Este é o segundo número da Revista "Presença Ética" que tem como tema: Ética, Política e Emancipação Humana


A Transvalorização de todos os valores



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A Transvalorização de todos os valores

Se, como vimos, o modo dominante ocidental de valoração, através do moralismo, da moral do egoísmo e de suas variações é tão perverso e pernicioso, tão imoral, nada mais resta a quem tem consciência da sua perniciosidade senão combatê-lo. Este combate nos remete necessariamente a Nietzsche e ao início de nosso artigo. Nietzsche nos fala de uma nova exigência, que é a necessidade de criticar os valores morais, colocando em questão o próprio valor destes valores.

Fazer uma crítica dos valores, colocar em questão o valor dos valores, implica em primeiro lugar em tomar uma atitude de profunda pesquisa e reflexão sobre a sociedade ocidental e sobre o comportamento dos indivíduos. Quais são os princípios de nossas ações? Como julgamos? Será que o que costumeiramente tomamos como certo é efetivamente certo? Uma análise inicial nos remete a tomada de consciência de que a Moral ocidental é profundamente perversa e deturpada. Se aceita a miséria e condena-se o prazer. Quando não se condena o prazer deriva-se para o extremo oposto e em nome dele pratica-se todo o tipo de ações, inclusive aquelas que prejudicam e desrespeitam o outro. Desrespeita-se a diferença e o diferente ou, ao contrário, descambamos para o extremo de aceitar, em nome do respeito a diferença, práticas e comportamentos que desrespeitam profundamente os direitos individuais. Já em nome do respeito aos direitos do indivíduo (como o direito a propriedade e ao livre comércio) admite-se práticas profundamente danosas para o bem comum (como prejudicar o meio-ambiente, estabelecer condições indignas de trabalho). A lista é infindável!

Há de se fazer uma reflexão profunda sobre as práticas recorrentes em nossa sociedade, sobre os nossos valores, sobre a nossa Moral enfim. Esse é o primeiro momento de um processo cujo nome tomamos emprestado de Nietzsche, um processo de transvalorização de todos os valores. O segundo momento deste processo é justamente classificar estes valores em bons valores, ou seja, valores que devem ser mantidos, e maus valores, valores que devem ser recusados e combatidos. Dos valores que assumimos quais realmente deveríamos adotar? Será que os julgamentos que fazemos sobre o que é certo e o que é errado, sobre o que devemos ou não fazer, realmente refletem o que é certo, o que efetivamente deveria ser feito, como efetivamente deveríamos nos comportar. E a nossa prática, como é nossa prática? Estamos sempre dispostos a criticar a imoralidade dos outros, mas será que muitas vezes também não nos comportamos de modo totalmente egoísta e imoral? O terceiro momento deste processo é justamente a construção de novos valores, e, portanto, a mudança da ação, uma mudança de atos, uma nova prática.

Obviamente que estes três momentos do processo de transvalorização não se dão de forma estanque. Acontecem ao mesmo tempo, com vitórias e reveses como em todo processo de transformação. A sua efetivação, entretanto, é imprescindível ainda que mais não seja para a manutenção da vida sobre o planeta Terra. Faz parte da construção de um novo mundo. Um novo mundo que é possível e que mais do que possível é necessário. Mas não nos enganemos. O processo de transvalorização dos valores, de construção de valores novos, valores que efetivamente promovam a vida e a qualidade de vida é longo, penoso e infelizmente exige muitos atos que poderíamos chamar quase de heróicos. Não tenho dúvidas que devemos começar esse processo por nós próprios, ou seja, cada um por si próprio. Que cada um de nós faça uma profunda reflexão sobre a nossa própria prática, nossos mais pequenos atos, nossas atitudes diárias perante nossos familiares, nossos colegas, nossos amigos. Será que nós não agimos muitas vezes de modo moralista ou egoísta? Trata-se de um processo doloroso e duro, no qual corremos o risco de ser mau interpretados e de sofrer. Mas o dia em que cada um de nós tiver transformado a si próprio, teremos, enfim, transformado o mundo!




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