Este é o segundo número da Revista "Presença Ética" que tem como tema: Ética, Política e Emancipação Humana



Baixar 0,94 Mb.
Página22/58
Encontro02.03.2019
Tamanho0,94 Mb.
1   ...   18   19   20   21   22   23   24   25   ...   58
A Dissimulação e a Hipocrisia

Quando fizemos a análise sobre o preconceito em relação aos homossexuais e as prostitutas apareceram os conceitos de dissimulação e de hipocrisia. Dissimular vem do latim dissimulare que significa não revelar os seus sentimentos ou desígnios. Significa, também, obrar dissimulada mente, afetar, não perceber ou não ouvir o que se faz e diz. Não deixar aparecer, cobrir, disfarçar. Não dar a perceber, calar. Fingir, apresentar como escusa. Tornar pouco sensível ou notável; atenuar o efeito de. Ocultar-se, esconder-se. Já hipocrisia vem do latim hypocrisis que significa declamação, ato de representar. Hipocrisia pode significar também a manifestação de qualidades ou sentimentos bons que na realidade não se tem.

A dissimulação e a hipocrisia são alguns dos sentimentos mais perversos do ser humano. O dissimulado mente, engana, finge. Trata o outro sempre como meio, nunca como fim, trata o outro sempre como meio para atingir seus objetivos, não vendo o seu semelhante como um sujeito de direitos, como alguém que tem o direito à verdade, alguém que tem o direito de não, ser enganado. André Comte Sponville escreveu o livro chamado Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. Entre estas virtudes ele cita a fidelidade, a coragem, a justiça a temperança, a tolerância a doçura. Se fosse escrito um pequeno tratado dos grandes vícios, a dissimulação, junto com a hipocrisia, estaria entre eles. Curiosamente vem da literatura, através de Shakespeare, as apresentações mais perfeitas sobre o comportamento dissimulado, tanto nas suas obras trágicas, como, por exemplo, no Rei Lear, em Mac Beth, quanto nas comédias como Muito Barulho pra Nada e Medida por Medida.

O comportamento dissimulado está diretamente associado a moral moralista. Se, conforme já vimos, os julgamentos moralistas não são universalizáveis, sendo subjetivistas, o moralista não tem como justificar racionalmente sua atitude. Esta impossibilidade de justificação, em última instância, é a prova de que estamos diante de um modo de valoração errado, imoral. O moralista, pois, não tem como argumentar racionalmente em relação a sua convicção, no fundo ele sabe que ela não se sustenta. Exatamente por isto ele finge. Ele disfarça, esconde e opera na surdina. Ele dissimula. Quando ele não age com dissimulação ele age com autoritarismo. Ele tenta impor a sua concepção, impor o seu modo de valorar. O autoritarismo é a outra face da dissimulação, é a outra face de uma mesma moeda. O que há de comum entre ambos é que eles se distanciam do espaço da argumentação, da racionalidade. Exatamente porque este espaço, o espaço da racionalidade, exige a justificação, e é exatamente esta que não pode ser dada pelo moralista, exatamente porque os julgamentos de valor moralistas não são racionais.

O comportamento hipócrita apresenta um passo a mais em relação ao do dissimulado. O dissimulado finge não acreditar no que acredita, não julgar como julga, já o hipócrita finge não fazer o que faz. A hipocrisia, como podemos ver pela própria origem latina da palavra, traz o elemento da encenação. O hipócrita apresenta-se como sendo quem ele não é e exigindo de todos um comportamento que ele não tem. A hipocrisia também é característica do moralismo, sendo talvez uma de suas expressões máximas. O hipócrita é uma vítima do seu próprio moralismo. Ele mostra através da sua existência as contradições do moralismo. A hipocrisia é um monumento vivo mostrando, através dos séculos, a que ponto podem chegar as manifestações 'da irracionalidade humana.





  1. Compartilhe com seus amigos:
1   ...   18   19   20   21   22   23   24   25   ...   58


©psicod.org 2017
enviar mensagem

    Página principal