Este é o segundo número da Revista "Presença Ética" que tem como tema: Ética, Política e Emancipação Humana



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tempo, personificação das coisas ".

O acesso às formulações de Marx, permite a percepção de como a individualização do homem e sua personalidade se constituem na concretude da vida social, no interior de um determinado processo histórico que interpela e marca o sujeito. A sua análise vai desvendando como um objeto exterior, a mercadoria, atua como um sujeito mistificador que, ao encobrir o lugar real do sujeito produtor, encobre em verdade, o poder de sua atividade que permanece obliterada no próprio processo de sua objetivação.

Dessa forma expropria-se o trabalho coletivo - produto da força humana num movimento singular de cooperação - secundariza-se a experiência do trabalhador, ao mesmo tempo em que é forjado um outro tipo de perda: desenvolve-se um certo campo subjetivo imaginário que, usurpado objetivamente no seu 'fazer individual' e na 'cooperação', transfere ao capitalista o poder que lhe foi subtraído.

Marx vai revelando como através do processo de intercâmbio de mercadorias, vai sendo constituída uma relação que aparece entre objetos, sendo obliterado o pano de fundo da relação determinante - entre os próprios sujeitos -. Esta aparente desvinculação, essa 'ignorância' invisível socialmente, determinará produções subjetivas particulares nos homens que vivenciam este processo.

Este mecanismo é considerado por Rozitchner e pelos psicanalistas brasileiros Joel Birman 14e Jurandir Freire Costa15, ao enfatizarem esta condição trágica do sujeito no mundo via formas de subjetivação hoje produzidas, calcadas num enorme mal-estar que pode ser compreendido em várias frentes. Seja pelo retraimento do Estado, em relação aos agenciamentos assumidos, que, como destaca Birman (2000), atuavam na produção de formas de subjetivação e de gestão de laços sociais, através de instituições que operavam, não só como centro de ordenação social, mas também de disciplinamento; seja pela fragilização dos partidos na qualidade de 'universais relativos', que funcionavam como campos ideológicos e de força no âmbito das diferenciações de classe e nos antagonismos sociais; seja nos sindicatos e movimentos sociais que vêm perdendo tanto em ofensividade, como na qualidade de campos coletivos que referenciem os setores subalternizados na sociedade. Há, portanto, não só uma fragmentação social imensa, mas esta é acompanhada de fragilização de valores substantivos referenciais coletivos.

Estas ponderações auxiliam no reconhecimento de como a presença da globalização e do neoliberalismo conseguiram, através da recriação contínua de formas de acumulação de capital, de um lado, desconectar ainda mais os caminhos da economia dos registros do social, e de outro, subsumir os componentes de nosso psiquismo e subjetivação à ordem mercantil.

Entre outras dimensões, esta condição revelaria um conjunto de impossibilidades com as quais os sujeitos estão se defrontando, em especial a de identificar e realizar ações fundamentais, portadoras potenciais de alternativas de alteração significativas do curso de sua vidas.

Superá-las implicaria em multiplicidade de acessos, tanto na ordem da materialidade - o que significa introduzir as questões relativas aos componentes sócio-político-históricos -, quanto no sentido de percebê-los vinculados às dimensões do corpo e do afeto.

Esse apartamento das dimensões da vida encontra em Eric Hobsbawn16 mais um elemento explicativo. Segundo o autor, a perspectiva histórica que vem informando majoritariamente as identificações dos sujeitos na atualidade do capital, na qualidade de uma forma de vivência que marca este século XX, é a de um presenteísmo constante.

Seu significado é o de "uma espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público" vivido numa determinada época. E do ponto de vista da cultura de um povo, esta intensificação significa a negação da memória e da história. Este' presenteísmo' nomeado pelo autor, ao recalcar o passado cristalizando a dimensão do tempo presente, no hoje, retira das possibilidades existentes no presente, os seus componentes transgressores, a sua dimensão de porvir.

Um elemento central na busca de sua compreensão se refere à contínua produção de desigualdades sociais no âmbito de nossa formação social, assentadas num ordenamento fundado no reinado mercantil. No seu interior, os códigos de convivência social permanecem enraizados na acumulação privada de riquezas, em hierarquias sociais produzidas em contextos de antagonismos II sociais, fundadas na exclusão da maioria dos indivíduos. Evidencia-se, igualmente, uma imensa apropriação ideológica das movimentações de resistência de segmentos que questionam a ordem - sendo transmudados estes gestos em banditismo -. Todas estas situações e relações vão interferir decisivamente nos processos de constituição dos sujeitos.

Estes códigos, por sua vez, fazem circular valores, formas de relação, bem como a presença de certos modelos identificatórios.

Nessa direção, Birman (1999) destaca nos processos de subjetivação em curso, as moldagens impregnadas pela cultura do narcisismo e pela sociedade do espetáculo, que vão enfatizar a exterioridade e o autocentramento.

Este referencial naturaliza a brutal desigualdade humana e, do ponto de vista da ordem vigente, contribui para o enrigecimento dos componentes de tensão presentes na sociedade, fortalecendo o congelamento da memória histórica e refreando a dimensão de porvir.

Esta racionalidade que preside as relações sociais através da reificação do presente, não só reforça a perspectiva de manutenção do ordenamento capitalista, como investe na destruição de vínculos que possam vir a ocasionar a humanização dos sujeitos. Ao fazê-lo, busca um tipo de formatação das subjetividades numa perspectiva de imediaticidade, na qual o efêmero e o fragmentário, a produção de curto prazo e a insensibilidade perante o outro são componentes fundantes.

Assim, o projeto societário hoje hegemônico - ainda que tenha como base essencial a acumulação privada - se reforça através de hierarquias, normas e legislações legitimadoras de uma igualdade anunciada, ainda que formal, para a qual se atribuem regulações e disciplinamentos democráticos que irão dar sustentabilidade legal à desigualdade instituída. E este projeto, o do capital, majoritariamente é aceito e, mais que isto, internalizado pelos sujeitos. Ao se reproduzir, assegura também a permanência do modo de produção capitalista, da sociedade capitalista.

A concepção de subjetividade com a qual o marxismo vai romper, e que está presente no âmbito da hegemonia burguesa, é a que supõe o indivíduo na qualidade de ente abstrato e idealizado, por conseguinte, exterior às suas efetivas relações sociais. Marilena Chauí17 ressalta o fato de que esta visão de subjetividade plasmada no interior do capitalismo, se sustenta menos nas relações intersubjetivas e mais numa subjetividade conformada pela mass media e pela publicidade, apresentando uma incapacidade de simbolização, de transcender ao dado, de relacionar-se com o possível e, sobretudo, com a marca de uma certa infantilidade que se expressa perante a promessa de satisfações imediatas. Banaliza-se a competição e a violência, sucumbindo-se, assim, "à velocidade e fugacidade das imagens, sem passado e sem porvir".

Antonio Gramsci18 auxilia na junção de outros componentes de análise, ao destacar que uma nova civilização só teria condições de se afirmar, através da presença na história das classes apartadas continuamente do poder político e do efetivo desenvolvimento de suas condições "intelectuais e morais", - as classes subalternas -, o que implicaria na possibilidade de constituição de uma outra forma de sociabilidade, com a marca da emancipação aludida por Marx.

Esta dimensão repõe com qualidade nova o lugar das classes trabalhadoras neste processo em termos de sua efetiva participação e, mais que isto, sinaliza para a importância do desenvolvimento de uma consciência histórica da realidade, com capacidade de fecundar as possíveis ações políticas. Tal concepção histórico-crítica impõe em sua singularização, a inclusão de um conjunto de componentes que possam favorecer a formação da personalidade dos trabalhadores. Esta vai supor, portanto, uma construção histórica dos processos subjetivos.

Esta relevância dos sujeitos históricos, explicitada por Gramsci, vai implicar na valoração da própria constituição desses sujeitos na qualidade de personalidade, vontade e processo organizativo, num movimento real de construção de um novo "bloco histórico".

Em verdade, Gramsci retoma o potencial educativo do próprio marxismo. Salientará, portanto, não a autonomia ou prevalência dos campos de objetividade/subjetividade, mas o seu mútuo engendramento.

Há uma aproximação conceitual a ser feita e que consiste em vislumbrar neste sujeito fragmentado, imerso em situações particulares, crenças, símbolos, vontades dispersas - características do senso comum -, a presença, ainda que recalcada, de outros componentes valorativos, práticas, percepções e intuições, situações vivenciadas que podem ser decifradas e compreendidos - tornadas bom senso, nos termos gramscianos-. Há potencialidades que podem se espraiar a partir de um outro OUTRO: um campo coletivo, referência distinta ao entorno dominante, com capacidade de possibilitar a criação de laços de solidariedade e de partilha, substituindo o conformismo e a indiferença das subjetividades abstratas, descontextualizadas e fundadas no prisma do autocentramento dos indivíduos; campo que pode 'produzir,' também, uma subjetividade coletiva, contextual, a repor como dimensão possível da existência individual-social, a perspectiva de uma outra sociabilidade, na necessária afirmação da emancipação dos sujeitos humanos.

Pensando-se em termos de uma configuração destas situações sociais vivenciadas pelos sujeitos, Vera Telles19 ressalta as significações que passam a ter nesse processo de subjetivação, as próprias lutas sociais travadas. Assim,

“a importância das lutas sociais, enquanto abertura de espaços públicos nos quais as experiências diversas podem ser tematizadas, problematizadas e, por essa via, desprivatizadas enquanto condição comum que interpela a sociedade na formulação e exigência de direitos. É nessa articulação entre o privado e o público que identidades são construídas e reconstruídas, definidas e redefinidas, criadas e recriadas, num espaço de conflito em que as práticas de resistência, abertas ou surdas e cotidianas nas suas vitórias e derrotas, sucessos e insucessos, para além de seu significado material em cada momento específico, redefinem e refundam tradições, reafirmam e reorientam práticas, elaboram e reelaboram valores e referências por onde homens e mulheres, em situações concretas de vida, percebem o seu lugar na sociedade e sobretudo percebem a eficácia de suas ações e de suas palavras na produção de fatos e acontecimentos que afetam ou podem afetar as circunstâncias de suas vidas.” (p.59)

Encontra-se, pois, na totalidade social, a presença não de um sujeito único, marcado por um processo de obliteração do real, produzido por formas ideológicas oriundas do capital, que o alienam e o impedem de desvelar a gênese da exploração. A absolutização desse sujeito alienado poderia sugerir que na vida social, o capital na qualidade de efetiva chefia, unificaria e implementaria seu ideário de tal forma que forjaria sempre subjetividades subalternizadas ao seu ordenamento.

A radical contestação desse processo de naturalização da alienação poderia, também, fazer supor, em contrapartida, a existência no interior da dinâmica social de um 'não lugar' da alienação, um certo ponto protegido ou até mesmo não vulnerável às influências da ideologia dominante, o que sem dúvida é impossível.

Neste contexto vale registrar que ainda que a apreensão de si e do mundo se apresente aos sujeitos de forma fragmentada, confusa, fatalista, gestada a partir dos valores hegemônicos, isto não se constituirá empecilho à emergência de outros interesses individuais e coletivos, outros sentimentos, valores, interpretação diversa da conjuntura ou ainda de outro projeto societário. No entanto, isso não ocorrerá espontaneamente nem automaticamente no interior das relações sociais. Supõe um investimento na criação de espaços coletivos, espaços formativos, instâncias organizativas com enraizamento social, campo através do qual possa ser exercitado o aprendizado de construção de referências identificatórias e de diferenciação de classe. A formulação de Antonio Gramsci20 ajuda a melhor esclarecer este sentido:




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