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Este livro foi digitalizado e revisto por

Maria fernanda da conceição pereira

Heinz Konsalik

Jogo duplo

Círculo de Leitores

Título original: DOPPELSPIEL

Tradução de: MARIA EMÍLIA MOURA

Sobrecapa de: MANUEL DIAS

© 1977 Hesha Verlag GmbH, Bayrenth Fotocomposto em Times 10/11 por Linopazas Impresso e encadernado por Printer Portuguesa

no mês de Outubro de 1980 Primeira edição: 10000 exemplares

Só é permitida a venda aos sócios do Círculo

A limusina preta Wolga parou com um solavanco. Logo se formou poeira debaixo das rodas subitamente travadas, subindo em nuvens amareladas até às janelas do automóvel. O motorista, um sargento do Exército Vermelho, III Secção Ucraniana, voltou a cabeça para trás, esticando o corpo da cintura para cima. Tinha as mãos pousadas

nas coxas.

- Cá estamos, camarada major - anunciou num tom lacónico de militar.

- É aqui? - retorquiu o homem afundado no assento da limusina e olhando através da janela. - Não nos enganámos no caminho, Petros lakovlovitch?

- As ordens que recebi foi para o deixar neste sítio, camarada major - respondeu o sargento, que se voltou novamente para diante, sem pronunciar mais uma palavra.

«Tem toda a razão para ficar admirado», pensou. «Quem não o ficaria? Diz-se-lhe: ”Vai ser transferido, meu caro Andrei Nikolaivitch. Um comando honroso”... e onde se aterra? No meio de uma região acidentada e da mais absoluta solidão, atapetada de erva rasteira, oferecendo como paisagem alguns salgueiros e bétulas, sabugueiros e moitas de arbustos. Para onde quer que se olhasse, nem sombra de homem, nem uma cabeça de gado, um cavalo, um tractor, nem sequer uma ovelha... nada de nada, à excepção de uma terra com encostas e erva rasteira. No entanto, talvez tudo isso pudesse tornar-se suportável. Muito mais desconsolador ainda a rede de arame farpado electrificada e totalmente deslocada no local, medindo mais de três metros de altura

- à maneira de aviso -, a cortar o terreno. De um lado ao outro do horizonte apenas uma rede de arame. Por detrás uma faixa nua, talvez com cinquenta metros de largura,

desbravada, lavrada, arroteada, e só depois, novamente, alguns arbustos e bétulas. Até o mais parvo dos parvos, mesmo aquele que na falta de outro objecto bebe água pelo próprio sapato, sabia: ”Esta faixa sem nada é a morte! Aqui enterraram minas que atiram as pessoas pelo ar e as devolvem em tiras. Aqui encontram-se instalados, seja onde for, requintados mecanismos de autodefesa que são accionados por contactos invisíveis. Aqui soa imediatamente o alarme em fortins dissimulados se alguém conseguir realmente atravessar o arame e puser pé nos infernais cinquenta metros. Nada de passagem, camarada! Sete coelhos e quatro toupeiras já tinham tentado a proeza... rebentou um barulho infernal, os pobres animais desfizeram-se em bocadinhos e, seguidamente, alguns especialistas destacados para o efeito tinham-se dado ao trabalho de substituir as minas detonadas. Contudo, a partir dessa altura deixou de haver coelhos e toupeiras na região... a palavra de ordem espalhou-se pelos próprios animais: ”Afastem-se da rede!”»

O major Andrei Nikolaivitch Pleniakov saiu do Wolga e tirou do assento traseiro a mala forrada de um castanho-esverdeado. Pousou-a junto da limusina e tirou o boné de pala para limpar o suor da testa com as costas da mão. À sua frente estendiam-se a faixa da morte e a calma solidão. Na rede de arame farpado estava metido um portão de dois batentes; no poste de ferro, à direita, estava pendurada uma pequena caixa de lata, pintada de verde. A portinha fechava-se com um simples trinco.

Pleniakov, que tinha avançado três passos, voltou a cabeça na direcção do Wolga preto para o olhar. O sargento Petros lakovlovitch, um homem baixo de rosto impenetrável, também já descera nessa altura e foi buscar à mala do carro a restante bagagem: a pistola automática Kalachnikov, arrumada num estojo forrado de tecido castanho-terroso, um saco de viagem e um caixote que continha - sem grande surpresa de Petros - um radiotransístor e um gira-discos. Portanto, discos também. Beethoven, Wagner, Verdi, Meyerbeer, Bruckner e, naturalmente, Chopin, Tchaikovsky,

Glinka, Mussorgsky, Prokofiev, Rimsky-Korsakov e Borodine. Petros transportou tudo até ao portão da rede de arame electrificada e amontoou a bagagem junto de Pleniakov.

- Deseja mais alguma coisa, camarada major? - perguntou, enquanto Pleniakov contemplava a região em silêncio e de cenho franzido.

- Não, Petros lakovlovitch. Espere aí. Quero fazer-lhe uma pergunta. Já deixou muitos camaradas neste sítio?

- Bastantes, camarada major.

- E como reagiram?

- Ficaram surpreendidos, como o senhor.

- Não sabe mais nada?

- Não.

- O que fica do outro lado da encosta?



- Nunca pensei nisso, camarada major. Para quê? Uma pessoa puxa pela cabeça e nunca sabe nada. Além disso, que nos interessa? Aqui acaba um pedaço do mundo. Do outro lado começa um outro pedaço, mas não para nós. Para quê preocuparmo-nos? Os que se instalaram aqui decerto pensaram nisso.

- Seja como for, ali para trás deve correr o Bug. Partimos de Vinniza para o sul, sem avistar o rio. Agora, tem de ficar à nossa esquerda...

- É provável - interrompeu-o Petros lakovlovitch com um encolher dos ombros pequenos e a mesma expressão impenetrável. - Aqui só conheço o caminho entre Vinniza e este portão. Para quê saber mais?

Fez a saudação de despedida a Pleniakov e acrescentou:

- Na caixa pendurada no poste há um telefone, camarada major. Se levantar o auscultador, alguém o atenderá. Tenho de regressar.

- Boa viagem, Petros lakovlovitch.

- Muito obrigado, camarada major.

Pleniakov esperou, até que o Wolga preto desapareceu por detrás de uma encosta, numa nuvem de poeira amarelada, ficando apenas o ruído do motor no silêncio quase total. Algumas aves saltitavam nos ramos das bétulas e fitaram

Pleniakov com surpresa. Fazia calor, de mais até para este dia de Maio. A terra já estava seca. Se o sol continuasse assim, haveria uma má colheita na Ucrânia e o Plano dos Cinco Anos fracassaria outra vez.

Pleniakov aproximou-se da caixa de lata, abriu a pequena porta e levantou o auscultador do telefone verde-escuro. Ouviram-se alguns toques e em seguida o major estremeceu, porque a voz que lhe soou ao ouvido era tão nítida e clara como se lhe estivesse a falar junto ao tímpano.

- Seja bem-vindo, Andrei Nikolaivitch! - exclamou a voz jovial antes que Pleniakov se anunciasse. A expansividade do homem invisível em nada se coadunava com o desconsolo do que o rodeava. - Chegou pontualmente. Contudo, nesse aspecto, a responsabilidade é de Petros... parece um relógio bem oleado. Ao olhar, neste momento, para o seu rosto, vejo que está a pensar: «O tacho de ferro que a minha mãe punha ao fogão tinha mais vida do que esta estrumeira.»

- Uma analogia muito a propósito - retorquiu Pleniakov, olhando em volta. Havia o arame farpado, o portão, a faixa da morte, os arbustos e as árvores. Não conseguia descobrir mais nada. A voz ao telefone soltou uma risada de satisfação.

- Estou a vê-lo, mas você procura em vão onde está a câmara televisiva. Trata-se de uma camuflagem perfeita.

- Os meus parabéns. Dantes tinha um olhar arguto

- felicitou Pleniakov com um esboço de riso. - O que me espera agora?

- Vão aí buscá-lo. Um tenente e três praças. Pleniakov pousou o auscultador no lugar. Um outro ruído

encheu subitamente a atmosfera quente e o seu ouvido treinado reconheceu o som: «É o motor de um camião. Um velho GAZ-69.» O major deixou-se estar no seio da bagagem e sentiu-se satisfeito por não se ter enganado quando o camião apareceu subitamente no cimo de uma colina. Que tal o seu exame final em Ust-Katovskaia? Tinham-no colocado, de olhos vendados, no meio de um caminho da floresta enquanto carros passavam ao seu lado,

uns atrás dos outros:

«Este é um Fiat, agora um jeep, um Dodge, um Mercedes de quatro toneladas, um Man alemão, um Volvo arrastadeira, um T atra III 5-2, um Ural ZIS-375...»

E, seguidamente, os vários tipos de tanques e blindados, os carros de tropas e de munições. Reconhecera todos os modelos só pelo ruído do motor, tendo obtido o ambicionado «Muito bom» e um diploma. O melhor do seu curso. E este treino do ouvido era meramente uma ínfima parte da preparação. Havia outras coisas, mas dessas não se falava.

O camião atravessou o campo minado em ziguezague, parou junto do portão e um jovem tenente desceu. Os outros três «vermelhos» deixaram-se ficar sentados e apontaram as Kalachnikovs na direcção do major Pleniakov. Com a ajuda de uma simples chave - tão certo se estava da segurança daquele inferno de arame farpado - o tenente abriu o portão. Pleniakov fitou os canos das automáticas e nem se mexeu.

- Não são bem o tipo de anfitriões amáveis - limitou-se a comentar.

- Temos de o pôr à prova. Andrei Nikolaivitch retorquiu o jovem tenente, aproximando-se de Pleniakov e com um sorriso desenhado nos lábios como se lhe pedisse desculpa da missão que desempenhava. - Esperávamo-lo. Sabemos quem é. Mesmo assim...

- Cumpra o seu dever, camarada tenente. Quer que me dispa? Um homem nu já nada pode esconder.

- Concordo, mas não é necessário.

- Errado! - comentou Pleniakov com um sorriso de um canto ao outro da boca. - Ensinaram-me que num tubo que se enfia no ânus e chega ao intestino um homem pode transportar matéria plástica explosiva suficiente para fazer saltar uma ponte.

O jovem tenente olhou fixamente para Pleniakov, ao mesmo tempo que o sorriso se lhe gelava nos lábios e o olhar se tornava duro e cortante como aço.

- Dispa-se, camarada! - retorquiu bruscamente. Nunca tinha pensado nisso.

- Bravo! - aplaudiu Pleniakov com uma risada, ao mesmo tempo que desapertava o cinto das calças e as deixava cair até ao chão, depois do que começou a ocupar-se dos botões do casaco do uniforme. - Convença-se, camarada tenente - continuou sem deixar de proceder à operação -, que o intestino não é o único esconderijo para um homem nu. Existe toda uma série de outras possibilidades...

Algures na zona ouviu-se um som agudo. Pleniakov, que se preparava para tirar o casaco, deteve-se a meio. «É um alto-falante», pensou. Ali no meio das bétulas, mas completamente dissimulado. Uma camuflagem de mestre. Neste local conhecia-se bem o ofício.

Uma voz, a mesma que escutara ao telefone, ribombou, cortando o silêncio. Pleniakov esforçou-se o mais que lhe era possível, mas não conseguiu descobrir o alto-falante nem tão-pouco a câmara televisiva.

- Tenente Alaiev!

O jovem oficial deu meia volta e colocou-se em posição de sentido. Parecia um pouco ridícula tal atitude ante uma voz, mas Pleniakov tomou consciência imediata da disciplina que ali vigorava.

- Camarada general! - respondeu o tenente Alaiev. «Ah! Temos então um general na câmara televisiva.

Mas que honra!», pensou Pleniakov. Interrogou-se, no entanto, simultaneamente sobre como, naquele local, para onde fora destacado, tudo o quê ainda não podia ver devia ser importante, na medida em que um general se interessava por quem se aproximava do arame electrificado.

- Não precisa de revistar o cu do camarada major, Alaiev! Não traz explosivos com ele. Trata-se, aliás, de uma velha anedota entre agentes secretos. Andrei Nikolaivitch...

- Camarada general! - respondeu Pleniakov, colocando-se igualmente em sentido.

- Entre no nosso paraíso, que é mesmo a sério e melhor do que o antigo. Aqui, ninguém pode expulsar ninguém e não lhe vão oferecer a maçã proibida’. Pelo contrário. Quantos mais conhecimentos reunir tanto melhor. Vê-lo-ei

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mais tarde, Andrei...



Repetiu-se o som de há pouco e o alto-falante calou-se. O tenente Alaiev afastou-se para o lado, deixando o caminho livre, e Pleniakov avançou lentamente até ao camião. Dois «vermelhos» armados desceram, correram até junto da bagagem colocada diante do portão e transportaram-na para a terra proibida. Fiel ao regulamento, Alaiev verificou o conteúdo’ do caixote.

- Com que então, discos! - exclamou, ao mesmo tempo que um brilho lhe inundava o rosto jovem. De quem?

- Desde Beethoven a Bartok.

- Magnífico! - comentou Alaiev, fechando a tampa. É uma pena que lhos vão tirar e os ponham no armazém, camarada major.

- Qual o motivo?

- Não demorará a entender - respondeu Alaiev, tomando lugar no camião junto de Pleniakov. - Agora está noutro país. Isto já não é a Rússia...

O que Pleniakov tinha considerado como uma mera forma de expressão de Alaiev - tantas vezes se diz: «isto já não é a Rússia», quando se está irritado; pois ali estava a Rússia realmente com os seus campos ucranianos e os rios Bug, Dniepre e Dniestre, uma região rica e fértil - provou-se, alguns minutos mais tarde, após terem transposto o cimo da encosta, uma verdade ainda não apreendida: diante de Pleniakov estendia-se uma vasta planície, coberta de relva, apenas cortada por algumas moitas de arbustos verdes. Só quando estavam mais próximos se apercebeu tratar-se de pequenas casas de pedra, em redor das quais se tinham cultivado densas sebes de raízes entrelaçadas. Depois de descerem mais uma encosta, Pleniakov suspeitou da presença de lança-foguetes, alvos, projectores e contadores electrónicos.

- Faltam-nos mais duas barreiras - esclareceu o tenente

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Alaiev. - Por detrás da terceira, estará em casa.



- A que chama casa?

- Isso dir-lhe-á o camarada general. De facto, passaram ainda dois portões de barreiras electrificadas, sendo de cada vez submetidos a controlo e fotografados. Na terceira barreira, Pleniakov teve de transpor lentamente um portão de aço em arco. Uns olhos de vidro metidos na parede examinaram-no.

«Chapas», pensou. «Raios X. Estão a bater chapas. Aqui deixa de haver esconderijos... até mesmo cápsulas engolidas se tornarão visíveis. É a segurança total.»

- Ora cá temos Andrei Nikolaivitch! - exclamou do outro lado da arcada um capitão gorducho, ao mesmo tempo que estendia a mão a Pleniakov. Consultou, seguidamente, o relógio de pulso e fez um aceno de cabeça afirmativo. - Dentro de meia hora chega o autocarro. Temos tempo para mudar de roupa.

- Chega o quê? - retorquiu Pleniakov surpreendido.

- O bondei - disse o capitão, dando-lhe uma palmada no ombro. - E despimos rapidamente o bonito uniformezinho com as medalhas. Venha comigo, Andrei. Temos um óptimo conjunto de jeans ao seu dispor. Feitos de propósito... o seu metro e oitenta e cinco de altura e essa maldita largura de ombros levantaram um pequeno problema. Graças a Deus que tínhamos recebido de Ust-Katovskaia as suas medidas pela rádio - continuou o baixinho e gordo capitão, com um largo sorriso. - Até podemos dizer: «Graças a Deus!», já reparou? Há mesmo ordem para se ler a Bíblia. Sim. Vai-se habituar. E também a que lhe tire tudo o que traz consigo, meu caro Andrei.

- Tudo?

- Sem excepção. Acompanhe-me ao armazém. Aqui não se arranja nada. Sim. Tenho a certeza de que os jeans lhe assentarão como uma luva. As mulheres vão ficar doidas e põem-se a dar às ancas...



- Mulheres? Aqui? - surpreendeu-se Pleniakov, passando as duas mãos pelo cabelo claro encaracolado.

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Era o que se chamava um bonito homem. Um homem junto de quem se pára e se segue com a vista, despertando no mais íntimo um misto de admiração e inveja. - Isso é uma grossa mentira, camarada.



- Chegou a um paraíso, como diz o general... convença-se de uma vez para sempre, Andrei. Garanto-lhe que dentro de meia hora verá as mulheres mais bonitas que existem do Alasca à Terra Nova. Uns corpinhos, digo-lhe! E se der um estalo apreciativo com a língua, rebolam o traseiro como resposta.

Empurrou Pleniakov, que subitamente pareceu apático, para um compartimento e fechou a porta atrás de si. Em cima de uma mesa grande havia um conjunto de jeans com rebites, uma camisa aos quadrados, um lenço vermelho de pescoço e um chapéu amaericano de abas largas, tipo Stetson, como se chamava. Debaixo da mesa via-se um par de botas de camurça, meias de fibra de nylon amarelo-vivo, debruadas a vermelho. Numa outra mesa estava exposta a roupa interior... slips de algodão florido, uma camisola com letras enormes no peito, em azul-vivo: «The Rangers-Baskets», junto a um boné com uma grande pala de plástico verde. Também no boné, à frente, as mesmas letras gritavam a Pleniakov: «The Rangers-Baskets».

- Não é uma maravilha? - pronunciou-se o gordo capitão jovialmente. - Quando tiver vestido esta roupa, camarada, terei de dar o alarme. As mulheres arrancarão as blusas só de olhar para elas.

- Que significa tudo isto? - quis saber Pleniakov, encostando-se à parede caiada de branco. - O que se passa aqui, Ilia Savelivitch? As barreiras impenetráveis, essa maldita conversa do paraíso, agora estes horríveis trapos americanos, um bonde que me vem buscar, mulheres nas proximidades... é tudo uma loucura!

- Mas com método, Andrei Nikolaivitch. Mude de roupa. Lembre-se: em que foi que’ mais batalharam consigo em Ust-Katovskaia? Então? Pense bem.

A decifrar..



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- Nada disso. -O treino para sobreviver em situações extremas...

- Ora, ora, Andrei. O que conhecia na perfeição, e que conseguiu ainda aperfeiçoar mais.

- Os meus conhecimentos de língua inglesa.

- Sim. Ou melhor: o seu calão americano. Então? Já se acendeu alguma luzinha?

- Não - respondeu Pleniakov honestamente.

- É realmente difícil de entender - retorquiu o capitão, depois do que indicou a roupa. - Mude de roupa, Andrei. Daqui a um quarto de hora chega o autocarro. Vai levá-lo ao xerife...

- Aonde? - perguntou Pleniakov totalmente confuso.

- Tudo em ordem! - esquivou-se Ilia Savelivitch, abanando a cabeça. - Mude de roupa, Andrei. Rápido, rápido. Não é coisa que se explique, mas que se vê.

Mais tarde, Pleniakov viu-se sentado num autocarro de modelo americano, sentindo-se muito ridículo no seu conjunto de jeans com rebites, a camisa aos quadrados e o boné de pala com os grandes dizeres. Todas as suas coisas tinham ficado depositadas no armazém, metodicamente etiquetadas e catalogadas. Uma mala, um saco de viagem, uma Kalachnikov com estojo, uma automática Makarov de 9 mm com munições para 50 disparos, um uniforme, galões de major, sapatos, roupa interior, um caixote com rádio e gira-discos e 27 discos de música clássica. Guardadas para o major Andrei Nikolaivitch Pleniakov, chegado de Ust-Katovskaia, morador em Leninegrado, II Comando-Geral, Divisão A II. Carimbo. Assinatura.

E a partir daí deixou imediatamente de haver qualquer major Pleniakov. Quem se anichava no bonde americano, contemplava a região e parecia um alto e robusto trabalhador texano era nesse momento um anónimo, um apátrida, um desconhecido que não conseguia encontrar resposta para as perguntas que a si próprio fazia.

O autocarro prosseguia viagem aos solavancos por uma estrada de alcatrão. À esquerda e à direita estendiam-se

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amplas pastagens, cortadas de quando em vez por alguns moinhos de vento que puxavam a água do fundo de poços murados. Pleniakov encostou a cara ao vidro da janela e fixou a paisagem. «Isto já não é a Rússia», foi o pensamento que lhe ocorreu. «É a América, um pedaço da pradaria, precisamente como vimos em inúmeros filmes didácticos em Moscovo, em Frunze, em Kasan e, finalmente, em.Ust-Katovskaia: os imensos pastos do Oeste, a antiga terra dos búfalos, a reserva de carne da América.»



Estremeceu involuntariamente quando o autocarro passou a rasar uma manada de bois. Quatro cowboys montados em velozes cavalos de tamanho médio, malhados, agitaram os chapéus de aba larga num cumprimento, deram de esporas aos cavalos, galoparam ao longo da estrada, gritaram ao solitário e anichado passageiro Pleniakov qualquer coisa que ele não entendeu, soltaram depois ruidosas gargalhadas, deixaram-se ficar para trás e voltaram a prestar atenção ao gado.

- Os rapazes estão okay - disse o motorista do autocarro. Vestia apenas calças e camisola e tinha o boné obrigatório, com a comprida pala de plástico verde. Um indivíduo bem fornecido de músculos e com pescoço de touro. Era a primeira vez que se dirigia a Pleniakov e fê-lo no americano aberto de um algodoeiro do Alabama. - Não é mesmo um bom emprego? Ar puro, whisky, mulheres. Uma combinação de molhar as calças...

- Como se chama isto aqui? - interrompeu-o Pleniakov em russo e com um encolher de ombros.

- Está a falar um dialecto que não entendo, mister

- retorquiu o motorista observando-o pelo largo e comprido retrovisor.

- Como te chamas? - apressou-se Pleniakov a perguntar, mas não enganou o motorista.

- O que há? - retorquiu o robusto indivíduo.

- Gostaria de saber o seu nome - disse Pleniakov em inglês. O motorista fez um aceno de satisfação.

- Isso já um bom cristão entende. Chamo-me Jim Barkley. Os mais íntimos podem tratar-me por Búlly. Vai à

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procura de trabalho na cidade?



- Assim parece - respondeu Pleniakov soltando um profundo suspiro. - Disse cidade, Jim?

- Estaremos lá daqui a cinco minutos. Ah, gosto mesmo desta cidade! Também aprenderá a gostar dela, mister. De resto, amanhã há futebol. Os rapazes de West Side contra os de East Side. É um espectáculo a não perder, mister. São rapazes duros. Com a sua constituição!

A paisagem mudou subitamente. A pradaria cessou para dar lugar a bungalows, jardins com piscinas, campos de ténis, um estádio de futebol; junto da estrada erguia-se um motel onde se encontrava estacionada uma série de automóveis americanos, um posto de gasolina com um empregado que passava pelo sono numa cadeira de repouso à espera de freguesia e, em seguida, Pleniakov avistou as primeiras raparigas, de pernas altas, cabelos soltos e lisos, vestidas com jeans apertados ou hotpants ainda mais justos. Viu homens e mulheres nas lojas e nos drugstores, nos cafés e na rua que o autocarro atravessava e tudo era igual ao que conhecia dos filmes americanos, só que ainda mais vivo e empolgante.

Ao fundo, onde a rua descia e ia desembocar numa grande praça com um monumento, divisou o rio reluzindo ao sol, largo e de águas indolentes, revelando na outra margem as típicas ribanceiras naturais que se assemelhavam a cortiça castanha. «Aqui foi derramado sangue», pensou Pleniakov. «Alemão e nosso. De 1941 a 1944, os nazis dominaram a zona e os guerrilheiros escondiam as armas nas margens escarpadas. É realmente verdade? Estou no Bug?»

- Como se chama o rio, Jim? - perguntou ao motorista.

- Silver River, mister.

- Silver River? Não é o Bug? _

- Bug? - repetiu o motorista fitando Pleniakov pelo retrovisor. - Nunca ouvi falar, mister, porque havia de ser?

Na grande praça, junto do Silver River, erguia-se a Câmara Municipal. Num poste estava içada a bandeira das estrelas, dois polícias conversavam diante da entrada,

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mastigando pastilha elástica. À esquerda era o acesso ao gabinete do xerife e comissariado da polícia; pela direita entrava-se na repartição de finanças, e a grande porca de vidro, no centro, conduzia aos serviços municipais. Jim travou o autocarro.



- Final da carreira, mister. E muitas felicidades. Sinto curiosidade em saber quando o voltarei a ver. Falta de trabalho não há entre nós. Informe-se junto do presidente da Câmara e não o trate por general. E pense bem que amanhã à tarde há futebol no estádio.

Pleniakov desceu e ficou a olhar para Jim. Este dirigiu-se a um self-service, com as mãos nos bolsos das calças, um homem que se sente feliz por poder comer um hamburger de «três andares».

«Pensemos com lógica», disse Pleniakov de si para si. «Analisemos o âmago da questão. Há pouco mais de uma hora, o general falou comigo pelo alto-falante. Foi do lado de fora da primeira rede de arame farpado electrificada e ainda estava em solo russo. Aqui é a América, e se é o general que está a presidir nesta câmara não é general mas presidente da câmara.Tudo isto é uma loucura, uma loucura perfeita. O que pretendem de mim? Em Ust-Katovskaia apenas me tinham dito: ”Vai ser destacado e encarregado de uma missão em que somente podemos utilizar os melhores. E consideramo-lo dos melhores. Muitas felicidades, Andrei Nikolaivitch...”»

Enterrou mais o horrível boné na cabeça, olhou para os indolentes polícias e entrou na Câmara Municipal. Sentiu imediatamente um fresco tão intenso que um arrepio o percorreu. «Ar condicionado», pensou Pleniakov. Claro. Procurou no enorme quadro de informações da entrada o número do gabinete do presidente da Câmara. O gabinete ficava no primeiro andar. Era o número 17. As inscrições eram no número 16. Através de uma porta aberta, chegou-lhe o ruído de uma acalorada discussão. No gabinete do serviço disciplinar um homem queixava-se em altos gritos que não podia adquirir um reclame luminoso para a sua sapataria.

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Falava num texano impecável.



«Tudo isto é uma loucura», pensou Pleniakov novamente, sacudindo a cabeça. «No entanto, lá fora corre o Bug e estou a pisar o solo da Ucrânia. Palpita-me o que tudo isto quer dizer... e se estiver certo, trata-se da coisa mais fantástica que a Rússia produziu. Praticamente idêntico ao nosso programa espacial. Uma imagem da perfeição.»

Subiu a larga escadaria, bateu delicadamente à porta do número 16 e entrou quando a voz de uma jovem lhe deu permissão, em inglês.

A secretária, uma loura oxigenada, de caracóis, um rosto de boneca que parecia tirado da capa da revista Harper, o ideal da beleza americana recebeu-o com um sorriso e apontou com o polegar na direcção de uma porta com painéis de madeira.

- Entre, sir. Estão à sua espera.

Um dialecto perfeito de Wisconsin. Pleniakov correspondeu ao sorriso, tirou o maldito ’boné de pala verde, enfiou-o debaixo do braço, bateu ao de leve e entrou. O gabinete era enorme e praticamente sem mobiliário, com excepção de uma sólida secretária de mogno, um lavatório, um sifão metido na parede e as habituais bandeiras num canto, atrás da secretária. Entre duas janelas estavam pendurados dois retratos: Washington e Nixon. Um tinha uma moldura-padrão e outro uma de substituição. A História é mutável, mas os presidentes chegam e partem.

Por detrás da enorme secretária estava sentado, numa cadeira com assento de couro e encosto de madeira, um homem baixo e robusto, de cabelos grisalhos e curtos, em mangas de camisa e o nó da gravata desapertado. Bebia água gelada de um copo e apontou uma cadeira com o indicador, no momento em que Pleniakov fechava a porta atrás de si.

- Apresento-me ao serviço, camarada general - anunciou Pleniakov com uma postura militar, colocando-se em sentido atrás da cadeira. O general pousou o copo de água, limpou os lábios e arrotou discretamente. Em seguida, observou o visitante e sacudiu a cabeça.

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- Mas que língua estranha está a falar? - comentou em inglês. - Não entendo uma palavra.



- Aqui estou, sir - retorquiu Pleniakov, desta feita igualmente em inglês. - Pensava que a brincadeira findasse atrás desta porta.

- Errou... pois é precisamente aqui que começa.

- O indivíduo robusto recostou-se confortavelmente e apreciou Pleniakov como se quisesse comprar um cavalo e Andrei Nikolaivitch fosse um garanhão de particular valia. Estive a ler o seu processo, meu caro. Um hino! Dava para um compositor fazer uma epopeia. Pelo que me chega de Moscovo, Frunze e Ust-Katovskaia... deve ser um génio. Não lhe estou a dizer tudo isto para o transformar num macaco vaidoso, mas apenas para que entenda que entre nós os génios são encarregados das missões mais difíceis

- prosseguiu, abrindo um classificador no que devia ser o processo pessoal de Pleniakov e apoiando os punhos em cima dos papéis. - Sou Ivan Korneivitch Sinionev... isto apenas como nota marginal e que deve esquecer imediatamente. Agora, chamo-me James Bulder e sou presidente da Câmara desta cidade abençoada por Deus. Temos novecentos e cinquenta e quatro habitantes, três bares, dois drugstores, duas equipas de futebol, uma equipa de râguebi, um clube de ténis, um clube de natação, um clube recreativo, um campo de golfe com dezoito buracos, um salão de jogos com trinta e dois «bandidos mancos», um pavilhão de basebol, um ginásio de boxe, um hotel para a classe média, uma escola para todas as classes, um teatro e um bordel com cinco raparigas de classe. Não é uma verdadeira cidade?

- Sinto-me impressionado, sir.

- Em Silver River há um balneário, barcos a motor para aluguer e o restaurante do Billy, que é especialista em hamburgers e bifes. Billy foi, outrora, peso-pesado do boxe. Está a precisar de um homem que o ajude na confecção de’ hamburgers e a pôr os acompanhamentos. Seria um trabalho para si...

James Bulder bebeu mais um gole de água gelada. Tinha

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desligado o aparelho de ar condicionado e preferia aguentar a atmosfera quente e pesada a apanhar um resfriado com a mudança de quente para o frio. A princípio tinha sido pior... O general Sinionev tossia e sentia faltar-lhe o ar, até que descobriu que não suportava o ar condicionado. Amaldiçoou-o como uma mortífera invenção americana e a partir dessa altura deixou de o utilizar. Daí o seu consumo em triplicado de água gelada.



- Aceito, sir - declarou Pleniakov sem hesitar. Devo, na verdade, mencionar que em Ust-Katovskaia não me tinham dito para onde ia ser destacado...

- Essa parte é a que irá saber da minha boca, rapaz. Sente-se. Vou dar-lhe uma lição de uma hora sobre a história de Frazertown...

- Frazertown?

- Encontra-se na cidadezinha americana de Frazertown, algures no Texas. Lá fora, na rede de arame farpado, existe realmente uma tabuleta: «Novotchok. Barragem. Perigo de morte.» Contudo, não passa de um nome. Cada coisa tem de ter um nome e os habitantes de Vinniza, de momento, deram-se por satisfeitos e não se mostraram curiosos quando Novotchok apareceu na rede. Era compreensível. Mais um depósito. Talvez de foguetes. Não se devem fazer perguntas demasiadas, irmãozinhos. Traçamos um largo círculo em redor da rede de arame farpado e de Novotchok. Em seguida, ficaram curiosos... durante três anos construiu-se aqui de dia e de noite, rolaram colunas de camiões atravessando Vinniza, junto ao Bug, e surgiu esta cidade de Frazertown. Há dezassete anos que está a funcionar. Frazertown é tão completa como só uma cidadezinha americana pode ser.

- Há dezassete anos que ela existe aqui? - retorquiu Pleniakov em voz baixa. - E ninguém sabe.

- Sabem alguns, mas esses preferem morrer a dizer uma palavra que seja do assunto. Até agora foram introduzidos nos EUA, onde desempenham, competentemente, cargos na indústria americana, no exército, na marinha, na pesquisa e na força aérea, quatro mil cento e noventa e seis perfeitos

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americanos oriundos de Frazertown. As suas informações garantem a dianteira e invencibilidade da Rússia. Sabemos tudo. Com este objectivo, tudo vale a pena. Andrei Nikolaivitch. É esta a última vez que os trato assim. Foi-me enviado para que faça de si um perfeito americano. A sua mãe é oriunda da Georgia?



- Sim - respondeu Pleniakov num tom acalorado, pois o que acabara de ouvir queimava-o como fogo. - Em 1930, fez uma viagem à volta do mundo, esteve também em Irkutsk, ali conheceu o meu pai... engenheiro Nikolai Anatolovitch Pleniakov.

- ...ficou na sua companhia e casaram-se. Em 1939, nasci eu.

- Segue-se o resto da história - disse Bulder-Sinionev, folheando o processo. - Jovem pioneiro, membro do Komsomol, as melhores notas da escola, exames finais do liceu, Academia Militar, coeficiente de inteligência: cento e sessenta e sete. Depois, quando já estava em Frunze, morreram os seus pais.

- Sim... morreram queimados em Odessa, quando se incendiou o hotel. Estavam a passar férias. O meu pai tinha podido salvar-se, mas voltou a enfrentar as chamas para ir buscar a minha mãe que, tomada de pânico, torcera um pé e não conseguia correr. Então, foi atingido por uma trave em chamas.

- Os Pleniakovs foram sempre pessoas corajosas

- observou Bulder, fechando o processo com um estalido. Na sua casa falava-se russo e inglês. Foi criado num ambiente bilingue. Agora chegou a Frazertown e aqui queremos fazer de si um homem do topo. Dentro do mais tardar um ano estará nos EUA a servir a sua pátria na frente mais importante, ainda que invisível. Continua a amar a sua pátria, não?

- Claro, sir... - declarou Pleniakov num tom convicto, enquanto Bulder o fitava com uma expressão pensativa, perscrutadora, crítica e avaliadora. Um olhar que não permitia mentiras.

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- Chama-se John Barryl - prosseguiu Bulder subitamente. - Como se chama?



- John Barryl.

- Aqui tem os seus documentos - declarou o general, empurrando, por cima da secretaria uma carteira de bolso a imitar cabedal. - Aí dentro estão o seu curriculum, árvore genealógica, nomes de amigos, certificados militares, declarações dos patrões... Até agora já mudou nove vezes de profissão!... Diplomas de nadador e de boxeur. É, realmente, um bom nadador e boxeur?

- Exacto, sir - respondeu Pleniakov com esforço. Devo inscrever-me aqui no ginásio de boxe?

- Acho boa ideia. De resto, está a viver em Frazertown como um americano livre. O que implica: apenas whisky em vez de vodka, Camel em vez de Papyrossi, e, naturalmente, dólares em vez de rubles. Duas vezes por semana há aulas de Geografia e de História da América, bem como de particularidades do dia-a-dia americano, em que se encontram incluídos os preços dos bens de consumo, apenas para dar um exemplo. Aqui são todos americanos... cada palavra russa é punida. Esqueça-se de que é russo, John! É americano! Tem algum passatempo?

- Gosto de ouvir música clássica.

- Permitido.

- Então posso ter os meus discos de volta?

- Não - respondeu Bulder com um riso paternal. Mencione algumas das suas preferências.

- As segunda, quarta e quinta sinfonias de Beethoven...

- Tocadas por quem?

- Pela Orquestra Filarmónica de Moscovo, dirigida por Kiril Kondrachin...

- Ora aí está! - exclamou Bulder, erguendo a gorda mão. - Em Frazertown ouvem-se discos tocados pela Filarmónica de Nova Iorque, dirigida por Bernstein, ou pela Orquestra de Filadélfia, dirigida por Solti. Trata-se da pequena diferença que, dadas as circunstâncias, pode salvar a vida. Você agora é americano, John!

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- Eu sei, sir...



- Então muitas felicidades como fabricante de hamburggers.

desejou Bulder, levantando-se e estendendo a mão a

Pleniakov, por cima da secretária, num cumprimento vigoroso. - Vamos ver-nos com frequência, John. Se tiver problemas, estou aqui para o ajudar. E agora trate de procurar casa...

-- Procurar? - repetiu Pleniakov, surpreendido.

- Claro. É um americano livre. Não anda com a casa atrás de si. Agora, terá de cuidar de si. Good-bye, John...

- Até à vista, sir.

Pleniakov deu meia volta e dirigiu-se para a porta. Contudo, Bulder-Sinionev voltou a falar de Andrei Nikolaivitch a abrir.

- Mais uma coisa, John. Em Frazertown há uma série de raparigas bonitas. Presumo que hoje à noite já tenha agarrado uma...

- Todas colegas russas?

- Americanas - rugiu Bulder. - Habitue-se à ideia, John!

E depois, num tom mais calmo:

- Também isso pertence à instrução: flirt americano! As relações com as raparigas americanas são sensivelmente diferentes do namoro russo. Alguma objecção?

- Nenhuma, sir.

- Muito bem, então. Quando vir uma rapariga bonita, não lhe fale romanticamente da Mãezinha Volga, mas solte um leve assobio entre dentes e faça um piropo. Proceda como se não existisse mais nenhum homem ao cimo da Terra. E assuma um ar desportivo. As americanas têm um fraco por músculos. Por hoje basta... aprenderá mais nos cursos. e agora vá à sua vida, John!

Mais tarde, Pleniakov - a partir de agora passaremos a chamar-lhe John Barryl, a personalidade em que se vai transformar - sentou-se num banco junto ao rio, a olhar os barcos e o Restaurante Billy’s, o seu novo local de trabalho. No telhado imperava um gigantesco e colorido hamburger

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de plástico, com (rês camadas e um aspecto tão natural que fazia crescer água na boca. À noite aquele monumento estaria mesmo iluminado.



Pela margem passeavam rapazes e raparigas muito jovens, vestidos com roupa de algodão, jeans, shorts e camisas coloridas. Quatro barcos andavam em círculo pelas águas, e num canto relvado estavam acocorados quatre hippies que tocavam guitarra e cantavam. Um par de transeuntes atirou-lhes moedas. O bonde passou ao seu lado... o robusto motorista reconheceu John B any l, piscou-lhe o olho e fez um sorriso de um canto ao outro da boca. Estava calor e a própria brisa do rio - Silver River apenas trazia um calor húmido.

John abanou-se com o boné, seguidamente levantou-se e perguntou onde ficava uma agência imobiliária. Quando lá chegou - achava incrível pensar que também os dois funcionários eram oficiais soviéticos como ele - decidiu-se por uma pequena casa nas proximidades do estádio de natação, com um minúsculo jardim e um automóvel Ford incluídos no preço, assinou um contrato de aluguer e deixou o mobiliário igualmente ao cuidado da agência. A prestações, evidentemente, na medida em que setenta por cento da vida nos EUA se baseia nesse sistema.

John Barryl começava já a tornar-se americano.

Após ter sido bem sucedido na procura da casa, voltou até junto ao rio e apresentou-se ao novo patrão.

Billy Rampler - assim se chamava o dono do Billy’s decorado com o hamburger gigantesco no telhado - era um homem alto e bem constituído, no final da casa dos trinta anos e John pensou imediatamente: «Enquadra-se tanto como eu no protótipo de major do Exército Vermelho. Vê-se que é um camarada perfeitamente treinado.» Em seguida, pôs de lado este tipo de ideias e esforçou-se por se comportar como um americano.

- Ouvi dizer que precisa de um especialista em hamburgers, patrão! - foi a entrada de John Barryl. E o trabalho indicado para mim. Faço-lhe uns hamburgers

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que os seus clientes se sentirão excitados só de os comerem.



- Como te chamas? - perguntou Billy Rampler num tom de voz sombrio.

- John Barryl.

- O Serviço de Emprego já te tinha recomendado. Vai para a cozinha, põe um avental e começa. Pago cem dólares por semana.

- E chega?

- Não pago mais. Julgas que isto é o Hilton? Se achas pouco, vai procurar emprego noutro lado...

John Barryl ficou a trabalhar no restaurante de Billy Rampler. Não porque o general Sinionev lho tivesse ordenado - também podia ter recusado e verificado assim a veracidade de aqui em Frazertown se ser, de facto, um americano livre - e tão-pouco porque a preparação de hamburgers o atraísse, depois de ter passado cinco anos de academia em academia e recebido a melhor preparação de agentes russos, desde torturas de despedaçar os nervos a experiências mentais por computador... Não, ficou realmente porque, atrás do balcão onde se servia o leite no restaurante de Billy, tinha descoberto uma bonita jovem de cabelos pretos e pernas altas que nesse preciso instante polia as torneiras do depósito do leite. A jovem vestia uma saia provocantemente justa e curta, que deixava ver as pernas esguias até meio da coxa. E tinha uma pele lisa, morena, queimada do sol. Apenas uma vez e pelo espaço de segundos um mero instante, o seu olhar se cruzou com aqueles olhos quase pretos, depois do que a jovem continuou a dedicar toda a atenção às torneiras cromadas. Contudo, este olhar foi suficiente. Acertou como um raio no peito de John, onde ateou uma fogueira.

- Okay - concordou, dirigindo-se a Billy Rampler. Cem dólares e comida de graça.

- Claro. Dá-me sempre uma grande alegria que os meus rapazes tenham de comer o que eles próprios preparam. Põe-te ao trabalho... daqui a uma hora fecham os escritórios. Logo a seguir atropelam-se ao balcão como cães esfomeados...



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- Rampler resmungou entre dentes, olhou para a rapariga de cabelos pretos, depois para John Barryl, deixou descair apreensivamente o lábio inferior e desapareceu num quarto das traseiras. Barryl deixou-se estar no mesmo sítio e esperou que a rapariga acabasse de polir as torneiras cromadas e metesse o pano numa gaveta.

- Chamo-me John Barryl - anunciou seguidamente em voz alta.

- Essa responsabilidade cabe aos seus pais - retorquiu a jovem olhando-o de cenho franzido. - Não o posso mudar...

Endireitou a cabeça, pegou em dois jarros com sumos de frutos e avançou com passo ligeiro para a cozinha. Abriu a porta de mola com uma pancada forte do pé.

Foi a partir deste momento que John Barryl começou a simpatizar com a cidadezinha-modelo americana de Frazertown e com tudo o que o esperava aqui.

Quem é desviado para Fort Thompson pode considerar-se atingido pelo destino e há que o lamentar.

Não que Fort Thompson seja a contrapartida de Novo Rasnopov no meio da Sibéria, onde se diz que os lobos mordem na própria cauda, tal a solidão - não é nada disso. Fort Thompson situa-se no Dacota do Sul, no meio de pradarias incomensuravelmente amplas, mais precisamente no Missuri, no sítio onde ele se alarga e é travessado por ilhas de areia e de pedra, porque é estancado junto a Pickstown pela barragem de Randall e em centenas de quilómetros para diante se transforma numa única e gigantesca represa, uma grandiosa cobra-de-água que serpenteia ao longo da terra fértil. Os habitantes que nasceram em Fort Thompson também morrerão nesse local dizem: «Este pedaço de mundo, onde a terra a perder de vista, o céu infindo e a água de um azul-prata se confundem numa enorme calma paradisíaca, não tem outro que se lhe compare no aspecto de uma beleza

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divina.» E relativamente a história do Dacota do Sul não há que discutir. Nomes como Sioux-Falls e Black Hills, Mount Rushmore e Little White River, Aberdeen e Fort Pierre são aprendidos por todas as crianças do Dacota do Sul na mesma altura e com a mesma facilidade com que começam a falar de coca-cola e de gelado.



No entanto, o major Robert Miller não conseguiu deixar de achar estranho que o levassem num pequeno avião da Força Aérea americana até ao ridiculamente pequeno campo de aviação de Pierre, onde um primeiro-tenente o esperava com um jeep. As belezas paisagísticas já as apreciara o suficiente do ar, a história do Dacota pouco interesse lhe despertava e. quando, na altura de uma curva descrita pelo avião, conseguiu avistar a enorme reserva de Big-Bend e a represa de Oahe - a que o piloto se referiu entusiasticamente -, limitou-se a resmungar por entre dentes:

- Okay, okay... tudo é muito imponente, rapaz... mas ficavas satisfeito se te transferissem para o meio das pradarias?

Fez a mesma pergunta ao primeiro-tenente que o foi buscar e o recebeu com um «Bem-vindo, Bob!» e uma expressão alegre.

- Não podemos escolher tarefas, quando usamos estas coisas - retorquiu o primeiro-tenente, apontando para a camisa do uniforme.

Estava calor, a pradaria reluzia e do Missuri estancado evaporava-se a água que ficava a pairar sobre a terra, assemelhando-se a um aglomerado de nuvens incolor. O jeep desceu, aos solavancos, uma pequena estrada junto à margem na direcção sudeste. Bob Miller recostou-se no assento, afastou o boné para trás e desapertou os botões do casaco do uniforme. Viajara devidamente fardado porque lhe tinham dito que o esperava uma missão extraordinariamente importante. Na sua mala de fechos metálicos, colocada no banco traseiro do jeep estava arrumado tudo do que se necessita para uma ausência temporária. Também lhe tinham dito: «Não leves bagagem de mais, Bob. Não precisas.»

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Depressa os factos comprovaram que ele entendera algo diferente da realidade. Para o sítio onde o queriam mandar, não precisava de mala.



Fort Thompson apresentou-se a Bob Miller tal como o tinha imaginado. Um desconsolo atirado para uma paisagem maravilhosa, uma mistura de algumas ruas, casas aglomeradas, o resto do antigo forte erguido contra os índios Sioux, em cuja praça de revista às tropas continuava a flutuar, num enorme poste, a bandeira americana, qual monumento nacional de que os de Thompson se orgulhavam, dois hotéis, um campo de futebol e uma monotonia geral.

:- Tenho de ficar aqui? - perguntou Bob, esticando as pernas no chão do jeep. - Não me encontro numa unidade militar?

- Não.

- Como não?



- Somos apenas dez homens no velho edifício do forte.

- Mas tudo isto é uma brincadeira de péssimo gosto!

- Não te exaltes, Bob. Dentro de uma hora estarás convencido de teres aceite a tarefa mais dura que te podia esperar no Exército...

Entraram no velho forte e pararam diante da messe dos oficiais, uma construção baixa, onde estavam estacionados mais três jeeps. Mais estranha ainda foi a passagem de uma barreira e de três sentinelas munidas de metralhadoras, estando igualmente diante da porta um homem com uma MPl engatilhada. Bob Miller saltou do jeep, olhou para a bandeira americana e pôs o boné.

- Estamos a rodar aqui um filme com Sioux? - perguntou.

- O general Orwell espera-te, Bob - respondeu o primeiro-tenente.

- Dad Jack? - retorquiu Miller dando meia volta e com uma expressão da maior surpresa estampada no rosto. Aqui? - acrescentou com um gesto largo.

- Não faças perguntas... Entra.

A sentinela de guarda à porta revistou-o silenciosamente

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mas com um sorriso quase de desculpa e fez um aceno de quem se dava por satisfeito.



- Permite-me que fique com o cinturão e as pistolas, sir?

- Acha que tenciono abrir um buraco na testa do general Orwell?

- Tenho ordens a cumprir, sir.

Miller desafivelou o cinturão, de onde pendiam as bolsas das pistolas, e atirou-o à sentinela. Em seguida, obteve permissão de entrada, chegou a uma espécie de antecâmara e avistou uma porta aberta, do lado esquerdo. Dado não se encontrar vivalma na sala, seguiu em frente e entrou na segunda sala. Aqui, o general Jack Orwell estava sentado por detrás de uma secretária e fez um sinal amigável a Miller.

- Aproxime-se mais, Bob. Que tal vai o Alasca? Miller descobriu-se e pôs o boné debaixo do braço.

Manteve-se no meio da sala como se fosse um cepo. Era um indivíduo de cabelos louros, olhos azuis-claros, um metro e oitenta e nove de altura, um corpo treinado até ao mais insignificante dos músculos, onde não havia uma grama a mais nem a menos, mas só carne rija. Contudo, o elemento mais significativo em si eram os olhos. Havia momentos em que relampejavam de entusiasmo, mas na maior parte do tempo caracterizavam-se por um brilho de melancolia, um bafejo de intrínseco romantismo que, particularmente nas mulheres, sempre que contemplavam estes olhos, desencadeava sentimentos irresistíveis de dádiva total. Os colegas de Bob Miller recusavam-se por esse motivo a apresentar-lhe as suas namoradas. Havia sempre confusão porque as jovens não cessavam de sonhar com Bob e a ruptura era infalível. Neste momento, fitava o general Orwell com grandes olhos sonhadores de criança. Tratava-se, no entanto, de uma falsa imagem... Há muito que Orwell conhecia Bob, e conhecia-o bem.

- Que tal vai o Alasca? Sabe-o melhor do que eu, sir limitou-se Bob a responder. - Ainda há quatro dias nos falou em Kvigillingkok.

- Quatro dias podem mudar o mundo, Bob. E muita

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coisa mudou.



- Aqui em Fort Thompson?

- É um nome como outro qualquer. Também poderia ter sido Oak Creek. Mandámos vir de avião para este eu do mundo um punhado de homens. Bob, porque a nossa posição no Alasca não me parecia oferecer segurança bastante. Tenho um projecto quente em que você entra, e atrás dos seus actos estará a sombra de Washington, do Pentágono, de toda a nação.

Soa-lhe bem, Bob?

- Continuo no plano do enigma, sir.

- Comecemos, portanto, pelos conhecidos.

O general Orwell recostou-se, indicou um assento de verga ao seu lado, tirou uma garrafa de whisky e dois copos de uma mala pessoal do equipamento militar, e encheu os copos. Bob Miller instalou-se, mas deixou ficar o copo nos joelhos, sem beber.

- Não tem sede? - perguntou Orwell.

- Falta de hábito. Há quase dois anos que ando a tomar apenas bebidas russas - vodka, krimseckt, cognac, vinho de Astracã, chá de Amur adoçado com mel. Pensei que para mim o whisky acabara, sir.

- Voltou novamente, Bob - observou Orwell, enquanto despejava o copo de um trago. - É o que existe de louco neste assunto: tivemos de fazer duas pessoas de si. Uma esquizofrenia perfeita. Em Smolenska educámo-lo para o transformar na imagem de um russo... agora é necessário que redescubra a forma de ser um perfeito americano. Mas sem esquecer que é igualmente um russo dos pés à cabeça. Fiz-me entender?

- Não, sir - respondeu Bob Miller, ao mesmo tempo que cheirava o whisky, se controlava manifestamente e bebia um gole. «Quão profundamente uma pessoa se pode desabituar de tudo a que se habituou», pensava. «A prova é que depois de viver dois anos no Alasca, na orla marítima de Kvigillingkok junto à baía de Kuskokvim, com vista para o estreito de Bering, ou seja, nos recônditos do mundo, numa

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cidade altamente secreta, construída até aos últimos detalhes à maneira russa e a que se chamava Smolenska, saiu realmente o que os psicólogos e investigadores tinham idealizado: um perfeito russo.»



Do esquema fizera parte jogar xadrez, suar nos Bania, assistir todos os sábados a uma reunião do partido, festejar o

1.º de Maio e a Revolução de Outubro... transportar algodão em fardos como tractorista ou descarregar nas margens do estreito, ter levado para a cama uma rapariga que se chamava Galina Adamovna e trabalhava em floricultura. Uma coisinha suave e terna com uma voz fraca quando se entregava inteiramente. Tinha havido também a passagem por aquele sítio na margem do estreito, chamado Ilanskaia, as conversas sobre Puchkin, levtuchenko e o grande sonho de uma ida ao Teatro Bolschoi para assistir ao Lago dos Cisnes.

A juntar a tudo isto existiram igualmente as difíceis semanas na pedreira e no gelo, a sobrevivência na base das mãos, a travessia de regiões antediluvianas, o suportar de torturas asiáticas animalescas, a fome e a sede até ao ponto de morder a casca das árvores e sugar algumas gotas das folhas molhadas de orvalho. Tudo isso se tinha vencido, restavam cicatrizes, nas pontas dos pés, por exemplo, por lhe terem metido pedacinhos de bambu por baixo das unhas e seguidamente pegado fogo aos mesmos. Só ao arder, pois tinham de arder, e a dor se tornara insuportável, os tinham retirado e fora transportado para a pequena enfermaria de Smolenska. Ali recebera a visita do general Orwell, que o felicitara: «E um osso duro de roer, Bob! Parabéns! Manteve a coragem. Posso garantir-lhe que o considero o meu melhor aluno destes últimos nove anos...»

Tudo isto serve para que uma pessoa se orgulhe. E, agora, estava ali sentado em Fort Thompson. Tudo fora inútil e seria obrigado a funcionar novamente como americano. Qual o cérebro capaz de entender tal coisa?

- Em que está a pensar, Bob? - perguntou o general Orwell num tom suave.

- No Alasca, em Smolenska, sir.

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- E está a perguntar a si mesmo o objectivo de tudo isto, não?



Miller respondeu com um aceno de cabeça afirmativo. O velho sabia ler os pensamentos das pessoas como ninguém.

- Vou dizer-lhe uma coisa, Bob - acrescentou. Tudo o que aprendeu ser-lhe-á cem vezes útil! Como russo e como americano. Já ouviu falar de Vinniza?

- Uma cidade na Ucrânia, junto ao Bug - respondeu Bob como se fosse um computador. - Cento e trinta e cinco mil habitantes, já conhecida desde o século XIV, cenário de muitas batalhas entre Ucranianos e Polacos, até cair nas mãos dos Russos, em 1795. Hoje em dia um centro industrial e de caminho-de-ferro. Cidade natal do poeta russo Koziubinski. Horticultura maravilhosa, pomares, um clima quase meridional. Centro musical da Ucrânia. Famoso teatro de marionetas. Vinniza possui magníficos balneários na sua orla costeira rochosa e florestal...

- Sabe muito da geografia russa, Bob - interrompeu-o Orwell com um gesto. - E, no entanto, tudo isso é merda. A sul de Vinniza estende-se uma região de quinhentos quilómetros quadrados, onde não há magníficas estações termais, mas redes de arame farpado electrificadas, estradas da morte minadas e uma cidade interdita. Tal como a nossa querida Smolenska, por detrás de Kvigillingkok. Sabemos alguma coisa a este respeito, mas não o bastante. Apenas pedaços soltos. Oficialmente, a região chama-se Novotchok, mas isso nada significa.

O general Orwell encheu novamente o seu copo de whisky com uma coloração dourada. Bob Miller sorvia o seli em pequenos goles. Tinha-se habituado ao vodka. Agora o whisky sabia-lhe a um pedaço de cabedal gasto.

- Em 1959 verificou-se um acidente de automóvel na estrada que vai de Memphis a Little Rock. Um tal major Harry W. Morgan embateu com o seu jeep de encontro a um camião e ficou gravemente ferido. - Orwell bebeu mais uma vez um trago enorme e limpou os lábios com as costas da mão. - O major Morgan deu entrada no hospital militar

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de Memphis, recebeu tratamento, mas manteve-se uma semana inconsciente. E, então, sucedeu algo misterioso. O bom do Harry falou durante esse período e pronunciou algumas frases num russo impecável! A nossa CIA pôs-se alerta, anotou as frases e quando o major Morgan ficou bom enfiaram-se-lhe alguns centímetros cúbicos de soro da verdade para se obter informações adicionais. Foi um sucesso, Bob! O tipo falou com um intérprete russo, como se se tivesse aberto uma represa. O que contou foi como se nos desse um soco. Em Vinniza, junto ao Bug, deve existir uma das mais especializadas e secretas escolas de agentes dos Soviéticos, designada nos círculos mais íntimos como «Pequena América», porque (e agora tenha calma, Bob), os Soviéticos tiveram a mesma ideia que nós e ali ergueram uma cidade totalmente americana, para nela educarem perfeitos americanos, que se vêm infiltrar entre nós, roubando-nos as posições-chave. São predestinados para tal. Trata-se de rapazes e raparigas de inteligência elevada. Quem é um «vinniziano» pertence a uma elite indiscutível. Os «professores» de Vinniza são os maiores conhecedores da língua inglesa. Até mesmo o antigo embaixador soviético em Washington, o camarada Paniuchin, recebe lições do quotidiano americano. Essa «Pequena América» deve ser um espanto!



Orwell retirou um mapa da gaveta e atirou-o a Bob Miller, Bob agarrou-o e, ainda quando vinha no ar, reconheceu a Ucrânia, com o Bug e Vinniza. Orwell acendeu um cigarro e expeliu a primeira fumaça para o tecto.

- Conseguimos saber tudo isto. O nosso contra-ataque iniciou-se logo, como é óbvio. Contudo (e este facto é de assinalar) até hoje ainda nenhum agente do nosso serviço secreto ocidental foi capaz de se introduzir nesta região proibida. Em 1962, um capitão francês conseguiu chegar ao terceiro posto de controlo. Foi então que o apanharam. Do seu destino nada mais se soube. Desde então apenas alarmes falsos. No entanto, algo certamente se está a passar, Bob! Suspeitamos que centenas de russos americanizados são preparados nesse local e é de prever que subitamente os

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cargos mais importantes se encontrem ocupados por essas pessoas. Era uma catástrofe nacional! Não os podemos desmascarar, porque estes russos são a imagem da perfeição. Temos o exemplo do major Morgan. Se não fosse o acidente, decerto agora já teria sido nomeado coronel. Sem um processo pessoal no Pentágono, evidentemente! Mas quem é que o vai pedir? Pense no capitão alemão de Kõpenick! Um uniforme é bastante para que todas as portas se abram. Nesse aspecto, os EUA em nada diferem da velha Europa! Morgan já tinha formado o seu círculo. Até existia uma «noiva», na base de apoio americana de Passau, na Alemanha. Trabalhava nos Serviços Administrativos, chamava-se Betty Morton e era, de facto, o segundo-tenente soviético Alexandra Koruni. Achas uma sujeira, Bob?



- Para que me conta tudo isso, sir? - perguntou Miller desconfiado, ao mesmo tempo que acabava o whisky.

- Como está a tua mãe russa, a bela Galina Fiodorovna Miller?

- Vive em paz... até agora...

- E o teu pai Johann?

- Ocupa-se do drugstore e do motel.

- Não é natural de Dusseldórfia?

- De Essen, sir. Quando, porém, emigrou para os EUA tinha apenas quatro anos. Hoje tem sessenta e seis...

- retorquiu Bob Miller, endireitando-se na cadeira. Os meus pais desconhecem que estive em Smolenska. Tanto quanto sabem, estou a estudar no Departamento de Línguas do Exército.

- Bob! - exclamou o general Orwell, cruzando as mãos na barriga. - Viajámos de avião até Fort Thompson, ao abrigo de todas as indiscrições, que até no Alasca são prováveis, expressamente para lhe perguntar: está disposto a deslocar-se à Rússia?

- Mais precisamente: a Vinniza?

- Sim. -- À cidade interdita a que se chama Novotchok.

- Esse nome é o que está na rede de arame. O nome

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da cidade é seguramente outro. Um nome americano. Tem todo o apoio de que necessitar... só que, se lhe puserem as mãos em cima, não conhece ninguém. Julga-se capaz?



- Julgo, sir - respondeu Miller sem hesitar.

- Já esperava a sua reacção, Bob. Se não fosse você, quem mais seria? E o meu melhor homem. Agora trata-se de entender o que lhe disse há pouco: tem de levar uma vida totalmente dupla e fazê-lo na perfeição. Ora russo, ora americano, de acordo com as necessidades do momento. Convença-se de que tem de ser assim, Bob! A sua missão consiste em introduzir-se na cidade secreta e fornecer-nos todos os nomes dos «americanos perfeitos» que ali são preparados, para os podermos ter debaixo de olho quando aparecerem entre nós. Não é um passeio, mas uma missão com risco de vida. Vinniza não é local para os que não sabem nadar!

- Então sou a pessoa indicada, sir - observou Bob Miller, fitando o general Orwell com os enormes e românticos olhos azuis. - No exército, fui campeão, dos mil metros bruços...

- Bem precisará desse seu humor e sangue-frio :- retorquiu Orwell levantando-se, no que foi imitado por Bob Miller. - Começamos dentro de duas semanas, Bob. Da Turquia, utilizando um barco de pesca através do mar Negro. De pára-quedas não resulta... Os Soviéticos têm uma vigilância aérea perfeita. Terá de aportar à costa russa durante a noite. Falaremos ainda depois quanto a pormenores. Em Vinniza terá à sua espera um nosso contacto, o tractorista Avdei Konstantinovitch Deviatov. Mora em Ulinskaia, onze.

- Orwell retirou o mapa da Ucrânia da mão de Miller e meteu-o dentro da gaveta. - Tem algum desejo especial, Bob?

- Tenho, sir - respondeu Bob Miller de olhos fixos na parede. - Gostava de ver a minha mãe antes de partir...

- Concedido, Bob - anuiu o general Orwell, sentindo um nó na garganta e dizendo de si’ para si: «Está a pensar o mesmo que eu: deste género de viagem não há regresso. Os milagres só raramente acontecem.»

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- Voltamos a ver-nos daqui a dez dias, no campo de aviação. Aproveite bem estes dias, Bob - acrescentou.



- Vou esforçar-me por isso, sir - retorquiu Miller, que se pôs em sentido quando Orwell passou ao seu lado. Talvez não acredite, mas a ida a Vinniza agrada-me.

Amasra é um porto pesqueiro turco no mar Negro, à saída das montanhas pônticas. Constituído por casinhas baixas e caiadas de branco, uma praia arenosa onde se guardam os barcos e se põem as redes a secar em paus curvos. À volta da praça do mercado há alguns cafés que

- seguindo a nova moda- até se chamam «bares», onde

- para surpresa dos habitantes de Amasra - chegam frequentemente estrangeiros a este local, talvez por se situar estreito minarete de onde é ainda o próprio muezim que interessa. A areia é branca, não há dúvida de que aqui se descansa e existe também uma mesquita com um alto e estreito minarete de onde é ainda o próprio muezim que chama os crentes à oração, não se utilizando, como noutros locais, o mero registo magnético. Um forte sopro de romantismo oriental paira sobre Amasra. Até se viam ainda

- isoladas - mulheres de rosto tapado, apesar da revolução de Ataturk e do seu movimento de emancipação, seja como for, o tempo aqui parou, mas todos andam contentes, vivem sem preocupações, vão buscar sustento ao mar ou aos imbecis dos estrangeiros, que pagam o que se lhes pede, sem regatear. Alá proteja os parvos... que sustentam os espertos.

Contudo, deu nas vistas quando, um dia, sete estrangeiros que falavam como se fossem americanos chegaram num velho camião de Zonguldak, a cidade mais próxima, na costa do mar Negro, à estação de Amasra e logo fizeram negócio, tendo alugado cinco quartos na casa de Yegi Gerilgiiii. Gerilgiiii era dono do que em Amasra se chama um hotel. Situava-se na praia e era famoso pelos seus pastéis com recheio de mel.

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Logo se espalhou que os estrangeiros eram profissionais, pois discutiram os preços dos quartos durante três horas, até que apareceu o chefe da Polícia de Amasra (o que era quase uma sensação) e pôs fim ao regatear, ordenando a Gerilgiiii que fizesse um preço baixo.



É para o interesse da comunidade - disse-lhe. -

Além disso, não te esqueças, Yegi, que nunca vi como despejas aguardente em chávenas de chá...

Os sete americanos demoraram-se quatro dias em Amasra e receberam inúmeras visitas de desconhecidos que chegaram em carros pesados, até mesmo de Angora. Em seguida, numa tarde, apareceu um barco de pesca estrangeiro, maior do que os barcos de Amasra e com motor mais potente. Ouviram-lhe imediatamente o som: motor potente, próprio para navegar, um barco capaz de aguentar vários dias no mar alto. Ancorou ao largo, em águas fundas, e deixou-se admirar. À noite, um dos americanos meteu-se sozinho num barco a remos, foi até outra embarcação, onde o içaram, e ao barco, para bordo. E ainda nessa noite o barco prosseguiu viagem e desapareceu na vastidão do mar Negro.

No dia seguinte, os restantes seis americanos também abandonaram a pequena localidade, ao som do cântico pronunciado pelo muezim, e dois dias mais tarde a visita fora esquecida até por Gerilgiiú, o dono do hotel, a quem o chefe da polícia disse: «Se pronunciares uma palavra que seja sobre este assunto, mando-te castrar como a um eunuco!» Para um muçulmano não existe ameaça mais horrível.

O barco de pesca seguiu a toda a velocidade para o norte, na direcção da costa russa, rumo ao golfo de Odessa. Bob Miller, encostado à amurada, contemplava a costa turca, que ficava para trás. De todo o seu ser tinha-se apoderado um curioso sentimento de frieza. Nada de despedidas demoradas, tão-pouco receio pela vida, nem sequer esquematização do que o futuro lhe reservava. Tal como no Alasca, no centro de preparação de Smolenska, quando o tinham enterrado na terra até ao pescoço e lhe tinham deitado água em cima durante horas a fio, até julgar que acabaria por dar

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um estoiro. Em seguida conseguiu desligar-se da situação



- tinha aprendido - e apenas continuou a respirar, transformado num fole sem emoções.

A sua bagagem à prova de água continha o uniforme de um major soviético, uma pistola Tokarev, uma caixinha com material plástico explosivo, documentos e bilhete de identidade soviéticos, ordens de viagem devidamente preenchidas e carimbadas, poderes extraordinários conferidos pelo Departamento Central da KGB em Moscovo... e uma cápsula de gelatina com veneno, de efeito instantâneo. Quando vestisse este uniforme, deixava de existir Bob Miller. Passaria a chamar-se major Vassia Grigorevitch Chukov, de 33 anos de idade, inspector da KGB, em missão especial. Nenhum russo se atreveria a duvidar que assim era. Um uniforme é hoje em dia tão inviolável como outrora o felónio, o manto bordado a ouro do papa.

Bob Miller meteu a mão no bolso das calças, tirou um maço de cigarros amachucado e meteu um cigarro na boca. Sentou-se, seguidamente, em cima de um rolo de cordas e contemplou o mar Negro, iluminado por um pálido luar. As gaivotas voavam em círculo por julgarem que se tratava realmente de um barco de pesca e, por conseguinte, uma mesa posta para elas.

Nesse preciso momento, em Frazertown, John Barryl tinha preparado e vendido o último hamburger. Billy Rampler fechou a loja, desligou o enorme reclamo luminoso de plástico colocado no telhado, bateu na esta e disse:

- Estou farto. Vou-me embora. - E desapareceu.

John limpou o balcão de trabalho e aproximou-se de Norma Taylor, que estava novamente ocupada com as torneiras do leite. A limpeza e a higiene eram uma regra na loja de Billy Rampler. O seu receio de bactérias e bacilos era quase patológico... também, neste aspecto,- um americano típico. John admirou intimamente esta perfeição de comportamento. No caso de Norma parecia acontecer o mesmo.

Apoiou-se ao balcão, contemplou-a por momentos e, em seguida, bateu com os nós dos dedos no tampo de aço.

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Norma fitou-o com uma expressão um tanto impertinente.



O que se passa? - perguntou.

Tive uma ideia... -respondeu John Barryl.

- Que estupidez!

Ainda podíamos ir ao Hillmoore e tomar um cocktail.

O que acha?

Não! - recusou, pondo o pano de lado e alisando a

blusa. O conteúdo por baixo da blusa era de apreciar.

- Porquê, Norma?

- Ao ver a forma como está a olhar para o meu peito, sei o que pretende. Todos os homens querem o mesmo... e não me agrada! Ainda ninguém o informou de que pertenço à Liga dos Direitos da Mulher?

- Não. Céus! E o que está a fazer numa coisa dessas?

- Luto para que nos deixem de olhar, a nós, mulheres, como objectos de prazer.

- E isso acalma-a?

- Macaco! - exclamou Norma Taylor num tom rude, ao mesmo tempo que atirava o pano à cabeça de John e saía do restaurante. Ele soltou uma sonora gargalhada, apoiou-se ao balcão e prometeu a si mesmo arrancar toda a feminilidade de Norma Taylor cá para fora.

A essa mesma hora, Bob Miller, sentado no rolo das cordas, encostou-se à casa do leme e adormeceu profundamente. O vento quente do mar desalinhou-lhe o cabelo e encheu-lhe a camisa de ar.

Não é de se pensar que a” vida de John Barryl em Frazertown, a partir de então, se resumia meramente a preparar hamburgers, flirtar sem êxito com Norma Taylor, apanhar banhos de sol na margem-do Silver River, andar de barco a motor, nadar, incitar com gritos agudos a equipa de West Side no estádio de futebol e atirar garrafas de coca-cola pelos ares. Também as visitas informativas ao bordel frequentado por John não eram a descoberta da pólvora,

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embora as cinco raparigas, tal como o motorista do autocarro prometera, fossem do melhor que havia. Duas morenas, uma ruiva, uma loura exuberante e uma elegante asiática de pele branca que não queria compreender que o alto, bonito e musculoso rapaz apenas queria ver tudo, mas não demorar-se. John pagava a taxa inteira por aquela vista de olhos, mas isso não o salvava. Como era frequente, concluía que as jovens



- até mesmo as que o faziam profissionalmente - ficavam com uma expressão sonhadora ao vê-lo e descobriam como que um verdadeiro amor em si.

A vida em Frazertown era qualquer coisa de muito diferente! Das oito da manhã à uma da tarde era-se um objecto, um pedaço de matéria que aqui recebia uma rigorosa instrução militar, segundo todas as regras científicas e rígidas. As aulas tinham lugar no cine-teatro e no salão de concertos: História, Geografia e Economia Americana. John decorou as categorias dos pugilistas, as equipas de basebol que se batiam pelo título, os nomes das grandes estrelas do mundo do cinema e do espectáculo da Broadway, o curriculum dos senadores mais importantes, as emissões das muitas estações de TV americanas, o quotidiano de uma família vulgar entre o Atlântico e o Pacífico. Comia pipocas nos transportes, ia três vezes por semana ao cinema ver os mais recentes filmes hollywoodescos, treinava boxe duas vezes por semana no ginásio, na classe dos pesos-médios, e aprendeu a conhecer uma série de pessoas que, como ele, falavam inglês, se cumprimentavam pelos nomes próprios: «Como vais, Bill?», «Como estás, Jack?» e eram, no entanto, sabia-o, oficiais soviéticos como ele.

Uma vez por semana tentavam fazer com que se fosse abaixo. Tal acontecia num fortim subterrâneo onde americanos de uniforme o prendiam, lhe batiam, o ligavam a um detector de mentiras e o interrogavam durante horas a fio: «De onde vem? Quem é? Qual o seu verdadeiro nome? Como é o seu nome russo? Qual a sua missão? Como se chamam os seus clientes? Onde recebeu instrução? Conte-nos tudo sobre essa escola de agentes em Vinniza! Fale...»

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Nos primeiros quatro interrogatórios, John Barryl não se portou nada bem. «Cantou», como os oficiais de serviço registaram gostosamente. Em seguida, John refugiou-se na sua casinha, envergonhado, amaldiçoando a sua fraqueza, à espera que o afastassem de Vinniza com um rótulo de desonra e o destacassem para outro comando, algures na Sibéria, para qualquer lugar frio e votado ao esquecimento. O major Pleniakov, o grande frustrado! Aparentemente, a sua brilhante carreira dava a sensação de haver chegado ao fim. Ninguém o veio buscar de volta, de Jenessei ou de Lena.



Contudo, Mr. James Bulder, o presidente da Câmara de Frazertown, tinha uma outra opinião:

- Vai resultar, John! - observava satisfeito. - Os interrogatórios denotam uma curva positiva do seu endurecimento. Na primeira vez cantou ao fim de duas horas, na quarta vez só o fez passadas sete horas...

- Mas cantei, sir! - interrompeu-o Barryl num tom queixoso. - Não sirvo para nada.

- Andrei Nikolaivitch... Tencionava nunca mais o chamar por este nome, mas agora é necessário!... Até esta altura obteve as melhores notas do curso. Transformou-se no americano-modelo. Contudo, se alguma vez acontecer na realidade a situação para que o treinamos e o tentarem quebrar, sei que é um russo tão perfeito que preferirá morrer a deixar escapar uma palavra que seja! - disse o general Ivan Korneivitch Sinionev, ao mesmo tempo que colocava fraternalmente o braço em redor dos ombros de Pleniakov. E evidente que não se pode levar até ao fim uma coisa destas numa sala de simulacro e, além disso, há uma voz a dizer-lhe bem no fundo da consciência: «Não me vão deixar morrer. São meus camaradas!» E por isso fala-se, para pôr termo a tudo. Reage-se, dessa maneira, involuntariamente. Tudo isso desaparece quando se vive a realidade. Então, morremos, Andrei.

Pleniakov fez um aceno de cabeça afirmativo.

- Agradeço-lhe, camarada general - replicou em voz baixa. - Já tinha começado a odiar-me por falhar. Amo a

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minha pátria...



- Esse é o motivo por que também é americano! Ao trabalho, John... Aliás, Billy Rampler diz que há quatro anos que lhe prepara os melhores hamburgers. Não é assim, menino bonito?

- Dá-me uma alma nova, sir.

- Sou uma ilusão, John - retorquiu Bulder-Sinionev, metendo as mãos nos bolsos das calças, fazendo um balão com a pastilha elástica e rebentando-o, depois do que riu feliz com a habilidade conseguida. - Que tal vai isso de hormonas? Ainda não levou uma rapariga para a cama?

- Não, sir.

- Porquê? Umas mamas na mão dão mais coragem do que cem palavras minhas.

- Tenho uma jovem em vesta, sir.

- Bonita? Claro que é bonita! Com o aspecto que tem pode andar atrás de rainhas de beleza! Conheço-a?

- Aqui chama-se Norma Taylor...

- É de estalo, John! Se a conseguir, tem na mão um instrumento para mais tarde chegar até à Casa Branca.

- Quem é ela, sir?

- Norma Taylor.

- Quero dizer... fora de Frazertown.

- Não existe «fora de Frazertown» - retorquiu Bulder num tom duro e subitamente muito sério. - Note bem, John. Se se chama Norma, é Norma.

Barryl aceitou a ensaboadela, enfiou o boné de pala plástica verde na cabeça e saiu do gabinete do presidente da Câmara.

Nessa tarde estava de folga. Foi ao cinema, onde assistiu ao Padrinho, com Marlon Brando, em seguida foi até ao Hillmoore Bar, bebeu três whiskies com gelo e meteu-se no pavilhão de basebol.

No ringue estavam a aquecer-se duas «montanhas de carne». Treinavam um bocado, preparando-se para o espectáculo, que começava às 21 horas. O pavilhão estava vazio até de treinadores, oferecendo um conjunto desconsolador

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de cadeiras e bancadas. Em frente de Barryl, apenas tendo o ringue a interpor-se, uma outra pessoa observava solitária os pugilistas e os golpes aparentemente selváticos com que se atacavam um ao outro.



John deu a volta ao ringue e foi-se sentar junto do outro espectador solitário.

- Desde quando se interessa por carne suada, Norma?

- quis saber.

- E o que está a fazer aqui? - retorquiu ela.

- Vim por sua causa.

- Como assim? - perguntou, fitando-o. Era a primeira vez desde há cinco semanas a essa parte que o olhar dela se detinha mais do que um segundo na sua pessoa. Permitiu-lhe fitá-la bem no fundo daqueles olhos dotados de um brilho dourado e um pouco rasgados, como agora se apercebia, e que lhe fizeram correr o sangue ainda com mais força nas veias. «De noite, devem ser fosforescentes como os de uma pantera», pensou. «São olhos de fera, dos quais se fica à mercê. Em momentos de êxtase devem ficar ainda maiores e dominar completamente o rosto. Céus! Que mulher!»

- Como assim? - repetiu, sem deixar de o fitar. Ficou com a sensação de que aquele modo de olhar lhe abria buracos no rosto.

- Sinto-me só quando não estou consigo, Norma...

- atreveu-se.

- Ainda não se deu conta de que não passa de um imbecil, John? - comentou rudemente. - O belo John de Frazertown... ainda não ouviu dizer?

- Não - respondeu confuso.

- As outras raparigas não’ falam de outra coisa e comem-no com os olhos. Ainda não se deu conta de que nós, desde que está empregado no Billy’s, temos mais trinta por cento de clientela feminina?

- Não.

Claro que não. Só tem olhos para os seus hamburgers...



- E para si, Norma.

- Nesse caso, procure outro cenário. Só precisa de

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desabotoar a camisa para que dez mulheres se lhe agarrem.



- Porque me fala dessa maneira, Norma? - replicou Barryl suavemente. - Lá no íntimo, você não é nada disso. E essa história da Liga das Mulheres para lutar contra o seu uso como objecto sexual... não passa de conversa fiada. Também tem um coração, Norma. Porque continua a repelir-me?

Não respondeu e limitou-se a levantar-se subitamente para entrar no ringue, batendo no ombro do mais alto e mais robusto colosso de carne. O colosso deu meia volta, esboçou um sorriso dirigido à bonequinha de cabelos negros e lançou um olhar provocante para a blusa que lhe recortava os seios.

- Antes do desafio não, miúda - disse-lhe com sotaque texano e esfregando as mãos enormes. - Se tudo correr bem, teremos sobremesa...

Nesse momento aconteceu algo que John Barryl só entendeu depois de chegado ao fim, tão rápido foi tudo o que se desenrolou no ringue.

Norma Taylor deu um passo em frente e estendeu os dois braços. Em seguida, ouviu-se um forte estalido, como que proveniente de um toque de magia, o montanha de carne foi erguido do chão, deu meia volta no ar e aterrou de frente no colchão. E para ali ficou deitado, não devido a atordoamento mas tomado de uma surpresa incomensurável.

Norma saiu do ringue e contemplou o desconcertado John Barryl com uma gargalhada significativa.

- É esta a razão por que não existe o que quer que seja entre nós, John Barryl - declarou calmamente. - Ainda acabaria por lhe partir os ossos todos...

Nessa mesma tarde John inscreveu-se num curso adiantado de karate. Norma foi logo informada pelo instrutor do curso e riu-se.

Como se vê o amor tinha os seus quês e porquês em Frazertown.

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À quarta noite, o barco de pesca tinha-se aproximado tanto da costa russa do mar Negro que a vigilância soviética por radar o devia ter perfeitamente localizado.



Contudo, ninguém os incomodou. Ancoraram ao largo da zona de três milhas e lançaram algumas redes. Sabiam que há muito os tinham identificado como inofensivos pescadores turcos. Ao cair da noite, duas vedetas a motor soviéticas tinham descrito círculos, feito a respectiva inspecção, segundo parece igualmente tirado fotografias e, em seguida, tomado novamente a direcção de Odessa. Era raro os pescadores turcos virem deitar as redes neste local. Na maioria das vezes procuravam as presas nas proximidades da própria costa, por causa do transporte, pois até os barcos mais pequenos estavam equipados com frigorífico. Os peixes mortos aguentavam três dias sob calor ardente, mas começavam a cheirar mal e arruinavam toda a pesca.

Por volta das duas da manhã, sob um céu iluminado de estrelas que pela primeira vez não agradava a Bob Miller, deixaram escorregar o barquinho raso e pintado de preto até à água, tendo escrita na proa a palavra russa Sokol-Falcão. Um pequeno motor fora-de-borda, igualmente de tipo soviético, foi preso com segurança na parte de trás e uma mala de oficial soviético completou o equipamento da embarcação.

Bob Miller manteve-se calmamente encostado à amurada e esperou até que tudo estivesse em ordem. Vestia o uniforme de major soviético e fora passado em revista até ao mais ínfimo pormenor. O corte de cabelo era o conveniente e a própria água-de-colónia que lhe perfumava a cara provinha de uma fábrica de cosméticos de Tífilis. Nos bolsos levava fósforos russos, um maço de Papyrossi e uma navalha com lâmina de aço fabricada em Kasan. Só a cápsula de gelatina com o veneno era de origem americana; estava metida num botão do uniforme, o terceiro a contar da gola. Bastava arrancar com um puxão e meter na boca. Tão rapidamente que ninguém pudesse reagir.

- Está tudo em ordem, camarada major - anunciou o

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indivíduo da CIA, que estava vestido como um pescador turco, esboçando um largo sorriso. - Como te sentes, Vassia Grigorevitch?



- Curioso e nada mais.

- Faz boa figura, Bob! - desejou o homem da CIA, batendo ao de leve nas costelas de Miller. - Não sentes um aperto no estômago?

- Não.

- Ainda ninguém se atreveu a fazer o que vais fazer.



- Alguma vez tem de ser feito - retorquiu Miller, içando-se na amurada e descendo a estreita escada de corda. Por baixo dele a embarcação balouçava nas pequenas ondas. O mar Negro mostrava o seu lado mais suave. - Se tudo correr bem, dentro de dois dias encontro-me ao largo de Vinniza. Segue-se a primeira informação fornecida do exterior da cidade proibida.

- Deus seja contigo, Bob!

- Pouco me poderá ajudar - observou Miller com um último aceno de cabeça e arrumando, seguidamente, a escada de corda no barco. Deu três puxões no cabo do pequeno motor fora-de-borda e afastou-se com bastante velocidade, penetrando na escuridão difusa, apenas cortada pelo brilho das estrelas. O homem da CIA e o capitão turco ficaram a segui-lo com o olhar, até o barquinho escuro e raso acabar por desaparecer, levado pela suave ondulação.

- Irá voltar? - inquiriu o turco em voz baixa.

- Não - respondeu o indivíduo da CIA, pondo um cigarro na boca. - Teve de riscar três fósforos, tanto lhe tremiam as mãos. - Não tem qualquer hipótese. Temos uma profissão de merda. Uma profissão de merda...

Foi num local solitário entre Alexandtovka e o golfo de Dniestre, uma bela faixa de praia até onde, particularmente ao domingo, se deslocavam muitos camaradas de Odessa, pois pela terra dentro se erguiam barracas de madeira de cores variadas, quais soldados em posição de sentido, que Bob Miller - Agora para nós o major Vassia Grigorevitch Chukov - pisou solo russo. Iniciou a primeira parte da sua

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missão sem pressas, mas com a precisão de um computador: virou a embarcação Sokol novamente na direcção do mar, ligou o motor, fez três buracos no fundo do barco e empurrou o Falcão para o mar. Percorridos trezentos metros, a embarcação afundou-se, arrastada pelo motor fora-de-borda.



Em seguida, Vassia Grigorevitch Chukov pegou na sua mala de oficial e avançou com dificuldade pela terra dentro, pisando a areia. Sabia exactamente onde se encontrava. Tinha o mapa na cabeça: três quilómetros a sudoeste situava-se a linha férrea de Sarata-Odessa, uma linha secundária que habitualmente servia para o transporte dos trabalhadores e, aos domingos, dos excursionistas que iam até à costa. Nas imediações ficava a pequena localidade de Bilaki, que vivia de uma herdade vinícola produtora de um vinho magnífico e dourado do Sul. No entanto, o comboio só parava em Bilaki quando era necessário. A maior parte dos passageiros ia de autocarro até Akkarsha ou, quando já estavam no Akkarsha, pelo mesmo meio de transporte até mais longe, pela bonita e ampla estrada que levava a Odessa. Uma viagem através de florestas de palmeiras e de jardins, pomares e olivais. Um pedaço de terra que Deus beijara, como diziam os orgulhosos russos do mar Negro.

ChuKov percorreu os três quilómetros a passo lento, até avistar as primeiras casas de Bilaki. Ninguém lhe apareceu com excepção de quatro cães dispersos que não podiam perguntar como é que um major do Exército soviético atravessava a terra de noite, sozinho e com uma mala na mão.

Vassia Ungorevitch descansou sob a protecção de um grupo de ibiscos até que a aurora pintou o céu com um indescritível vermelho-aveludado, observou, através dos densos ramos do esconderijo, três camiões que transportavam trabalhadores da Vinadielije Lenin - Cooperativa Vinícola Lénine - para as plantações de vinhas, agarrou seguidamente na mala e avançou muito direito é inacessível, como convém a um major do Exército Vermelho, descendo a rua principal na direcção da pequena estação de caminho-de-ferro pintada de amarelo.
O seu aparecimento provocou uma acção verdadeiramente desenfreada.

Vitali Polikarpovitch Baidukiev, o chefe da estação de caminho-de-ferro, que agradecia, intimamente, uma vez por semana, a todos os seus santos que o destino o tivesse tratado tão benevolamente e contemplado com esta posição despreocupada, estava a molhar precisamente um scone na sua grande chávena de chá, quando viu entrar o major na estação Assustou-se e deixou cair o scone, olhou para o horário e partiu do princípio de que o camarada major devia querer apanhar o comboio das 6 e 19 para Odessa. O facto constituía um grave problema, na medida em que se tratava de um comboio rápido e só em circunstâncias muito especiais é que os comboios rápidos paravam em Bilaki por causa de um único passageiro.

Baidukiev limpou as calças sujas, colocou o boné de chefe da estação de caminho-de-ferro na cabeça grisalha, apertou o cinto e pediu - uma vez mais, intimamente a todos os santos que o camarada major fosse uma pessoa pacífica que não começasse de imediato a ralhar e a proferir ameaças e tão-pouco levantasse problemas infindos.

Vitali Polikarpovitch deu ainda uma espreitadela à cozinha, pois a sua casa ficava pegada ao gabinete de trabalho, o que era prático, na medida em que, quando fazia a sua soneca da tarde, a sua mulher, Rimma Teofilovna, podia observar da cozinha, os sinais de luzes dos mecanismos das agulhas e providenciar uma circulação à tabela e sem problemas, como era compreensível numa cidade socialista.

- Chegou uma pessoa importante, Rimma! - anunciou Baidukiev olhando para o espelho, colocando o boné como devia ser e sacudindo uma migalha de bolo do bigode. Um major. Tenho de mandar parar o rápido. Telefona para Puchkari... devem avisar os camaradas maquinistas.

Entrou na guarita dos sinais, colocou a alavanca de entrada no vermelho e, em seguida, apressou-se a voltar ao seu gabinete. Ali foi encontrar o major, um indivíduo alto, de porte orgulhoso e condecorado, por detrás da mala e

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observando um cartaz que elogiava o vinho de Bilaki com frases efusivas.



Baidukiev bateu os calcanhares e emitiu uma sonora saudação. Chukov deu meia volta.

Como se permite a pregar-me um susto destes? -

rugiu imediatamente. - Parecia o som de dez cavalos a atravessarem a região.

«Oh! Este é mesmo dos duros», pensou Baidukiev. «Com ele não se pode discutir. Sopra como uma tempestade de Outono vinda do mar.»

Tentou um esboço de sorriso e deixou-se ficar em posição de sentido. «Um comportamento militar não o vai irritar», prosseguiu na sua linha de raciocínio. «Senão, porque seria um major?»

- O camarada major pretende seguir para Odessa?

- inquiriu quando Chukov se calou.

- Se possível.

- Temos um comboio rápido às 6 e 19, camarada major.

- Convém - comentou Chukov olhando para o relógio de pulso, um modelo da fábrica de relógios de Kiev. Passa, portanto, daqui a dez minutos?

- Se chegar à tabela. Normalmente não falha. Quando é o Kostilev a dirigi-lo, é pontual. Contudo, quando o Repkin está de serviço, pode chegar mais tarde. O Repkin tem medo das curvas. Alguém consegue entender tal coisa? Há vinte e nove anos que conduz um comboio, sempre pelo mesmo percurso, e continua a ter medo das curvas! Um homem sensível, o Repkin. Joga xadrez e canta Mozart. Conhece qualquer outro condutor de locomotivas que cante Mozart, camarada major? Alguém já disse que o medo que ele tem das curvas se deve a que canta Mozart...

Baidukiev calou-se, desconsolado. Apercebeu-se de que, aparentemente, o major não era um conhecedor de Mozart. Chukov fitou o pequeno chefe da estação com uma expressão irritada.

- Gosta mesmo de falar, não? - perguntou seguidamente, num tom brusco, fazendo com que Baidukiev sentisse

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o suor a escorrer-lhe da testa. •••>



- Estava só a tentar pôr o camarada major a par das particularidades da nossa estação ferroviária. O sinal já está colocado no vermelho. O comboio rápido parará aqui. Contudo, se for o Kostilev a conduzi-lo, as pragas que dirá! Faz ponto de honra de chegar a Odessa precisamente à tabela. Quando, porém, vir o camarada major, será a delicadeza em pessoa. À sua inteira disposição.

Chukov voltou a consultar o relógio de pulso, com a visível intenção de provocar. Baidukiev limpou rapidamente o suor,da testa com as costas da mão.

- Ainda faltam cinco minutos, camarada major.

- Graças ao Céu. Quantos filhos têm?

- Só um. Um rapaz.

- Foi o que pensei. Já falou de mais...

- Contudo, já tenho nove netos, camarada major. E o meu filho é propagandista em duas sedes do Partido de Odessa.

Esgotaram-se os últimos minutos. Ouviram, ao longe, o apito da locomotiva, forte e demorado, pois o sinal de aviso estava já no vermelho.

- E o Kostilev, camarada major - anunciou Baidukiev, arreganhando os dentes. - Ah! Deve estar’ mesmo fulo! Apita como um louco! O Repkin não faria uma coisa dessas e entraria sem barulho. Contudo, o Kostilev... é um colérico, sou eu que lho digo. Agora deve estar a cuspir de irritação! Cá está o rápido, camarada major - disse Vitali Polikarpovitch, ao mesmo tempo que corria ao longo da plataforma, erguia a bandeira vermelha e fazia sinal. - Comboio para Odessa - gritou. - Cuidado! Recuar!

O comboio deteve-se com um guinchar de travões. Uma cabeça emergiu da janela da locomotiva. Só podia tratar-se de Kostilev, pois o indivíduo rugiu imediatamente:

- Como é que o sinal está vermelho, meu bode velho? Estiveste a beber toda a noite e já não consegues distinguir as cores. Quero a linha livre, velho enferrujado.

Em seguida avistou o major de pé, na plataforma, engoliu

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imediatamente o fraseado com que se dispunha a continuar e desapareceu atrás da janela.



Não lhe tinha dito? - retorquiu Baidukiev, abrindo a

porta da carruagem de primeira,classe. Um revisor que surgiu a toda a pressa, vindo do extremo do comboio, pegou na mala e meteu-a lá dentro. - No entanto, agora o bom do Kostilev já não sabe o que fazer. Viu-o e zás: desapareceu! Boa viagem, camarada major...

Chukov subiu, entrou num compartimento onde apenas um indivíduo adormecido se aninhava a um canto e instalou-se. O revisor colocou a mala na rede das bagagens e desapareceu imediatamente. Do lado de fora, Baidukiev ergueu a bandeira. Caminho desimpedido. A sua mulher, Rimma Teofilovna, mudou o sinal para verde.

- Era um homem distinto - comentou Vitali Polikarpovitch, depois do que se instalou novamente, molhou o biscoito de manteiga no chá e comeu mastigando com gosto. - É, de facto, um acontecimento poder voltar a conversar com pessoas instruídas. Imagina, Rimma, que não me chamou imbecil uma vez que fosse. Um verdadeiro cavalheiro, sou eu que to digo!

- E o que está a fazer um major às seis da manhã, só com uma mala, aqui em Bilaki? - retorquiu Rimma Teofilovna pensativamente. - De onde vem?

- E se fosses tu, atrevias-te a perguntar-lhe, hem?

- exaltou-se Baidukiev. - Mas que raio de ideias têm estas mulheres! Um major do Exército Vermelho pode estar em qualquer lado e a qualquer hora do dia. Ninguém lhe faz perguntas. Nunca. .

- Mas não deixa de ser estranho - insistiu, sentando-se e olhando para a plataforma agora vazia. - Em Bilaki, os oficiais não caem do céu. Convence-te disso...

- Era uma pessoa distinta! - exclamou Baidukiev, impaciente e batendo com o punho em cima da mesa. t tratou-me como se fosse seu igual. Não é coisa que nos aconteça todos os dias.

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Chukov desceu em Odessa, verificou no horário qual era o próximo comboio com destino a Vinniza e viu que teria de descer em Chemerinka. Havia um outro comboio, a uma hora mais tardia, que seguia directamente até Kiev e parava em Vinniza, mas Chukov resolveu afastar-se o mais rapidamente possível das proximidades da costa e desaparecer na vasta e fértil planície da Ucrânia. Os dois primeiros riscos tinham sido ultrapassados de uma forma surpreendentemente simples: o desembarque na Rússia e a viagem até Odessa.



Vassia Grigorevitch fez o que todo o oficial faz quando tem de esperar por um comboio: instalou-se numa das luxuosas salas de espera, com as paredes revestidas de mármore e iluminadas por gigantescos lustres de cristal, mandando vir um copo de vinho da Crimeia. Já conhecia a estação de caminho-de-ferro de Odessa através de fotografias, mas apesar de tudo estava impressionado com o esbanjamento a que não se tinham poupado naquela construção. As estações de caminho-de-ferro e do metropolitano, os estádios e os edifícios para congressos desde há muito que constituíam o orgulho dos Soviéticos, uma demonstração da sua grandeza e da cultura jamais destruída. O que as palavras não tinham poder para concretizar estava expresso indiscutivelmente nas construções. A Rússia é um país do Eterno.

Tudo se passou exactamente como se tinha esperado em Fort Thompson, na medida em que se estudara com precisão a maneira de ser russa. Chukov não foi incomodado, interrogado ou controlado. O uniforme que vestia era uma prova da sua integridade. A quem vai passar pela cabeça que na estação de caminho-de-ferro de Odessa um oficial americano disfarçado de major do Exército Vermelho compre um bilhete para Odessa? Corresponde ao mesmo que deter em Filadélfia um major americano de viagem até Nova Iorque.

Chukov arranjou lugar numa carruagem onde se sentavam um engenheiro, um médico e um arquitecto que também mudavam em Chemerinka, mas pretendiam seguir até Kiev. Era de prever com toda a probabilidade uma companhia de viagem muito taciturna, pois o major contemplava a paisagem

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com uma expressão arrogante e, aparentemente, não mostrava qualquer interesse em conversar. Por fim, o arquitecto e o engenheiro acabaram por jogar xadrez - um russo traz quase sempre consigo um jogo de xadrez - e o’ médico dirigiu-se à carruagem-restaurante para beber uma chávena de



chá.

Vassia Grigorevitch chegou, por conseguinte, sem que o

incomodassem, à cidade de Vinniza e desceu. Avistou pela primeira vez o Bug, o rio maravilhoso que corria ao longo de uma paisagem plena de verdura, a recordar-lhe a Florida. Só faltavam as palmeiras. No entanto, todo o país e a própria cidade recebiam o sopro de uma alegria meridional que desabrochava sob o céu de um azul-sedoso. Chukov deixou-se ficar parado, a contemplar o novo bairro da cidade, que, com a sua arquitectura uniforme, se assemelhava a outras cidades e lhe arrancava ao cérebro o plano da cidade que tinha estudado durante semanas a fio, até conhecer todas as ruas, esquinas e travessas, para além do aglomerado de casas.

«A Ulinskaia 11 é uma parte velha da cidade», pensou. Ali existe uma fábrica de máquinas agrícolas, uma fábrica de lâminas e uma fábrica de conservas. A Ulinskaia é formada por velhas casas de dois andares, uma típica colónia de trabalho. O facto de o tractorista Avdev Konstantinovitch Deviatov ter telefone era uma coisa rara, mas as pessoas já se tinham habituado. Deviatov era, afinal, um operário especializado e qualificado membro do Partido, tinha sido eleito duas vezes como «trabalhador-modelo» e gozava igualmente de há muito alguns privilégios que lhe eram concedidos sem inveja. Possuía, por exemplo, aparelho de televisão e aparelhagem estereofónica e era um camarada e um comunista tão exemplar que, nas transmissões especiais, tais como de desporto ou teatro, convidava os vizinhos para assistirem e chegava a servir-lhes chá ou um leve vinho rose. Um bom tipo, este Avdev Konstantinovitch.

Chukov dirigiu-se à cabina telefónica mais próxima e levantou o auscultador. Tal como no resto da Rússia, também aqui não havia lista telefónica na cabina, mas

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Chukov sabia de cor o número de Deviatov. Marcou os algarismos e, quando Deviatov atendeu, disse:



- Quero apresentar-lhe cumprimentos da sua avozinha, Avdev Konstantinovitch. Gostava muito de lhe ter vindo fazer uma visita, mas não suporta o comboio.

- Os velhos, meu caro camarada, os velhos. O que se pode fazer contra isso? - retorquiu Deviatov, que, em seguida, desligou.

Tinham-se entendido. Decorridos cerca de dez minutos, uma limusina moscovita parou diante da estação de caminho-de-ferro. O major Chukov entrou, um motorista pressuroso meteu a mala no porta-bagagens e depois avançou a toda a velocidade, não de volta à cidade mas rumo a sul, onde se situavam as grandes plantações de frutos.

Rodaram cerca de dez minutos pela estrada larga, meteram seguidamente por um atalho e pararam em frente de uma granja que tinha os portões escancarados. Deviatov deu um salto do tractor, veio até ao portão e depois trancou-o.

- Seja bem-vindo, Vassia Grigorevitch - cumprimentou, indo ao encontro do automóvel e abrindo a porta do lado de Chukov. - Chegou mais depressa a Vinniza do que o esperávamos.

Chukov desceu, apertou a mão de Deviatov e teve, finalmente, oportunidade de examinar de mais perto o contacto do serviço secreto americano. Avdev era um russo típico, de rosto afilado, no começo dos trinta anos e apresentava-se vestido com o fato cinzento que a classe trabalhadora obtém nos armazéns. Para a camada elevada, os privilegiados do Império Vermelho, havia lojas de modas especiais, onde apenas se podia comprar com cartões.

- É simples entrar no vosso país - declarou Chukov, enquanto desabotoava o casaco do uniforme. Estava quente e abafado na granja. - Para mim é um enigma porque é que publicam histórias tão assustadoras na imprensa e nos livros.

- Nem todos dispõem da protecção de uma organização tão poderosa como a CIA, major - retorquiu Deviatov, tirando a mala do porta-bagagens. - Esta passará a ser a sua

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asa Aluguei a granja e a terra em redor. Uma oportunidade que apenas se pôde concretizar porque sou membro do Partido e fui eleito «trabalhador-modelo» duas vezes. Aqui ninguém o incomodará se não se deixar ver durante o dia.



Não é minha intenção passar umas férias em Vinniza,

Avdev Konstantinovitch. - Chukov tinha despido o uniforme para enfiar umas calças de algodão, semelhantes às que os trabalhadores da região usavam. Vestiu uma camisa aberta no peito e calçou uns sapatos com sola de borracha. Retirou a cápsula de gelatina com veneno do botão do uniforme e meteu-a na cavidade da fivela do cinto. Deviatov observava-o cheio de interesse.

- Seria capaz, realmente, de a engolir em caso de necessidade? - perguntou-lhe.

- Sim - respondeu Chukov num tom brusco. - Tem aqui alguma coisa que se beba? No comboio, vi-me obrigado a desempenhar o papel de um oficial austero. Tenho a língua a arder.

Deviatov foi buscar ao carro uma mala frigorífica, que abriu. Continha limonada deliciosamente fresca, duas embalagens com pão e carnes frias, bem como uma garrafinha de duzentos gramas cheia de um vodka claro como água.

- Também tenho gelado - retorquiu Deviatov. - Três qualidades: baunilha, chocolate e pistácia - continuou, batendo com os dedos num termo de metal cromado. - Sabe, major? O gelado russo é o melhor do mundo. Indiscutível! E uma coisa que dá cabo dos nervos dos Italianos. - Riu, tirou a tampa e colocou o termo mesmo debaixo do nariz de Chukov. - Nem a mulher mais bonita tem um aroma destes.

Chukov riu também, instalou-se num cepo que havia na granja, apertou o recipiente de gelado entre os joelhos, pegou numa colher e serviu-se de uma fatia de gelado de pistácia. Tinha um sabor realmente maravilhoso, simultaneamente a natas e a fruta, mas não saberia diferenciar se se tratava do melhor do mundo. Uma pessoa não pode saber tudo.

- Falou em mulheres, Avdev. Mulheres bonitas. Também se sabe por estas bandas se há mulheres em Novotchok?

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- Não se sabe... mas imagina-se - respondeu Deviatov com um encolher de ombros. - É lógico que existam mulheres por lá, pois já que se constrói uma cidade americana não faz sentido esquecer as mulheres.



- Uma cidade precisa de ser permanentemente abastecida. Os motoristas dos transportes já devem ter visto...

- Os abastecimentos só chegam à primeira barreira. Ali, todas as mercadorias são carregadas por camiões do outro lado. A sexta-feira é o dia da semana em que se procede ao maior carregamento até à rede de arame electrificada. Nós, os Russos não fazemos perguntas onde as perguntas não são desejadas. Aqui é Vinniza, lá é Novotchok, duas coisas que nada têm a ver uma com a outra. Para quê mostrar curiosidade? Quando se paga por isso? A disciplina dos Russos é também a melhor do mundo, tal como os gelados.

- E estranho que durante todos estes anos não se pudesse ter descoberto se ali também são preparadas mulheres. É uma peça em falta no quebra-cabeças. Li os depoimentos de todas as espias. Surgem sempre as mesmas escolas de agentes nossas conhecidas, mas nunca Vinniza - observou Chukov retirando do recipiente uma colher cheia de gelado de chocolate. - Sabe. Avdev, que as mulheres da nossa profissão são mais espertas, frias, requintadas e perigosas do que nós? No que nos diz respeito, agimos com um cálculo político... e as mulheres põem sempre o coração no que fazem. E têm um sexto sentido para destrinça do verdadeiro e do falso.

Comeram ainda duas sanduíches de carne assada, beberam um copinho de vodka e esconderam o uniforme de major russo na granja, por baixo de um alçapão, que Avdev voltou a encher de trapos.

- Agora pode dormir um pouco Vassia Grigorevitch

- sugeriu Deviatov. - Há quase vinte e quatro horas que está de pé.

Chukov esboçou um gesto de desacordo. Pôs-se em cima de uns fardos de palha e friccionou as plantas dos pés uma na outra. Os olhos tinham adquirido a expressão sonhadora, o romantismo comovente que tanto enganava. - Deve, no

entanto, existir algures um sítio de onde se possa ver qualquer coisa de Novotchok - declarou. - Vedou-se todo o rio? Não faz sentido.

O que chega pelo lado de cima do Bug tem como término Vinniza e é descarregado em camiões ou vagões de caminho-de-ferro. Segue-se a barreira e o rio apenas é navegável cinco jardas mais abaixo. - Deviatov desembrulhou um bombom e começou a saboreá-lo gostosamente. Era um substituto do cigarro: fazer fogo nesta granja seca era quase um suicídio. - O bloqueio atinge a perfeição. Só há um sítio de onde se pode ver qualquer coisa.

Então, vamos já para lá - exclamou Chukov, pondo-se

de pé.

- Da outra margem do Bug, do alto de uma encosta a que aqui chamam «o Barrete dos Cossacos», é possível avistar-se os quatro postes luminosos do estádio de Novotchok. Construíram, por conseguinte, um verdadeiro estádio. Quando a neve derreteu, tentei servir-me de uma jangada de madeira para atingir a região das barreiras, fazendo-me passar por um estúpido jangadeiro que pretendia ir para sul... tudo acabou um pouco para lá de Vinniza. Havia três patrulhas no rio que me trouxeram para terra. É, portanto, impossível qualquer intrusão pelo rio. Os barcos vigiam todo o Bug com radar.



Além disso, encontram-se espalhados fios eléctricos a vários níveis da água e que devem estar acoplados a uma sofisticada aparelhagem, porque quando os peixes lhes tocam não há alarme, o mesmo acontecendo com outros objectos, e são tantos os que descem o rio! No entanto, se uma pessoa tocar no fio, desencadeia um barulho infernal - prosseguiu Deviatov engolindo o bombom com a ajuda de um gole de limonada. - Já tem provavelmente um plano, Vassia Grigorevitch?

- Não - respondeu Chukov erguendo-se e voltando a calçar os sapatos. - Sei apenas uma coisa: se cheguei aqui, vou atravessar a terceira porta.

Com um sorriso amável e dizendo: «Bom dia para todos, camaradas!»

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- Talvez. Muitas vezes consegue dar-se a volta a problemas insolúveis com as ideias mais simples.

- Aqui na Rússia a sabedoria dos antigos já não tem cabimento. Aqui é outra música, Vassia Grigorevitch.

- Temos tempo - comentou Chukov, abrindo um pouco o portão e espreitando lá para fora, onde o reflexo dourado da tarde se espalhava pela terra ardente. - Podemos ir até essa encosta a que chamam «o Barrete dos Cossacos»?

- Quando se fizer escuro, iremos de barco pelo Bug. Contudo, não se iluda. Pouco terá para ver.

Durante a noite chegaram ao alto da encosta, deitaram-se na erva alta e observaram com potentes binóculos a região que se estendia a seus pés, protegida por uma barreira tripla e a que os Russos chamavam Novotchok. Tal como Deviatov avisara, Chukov apenas tinha no campo de visão os quatro postos de iluminação, encontrando-se tudo o mais dissimulado por uma cadeia de encostas. Os projectores estavam ligados, o que significava estar a decorrer um desafio de futebol! O céu que cobria este pedaço de terra denotava um brilho pálido, como acontece em todas as cidades, onde milhares de lâmpadas formam um círculo luminoso.

- Uma iluminação perfeita! - observou Chukov, pondo os binóculos de lado. - Presumo que ali brilham os mais variados reclamos luminosos.

- Um pedaço da América - retorquiu Deviatov sem deixar de observar a campanula de luz. - Para si não deve constituir novidade. Para mim, um russo, é algo de fantástico. É uma coisa que apenas se vê de vez em quando nos filmes americanos informativos da decadência e da influência das massas através do sistema capitalista.

- Tem sempre esse tipo de conversa de merda. Avdev Konstantinovitch?

- É também a maneira como devia falar, Vassia. Agora é um russo. Ainda o é. Só do outro lado pode ser novamente americano. É mesmo de loucura, não? Chega como um falso russo à Rússia para ser um verdadeiro americano na Rússia. Um mundo completamente absurdo. Vamos embora.

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Para onde?



Para a sua granja. Vou seguidamente de carro a Vinniza

para ainda mandar um radiograma a comunicar que chegou

kem informou Deviatov soltando uma sonora gargalhada e

valsando nos calcanhares. O céu estrelado era algo adequado aos poetas, uma coisa muito simplesmente apropriada para tocar uma alma simples com a sua beleza. - Devia ver como as coisas se passam, Vassia. Na presença de um mínimo de dez testemunhas. Sempre que telegrafo, convido os vizinhos para ouvirem um concerto na aparelhagem estereofónica. E para ali ficam sentados, escutam atentamente como alunos de convento, reviram os olhos sempre que o maestro Sviatoslav dirige e eu sento-me junto do aparelho rodando ora um botão, ora outro e telegrafo as minhas informações. O que sabem os camaradas de como funciona uma complicada aparelhagem estereofónica? Pensam que estou a centrar a música para que tudo seja realmente um prazer. Tão simples como isso...

- E a marcação por radiogoniometria?

- Os camaradas apenas ouvem um guincho. As informações são divididas até à impossibilidade de reconhecimento e só os receptores especiais as conseguem juntar electronicamente - explicou Deviatov, levantando-se e sacudindo a erva seca do fato. - Seria um milagre se me descobrissem.

O milagre - sem que Avdev Konstantinovitch o suspeitasse - estava sentado em Vinniza na central telegráfica do III Batalhão de Informações do Exército Vermelho e chamava-se capitão Stanislav lakovlovitch Slobin. Apenas tinha passado a isolar de vez em quando crescentes ruídos no éter depois de se haver certificado não se poder tratar de perturbações atmosféricas causadas por protuberâncias. A origem das perturbações situava-se algures, na cidade velha. Até aí já tinha chegado! No entanto, ainda não havia conseguido descobrir o que se estava a passar.

Cinco dias depois, Deviatov apareceu novamente na granja.

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Vinha a esfregar as mãos. Chukov estava deitado, de mau humor, em cima dos fardos de palha, tendo ao lado um monte de jornais e revistas russos. Após a sua leitura, qualquer russo autêntico ficaria a pensar que a União Soviética se situava no topo de todos os Estados. Medicina, agricultura, arquitectura, física e química, investigação espacial e cibernética, desporto e tempos livres, assistência social e fusão da grande indústria - nada deste mundo se sobrepunha ao lugar ocupado pela Rússia. Chukov também já tinha aprendido o mesmo no Alasca, na cidade-modelo russa de Smolenska, a fim de conseguir expressar-se com o orgulho dos Russos. Caso a poderosa conquista industrial da Sibéria continuasse e a riqueza incomensurável deste país fosse trazida à luz do dia, não restava qualquer dúvida de que dentro de dez anos a Rússia Soviética estaria realmente acima dos restantes povos. Uma visão aterradora para um americano.



- Tem um ar tão alegre como o colegial que conseguiu levar para a cama a sua jovem e bonita professora - observou Chukov desagradavelmente. - E eu para aqui a sacudir os mosquitos e a caçar ratazanas.

- Anteontem soou o alarme na sebe exterior... - comunicou Deviatov fitando Chukov com uma expressão interrogativa.

- Fui eu!

- Logo imaginei.

- Apanhei uma lebre e dirigi-me a um sítio da rede que dava a sensação de não estar há meses sob controlo. Em seguida atirei a lebre para o arame.

- E...


- Funcionou. Saltaram clarões do fio de alta tensão, a pobre lebre, uma vítima ao serviço dos EUA, morreu imediatamente e algures soou o alarme. Não há espaços vagos na rede.

- E mesmo que houvesse, Vassia Grigorevitch... por detrás existe o campo minado.

- Tenho comigo um pequeno detector de minas.

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e nada lhe serve. Decorridos quatrocentos metros está



a segunda barreira. É caso para desistir da ideia - retorquiu Deviatov esfregando novamente as mãos e soltando uma risada que lhe iluminou o rosto. - Contudo, conheço o buraco na rede. Sei como vai poder entrar no local.

Não acredito! - exclamou Chukov, erguendo-se de

um salto.

Mas é verdade! Oficialmente, através das três barreiras

e com uma escolta do Exército Vermelho.

- Você está bêbado, Avdev!

- De alegria, camarada. Não lhe expliquei que, habitualmente, todas as entregas para Novotchok são descarregadas na primeira barreira para outros camiões? Agora, vai fugir-se ao sistema pela primeira vez. Foi adquirida uma ceifeira-debulhadora americana que é entregue amanhã.

- Uma ceifeira-debulhadora?

- Da fábrica Ferguson & Sons. O modelo mais recente. Já que se pretende fazer a colheita na «Pequena América», há que utilizar naturalmente uma máquina americana. E a nossa firma vai fazer a entrega. Na qualidade de «trabalhador-modelo» eleito duas vezes e condecorado duplamente, designaram-me para levar a ceifeira-debulhadora a Novotchok.

- Até à cidade? - quis saber Chukov, entusiasmadíssimo. - Tanta sorte seria de desconfiar, Avdev.

- Até onde vou ainda não sei. A última reunião é hoje a tarde. Mas diga você o que disser, é a primeira vez que, de há anos a esta parte, uma coisa não pode ser transbordada. A ceifeira tem de atravessar as barreiras para se efectuar a entrega.

- E eu vou escondido na ceifeira.

- Foi o que pensei.

- Quer transformar-me em palhiço, Avdev?

- Mas você conhece essas ceifeiras! Uma coisa com a altura de duas casas. Um robot de estalo!

- E se conheço! Até já conduzi uma. Ceifa, debulha, separa o trigo do palhiço, prensa a palha, ata-a e fá-la sair em tardos. Tudo automaticamente. A pessoa senta-se lá em cima,

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numa cabina de vidro, e apenas precisa de manejar umas alavancas. Ah! - exclamou Chukov, fitando intensamente Deviatov. - O contentor do palhiço. Enquanto a máquina trabalha, dá tempo para se fazer uma soneca. O contentor do palhiço, Avdev.



- Foi nisso que pensei! - retorquiu Deviatov, batendo com um punho de encontro ao outro. - Ia apostar que ninguém se vai lembrar de procurar espiões num contentor de palhiço, e sobretudo quando é um «trabalhador-modelo» duas vezes condecorado a conduzir o gigante...

- Quando? - perguntou Chukov num tom calmo.

- Amanhã cedo, às seis - respondeu Deviatov, dando uma palmada no ombro de Chukov. - Venho buscá-lo hoje à noite, Vassia Grigorevitch e meto-o no contentor do palhiço.

Em Frazertown, o motivo por que o presidente da Câmara o mandara chamar novamente era de perfeito desconhecimento de John Barryl. O patrão, Billy Rampler, atendeu o telefone e deu-lhe uma cotovelada nas costelas.

- Tens de ir ao Serviço de Emprego. Bulder quer ver-te. O que se passa?

- Não faço a mínima ideia, patrão - respondeu Barryl, tirando o avental. - Já era um profissional na preparação de hamburgers com queijo e tomate.

- Bulder quer que amanhã tenhas todo o dia livre.

- Para mim é novidade. De manhã, tencionava ir ao ginásio de boxe e à tarde há uma conferência sobre as últimas posições da ONU.

- Deve ser coisa importante -comentou .Billy Rampler. - Não me deixes ficar mal, John.

À saída, John encontrou-se novamente com Norma Taylor. Havia grande afluência ao balcão; era meio-dia e muitos vinham ao Billy’s para comer um hamburger ou uma sanduíche e saborear os deliciosos batidos de leite que Norma preparava. Os operários da construção civil que trabalhavam

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nas margens do rio de Frazertown eram os maiores apreciadores dos batidos de Norma.



As margens de Frazertown, realmente! Há dezassete anos que nelas se erguiam edifícios e a mão-de-obra continuava a ser precisa, pois sempre que tudo estava pronto e vistoriado pela Comissão da Construção Civil apareciam algumas dragas enormes que deitavam tudo abaixo, destruíam a margem e, assim, proporcionavam trabalho para novos colonos. Nada havia para que os habitantes de Frazertown não estivessem preparados.

Como sempre acontecia, James Bulder recebeu John Barryl em mangas de camisa e a mascar pastilha elástica. A jovem da recepção, a loura de cabelo oxigenado e aos caracóis, falou a John com tanta confiança como se já tivessem ido juntos para a cama. Fez sobressair os seios, sentou-se de maneira a que as compridas pernas metidas nos hotpants não lhe pudessem passar despercebidas e cumprimentou: «Olá, bonitão!» John era um homem persistente. Continuava a aproximar-se de Norma Taylor, sem desistir e cheio de nódoas negras que recebia incessantemente na escola de karate. Ainda há poucos dias, ela, ao passar por ele, perguntou-lhe: «Não receia que o seu belo rosto sofra alguma coisa?» E respondeu-lhe bruscamente: «Se tem um fraco por homens feios, deixo que o Frankenstein me opere só por sua causa.»

- Trata-se de uma coisa de que gostava de o encarregar, John - dizia-lhe Bulder nesse momento. - Vejo pelo seu processo que, em Kasakstan, também trabalhou numa brigada de colheitas e conduziu uma ceifeira-debulhadora. Ainda seria capaz de o fazer?

Em qualquer altura sir - respondeu John Barryl admirado. - Tenho de ir a Kasakstan?

Que disparate! Kasakstan fica tão longe como daqui à Lua. Estamos aqui, em Frazertown, e amanhã recebemos uma ceifeira-debulhadora, a fim de proceder à colheita, segundo autênticos processos americanos, de duzentos hectares de trigo. Modelo Ferguson & Sons. Preparado, John?

te

- Não vejo dificuldades, sir.



- Amanhã, logo às seis horas, a coisa encontra-se diante do portão. Será trazida por um camarada mais que comprovado, membro do Partido, condecorado duas vezes e que o familiarizará com os pormenores técnicos. E, depois, a colheita será na segunda-feira. Suponho que fica contente, John. Certamente já anda a ter sonhos sexuais com hamburgers.

Meia hora mais tarde, John Barryl estava novamente de regresso à praça diante do rio, comprou um gelado nas máquinas automáticas e instalou-se num dos bancos pintados de branco. Não usufruiu muito tempo da solidão. A secretária de Bulder ficou com a tarde por sua conta e veio sentar-se ao seu lado. Tinha a blusa desabotoada até ao cinto dos hotpants e o que a abertura da blusa deixava a descoberto era redondo, bem modelado e sem qualquer suporte. Também se deliciava com um gelado, mas, ao comê-lo, chupando de lábios húmidos e olhos semicerrados, dedicava-se a uma nítida e excitante demonstração de felatio.

- Moro numas agradáveis águas-furtadas - informou, voltando a rodear a bola gelada com os lábios. - E, em seguida, fez um movimento com a perna direita, que abriu ainda mais a blusa e permitiu que John lhe visse o bonito seio direito em toda a sua pujança. - Faço colecção de animais embalsamados. Ternos, pequeninos animais embalsamados. Decerto o interessariam, John...

- Sem dúvida.

Recostou-se para trás, olhou para a blusa e pensou em Norma Taylor. «Quando a Norma se despe, deve fazer com que um homem perca a razão», pensou. «É possível que um homem que ela possua uma vez se desinteresse por todas as outras. Como ela não pode haver segunda. Pertencer-lhe é como que um fenómeno elementar da natureza. Tem essa noção e receia-se a si própria. A sua inimizade pelo homem não passa de uma fuga ao seu temperamento explosivo. Amar Norma Taylor é o mesmo que roubar uma estrela e queimar-se nela.»

- Hoje, à noite? - perguntou a lourinha oxigenada.

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St. Stephans Street, doze.



John Barryl recompôs-se. Verificara-se a destruição dos belos devaneios sobre Norma Taylor.

Esta semana não pode ser - respondeu, levantando-se

do banco. Desse ângulo, os seios sobressaíam ainda mais. Eram dotados de grandes mamilos de um castanho-dourado, semelhantes a pequenas nozes. - Tenho trabalho demasiado.

- À noite também?

- Cairia de cansaço. Não é a altura própria, miúda.

- Chamo-me Britt. Britt Lawson - prosseguiu, voltando a lamber o gelado com uma língua pontiaguda e metendo praticamente todo o cone na boca. - Mais tarde, talvez?

- Sim mais tarde -retorquiu John Barryl levando a mão ao boné de pala verde e apressando-se para apanhar o autocarro que o levaria ao ginásio de boxe.

«Uma ceifeira-debulhadora», pensou. «Para ceifar duzentos hectares de trigo.» Tratava-se, realmente, de uma mudança desejável após a preparação e venda de hamburgers.

Além disso, serviria para demonstrar se Norma Taylor lhe sentiria a falta, caso deixasse de trabalhar no restaurante. Por isso se sentia mais entusiasmado.

Durante a noite, Deviate v e Chukov introduziram-se secretamente no pátio da fábrica onde estava a ceifeira-debulhadora de Ferguson & Sons, assemelhando-se a um monstro gigantesco e bizarro. Não a vigiavam... não há hipótese de roubar uma coisa daquele tamanho. Deviatov subiu para a cabina do condutor e Chukov içou-se pela parte de trás para verificar a caixa do palhiço. Tinha o tamanho de uma pequena roulotte, lisa por dentro e coberta com uma chapa de zinco. A zarabatana que ia desembocar no cimo, à esquerda, e serviria para introduzir o palhiço tinha o diâmetro dos braços de dois homens robustos.

Deviatov debruçou-se da janela da cabina do condutor na direcção de Chukov, que estava em baixo. Vassia Grigore vitch

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vestia agora a sua roupa americana, como se fosse trabalhar num posto de gasolina. Em Fort Thompson tinha sido esse o grupo profissional escolhido. Empregados das bombas e mecânicos de automóveis são duas das profissões mais populares na América. Era de supor, sem sombra de dúvida, que na cidade junto ao Bug se cultivasse precisamente esta imagem. Além disso, um homem com fato-macaco encontra-se, por estranho que pareça, fora de suspeitas. É o uniforme do bom mineiro. Encarado deste ponto de vista, o melhor disfarce dentro das possibilidades.



- Tudo em ordem? - perguntou Deviatov.

- Uma maravilha! - respondeu Chukov deitando-se no chão do contentor de palhiço. - Se conseguir sair daqui antes que me debulhem...

Uma vez que ninguém estava ao corrente de quanto tempo iria durar a viagem, Chukov levava consigo dois termos de plástico com água, uma toalha grande e uma pequena botija de oxigénio com um bocal. O tempo comprovaria o acerto de tal precaução.

Em seguida, Deviatov fechou a tampa do recipiente de palhiço, colocou o fecho e bateu uma vez mais com os nós dos dedos na parede.

- Muitas felicidades, Vassia Grigorevitch - desejou. Está a ouvir-me?

- Como se a sua voz me chegasse das nuvens - respondeu a voz de Chukov que parecia vir do fundo de um poço.

- Não se esqueceu de nada?

- De nada.

Chukov apalpou o segundo botão do seu fato-macaco. A cápsula de gelatina com o veneno estava na cavidade.

Pontualmente, às seis e meia, começaram a ouvir-se rumores à volta da ceifeira-debulhadora. Chukov escutou uma imensidade de vozes, seguidamente soou qualquer coisa parecida com o bater de ferro, alguém trepou para o gigante e deu uma pancada leve na caixa do palhiço. Deviatov. O sinal. Entrou na cabina do condutor. Começou a viagem para a terra proibida.

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Chukov sentou-se no chão do seu esconderijo, pôs ao alcance da mão a toalha, a botija de oxigénio e os recipientes de plástico com água e apanhou um grande susto quando o pesado motor começou a funcionar ocasionando um forte trepidar em toda a máquina. Depois, o colosso pôs-se em movimento, saiu do pátio da fábrica e iniciou a sua marcha rumo a Novochok. Dois carros da Polícia Militar munidos com uma luz azul seguiam à frente para abrir caminho e dois automóveis com funcionários da brigada do Departamento da Agricultura de Vinniza seguiam atrás do monstro ameaçador.



Pouco depois das seis da manhã, a coluna chegou à rede electrificada de arame farpado e ao famoso Portão VI, através do qual Pleniakov tinha ingressado num mundo novo. Os carros da Polícia Militar deram meia volta e seguiram imediatamente de volta a Vinniza e os funcionários desceram e cumprimentaram três oficiais do Exército Vermelho. O portão estava escancarado... Deviatov avaliou distâncias e concluiu que seria uma passagem que deixava milímetros de espaço.

- Camaradas! - gritou da cabina e debruçou-se até ficar meio fora da janela. - Todos sabem que sou um patriota. Contudo, recuso-me a ser idiota, embora as sílabas finais sejam as mesmas. O portão é estreito de mais. Serei queimado vivo se bater de lado e tocar no fio de alta tensão? Ninguém me pode exigir uma coisa dessas, caros camaradas.

- Será desligada a corrente durante os segundos de que precisa para atravessar - gritou um dos oficiais, levantando a cabeça na direcção de Deviatov. - Não se esteja para aí a queixar como uma freira grávida. Pensou-se em tudo.

- Já me sinto mais calmo - retorquiu Deviatov, voltando a instalar-se atrás das suas alavancas. - Esperava que Chukov tivesse entendido a atitude. Agora não podia estar mais excitado relativamente ao que se seguiria. Será que o deixariam conduzir na região da barreira? Nada dava a entender que um dos oficiais fosse dirigir a enorme ceifeira-debulhadora.

Os funcionários do Departamento de Agricultura entregaram aos oficiais as listas de transporte, os documentos da

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ceifeira-debulhadora, esperaram que lhes fosse passado o recibo, deram mais uma volta ao monstro, com uma expressão orgulhosa, e, em seguida, despediram-se com beijos na face e desapareceram com os seus automóveis por detrás das colinas. Para trás ficou apenas Deviatov na sua cabina de vidro. Sentia o coração quase a sair-lhe pela boca. «Vou entrar», pensou cheio de alegria. «Santa Mãe de Kasan, vou entrar, serei o único habitante de Vinniza que terá visto a cidade misteriosa!»



Um dos oficiais fez-lhe um gesto, a que Deviatov correspondeu erguendo a mão.

- Posso seguir?

- Agora, prove que é um verdadeiro especialista - rosnou-lhe o oficial. - A corrente está desligada. Seja como for, não precisa de dar cabo do portão. Conduza devagar, camarada. E, agora... partida!

Deviatov estava realmente à altura das duas medalhas recebidas. Dirigiu o monstro tão perfeitamente entre os postes de ferro que não tocou em qualquer deles, embora de cada um dos lados restasse um espaço livre de uns meros centímetros. Os oficiais corriam entusiasmados na sua frente, acenavam, davam instruções com as mãos, começaram a suar de excitação e, caso Deviatov se tivesse deixado guiar pelos seus sinais, decerto teria destruído o portão. Por conseguinte, não se preocupou, avançou ruidosamente centímetro a centímetro e não retirou aos oficiais a agradável sensação de que lhe tinham dado indicações precisas.

Assim que Deviatov ultrapassou o portão, fecharam-no logo de seguida e, da central, que vigiava tudo por meio de câmaras televisivas, voltaram a ligar a rede à corrente. Um dos oficiais trepou para a ceifeira-debulhadora e meteu a cabeça na cabina do condutor.

- Irá conduzir até à próxima barreira - gritou-lhe, erguendo a voz acima do ruído do motor. - Em seguida, desce. Levá-lo-ão de volta.

- E o que vão fazer com esta coisa, camarada? - inquiriu Deviatov no mesmo tom. - Fica parada?

A sua missão foi entregar a máquina - respondeu o

oficial limpando o rosto suado e coberto de poeira. - Nada

mais.


Sentou-se em cima da tampa da caixa do palhiço, tirou o boné e começou a abanar-se. Deviatov prosseguiu viagem, com um sorriso de lado a lado. Se Vassia Grigorevitch soubesse que em cima da sua cabeça estava o cu de um oficial! No entanto, certamente nada vai acontecer. Quem irá dizer: «Levante as bochechas, camarada capitão, pois suspeitamos que por baixo de si viaja um passageiro clandestino! Ninguém se lembraria de uma coisa tão inconcebível.

Diante da segunda barreira estava à espera um indivíduo alto e magro, vestido com jeans, a camisa aberta, um boné com uma enorme pala de plástico verde e que fumava um cigarro. Os oficiais da segunda vigia rodeavam-no, o portão estava escancarado e a corrente dava a sensação de já se encontrar desligada. Aqui terminava a viagem. Deviatov avistou, pela primeira vez, um habitante da cidade misteriosa... um americano típico, que era na verdade um oficial russo. Que língua falaria? Inglês ou russo?

- John Barryl assistiu à aproximação do monstro trovejante com um visível interesse. Parecia diferente das ceifeiras-debulhadoras soviéticas, mais complicado, e de forma alguma idealizado com a genial simplicidade que desde sempre caracterizava as máquinas soviéticas e reduzia as eventualidades. Quanto mais complicada era uma máquina, mais dificuldades tinha.

Deviatov travou a alguns metros do grupo, desligou o motor e contemplou o lado de fora da cabina. O oficial que o acompanhava desceu de cima da caixa do palhiço e bateu com o punho no revestimento do motor.

- É um material fantástico, camaradas! - gritou para os outros oficiais. - Tão fácil de conduzir como uma bicicleta.

- Quando se sabe conduzir! - retorquiu Deviatov da sua cabina. - Tal como uma mulher robusta, camaradas. Tem de se saber onde a agarrar, para a derrubar.

Todos riram, e quem ri não vigia. O americano aproximou-se,

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trepou para a máquina e abriu a porta da cabina do condutor. Deviatov olhou-o com uma expressão amigável mas desconfiada. «Visto de perto, parece diferente», pensou. «Um rapaz perigoso, de tão bonito. Dos olhos desprende-se energia e os músculos debaixo da camisa revelam treino. Se forem todos assim nesta cidade proibida, Chukov está na medida, pois o seu corpo musculoso não parecerá deslocado. Ainda por cima os seus olhos, onde paira toda a melancolia da vastidão da Sibéria... não deverá acontecer nada!» O único perigo residia no pequeno transistor de ondas curtas que Chukov levava no bolso das calças.



- Percebe da coisa, camarada? - perguntou Deviatov com uma expressão desprendida. - Dê uma vista de olhos e explico-lhe como funciona cada alavanca.

- Obrigado, camarada.

«Fala russo», pensou Deviatov. «Claro! Ninguém deve saber que por detrás da colina se ergue uma cidade americana.» Desceu da cabina, encostou-se casualmente ao contentor do palhiço e cedeu o lugar a John Barryl.

Decorridos dez minutos e uma prova experimental, já John Barryl tinha compreendido o funcionamento. Fez um sinal de cabeça aos oficiais, Deviatov desceu para o solo e nem sequer teve tempo de se despedir. Um dos oficiais empurrou-o para um jeep, pisou o acelerador e devolveu-o a toda a pressa à primeira barreira. A missão de Deviatov estava cumprida. Agora a situação dependia exclusivamente do que Chukov conseguisse por mérito próprio.

John Barryl dirigiu a máquina com segurança através da segunda barreira e continuou ao longo da estrada. Vencidos duzentos metros, numa descida, sentiu-se dominado pela curiosidade. Deu a curva, avançou até à beira de um campo de trigo e pôs o mecanismo em funcionamento. As pás rotativas baixaram e a primeira enchente de talos foi lançada para dentro da máquina.

Chukov, refugiado no seu esconderijo, verificou surpreendido como da espessa zarabatana lhe chegava uma violenta corrente de ar que quase o atirou de encontro à parede.

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Em seguida, levantou-se o pó das primeiras nuvens de palhiço que lhe tiraram o ar, como se estivesse no meio de uma tempestade de areia. Deixou-se cair no chão, abriu um dos recipientes de água, esvaziou-o na toalha e premiu o tecido molhado de encontro ao rosto. Sobre o seu corpo abateram-se nuvens de poeira, e o palhiço, que circulava à sua volta, surtia o efeito de milhares de agulhas. A ventilação era tão forte que julgou que os pedacinhos de palhiço se lhe iriam enfiar na pele, meter-se-lhe nas veias e misturar-se no seu sangue até fazer puré. Respirava dificilmente; procurou de olhos fechados a garrafa de oxigénio e meteu o bocal entre os dentes.



«Não vou sobreviver a isto», pensou. «Os malditos palhiços vão dar cabo de mim, sufocar-me e empalhar-me como a um urso de brincar.» Encostou o rosto à parede de zinco, respirou o oxigénio puro da garrafa e enterrou a cara na toalha molhada. Nas suas costas matraqueava a torrente dos pedaços de palhiço.

O ventilador parou tão repentinamente como quando tinha começado a funcionar. John Barryl satisfizera a sua curiosidade. Concluiu que a máquina americana era uma boa aquisição, desligou o aparelho e regressou à estrada firme. Deixava atrás de si cinco fardos de palha, firmemente comprimidos e atados com dois fios.

Chukov deitou-se de costas e afastou a toalha do rosto. Continuou a respirar o oxigénio da garrafa, e só muito lentamente se foi habituando à ideia de que ainda estava vivo.

John Barryl passou a terceira barreira sem dificuldades. Neste local era esperado pelo presidente da Câmara, James Bulder, que trepou até chegar ao seu lado, à cabina do condutor.

O que me diz a isto, John? - perguntou. - Se

soubesse o caminho que esta coisa percorreu. Foi comprada na

uecia por intermediários, depois mandámo-la para a Finlândia

e dai para Vinniza. Segundo estou a ver, conduz a máquina

como se tivesse nascido dentro dela.

Gosto do trabalho da terra, sir - retorquiu John ^ryl, ligando novamente o motor. - E agora quem faz os

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