Este é o segundo número da Revista "Presença Ética" que tem como tema: Ética, Política e Emancipação Humana



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Moral e Moralismo

O ponto de vista universal, que é o ponto de vista efetivamente ético o ponto de vista efetivamente moral, é completamente diferente do ponto de vista que poderíamos chamar de "moralista". Mas o que é uma concepção moral moralista? Moralismo, poderíamos dizer que é uma concepção deturpada em relação ao que é Moral, ao que é certo e ao que é errado. E aquela que se pretende emitir julgamentos de valor negativos sobre aquilo que se refere ao comportamento pessoal de indivíduos que não prejudicam a outrem com seu comportamento ou que valora distintamente pessoas ou grupos de pessoas em função de certas características naturais (físicas, sexuais ou geográficas) ou opções diferenciadas. São moralistas, pois, julgamentos do tipo: "praticar sexo antes do casamento é errado", "dissolver o casamento é errado", "usar roupas curtas é errado", "praticar sexo com pessoas do mesmo sexo e errado", e valorações do tipo: "os negros são inferiores", "os arianos são superiores", "os nordestinos são inferiores", "as mulheres são inferiores".

Curiosamente uma das maiores contribuições para que possamos entender o que é o Moralismo, vem de um dos filósofos mais controversos, e mal compreendidos da história da filosofia, que é Friedrich Nietzsche (1844-1900). Nietzsche nunca usou a expressão moralismo, mas foi um dos primeiros a fazer uma crítica feroz ao que ele chamou de Moral Judaico-Cristã, e foi um dos primeiros a afirmar a necessidade de que seja feita uma crítica dos valores

morais, uma crítica da moralidade. No prólogo do seu livro "Genealogia da Moral" afirma Nietzsche:


"Por fim, uma nova exigência se faz ouvir. Enunciemo-Ia esta nova exigência: necessitamos de uma crítica dos valores morais, o próprio valor desses valores deverá ser colocado em questão. Para isto é necessário um conhecimento das condições e circunstâncias nas quais nasceram sob as quais se desenvolveram e se modificaram; um conhecimento tal como até hoje nunca existiu nem foi desejado. Tomava-se o valor destes "valores" como dado, como efetivo, como além de qualquer questionamento"23
Nietzsche aponta aqui, com muita clareza, um caminho para a reflexão moral que parece se constituir no caminho certo para que se entenda o problema da Moral. Há de se fazer uma crítica dos valores morais, há de se questionar o valor de todos os valores, há de se avaliar quais foram os valores que vigoraram ao longo dos últimos 2500 anos, para, quando for o caso, romper com eles. Conforme. ele diz, nos chamando para o questionamento, até que ponto muitas coisas que nos acostumamos a definir como "boas" e "ruins" são efetivamente boas e ruins?
"Até hoje não houve dúvida ou hesitação em atribuir ao “bom" valor mais elevado que ao "mau", mais elevado no sentido da promoção, utilidade, influência fecunda para o homem. E se o contrário fosse verdade? se no "bom” houvesse um sintoma regressivo, como um perigo, uma sedução, um veneno, um narcótico, através do qual o presente vivesse como que as expensas do futuro? Talvez da maneira mais cômoda, menos perigosa, mas também num estilo menor, mais baixo? De modo que precisamente a moral seria culpada de que jamais se alcançasse o supremo brilho e potência do tipo homem? De modo que precisamente a moral seria o perigo entre os perigos.”
Havemos de admitir que considerações como essa de Nietzsche, são bastante ambíguas e problemáticas. O que estaria ele querendo nos dizer aqui? Que aquilo que costumeiramente tomamos como bom pode ser no fundo um grande mau e que aquilo que aprendemos que seja o mal pode ser um bem? E que, se é assim, e a medida que as distinções entre bom e mau são por essência distinções morais, deveríamos jogar a Moral na lata de lixo da história? Embora muitos tenham assim compreendido Nietzsche, é necessário que sejamos mais cuidadosos nessa avaliação. Quando Nietzsche fala de que talvez haja um veneno no bem (bem sempre entre aspas) e que talvez a moral seja o perigo entre os perigos, não estaria ele querendo nos advertir justamente contra uma Moral moralista? Não estaria ele justamente querendo nos alertar que há alguns julgamentos padrão a respeito do que é certo e do que é errado que fazemos quase que automaticamente, mas que, se parássemos para refletir sobre eles com mais calma, teríamos que admitir que podem não ser assim tão certos? Em outras palavras, será que muitas das coisas que admitimos como sendo moralmente certas são efetivamente certas e muitas das coisas que admitimos como sendo moralmente erradas são efetivamente erradas?

Por exemplo, é moralmente admissível nos dias de hoje que convivam no mesmo mundo pessoas miseráveis, como muitos que encontramos mendigando, e homens que ganham milhões por dia num único jogo bem feito na bolsa. Mas será que isto é efetivamente certo? Por outro lado, é considerado imoral que as pessoas andem nuas pelas ruas. Mas será que isto efetivamente imoral? Claro que não vou discutir aqui se estes certos são certos e estes errados são errados, o que importa aqui é que nos questionemos sobre se efetivamente certas coisas que temos introjetadas como certas são efetivamente certas, são efetivamente morais, e sobre se coisas que temos internalizadas como erradas são efetivamente erradas, são efetivamente imorais.

Saindo já, da terminologia Nietzscheana, podemos perguntar: ate que ponto muitos dos valores morais que construímos ao longo dos séculos, não seriam valores moralistas? Aqui Nietzsche também pode dar luzes a nossa investigação. Ele afirma que a moral ocidental está baseada nas idéias de culpa, má consciência e nos ideais ascéticos. Os ideais ascéticos, diz ele, estão baseados nas noções de humildade, pobreza e castidade. Ao se perguntar, posteriormente, sobre "o que significa o ideal ascético?" Ele afirma:
"O pensamento em torno do qual aqui se peleja é a valoração de nossa vida por parte dos sacerdotes ascéticos: esta (juntamente com aquilo a que pertence natureza, mundo, toda a esfera do vir a ser e da transitoriedade) é por eles colocada em relação com uma existência totalmente outra , a qual exclui e à qual se opõe, a menos que se volte contra si mesma, que negue a si mesma: neste caso, o caso de uma vida ascética, a vida vale como uma ponte para esta outra existência. O asceta trata a vida como um caminho errado, que se deve, enfim, desandar até o ponto onde começa; ou como um erro que se refuta- que se deve refutar com a ação: pois ele exige que se vá com ele, e impõe, onde pode a sua valoração da existência. Que significa isso? Um tal monstruoso modo de valorar não se acha inscrito como exceção e curiosidade na história do homem: é um dos fatos mais difundidos e duradouros que existem... Pois consideremos com que regularidade, com que universalidade, como em quase todos os tempos aparece o sacerdote ascético; ele não pertence a nenhuma raça determinada; floresce em toda parte; brota de todas as classes”24

O ascetismo, pois, característico da moral ocidental, implica na negação do pathos, da paixão, do sentimento, do instinto, do prazer. Implica, enfim, na negação de tudo aquilo que no homem é animal. Se for assim, não poderíamos dizer que o ascetismo é uma das características de uma moral moralista? Se uma concepção moralista é aquela que "se pretende emitir julgamentos de valor negativos sobre aquilo que se refere ao comportamento pessoal de indivíduos que não prejudicam a outrem com seu comportamento ou que valora distintamente pessoas ou grupos de pessoas em função de características naturais (físicas, sexuais ou geográficas) ou opções diferenciadas", não poderíamos deduzir que muitas vezes estes julgamentos de valor negativos são emitidos exatamente em função de uma postura ascética que quer estender a sua concepção ascética do mundo a todo mundo? Em outras palavras, será que muitas vezes o moralismo não surge em função de uma postura ascética?







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