Este é o segundo número da Revista "Presença Ética" que tem como tema: Ética, Política e Emancipação Humana


Ética: componente fundamental da sociabilidade humana



Baixar 0,94 Mb.
Página39/58
Encontro02.03.2019
Tamanho0,94 Mb.
1   ...   35   36   37   38   39   40   41   42   ...   58
Ética: componente fundamental da sociabilidade humana

Os homens e as mulheres fazem a história, que é na realidade, a manifestação de suas vidas em sociedade, das suas relações e do desenvolvimento humano e social. A constituição histórica da humanidade é um trajeto permeado por situações que muitas vezes dificultam ou mesmo impedem que a construção dessas relações e dessa história, seja tal como é definido ou planejado.

Heller (1985: ai), baseando-se nas teses da imanência e da objetividade em Marx, concorda com a afirmação de que desejamos determinados fins, mas existem circunstâncias que produzem resultados diferentes. Ou seja, existem "relações e situações humanas que são mediatizadas por coisas" e que formam um complexo de várias posições teleológicas, onde a circunstância torna-se uma resultante objetiva.

Assim a autora afirma que "causalidade e finalidade", em Marx, são fatos ontológicos e sociais que se relacionam. No entanto, isso é logicamente correto quando se refere a história da sociedade, pois na natureza, a causalidade existe sem a teleologia.



Causalidade e finalidade, portanto, são em Marx fatos ontológicos-sociais que necessariamente se relacionam. A tese de sua necessária inter-relação, decerto, só é verdadeira para a sociedade, pois na natureza existe uma causalidade sem nenhuma teleologia. Disso decorre que também o par conceitual aparência-essência expressa uma realidade ontológico social. O conceito de essência não tem sentido sem a finalidade, pois não há essencialidade - nem, consequentemente, aparência - a não ser do ponto de vista de uma colocação determinada de fins. (idem: 02)

Na opinião da autora, a essência humana é a realização, gradual e contínua, das suas possibilidades ontológicas. Portanto, considera que o valor é uma categoria que possui uma objetividade social, visto que é expressão das relações sociais.

Neste sentido, Heller (idem:05) define valor como "tudo aquilo que explica o ser" e fundamenta essa afirmação na concepção marxiana, de onde extrai como componentes da essência humana: o trabalho, a sociabilidade, a universalidade, a consciência e a liberdade.

Esses cinco componentes são fundamentais para o desenvolvimento da sociedade e da constituição do próprio processo histórico. Neste sentido, relacionamos a nossa compreensão, acerca de cada um deles.

1. O trabalho é um dos elementos fundamentais na constituição das relações entre os homens, como também na concretização de diversas necessidades humanas e sociais. É por meio do trabalho que se dá o processo de constituição das relações sociais.

2. A sociabilidade tem como mediação primordial o trabalho. É por esta mediação que se reconhece a capacidade humana e a constituição dos sujeitos sociais. É, por este mesmo percurso, que se estabelecem os valores como: o exercício da liberdade, a manifestação de vontades e pensamentos, a constituição e a defesa dos direitos humanos e sociais, entre outros.

É no processo de sociabilidade que as pessoas se reconhecem como sujeitos de realização do trabalho, de construção de sua identidade, da necessidade de convivência, de comunicação, de participação política, sujeitos de construção desse mundo e de sua história.

Assim, se estabelecem as relações políticas, econômicas, sociais, que se manifestam no cotidiano a partir das relações de trabalho, familiares, de amizade, de afinidade, amorosas, de inserção em partidos políticos, sindicatos, movimentos sociais, dentre outros.

O processo de sociabilidade humana, portanto, se manifesta na criação dos espaços de organização coletiva, que se expressam a partir do desenvolvimento das relações econômicas, políticas, sociais e culturais, onde a ética surge como um componente fundamental.

3. A universalidade não pode ser entendida como um ideal, distante, a ser alcançado, mas como parte do exercício de conquista real do processo de emancipação.

4. A consciência como ato de reconhecimento de si mesmo enquanto ser singular, mas nunca como forma de negação do outro, da coletividade. Mas entendida, principalmente como responsabilidade no processo decisório.

5. A liberdade, como fundamento da própria existência, como possibilidade de concretização do processo de decisão, de querer, de poder optar e escolher caminhos que realmente sejam possíveis para todos.

É na construção da própria história, pelo processo de mediação e de intervenção na realidade social, que se recriam as relações e valores éticos, ao mesmo tempo, em que também são criadas e recriadas as necessidades sociais.

A ética é responsável pela compreensão da sociabilidade a partir do processo de investigação dos princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento e decisões humanas, o que conduz a uma reflexão sobre a essência dos valores da sociedade.

Como coloca Heller (1985: 01), "a história é a substância da sociedade" onde a sua essência está na vida cotidiana, âmbito em que o Ser se faz presente em sua particularidade e em sua genericidade. Por isso "a vida cotidiana é a vida do homem inteiro". É no interior da vida cotidiana que surgem os valores, entre os quais os valores morais.

Compreendendo a moral como uma relação que está no interior das atividades humanas, Heller (idem: 06) coloca que tal relação é a conexão da particularidade com a universalidade genericamente humana e, neste sentido, a moral é:

O sistema das exigências e costumes que permitem ao homem converter mais ou menos intensamente em necessidade interior – em necessidade moral - a elevação acima das necessidades imediatas (necessidades de sua particularidade individual), (...) 'de modo que a particularidade se identifique com as exigências, aspirações e ações sociais que existem para além dás causalidades da própria pessoa, elevando-se até a essa altura.

Desta forma, a elevação acima da particularidade é um ato consciente do ser humano. E, de acordo com Heller, as necessidades tornam-se conscientes, inicialmente, no indivíduo particular, mas o genérico também está contido nesse indivíduo, mesmo dentro de motivos e necessidades particulares. Portanto, é através da integração, da formação coletiva que o indivíduo toma consciência de sua condição de ser genérico, pois como tal é produto das relações sociais. (1985:20)

A moral é, então, uma relação entre um comportamento particular e uma decisão particular de um lado e as exigências genérico-sociais de outro.

Na interpretação de Barroco (1996: 74): "A compreensão dos fundamentos ético-morais da vida social supõe o entendimento da relação entre os níveis de existência do ser social: universal, particular e singular." E, mesmo o indivíduo sendo singular e genérico, não é apenas por sua singularidade que se coloca como representante do gênero humano, pois a dimensão da vida social que é orientada predominantemente pela singularidade na vida cotidiana, se expressa na autoconservação.

No entanto, a autora acrescenta que é neste espaço que "o indivíduo se socializa e aprende a responder as necessidades práticas imediatas, assimila hábitos, costumes e normas de comportamento". Incorporando tais mediações, vincula-se à sociedade 'reproduzindo a dimensão humano-genérica.




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   35   36   37   38   39   40   41   42   ...   58


©psicod.org 2019
enviar mensagem

    Página principal