Este é o segundo número da Revista "Presença Ética" que tem como tema: Ética, Política e Emancipação Humana


O projeto ético-político e o cotidiano de trabalho do assistente social



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O projeto ético-político e o cotidiano de trabalho do assistente social

Procurar viabilizar o trabalho profissional orientado pelos princípios ético-políticos do projeto profissional é um desafio que se coloca para o assistente social em seu cotidiano, visto que, antes de tudo, deve-se reconhecer que as dificuldades presentes são resultantes de um projeto maior que é o da ordem capitalista. Então, o primeiro passo é reconhecer o projeto ético-político profissional, partindo da análise da realidade contemporânea e das contradições que se apresentam no contexto atual.

O segundo passo é torná-lo visível no cotidiano de trabalho, onde a defesa da universalidade, da liberdade, da democracia, da cidadania torne-se componente essencial da atuação profissional. A perspectiva deve ser de buscar garantir ações articuladas às necessidades concretas da população.

Outra questão é não se amoldar ao mero fazer cotidiano, às práticas rotineiras, repetitivas e imediatas, o que não significa negá-las. Pois é preciso saber conduzir essas ações, mas dentro de um projeto, que leve em consideração as reais necessidades da população e as possibilidades conjunturais. Para isto, o profissional precisa ter uma postura investigativa que lhe permita identificar os problemas, classificar as prioridades, visualizar os caminhos possíveis, estabelecer as alianças e conduzir o processo interventivo.

A consciência ética do profissional se faz na análise e enfrentamento dos conflitos cotidianos, na sua crítica, na compreensão das contradições que se apresentam e em proposição de estratégias.

De acordo com Iamamoto (1997:08), as possibilidades são dadas pela realidade, compete ao assistente social apropriar-se delas, transformando-as em projetos de trabalho, abrindo os horizontes para uma nova perspectiva frente às adversidades conjunturais.

Um quarto ponto que consideramos importante é a participação e envolvimento dos assistentes sociais em fóruns de discussão que envolvam os direitos humanos, políticos e sociais. Certamente isto influirá na sua atuação cotidiana, inclusive considerando-se que uma das atribuições do assistente social consiste em prestar as informações e esclarecimentos sobre direitos dos usuários e, para isso é preciso ter conhecimento, domínio teórico, político, efetivo sobre esses direitos.

O nosso entendimento é de que esse processo de participação e envolvimento dos assistentes sociais nos momentos onde se travam as discussões e movimentos, de constituição de direitos sociais, é fundamental para a compreensão da realidade e consequentemente para definição de suas proposições e estratégias de atuação.

Uma outra questão é ter clareza de que sendo o assistente social formado como um generalista, para trabalhar com as seqüelas da “questão social”51, a inserção dos profissionais em áreas como: saúde, judiciário, educação, assistência social, ong's, empresas, etc., requer um posterior aprofundamento, de acordo com a especificidade institucional em que se vai atuar.

Este aprofundamento deve ser constituído pela busca sistemática de fundamentação do objeto de intervenção através do conhecimento e leis, regulamentações, produções teóricas da área específica e do Serviço Social, como também pela troca de experiências no contato com profissionais na instituição, ou em outras instituições afins, em outras cidades, outros estados, num processo de socialização de conhecimentos, dúvidas e questionamentos.

Os conhecimentos adquiridos no próprio trabalho52 contribuem para a compreensão da realidade institucional e das demandas colocadas à profissão, ao mesmo tempo possibilitam ao profissional realizar proposições. Então, ao se inserir em uma determinada área, o profissional deve procurar especializar-se e conhecer profundamente esse espaço de atuação, pois isto lhe dará as possibilidades e à competência para elaborar propostas de atuação efetivas.

Outra indicação que apontamos é a identificação e reconhecimento das demandas colocadas ao Serviço Social, que podem se referir a um conjunto de situações que envolvem as necessidades pessoais, familiares, dentre outras, que apesar de se apresentarem como questões individuais, se referem a necessidades coletivas, como por exemplo:

• a busca de serviços como: saúde, assistência social, etc.;

• a solução de situações que impedem ou se constituem obstáculos no acesso aos serviços;

• as dificuldades de informações sobre o funcionamento de determinado serviço, ou às condições e capacidade de atendimento que contribuem para a existência de uma demanda reprimida;

• a falta de conhecimentos sobre os direitos e as formas de exercê-lo.

Estas, dentre outras, são demandas que se apresentam para o Serviço Social e que o profissional precisa ter clareza e reconhecer a necessidade de transformá-Ias a partir de ações efetivas.

Para nós, a identificação e reconhecimento dessas situações como demandas, pelo assistente sociais faz parte do esforço pelo reconhecimento dos direitos e da preocupação com a sua discussão e efetivação; ou' ainda a organização de ações que envolvam a melhoria das relações que se estabelecem dentro da instituição e desta com a população, passa pela necessidade de democratizar os espaços e efetivar ações de reconhecimento da cidadania e concretização dos direitos sociais.

Na realidade, a forma de problematização das demandas, ou seja, o processo de construção do objeto de' intervenção é que vai refletir e prescindir de uma direção ético-política. O nosso entendimento.é de que o conjunto de ações voltadas para assegurar o acesso ao direito universal, com' relação à realidade, às necessidades e à cultura dos usuários é que vincula as ações profissionais às orientações do projeto ético-político.

Se no conjunto dessas ações, as atividades profissionais são direcionadas no sentido de conformar ou adaptar a população à uma dada realidade de exclusão social, de fragmentação do acesso aos serviços, de aceitação da seletividade e da situação colocada, estas ações com certeza se distanciam das necessidades dos usuários e consequentemente das orientações do projeto ético-político.

Neste sentido, é fundamental a compreensão da realidade, para que se possa criar as possíveis estratégias de ultrapassagem dessas situações que foram expostas.

É um processo complexo, envolve uma série de questões e situações, que engloba desde o planejamento das ações, à socialização e execução das mesmas. É, neste sentido, que são viabilizadas as atividades dos assistentes sociais. Ou seja, o processo de articulação e execução do trabalho depende do posicionamento profissional em face das necessidades coletivas.

Quando convoca reuniões, cria formas alternativas de trabalho, que envolva a participação da população, expõe objetivos na execução dos trabalhos e envolve as equipes na instituição, ou mesmo quando se realiza atividades educativas, verifica-se no planejamento e na execução de políticas, a necessidade de articulação do trabalho coletivo, e de propostas, cuja iniciativa do Serviço Social seja de articular, socializar, envolver setores na realização de ações que respondam às demandas.

Com certeza tais atividades estão permeadas por inúmeras dificuldades, mas este fato não pode servir de empecilho para a concretização do trabalho, ao contrário, é preciso contorná-las e qualificá-las, em função das necessidades e interesses da população.

E uma última questão que considero importante salientar é sobre o processo de organização coletiva da categoria, que realmente precisa de um fortalecimento, isso envolve o compromisso do assistente social consigo mesmo, com a profissão e com a sociedade. Esta é uma questão que merece ser discutida e aprofundada no âmbito da categoria profissional, que encontra-se, ao nosso ver, bastante desarticulada.





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