aí! - Elietta! Ela deu-lhe um empurrão no peito, que o fez cambalear até ao grande átrio da entrada, e atirou-lhe com a porta, trancando-se por dentro. - Elietta! -gritou ele, batendo com os punhos na porta.- Se pegas na pistola... Não ouviu qualquer resposta. Esperou mais de meia hora em frente da sala, como um cão, e, como não ouviu qualquer tiro, 253

foi-se embora. Ninguém se despedira dele. Só o táxi continuava, lá fora, à espera, em frente dos muros do palácio. O motorista, vendo o cliente aproximar-se, disse-lhe: - Signer, isto dá uma boa maquia. Já estou aqui há duas horas... - Vamos embora!-gritou Wegener, atirando-se para dentro do carro. - E se me levar contra uma árvore, à velocidade de cento e quarenta quilómetros por hora, ofereço-lhe um milhão de liras! O motorista olhou-o de soslaio, sorriu calado e continuou a conduzir calmamente. Um italiano compreende sempre homens desesperados. No dia 29 de Setembro, o Dr. Salieri provocou uma magnífica cicatriz de tiro na parte superior do braço esquerdo de Wegener e preparou-a para parecer antiga. Salieri marcou a operação para depois das horas normais de serviço, depois das visitas nocturnas. Na sala de operações só estava uma jovem assistente e anestesista. Era uma moça de cabelos negros e de pernas compridas, para quem Wegener, depois de cumprimentar, olhou furtivamente. O Dr. Salieri sentou-se em frente de Wegener, numa cadeira laçada de branco, para melhor lhe ver o tronco e apalpar-lhe, ao de leve, a barriga ainda abaulada. - Tal como prometeu, você realmente emagreceu bastante- observou ele. - E consegui-o! Quase quinze quilos! Mas, ao ver-me ao espelho, vi pela frente uma cara de velho. Uma cabeça tão pequena como um nabo. Tive medo, caro colega. Então comecei outra vez a comer mais. Moderadamente para ir engordando devagar. No fundo, não sou o tipo que os escultores clássicos tomariam como modelo. - A sua gordura preocupa-me! Como reagiria a uma narcose? Vamos medir já a tensão arterial. - Finalmente cento e oitenta! - Pronto! Se ainda voltar a subir, por causa da excitação, você fica carregado como uma bomba! - Não estou excitado, doutor Salieri. - Com certeza que está! Todas as pessoas, ao serem levadas para uma sala de operações, ficam alteradas. No seu caso, é só 254 esta maldita cicatriz, o que não deixa de ser uma intervenção cirúrgica. Cada um reage nervosamente a uma operação. Caro colega, assisti a próteses de músculos e a operações de beleza em que as pessoas saltavam da mesa de operações, como se fossem de borracha. Lembro-me do caso de uma mulher a quem aconteceu isto, só porque pretendia mandar alisar uma ruga por debaixo dos olhos. Sabe o que se passa após a primeira injecção? Os olhos ficam virados, aparecem suores frios e uma palidez lívida, indicativa de forte colapso de circulação. Você acha que será uma excepção? - Aguentei coisa bem diferente - respondeu Wegener olhando à volta. A assistente trouxe uma pequena mesa com instrumentos para junto da mesa de operações: algumas mechas absorventes, um objecto para laquear vasos sanguíneos, dois escalpelos, algodão hemostático, três ampolas de soro fisiológico, três seringas para injecção, duas pinças pequenas, uma tesoura curvada e material de ligaduras. - Por causa de pequena fenda, porque não faz uma narcose completa, caro colega?-perguntou Wegener. - Isso queria perguntar-lhe. O corte faço-o eu, depois de ter dado murros no seu braço. Mas com colegas sou cuidadoso. Quem consegue operar estômagos aos outros, estremece quando tem de espremer em si próprio uma borbulha. Pensava fazer-lhe uma anestesia local, mas ao notar que você bate com os dentes, fico confrangido. Está a perceber? - Na Alemanha, você aprendeu a falar bem alemão observou Wegener sorrindo ironicamente. Não queria apresentar-se nu diante da assistente, levantou-se, dirigiu-se para a mesa de operações e mostrou-se.-Posso? - Faz favor. - O Dr. Salieri dirigiu-se para o lavatório, começou a esfregar as mãos e a mergulhá-las num líquido anti-séptico azul esverdeado. Preparava-se assim a fundo, como se tivesse de ir para uma difícil redução do seio. - Nas costas, Franca, aperta-a. - É preciso tudo isso para fazer uma cicatriz tão pequena? - Mas, como médico, você faz uma pergunta destas? Wegener deu a volta sobre a estreita mesa de operações e sorriu um pouco de esguelha para a assistente, que lhe atou depressa os braços e as pernas com fitas de cabedal. A barriga abaulava-se, de facto, nesta posição plana e, embora se quisesse 255

manter arrogante, envergonhava-se de oferecer à jovem e bonita Franca um tal aspecto. O Dr. Salieri, como cirurgião de estética e também bom psicólogo, uma combinação que quase sempre deixa os doentes satisfeitos, veio para a mesa e adivinhou imediatamente o pensamento de Wegener. - Aqui já estiveram deitados verdadeiros elefantes humanos - declarou ele. - A sua barriga não é, de facto, muito sexy, mas Franca conhece-as de todos os formatos. - Tirou um chumaço de algodão, limpou a parte superior do braço com álcool, enfiou numa seringa uma ampola e comprimiu o ar do êmbolo. Depois, em movimento rápido, injectou o anestésico local. - Daqui a pouco, vai sentir o seu braço ficar gelado explicou o médico. - E, se notar o estômago às voltas, diga logo. - Disparate! Acabe com isto: pegue na faca e corte. Wegener fixou o olhar no tecto branco. O Dr. Salieri nem sequer ligara o grande projector para as operações, apenas se servindo de uma simples lâmpada de trabalho, tão insignificante era a intervenção cirúrgica. - Dentro de cinco minutos estará tudo pronto! - O médico encostou-se ao varão cromado da mesa de operações. - Você está, portanto, em Hong-Kong? - Sim. Porquê? - Admiro o seu sangue-frio! É nesta altura que se vai ocupar das suas fábricas de Hong-Kong? - Dei as minhas ordens para não ser incomodado. O meu procurador, o doutor Schwangler, dirige as fábricas na minha ausência. - E a sua mulher? - O que pretende da minha mulher? Wegener sentiu o braço a gelar: era uma sensação interessante, pois começava no ombro e ia até ao cotovelo. O frio paralisava-o, mas no resto do corpo nada sentia. - Estava a pensar que a sua mulher gostaria de receber, pelo menos, um postal ilustrado de Hong-Kong. - Irmi? Não! - Wegener fechou os olhos por um momento. "Quando lhe escrevi o último postal ilustrado", reflectiu, "foi de Roma, da minha primeira visita a esta capital. Dois dias depois do primeiro encontro com Elietta Dagliatti." Ele escrevera o postal -uma vista do Castelo de Santo Angelo- nos seus dedos exalava-se ainda o perfume de Elietta, com as palavras: 256 "Irmi querida, Vale a pena fazer uma viagem a Roma, por isso, tenho de dar razão ao velho Goethe. Na próxima Primavera, passaremos as nossas férias aqui e sentar-nos-emos, como os Gommler, na enorme escadaria espanhola, revivendo, como eles, a nossa juventude.'' Enquanto escrevia estas palavras, todo o seu corpo ardia, devido aos arranhões e mordeduras de Elietta, e sentiu nos rins as consequências de um esforço excessivo. - Quando digo que estou em Hong-Kong, ela acredita. A minha mulher acredita em tudo o que lhe digo. - É espantoso! - Porquê? Somos um casal feliz que vive na base da confiança mútua. - Se não visse os seus olhos leais, considerá-lo-ia um sarcástico desregrado! E ela acredita realmente no que lhe diz? - Com certeza. - E a sua esposa tem também um equivalente a Elietta Dagliatti? - Como sabe o nome? - Caro colega, quando você, há tempos, veio ter comigo, morto de paixão, cheio de arranhões, mordeduras e lábios chupados, fiquei arrebatado de curiosidade: pura curiosidade masculina. Depois soube por Betrucci quem era a magnífica fera. Mais uma vez, parabéns! - A coisa está pronta - disse Wegener constrangido. O braço era agora um bloco de gelo. - Definitivamente! O salto foi difícil, mas disse-lhes: sou duro de roer! -Hesitou, perguntou a si próprio se devia arriscar e, por fim, perguntou: - O Betrucci disse-lhe o que foi feito de Elietta? - Creio que partiu para uma viagem à América do Sul. Procurava esquecer. No fundo ela sofreu mais do que você. - Não creio. Amei-a até à própria renúncia. Foi um acontecimento natural. Já alguma vez conseguiu entulhar o Vesúvio? - E apesar disso você fugiu? No fim? - Eu amo a minha mulher. Tenho dois filhos excelentes. - O seu casamento feliz... - O doutor Salieri pronuncia essas palavras como se residisse aí o ponto cómico da questão. Há muito tempo medito no assunto e acho que você também devia compreender: quando os homens na nossa idade ainda amam, aparece a esquizofrenia! O grande 257

amor na terra proibida... e no outro lado o amor indissolúvel dos vinte e cinco anos de vida em comum com uma mulher, que é uma maravilha em lealdade, crença, confiança e paciência. É uma situação que consegue despedaçar um homem - Wegener sacudiu os ombros e o braço insensível. - Colega, já está em condições? - Chegou o momento. Por favor, volte a cabeça para o lado. - Porquê? - Não lhe impressiona ver o seu próprio sangue? - Estive na guerra. - Há quanto tempo foi isso, colega? O corte é o menos importante. A arte só começa quando se fizer envelhecer esta cicatriz artisticamente. Pigmentá-la-ei. Mas isso, digo-lhe mesmo: é uma experiência! Nem sequer sei como a fenda reagirá. Depois, passou-se tudo muito depressa. Salieri era um génio no campo de operações de estética. Betrucci não exagerara. Wegener nada sentia, mas, mesmo assim, voltou a cabeça para o outro lado e escutou o bater dos instrumentos e o silencioso entendimento entre a assistente e o Dr. Salieri. - O ferimento foi causado por que espécie de bala? perguntou, então, Salieri. Wegener, pensando em Elietta e em Irmi, estremeceu. - Por uma bala de espingarda russa. - Bala de dum-dum? - Mas isso seria o suficiente para quebrar o osso da parte superior do braço. - Por essa razão lhe pergunto. Se quiser, posso também destruir-lhe essa zona para fragmentar o osso e pôr tudo em ordem outra vez. - Obrigado! Tínhamos combinado quatro mil DM e não quarenta mil! - Fica uma cicatriz magnífica, colega! - Salieri parecia orgulhoso com a sua obra. - Está um pouco inchada, mas quem se teria preocupado antes com o futuro de uma ferida bonita? Você fará furor com esta cicatriz. Uma na coxa e outra na parte superior do braço! Francamente heróico! Toda a operação durou só vinte minutos. Franca desafivelou Wegener, que se levantou da mesa de operações e se sentou. Do umbigo até ao peito e às costas destacava-se uma camada de cabelo característica, extremamente masculina. 258 Mas a barriga abaulava-se, parecendo uma barriga de mulher a partir da cintura das calças. O Dr. Salieri lavou as mãos. Franca abandonara já a sala de operações. - Fui corajoso? - perguntou Wegener trocista. - Agora ordene e irei imediatamente meter-me na cama! - Dentro de três dias tiraremos os pontos. Entretanto, tem de ficar perto de mim. - O Dr. Salieri enxugou as mãos e lançou a toalha para um recipiente cromado. - Reservei-lhe um pequeno quarto no novo anexo, com rádio, televisão e telefone. Só não tenho uma mulher para si. Passa três dias sem uma? - Acha que sou algum touro? Wegener saiu de cima da mesa de operações e deu alguns passos inseguros. O efeito da anestesia local fazia-se sentir então na perna. Quando pôs os pés no chão, sentiu-se oco. - Dormirei durante três dias. Não sabe qual é o tempo mínimo que normalmente poderei dispensar para ficar aqui? Foram três dias do maior descanso. Ao quarto dia saiu curado. O Dr. Salieri despediu-se dele, como se o fizesse a um velho amigo, dando-lhe uma palmada nas costas. - Estou muito contente. Dentro de três semanas, qualquer pessoa acreditará que você levou este tiro na parte superior do braço, durante a campanha da Rússia, e que a ferida foi tratada por um dentista... Wegener partiu para Roma, hospedou-se discretamente num pequeno hotel e aguardou o avião de Hong-Kong, que aterrava em Roma. Chegou satisfeito a Colónia, mas não lhe foi possível evitar o uso de um penso, durante mais dez dias, porque a cicatriz transpirava um pouco. Para Irmi, já tinha a explicação de que no hotel em Hong-Kong ficara preso num gancho saliente. Mostrou até o casaco do smoking com a manga rasgada. - Estava ligeiramente embriagado - explicou ele com uma cara consciente da sua culpabilidade. - Sabes como são estas coisas. Conversas sobre negócios, sem comida e sem álcool, não têm sabor! Essa gente ofende-se sempre quando se diz: obrigado, mas não bebo nada. E comer? Faço dieta, só como um prato de salada. Isto, para eles, é quase uma ofensa. Suspirou, contemplou o adesivo na nova-velha cicatriz e vestiu o pijama. 259

- Não nos conseguimos livrar do mal. - Quando é só comer e beber - disse Irmi, sem pensar. Ele seguiu-a com o olhar, vendo-a dirigir-se para a casa de banho; engoliu em seco e pensou: Como é que ela teria interpretado isto? Seria só como modo de falar ou pressentiria alguma coisa?" Mais tarde dormiram, como sempre, juntos, ela respirando profundamente, mas ele não conseguia adormecer; observava-a e estava contente, porque tudo corria bem. O círculo voltava a fechar-se e a vida decorria de novo normalmente. O Dr. Velbert permanecia ainda como um fantasma dos tempos passados, que iria causar dificuldades. Primeiramente, escreveu a desculpar-se, com cartas amigas em que enviava algum dinheiro. Depois apareceu em Colónia, na sede do Complexo. Fez-se anunciar a Wegener e queixou-se amargamente de que St. Pauli dera cabo dele. Estava ainda mais inchado, com olhos brilhantes e as mãos cada vez mais trémulas. - Ouve bem o que te digo - preveniu-lhe Wegener. - Se julgas que vou continuar a dar-te dinheiro, estás completamente enganado! - Camarada, estamos ambos nas mesmas condições! respondeu o Dr. Velbert sorrindo descaradamente. - O que estás a insinuar? Olha que é muito fácil destronar qualquer senhor bem colocado aí, como se faz para um balão rebentar, quando se pica com uma agulha. Já pensaste que esse senhor poderás ser tu? Nada mais tenho a dizer, só que... tenho a agulha na mão. - Por outras palavras, o advogado doutor Velbert é um chantagista vulgar e ordinário! - Isso em nada me ofende. Já fiz outras coisas e não foi preciso beber em demasia. - Inclinou-se sobre a secretária enorme. - Queres continuar a ser Hellmuth ou preferes que te chamem Peter? Só se me deres sociedade. Para calar a boca, peço já adiantado 50 % da minha parte de sócio às tuas companhias. - Estás completamente louco - respondeu Wegener impassível. - Se continuas nesta situação, a mim o deves... mas isto está fora da questão, tens de confessar que o que recebo para manter esta formidável obra e o que recebi de ti até agora, é bastante mesquinho. Este caso tem também de ser revisto. - O que pretendes? 260 - Uma quantia avultada, Hellmuth. Digamos, cem mil; uma casa na Cote d'Azur, onde fixaria a minha residência para sempre! - O Dr. Velbert inclinou-se, gozando. - Tens de te habituar a ter um bicho a roer-te. Mas prometo-te ser um bicho domesticado. Apenas quero viver, nada mais! - Está resolvido - respondeu Wegener apático. - Dou-te um cheque para cima de vinte mil e agora desaparece! O Dr. Velbert partiu para Cannes. Alugou logo uma vivenda e enviou descaradamente a Wegener o contrato de arrendamento e as condições e contas para pagar, em cartas particulares que não passavam pela secretária. Wegener rasgava-as ou metia-as no cofre. "Isto não pode continuar", pensava ele. "Rudi Velbert ficará cada vez mais descarado e terei de pagar, pagar sempre, até arruinar, pelo menos, metade do meu trabalho. Terá chegado a altura de dizer a verdade? Em primeiro lugar a Irmi, depois ao Dr. Schwangler. Será ainda possível fazer isto, sem dar cabo de tudo? Deu voltas ao problema durante muito tempo, até que o Dr. Velbert telefonou de Cannes a exigir a compra da vivenda. Agora tinha uma amante frenética, dizia ele, com vinte e cinco anos, que na cama era um autêntico tufão, mas tudo aquilo custava muito mais dinheiro do que até então. - Agora sei finalmente o que é a vida! -exclamou, feliz, o Dr. Velbert ao telefone. - Percebeste tudo, Hellmuth? - Não - retorquiu Wegener grosseiramente. - Não pago mais nada! - Estás louco? - gritou o Dr. Velbert. - Peter Hasslick, pensa bem... - Já pensei! As nossas situações são idênticas e de nada adianta tentar modificar as coisas! - E o teu Complexo? A tua mulher? Os teus filhos? - Tudo lhes pertencerá, depois da minha morte! O que trabalhei, já ninguém pode tirar. Só receberão tudo o que já lhes leguei! O resto é-me completamente indiferente. Tenho bons sucessores e as minhas fábricas continuarão a funcionar. Portanto tu, seu porco maldito, em Cannes podes-te afogar no mar à vontade! Nem mais um marco! Compreendes? - Ouve, vamos conversar, Hellmuth... - Não! 261

Desligou o telefone. O que viria a seguir? Como reagiria Velbert? Irmi e os filhos estavam garantidos, o Dr. Schwangler continuaria a dirigir tudo. Só ele, Peter Hasslick, que se intitulava Wegener, desapareceria da cena. Seria isto um grande prejuízo? E uma pessoa valeria assim tanto? Tudo é reparável, até um Hellmuth Wegener. "Esperemos", pensou ele. "Foram vinte belos anos. O destino não costuma oferecer tanto. Por isso, era caso para se estar agradecido e preparado para pagar tudo, quando fosse chegada a hora do ajuste de contas." Dias feriados são algo de terrível para os festejados, quer se tratem de festas de homenagem, quer se relacionem com a idade. Pelo menos, era esta a opinião do Dr. Schwangler. No ano de 1969 coincidiam dois acontecimentos: as bodas de prata de Wegener e o seu 50.º aniversário. - Faremos uma festa popular! - declarou Schwangler.- Juntaríamos os dias, pois são ambos em Maio, e matavam-se dois coelhos de uma cajadada. Meu caro Hellmuth, contempla, com orgulho, o caminho que percorreste! Tens aqui uma mulher que, depois destes vinte e cinco anos, ainda tentaria alguém a raptá-la; um galo com cinquenta anos, invejado por meio mundo, devido ao seu sucesso, eis o balanço da vida. Por isso, devias ostentar orgulhosamente uma bandeira. Eu sei que não é o estilo, mas nestes dois dias estarás sob tutela. Organizarei e encarregar-me-ei de tudo! Foi uma festa grandiosa. Construiu-se um pavilhão enorme no parque da Villa Fedelta, com uma feira à volta, giravam carroceis, havia barracas de tiro e o esplendor máximo era uma grande roda que se erguia no esplendoroso céu de Maio. O encerramento seria abrilhantado com uma sessão de fogo de artifício, para a qual os vizinhos foram convidados; a polícia e serviços municipalizados tinham concedido licença, a imprensa, a rádio e a televisão compareceram em força... e no meio desta confusão encontrava-se Wegener ao lado de Irmi, largo, robusto, sorrindo para as câmaras, dizendo frases estereotipadas, acenando a centenas de pessoas, concedendo valsas de honra no pavilhão de dança e pensando em assassinar pela primeira vez na sua vida. O Dr. Verbert compareceu. Correcto no seu smoking branco, com um aspecto admirável. A seu lado uma loura de cabelos compridos, sempre sorridente, só falava francês; trazia um 262 vestido com um decote ousado e por volta das 23 horas já estava embriagada. Levaram-na para um quarto de hóspedes na casa dos Wegeners. O Dr. Velbert fechou-a e meteu a chave no bolso. - Para ninguém abusar da pequena!-disse ele alegremente. -- A tipa é forte, como pimenta negra. Ele estava só com Wegener, sentaram-se em dois sofás e fitavam-se. - Pronto. E então? - perguntou o Dr. Velbert. - Será preciso mandar tocar a fanfarra e anunciar quem é Hellmuth Wegener? - Por favor! - Isso daria um fogo de artifício que suplantaria o outro! - É-me indiferente - replicou Wegener, mas pensou: "Agora devia matá-lo! Pela primeira vez na minha vida, penso em matar alguém. Mata! Mata! Com as tuas mãos! Estrangula este porcalhão e atira-o da janela! O que se diria? Foi um acidente! O Dr. Velbert estava tão embriagado que até caiu da janela!" Mas não o fez. Permaneceu sentado, fixando calmamente o Dr. Velbert. - Bem!-disse Velbert abrindo o casaco do smoking e tirando uma fotografia da algibeira. Era uma fotografia velha e já rasgada. - Ainda encontrei esta - continuou ele, e estendeu-a a Wegener. - É uma fotografia do acampamento, onde estão todos em pose. Aqui estás tu, Peter Hasslick, ao teu lado Hellmuth Wegener, então furriel, por detrás eu, como segundo cabo. Os outros não interessam. É uma boa fotografia! Os homens dos serviços de propaganda poderiam servir-se dela! Para tua informação : o original e o negativo encontram-se depositados num Banco em Cannes. - Pela última vez, dou-te 300.000DM! . ; - Hui! É a tua última oferta? Quando? O Dr. Velbert meteu a fotografia outra vez no bolso. - Dentro de dez dias irei a Cannes, para buscar o negativo. - Existem ainda camaradas vivos! -afirmou o Dr. Velbert docemente, batendo as mãos. - Digo-o sempre a qualquer pessoa: a guerra foi a nossa grande experiência! Wegener mandou-o simplesmente sentar e voltou para os seus convidados. No parque, sob a direcção do Dr. Schwangler e de Irmi, dançava-se ao som de uma música folclórica polaca. 263

Já houve quem denominasse o acidente uma meretriz do destino e Hellmuth Wegener encontrou a confirmação para esta regra. Cinco dias após a festa dupla, o Dr. Schwangler estendeu-lhe um telegrama de Cannes. Desta vez, não estava declarado como "particular", mas trazia o nome da firma, ao cuidado do Dr. Schwangler. Fora enviado por uma Mademoiselle Sylvie Charreau e informava, em língua francesa, que o Dr. Velbert, numa viagem de barco, em frente da Cote d'Azur, caíra a bordo - estava um dia tempestuoso - e já não pudera ser salvo. O seu cadáver foi mais tarde encontrado entre os rochedos. Morto intacto. - O que tencionas fazer, perante isto? -perguntou o Dr. Schwangler. - Continuas ainda a manter o contacto?! - Foi um camarada de guerra - respondeu Wegener pensativo. Esta libertação repentina pesava-lhe de um modo estranho; esta sorte tornou-se-lhe inquietante. Verificara como era estreito e frágil o muro levantado entre ele e o passado. Uma pessoa, uma fotografia, uma cicatriz, uma escrita diferente - e tudo se desmorona por si. O que iria ainda suceder? Até aqui, ele vencera tudo e até este acidente o ajudava. Mas havia ainda qualquer perigo do passado que se mantinha escondido e que surgiria de um momento para outro, sem haver possibilidades de escapar. Pressentiu isso, como se uma chuva impetuosa lhe batesse de chofre na cicatriz da parte superior do braço. - Era um porco bêbado! -exclamou o Dr. Schwangler. - Não teve sorte na vida, coitado! - respondeu Wegener, colocando o telegrama no cesto dos despachos. - Providencia, por favor, para o doutor Velbert ter um funeral decente e que essa Sylvie Charreau possa viver sem preocupações no próximo ano. - Como queiras - respondeu o Dr. Schwangler encolhendo os ombros. - Quantos homens havia na tua Companhia? - Cento e quarenta e três homens. - Segundo este modelo, parece quereres alimentar cento e quarenta e três famílias... - Existem ainda sete sobreviventes - disse Wegener -, e destes Velbert talvez tenha sido o penúltimo. Eu poderei ser o último. - Oxalá! 264 - Sim. Espero que sim! Mais tarde, encontrava-se só no seu gabinete enorme e relia todas as felicitações. Tinham-no obsequiado com títulos e honras. A maior parte das vezes tratavam-no por Dr., o que o satisfazia bastante. A Direcção da Cruz Vermelha Alemã nomeava-o ' 'honoris causa'', comunicando-lhe confidencialmente que rece'beria em breve a Banda da Grã-Cruz Federal, pelos serviços prestados. Diante dele, via-se também a lista anual da Cruz Vermelha Alemã, em que os parentes continuavam sempre a procurar os filhos e os maridos perdidos. Fotografias, fotografias, nomes, nomes. Percorreu com os olhos as longas listas, mais por curiosidade. De repente, ficou perplexo e sentiu uma dor no coração. Numa única linha estreita, leu: "Berta Hasslick procura o seu filho, Peter. Endereço: Asilo de Velhos, Kesselstrasse 15, Lúbeck." Wegener viu tudo andar à roda, encostou-se, apoiando a cabeça no espaldar do sofá de cabedal. Depois fechou os olhos e juntou as mãos diante da boca. Ela vive! Ela afinal não foi atingida pelas bombas que caíram sobre Osnabriick. Ela vive - e eu ignorei tudo, durante vinte e três anos. Só sabia que ela morrera, sufocada num abrigo, sepultada debaixo dos destroços da casa. " A mãe está viva! A minha mãe vive! Mãe..." De repente, abriu mais os olhos e começou a chorar.

Capítulo décimo Quatro dias se arrastaram, quatro dias terríveis nos quais ele estava "insuportável", como Irmi classificou. Até o Dr. Schwangler o evitou. - Temos este problema, porque ele emagreceu - explicou Schwangler a Irmi. - Dantes era o gordo agradável e bonacheirão, agora é o nervoso vistoso. Se isto continua assim, levo-o a comer até ele ter a barriga outra vez. - E não só - respondeu Irmi. Passeava com Schwangler pelo parque da Villa Fedelta, arrancava de vez em quando um ramo pendurado sobre o caminho de calhaus brancos. "Também ela está nervosa", pensou Schwangler. "Mas representa. São vinte e cinco anos de casados, organizaram uma vida exemplar e de mútua compreensão - é o que pode fazer a uma pessoa o amor do companheiro. Cada um conhece o outro até à última fibra, como se costuma dizer, contudo, de repente há momentos em que se fica perplexo ao reconhecer que o amante é estranho e inalcançável. Isto não se pode explicar, sente-se só, mas não é para representar." E nestes dois dias o caso passava-se assim: Hellmuth Wegener reagia devido a qualquer circunstância estranha. Mal falou, sentou-se no círculo da família, fixou o olhar na imagem da televisão, deu respostas resmungonas, refugiou-se no seu enorme escritório da fábrica Euromédica, diante do telefone, e fitou-o como se quisesse hipnotizá-lo. Ou então corria como um animal feroz preso, as mãos nas costas, a cabeça baixa, o queixo encolhido, e quem se aproximasse dele ouvia uma reprimenda e o melhor a fazer era desaparecer imediatamente do seu campo visual. Motivo conhecido, não havia. Schwangler tinha tudo metodicamente classificado. A produção decorria excelentemente, a venda aumentava cerca de 21,5%, não se previa a existência, em parte alguma, de uma nova amante. Com Irmi não havia preocupações, nunca dera motivo a Wegener, nos passados 25 anos, para se transformar num Othelo'' ciumento. A condessa Dagliatti vivia agora no Rio de Janeiro, como René Seifenhaar relatara de Roma; fugira do seu palácio, onde tudo eram recordações 261



de Hellmuth. O que haveria, portanto, que modificara Wegener tão de repente? Schwangler perguntou-lhe o que lhe pareceu ser mais conveniente para resolução do caso: - Precisas de uma nova Elietta? - Não te atravesses à minha frente! -respondeu Wegener com rudeza. - Eu sei, eu sei que me mandarás embora já, mas deixa-me dizer-te, pelo menos uma vez, que Irmi é a melhor mulher do mundo! Até é muito possível que, apesar disso, estejas esfomeado eroticamente... O que te aconteceu, porque nunca te vi assim? Há quatro dias estás muito mudado. O que te preocupa? - Não tenho nada! - Hellmuth... - Deixa-me em paz! Não se insinuou na confiança dele. O filho Peter tinha talvez razão, quando disse: - O papá não pode enfrentar com êxito os seus cinquenta anos. Com cinquenta anos começa a velhice e o papá é um homem que não quer envelhecer. E senão, reparem: daqui a pouco aparece por aí com uma camisa Pop e com Jeans! É tudo o pânico da idade! Mamã, devias passar com ele quatro ou seis semanas na Cote d'Azur e fazer vida "topless"... - O que é "topless"? -perguntou Irmi. - Sem nada em cima. - Peter! - exclamou ela, olhando para o filho com ar de censura. Ele agora tinha vinte e um anos, estudava química em Colónia, conduzia um carro de corrida inglês, trazia para casa uma série de jovens barbudos e raparigas de cabelos compridos e fumava cachimbo. Era alto, seco e louro como a mãe. - Não estejas horrorizada, mamã - disse ele - mas adapta-te às circunstâncias. Os homens na idade do pai têm para as suas possibilidades uma concepção de vida totalmente contrária. - Deves saber isso bem! - Quando estudamos psicologia... - Conheço o teu pai há vinte e cinco anos! - Está bem. Há vinte e cinco anos que se colam um ao outro, como dois autocolantes. O calor, o frio, a água, o vapor, nada disso vos afecta, ou então transformaram-se num composto 268 químico de fácil ligação. Contudo, cada um de vocês é um indivíduo distinto do outro. É um ser próprio! Tem um eu próprio! - O teu pai e eu, nós temos sempre... - Nós! Nós! Porque não dizes, sequer, eu? Porque não mostras ao velho que tens vontade própria, para ele compreender que não és propriedade sua, como o quadro de Picasso que ele tem pendurado na biblioteca, mas sim uma mulher completamente consciente da sua personalidade? - Não posso fazer isso, Peter. - Podes, sim! Se podes representar o papel de anfitriã nos bailes e recepções do grande homem, cheio de êxito, Wegener, também estás em excelentes condições de te mostrares à plena luz. Para o papá é tudo natural. E agora, com mais de cinquenta, o natural transforma-se num peso à volta do pescoço. Faz algo novo que o possa manter em constante curiosidade. Mamã, ele recuará quando vir, de repente, que tem uma outra mulher a seu lado! Os homens da idade dele começam a amar uma aspiração condenável. O pensamento torturado, pelo facto de ter consciência de que estará a perder qualquer coisa que ainda estará ao seu alcance. Dentro de dez anos será demasiado tarde! - Vocês são uns jovens teóricos! - respondeu Irmi, sorrindo pensativa. - Até conseguem fazer jogos de equilíbrio com palavras! Conheço o papá melhor do que vocês todos juntos. No quinto dia, Wegener vencera. Tanto tempo precisava para derrubar todos os escrúpulos e para ser ainda o filho que a mãe procurava. Mas o terrível pensamento atormentava-o: Não faças nada! Continua a convencer-te que ela morreu no ataque a Osnabrúck. Esquece o que leste! Tu és Hellmuth Wegener e não Peter Hasslick. Se por acaso não tivesses lido a folha informativa da Cruz Vermelha, nunca chegarias a saber isso. Esquece! Esquece!" Esta luta feroz com a sua consciência paralisou-o durante quatro dias, quase o destroçando por completo. À hora do almoço, quando já tinha a certeza de não ser incomodado, telefonou do escritório para o Asilo de Velhos de Lúbeck. Ligou para a gerência, onde uma voz de mulher parecia mastigar qualquer coisa enquanto falava- lhe confirmou que no ficheiro constava o nome de Berta Hasslick. - Ela vive no 5.º bloco, quarto n.º 34 -disse a voz.-O senhor é parente? 269

- Não, mas conheci o filho dela e gostaria de lhe enviar alguma coisa. - Ela talvez esteja a precisar - respondeu a voz, que continuava a mastigar e parecia estar a ler na ficha: -A senhora Hasslick tem sido ajudada pela Assistência. Já não tem parentes e conta actualmente oitenta e dois anos de idade... - Sim, ele deve ter agora oitenta e dois anos... -confirmou Wegener. - De que vive ela? - De um subsídio pago pela Assistência... - Compreendo. Obrigado. Wegener deixou cair o telefone em cima do descanso. A Assistência, um quarto pobre, a minha mãe... Pôs a cara entre as mãos e chorou outra vez. No dia seguinte partiu para reuniões comerciais em Hamburgo. Para tornar o caso mais oficial, fez-se conduzir no carro grande, com motorista. Irmi, há anos habituada a viagens repentinas, não tinha motivo para meditar. Porém, o Dr. Schwangler meditou no caso. - Não tem nada para fazer em Hamburgo - disse a René Seifenhaar, que por acaso viera de Roma e trazia umas calças brancas tão estreitas que lhe assobiavam na rua, o que não o afectava de modo algum. - Conheces qualquer coisa em Hamburgo que o pudesse puxar para lá? -Não! - Pensa, sua padaria ambulante! >•'.- - Será o Reeperbahn? - sugeriu René Seifenhaar, meio convencido e olhando para o Dr. Schwangler com cara amuada. - Não. Isso com Wegener, nunca!-exclamou Schwangler. - Não se vai entalar numa casa de meretrizes a observar traseiros bamboleantes. Deve ser algo diferente! - Saberemos pelo motorista. - Mas já muito depois! E então, será demasiado tarde! Wegener há cinco dias para cá está muito metido consigo e agora, esta viagem repentina e despropositada a Hamburgo, deixa-me muito preocupado. René, tenho lá um contacto e activá-lo-ei, como fiz dúzias de vezes, em situações críticas idênticas: o desconhecimento total deste facto pode ser perigoso! Eu devia ter ido atrás dele! Como tal já não era possível, o Dr. Schwangler achou por bem fazer uma surpresa. 270 De facto, Wegener foi para Hamburgo, mas mandou que o pusessem na estação. - Você fica aqui - ordenou ao motorista, que se chamava Emil Zyllik. Este levava, a maior parte das vezes, o Dr. Schwangler, e desistira há muito tempo de se preocupar e se admirar com os seus chefes. - Venha buscar-me amanhã à noite ao Hotel Atlantic e telefone à minha mulher para lhe dizer que chegámos bem a Hamburgo. Espere! Não! Eu faço isso! Pode agora ir para o hotel, Emil. Emil Zyllik respondeu: - Sim, senhor Wegener! Entrou no carro e partiu. Wegener esperou em frente da estação até perder Zyllik de vista, depois dirigiu-se aos serviços dos correios e telefonou para casa. Vanessa Nina atendeu. - Onde está a mamã? - perguntou Wegener. - No cabeleireiro. - Diz-lhe que cheguei bem a Hamburgo. Telefonarei novamente mais tarde. - Okay, papá! O segundo telefonema foi para o hotel, onde era conhecido; o porteiro-chefe comunicou-lhe que o motorista acabava de chegar e que o Dr. Schwangler tinha telefonado para falar com o Sr. Wegener. "Ah!", pensou Wegener, um pouco trocista, porque conseguira enganar o próprio Schwangler. "Ele fareja algo, mas não sabe donde vem o cheiro. Tenho quarto ocupado em Hamburgo, o que é um facto, mas parece-me que o consegui despistar." - Quando o doutor Schwangler voltar a telefonar, diga-lhe, por favor, que tenho estado fora em reuniões. Você também já fica a saber. E responda o mesmo a todos os telefonemas: estou fora. - Como desejar, senhor Wegener. "O alibi assenta bem", pensou Wegener contente. "E amanhã voltarei ao alcance de qualquer um. Para Schwangler será um enigma absoluto." Saiu dos correios, dirigiu-se para a bilheteira e comprou um bilhete de ida e volta em 1.a classe para Lúbeck. O comboio partia dentro de vinte minutos. Tinha tempo suficiente para comprar, num quiosque, uma grande caixa de bombons. "A mãe sempre gostou de bombons'', pensou. "Quando 271

fazia anos, pelo Natal ou pela Páscoa, o pai e eu oferecíamos-lhe sempre uma grande caixa de bombons. Quando o pai morreu e eu ainda era aprendiz, mantive esse costume. Ela recebeu sempre os seus bombons e um bocado debicado da caixa - até nos bombons maçapão de que ela estranhamente não gostava. Esses eram para nós. Agora vive em Lúbeck, a cidade do maçapão..." Mandou embrulhar, com uma guarnição e laços, a maior caixa que Berta Hasslick jamais recebera em toda a sua vida e aguardou, depois, na estação, a partida do comboio para Lílbeck. Quando entrou, sentiu o coração a bater, como se fosse um crimmimnoso em fuga. O Dr. Schwangler, em Colónia, sentia-se desconcertado. Voltara a telefonar e recebera do chefe dos porteiros do hotel a informação que Wegener deixara. Emil Zyllik, a quem Schwangler também queria falar, não estava disponível, pois saíra do hotel, havia alguns minutos. - Ele está, de facto, lá -observou Schwangler a René Seifenhaar. - Tem uma reunião. Mas que diabo é isto? Há vinte e um anos somos amigos e de repente transforma-se num homem-mistério! Amanhã de manhã vou a Hamburgo no primeiro avião. Tenho de saber a razão desta atitude! - E se se trata de uma mulher? - perguntou Seifenhaar. - Nesse caso, trata-se certamente de uma espécie maravilhosa de mulher, porque ele ocultou-me tudo. O mais grave é porque será perigoso, muito mais perigoso do que com Elietta, com quem tudo já estava preparado. De repente, esquece tudo, atira tudo fora, pretendendo continuar a viver no charco do pecado. Uma "facada" aqui, uma acolá... vá lá, fechamos os olhos! Mas quando começa a aniquilar a Irmi e os filhos, tem de ser chamado à atenção. E serei eu a fazê-lo. Deixa isso por minha conta... O Dr. Schwangler telefonou ainda mais sete vezes. Sempre a mesma resposta: o Sr. Wegener não está. Também Zyllik não estava. Refugiou-se num pequeno bar nos arredores da Hans-Albersplatz, com uma rapariga ao colo, e preparava-se para deixar ali cem marcos, nessa noite. Essa quantia fora-lhe oferecida pelo patrão, durante a viagem, e constituía a gratificação extra para Hamburgo. Ainda há chefes com forma humana. 272 O asilo dos velhos na Kesselstrasse consistia em vários complexos de edifícios e assemelhava-se a um hospital ou a um quartel. Entre os blocos habitacionais havia relvado plantado, caminhos e passeios com bancos de jardim: era um pequeno mundo, um lugar de espera com flores - no declinar da vida. Wegener foi de táxi até ao edifício da administração. Pagou ao motorista e com o embrulho apertado debaixo do braço, com a grande caixa de bombons, lançou-se à procura do Bloco 5.º. Nos cantos das casas existiam algarismos pintados com tinta de óleo branca, grandes números que ninguém podia abranger com a vista. Bloco 5.º, quarto 34. Berta Hasslick, 82 anos. Mãe. Parou em frente do Bloco 5.º e olhou para a fila de janelas. Por detrás de uma delas, ela ainda vivia, num quartinho pago pela Assistência! Era uma vida de paciência à espera da morte. Só havia uma única esperança: o anúncio na folha informativa da Cruz Vermelha: Berta Hasslick procura o seu filho Peter... Desaparecido na Rússia, desaparecido na grande retirada, durante a contra-ofensiva soviética. Hellmuth Wegener apertou mais a si a caixa de bombons. Porque hesitas?" pensou. Seu porco nojento, cobarde! Lá em cima vive a tua mãe, enquanto que tu estás aqui em baixo e és o Hellmuth Wegener, com um medo terrível, pesado como chumbo, sobre a tua cabeça! Vê se este novo encontro consegue destruir o que tu criaste durante todos estes anos. Engoliste o que agora possuis de cultura, venceste o encontro da turma, ensaiaste uma nova escrita e provocaste uma cicatriz. Não ajudaste a arrancar da lama o Dr. Velbert, venceste todos, mentindo, enganando e deslumbrando. Este é o Hellmuth Wegener. Mas lá em cima, aquela mulher com oitenta e dois anos é a tua mãe. Não a podes enganar. E, apesar de tudo, Hellmuth Wegener e Peter Hasslick continuam a viver. Sobe, seu cobarde!" Deu a volta à casa, abrandando o passo, cada vez mais e quanto mais se aproximava da entrada. Parou diante da porta e respirou com dificuldade. "O meu coração", pensou assustado, "o meu coração não aguenta. Já me falta o ar! Mas - tu, seu patife maldito! - não é a satisfação de encontrares a tua mãe! É só o medo!'' Lambeu os lábios e sentiu-os secos. Viu muito bem o que se iria passar se se desse a conhecer, declarando que Peter Hasslick 273

ainda vivia. Em primeiro lugar, interviriam os serviços públicos: a Assistência reclamaria o dinheiro adiantado para a manutenção de Berta Hasslick e com isso viria uma avalancha de despesas que ninguém mais conseguiria deter. Tudo seria derrubado, até a grande obra levada a efeito por Hellmuth Wegener. Seria o maior escândalo do século: o grande Wegener não tem esse nome, o senador de honra, o presidente de muitas associações, o doutor "honoris causa", o presidente do conselho fiscal de firmas importantes, o estimado associado comercial, com amigos em todo o mundo, este rapaz exemplar e correcto - não era mais do que um simples serralheiro de Osnabrúck! Wegener abriu o portão do Bloco 5.º e entrou num vestíbulo, separado da escadaria por uma porta guarda-vento. À esquerda situava-se a habitação do porteiro; uma enfermeira encontrava-se sentada atrás da vidraça e olhava-o com aspecto crítico. Pelos vistos, os habitantes do Bloco 5.º não recebiam visitas muitas vezes. - Gostaria de ir ao quarto número trinta e quatro - pediu ele. A enfermeira olhou para uma planta da casa. - A senhora Hasslick? - Sim. - A senhora Hasslick espera-o? - Não. Porquê? A enfermeira levantou-se e abriu a portinhola perfurada na vidraça. - Pergunto só, porque é a primeira visita. - A primeira? Porquê? - A senhora Hasslick nunca recebeu visitas. Nos últimos dez anos, nem uma só vez. - Nos últimos dez anos nunca recebeu qualquer visita? Wegener puxou para si a caixa de bombons. Sentiu um espasmo no coração, mas não caiu, o que o admirou bastante. - Bem... mas agora está aqui uma visita - disse com grande esforço. Posso ir ao quarto número trinta e quatro? - Com certeza. É o primeiro andar à esquerda do elevador. - A enfermeira olhou para o embrulho em papel de oferta e com a grande fita de setim, debaixo do braço de Wegener. Apresente-se, por favor, nesse andar, à enfermeira Elsa. É melhor assim. - A senhora Hasslick está doente? 274 - Não. Mas como se trata de uma visita, assim de repente, após dez anos sem receber ninguém... Compreende... - Compreendo perfeitamente. - As surpresas causadas pela alegria são, também, perigosas aos oitenta e dois anos. Conhece a senhora Hasslick? - Não - respondeu Wegener asperamente. "Assim está, mais ou menos, escrito na Bíblia'', pensou ele. Antes de o galo cantar renegar-me-ás três vezes. Outrora Pedro procedeu assim, em relação ao seu Divino Mestre, Jesus. Agora és tu a fazê-lo à tua mãe, seu porco mesquinho! - Porque... - A enfermeira, à porta, observou-o com ar ainda mais desconfiado - porque visita o senhor a senhora Hasslick? - Sou membro da Cruz Vermelha - disse Wegener. Todos os anos escolhemos nomes e visitamos pessoas sós. A enfermeira sacudiu a cabeça satisfeita. - É no primeiro andar, à esquerda do elevador. A velhota ficará bastante contente. Wegener irrompeu pela porta guarda-vento envidraçada. À sua frente uma escadaria asseada, cheirando bem a limpa-metais, corredores, portas e números. No meio, o elevador, bastante largo, próprio para transportar camas. Dois homens idosos, trajando fatos muito largos, conversavam a uma janela do corredor. Uma senhora, também idosa, levada numa cadeira de rodas, passou de um corredor para outro, cumprimentando Wegener com um aceno quase maternal. "Todos os corredores vão dar aqui", pensou Wegener, "formando uma estrela, como as grandes avenidas de Paris, na Place de 1'Etoile, mas aqui são ruas de solidão. A velhice pode não ser só uma graça de Deus, mas também um castigo.'' Não utilizou o elevador, mas subiu a escada até ao 1.º andar. Meteu pelo corredor à esquerda e viu o quarto n.º 34, onde se encontrava Berta Hasslick. A enfermeira Elsa, já prevenida, aguardava junto ao elevador, quando Wegener voltou a esquina. - É o senhor que vem visitar a senhora Hasslick? perguntou. - É da Cruz Vermelha? - Sim. - Tem cartão de identidade? - Com certeza. Wegener fez o gesto para ir tirar o documento da algibeira do 275

casaco, mas a enfermeira Elsa, uma jovem de cabelos ruivos e com sardas, interrompeu-o. - Não é necessário, senhor. Deseja que o acompanhe? , -Não é imprescindível, enfermeira Elsa. - Já visitou muitas vezes velhos sós? - Faz parte da minha profissão. - Então já sabe como é. Estou muito satisfeita pelo facto de a senhora Hasslick receber visitas. A enfermeira Elsa deixou-o e voltou para o seu posto. Ele seguiu-a com o olhar, a saiazinha agitava-se à volta das pernas elegantes; Wegener reflectiu nesta situação, pensou na maneira absurda e infame como tratara o Dr. Schwangler, que uma vez dissera: "Se encontrares uma ruiva, há só uma alternativa: ou tu ou eu. Um, tem de ficar a perder...'' Wegener andou mais um pouco, com a caixa de bombons apertada. Deteve-se diante da porta com o n.º 34 e olhou para trás. A enfermeira Elsa continuava no seu posto e olhava para ele, que lhe sorriu e agitou a grande caixa de bombons. Ela riu e entrou no gabinete. "Isto já pratiquei", pensou ele. "Convencer as pessoas de que as mentiras são verdades. Mas esta é o terminus da minha carreira. Quando abrir a porta, esta porta com a tabuletazinha 34, Peter Hasslick voltará para a sua mãe, após vinte e cinco anos." Bateu, não esperou pela resposta e abriu a porta. Berta Hasslick, sentada à janela donde se via um pouco do jardim, deitava as cartas, quando o homem abriu a porta e entrou no quarto. Ela inclinou-se, foi buscar os óculos e colocou-os.



As cartas estavam certas, pensou ela. Por três vezes elas anunciaram uma visita". Já fizera isso muitas vezes, durante os passados dez anos, mas apareciam sempre, só as enfermeiras, o médico, o médico-chefe, um empregado administrativo, o funcionário da Assistência. Essas, ela não considerava visitas, nem quando a vizinha do quarto ao lado vinha, algumas vezes, e queixava-se da gota. Visitas, isso é algo inesperado. É um acontecimento! Wegener deixou a porta fechar-se e encostou-se ao lado dela, junto à parede. Ela deitava cartas, ainda continua a deitar cartas; sempre assim foi. Como hoje em dia se lê o horóscopo nos jornais, assim ela deitava cartas diariamente. Um estranho vem a caminho, ou: existe qualquer surpresa quase a entrar em casa: ou: psst, não digas ao papá, ele não gosta 276 de ouvir isto, mas alguém morrerá na vizinhança; ou virá uma carta importante. E ele era como uma criança profundamente impressionável. Como isto aconteceu muitas vezes e ela sabia ler nas cartas! Só muito mais tarde, compreendeu que as interpretações e o aguardar acontecimentos são aplicáveis a qualquer pessoa e acontecem no dia a dia. Ó mãe... mãe... Ela colocou os óculos e agora via-o nitidamente, mas ficou calada. Também ele nada disse, mantendo-se junto à parede ao lado da porta, e sentiu como que um soluço exuberante a levantar-se e a apoderar-se dele. Ela deixou cair as mãos nos joelhos, mãos mais pequenas e enrugadas, que sempre trabalharam e nunca tinham conhecido descanso, até que a velhice a libertara de ter de fazer algo permanente; estas mãos pálidas com pigmentos castanhos começaram a acariciar nervosamente o vestido nos joelhos. - Sim? -disse ela.- Faz favor? É sempre a mesma voz... um pouco frágil - mas sempre igual. Há vinte e seis anos, quando fora de férias, ouvira esta voz pela última vez. E, naquele momento, foi como se ainda a tivesse no ouvido, era um som familiar como dantes, aquela voz maravilhosa, gravada para sempre no seu pensamento. Mãe... - Sou Hellmuth Wegener - apresentou-se ele. "Ó seu porco, modificaste a tua voz. Falas profundamente consciente e dizes para a tua mãe: Sou Hellmuth Wegener! Seu cão cobarde, porque não cais de joelhos e não rastejas para ela..." --O senhor é Hellmuth Wegener? -perguntou ela vagarosamente. Os seus olhos examinaram-no através dos óculos com aros de níquel, subsidiados pela caixa do hospital. As mãos dela acariciavam outra vez o vestido. Depois, de repente, os braços caíram para o lado, o pequeno corpo caiu em si, só manteve a cabeça levantada, e dos olhos, por detrás das lentes dos óculos, corriam lágrimas. Wegener deixou cair a caixa de bombons, afastou-se da parede e apalpou a janela como um cego. - Mãe - disse ele - mãe, sou eu! Sou eu, mãe! Ele agarrou a cabeça dela, a pequena figura, levantou-a do sofá, apertou-a a si e começou a soluçar alto. Enquanto ele puxava para si este corpo minúsculo, ossudo e enrugado que o gerara, ela pôs os braços à volta do pescoço dele e murmurou, tão ternamente como só uma mãe é capaz de fazer: - Meu filho! Meu querido filho! Eu sabia, sempre soube, porque vi tudo nas cartas... 277

- As cartas... -soluçava ele.-Ó mãe, as tuas cartas... Voltou a sentá-la no sofá, acocorou-se diante dela, olhando-a; ela levantou as mãos enrugadas e enxugou as lágrimas que lhe corriam pela cara, tirou os óculos e limpou-os com uma ponta do vestido; ele tirou o lenço e passou-o pelo cabelo branco e encaracolado da mãe, que em seguida voltou a pôr os óculos. - Estás mais gordo -disse ela, agarrando as mãos do filho. - Bastante gordo! Mas reconheci-te logo que entraste, porque felizmente posso ver. Meu filho! Mas não disseste outro nome? Tiveste medo do meu coração! -- Ela tentou sorrir, mas chorou novamente. - Eu sabia que voltavas. Esperei por ti. Sabia que vinhas! - Pelas tuas cartas, mãe... - Elas nunca me mentiram. Hoje avisaram-me três vezes: vai chegar uma visita inesperada... - Ó mãe, mãe! Tirou-lhe os óculos do nariz, limpou-lhe as lágrimas e sentou-se nos braços do sofá. Ela deixou cair a cabeça no peito dele e agarrou-lhe as mãos. - Tens agora cinquenta anos, meu filho. - Sabes isso muito bem! - Vivi todos estes anos contigo. Senti como envelheceste comigo. Tens cinquenta anos. Quando foste de férias pela última vez, tinhas vinte e quatro anos. - Sim, mãe. - Onde estiveste tanto tempo? - perguntou ela levantando a pequena cabeça de anciã e olhando para a cara redonda do filho. - Tem corrido tudo bem contigo, não é verdade? - Mãe, quero levar-te daqui imediatamente! - Porquê? Gosto de estar aqui - respondeu ela, assentando os óculos e abanando a cabeça. - Não se transplantam árvores velhas. - Isso é um provérbio disparatado, mãe - respondeu ele. Pôs o braço no ombro magro da mãe e olhou de soslaio para a porta. Após a comoção do reencontro, voltou o sangue-frio da razão. Ainda estava só com a mãe, mas o que aconteceria se a enfermeira Elsa entrasse e a mãe apresentasse como seu filho o homem estranho da Cruz Vermelha? Ainda teria a possibilidade de, em poucos minutos, explicar tudo à mãe. Se ela compreendesse, o que era pouco provável, levá-la-ia a não o indicar como seu filho. Ainda era muito cedo... 278 Wegener acariciou de novo os cabelos brancos da anciã. - Tenho de contar-te, mãe -começou ele hesitante.- E olha que preciso da tua ajuda. - Em que posso ajudar-te, meu filho?-Ela examinou-o atentamente. - Não corre tudo bem como parece? A maldita guerra... - A guerra já acabou há muito tempo, mãe. A maioria das pessoas já não quer saber dela, precisamente porque nada lhes deixou de bom. Mas o meu caso está muito ligado a ela. - Fala, filho! - Ela apalpava ainda as mãos dele. - Se puder ajudar-te, meu filho... - Podes, mãe. - Ele inclinou-se para ela e beijou-lhe a testa enrugada. - Só não sei se me compreenderás... Uma hora mais tarde bateram à porta. Esta abriu-se e entrou um homem de meia idade, forte, com uma bata branca de médico. Atrás dele vinha a enfermeira Elsa com um tabuleiro. A senhora Hasslick pertencia ao grupo dos idosos que já não precisavam de ir à sala de jantar tomar as refeições, desde que tiveram de trazê-la para o quarto, com perturbações cardíacas. O homem com a bata branca acenou amavelmente à porta e fez sinal para Wegener, que se levantou da cadeira. Entre ele e a mãe encontrava-se a caixa de bombons aberta. Os bombons de maçapão estavam lindamente separados, enfileirados e muito bem embrulhados. - Como isto vai bem por aqui! - comentou o homem de bata branca.-Amanhã teremos a mais linda prisão de ventre... - Senhor médico-chefe! - Berta Hasslick sorriu-lhe quase respeitosamente. - Vejam só, tenho visitas! Um senhor da Cruz Vermelha que conheceu o meu filho Peter. Estiveram juntos na frente de combate. É o senhor doutor Wegener... é este o seu nome, não é? Olhou para o filho. Wegener cumprimentou e engoliu em seco. - Wegener - repetiu cerimonioso. - Methusius -O médico-chefe estendeu a mão a Wegener. - A enfermeira Elsa informou-me do acontecimento desta época: a senhora Hasslick tem visitas. E é um camarada de guerra... - O meu filho Peter morreu... -anunciou Berta Hasslick 279

em voz baixa. - Foi morto em combate. Eu... eu agora tenho a certeza... - O Dr. Methusius observou Wegener com olhos inquiridores. - Disseram-lhe? - Só agora soube que... que a senhora Hasslick ainda vive e vim imediatamente a Lúbeck. Estava perto, quando o filho dela morreu... Era o meu melhor amigo. - É assim a vida! -O Dr. Methusius meteu as mãos nas algibeiras da bata. - Creio que sempre pressentiu isso, senhora Hasslick - disse ele para quebrar o silêncio. - Sabia que o dia de hoje viria - respondeu ela, e só ela e Wegener conheciam o duplo sentido destas palavras. - Posso ir falar depois consigo, doutor? - perguntou Wegener. - Até às vinte horas estarei em casa; é no rés-do-chão, quarto número nove. - Voltou-se para Berta Hasslick e inclinou-se para ela. - E como estamos hoje? Esse coração? - Estou muito calma, senhor doutor, e nota-se bem. Methusius agarrou no pulso, muito pouco tempo, para poder contar, e confirmou satisfeito. - Antes de ir dormir, dê-lhe um Librium - disse ele para a enfermeira Elsa.-As reacções podem surgir!-E voltando-se para Wegener, disse com energia: - Esta senhora é muito corajosa! Sempre de bom humor, sempre agradecida à vida, nunca se queixa. Todos gostamos muito da nossa senhora Hasslick. - Ela também gosta muito de todos -disse Wegener com voz surda. - Dentro de meia-hora, lá estarei, doutor. - Vou agora para o meu consultório. Deu uma palmada amiga nas costas magras de Berta Hasslick, desejou bom apetite para o jantar e saiu do quarto, acompanhado pela enfermeira Elsa. - Foi bem assim, meu filho? - perguntou Berta Hasslick, quando ouviram os passos afastarem-se no corredor. - Foste maravilhosa, mãe!-Correu para ela, sentou-se outra vez no braço do sofá e pôs o braço à volta do ombro da mãe. - Agora já não me pode acontecer nada. Ela acenou com a cabeça e baixou-a. Os seus dedos nervosos deslizaram de novo sobre o vestido. - Quando tens de regressar à tua fábrica, meu filho? - Amanhã, mãe. 280 - Gostaria tanto de conhecer a tua mulher. E os meus netos. Mas não pode ser. - Porque não? Mando-te buscar pelo meu motorista. És a mãe do meu amigo Peter Hasslick, morto em combate, e és minha convidada. Depois podes vê-los a todos. - Já não terei forças para isso. - Encostou a pequena cabeça, de novo, ao peito do filho e juntou as mãos. - É uma viagem tão longa... Se me escreveres de vez em quando, meu filho, ou telefonares... No corredor há um telefone, através do qual podemos falar. Seria bom. - Mãe! Virei, sempre que possível, visitar-te. - Bem sei. - Ela sorriu. - O principal é que tu vives. Eu sabia-o, eu sabia-o. E ninguém queria acreditar em mim! Meia hora mais tarde estava sentado em frente do Dr. Methusius. Wegener tivera muita dificuldade para esconder o desequilíbrio moral que a despedida da mãe causava nele. E quando disse: Voltarei em breve!'', preferia quebrar a cabeça na parede, porque ele sabia bem que isso também era uma mentira. - Gostaria que a senhora Hasslick fosse transferida imediatamente-disse ele ao Dr. Methusius-, para o melhor quarto do asilo, com bom tratamento, não lhe faltando nada, e que todos os seus desejos lhe sejam satisfeitos. O preço não importa. Enviarei à administração um cheque de 20.000 DM e instruções para todas as suas despesas serem creditadas na minha conta corrente. - Isso é generosidade da sua parte! -exclamou o Dr. Methusius batendo com a esferográfica no tampo da secretária. Mas acha que ainda vale a pena? - O que quer dizer com isso? - perguntou Wegener apático. - A senhora Hasslick é um milagre da medicina, se tal se pode classificar este caso tão estranho. Viveu até agora na crença de que o filho não morrera e um dia apareceria perto dela. Hoje o senhor veio visitá-la e transmitiu-lhe a verdade - O Dr. Methusius parou de rufar na mesa. - A vida dela chegou ao fim. •-O senhor pensa... Wegener teve de segurar-se ao canto da secretária. Methusius não reparou nisso, porque olhava para a parede. - Não me admiraria. - E se a minha visita lhe tivesse dado novo alento de vida? - Bem! Então, sejamos optimistas. Logo que esteja livre algum quarto melhor, mudamo-la para lá. 281

- Não há nenhum livre? - Temos poucos alojamentos e longas listas de espera. - Então arranjem um quarto em qualquer bloco! Já disse... as despesas não importam. Eu queria levar a senhora Hasslick comigo, mas ela recusou, pois prefere ficar aqui. Há maravilhosos asilos particulares na Schwarzwald e no Harz, mas ela não quer. Naquele quarto também não pode continuar. - Ela vive há dez anos nesse quarto, senhor Wegener. - Mas que não chegue ao décimo primeiro! -Wegener levantou-se num pulo. - Tem de se dar ainda, neste grande asilo, uma possibilidade de alojar melhor a senhora Hasslick. - Só quando houver um quarto livre. - Quer dizer, quando morrer alguém? O Dr. Methusius sacudiu os ombros. - Mesmo que o senhor dê um milhão e queira construir uma ala completamente nova - isto é propriedade do Estado e até que esteja tudo despachado, com documentos de instituição, autorizações para a construção, ofícios sociais, etc., depois de percorrer todas essas burocracias e começar-se a obra, a senhora Hasslick não necessitaria, há muito, de um quarto luxuoso. A oferta não é assim tão fácil de receber, mesmo que se comece tudo imediatamente, porque isto depende dos serviços públicos. Depois vem um aparatoso exército de empregados administrativos que lhe demonstrarão, por cálculo, que a doação é, em última análise, pouco lucrativa, considerando a duração da manutenção. Mais fácil seria ainda convencer a senhora Hasslick a mudar de asilo. Será mais rápido, senhor Wegener. - Tentarei isso. - Como lhe disse, caso ainda valha a pena... - Agora viverá até aos cem anos! -exclamou Wegener, levantando-se. O Dr. Methusius fez o mesmo. - Seria muito bom, porque poderia ainda assistir à sua nova obra, no caso de o senhor realmente querer doar alguma. - O Dr. Methusius sorriu. - Creio que não nos devíamos precipitar, porque a Humanidade não recuperada também não o faz. Completamente desanimado, Wegener saiu do asilo dos velhos e regressou de comboio a Hamburgo. Na manhã seguinte o Dr. Schwangler telefonou-lhe. Wegener levou algum tempo a acordar, pois tomara um comprimido para dormir, para descansar. 282 - Estou cá em baixo no átrio - disse-lhe Schwangler ao telefone.-Acabas de aterrar Hellmuth, que disparate é este? Temos de conversar a sério. Com que então, reunião em Hamburgo! Já vou aí acima ao quarto! Estás só na cama? - Vai para o diabo!-bradou Wegener, como em meia anestesia. - Estou só, quero estar só, e se vens cá acima, dou-te um murro na pança. Percebeste? - Muito bem! Quando tomamos o pequeno almoço? - Mete-o no cu! - Isso não me substitui o pequeno almoço. Wegener suspirou e atirou o auscultador para cima do descanso. Mas não podia continuar a dormir. Levantou-se, tomou duche e desceu para a sala das refeições. O Dr. Schwangler, gordo e de perna aberta, sentado a uma mesa para dois, aguardava Wegener, a quem fez sinal. - Vem cá, meu anjo! -gracejou ele, quando Wegener se aproximou, com cara de poucos amigos. - Senta-te. Procurei informar-me, mas realmente estás só, pelo menos, no hotel. Nesse caso, ela tem casa própria? - Sim! - respondeu Wegener sentando-se. - Estás contente agora? - Só metade. Mas é a sério? - O que queres dizer com esse "a sério"? - Assim como Elietta? -Não! - Nesse caso, não há perigo para Irmi? - Absolutamente nenhum. O Dr. Schwangler observou Wegener durante pouco tempo; Por fim, quebrou o silêncio. - Estás cansado! Mas, rapaz, isso era necessário? -Era, Edi. - Estavas outra vez sob pressão? - Idiota! Foi um reencontro e, talvez, uma despedida! - Por isso, bebamos um conhaque. - Vamos a isso. Voltaram a Colónia de avião. O motorista Emil Zyllik regressou, com o automóvel, pela auto-estrada. No interior do seu crânio zumbiam milhares de mosquitos, porque nunca dormira na sua cama do hotel em Hamburgo. 283 L

O Dr. Methusius tinha razão. Nove semanas mais tarde, morreu Berta Hasslick. Adormeceu contente e com um sorriso infantil, finando-se calmamente durante a noite. A enfermeira Elsa encontrou-a de manhã na cama, com as mãos postas, como se tivesse agradecido a Deus ainda uma vez por todas. Wegener só soube quando ela já estava sepultada há muito tempo. Regressava de Tóquio, onde estivera seis semanas, e à chegada telefonou para Líibeck. O Dr. Methusius contou-lhe da morte suave da velha senhora. - Espere! -bradou ele ao telefone, quando Wegener quis desligar. - Poupe-se a todas as censuras. Ela queria que não se participasse, até estar debaixo da terra. "Ele tem tanta coisa diferente para fazer!", disse-me ela certa vez e à enfermeira Elsa. "Ele é um grande homem, o senhor doutor Wegener... não quero incomodá-lo." Pronto, agora insulte-me. Wegener nada disse. Desligou e cobriu a cara com ambas as mãos. "Mãe, como foste forte", pensou ele. "E como eu fui mesquinho contigo..." Nesse dia embriagou-se. Irmi não achava explicação para o facto. Ficou em casa nessa tarde, sentou-se na biblioteca e despejou álcool em si. Como permanecesse calado em frente do filho, Irmi telefonou ao Dr. Bernharts. Veio imediatamente e sentou-se junto a Wegener, num sofá de cabedal valioso. Wegener fitou-o embriagado. - Continua a fazer asneiras dessas!-censurou-o Bernharts. - Continua, que vais bem! Tens um coração de aço, não é verdade? Aço puro, não é? Assim não vais longe! O "stress'' da profissão não te basta? É assim que me ajudas? Rica ajuda, não haja dúvida! - Que disparates estás para aí a dizer? - perguntou Wegener com a língua pesada. - Nunca estiveste embriagado? - Como teu médico, tenho a prevenir-te que assim não terás vida por muito tempo! - E como teu pobre doente, tenho a prevenir-te que nunca receberás a minha viúva. Nunca! O Dr. Bernharts levantou-se e abandonou a biblioteca. Irmi, Peter e Vanessa Nina esperavam-no no átrio. - Não se pode falar com ele - informou o Dr. Bernharts, tendo cautela para não repetir as palavras de Wegener. - Está a atravessar uma fase depressiva! Isso passa. - Mas porque é que não desabafa? Pode contar-me tudo. 284 Depois de vinte e cinco anos de casados pode-se falar sobre tudo - disse Irmi. - Mas fecha-se em si. Algumas vezes procede como se estivesse por detrás de uma parede de vidro espessa. O que devemos fazer? - Deixá-lo em paz -concluiu Peter. O Dr. Bernharts acenou afirmativamente com a cabeça, concordando. Na biblioteca ouvia-se barulho. Caíam cadeiras. Wegener andava vacilando, em direcção à outra saída da sala. Como Irmi quisesse ir atrás dele, Peter segurou-a. - Se ele quer estar só, faz-lhe a vontade, deixa-o divertir-se, nem lhe fales em nada que o preocupe. Sempre foi um homem forte e continuará a sê-lo! Não lhe destruas esta auréola, mamã! Na manhã seguinte tudo passara. Wegener sentou-se na cama, com olhos avermelhados, e observou Irmi quando ela foi tomar duche. A porta para a grande sala de banho em mármore estava aberta. Irmi, nua, de toalha na mão, regressava do banho e voltou-se. "Como está bonita, pensou Wegener. Tem efectivamente quarenta e sete anos, mas ninguém acreditará em tal. Está agora mais bonita do que dantes, quando era rapariga. Está madura, como o vinho velho." - Seca-me as costas, por favor - pediu ao marido. Ele pegou na toalha e passou-a sobre a pele, deixou-a cair e beijou a covinha sobre as duas nádegas da mulher. - Ontem eu estava muito embriagado?-perguntou ele. - Bastante. - Isto é: completamente bêbado? - Sim. Ela voltou-se. Ele agarrou os seus bonitos seios e fixou a vista nela. A sua cara, com olhos ainda etilizados, estava longe de constituir um olhar bonito. -Tive muitos problemas -explicou ele.-Mas já passou tudo. - Graças a Deus! - O que me vale, és tu, Irmi. Se não fosses tu... Ela conteve-se de perguntar-lhe o que o preocupava e lebertou-se daquela garra. Já há muito que ele de manhã não a puxava para si, mas agora que pretendia isso, ela não sentia qualquer vontade para o fazer. No entanto, Peter dissera: Não lhe destruas a sua auréola..." - O que queres fazer hoje? - perguntou ela, atando a toalha à volta do corpo. - Nada. 285

- Nada? Porquê? . ; - Fico em casa. <. - Mas isso causará uma surpresa geral. , - Sua gatinha! Tentou agarrá-la, mas ela foi mais rápida e recuou. Ele perdeu o equilíbrio, rolou da cama e caiu como uma enorme rã, de costas. O espectáculo foi tão cómico, que ela soltou uma gargalhada, deixou cair a toalha e, nua, rindo, correu pelo quarto. Ele levantou-se e sentou-se à cabeceira da cama a limpar os olhos ardentes e a esfregar os pés um no outro. - Já há muito que não te rias, Irmi - observou ele, respirando fundo. - Já estava a sentir a falta de um riso desses. Chega-te a mim... - Não, agora não. - Só quero perguntar-te se és feliz. - Sim. Sou. - Comigo? - Só contigo! -Ela estendeu a mão; era uma Vénus perfeita. -Vamos para a casa de banho ou para a piscina! Vamos eliminar este cheiro a álcool. Aqui parece uma destilaria de aguardente! Atou a toalha à sua volta, mas por baixo do peito. Wegener viu-a e seguia-a com o olhar até ao quarto de vestir, situado mesmo ao lado. Ela é feliz comigo", pensou ele. "Será possível? Pode-se ser feliz comigo?" Levantou-se, foi para a casa de banho, contemplou-se no grande espelho e voltou-se desgostoso. Estiveram todo o dia em Colónia, andaram na pândega pela cidade, de mão dada, como nos primeiros anos, fizeram compras, beberam café, comeram um pedaço de bolo e alegraram-se com insignificâncias, como as crianças. - A vida é bela! -exclamou ele, feliz. - Mas só contigo! - acrescentou ela. Encontravam-se diante da catedral, beijaram-se e ninguém reparou neles. Em Colónia pensa-se já um pouco à parisiense. Seis anos se passaram bem e rapidamente até àquele dia, em Janeiro de 1975, em que Hellmuth Wegener requereu ao Ministério da Saúde em Bonn para participar como conselheiro 286 na próxima conferência sobre medicamentos e para dar a sua contribuição à nova lei de medicamentos. - A alta política chama por ti - observou o Dr. Schwangler. - O que não podes alcançar através dos partidos, consegue agora o teu grande espírito de iniciativa. Hellmuth Wegener mete-se na política. Reparou logo nisso. Caía automaticamente no campo visual do cargo de protector da Constituição e revia a sua integridade política. Hellmuth Wegener transformou-se num processo, interessando-se discretamente pelos seus antecedentes. E também discretamente pediu um dia a um alto funcionário uma entrevista na repartição, porque desejava esclarecer algumas dúvidas insignificantes. Tudo isso sem pressa, pois ele próprio determinaria a data. "Isto é o fim", pensou Wegener. "Isto é inevitavelmente o fim. Aniquilo-me pela minha própria celebridade. Arruino-me pelo meu êxito. Agora passarei a ter um tipo de vida a que muitos chamarão fantástica. Pode dizer-se muito sobre isso, mas só uma coisa tem de me pertencer: a satisfação de ter cumprido o meu dever! Transformei-me num Hellmuth Wegener, como mais ninguém seria capaz." Olhou para a sua agenda e viu uma data marcada a lápis vermelho, com estas palavras por debaixo: Tomada de posse do cargo de protector da Constituição, às 11 horas. Em seguida, fez um risco vermelho espesso por cima dessa data. Já não havia datas marcadas. Ainda tinha quatro dias. Quatro dias para a despedida. Começo amanhã'', pensou "e como deve ser: Irmi tem de saber tudo, finalmente." O que se iria passar a seguir, era, de facto, indiferente, seria o desenrolar de casos técnicos. Fechou o livro, aproximou-se da enorme janela e contemplou o seu Complexo químico. Estava muito calmo e com isso se admirou bastante. Não acreditava que se pudesse aguentar um fim tão sereno.

Capítulo décimo primeiro As doenças chegam sempre quando menos se espera - é uma frase popular- mas, para Hellmuth Wegener, foi como uma bênção do Céu: Irmi caiu de cama com febre alta e o Dr. Bernharts diagnosticou uma bronquite com infecção gripal. Deu a Irmi uma injecção e disse a Wegener: - Tudo o resto tens em casa. Deixaram Irmi só no quarto a repousar depois da injecção que a fez adormecer, enquanto eles foram para a biblioteca. Esta fora reconstruída várias vezes, como quase toda a Villa Fedelta, desde 1953, até que Fritzchen Leber já não mexeu mais nela. Além disso, Wegener dissera: - Agora é o fim! Esta é a última reconstrução! Há vinte e dois anos que a misturadora não tem descanso. Quero ter uma casa e não uma catedral de Colónia, que nunca mais acaba de ser reconstruída. Durante tempo considerável, a Villa Fedelta foi um exemplo padrão, o que é possível quando um arquitecto tem liberdade para dar livre curso à sua imaginação. Fotografias da casa apareceram repetidas em revistas especializadas, o que teve como consequência a construção de muitas imitações próximas do palácio. Tentativas de assalto levaram Wegener a mandar instalar sistemas de alarme e de segurança que Fritzchen Leber distribuiu por toda a parte, tendo o cuidado de os tornar invisíveis e com contactos refinados, transversais e em cruz, engenhosamente montados e que constituíam autênticos desafios perigosos para os mais hábeis larápios profissionais que surgiam de todos os lados. Depois de sete tentativas vãs de se aproximarem dos Picasses, Buffet, Monet, e Chagall, desistiram. No seu círculo, a casa de Hellmuth Wegener, desde então, foi considerada inexpugnável. O Dr. Bernharts sentou-se num dos sofás fundos e esperou até Wegener tirar do bar, encaixado no painel da parede, uma garrafa de conhaque e dois copos. - Sempre estás resolvido a ingressar na política? - perguntou Bernharts, enquanto Wegener servia a bebida. - Não. - A política é o que existe de mais falso. Queres conferenciar no Ministério da Saúde? 289



- Também não. Mas Irmi disse-me... - O Ministério tem a intenção de me convidar. Mas não quero. Não posso! Wegener levantou-se, quando fizeram saúdes. - Seria o ponto culminante da tua carreira! - O ponto culminante! Falas como se já fosse um velho, que antes da seca volta a regar tudo. Alcancei o suficiente na vida. O que quero mais? A única coisa que posso desejar, é o descanso! E esse procurá-lo-ei agora! - De facto, tens necessidade de descansar, Hellmuth. Sou eu que to digo desde há anos, não só como médico, mas também como amigo. - Tenho a saúde de um touro. Como médico morrerias de fome comigo. - Meteste isso na cabeça! Quando fizeste o último electrocardiograma? E o último teste para os diabetes? A tua cabeça demasiadamente corada não me agrada. - A minha cabeça não agrada a muitas pessoas! Ewald, acaba com isso. Essa conversa de médico aborrece-me. Melhor do que ninguém, sei o que me convém. "Sei isso, de facto?", reflectia enquanto deitava de novo conhaque no grande copo lavado. "Dentro de três dias darei entrada numa sala da repartição, como protector da Constituição e o alto funcionário que me convidou tão amavelmente para uma pequena conversa, perguntará: "Afinal, quem é o senhor verdadeiramente? Sabemos que não pode ser Hellmuth Wegener..." "Um dia já passou, um dos quatro dias, nos quais eu queria contar a verdade a Irmi. Agora ela está de cama com febre alta e é impossível sentar-me junto dela e dizer-lhe: "Olha para mim. Quem vês? O teu marido! Sim, eu sou o teu marido. E tu és a minha mulher. Há trinta e um anos. Fomos sempre felizes um com o outro, não é verdade? Construímos juntos uma vida esplêndida. Marchámos de mão dada pelos altos e baixos e nunca nos arrependemos das decisões tomadas em conjunto. Há só um óbice: eu não sou Hellmuth Wegener." Pode-se-lhe dizer isso? Impossível! Mas como se diz? Deverá ela saber através de um escrito oficial ou por um empregado do Ministério Público? O seu marido, estimada senhora, o seu pretenso marido, chama-se, na verdade, Peter Hasslick. Portanto, V. Exa. é viúva, desde 1944. O seu marido, que se chama Peter Hasslick, está presente e no pleno uso das suas faculdades mentais..." - Em que pensas?-perguntou o Dr. Bernharts. - Reconheces agora que és, na verdade, um bruto, mas no íntimo tens muito talento? - Obrigado! Com um gole de protesto, Wegener esvaziou o seu conhaque. O Dr. Bernharts sacudiu a cabeça. - É exactamente o que eu penso! A paragem de um colosso! Pesas dois quintais. É um peso de vida que depende de pequenas bolsas de sangue situadas por detrás dos rins. Estás dependente dos nervos que se revoltam quando querem e não te perguntam se devem. Sabes tudo isso, mas continuas a comer, continuas a beber, só já não podes fornicar como dantes, porque a respiração vai-se, após quatro segundos! - Nota-se a influência da tua amizade com o Dr. Schwangler - comentou Wegener zangado. - Fui buscar-te por causa da bronquite de Irmi e não para ouvir as tuas velhas canções. - Irmi faz-me pena. - Com certeza. Porque a amas... - Idiota! - Ama-la há vinte anos. Desde o primeiro dia em que vieste à nossa casa, depois do velho doutor Hampel ter morrido no bordel. Posso ser muito defeituoso, mas cego não sou. Houve uma época em que preferia deitar-te da janela. Sempre, quando vinha para casa... quem estava já cá?... o doutor Bernharts! Amável, sorridente, cortês, com olhos de carneiro mal morto, contemplando Irmi, como ela ia, como mexia as mãos, como os seus peitos estremeciam ao jogar o arre-burrinho, como as suas ancas balançavam, como sentava as suas pernas elegantes. Devoraste-a com os teus olhos! - Admirei sempre Irmi, está certo! Admirei-a sempre, porque nunca compreendi a razão por que ela podia aturar um homem como tu. - Sou um monstro? - És um homem que não devia ter casado. Tu aniquilas todas as mulheres com o teu egoísmo, a tua presunção, a tua, como pensas que tens... irresistibilidade, a tua parecença a Deus. E tu és um homem que não repara que reage tão destrutivamente... Wegener pousou com força o copo de conhaque em cima da 290 291

mesa. O pé partiu-se, ele pegou no cálice e atirou-o contra a parede forrada de madeira. - Destrocei Irmi? - perguntou ele. - Ela disse-to? Para ela, os nossos trinta e um anos de casados, foram um inferno? Fiz dela uma ruína, que não se vê, porque eu guarneço-a com jóias e peles?! - Irmi nunca disse tal coisa! Ela tem algo de santo, pois pode sofrer e continua a ser feliz, quando o verdugo a acaricia, Hellmuth! Eu tenho acompanhado a vossa vida durante vinte anos. Tenho-vos ainda no olhar. Sempre foste o chefe e Irmi a sofredora. - Dizes um disparate psicológico, que me recuso a ouvir. - Digo e repito: "Eu, o grande Wegener!" Só alguns exemplos, está bem? - O Dr. Bernharts começou a enumerá-los pelos dedos. - Construíste a tua primeira fábrica, para o teu Vitalan, por detrás da farmácia... - Céus, eu sei que a construí e onde! - Perguntaste alguma vez a Irmi o que ela pensava disso? Mostraste-lhe algum projecto? Ou... ou, a tua casa aqui! Compras o terreno, fazes um palácio, mandas o teu amigo Leber dar largas à sua imaginação de arquitecto, e Irmi só sabe de tudo numa noite de Natal. - Foi o meu primeiro presente, seu macaco! A minha grande surpresa! - Nunca te veio ao pensamento, como poderia ter sido magnífico para uma mulher, planear, instalar uma vida em comum, suportar pedaço a pedaço desta vida, reunir felicidade para ti, o maior de todos os grandes? Nunca compreendeste que uma mulher é mais do que uma dona de casa, mãe, companheira na cama e representante da tua ascendência? Consultaste Irmi uma única vez, numa situação crítica? O que devo fazer? - Quis afastá-la de todas as aflições. - Que legenda cómoda para o teu egoísmo! Ela não devia afligir-se, seu burguês, e mesmo assim estava aflita, quando viu que tinhas problemas e os guardavas só para ti! - Queres dizer que ela se queixou? - Nunca tal lhe ouvi! Nem sequer uma única alusão! Mas continuemos: tornaste-te o senhor das Companhias. Vais a Hong-Kong ou a Tóquio, a Nova-Iorque ou ao Rio de Janeiro, a Delhi ou à Cidade do Cabo. E onde está a tua mulher? Onde a desterrou o Wegener endeusado? Em casa! De vez em quando, 292 pode ir a um congresso, onde se pode mostrá-la. Vê, lá está ela! O meu ser! O meu homúnculo. Fiz tudo para que ela ficasse assim. Jóias de Cartier, peles de Roma, vestidos de noite de Paris. Só então as rainhas podem acompanhar com a senhora Irmi Wegener e aqui estou eu, o bruto com dois quintais de peso, que fez tudo isso dela! Admirá-la? Com certeza, admiro-a e muito! - Isso não é verdade!-respondeu Wegener excitado.- Dei-lhe tudo, porque a amo. Ouves, seu pílula nojenta, eu amo-a! Não a ia meter nos meus negócios! Achas que ela devia conhecer a grande mentira, esta grande bestialidade do sistema capitalista de só olhar ao lucro, sem olhar a meios para atingir os fins, enfim, a enorme infâmia de subir sozinho, espezinhando tudo e todos, sem escrúpulos?! - Permanecer numa estufa é também falso - respondeu o Dr. Bernharts levantando-se. - Porque nos enfurecemos? Contigo já nada se modifica. - É natural que tenha sido um erro - confirmou Wegener pensativo. - Talvez se modifique tudo. Foi tudo tão idiota o que disseste... mas foi bom eu ouvir essas palavras, pelo menos, uma vez. Tomei uma decisão talvez falsa. Agora conheço o caminho certo, voltarei a lutar! - Contra quem? - perguntou o Dr. Bernharts assustado. - Contra uma sombra! - A maior parte das vezes, perde-se. - Mas tem de se arriscar. Há sempre uma oportunidade... Mais vale aproveitá-la do que capitular diante dela. Demonstrar-vos-ei a todos que têm uma ideia errada a meu respeito. - Vais então para o Ministério? - Deixa-me com o teu Ministério em paz! - Estava em pé, diante do Dr. Bernharts, e batia os punhos um no outro, punhos espessos, cheios de força.- E se nada disse das outras vezes, também desta Irmi não saberá nada. Agora não! - Ela sabe mais do que tu supões, Hellmuth! - O que sabe ela? - perguntou Wegener examinando o Dr. Bernharts, com as sobrancelhas franzidas. - Por exemplo, as coisas de Roma. - Roma? - Elietta Dagliatti. - Céus! Ao tempo que isso já vai! Quem pensa ainda nisso? - Porém, Irmi sabe tudo. 293

- Mas tudo isso já acabou... Ewald, vai-te embora! Por hoje já sei o suficiente. Mas agradeço-te. - Porquê? - Nunca saberás tudo! No fundo, és um amigo útil. - Oh! Que grande honra! - Os teus pontapés no rabo são como óleo lubrificante, o motor volta a trabalhar, como se estivesse novo. Pelo menos, por agora! Pronto, vai-te antes que te obrigue a esvaziar a garrafa inteira! Levou o Dr. Bernharts até à porta e regressou ao quarto de dormir com o espelho na parede. Os móveis tinham sido restaurados três vezes por Fritzchen Leber, mas o espelho ficou. - Este é o objecto principal! - afirmou o arquitecto, quando Wegener o quis retirar. - Eu não o arranco. Se já não o podes ver mais parte-o, mas não me peças para o tirar dali. Wegener permaneceu no quarto e não se olhou ao espelho. Mas viu Irmi adormecida, duas vezes - à direita, na cama, e à esquerda, com a imagem reflectida no espelho-e lembrou-se do que Bernharts dissera: "Perguntaste alguma vez a Irmi se lhe agrada isto ou aquilo? Não fizeste tudo só?" São as famosas decisões solitárias do Wegenerzinho! "Está certo", pensou Wegener. "Também mobilei este quarto, sem ouvir a opinião dela. O velho saiu e o novo entrou. E ela aceitou. E contudo, este é o seu quarto, o seu mundo íntimo, o seu pequeno paraíso, onde cai todo o seu disfarce, a marcar o dia a dia, onde ela é só uma pessoa que procura descanso, salvação, amor, sorte..." "Por que razão ela nunca disse: isto não me agrada! Talvez até tenha dito, mas manifestou-se tão pouco nitidamente, sempre cuidadosa, sofredora... e eu nunca reparei." Dirigiu-se para a cama, passou diante do espelho e observou a sua aparência na cama, ao lado de Irmi adormecida. Parecia um homem multifacetado, com crânio redondo, cabelos embranquecidos, ombros largos, uma caixa de peito como um gorila, pernas semelhantes a colunas. Inclinou-se sobre Irmi, colocou cuidadosamente a mão na sua testa quente e escutou a sua respiração assobiada. Em seguida tirou da algibeira das calças o lenço de assoar e limpou-lhe, ao de leve, o suor da cara. - Sei que agora me vais criticar - murmurou ele. - Não com o lenço! Vai buscar a toalha da casa de banho! Ó Irmi, como os outros nos conhecem tão pouco, embora lidem connosco há 294 vinte anos! O que sabem do nosso amor? Não és infeliz, não é verdade? Sempre só pretendi que fosses feliz. Se soubesses quanta força isso me dá... Voltou a passar o lenço pela cara dela, apagou a luz do candeeiro da mesa de cabeceira - era um trabalho veneziano: um pequeno mouro, que trazia uma esfera luminosa na cabeça - e saiu do quarto. No enorme átrio da casa, encontravam-se Peter e Vanessa Nina, agora com vinte e três anos, estudante principalmente de medicina e que aprendia ópera secretamente na Academia de Música de Colónia, julgando que o pai não reparara nisso. Ele deixava-a acreditar no seu desconhecimento do facto, porque ela realmente tinha boa voz e só ficava excitado quando ela lhe dizia que preferia apresentar-se nos palcos do que na mesa de autópsia. Peter, agora com vinte e sete anos, obtivera o diploma de químico, aprovado com distinção, o que iria ter grande importância na sua vida. Pertencia à secção de imuno-biologia do grupo de investigação do Complexo Euromédica e na sua actividade profissional debatia-se com o problema da repulsa às transplantações. - Como está a mamã? - perguntou Peter, fumando cachimbo, hábito que lhe ficara dos tempos do liceu e contra o qual o pai se opusera, mas sem resultado. - Ainda tem febre? - perguntou Vanessa Nina, que lia um livro de música, melhor dizendo, História da Música, e não o escondeu. "Tenho de descobrir desta maneira", pensou Wegener e sorriu. "Devo perguntar: porque não lês um livro de medicina?" Mas não te dou esse prazer, minha filhinha. A coragem é o primeiro passo e sempre vos eduquei a ser corajosos!'' "Coragem! O que é a coragem? Na guerra, a coragem era apenas o instinto de conservação. Na vida diária, a coragem é, muitas vezes, desespero. Para mim, a coragem foi apenas medo cerrado.'' - Ela está a dormir - informou ele, sentando-se entre os filhos, junto à lareira apoiada por colunas gregas de mármore. Está com gripe e tem a bronquite habitual. O que me contam? - Quero ser cantora de ópera, papá... - declarou Vanessa Nina em voz alta e num tom que não admitia réplica. Peter fumava, provocando espessas nuvens do seu cachimbo. 295

"Minha linda e corajosa filha", pensou ele. "Muitos parabéns!" - Eu sei - respondeu o pai. - A tua professora da Academia de Música considera-te um verdadeiro talento. Disse-mo ela também. - Vanessa Nina soltou um grito de alegria e lançou-se ao pescoço do pai. Ele beijou-a e acariciou-lhe a cabeça, agarrando os seus cabelos com as duas mãos. - Papá... trapaceiro. Grande trapaceiro! E tremi durante meio ano... Todos se riram às gargalhadas, que ecoaram pelas paredes altas do átrio. Era uma família feliz. "Isto nunca perderei", pensou Wegener apertando Vanessa Nina em si. "Nunca! Nunca! Nunca!" Deus do Céus, de quem espero um pouco mais, ajuda-me só mais um bocadinho..." O funcionário superior chamava-se Dr. Pfifferling e foi muito cortês e simpático. Indicou um lugar para Wegener se sentar, a uma mesa pequena e redonda, não em frente da secretária, para não dar o aspecto de um interrogatório ou exame, mas, sim, de uma simples conversa, havendo, contudo, algumas grandes diferenças! Tirou um processo bastante volumoso de um montão de documentos e colocou-o em cima da mesa. Wegener observou o maço, perplexo. - Tem de tomar o aspecto de formalidade oficial? - perguntou. - Sim. É necessário - respondeu Pfifferling solícito. - É um dossier bastante volumoso. - Tem, pois, atrás de si, uma vida rica, senhor Wegener. E espero que também à sua frente. - O Dr. Pfifferling sentou-se defronte de Wegener, na sua cadeira de madeira com estofo de fazenda, para funcionários superiores. Um sofá estofado na sala oficial do secretário superior seria considerado um acto de indisciplina... - O Ministério da Saúde planeia, o que o senhor já conhece, não só nomeá-lo para a Comissão de Medicamentos, mas oferecer-lhe também um posto consultivo. Para um independente, atendendo também à sua classificação eminente na matéria, é uma oferta rara e, por isso, especialmente valiosa. 296 - Infelizmente tenho de recusar esta honrosa nomeação. Os meus serviços administrativos enviar-lhe-ão o motivo. - Recusa? O Dr. Pfifferling abriu as actas e tirou os óculos da algibeira do casaco. Parecia-lhe evidentemente inexplicável como se podia recusar tal honra. - Dá-me licença que lhe ofereça alguma coisa? Um café? Conhaque, cigarros? Charutos? - Obrigado. Nada. Wegener deitou um olhar de fera ao reconhecer o inimigo, mas que ainda não sabe como se deve comportar perante o classificador de actas. Todos os documentos secretos encontravam-se ordenadamente arquivados e classificados. Era um processo individual completo, com todos os baixos e altos, desde o nascimento até à época actual. - Os funcionários foram aplicados - observou ele sarcasticamente. - O facto de o senhor Wegener ter acesso a estes processos demonstra a confiança depositada em si. Também a nossa conversa aqui, a sós... - Não haverá algum gravador escondido? Ou um microfone no candeeiro ou na jarra? - Tem visto os filmes do 007? - perguntou Pfifferling gracejando. - Connosco é muito diferente. - Cruzou as pernas, pôs as actas sobre os joelhos, folheou-as com os dedos e leu: "Nascido em Hannover, onde frequentou a escola primária e liceu... O pai morreu prematuramente, embora fosse membro do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores (NSDAP)..." - Sobre isso, nada sei. - Estudou medicina. Em seguida foi mobilizado para a Wehrmacht, para prestar serviço como oficial de reserva para os serviços médicos...-Pfifferling relanceou um olhar para Wegener. - Fez parte das organizações "Povo Jovem" e "Juventude Hitleriana"? - Sim. Durante os melhores anos, quando era novo, assim como todos nós. Quem quisesse estudar, devia ingressar na Juventude Hitleriana ou na Liga dos Estudantes. Tudo começava enquanto "rapazitos"... assim éramos conhecidos nessa época. 297

- Nesse caso, foi dirigente da Juventude?! - Talvez. - Surgia o primeiro escolho. Hellmuth nunca falara sobre o caso, certamente porque não era importante. - Era um posto grandiosamente aviltante... - Já não se lembra disso? - Após quarenta anos ocupados noutros assuntos, esquecemo-nos da terminologia dos "anos mil". - Em 1938o senhor foi transferido pela Juventude para os "rapazitos" e depois tornou-se chefe de grupo - Wegener sorriu suavemente. - Sabe que funções políticas monstruosas tinha um "rapazito" desses? - perguntou trocista. - Serões com instrução ideológica, acampamentos com formação pré-militar, até se aprendia a rastejar contra o campo adversário, imagine só! Marchas nas festas de Maio, a nove de Novembro ou pelos aniversários dos chefes... O mundo devia ter medo de uns rapazitos de dez anos! Pfifferling sorriu amavelmente e continuou: - Constroem-se muros com os alicerces - comentou sabiamente. - E sabe também que é na juventude que se constrói o futuro. - Depois já não tínhamos na Alemanha qualquer futuro! Ou um futuro confuso, tão confuso como o princípio de que a nossa juventude actual armazena sem crítica. Tenho experiência disso, porque sou pai de dois filhos modernos. - Já vamos ver isso. - O Dr. Pfifferling continuou a folhear as páginas do processo. - O seu filho Peter, nascido em 1948, tomou parte, quatro vezes, na demonstração do movimento de estudantes. Nos seus dezasseis anos de vida livre... - De acordo. Chamava-me capitalista e justificava a sua afirmação porque a expropriação das minhas fábricas constituiria excelente fundamento para a defesa do anarquismo. Deixava-o disparatar, muitas vezes, durante horas inteiras, até se cansar. Hoje está formado em Química e encontra-se colocado num dos grupos de investigação e casar-se-á, provavelmente no próximo ano, com uma maravilhosa filha de capitalista e descendente de uma família de proprietários de café, em Bremen. A minha filha Vanessa Nina teve uma fase em que só usava jeans, pullovers largos e sujos e botas cambadas. Os cabelos compridos e abertos até ao começo do rabo... Mas cabelos magníficos! Para ela, sou um ignorante. Agora, dentro de três a quatro anos talvez 298 desempenhe o papel de Annchen na ópera Der Freischútz'', ou segundo a minha opinião, seja a Konstanze... - Nunca se inscreveu num partido? Porque não o fez? - Os partidos vivem de ideologias e de programas. Não tenho feitio para me submeter a um determinado programa. Nós, os alemães, calcamos muitas vezes os programas dos partidos. - Como poderá, pois, existir, segundo a sua opinião, um povo, como forma de sociedade, sem organização política, se bem o compreendo? - Através de uma mútua compreensão e tolerância de ideias. - Isso é uma utopia, senhor Wegener! - De acordo. Mas porque não devo ser partidário de uma utopia, se na política se aplicam tantas ideias utópicas a sério e são engolidas pela sociedade, como bombons?! Wegener recostou-se. Naquele momento, sabia-lhe bem uma chávena de café forte, mas não manifestou tal desejo. No ponto em que a conversa se encontrava, seria uma prova da sua excitação interior. - Sou um homem completamente apolítico. Isto é também o motivo porque recuso um cargo no Ministério. Todos os partidos estão na bicha para se aproveitarem de mim. Até numa conversa amena, com uma garrafa de vinho à frente, não deixa de aparecer a maldita política. - O senhor foi agraciado com a Grã-Cruz Federal! - As razões porque me agraciaram estão descritas no "Laudatio", mas, no fundo, só serve para quem me agraciou. - Foi o senhor Presidente da República. - Não tive oportunidade de perguntar-lhe o motivo. - Foi convidado para as sete festas de Verão oferecidas pelo Chanceler Federal... - É provável. - Como? Já não sabe? - Temos tantos convites aos quais somos obrigados a ir, que me é impossível guardar na memória quantas vezes e onde estivemos. - Mas um convite do Chanceler Federal... O Dr. Pfifferling certamente nunca fora convidado para uma festa de Verão do Chanceler; certamente o seu desejo nunca fora realizado. Não podia compreender que se aceitasse uma tal honra de um modo diferente, senão com um aperto de mão normal. - De alguns lembramo-nos: fui sete vezes convidado do 299

Chanceler - declarou Wegener com voz suave. - Fomos bem servidos, o vinho era o melhor que havia, dançámos até à uma hora da manhã. Lá, vi uma série de pessoas tão conhecidas, que até perguntei a mim mesmo como era possível terem sido convidadas. Enfim, mais uma demonstração da suprema democracia. O Dr. Pfifferling continuou a folhear no dossier. Depois fechou-o com convicção e pousou-o afastado de si, em cima da mesa. "Talvez um dia estas folhas possam servir", pensou Wegener. "Um dia verás os outros, como eles hoje te vêm a ti! Não estará então uma outra pessoa metida nestas páginas, tal como se faz agora que estamos habituados? O que contribuiu para destroçar toda uma vida - aos olhos destes senhores - não se consegue adivinhar! Mas existe e em frases insípidas. Um trabalho de toupeiras diligentes no jardim da humanidade." Wegener e o Dr. Pfifferling conversaram ainda durante uma hora sobre todos os temas possíveis, mas sempre sobre Hellmuth Wegener. Falaram da NATO, da política do governo em relação aos países socialistas do leste europeu, do tratado com a Polónia, das oportunidades dos partidos nas próximas eleições, do fim do domínio colonial em África, do problema de Israel, do apressado Kissinger a viajar de país para país, do novo direito da juventude, das famosas declarações do papa acerca da pílula anticoncepcional e do excesso de vinho na Itália e na Alemanha. De vez em quando, Wegener metia uma piada que provocava riso transigente no Dr. Pfifferling, ou outra da lavra do Dr. Schwangler. Mas Pfifferling não era homem que se distraísse com tais assuntos, pois, de vez em quando, encaixava perguntas na conversa, para falar do passado, do tio em Hannover, que produzira gás tóxico, das viagens de Wegener e da sua amizade com Rudi Velbert, muito conh



ecido nos processos, mas em relação a quem nunca se tinha conseguido provar nada. - Foi um prazer conversar consigo - disse o Dr. Pfifferling, passada uma hora. Atirou com todo o processo Wegener para cima da grande secretária, como se quisesse dizer: continua vago.-De facto, não está interessado em entrar no Ministério? - Não! - exclamou Wegener apertando com amabilidade a mão do alto funcionário. - Pelo contrário. Pretendo, pouco a pouco, retirar-me das diferentes funções e pensar mais em mim e na minha mulher. 300 - Com 50% de reforma?! Assim, realmente, não é a pessoa que pretendemos. Nem pensar nisso! - De vez em quando sinto o "stress"! É um sinal de alarme de certa gravidade. Por menos do que isso as pessoas que têm automóvel correm imediatamente para a oficina mais próxima, mal sentem o motor a falhar. Mas em nós próprios, deixamos a coisa andar. - Achou exageradamente cortês o facto de o Dr. Pfifferling o acompanhar até ao elevador e esperar até a porta se fechar. - Deseja que volte cá? - perguntou ainda. - Se for necessário, convocá-lo-emos!-respondeu o Dr. Pfifferling delicadamente. E isso era o que Wegener sentia que o privava de todas as certezas, porque julgava ter vencido bem as dificuldades dessa manhã e tudo estar em ordem. Mas, "se for necessário, convocá-lo-emos' ', só tinha um significado: "Ficas com o processo suspenso! Nada está terminado. As nossas toupeiras continuarão a revolver. Tens algum peso na consciência! A vida de uma pessoa é tão importante que não se pode investigar numa hora; é semelhante a uma floresta virgem que tem de ser desbravada. Aguarda mais um pouco... Se for necessário, convocá-lo-emos..." Wegener não foi para qualquer das fábricas, mas sim para casa. No quarto de dormir encontrava-se o Dr. Bernharts a beber champanhe com Irmi. - Ah! - exclamou Wegener sarcasticamente. - A indústria farmacêutica vai com certeza à falência, quando existem médicos que tratam gripes com champanhe! - Dirigiu-se à cama, beijou Irmi na boca e sentou-se à cabeceira. - Irmi, embora os serviços públicos conheçam todos os passos da minha vida, ignoram, por enquanto, que compro bom champanhe em França! - Efectivamente, assim é! Mas não digas mais nada!-O Dr. Bernharts pousou o copo em cima da mesa de cabeceira, debaixo do candeeiro do mouro veneziano. - Porque vens tão cedo para casa? - Incomodo? - Não te disse já que o teu marido é ciumento? Há vinte anos que tens ciúmes de mim! - Bernharts soltou uma gargalhada. Até teve a ideia de me querer lançar pela janela fora! - És um palerma velho, vaidoso e traiçoeiro!-bradou Wegener. Olhou para o chão, sem fitar Irmi directamente, 301

apenas relanceou o olhar para o espelho e notou um leve sorriso na mulher. - Estou aqui para confirmar que a doença de Irmi passou espantosamente depressa e estamos a festejar o acontecimento com uma taça de champanhe. - Porque crês que o mérito é teu! É o nosso remédio contra a gripe! - O remédio? Que remédio?-perguntou o Dr. Bernharts olhando perplexo para Wegener. - Receitei a Irmi... - As tuas receitas conheço-as eu e deitei-as no cesto dos papéis. Há três dias que Irmi toma um novo remédio contra a gripe, fabricado nos nossos laboratórios, na secção VIII. - Viu como o Dr. Bernharts se calou e acrescentou logo de seguida: Depois de milhares de tentativas em animais, é um verdadeiro êxito nas pessoas. - E a tua primeira experiência humana foi em Irmi. HelImuth, eu... -O Dr. Bernharts respirou fundo. - Mas afinal, a Irmi, como tu próprio dizes, ficou ou não livre da infecção, num prazo espantosamente rápido? gritou Wegener de repente, sem se poder dominar. - Pela tua expressão "experiência humana", devia dar-te uma bofetada! - Ó caro amigo, isto é demais! -bradou o Dr. Bernharts saltando. - Irmi, ele exprerimentou em ti um novo remédio, que ainda não foi autorizado! Seja qual for o valor do invento, não é permitido fazer experiências em pessoas, sem se ter a certeza de um eventual sucesso! Primeiramente, em ratazanas, cobaias, coelhos, cães e macacos... agora em ti! Isto é tão monstruoso... - Se dentro de dez segundos não sais, voas pela janela! ameaçou Wegener. Levantou-se da cabeceira da cama, mas a mão de Irmi segurou-o. - Mas que disparate é este? -perguntou ela. - Sinto-me bem. Ewald, julgas que Hellmuth me queria envenenar? O Dr. Bernharts passou a mão pela cara excitada. - Irmi, essa pergunta é absurda, bem o sabes! Mas o que aqui se passou, retrata bem Hellmuth Wegener: "Eu, o Deus! Toda a vida nas minhas mãos! Eu sou o maior!'' - Irmi, larga-me - bradou Wegener espumando. - Tenho de correr com este tipo a pontapés! - Tal como garotos no pátio da escola! -Ela continuava a 302 segurar o marido pelas calças. - Ewald, o êxito subiu-lhe à cabeça. - Como sempre! É isso! Precisas de levar no focinho, para aprender a não ser tão estúpido e tão reles! -Apanhou a sua bolsa de médico, lançou o estetoscópio, o aparelho medidor da tensão arterial e o portátil de electrocardiogramas numa mala de cabedal e dirigiu-se para a porta. - Já não sou mais preciso aqui! - Muito bem! -exclamou Wegener. - Mas vem jantar - Irmi soltou as calças de Wegener. - As oito horas, Ewald, está bem? Temos almôndegas estufadas. - Cá estarei! - O Dr. Bernharts abriu a porta. - Que raio de marido é este que experimenta os medicamentos na mulher... a mulher alimenta o marido com bolinhos estufados, debaixo da terra! Deve ser uma espécie de vingança! - Rua! - gritou Wegener. - Como se chama o novo remédio? - Ainda não tem nome. Por enquanto, é só uma fórmula química. - É pena... - Porquê? - Neste momento, tenho quarenta e quatro doentes com gripe. Seria uma boa ocasião para tentar uma série de experiências ... - Deixou rapidamente o quarto de dormir e atirou com a porta atrás de si. Wegener voltou-se, sentou-se de novo na cama e beijou as mãos de Irmi. - Obrigado - disse ele em voz baixa. - Porquê? - Porque disseste àquele palerma que não te quero envenenar. - Isso nunca farias! Deitou-se na almofada, compôs o cabelo louro e puxou Wegener para si: vestia uma camisa decotada, que deixava livre a metade superior do peito. - É com essa camisa que recebes Ewald? - perguntou ele. - És ciumento? - Sim, Irmi. Loucamente, como no primeiro dia! - Nesse caso, Ewald não deve voltar. - Disparate! Ewald nunca te apalpará, excepto como médico! Ewald... tem piada! Mas será sempre assim e assim ficará sempre: todo eu tremo, só de pensar que gostas de outro homem. 303

Ela pôs-lhe a mão na boca e não o deixou dizer mais nada. - És um rapazinho tolo - sussurrou ternamente. : - Gordo e com dois quintais de peso. - Amo cada grama de ti. - Eu sei. Já me disseste uma vez.-Deitou-se na cama, vestido como estava, ao lado de Irmi, pondo o braço sob o pescoço dela. O cabelo exalava um suave perfume, que ele conhecia quase há vinte e oito anos. - Quero confessar-te uma coisa... começou ele. - Mas estou admirada. - O novo medicamento... - Vi logo na embalagem que se trata de um medicamento ainda em experiência. - E não disseste nada? - Para quê? Se tu mo deste, era bom, de certeza! Nunca me darias qualquer coisa que me fizesse mal. - Pois claro! - Passou os dedos por entre os cabelos dela e começou a brincar. - Tive, há seis semanas, um ataque de gripe e fiz em mim, apesar da oposição do chefe do departamento, a primeira experiência com o novo produto. Em dois dias desapareceu por completo todo e qualquer sintoma de gripe. O virus cedera! E ainda estou vivo, como vês! - Não tornes a fazer isto! -pediu-lhe séria. Ela libertou-se das mãos dele e fixou-o, quase a chorar. - Nunca mais! Promete-me! - Tens medo? Por mim? - Só por ti! Sempre por ti! Nada conheço de diferente. O que é isto tudo que temos aqui, sem ti? Podia renunciar a tudo, para viver contigo, mesmo numas águas-furtadas. Jóias, peles, as casas, as carpetes e os quadros, a colecção de ícones... Meu Deus, o que é isto tudo, se eu não te tivesse junto de mim! - E se eu não fosse digno desse amor louco? "Agora podes dizê-lo", pensou ele. "Agora é o momento exacto. Agora confessa-lhe quem verdadeiramente és. Se ela te ama tão cegamente então também te desculpará. Vamos, diz-lhe, Peter Hasslick! O começo foi bom: não sou digno deste amor. Agora conduz a conversa logicamente. Porque é que não sou digno? Porque te amo até à dilaceração, Irmi, mas menti-te durante toda a vida. Eu sou..." Mas ele nada disse. Calou-se. Fechou os olhos, quando ela se dobrou sobre ele e o beijou na boca. Pôs os braços à volta das 304 costas dela e sentiu através da camisa os seios redondos da mulher. - Então de quem és digno? - perguntou ela junto aos seus lábios. - De ti, não! - Nesse caso, púnhamos isto ao contrário, seu tolinho: para mim tens bastante valor! Ou de maneira diferente: és digno de mim. Qualquer pessoa tem sempre valor. Estás satisfeito? - És uma bênção de Deus... - Ó Céus! Pronto. Virou poeta! - exclamou ela rindo. Beijou-o outra vez e voltou-se de costas. - Vai buscar o champanhe! A garrafa está ainda meio cheia. - Deitaram-se de novo na cama, ele vestido e com os sapatos calçados - a que ela não fez reparo - e ela em camisa de dormir decotada. Deixaram os copos tilintar um no outro e beberam até o champanhe os aquecer. - Quando foi que bebemos, juntos na cama, champanhe pela última vez? - perguntou ela. Ele olhou-a admirado. - Não sei. Deve ter sido há muito tempo... - O que perdemos! - Espreguiçou-se em direcção a ele e pôs a cabeça na curva do pescoço. - Devíamos beber muito mais champanhe na cama... A recusa de Wegener em aceitar o cargo no Ministério causou certa consternação. Em consequência, foi contactado por três vezes por um dirigente ministerial e, por fim, o Secretário de Estado convidou-o para almoçar com ele, mas de nada serviu: Hellmuth Wegener tornou público que agora, com cinquenta e cinco anos, já não lhe interessava trabalhar loucamente, mas, pelo contrário, tinha de pensar na sua própria saúde. - Para que me serve uma casa de Verão no Tirol, um chalet em Walk's, uma casa de campo na Cote d'Azur, quando só posso gozar tudo isso durante uma ou duas semanas por ano? Já não vou a Wallis há quatro anos. Não! Tenho que parar, entregar a pasta aos meus sucessores! E, felizmente, tenho-os! Agora vou começar a viver. Admiro a minha mulher, a minha companheira de vinte e sete anos. Não me venham com a conversa: ela tem tudo o que uma mulher pode desejar! Não, não o tem! Eu não estava lá! E eu também não estava lá quando me sentava ao lado dela! Compreende o que quero dizer? 305

- Os homens de sucesso nem sequer pertencem só a uma mulher! É o grande destino destas mulheres. - Mas não se devia aceitar simplesmente isso nessas condições. Meu caro amigo Secretário de Estado, de futuro vou-me sentar pouco à secretária das Companhias: encontrar-me-ão, mais vezes, sentado na areia junto às costas do Mediterrâneo. Lá deitar-me-ei, como um rapazinho, fazendo castelos de areia que as ondas desfarão facilmente e passearei de automóvel com a minha mulher. Comerei peixe assado no espeto e beberei bom vinho tinto da região. E desde já lhe digo que nada do que me rodeou até agora me fará falta: as fábricas, a sociedade, as festas, as grandes confraternizações, as reuniões, as viagens à volta do mundo, as discretas propostas das senhoras, que, apesar dos meus dois quintais, seriam aventuras picantes e para elas constituiria uma honra ir para a cama com o grande Wegener, pelo menos uma vez. Tudo não será nada comparado com a pequena felicidade de poder meter os pés nas ondas e poder dizer: agora tens finalmente te



mpo, meu rapaz! Tanto tempo! Sentes o vento quente na pele? Ouves o murmurar do mar? Sobre ti grita uma gaivota. E depois estender os braços, deixar correr a areia através dos meus dedos e finalmente saber o que é a felicidade! - Depois de você se ter transformado no grande Wegener! É simples! - Mas foi difícil! Meti ombros a uma tarefa até atingir a perfeição. Agora alcancei finalmente o ponto culminante por onde posso escapulir-me desta vida, para me tornar outra vez Eu. O que significa isto para mim, não posso explicar a ninguém, porque ninguém acreditaria. Agora já não sou... Mas ainda não tinha a certeza se alguém mais acreditaria nele; não era Hellmuth Wegener mas sim Peter Hasslick. Nos meses anteriores pensara muitas vezes: "Quando anunciar a todo o mundo que eu não sou eu, então suporão que o velho endoideceu, é tudo. Ninguém aceitaria isto como verdade e toda a gente recusar-se-ia a acreditar. Como podia provar que sou Peter Hasslick? Os documentos estão na Rússia e os outros arderam em Osnabrúck. Tenho a cicatriz de Wegener no braço, adoptei a sua escrita, possuo todos os seus documentos, agora sou duplamente "Dr. honoris causa", proprietário de companhias, dono de uma cadeia de farmácias, co-proprietário de quatro outras fábricas -confiramos- precisamente vinte e três conselhos fiscais... E este homem existe e afirma não ser 306 Wegener. É um caso para o psiquiatra. Contudo - era tão bom fazer crer tal coisa! - a incerteza, este trauma do medo, que até chegava às profundezas do seu ser, ficava depois como dantes. E foi estimulado por algumas chamadas telefónicas que teve com o Dr. Pfifferling. - Com certeza que terei muita honra em falar outra vez consigo - disse Pfifferling amavelmente. - A conversa com V. Exa. ficou-me no ouvido. Foi um prazer. A sua atenção agrada-me muito, senhor Wegener... "Com certeza que terei muita honra em falar outra vez consigo..." Não estaria aí alguma ameaça escondida? O que investigavam ainda para defesa da Constituição? Em que ponto da sua vida estariam as toupeiras a revolver? O que faltaria ainda para completar o processo de Hellmuth Wegener? Onde se encaixariam as pedrinhas dos mosaicos que ainda faltava encontrar? Foram meses entre a esperança e a ansiedade. Meses de autocontemplação e de contínua perspectiva de se convencer a si próprio. "És inatingível! És Hellmuth Wegener. Não há qualquer contraprova mesmo que tu próprio a forneças. E depois - pensa nas tuas próprias reflexões - ninguém acreditará em ti. A verdade, nestas condições, é sempre pouco digna de fé." Em segredo -para Irmi- mandou reservar para umas longas férias de Natal uma viagem aos mares do sul: em Samoa, de 15 de Dezembro até 31 de Janeiro. Peter combinara passar o Natal em Bremen em casa da noiva. Vanessa Nina queria ir, nesses dias festivos, com amigas para a Grã-Canária, onde havia um clube de praia para jovens. Metade dos alunos de ópera da Academia de Música foi com ela. Wegener disse sim a todos. Samoa tornara-se na sua consciência o começo da sua nova vida. Com Irmi em Samoa. E depois -como mudança -, seis semanas de férias na neve em Wallis, depois a Primavera no sul da França, rodeado pelas mimosas e o cheiro das couves florescentes da Provença. Já não se pode recuperar a juventude, mas agora era finalmente possível passar os últimos vinte anos cheios de felicidade,de mão dada, como outrora quando Irmi o foi buscar a Friealand e o trouxe magro, esfomeado e com as olheiras de prisioneiro da Sibéria, dizendo para si: "Esta m

ulher tornar-se-á a minha vida! Só esta mulher! Isso juro! Na manhã de 28 de Outubro de 1975, Irmi estava já no cabeleireiro. Wegener dormira muito, também isso era já o início 307



de uma mudança dos seus hábitos, foi buscar o tesouro por detrás do quadro de Gauguin, o seu último diário -1974 até... - e registou com toda a calma como foram os últimos vinte e sete anos, os seus pensamentos, reflexões, desejos, necessidades e realizações. Escreveu: "No dia 15 de Dezembro partimos, Irmi e eu, para Samoa. Na próxima semana terei de dizer-lhe, pois quando uma mulher se prepara para uma tal viagem, as quatro semanas anteriores já são muito escassas. E eu sei o que ela dirá. Samoa, porquê? Porquê tão longe? Por causa das raparigas seminuas com os seus colares de flores? Já tão gordo, nenhuma olhará para ti, mesmo que ainda encolhas a barriga. Mas se quiseres... bem, vamos até lá! Se quiseres... Isso dissera ela durante vinte e sete anos. Paciente, sempre pronta: se quiseres! -Meu Deus! Dirijo-te a palavra, embora não sejamos bons amigos: porque mereci uma tal mulher?" Nessa manhã de 28 de Outubro, Hellmuth Wegener barbeou-se como sempre na casa de banho diante do espelho em que Fritzchen Leber encaixara uma instalação indirecta. Via por isso no espelho todos os poros, toda a barba rala e esquecida. Wegener ensaboou-se - só podia fazer a barba assim, porque a sua pele não suportava a máquina eléctrica e apareciam manchas vermelhas. Depois observou-se criticamente e ficou desconcertado, pois, apesar de bem vestido, os seus olhos sofreram uma notável modificação. Agora, neste preciso momento... via-se nitidamente ao espelho. Os olhos dilataram-se, alargaram-se nas órbitas e ficaram fixos. A máquina de barbear caiu dos seus dedos repentinamente débeis; algures no seu interior sentiu um aperto, viu a sua imagem no espelho cair de joelhos e desvanecer-se! Caiu sobre o chão de mármore grego; estava só, isso sabia, mas sentia alguém ali, invisível, que lhe apertava a garganta e lhe cortava o ar, e ele estava demasiado fraco para se poder defender; não se mexeu, também já não sabia se estava deitado ou ainda de pé, a consciência para o equilíbrio abandonou-o, ficou-lhe o aperto no interior, a mão que o sufocara soltou-se, era delicioso, tão delicioso poder respirar de novo - e depois tornou-se tudo vago e irreal, e ele respirava, respirava e ouvia, como se começassem a murmurar à volta dele, como se se abrisse uma represa. - Morreu entre as 9,30 e as 10 horas - declarou mais tarde 308 o Dr. Bernharts. - Foi um enfarte miocárdio. Irmi, é tão terrível exprimir: foi uma bonita morte. Não sentiu nada. Num segundo morreu. Ela pousou o último caderno do diário e olhou para o cofre aberto. Em seguida encostou-se e fechou os olhos. Já não chovia. Estavam a decorrer as exéquias no "Roseiral". Para cima de oitocentas pessoas, foi uma festa enorme à memória de um morto. Peter recebia as condolências, Vanessa Nina suportava as palavras fingidas das senhoras. Falar-se-ia ainda durante muito tempo destas exéquias. Assim como Hellmuth Wegener vivera, assim se despedia ele também. Hellmuth Wegener... Irmgard levantou-se, juntou de novo os diários num maço e meteu-os no cofre. Fechou-o à chave outra vez, pôs o quadro de Gauguin em cima e voltou a colocar a chave na pequena caixa de madeira veneziana, uma dessas quinquilharias pintadas a cores que qualquer turista pode comprar em qualquer quiosque. E ela agora compreendia a razão pela qual Hellmuth Wegener colocara a chave nesta caixinha. "Vê, este sou eu! Tenho de estar aqui dentro! Vocês viram sempre em mim só um herói. Na verdade, fui um exemplar de muito pouco valor." Ela tirou a caixinha, dirigiu-se para a secretária de Hellmuth e fechou-a lá. O Dr. Schwangler receberia um dia a chave desta gaveta e também a última disposição dela de que os filhos Peter e Vanessa Nina deviam abrir o cofre situado por detrás de Gauguin só três meses após a morte de Irmgard Wegener. Como Hellmuth escrevera, recordou-se da última frase do diário: "Amei-a, vivi vinte e sete anos com ela num verdadeiro paraíso, como seu marido, sem ter de me casar com ela. Foi um casamento feliz." - Foi isso mesmo, Gordo!-disse ela, e dirigiu-se vagarosamente para a janela. No parque, os pingos de chuva gotejavam das árvores e dos arbustos, o nevoeiro perpassava sobre a casa de chàea relva brilhava como se tivesse sido polida. Era mais uma fantasia maravilhosa da natureza fascinante. Sabia isso há anos. Pressentira-o quando ele chamou o filho para conhecer os camaradas mortos em combate. E foi o objectivo, como na altura da reunião com os seus colegas de turma. 309

Estes inúmeros indícios fizeram-na ganhar consciência do que se tinha passado. Mas porque receava ele que um dia ela pudesse descobrir e destruir tudo o que construirá? Ela calara-se, porque era melhor assim - para ele. Ela teria ferido profundamente o seu orgulho - e esta ferida nunca seria cicatrizada. Com isso, tê-lo-ia exterminado. Porque faria semelhante coisa? Não seria o mesmo para ela se este homem, o seu marido, fosse, de facto, Hellmuth Wegener? Ela amava-o. Era o suficiente para levar uma vida magnífica. Encostou a testa à vidraça fria e húmida e pôs as mãos junto à cabeça, apertando-a para não estalar. Foi um casamento feliz. "Agradeço-te, Hellmuth."



Fim.


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