Este é o segundo número da Revista "Presença Ética" que tem como tema: Ética, Política e Emancipação Humana



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"Deve-se insistir sobre o fato, existe realmente uma forte atividade volitiva, uma intervenção direta sobre a "força das coisas", mas de uma maneira implícita, velada, que se envergonha de si mesma; portanto a consciência é contraditória, carece de unidade crítica, etc. Mas quando o "subalterno" se torna dirigente e responsável pela atividade econômica de massa, o mecanismo revela-se em certo ponto um perigo iminente; opera-se, então, uma revisão de todo o modo de pensar, já que ocorreu uma modificação no modo de ser social. Os limites e o domínio da "força das coisas" são restringidos. Por quê? Porque, no fundo, se o subalterno era ontem uma coisa, hoje não mais o é: tornou-se uma pessoa histórica, um protagonista; (...)

Estes elementos desagregados, incoerentes, não críticos e episódicos que vão compor a concepção de mundo do conjunto das classes subalternas, consistem no senso comum, ponto de partida e ao mesmo tempo, produto do devenir histórico. O movimento de fazer a crítica desta visão de mundo reside num dos elementos essenciais à conformação dessa subjetividade com a marca da maioridade histórica. Acrescenta o autor:



"O início da elaboração crítica é a consciência daquilo que somos realmente, isto é, um 'conhece-te a ti mesmo I como produto do processo histórico até hoje desenvolvido, que deixou em ti uma infinidade de traços recebidos sem benefício no inventário. Deve-se fazer, inicialmente, este inventário "(Idem: 12)

Nesta mesma direção Emílio Gennari21 ressalta os distintos impactos produzidos nos sujeitos, num amálgama de sentimentos não só diversificados mas de natureza distinta. Assim:



"um movimento contraditório entre a coerção imposta pelas necessidades de sobrevivência, que gera no homem-massa sentimentos de impotência, medo, submissão ou até de dívida de gratidão, e a busca constante de espaços de liberdade nos quais

seja possível reafirmar a subjetividade dos indivíduos negada pela ordem dominante.”

Ressalte-se, portanto, que na dinâmica da vida social, as apreensões dos sujeitos podem ocorrer de forma diferenciada, ainda que tenham como ponto de partida a mesma realidade social, o que não significa afirmar nem que estão alienados dessa realidade, nem que estão cooptados pela racionalidade que a organiza de forma hegemônica. A presença destes distintos olhares - e lugares -, verdadeiros para cada sujeito, de per si, introduzem de forma contundente a temática da subjetividade e de sua importância efetiva, seja nos processos de conhecimento e reconhecimento individual, seja na gestação de campos coletivos, a agregar componentes culturais, simbólicos, de partilhamento com outros sujeitos os experimentos de solidariedade e conflitos, e a experimentação de ações coletivas.

Assim, retomar este debate de forma mais substantiva sugere a sua inscrição na agenda político-formativa dos trabalhadores, visto que a reconstrução desta forma particular de subjetividade é componente essencial para que a perspectiva do devir se coloque como possibilidade.

Este investimento, no plano da formação, pode permitir a constituição de elos entre o tempo das exterioridades (imediato) - que parece adquirir uma autônoma opacidade para quem nele está imerso -, e o tempo mediato, de compreensão do plano que não aparece, da busca coletiva de desvendamento do "segredo das formas" que estruturam a realidade dos fenômenos e experimentos humanos. Estes acessos são extremamente significativos no interior desse embate de racionalidades inscritas na vida social.

Eis parte do desafio posto às classes subalternas: afirmar sua personalidade e subjetividade, construindo uma identidade com capacidade de potencializar os elementos que estão postos no real, na tentativa de proporcionar um sentido novo às condições dadas, a partir de uma perspectiva anti-capitalista, o que significa apostar numa ordem humana emancipadora, criação histórica de uma outra sociabilidade, novos campos coletivos, outros possíveis...





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