Este é o segundo número da Revista "Presença Ética" que tem como tema: Ética, Política e Emancipação Humana



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Liberdade e universalidade se referem à totalidade e à diversidade de capacidades e necessidades: o ser social é mais livre e mais universal na medida em que tem condições concretas de objetivar suas potencialidades de forma multilateral e de criar novas alternativas. (1996:56)

No seu sentido político, a liberdade se refere às capacidades e possibilidades de escolha dos indivíduos em face das opções que se apresentam na realidade social. A liberdade é o fundamento de todos os valores, e o homem faz parte de um universo, onde as possibilidades de escolhas podem se tornar cada vez mais amplas.

A importância dos valores está na condução da realização dessas possibilidades humanas. Neste sentido, os problemas éticos implicam uma tomada de posição, diante das situações que se apresentam na realidade social. São posicionamentos que envolvem, consequentemente, a capacidade de optar mediante situações complexas.

Sendo a essência humana a "realização gradual e contínua das possibilidades imanentes à humanidade", o valor é tudo aquilo que contribui com esse processo de crescimento do gênero humano.

Neste sentido, Barroco (1996:77) define ética, moral e política como meios propiciadores da elevação do indivíduo à dimensão humano genérica:

A ética - enquanto reflexão filosófica dirigida ao humano-genérico -, a moral - enquanto ação prática voltada a objetivação dos valores humano-genéricos - e a política - enquanto práxis de superação dos impedimentos objetivos à realização das forças essenciais do ser social - se inserem dentre as atividades propiciadoras da elevação ao humano genérico, na possibilidade de instauração da particularidade, ou seja, da mediação entre o particular e o humano genérico que corresponde à individualidade.

A moral faz parte das necessidades práticas do cotidiano da vida social, que contribui para o estabelecimento do ethos47 e sua representação como identidade cultural de uma sociedade, ou fração da sociedade: sendo marcada pela contraditoriedade entre interesses econômicos, políticos, culturais e necessidades sociais.

A ética é constituída na práxis humana concreta e relaciona-se a cada momento histórico de desenvolvimento das condições socioeconômicas e culturais da sociedade. A sua discussão situa-se nesse contexto político de decisão e de possibilidade de escolha. As normas e os valores, criados pelo homem, adquirem objetividade a partir dessa tomada de posição, porém, situados em uma sociedade de classes, são movidos por necessidades e interesses contraditórios.

Concordamos com a afirmação de Barroco de que a contraditoriedade entre interesses e necessidades dificulta, de certa forma, a concretização de uma concepção de bem que represente os interesses coletivos, pois adquirem significados diferentes nas diversas classes, visto que são direcionados por interesses divergentes.



As determinações que incidem sobre a eleição de determinados valores morais podem ser entendidos na totalidade social. Isto é, levando em conta a complexa rede de mediações existentes na interação recíproca entre as necessidades e interesses econômico-políticos e culturais e as possibilidades de escolha e determinação dos indivíduos sociais. São os homens que criam as normas e os valores, mas nas sociedades de classes, as relações sociais por eles estabelecidas são movidas por necessidades e interesses contraditórios, donde a impossibilidade de existirem valores absolutos ou uma concepção de bem que corresponda ao interesse e necessidade de todos. Por isso, a moral é também marcada por essa contraditoriedade; seus valores e princípios têm historicamente diferentes significados e atendem, indiretamente, a interesses ideológicos e políticos de classes e grupos sociais. (Barroco, 1999: 123)

Na sociedade de classes os valores estão permeados, portanto, por necessidades e interesses contraditórios, donde muitas vezes os interesses da coletividade são preteridos por interesses de indivíduos particulares.

A ausência de compreensão dessa realidade pode conduzir a um processo de alienação48, onde a falta de clareza desta questão leva a uma descaracterização da ação pelo próprio indivíduo, que não se reconhece como sujeito de sua prática.

Por conseguinte, o entendimento da dimensão ético-política da ação dos sujeitos, está na compreensão das contradições da realidade social e da capacidade dos homens agirem de forma ativa e consciente, no processo de transformação dessa realidade e de construção da história.

Se o indivíduo alcança a consciência da universalidade, se reconhecendo como ser humano genérico, assume uma atitude de reconhecimento face às questões que se referem à coletividade, podendo, portanto, comprometer-se com projetos coletivos. Esse compromisso se concretiza pela tomada de posição, pela escolha em face de determinada situação social concreta. Essa tomada de posição, consciente, caracteriza a relação da ética com a política.

A adesão consciente à norma supõe a autonomia diante das escolhas morais; o sujeito ético é capaz de deliberar diante do possível historicamente, de forma responsável e livre. Mas a consciência, o conhecimento crítico não são suficientes para garantir a ampliação dessa autonomia; sua realização objetiva supõe a unidade entre a ética e a política, pois esta se faz no campo dos conflitos, da oposição entre projetos sociais, caracterizando-se, pois, pela organização coletiva na luta entre idéias e projetos que contém valores e uma direção ética. (Barroco: 1999: 127)

Por essa práxis social, os indivíduos se elevam à sua universalidade, mas sem perder sua singularidade. Mas, nesse processo enfrentam contradições que podem dificultar essa apreensão consciente da realidade social. Tais contradições tornam-se mais visíveis quando verificamos o conflito entre interesses particulares de indivíduos e interesses coletivos, da sociedade.

No entendimento de Barroco,

A atividade política supõe a projeção ideal do que se pretende transformar, em qual direção, com quais estratégias; por isso, implica em projetos vinculados a idéias e valores de uma classe, de um estrato social ou de um grupo. A ideologia, tomada enquanto uma forma de enfrentamento dos conflitos sociais, é




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