Entrevista n.º 4 Profissão: Psicóloga Clínica



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Encontro03.12.2019
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Entrevista n.º 4

Profissão: Psicóloga Clínica


E: Bom dia! Podemos começar?

e: Na sua opinião, o que é um doente mental?

E: Um doente mental é alguém que tem um determinado tipo de patologia, que tem alguns handicaps do ponto de vista clínico, do ponto de vista funcional, cognitivo que limitam a sua vida autónoma.

E: Qual é a importância da sua profissão no tratamento, na reabilitação do doente mental?

e: Sei lá…a estabilização do quadro clínico, não é?! Através de modelos teóricos para a depressão, para os ataques de pânico, para as fobias e também noutras situações como o treino de competências sociais, com pessoas que já não têm uma perturbação tão…não têm uma depressão, não têm uma mania, não têm ataques de pânico…têm mais dificuldades de auto-gestão de problemas, de dinheiro, ao nível das relações inter-pessoais…em todas essas áreas nós intervimos e tornamos a pessoa mais relacional e estabilizada no seu quadro clínico. Temos várias técnicas que de facto podem ajudar à estabilização do quadro clínico e para optimizar uma data de competências noutras áreas da vida dele.

E: Que tipo de técnicas são utilizadas?

e: O que vem protocolado. Os protocolos de intervenção na depressão, com várias técnicas, quer cognitivas quer comportamentais. Obviamente que o tipo de população que este hospital abrange é mais do meio rural e então as técnicas cognitivas muitas vezes não são usadas porque as pessoas não chegam lá. É mais técnicas comportamentais…e pronto, passa muito pela tomada de decisão, técnicas de resolução de problemas, avaliar as vantagens e desvantagens de determinadas opções. Sei lá…

E: Quando é que um psicólogo acha que aquele doente deveria ser acompanhado por um psiquiatra e não por um psicólogo?

e: Isso acontece aqui na consulta externa. Pessoas que através de familiares ou assim, pedem para ser vistas e pronto, tudo bem. Se uma pessoa estiver, sei lá, severamente deprimida, sem o apoio dos fármacos a nossa intervenção também não vale de muito, porque a pessoa não está minimamente disponível, não consegue. Quando as pessoas têm queixas do género «não durmo há três dias», quando têm uma esquizofrenia, obviamente têm de passar pela psiquiatria. Do ponto de vista clínico tem que haver uma determinada estabilidade, que é muito ajudada pelos psicofármacos, para depois nós podermos fazer o nosso trabalho. Com pessoas descompensadas, obviamente que é muito mais difícil. Até mesmo nas perturbações da ansiedade, se calhar é muito mais fácil de trabalhar se estiver com um ansiolítico por traz. Apesar que isso depois impede as estratégias cognitivo-comportamentais, mas sem dúvida que ajuda. Agora, quando são…mesmo em termos dessas perturbações, perturbações da ansiedade podem não necessitar. Mas a esquizofrenia precisa de certeza, depressões severas… Há pessoas que não se inserem tanto como doente mental, pessoas com dificuldades, sei lá, na educação dos filhos, alguma falta de articulação, temos de intervir a nível sistémico. Não lhes podemos chamar doentes mentais apesar de andarem na nossa consulta. Agora, esquizofrenias, depressões severas e assim, sem dúvida alguma que têm de ir primeiro a um psiquiatra.

E: São duas profissões que se complementam.

e: Sim, sim, sim. Acho que nenhuma se sobrepõe a outra. Não sou como outras pessoas que dizem «pois, não sei quê, porque os modelos da psicologia têm resultados muito superiores aos dos psicofármacos». Eu acho que se complementam, obviamente. Até porque as pessoas, com a vida de hoje em dia, querem resultados rápidos, não é?! E se calhar um treino cognitivo-comportamental para as perturbações de ansiedade é capaz de demorar mais tempo, enquanto se tiver a ajuda de ansiolíticos será muito mais rápido. Vão ter muito mais facilidade em aderir ao tratamento e em sentir os resultados.

E: Como é que um maior ou menor período de internamento interfere no processo de reinserção social?

e: No meu serviço não está dependente de nós. Têm aqueles anos para cumprir e têm mesmo de cumprir. Na clínica de agudos, penso que vai depender do quadro clínico. Se a pessoa tiver que ficar mais tempo, lá terá que o ser. Não me parece que estes dias curtos de internamento como é agora a política seja o mais… a pessoa tem de sair bem, senão é deitar fora todo o trabalho que é feito no hospital. em termos de serviço social, até arranjam uma rede de apoio social mas o doente não vai muito bem compensado clinicamente, chega lá fora e descompensa, pronto estraga-se tudo. Volta a ser internado e perdem a vaga. Portanto, acho que esta coisa das estatísticas só vem prejudicar os doentes. Sei que há pessoas que ficam mais tempo no internamento porque não há soluções sociais, mas há outros que não, que mereciam ficar mais tempo, mas que por algum motivo que não é clínico vão mais cedo.

E: Como contribui o hospital para a integração social do doente mental?

e: Em vários aspectos. O hospital compensa-os do ponto de vista clínico, estando compensado tem muito maior probabilidade de ter sucesso lá fora; e depois com a colaboração de todos os técnicos, nomeadamente do serviço social, são encontradas soluções ao nível da comunidade para integrar. Se calhar uma pessoa, sei lá, como na consulta externa…eu tenho lá várias pessoas com carências económicas, e obviamente com o contacto do serviço social são abertas mais portas. É a facilidade de ter alguém que lhes abra caminho para…

E: O hospital acaba por ser uma porta, mas também não pode ser um entrave?

e: Pois, isso pode ser um grande problema. Quando é para reinserir e vêem que vem do hospital psiquiátrico dizem «então está bem, queremos um relatório em como não tem doença psiquiátrica» e depois pegam naquele decreto-lei que tem um artigo qualquer que diz que os lares não podem receber portadores de anomalia psíquica e pronto. Não existem estruturas intermédias na comunidade. E até mais no caso dos inimputáveis. Muitos dos inimputáveis…às vezes as famílias, quer pelo tempo do internamento ser muito longo, se reorganizam sem eles lá, já não os querem, ou não têm condições para os ter. Depois existem os lares…o que é que acontece, a maior parte deles ainda não tem idade para ir para um lar, as estruturas que existem não dão resposta porque são muito poucas, portanto…faltam muitas estruturas intermédias, sem ser o hospital e família, falta ali um meio-termo. Depois há muito estigmas, nomeadamente os inimputáveis que têm um duplo estigma, para além de serem doentes mentais ainda cometeram um crime. Vão ficando, e vão ficando, e vão ficando. A reinserção é muito complicada, até porque aqueles que ficam até ao final da medida acabam por perder a liberdade para prova e são acompanhados pela DGRS, logo aí acaba por lhe faltar…depois acaba a medida e muitos acabam por ficar ficticiamente internados nos crónicos até se encontrar alguma coisa. Não é fácil, não.

E: Os psicólogos participam, também, na tentativa da reinserção?

e: Sim, muitas vezes… Ainda a semana passada fui com a Dra. Y [Assistente Social] a uma entrevista com a Associação dos deficientes, onde um doente vai ser integrado, com um curso de formação. Ela fala do social, mas depois é preciso alguém que fale do ponto de vista clínico, das competências que aquele indivíduo tem… as melhores estratégias para lidar em determinadas situações. Isso é tudo feito em equipa, é tudo…todos comunicam. Se não houver condições sociais, obviamente que vai descompensar do ponto de vista clínico, se não houver condições estáveis do ponto de vista clínico, não estão reunidas as condições para ser tratado o social.

E: Qual é a sua opinião em relação à psiquiatria na comunidade?

e: Acho que de facto é uma grande aposta, está contemplado lá naquele calhamaço do Caldas de Almeida. Psiquiatria na comunidade acho muito bem, já disse que faltam muitas estruturas intermédias, mas não sei se os senhores têm bem noção da quantidade de dinheiro que vai ser necessária para isto. Porque… psiquiatria na comunidade, estruturas mais pequenas para menos doentes, com o número de técnicos razoável para cada doente… isso implica custos. Até porque… vê-se no caso dos inimputáveis, havia mais serviços e agora vai haver uma unificação, só vai haver três serviços: centro, norte e sul. É precisamente o contrário daquilo que a teoria diz, que vale mais um número reduzido de doentes, com uma equipa do que ter muitos doentes e uma equipa deficitária. Já houve uma altura que não estavam a centralizar, agora estão a voltar a centralizar…não me parece que haja benefícios. Tínhamos uma unidade de 30 e agora temos uma unidade de 100. Noutro dia disse-se na reunião que é preciso recursos humanos, porque há doentes que…tudo bem que os conheço a todos mas alguns é de vista. Nós chegámos e já tínhamos os do Lorvão, depois vão-se passando situações em que é preciso intervir…vai-se adiando o conhecer melhor. À medida que se vai intervindo com os que já cá estavam, vai-se conhecendo situações, e há outros que vão ficando sempre em lista de espera, em lista de espera. Mas pronto, sou a favor da psiquiatria na comunidade, sim, mas desde que seja feita em condições. Com os recursos humanos adequados, com as estruturas adequadas.

E: Onde se manifesta a exclusão social do doente mental?

e: Na minha realidade, é quando chegamos ao final da medida de segurança e não os conseguimos meter em lado nenhum. Aqueles indivíduos que são do meio rural, toda a gente sabe do crime, ninguém os quer lá… As instituições, quando pedem relatórios a atestar que não têm anomalia psíquica… As empresas que não contratam porque tem deficiência mental…

E: E a família?

e: A família… acho que é fruto da sociedade de hoje em dia, as pessoas trabalham muitas horas, com muito pouco livre, e alguém com uma doença mental implica uma vigilância quase constante ou descompensações, idas ao hospital… e as pessoas não têm disponibilidade para…faltar ao emprego para prestar assistência. Então acaba por se pensar que institucionalizados estão melhor. Depois há sempre aquela crença do lá está melhor, tem vigilância todo o dia…

E: E o doente, auto-exclui-se?

e: (Silêncio) Nunca conheci nenhum…Preferem a família. Mesmo quando se arranja uma instituição eles dizem «mas eu tenho casa, tenho a minha mãe e o meu pai, tenho os meus irmãos». Nunca têm a noção que a família não os quer. Por vontade deles… é obvio que a família é muito importante, o ideal era que as famílias os pudessem acolher de volta, que houvesse estruturas na comunidade que dessem apoio…ocupá-los de maneira a que só estivessem em casa à noite, que não fechassem ao fim-de-semana, que não fechassem em Agosto, a doença mental também não tira férias em Agosto, nem tira férias ao fim-de-semana. Ainda agora, tínhamos um doente para ser reinserido em Julho, só vai em Setembro porque a instituição vai fechar em Agosto e depois não tinha sítio onde ficar a dormir. Não pode lá ficar das 9h às 5h, então fica cá até Setembro.

E: Nota-se alterações nos doentes quando há a presença da família, se telefonam?

e: Muitos não têm muito bem noção, mas sim, sim. Gostam muito de ser visitados, o que não acontece muitas vezes, gostam muito dos telefonemas. Nunca se esquecem do dia em que é para fazer o telefonema. E pedem muitas vezes para ir de 48h, para ir de precária, gostam muito de ir. E nota-se que aqueles que não vão, quando é na altura de precária ou nas férias da Páscoa ou do verão ou do Natal, ficam… há ali outro ambiente, ficam pela sala, caladinhos, melancólicos, nota-se. E alguns verbalizam mesmo. Ficam tristes de facto. Mas pronto, há situações muito diferentes. Muitos cometeram o crime no seio da família.

E: É complicado… Como é a sua relação com os outros técnicos de profissões distintas?

e: Depende. Por norma dou-me bem com toda a gente. O que tenho de articular em termos técnicos, do serviço, obviamente que sim, não tenho chatices com ninguém.

E: A relação com médicos, por exemplo, é fácil?

e: Com aqueles com quem eu costumo trabalhar, sim, são pessoas disponíveis, é fácil articular em relação aos doentes…ouvem as nossas opiniões.

E: Existe multidisciplinaridade?

e: Trabalho com os médicos, com os assistentes sociais. Há um grande trabalho multidisciplinar… também há uma boa partilha de informação, com duas equipas de enfermagem, há lá três. Estas perguntas desde que não sejam feitas com uma equipa de enfermagem em especial, é tudo muito bom, há uma boa relação e faz-se trabalho multidisciplinar, com a outra não. Eles não articulam.

E: Em que consiste essa multidisciplinaridade?

e: Normalmente reunimos. Em qualquer situação, passamos no serviço e falamos «passa-se tal, tal e tal» e reunimos ali, o que vamos fazer, o que não vamos fazer. É assim.

E: Com a outra equipa… são eles que se afastam?

e: Afastam-se, nunca há nada para dizer nas reuniões…parece que todas as decisões são tomadas como ataques pessoais. Não percebo… Acho que nisto só os doentes é que saem prejudicados, pela não articulação com as pessoas.

E: Só mais uma pergunta! Como é a autonomia dos psicólogos?

e: (Silêncio) É muito limitada.

E: Em que termos?

e: Por exemplo, a maior parte dos doentes que chegam até nós são encaminhados pelo médico psiquiatra…No serviço de inimputáveis isso não se passa, porque todos os doentes que chegam são logo distribuídos a todos os elementos da equipa, ao psiquiatra, ao psicólogo, ao assistente social. Todos têm. Sei que isso não acontece nos agudos, em que estão dependentes do psiquiatra. Pronto, mais nesse sentido. Aqui não se passa, mas tenho colegas minhas que estão em determinado sítio e a intervenção é assim «olhe, aplique-me o QI» e, pronto, passa não é?! E a intervenção não passa daí. Aqui isso não acontece. Vamos articulando com o médico, se está bem se não está, o que foi feito, o que não foi. A este nível somos autónomos. Aqui não somos postos de parte nem limitados na nossa autonomia, não somos nenhum pau mandado. Mas há arestas a limar.

E: Terminámos. Obrigada pela colaboração!






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