Este é o segundo número da Revista "Presença Ética" que tem como tema: Ética, Política e Emancipação Humana


A Moral do egoísmo e do individualismo



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A Moral do egoísmo e do individualismo

A postura moralista, como vimos, caracteriza-se, então, pela irracionalidade e pela inversão de valores. A irracionalidade pode ser vista através da impossibilidade de que universalizemos julgamentos de valor moralistas. A inversão de valores caracteriza-se, justamente, por declarar como certo, como bom, aquilo que é errado ou ruim e como errado ou ruim aquilo que nada tem de ruim ou errado. São característicos deste modo de valoração: o preconceito, a negação das diferenças, a postura ascética, a dissimulação e a hipocrisia, entre outros.

O modo de valoração moralista tem, como sua outra face, a "Moral do Egoísmo". A Moral do Egoísmo tem origem na Grécia Antiga entre os Sofistas. Trasímaco, um dos mais radicais sofistas, dizia que justiça nada mais é do que a representação dos interesses dos mais fortes, e encorajava seus pupilos a seguir unicamente seus próprios interesses, dizendo que a única coisa que interessa aos indivíduos em uma sociedade é adquirir força e poder. A Moral do egoísmo, sob o nome de Objetivismo, tem na sua versão contemporânea Ayn Rend, (1905-1982) como sua maior defensora. Ayn Rend é uma das responsáveis pela formulação dos princípios "morais" que fundamentam o neo- liberalismo. Ayn Rend nos diz:

"Somente direi que todo sistema político está baseado e se origina em uma teoria ética... e que a ética objetivista é a base moral requerida por este sistema econômico-político que é destruído em todo o mundo, destruído precisamente porque lhe falta defesa e validez moral e filosófica: o sistema norteamericano original, o capitalismo. Se morre, terá sido por abandono, por não ter sido descoberto nem identificado; nenhum outro assunto foi jamais ocultado através de tantas distorções, conceitos errôneos e más interpretações. Hoje em dia, muito poucas pessoas sabem o que é o capitalismo, como

funciona e qual sua história. Quando digo capitalismo me refiro ao capitalismo de "laissez-faire" total, puro, sem controle algum, sem regulamentações, com uma clara separação entre Estado e economia. Um sistema de capitalismo puro assim não existiu jamais nem nos Estados Unidos, já que desde o começo houve uma série de controles governamentais que o limitaram e distorceram. O capitalismo não é um sistema do passado; é o sistema do futuro... se é que a humanidade há de ter um futuro”26

Ayn Rend descreve como ninguém a moral do egoísmo, um dos sustentáculos do capitalismo neoliberal. Entre outras pérolas temos:



"Não existe tal coisa como direito a um emprego - somente existe o direito ao livre contrato, quer dizer, o direito de um homem empregar-se se outro homem o escolher para ocupá-lo. Não existe o direito a uma habitação, unicamente o direito a trabalhar em liberdade para construir uma casa ou comprá-la. Não existe o direito a um salário justo ou a um preço justo se ninguém está disposto a pagá-lo, a encontrar colocação para um homem ou comprar seu produto. Não há direitos de grupos especiais, não há direitos de camponeses, de operários, de homens de negócio, de empregados, empregadores, de idosos, jovens ou de ainda não nascidos. Somente existem os direitos do homem, direitos que são propriedades de cada homem individual e de todos homens como indivíduos. O direito a propriedade e o direito ao livre comércio são os únicos direitos econômicos do homem (que de fato são direitos políticos)"27

Por mais que Ayn Rend não queira, a sua moral do egoísmo quando aplicada acaba descambando para uma moral altamente individualista, do descompromisso total para com o outro, do "o que me importa é que eu me dê bem". Trata-se do coroamento da máxima maquiavélica de que "os fins justificam os meios". Através da moral do individualismo estamos autorizados a fazer qualquer coisa que esteja a nosso alcance, com muito poucos limites, para atingir nossos objetivos. E aí se passa por cima do outro, engana-se, mente-se. Vale tudo e tudo é válido desde que venhamos a nos dar bem. E o "se dar bem" nada mais é do que conseguir dinheiro, bens (às vezes até não muito). Não nos enganemos. É a moral do individualismo que está por trás tanto do ato do adolescente que ataca o outro, chegando a cometer o assassinato, para conseguir o tênis da moda, até o Lalau que desvia o dinheiro da construção de um prédio público para seus bolsos. Entre um extremo a outro, entre o extremo do menino que rouba o tênis até o do grande corrupto, está uma sociedade inteira atônita, onde muitos, nos mais diversos graus, cometem atitudes que derivam da mesma lógica, da lógica do egoísmo, e não percebem.

A moral do individualismo acaba sendo profundamente imoral, exatamente como o moralismo. O que ambas tem em comum é exatamente a sua irracionalidade, mostrada pela impossibilidade total de sua universalização. O moralismo quando universalizado revela-se contraditório, e o egoísmo, universalizado, provoca o caos social.





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