Este é o segundo número da Revista "Presença Ética" que tem como tema: Ética, Política e Emancipação Humana



Baixar 0,94 Mb.
Página7/58
Encontro02.03.2019
Tamanho0,94 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   58
É sanável a fratura?

Milhões de pessoas de todos os quadrantes e de todos os níveis intelectuais, acham que é possível realizar o impossível, mas não o possível. Desejando, no entanto, que esse último se torne realidade. Eis um dos aspectos mais trágicos desse momento de decadência. O que é possível? Construir uma autêntica comunidade humana, um mundo onde os valores universais tenham realidade objetiva sem questionar a lógica do capital. Portanto, humanizar o capital. Ora, sob esta lógica nem mesmo um mundo “mais justo, mais livre e mais igualitário” é possível, dada a dinâmica intrínseca do próprio capital. O que é possível? Erradicar o capital e então construir uma autêntica comunidade humana, na qual os indivíduos possam transformar em prática cotidianaos valores universais, encontrando nisso a realização de uma vida verdadeiramente digna e cheia de sentido.

Como se pode ver, a distinção que fizemos, aqui, foi entre possível e impossível e não entre fácil e difícil ou entre mediato e imediato. O que não pode ser realizado tem a aparência de factível, ao passo que o que não pode ser realizado (embora seja apenas uma possibilidade), aparece como não efetivável. Parece mais fácil realizar o que é impossível e mais difícil realizar o que é possível. Como se explica isso? Em primeiro lugar, porque há uma inversão de sentido entre o primeiro e o segundo. O que é intrinsecamente impossível – a humanização do capital – é visto, dado o desconhecimento de sua lógica mais profunda e o peso esmagador de sua realidade imediata, como realizável, ainda que de modo lento e gradual. O que é possível – a erradicação do capital – é tido, dado o desconhecimento da lógica mais profunda e imanente do processo histórico e a enorme dificuldade de visualizar as mediações necessárias, - como de fato irrealizável. Em segundo lugar, por que no primeiro caso, a ação imediata e tópica pode mostrar um sucesso visível. Como, porém, a conexão dessa ação com o objetivo maior pode ser apenas suposta, mas não demonstrada porque, de fato, não existe, sua possibilidade passa, imperceptível e sorrateiramente, para o âmbito da fé e não da racionalidade. Non intelligo, sed credo (não entendo, mas acredito). Ou seja, não posso demonstrar a relação que existe entre o que estou fazendo e a humanização do capital, mas mesmo assim acredito!

No segundo caso, uma ação imediata e tópica, que pretenda estar voltada para a alteração radical da atual ordem social, não apresenta, nesse momento histórico, nenhum sucesso visível. E sabe-se como é importante sentir que se está realizando algo de positivo. A conexão pode existir, mas é praticamente impossível de ser percebida. Só um conhecimento profundo da realidade social, orientado por uma perspectiva teórica revolucionária, que permita apreender o seu movimento integral e não paenas superficial ou parcial, pode, de algum modo, possibilitar a captura dessa conexão. E mesmo assim, sem nenhuma garantia sólida, até por que se trata de uma questão eminentemente prática, ou seja, que diz respeito ao movimento da realidade social como totalidade. Daí porque, aqui, a questão se coloca assim: non intelligo et non credo (não entendo e não acredito). Vale dizer, não compreendo que se possa fundamentar a possibilidade de erradicação do capital e por isso não creio nisso.

Baseados numa compreensão ontológica do ser social e numa análise da sociedade capitalista, cremos que é possível afirmar, com tranqüilidade, que a dissociação entre a realidade objetiva e o mundo dos valores é superável. Mas, somente na medida em que houver uma radical transformação da atual ordem social. Ou seja, na medida em que, eliminado o capital, com todas as suas decorrências, for instaurada uma outra forma de sociabilidade fundada no trabalho livre. Somente a superação da propriedade privada e a instauração de uma forma de sociabilidade cujo fundamento seja o trabalho associado possibilitará ao discurso ético deixar de ser apenas um discurso abstrato para se tornar vida real.

Considerando, pois, a impossibilidade de um mundo verdadeiramente humano sob a regência do capital e a possibilidade desse mundo para além dele, toda discussão sobre valores éticos tem que, necessáriamente, ter como ponto de partida o questionamento radical do capital, da propriedade privada. Toda lógica do capital é o fundamento ontológico dessa forma de sociabilidade, é uma discussão estéril, falseadora e fadada ao fracasso. É compreensível que os gregos, medievais e modernos pré-1848 buscassem como viver justamente numa sociedade injusta (isto é, numa sociedade fundada sobre a propriedade privada). Isto por que eles não tinham como compreender a matriz que se constituía no fundamento da cidade injusta e muito menos a conexão ontológica entre essa matriz (o trabalho sob a forma de propriedade privada) e o universo dos valores éticos. Mas, depois que Marx desvendou estas questões não há mais como deixar de tomá-las como ponto de partida. Qualquer exemplo mostra isso com meridiana clareza. Basta um: como discutir acerca do respeito à vida humana, acerca de uma vida realmente digna e cheia de sentidos em por em questão o ato fundante dessa sociedade, responsável final por tornar esse respeito e essa vida impossíveis?

De modo que antes de qualquer discussão ética é preciso responder a pergunta: é possível e, portanto, constitui-se num valor decisivo para a humanidade, a superação da sociabilidade regida pelo capital? Se a resposta for negativa, então não haverá como superar a fratura entre o mundo da realidade objetiva e o mundo dos valores. Deste modo, a ética jamais poderá deixar de ser abstrata, no sentido de dissociada da vida real. Se, como pensamos, a resposta for afirmativa, então estará aberto o caminho para pensar uma ética que possa vir a tornar-se concreta.

O mais interessante, e isto convém salientar, é que nos dois casos a ética é, hoje, necessariamente abstrata. Ou seja, não pode se tornar vida cotidiana real. Mas, há uma enorme diferença entre a abstração da ética pensada no interior da sociabilidade do capital e daquela pensada em direção a uma futura sociabilidade do trabalho. No primeiro caso, a abstração é o outro lado da moeda da concretude da matriz do capital. Situa-se, portanto, no interior da ordem do capital. Por isso, jamais poderá deixar de ser uma ética alienada e alienante.

No segundo caso, tendo (a reflexão ética) por base o processo torna-se homem do homem e compreendendo os obstáculos postos pelo capital à autêntica realização humana e as possibilidades apontadas pelo trabalho, a abstração é apenas um momento que aponta para além de si mesma, ou seja, para uma forma de sociabilidade onde ela possa se tornar concreta. Por isso mesmo, um caráter revolucionário. Por que, ao fundar os valores na objetividade do processo histórico-social e ao evidenciar a impossibilidade de realizar esses valores universais no interior da ordem social do capital, ela se inscreve no movimento de luta pela superação dessa mesma ordem.






Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   58


©psicod.org 2017
enviar mensagem

    Página principal