Entrevista com o Prof. Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, 2014



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Mas, de alguma maneira, o Instituto de Economia da Unicamp herdou essa abordagem integradora e plural. Certamente, uma das origens é justamente essa...

Exato. O acaso. Como dizia Ulysses Guimarães sobre a Política: “- A Política é como a nuvem: cada hora ela está em uma forma diferente.”. Então, aquilo foi acontecendo, pela ação das pessoas. E, depois, chegaram os "chilenos". Alguns um pouco antes do golpe, outros um pouco depois... A [Maria da] Conceição [Tavares] acho que um pouco antes, depois vieram o [Carlos] Lessa, o [Antônio Barros de] Castro, o [Carlos] Alonso [Barbosa de Oliveira], o [José Carlos de Souza] Braga. E assim nós fomos, na verdade, formando um grupo de gente que tinha mais ou menos a mesma visão sobre as coisas. Nós, então, escolhemos uma linha de investigação, de discussão, a partir da ideia central - que nós herdamos em boa parte do Celso Furtado - que é discutir o Brasil, fazer a crítica das teorias da CEPAL e retomar os autores que nós considerávamos relevantes para o entendimento do capitalismo. Você é testemunha que nós buscamos inspiração em [Karl] Marx, em [John Maynard] Keynes, em [Joseph] Schumpeter. E, depois, em seus descendentes. Era, no fundo, o debate sobre a morfologia e a dinâmica de uma economia periférica vista como uma dimensão da economia capitalista. Então, as pessoas perguntam: “- Vocês eram desenvolvimentistas?”. Não sei. Se você incluir nessa epígrafe essa definição, nós somos. Mas, na verdade, nós estávamos mais preocupados em discutir, em rediscutir, na verdade, a estrutura e a dinâmica dessa economia periférica capitalista.



Não com rótulos, mas com conteúdo...

Sim, exatamente.



Nas suas primeiras obras, é muito evidente a presença, senão hegemônica, preponderante de Karl Marx. Em que momento o Professor teve contato com as ideias de J. M. Keynes e qual foi a sua reação em relação a elas?

Essa história do Keynes é muito interessante porque em "Conversas com Economistas [Brasileiros]", a Conceição disse que aprendeu a ler Keynes comigo. Ela tem essa generosidade. Não foi bem isso, porque nós lemos juntos. Na verdade, eu já havia lido o livro do [Raúl] Prebisch - "Introdução a Keynes" - na faculdade de Direito, para escapar de algumas aulas mais chatas do curso. Eu não tenho nenhuma certeza de que havia compreendido bem, na sua integridade. Mas, simplesmente, a leitura despertou-me alguma curiosidade sobre a peculiaridade desse “pensador”. Iria falar desse “economista”, mas Keynes não era um economista. Keynes era um homem público, um pensador, um economista muito peculiar, digamos.

Então, quando nós fomos para Campinas, a Conceição chegou e nós estávamos fazendo nossas teses de doutoramento. Eu estava fazendo “Valor e Capitalismo”, o João Manuel “Capitalismo Tardio”. E logo depois de terminar, eu me dediquei [à leitura das obras de Keynes]. Na verdade, eu e Luis Antônio de Oliveira Lima, que foi meu companheiro de leitura da Teoria Geral [do Emprego do Juro e da Moeda] e, depois, do Tratado sobre a Moeda e dos outros livros. Nós ficamos fascinados com o radicalismo de Keynes, que ele queria esconder. Na verdade, ele [Keynes] gostaria de ser considerado menos radical do que ele realmente foi na análise do funcionamento do capitalismo. E nós ficamos fascinados com a qualidade, sobretudo da análise da economia capitalista como uma “economia monetária”, isto é, a ideia de uma economia monetária da produção.

Logo depois - isso foi nos anos 1980 -, surgiu o volume 29 [dos “Collected Writtings of John Maynard Keynes”], um dos trabalhos preparatórios da Teoria Geral. Nesse trabalho sobre economia monetária da produção, a diferença entre a “economia empresarial” e a “economia cooperativa” ou “economia de salário real” mostra que, quando Keynes foi buscar os fundamentos que sustentam a Teoria Geral, ele estava muito ancorado em dois autores, fundamentalmente em [Alfred] Marshall e em Marx. Ele dizia que Marx tinha, digamos, "a pregnant observation", que era a ideia do D-M-D'. Agora, o resto ele dizia ser algo talmúdico. Eu não gosto disso. Claro, Marx era alemão, Keynes era inglês. Keynes tinha uma forte influência platônica, havia lido todos os clássicos, o que é visível na obra dele. Então, nós em Campinas - a Conceição, eu, o Luciano [Coutinho], o próprio João Manuel, que tinha uma certa distância em relação a Keynes e, depois, ficou cada vez mais impressionado com ele como intelectual, pela amplitude das questões das que ele tratava -, tínhamos uma leitura de Keynes que não era usual aqui no Brasil, porque a leitura usual era a do Keynes "hidráulico", que a Joan Robinson chamava de “keynesianismo bastardo”, que prevaleceu durante muito tempo até por causa da experiência dos anos do pós-guerra (1950-60). Quando o keynesianismo era visto como uma política de redução da instabilidade do capitalismo. Se você olha alguns trabalhos dos keynesianos daquele período, você não tem praticamente uma discussão sobre a natureza do dinheiro, sobre a moeda, sobre o conceito de “preferência pela liquidez”, que é um conceito crucial. Nós começamos um debate entre nós. Nesse período, a Unicamp era muito marcada por isso, havia um clima de muita cooperação entre nós, de discussão. Frequentemente, a Conceição se exaltava com alguma coisa, e isso era bom, porque era uma forma de você começar a desconfiar do que você estava dizendo. Fez muito bem para a valorização de Keynes como economista singular, um economista que estava muito acima e que continua, eu diria, muito acima do que fizeram e do que estão fazendo os economistas hoje.





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