Este é o segundo número da Revista "Presença Ética" que tem como tema: Ética, Política e Emancipação Humana



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A Moral invertida: O Moralismo

Conforme já vimos, a Moral exige necessariamente um aporte ao universal. O aporte moralista, porém é um aporte deturpado. Deturpado, em primeiro lugar, porque os julgamentos moralistas, embora se pretendam universais, não se qualificam para uma pretensão à universalidade quando os analisamos mais profundamente. Ao contrario, exatamente por não respeitar a diferença e o diferente, os julgamentos moralistas são extremamente subjetivistas. Afinal de contas, em que nos basearíamos para fazer, por exemplo, um julgamento do tipo "ter filhos fora do casamento é errado", ou "as mulheres devem restringir-se às atividades do lar?" Estes julgamentos não atendem ao critério da universalidade. Se todas as mulheres resolvessem a partir de agora ter filhos sem serem casadas, nada de catastrófico aconteceria no mundo. Do mesmo modo, se todas as mulheres resolvessem a partir de hoje trabalhar fora o máximo que isto geraria seria uma grande dor de cabeça para alguns maridos machistas. A universalização destes comportamentos não gera nenhuma conseqüência nefasta para a humanidade, ou mesmo para a sociedade na qual estamos inseridos. Isto mostra que o que é errado não são estes comportamentos. O que e errado e julgar que estes comportamentos (por exemplo, ter filhos sem ser casado; mulher trabalhar fora de casa) são errados, julgar que estes comportamentos são imorais.

Observe que algo bem diferente se dá em relação a atos ou comportamentos relativos à corrupção, a mentira, ao roubo, a exploração. Se todas as pessoas do mundo resolvessem mentir, ou agir corruptamente, ou roubar ou explorar o semelhante seria o caos. As conseqüências, pois, para a sociedade e para a humanidade seriam extremamente negativas, extremamente nefastas, o que mostra que estes comportamentos (praticar a corrupção, mentir, roubar, explorar) são errados, são imorais.

A grande questão, porém, é a seguinte: porque muitas vezes muitas pessoas estão dispostas a aceitar, ou pelo menos a serem condescendentes com atos e comportamentos do segundo tipo (corrupção, roubo, mentira) e a condenar prontamente os comportamentos do primeiro grupo (mulher trabalhar fora, ter uma produção independente)? É extremamente importante que estejamos dispostos a fazer uma profunda reflexão sobre este comportamento (ser condescendente com comportamentos do segundo grupo e condenar os do primeiro). Esta reflexão pode nos Ievar a compreender que muitos dos julgamentos que fazemos do ponto de vista moral, nada tem de moral, são totalmente moralistas.

Esta consciência implica em compreender que fazemos parte de uma sociedade cujos valores estão profundamente invertidos, uma sociedade moralista, e exatamente por isto, imoral, anti-ética. Com esta consciência estamos muito mais aptos para compreender problemas seríssimos do Brasil e do mundo contemporâneo, como falta de ética na política, a falta de solidariedade com o outro, desumanização da sociedade, a falta de investimento no social, o egoísmo. Uma moral moralista é uma moral invertida. É uma moral que diz ser certo o que é errado e diz ser errado o que é certo. É uma moral imoral. É, talvez, a expressão máxima da imoralidade.





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