Este é o segundo número da Revista "Presença Ética" que tem como tema: Ética, Política e Emancipação Humana


Esferas de produção de subjetividade e emancipação



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Esferas de produção de subjetividade e emancipação
Penso ser da maior importância inscrever a reflexão em torno da educação e formação das classes subalternas, ao se considerar as possibilidades de emancipação humana.

Nessa perspectiva não se pode prescindir de uma referência, ainda que breve, às formas através das quais se conhece - compreendendo e interpretando - a realidade. Assim como desconsiderar a presença da educação na sua variedade de sentidos e componentes agregadores, estabilizadores e transgressores, ou ainda, potencializadores de práticas individuais e sociais.

A concepção de conhecimento adotada supõe a idéia basilar de Antonio Gramsci8 de que todos os homens são filósofos, e mesmos os mais simples, interpretam e elaboram a sua vida, tendo, portanto, para o presente algum princípio orientador de seu experimento cotidiano. Nesse processo, misturam de forma absolutamente desordenada, contraditória e acrítica, um conjunto variado de concepções de mundo.

Coexistem, portanto, nessas formas de conhecimento e reconhecimento de si mesmos e da vida, um caldo cultural conformado por determinantes de classe próprios, operando na qualidade de esteio para a organização das vidas dos sujeitos, a partir das transformações que vão se operando no campo da ciência, arte, filosofia, economia, política e nas relações em geral, alterando costumes e visões do mundo.

Nesse quadro, a apropriação destes elementos pelos indivíduos se coloca como contínua possibilidade, se refletindo não só na linguagem como igualmente na sua

personalidade e subjetividade, enfim, no conjunto das relações sociais. Esta apropriação individual e coletiva segundo Emílio Gennari 9 "é um dos fatores que a cada momento tende a consolidar, atualizar ou superar os limites dessa mesma ordem".

A reflexão em torno da emancipação, na sua complexidade, não pode prescindir da consideração de conjunturas históricas no interior das quais o protagonismo humano vem sendo continuamente subsumido a uma "atualizada" lógica mercantil, acoplada à égide ao consumo e a uma dimensão de historicidade, cristalizada no plano da imediaticidade e de um tempo presente eternizado.

Trata-se, portanto, de pensar os processos subjetivos a partir dos registros de interioridade presentes em cada sujeito, tensionados e interpelados através das expressões concretas da sociabilidade hegemônica. Assim, a subjetividade não é imanente ao indivíduo, mas vai se constituir a partir do intercruzamento destas dimensões, não existindo, portanto, a separação entre o plano individual e o coletivo, entre os registros de indivíduo e sociedade.10

Nesse sentido, um pressuposto que se impõe diz respeito à consideração de que a subjetividade é socialmente produzida, operando numa formação social determinada, sob o crivo de um determinado tempo histórico e no âmbito de um campo cultural.

Marx vai organizar esta vinculação a partir da análise do homem inserido no processo produtivo, produzindo e produzindo-se:

"O trabalho não produz mercadorias, produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria, e isto na proporção em que produz mercadorias em geral”.11

Trata-se, portanto, de um processo que implica em sujeição real, desapropriação da própria condição de indivíduo perante um poder que, para além de tornar estranho o produto do trabalho, torna igualmente estranho o trabalho para o trabalhador, internalizando esta relação. Tal poder que se institui despoticamente, se evidencia não só objetivamente, mas também no campo simbólico, ao processar o desenvolvimento da forma mercadoria em fetiche.

Leon Rozitchner12 efetiva uma síntese desses registros ao ressaltar que “a própria subjetividade vive também em um mundo de objetos cuja forma reproduz, de algum modo, a mesma estrutura do sujeito: a mercadoria também é um objeto cuja forma reproduz uma cisão fundamental em seu modo de aparecer: valor de uso, por um lado, valor de troca por outro".

Há, portanto, uma determinação geral a partir da qual tanto os sujeitos quanto os objetos são produzidos: a forma mercantil.

O desafio de desvendamento desta questão aponta para a aparente contradição que se estabelece entre as condições subjetivas do homem trabalhador e as condições objetivas, dele apartadas, que o enfrentam na qualidade de capital. Assim, na relação mercantil, em particular através de seu valor de troca, transmuda-se a natureza da própria relação criada: de relação entre pessoas em relação encoberta por coisas. Ou ainda, como enfatiza Lucien Sève13 "coisificação de pessoas e, ao mesmo




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