Este é o segundo número da Revista "Presença Ética" que tem como tema: Ética, Política e Emancipação Humana


O pioneirismo de Aristóteles no entendimento da política



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O pioneirismo de Aristóteles no entendimento da política
A liberdade para os antigos era um conceito essencialmente político, pois só na polis alguém poderia ser livre e a liberdade era a definição mesma da cidadania, quese realizava na esfera pública.

Há, portanto, um finalismo do Bem que unifica virtudes éticas e políticas, enquanto atualização de uma potencialidade da natureza humana, cuja razão comanda e orienta as paixões e as vontades.

A atividade política, enquanto experiência que se refletia na vida pessoal, convergia com o coletivo social da multiplicidade da polis, fazendo da política grega uma ética. Sendo éti:a, a atividade política tinha uma função pedagógica, de transformação dos homens em cidadãos: a paidéia. Por sua vez, a atividade do soberano, do chefe - a soberania - tornou-se atividade de uma função definida pelos cidadãos, os "políticos".

Aristóteles foi o primeiro pensador a sistematizar uma obra sobre ética, intitulada - "Ética a Nicômaco" - na qual explicita os fundamentos de sua concepção ética. Neste percurso filosófico, para subsidiar as reflexões acerca da relação entre ética e política, elabora - "A Política" - na qual tece, dentre outras questões, a noção de polis e de cidadão.

Um aspecto fundante para o entendimento da dimensão ética no pensamento aristotélico é que esta se baseia em uma concepção de ciência prática. Em tal perspectiva, "o interesse teórico da ética não se elimina, pois do contrário ela não seria ciência, mas é relativizado em benefício de um interesse prático, no sentido não-instrumental, mas ético da palavra" (Oliveira, 1993: 59).

O interesse prático da ética aristotélica está presente na sua pesquisa, cujo objetivo era não só conhecer o mundo da polis (compreendida por ele como uma "pluralidade de cidadãos"), mas contribuir para possibilitar a ação política, dos cidadãos livres. Neste sentido, Aristóteles nas suas obras - "Ética a Nicômaco" - e - "A Política" - reafirma que o fim da ciência prática "não é o conhecimento, mas a ação" (Mustafá, 1999).

Para Mustafá (1999: O 1L "esta concepção de ética leva Aristóteles a enfrentar a questão da relação entre ética e política. De fato, se a ética se ocupa do agir humano e se coloca como problema fundamental à identificação de que coisa seja o bem para o homem, e se a política se interessa do homem enquanto ser capaz de agir, consciente e livremente, em vista de um fim, não é concebível tomar em consideração a ética isoladamente da política e vice-verse".

A visão aristotélica sobre a relação entre ética e política é influenciada, no trajeto histórico, pela vida política na polis grega. A democracia ateniense, exemplo típico de democracia direta, embora restrita aos ditos "cidadãos livres" (o que excluía mulheres, escravos e crianças) propiciava um ambiente fecundo para a elaboração de uma concepção da relação entre ética e política caracterizada pela unidade.

É nesse contexto histórico que, Aristóteles elabora a sua noção de política. Para ele, as ações, as artes e as ciências têm um fim, A política é a
arte mais prestigiosa e que, mais verdadeiramente, se pode chamar a arte mestra ( ... ) utiliza as demais ciências e, por outro lado, legisla sobre o que devemos e o que não devemos fazer, a finalidade dessa ciência deve abranger as outras, de modo que essa finalidade será o bem humano. Com efeito, ainda que tal fim seja o mesmo tanto para o indivíduo como para o Estado, o deste último parece ser algo maior e mais completo, quer a atingir, quer a preservar (Aristóteles,1991,' 9-10).
Aristóteles propõe que o bem supremo, que para ele é a felicidade, deva ser um fim almejado pela ciência política e que este fim tem que se dar, sobretudo, no âmbito do Estado - da polis - e não apenas da vida do indivíduo.

Na conformação da ordem política, Aristóteles (1998) define como objetivo do Estado criar as condições de possibilidade para uma vida feliz. Essa felicidade, no âmbito da comunidade estatal, seria garantida através da Constituição, pela qual, necessariamente, estaria relacionada à virtude do cidadão. Neste sentido, Aristóteles realiza uma pesquisa sobre várias constituições para descobrir qual a melhor para os cidadãos. Segundo Mustafá (1999: 03), "a consideração sobre o fim do Estado repõe a temática desenvolvida na 'Ética a Nicômaco ' sobre a felicidade como fim da política e assegura a impossibilidade de romper a relação entre ética e política no seu pensamento". Aristóteles, como vimos anteriormente, preocupava-se com - o fim - da ação humana, ou seja, a racionalidade do fim é o que caracteriza o seu pensamento. E nessa perspectiva, suas idéias orientam-se para a ética teleológica, ética da primeira pessoa, nos termos de Mustafá (1999), em detrimento da ética deontológica.

A concepção de filosofia prática de Aristotéles influenciou toda a tradição ocidental, sendo mediada pela escolástica, a qual foi moderna mente retomada por Hegel e, contemporaneamente, tem inspirado diferentes autores(as), a exemplo de Hannah Arendt.




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