Este é o segundo número da Revista "Presença Ética" que tem como tema: Ética, Política e Emancipação Humana



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Preconceito

Para seguir adiante na análise do que é o moralismo vamos analisar o que é o preconceito. A mera análise da palavra nos diz digo sobre o significado do termo: pré + conceito. Pelo dicionário temos três definições:

1. Um conceito formado antecipadamente e sem fundamento razoável.

2. Um estado de superstição. Superstição que obriga a certos atos ou impede que eles sejam praticados.

3. Um estado de cegueira moral.

Vamos inicialmente analisar a definição 1. O que é um conceito formado antecipadamente e sem fundamento razoável? É basicamente um conceito injustificado, ou seja, um conceito para o qual não se consegue dar boas razões. Se por exemplo, um indivíduo X afirma que as mulheres são intelectualmente inferiores aos homens e ao ser questionado sobre os motivos desta sua afirmação ele não consegue dar uma justificativa, este indivíduo está sendo preconceituoso em relação às mulheres, e isto está ainda de acordo com a definição. Suponhamos, entretanto, como hipótese adicional, que este mesmo indivíduo X tem, em mãos, uma pesquisa na qual se observa que os resultados obtidos por mulheres em testes de QI são, em geral, inferiores aos resultados obtidos pelos homens. Neste caso, pela definição, o indivíduo X deixaria de estar expressando um preconceito porque agora ele tem uma boa justificativa para sua afirmação. O conceito deixa de ser um pré-conceito e passa a ser um conceito. Um conceito equivocado, talvez, diríamos nós aludindo a outra série de razões para mostrar que testes de QI, por exemplo, não servem para medir a capacidade intelectual das pessoas. Mas aí tudo é uma questão de crença, e não poderíamos mais dizer que o indivíduo X é preconceituoso no sentido em que é definido primeiramente preconceito. Se ele efetivamente acredita na validade dos testes de QI ele está simplesmente fazendo uma mera observação ao dizer que as mulheres são intelectualmente inferiores aos homens.

Se há dúvidas sobre isso façamos o raciocínio inverso. Suponhamos que X tenha em mãos uma pesquisa na qual se mostre que os resultados obtidos pelos homens em testes de QI são inferiores aos das mulheres. Neste caso nosso X teria que admitir a afirmação: os homens são intelectualmente inferiores às mulheres. Esta seria uma observação do mesmo tipo de Y é homossexual, para alguém que se descobrisse que mantém relações com pessoas do mesmo sexo, ou do tipo Z é amarelo, para alguém que tenha a cor de pele amarela. Não há aí nenhum preconceito. O problema, o grande problema, é que afirmações como estas, muitas vezes, vêm carregadas de um conteúdo que transcende a mera observação, e passa-se, então, a se atribuir à observação um caráter valorativo geralmente depreciativo, e aí está o preconceito. São os casos em que as observações encerram já em si um julgamento de valor negativo, mas que só se consegue descobrir no contexto. Neste caso dizer que Joana é mulher tem muito mais implicações do que a mera observação sobre o gênero a qual pertence; Joana é negra significa muito mais do que uma mera constatação sobre a cor de sua pele; Joana é homossexual não significa uma simples referência a sua opção sexual, Joana é prostituta é muito mais do que uma observação sobre a sua profissão,

É por isto que acredito que a boa definição sobre preconceito passa necessariamente pela definição 3, Preconceito tem a ver com moralidade. Na realidade o preconceito é fruto de uma concepção moral deturpada, ou se quiserem, uma concepção moral moralista.

Na realidade o preconceituoso é antes de tudo um "negador de diferenças". O preconceituoso acha que tudo aquilo que é diferente de si próprio, pelo mero e único fato de ser diferente de si próprio, é inferior. Existe aqui um forte componente narcísico e egoísta. O preconceituoso não aceita a diferença e vaiara como ruim tudo aquilo que não é feito a sua imagem e semelhança.

O preconceito pode se manifestar de diversas formas. Na sua forma mais rude ele toma o nome de discriminação. O que é discriminação? É a negação de direitos que são reconhecidos como sendo direitos de todo ser humano à determinados grupos ou pessoas em função de pertencerem a determinado gênero, determinada raça, determinada região ou terem determinada preferência sexual ou de crença que é perfeitamente compatível com a liberdade alheia. A discriminação se apresenta sempre de forma manifesta, dos mais diversos modos, passando desde a proibição de freqüentar determinados locais, até a hostilização pública e chegando a discriminação na própria legislação,

Mas o preconceito pode ser também dissimulado, e talvez nesta sua forma de apresentação ele seja tão ou talvez ainda mais nefasto do que a que ocorre na discriminação. O preconceito dissimulado é aquele que se esconde, que opera não ostensivamente, aparecendo nos bastidores e não nos palcos, é aquele que escorrega ... É possível aqui estabelecer uma analogia entre esta manifestação do preconceito e as estratégias do poder autocrático. Conforme nos diz Norberto Bobbio:

"Como já afirmei o poder autocrático não apenas esconde para não fazer saber quem é e onde está, mas tende também a esconder suas reais intenções no momento em que suas decisões devem tornar-se públicas. Tanto o esconder-se quanto o esconder são duas estratégias habituais do ocultamento. Quando não se pode evitar o contato com o público coloca-se a máscara. Nos escritores da razão de estado o tema da "mendacidade" é um tema obrigatório assim como é obrigatória a referência à nobre mentira de Platão ou aos discursos sofísticos de Aristóteles. Torna-se communis opinio que quem detém o poder e deve continuamente resguardar-se de inimigos externos e internos tem o direito de mentir, mais precisamente de simular, isto é, de fazer aparecer o que não existe e de dissimular, isto é, de não fazer aparecer o que existe “25
A simulação e a dissimulação são características do poder autocrático como afirma Bobbio. Podemos ir além dele afirmando que o preconceito que se dissimula também é uma das estratégias deste poder; poder este que se manifesta nas diversas instâncias da sociedade. Este preconceito que não discrimina ostensivamente, mas que opera nos bastidores, tenta produzir como resultado de seu operar uma discriminação muito mais fina, refinada e talvez por isso mais perversa. E sua perversidade está justamente no seu mascaramento. É como se ele produzisse resultados discriminatórios sem, entretanto fazer aparecer sua fonte. Ao operar deste modo ele se torna extremamente difícil de ser combatido.

Pra continuar nossa análise, vou fazer aqui uma discussão em relação a dois preconceitos clássicos, o preconceito contra os homossexuais e o preconceito contra as prostitutas.






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