Entrevista com o Prof. Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, 2014



Baixar 75,39 Kb.
Página6/7
Encontro02.03.2019
Tamanho75,39 Kb.
1   2   3   4   5   6   7
A impressão que dá é que a viabilização da recuperação dos efeitos do estouro de uma bolha envolve a criação de novas bolhas, de sucessivas bolhas...

Exatamente, é isso. Quer dizer, na verdade, para colocar essa economia funcionando razoavelmente e crescendo modestamente, com um padrão aceitável, você precisa criar várias bolhas, uma seguida da outra...



Sendo que os estouros sempre se revertem contra os estados nacionais, em um sistema tido como globalizado...

É isso mesmo. Não tem coordenação internacional disso. Quando estoura, quem arca com o ônus é quem não tinha nada a ver com a bolha.



A ideia de constituir um fundo de estabilidade financeira global baseado em taxação sobre os fluxos internacionais de capital parece ser uma alternativa...

Essa é uma alternativa e que também está no livro do Piketty. Ele sugere um imposto mundial sobre a riqueza para fazer esse fundo. Ele está pensando em questões relativas à distribuição de renda, mas também com a estabilidade financeira. O que está acontecendo é que isso está sendo feito regionalmente. Por exemplo, veja o acordo dos BRICS. O que isso significa? No fundo, é a busca de defesas contra a instabilidade desse capitalismo. Recentemente, acho que Delfim escreveu sobre isso, dizendo que nós não podemos sobrevalorizar, mas também não podemos subvalorizar esse acordo dos BRICS. Isso é muito importante por várias razões. Você criou um banco de desenvolvimento e um fundo de estabilização contingente. Isso está surgindo e eu acho que essa é uma experiência importante que o Brasil está estimulando também, porque isso mostra que, nessas circunstâncias, você precisa de instrumentos como esse.

Eu vi o ministro das finanças francês dizendo que é insuportável que o dólar ainda mantenha esse privilégio de ser a moeda reserva, porque esse é um obstáculo para a estabilização. Os chineses estão claramente internacionalizando, em boa medida, o yuan na Ásia. Nós vamos assistir nos próximos meses e anos, que J. M. Keynes estava à frente do seu tempo. Porque todo mundo está pedindo um sistema internacional que seja capaz de atenuar os desequilíbrios nos balanços de pagamentos e condições de financiamento adequadas para que os países não precisem fazer ajustamentos recessivos ou deflacionários. Nós precisamos nos lembrar que hoje Bretton Woods está fazendo 70 anos. E, cada vez mais, eu me convenço de que J. M. Keynes estava adiante do seu tempo, que ele tinha razão.

Eu gostaria de deslocar um pouco a discussão, à guisa de fechamento, para alguns assuntos relacionados à economia brasileira. Uma, mais geral: quais são as suas impressões sobre a economia brasileira atualmente? Porque o que nós temos é uma conjunção de elementos que, se fosse um paciente, nós diríamos que ele não tem estado em sua plenitude: uma situação de baixo crescimento, taxa de juros ainda elevada, inflação acima da meta e déficits em transações correntes com baixo crescimento... Qual é a sua avaliação sobre essa situação e como as ideias de Keynes podem ser úteis para romper com essa encruzilhada?

Antes de mais nada, o déficit em transações correntes com baixo crescimento, com desaceleração. Keynes viu claramente nos anos 1920 que a Inglaterra não podia ter voltado ao padrão-ouro àquela taxa de câmbio. Depois, ele viu o fenômeno das “desvalorizações competitivas”. E foi isso que fez com que ele recomendasse taxas de câmbio fixas. Mas ele supunha que as taxas de câmbio seriam fixas, mas ajustáveis. Em as "Consequências econômicas de Mr. Churchill", ele diz: “- Você vai destruir a indústria inglesa”. Foi isso o que ele disse ao Churchill, e ele realmente destruiu a indústria inglesa.

Nós estamos ainda nas consequências econômicas de “Mr. Cardoso”. Foi ele quem fez a primeira “estripulia” de valorizar o câmbio. Isso é o que me deixa um pouco preocupado. A ideia de Keynes é que você não pode valorizar o câmbio em um mundo supercompetitivo, como é o que o Brasil está enfrentando agora com a China e os países asiáticos, porque com a valorização cambial você destrói a estrutura industrial nacional. Keynes botou o “dedo na ferida”. E os seus prognósticos sobre a indústria inglesa, que eram muito negativos, acabaram se confirmando. A Inglaterra, do ponto de vista da manufatura, é hoje uma economia de segunda classe, embora seja um centro financeiro muito importante. Foi o que ele [Keynes] disse: “ - Churchill cedeu aos argumentos da City.”. E nós estamos cedendo aos argumentos... Nós não temos uma City aqui... Nós temos um mercado financeiro de especuladores... Eles gostam muito do câmbio valorizado e, sobretudo, da volatilidade cambial. Acho que esse é um problema sério da economia brasileira. Isso prejudica muito a possibilidade de crescimento, pois nós temos uma indústria que está perdendo vigor. Qualquer recuperação passa pela recuperação e pelo fortalecimento da indústria. Entendo que se trata de um problema estrutural.

Nos últimos 20 anos, o câmbio no Brasil foi convertido em um instrumento de combate à inflação. Os autores da política de metas a formularam desconsiderando a realidade dos países que não emitem a moeda reserva. Se considerarmos os anos 2000, a partir de certo momento a inflação estabiliza em torno de 5,5%. E ainda tem o problema da indexação. Então, qualquer questão da economia brasileira hoje passa pelo câmbio. Outro dia perguntaram-me: “- Você acha que é só o câmbio?” Acho que é principalmente o câmbio. “Só o câmbio”, não existe isso. Qualquer desvalorização nominal vai causar uma desvalorização real inferior àquela desejada inicialmente, por causa da inflação. Estamos metidos nessa “encrenca”. A segunda, e todas as outras coisas, são decorrentes dessa.

O baixo nível de atividade torna difícil uma política fiscal como eles queriam. Agora não é mais o caso, porque eu acho que a política fiscal deveria ser mais ativa, porque a economia está deslizando para baixo. A menos que você tenha um outro caminho, que é o caminho da aceleração das concessões e dos investimentos em infraestrutura, bem como a aceleração dos investimentos da Petrobras e o papel da Petrobras como fornecedora de divisas para diminuir o déficit em transações correntes, para que nós tenhamos tranquilidade para mexer nas coisas mais à frente. Mas nós temos um momento de transição muito difícil.



Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7


©psicod.org 2019
enviar mensagem

    Página principal