Este é o segundo número da Revista "Presença Ética" que tem como tema: Ética, Política e Emancipação Humana


A Ética no Cotidiano do (a) Assistente Social



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A Ética no Cotidiano do (a) Assistente Social

O cenário dos anos 90 no Brasil é caracterizado pela vigência do neoliberalismo: o "ajuste neoliberal" é posto como estratégia de saída da crise do Estado e do capitalismo no país, após o que se convencionou chamar de "década perdida", ou seja, os anos 80. O "ajuste neoliberal" é caracterizado, principalmente por uma economia centrada na abertura comercial e pelo impulso no processo de privatização, desregulamentação e flexibilização das relações trabalhistas, contenção de gastos públicos, entre outros.

Através das transformações advindas com o projeto político da globalização e com a política neoliberal, em especial a contenção de gastos públicos, percebe-se a falsa imagem de "garantir benefícios" para a população. Ao contrário do que se anuncia, há um descomprometimento do Estado com as políticas sociais, sendo esses fatores entendidos como agudizadores das desigualdades sociais.

Diante dessa contextualização, o Serviço Social enquanto profissão mediadora entre o fogo cruzado de interesses tensionados pela luta de classes entre a burguesia e a classe trabalhadora, busca posicionar-se nu ma postura de confronto ao projeto societário hoje hegemônico, na defesa de uma nova ordem sem dominação e exploração das classes, gênero e etnia, na superação do autoritarismo e do preconceito através da defesa dos direitos humanos e do pluralismo.

A prática profissional do Assistente Social pode, numa articulação com um projeto societário mais amplo, ser um elemento de criação de condições para viabilização da participação social, com intuito de garantir a efetivação dos direitos sociais conquistados. Dentro de uma perspectiva contraditória, observa-se que ao mesmo tempo em que a população se defronta com o individualismo, a corrupção, a hipocrisia, o dito "jeitinho brasileiro", a conjuntura abre espaço para a discussão de tendências éticas, de valores que norteiem o profissional para um enfrentamento consciente das manifestações da questão social.

Faz-se necessário elucidar que o fio condutor da transformação social deve estar respaldado por princípios éticos, e que esta reflexão ética pode e deve envolver todos os setores da sociedade e não se constituir apenas como iniciativa dos profissionais de Serviço Social. Atualmente, essa reflexão, ainda embrionária, gira em torno de eixos como a crise social e a do sistema do trabalho. Vale ressaltar que o debate ético proposto, ao contrário do que preconiza a ideologia neoliberal, não se pauta em interesses pessoais, mas na busca de uma sociedade emancipada. Logo, a ética torna-se um instrumento de resistência da realidade posta, na medida em que permite uma "revisão radical da vida humana, pessoal e coletiva" (Oliveira, 1993: 29), uma vez que ela tem a ver com as atitudes assumidas pelos homens diante da realidade.

É no contexto dessa problemática, exposta anteriormente, que realizamos a pesquisa do projeto "Ética em Movimento" e é também sobre ela que pautamos a análise dos dados coletados. Num primeiro momento, interrogamos os (as) Assistentes Sociais sobre a sua compreensão sobre a conjuntura e suas determinações no tocante à dimensão ética. A maior parte desses profissionais analisou a conjuntura atual como um período anti-ético. Acreditam, no entanto, que existem fatos marcantes que demonstram que setores da sociedade procuram se conscientizar dos problemas que enfrentamos. Tal constatação pode ser observada no depoimento da Assistente Social conforme explicita o trecho que segue:

"(...) a situação está tão grave e fora de controle que algumas parcelas da sociedade já começam a levantar a bandeira de um agir ético, defendendo uma sociedade mais justa e com respeito aos direitos individuais e coletivos".

A ordem econômica L1ueimpera no Brasil gera distâncias sociais cada vez mais brutais e o Assistente Social encontra dificuldades para fazer valer os direitos sociais e políticas sociais. É partindo desse pressuposto que identificamos durante a pesquisa, relatos de algumas profissionais afirmando categoricamente: "a realidade influencia cada vez mais uma postura anti-ética dos profissionais".

O projeto societário hegemônico diverge completamente do projeto ético-político profissional. Apesar de todos esses fatos, há um dado marcante: foi muito reduzido o número de Assistentes Sociais que identificou a ética como um mecanismo de mudança. Há ainda relatos que apontam para uma "banalização" da ética no cotidiano profissional e social:






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