Entrevista com o Prof. Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, 2014



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Encontro02.03.2019
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O reequacionamento do binômio juros-câmbio acaba sendo, de alguma maneira, constrangido pela institucionalidade do regime de metas?

Claro. Outro dia, conversando com um dos melhores “economistas tucanos”, ele disse: “- o problema é a taxa de juros!”. Tudo bem, a taxa de juros é um problema. Mas como você faz? Você reduz a taxa de juros e deixa o câmbio disparar? O que vai acontecer? Acontece que você tem um choque inflacionário. Ele disse: “- é verdade.”. Por qual razão? Porque você desviou todo o fornecimento de peças e componentes para fora. E ele concordou comigo. O choque inflacionário é enorme por causa das importações. Mas você tem irreversibilidades. Essa é uma outra coisa. A economia convencional neoclássica de equilíbrio geral não tem “tempo”. O tempo que ela tem é fictício, não existe. Não tem dinâmica, portanto, não tem movimento. E essa economia capitalista é, sobretudo, movimento. O que você faz, sem movimento, é ficar brincando com um sistema de equações, fingindo que você está introduzindo uma dinâmica. Não tem dinâmica nenhuma.



Nós poderíamos dizer: “tempo lógico ancorado em axiomas muito questionáveis.”

Perfeito. Você definiu com mais precisão o que eu estava dizendo. É isso mesmo... “tempo lógico ancorado em axiomas muito questionáveis”.



Para terminar, eu gostaria de fazer uma última questão, a saber: como o Professor avalia a Associação Keynesiana Brasileira?

Eu acho que vocês, que esse tipo de Associação tem uma importância enorme. Não apenas porque elas, mesmo com diversidades de pontos de vista, são capazes de reunir e acolher todos os economistas que, na verdade, procuram outra perspectiva teórica, de pontos de vista, ideológica, no bom sentido, no sentido de visão do mundo.



Schumpeter, entre outras virtudes, tinha a agudeza de perceber que existia uma diferença, entre os economistas, entre a visão e o método. Primeiro vinha a visão, depois o método. Ele era um europeu sofisticado. Não nasceu em Ohio e, portanto, tinha a ideia de que primeiro vinha a visão. Ele viveu em Viena, terra do positivismo lógico, de Freud. Ninguém passa incólume a essas coisas...

Então, a existência desse espaço de debate criado pela AKB é muito importante e eu espero que vocês levem isso adiante. É importante você ter diversidade de pontos de vista, estimular mesmo as diferenças. Porque hoje a universidade, você há de concordar, você está lá, está um pouco refratária a que você tenha mais ousadia. Porque ela começa a colocar aquelas regras... E uma associação como a AKB pode ter um papel enorme. Eu acho que ela pode até receber - e certamente vai receber, com prazer - os schumpeterianos, os marxistas etc. Acho que tem um papel fundamental e espero que ela tenha perenidade porque a universidade do jeito que anda, submetida a todas essas “regrinhas”, de “pontinho para cá, pontinho para lá”, não favorece a ousadia e a criatividade.

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