Entrevista: 4



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Entrevista: 5

Data: 12/03/12

Nome: Jerusa (B. D. C. J.)

Idade: 24 anos

Escol: ensino superior incompleto (enfermagem)

Profissão: Caixa de supermercado.

J: Eu trabalho lá há quase um ano, e nem gosto e nem desgosto. Não é muito o que eu gosto de fazer, mas como está muito difícil trabalho.

E: e você já trabalhou aqui em Portugal com o que você gostasse D.?

J: Não B.

E: ah! Desculpe, B.

J: Não, não trabalhei, porque lá no Brasil como eu tava a trabalhar com enfermagem eu fazia um estágio e depois fui contratada num laboratório de análises clínicas e eu gostava muito de fazer aquilo. Comecei aprender e a gostar e era bom e eu gostava o ambiente era bom e gostava do que fazia. Depois surgiu a oportunidade de vir aqui pra Portugal, fiquei um bocado receosa por não conhecer, só que na altura como o que eu ganhava no laboratório não tinha como eu suprir as minhas necessidades, é...a faculdade, as despesas e tal, não tava dando pra pagar a faculdade. Ou eu desistiria do curso e por fim acabaria perdendo também o trabalho, porque tinha que ser concluído ou eu viria pra Portugal tentar...tentar trabalhar, na altura foi essa a minha idéia, vim pra tentar trabalhar. E vim, mas as coisas já não estavam tão bem aqui como parece.

E: então você não conseguiu aqui tentar um trabalho como...

J: Na altura eu tentei transferir o meu curso pra aqui, eu consegui um trabalho numa cafeteria, não tinha experiência nenhuma, mas consegui transferir o meu curso pra aqui. Ainda consegui, ia tentar transferir o meu curso, mudei-me pra Faro, fui lá na Universidade de Faro. Só que eu só conseguiria transferir o curso é...no terceiro semestre já concluído e era muito burocrático, eles me pediam muitos papéis e tal, mas se eu já tivesse o terceiro semestre já concluído daria. Mas não deu pra transferir o curso e na altura, quando eu cheguei aqui, com uma semana já conheci o meu marido e a gente já namorava. Ele morava aqui em Portimão, eu acabei mudando pra Faro, porque tinha duas amigas minhas que faziam faculdade lá e ficava muito dispendioso pra elas irem todos os dias. Então voltei pra Portimão e acabamos casando e foram outras coisas vindo e o curso foi ficando mais pra trás. Mas eu ainda penso em voltar a estudar, por enquanto estou fazendo inglês que também é muito bom, quando acabar o inglês vou tentar psicologia. Vou tentar entrar aqui, nessa faculdade que tem aqui.

E: e aqui fica perto de casa, né?

J: Pois é, fica melhor. Na altura em que eu vim pra cá, comecei a trabalhar e a gente tava tentar organizar a nossa vida. Que foi tudo assim muito novo, né? O casamento, era filho era...e na altura em que eu pensava em voltar a estudar foi na atura em que eu fiquei grávida do meu bebê, que eu tenho um bebê, né? Aí tive que adiar outra vez, teve que ser adiado, tive que adiar.

E: então tem sempre outras coisas que acabam sendo prioridade pra você?

J: É, pois é, aí tava a espera que ele ficasse mais velho e tal, porque a gente já trabalha o dia todo, já não temos tempo praticamente pra eles, não é? E a noite eu gosto de estar em casa com eles, gosto de jantar com eles, gosto de dar atenção, gosto de ensinar os trabalhos. Então é isso que acaba por dificultar um bocado as coisas, é à noite. Eu não estar em casa com eles à noite, isso é muito complicado.

E: e você tem dois, né?

J: É um de sete, que já está na segunda série, no segundo ano e tenho outro que vai fazer dois anos agora em abril, o R.. Mas é isso, é assim...no início tive um bocado de dificuldade de adaptação aqui. Primeiro porque eu nunca tinha trabalhado em cafeteria, nunca tinha trabalhado em limpeza, nunca tinha trabalhado em nada disso. Então eu fiquei um ano desempregada, a tentar achar trabalho na minha área, só que não encontrava, fiquei um ano desempregada.

Aí, na altura eu disse ao meu marido: eu não consigo fazer um curso porque eu não tenho um trabalho pra fazer um curso, desse jeito a minha vida não vai pra frente. Ou eu faço outra coisa que eu não saiba fazer ou vou ter que voltar pro Brasil, porque aqui eu não posso ficar assim.

E foi isso que aconteceu, primeiro fui trabalhar numa cafeteria, quando cheguei aqui, né? Lá em Faro tal eu trabalhava numa cafeteria. Depois quando vim pra aqui fiquei desempregada um ano, não achava trabalho na minha área, teve uma amiga minha, uma amiga da igreja que disse pra mim que tinha um trabalho no condomínio pra fazer limpeza de escadas e tal. E eu como não encontrava trabalho em nada mesmo, falei: não, tem que ser. Aí fui trabalhar nisso, trabalhei nisso seis meses, foi cansativo. Eu chegava em casa, só tomava banho, nem jantava de tão cansada que tava.

E: você não tinha filho ainda na época?

J: Já tinha o G., o mais velho, mas eu chegava em casa tão cansada, que só tomava um banho e deitava. Acabou. E foi muito cansativo mesmo, depois a seguir a esse trabalho, tive a oportunidade de conhecer esse casal, que é uma portuguesa e um brasileiro, que é o S. e a N.. Conheci eles dois e eles disseram assim: B. você não dá pra esse trabalho, você tem que arranjar um trabalho, que você tem boa aparência, você fala bem, você tem que arranjar um trabalho que seja bom pra você, esse trabalho é muito cansativo pra você. E eu falei:Pois, eu ando a procurar. Não conhecia ninguém na altura, porque o mal é não conhecer ninguém, é chegar aqui e não conhecer ninguém, não tem como, não encontra. E a pessoa parece um bocado perdida, não é? Você ta aqui, não conhece ninguém e agora? O que que vai acontecer? Aí o que que aconteceu? Eles arranjaram trabalho pra mim no hotel, no Vista Marina, que na altura, o meu filho tinha por volta, ia fazer quatro anos e eu consegui por ele na escola do pontal, ficava do lado do hotel, do Vista Marina, ficava mesmo do lado. Aí ficava mais fácil, ele já ta lá há três anos quase.

Aí fiquei lá a trabalhar, fiquei lá até ficar grávida do R., quando fiquei grávida do R., na altura era uma gravidez de risco. Eu com duas semanas de gravidez não sabia que tava grávida, tive uma hemorragia muito forte, fui no hospital e o médico disse: você vai ter que escolher, ou você vai trabalhar ou você vai ter o bebê, porque se você for trabalhar você vai perder o bebê. Você tem que ficar em casa de repouso.

Mesmo assim, ainda fiquei praí um mês em casa de baixa. Depois na teimosia, achei que tava melhor, fui trabalhar. Cheguei lá tive outra hemorragia, mas não sentia dores nem nada. De repente tive outra hemorragia, aí tive mesmo que ficar em casa.

E: aí optou então pra ficar a gravidez toda em casa, depois é que foi trabalhar?

J: Pois, fiquei a gravidez toda em casa, depois na altura, quando saí da baixa maternidade, já não era baixa, era assim: o R. tinha três meses, nasceu em abril. Abril, março, não, é abril, maio, junho. Julho e agosto, se eu ficasse em casa julho e agosto já não arranjava mais emprego, porque agosto, setembro já não se arranja mais nada. Então eu optei por voltar a trabalhar em junho, aí na altura já tinha feito algumas inscrições em alguns lugares, aí o Pingo Doce me chamou. Aí fui trabalhar no Pingo Doce, aí eu fiquei lá ainda muito tempo, depois na altura a minha chefe tinha um certo preconceito com estrangeiros, ela não gostava. Ela não escondia que não gostava, então eu era sempre ofendida por ela. Teve um dia que ela falou assim, que eu ia fazer a limpeza da charcutaria, que eu trabalhava na charcutaria, fazia limpeza da charcutaria toda. E o meu colega virou pra ela e disse assim: mas a B. vai fazer essa limpeza sozinha. Porque geralmente fazíamos de dois.

Ela virou pra ele e falou assim: agüenta, agüenta, ela é brasileira, ela tem cabedal. E sempre mandando boquinhas dessas sabe, que a brasileira agüenta, que a brasileira veio aqui pra trabalhar, que se é brasileira tem que fazer, não vieste praqui pra trabalhar, tem que fazer e era sempre isso, me ofendia, mesmo que eu precisasse do trabalho, incomodava um bocado. Quando foi um dia, tava passando um colega de trabalho, um senhor já bem de idade, aí ela pegou e...tava chateada comigo, ela sempre tava chateada...não sei, por mais que eu fizesse, ela sempre tava chateada comigo, não sei, não conseguia, ela não gostava mesmo de mim. Tanto que tinha um rapaz no talho, que trabalhava do lado que também era brasileiro e disse que já trabalhava ali há dois anos e todos os dias passava e dava bom dia e ela não respondia. Ela não gostava mesmo, e quando foi um dia ela chegou pra mim e falou. Aí o colega passou e ela disse assim tipo: não quer ir dar uma voltinha com a brasileira. Tipo uma coisa assim, sabe? E eu não dava lugar pra ela ter essas brincadeiras comigo...num...num dava espaço. Nem pra ele nem pra ela. Aí ele pegou, aí ele pegou e falou assim, aí ele ficou todo sem-graça o colega, sabe? Já era um senhor de idade, aí ela falou assim: leva a brasileira pra não sei aonde porque as brasileiras gostam disso. Aí falei: não, isso assim não pode ser, isso pra mim chega. Aí fui até um superior dela, o diretor, que é o senhor L. G. e falei com ele: senhor L, aconteceu isso, isso e isso, não to satisfeita e não gostei. Ele falou: pois é B. mas ela já trabalha aqui há vinte e três anos. Eu falei: sim, mas ela me faltou com o respeito. Ele: então vou chamar ela aqui na sala. Chamou. Eu disse isso a ela e ela disse assim que não falou aquilo pra ofender, que aquilo não foi uma brincadeira de ofender. Foi uma brincadeira que ela fez comigo, que eu tava sempre muito fechada, muito coisa, então que ela fez aquela brincadeira pra descontrair. Aí eu falei: mas não se faz esse tipo de brincadeira a ofender as pessoas dessa forma, não é? Isso é discriminação eu disse a ela: é discriminação. E aí ela disse que era uma brincadeira e o senhor L. pediu pra mim ter paciência que ele ia me transferir de lugar, mas pediu pra mim ficar ali por enquanto.

Então ficou um clima muito pesado, ela começou a me mandar fazer mais noites, eu só fazia noites. Começou a cortar asminhas folgas, começou a me dar mais trabalho, ela começou a implicar mesmo comigo, porque ela virou pra mim depois que saiu da sala do senhor L. e disse pra mim: em vinte anos que eu trabalho aqui eu nunca tinha sido chamada nesta sala. Bom, mas eu não achava que isso podia ficar assim em branco também, eu já tava agüentando as ofensas dela há muito tempo, eu achei que eu devia tomar uma atitude, sabe? E aí, na altura, como é que se diz, eu peguei e falei: ó senhor L.. Passado uns dois ou três dias eu falei: olha senhor L. não vou esperar mais.

Ele: B. mas espera que eu vou conseguir te encaixar na outra loja, só tem que esperar um pouco, chegar até o final do mês.

Eu não agüentava mais, tava um clima muito pesado, todos os dias eu saia de lá eu chorava, chorava, chorava, ficava deprimida, falei: não, não pode ser.

Até hoje quando eu encontro ele, ele fala que as portas estão abertas pra mim que ele gostou muito de mim como funcionária, que se eu quiser voltar a trabalhar lá posso procurar ele. E eu penso várias vezes nisso, porque é uma empresa boa, o Pingo Doce, eles pagam direitinho, pagam bem e tal, só que quando eu penso naquilo eu me desanimo completamente, já não...não...não quero. Aí na altura em que eu saí de lá, no mesmo dia eu comecei a trabalhar no Spa, aí to até hoje.

E: então você gostou de trabalhar nesta empresa e gostaria de voltar lá mesmo que as funções não seja o que você procurava?

J: Não são, mas eu gostava, gostava porque eles são muito certinhos, se você faz horas a mais, pagam suas horas a mais, você não precisa fazer...tipo, aquela exploração, onde eu trabalho é um bocado assim, tem que fazer horas a mais e eles não te pagam, eles não querem te dar as horas pra você estar em casa. Eles não, se eles te pedir: venha trabalhar na sua folga. Aquele dia era pago, sabe? Não era assim, era assim: B. você pode vir trabalhar na sua folga? Com dois ou três dias de antecedência, era uma empresa em condições, não tem nada a ver com o que ta por aí.

E: então no...no que diz respeito às questões de trabalho você ta insatisfeita?

J: Ah! Muito, por mais que uma pessoa faça se esforce, as pessoas exploram, sabe? É isso que me deixa chateada porque eu não me importo de fazer o meu trabalho, eu não me importo de trabalhar de qualquer coisa, eu trabalho. Se eu digo assim: eu vou trabalhar. Pode ter a certeza que eu vou trabalhar, não vou pra conversar, não chego atrasada, eu trabalho, eu vou pra trabalhar. Agora, o que eu não gosto é que as pessoas abusam, não é? Então é assim, lá no meu trabalho por exemplo é assim, no verão tínhamos empregado de limpeza. De verão chegou dias de eu fazer doze horas de seguida, sabe? E disseram que essas horas iam ser gozadas agora de inverno e nunca foram, sabe? Quando eu falo nisso não gostam, depois o que que acontece, saí de férias e não recebi o subsídio de férias, não me pagaram, disseram que não tinham. Exemplo, hoje são doze e eu ainda não recebi, vou receber quinze, dezesseis.É uma coisa também que eu não gosto, que eu também tenho as minhas despesas. Eu não gosto de atrasar porque quando a gente ta sem trabalho pode se dar uma desculpa: ah não, eu to sem trabalho. Quando a pessoa ta a trabalhar, a pessoa do outro lado que precisa receber, não é? Então é assim, o que é que se passa? E depois não tinha empregado de limpeza lá, de repente despediram o empregado de limpeza. Eu falei assim: olha, eu não me importo que despeçam o empregado de limpeza, a questão é desde que eu faça a limpeza dentro do meu horário, não é? Então é assim, se eu saio às cinco e meia eu tenho que fechar minha caixa as cinco e quarenta e cinco e ainda tenho que fazer limpeza dos balneários de lá de dentro e do..do...do armazém. Então todos os dias eu não saio cinco e meia, saio seis e meia e às vezes eu tenho que buscar meu filho na escola que sai as seis, chego atrasada. Depois tem que ir pro curso que começa as seis no meu dia de curso, que são os dias que eu preciso deles, um é segunda-feira e o outro é quarta-feira. Não chego no curso na hora certa e não ta dentro do meu horário, quer dizer, se eu chego na minha hora certa todos os dias, se eu faço as minhas horas certas no almoço, o que custa eles também cumprirem aquilo que disseram, então é isso, quando foi esses dias eu cheguei pro meu chefe e falei, era uma quarta-feira, eu ainda tava lá um quarto pras seis, ainda tinha que fechar a caixa, ainda tinha que buscar meu filho, ainda tinha que ir pro inglês. Aí ela virou pra mim e falou: quem vai fazer a limpeza dos balneários?

Eu falei: olha dona E. eu não posso fazer, porque ainda tenho que buscar meu filho e já venceu o meu horário, aliás eu estou a mais no meu horário.

Ela falou: mas não é assim dentro do horário.

Eu falei: é sim senhora.

Eu falei: desde que a senhora me peça, a senhora quer que eu limpe o mercado todo como já aconteceu? Eu limpo, mas desde que esteja dentro do meu horário, sabe? Quando a gente entra as onze, porque uma semana eu entro às sete e meia da manhã, tenho duas horas de almoço e saio às cinco e meia, outra semana eu entro às onze da manhã, uma hora de almoço e saio às oito. A gente nunca sai de lá as oito, é oito, nove horas, tem que fazer a limpeza toda. Então é assim, eu não me importo, sabe? De fazer a limpeza, desde que eu não tenha compromisso a cumprir, agora os dias que eu tenho compromisso é complicado, porque é exploração, acabam por abusar um bocado da pessoa.

E: nesse sentido é que você disse que está insatisfeita com o seu trabalho?

J: Nesse sentido, receber tarde, receber mal, não pagarem as horas que a gente faz a mais, mas não querem dar as horas que a gente fez a mais. Em relação a tudo isso eu to muito insatisfeita mesmo.

E: então vamos retomar, porque você também tem compromisso, não é?

Há quanto tempo você deixou o Brasil?

J: Cinco anos.

E: que fatores te levaram a deixar o país D., B.?

J: Na altura como eu já disse foi a falta de oportunidade em relação a...a...eu não tinha, o custo de vida no Brasil é muito alto, né? Como a gente já sabe, então e a pessoa ganha muito mal. Salário mínimo quando eu saí de lá acho que era quinhentos e tal reais, quinhentos e vinte reais, se eu não me engano, por aí, né? Ou era quatrocentos e tal, já não me lembro. Aquilo eu pagava, trezentos e oitenta e cinco de faculdade e ainda tinha que pagar o transporte e ainda tinha que pagar a comida, não me sobrava nada, na altura não me sobrava nada, e tava a ficar cada vez mais difícil e na altura eu tava tendo muita dificuldade, o meu...o gerente do banco me deu uma oportunidade de ter um cartão de crédito. Aí eu fui aderir a esse cartão de crédito na altura e aí não tinha dificuldade porque tinha o cartão de crédito, depois foi ficando muito mais difícil de pagar o cartão de crédito. Então já tava a virar um novelo de lã, eu tava ali e já não conseguia sair dali. Muita coisa pra pagar e já tava com cartão de crédito, já tava...aí foi quando essa amiga minha me ofereceu a oportunidade de vir aqui trabalhar, me ofereceu a casa dela, éramos vizinhas, já era amiga de infância, então eu aproveitei e vim, vim tentar. Na altura foi mesmo por isso, até porque eu gosto da mina terra, Bahia, eu gosto muito do Bahia.

E: qual é a cidade?

J: Porto Seguro.(risos)

É verdade, é o paraíso, né?

E: sair de lá e vir pra cá foi um choque inicial?

J: Ah, foi, foi demais.

E: em que sentido você percebeu essa diferença assim?

J: Primeiro é a parte da...hoje em dia eu não penso dessa forma, porque eu já consigo...já consegui, como é que se diz, já consigo interagir mais com as pessoas, mas no início eu sentia muita dificuldade, porque eles aqui também tem muita dificuldade em aceitação, não é? Então, eu achava um bocado de discriminação, achava que as pessoas eram um bocado frias, e às vezes por ser estrangeiro tratavam mal, sabe? Falta de educação e tal. E eu tava sentido dificuldade nisso, porque eu vim da Bahia, os baianos são muito receptivos, são pessoas muito agradáveis, conversam muito e tal e ajudam. Mas quando cheguei aqui, fui criada lá desde pequena, tinha os maus amigos e a minha família, tava habituada aquilo, toda gente me conhecia, então quando eu cheguei aqui tomei um susto, foi um choque pra mim. O meu marido que, na altura ele foi muito forte e conseguiu...

E: você já namorava com ele ou conheceu ele aqui?

J: Conheci ele aqui.

E: então logo que chegou já conheceu o seu marido?

J: Ele trabalhava com minha amiga no Alto Golf, ela trabalhava no Golf também com ele já há quase três anos e eles eram muito amigos, então ele todos os dias dava boleia a ela, vinha do trabalho e deixava ela em casa. Quando foi um dia, a gente já tinha se falado ao telefone, eu lá no Brasil e ele aqui, mas eu nem...nem era uma coisa assim, sabe? Se conhecia por telefone, depois um dia ele foi levá-la a casa e ela disse: venha conhecer a minha amiga e tal que chegou. Aí a gente se conheceu ali nesse dia. Dois dias depois, foi praí na quarta-feira, na sexta-feira ia ter um jantar no Alto Golf e ela me convidou pra ir. Eu falei: ah, não vou, não conheço ninguém, vou ficar meio deslocada e tal.

(Resposta): não, vamos.

Insistiu, insistiu, insistiu, aí nesse dia a gente começou a se conhecer e começamos a ter mais intimidade, conversar e sair, me levou pra conhecer vários lugares. Aí a gente começou a namorar e estamos até hoje.

E: a partir daí então que você conseguiu ter forças pra...pra enfrentar as dificuldades aqui?

J: Foi ele, ele foi num apoio muito grande, muito mesmo. Se...eu acho que Deus prepara as coisas, né? Eu acredito muito nisso, então foi tudo tão natural e a gente se dá tão bem até hoje, acho que era pra ser mesmo.

E: quando você veio você já tinha um filho?

J: Já, já.

E: você trouxe o seu filho logo de início?

J: Não, eu fui buscar depois de nove meses que eu tava aqui. Nove meses, foi depois que a gente casou, se estabilizou, a gente tínhamos a nossa casa. Porque não valia a pena trazer ele praqui, ia morar com..moças, né? As minhas amigas eram solteiras, né? Uma criança em casa é diferente, uma família é uma família, né?

E: então ele ficou lá com seus pais?

J: Sim, sim, ficou e quando eu trouxe ele minha mãe teve uma depressão muito grande. Ela gostava muito dele, viu o nascimento, tudo. Só que eu também não conseguia ta bem aqui, não conseguia ta em paz, mesmo ele tando bem cuidado, mas eu acho que ele tinha que ta ao meu lado, eu era a mãe dele. Não, é? Então eu sentia isso, e tava a sofrer muito por causa disso tudo, então o meu marido tentou organizar as coisas o mais rápido possível justamente pra mim trazer ele.

E: seu marido te ajudou muito também nessa questão de você ta perto do seu filho?

J: Ajudou sim, ele veio praqui ele tinha dois anos, tinha ainda dois anos quando ele veio. E ele é um ótimo pai, pros dois. Ah! Pros dois ele é um ótimo pai, graças a Deus, não tenho o que reclamar, muito bom pai, se preocupa, sabe se precisar leva pro hospital, como teve já há uns dois dias atrás, o meu filho sofre de bronquite alérgica.

E: o mais velho?

J: É, e agora com o pólen, a primavera, assim que chega a primavera ele começa a atacar. Ele tomava um medicamento que é o Singulete e o médico achou melhor não dar mais porque aquele medicamento causa dependência, então ele achou melhor parar como a gente tava vendo melhoras por conta dos outros medicamentos, paramos. Quando foi agora no início da primavera ele atacou muito e o meu marido vai ao hospital com ele à noite, sabe? Levanta cedo, leva na escola, é bom pai, tanto pra um quanto pra outro. Conversa, ensina, dá educação, que é bom, né?

E: então aqui você conseguiu constituir uma família, né? A sua família.

J: A minha família, é verdade. E é bom, eu gosto muito.

E: e se afastar do Brasil, deixando lá o seu filho, deixando lá a sua família, os seus amigos, não é? As suas referências, como é que foi pra você, como é que você sentiu isso no seu íntimo?

J: Ah, eu sofri muito. Foi muito difícil, muito mesmo, muito difícil, porque aqui você começa do zero, você começa do nada. As pessoas não te conhecem, não sabem quem você é, de onde você veio, se você é boa pessoa se não é, e eu sou um bocado fechada. Não é que eu seja fechada, eu sou um bocado cismada. Sou aquela pessoa cismada, então eu tenho dificuldade em fazer amizades com as pessoas. Eu conheço todo mundo, falo com todo mundo, agora amizade, pra levar na minha casa, eu ir na casa da pessoa, ter aquele convívio, é só mesmo em quem eu confio. Então isso foi um pouco difícil pra mim, que a princípio eu só conhecia português que era da parte do meu marido, depois eu fui conhecendo, mais um brasileiro aqui um brasileiro ali, que vai...sabe? Até hoje eu tenho um bocado de dificuldade nisso porque o que eu acho que as pessoas que vem praqui do Brasil, não sei o que que acontece que as pessoas querem prejudicar uns aos outros, falam muito mal, inventam histórias, sabe? Querem sempre prejudicar as outras pessoas. Por quê? Qual a intenção disso? A gente poderia todos nos dar bem? A gente está num país distante que não é o nosso. Aqui a gente poderia se dar bem, mas não, a maioria das pessoas que tão aqui do Brasil são assim. Eu nem gosto de falar muito nisso porque parece mal, mas é o que eu tenho visto.

E: então você tem poucos amigos brasileiros, tem mais amigos portugueses?

J: Tenho, tenho, poucos, quase nenhum mesmo.

E: então você está muito mais inserida na comunidade portuguesa do que na brasileira?

J: É, é isso mesmo. E como venho observando há um certo tempo e até tentei interagir no meio deles e tal, mas há coisas que não dá, não sei. Acho que eu já to habituada aqui, acho que eu já consegui...já consigo viver aqui bem, já consigo me dar melhor com os portugueses e tal, já...

E: e o que você teve que abdicar em si para se...pra interagir da forma como você conseguiu interagir com a comunidade portuguesa, porque você é diferente, então alguma coisa teve que mudar em ti ou na sua forma de pensar pra então se integrar nesse diferente, não é?

J: Não, eu não tive muita dificuldade, agora...no início eu tive muita dificuldade, é porque eu sentia muita falta dos meus amigos, da minha família, então eu tive um bocado de dificuldade. Agora eu, como é que se diz, eu mudei um pouco a, não é a forma de agir, é a forma...eu já não me importo mais com...tipo, se eu for em algum lugar, uma pessoa me trata mal ou é mal educado comigo eu já não me importo mais porque de certa forma é o jeito deles. (Risos) Sabe, eu vejo isso, que é o jeito deles, é a maneira deles de tratar, tanto que eles têm umas brincadeiras assim um bocado (risos)...né? Fora e antigamente eu tinha dificuldade em ver isso, eu falava: meu Deus, mas o que é isso? Como é que se brinca dessa forma? Mas hoje em dia eu já to habituada, já consegui...

E: só não aceita esse tipo de brincadeira que a sua chefe fez contigo, não é?

J: Não aceito, não aceito de ninguém, de ninguém não aceito e como é que se diz, não aceito que brinque comigo de forma de liberdade, ousadias, aquelas brincadeiras e tal. Porque eles têm isso, a gente dá um sorriso e eles já acham que...né?

E: por ser brasileira tem...

J: É justamente isso, há esse preconceito ainda.

E: então você sente isso, porque você lida com o público todos os dias?

J: Sim, eu sinto e eu lido com homens, porque aquilo fica na frente da parada do Vai e Vem, então os motoristas do Vai e Vem vão todos lá, então convivem comigo o dia inteiro praticamente. Então, no início eles tiveram dificuldade de se adaptar a mim, porque eu era muito fechada justamente por isso, por lidar com muitos homens e eu tive dificuldade também das brincadeiras, dessas coisas por eles acharem que por eu ser brasileira eles podiam brincar daquela forma. E não era assim. Não era assim e não foi assim. Hoje em dia como eles já me conhecem e tudo eles sabem exatamente o lugar deles, mas no início foi um bocado difícil trabalhar ali.

E: então você sente até hoje uma certa forma de preconceito em relação a sua nacionalidade?

J: É assim, eu acho que hoje em dia, como dizem as pessoas que moram aqui há mais tempo, que eles já melhoraram bastante, que já tem a mente mais aberta, mas eu acho que ainda há preconceito, sabe? Ainda há preconceito, mas eu não os culpo por isso, porque eu vou te dizer a verdade, muita gente vem praqui, não é pra trabalhar, não é pra constituir família, mas vem praqui pra fazer outras coisas e tanto eu quanto você sabemos disso, não é? Então isso acaba por de certa forma manchar a nossa...mancha a pessoa, a pessoa fica ali, porque eles acabam por generalizar, porque a fulana faz, porque a fulana brasileira veio praqui e faz, a outra também deve ser. Mas não é assim, aí daqui que a gente consiga provar que não é e que a gente não é assim e tal, mas é uma luta, é uma luta. Até conseguir provar e as pessoas vêem como é que você é de verdade, te conhecer, porque quem começa do zero como eu é uma luta.

E: o que que você construiu aqui começando do zero?

J: Construí a minha família, do que eu gosto muito e aos poucos temos conseguido tentar...agora ta um bocado difícil, né? A crise, mas aos poucos estamos conseguindo. Olha, eu vim praqui, tipo...não tinha condição, tirei minha carta de condução, comprei meu carro, temos a nossa casa, meu filho ta na escola, é uma escola boa, eu gosto. Construí amigos, amigos que eu sei que, é o português pode ter o defeito deles, mas quando são amigos são amigos, quando gostam da pessoa eles gostam de uma pessoa. Não tem duas palavras pra eles, então construí amigos e minha família, eu to feliz por isso. Apesar de sentir falta do Brasil.

E: você sente? Do que que você sente falta ainda hoje?

J: Eu sinto falta da minha família do clima das pessoas, da alegria, sabe? Aqui é um bocado triste, né? As pessoas são um bocado depressivas, estão sempre a reclamar da vida, sabe? Eu sinto falta disso, da alegria da Bahia, das pessoas, do sol, de tudo isso, eu sinto muito falta.

E: você sempre vai ao Brasil ou não?

J: Tem dois anos que eu não vou, dois anos. Agora no final do ano eu vou, vou comprar as passagens, dia quinze de dezembro.

E: vão todos?

J: Vamos todos.

E: ou vai todo mundo ou não vai ninguém. (Risos)

J: Foi isso mesmo que aconteceu o ano passado, o ano passado eu ia em dezembro e aí meu marido disse assim: ah! Mas eu também quero ir. E a gente tinha a passagem com a do meu filho mais velho, que só ia eu e ele. Ele: ah! Mas eu também quero ir e o R. não vai e não sei o quê. Daí eu acabei desistindo, optei por deixar pra ir este ano agora. Vamos todos e...

E: matam a saudade.

J: É isso mesmo.

E: você não tem pretensões de voltar pro Brasil B.?

J: É assim, eu tenho a minha vida aqui, gosto muito daqui. Agora, acho aqui muito calmo, tranqüilo em relação à educação pros meus filhos eu sei que vai ser bom, não é? Tipo, a escola pública do meu filho aqui equivale à escola particular no Brasil, é boa tem tudo, é isso que eu tenho dificuldade e por eles e pela minha família a gente vai ficar por aqui. Por enquanto, não quer dizer que quando a gente for pro Brasil, meu irmão é comerciante lá já há trinta anos, não quer dizer que ele não faça uma proposta boa e que a gente pense duas vezes, né? (Risos) Mas pra gente ir pro Brasil. A questão é: a estrutura que a gente tem aqui, a gente não vai conseguir ter no Brasil, sabe? É essa a questão, então ir pra lá, trabalhar pros outros e mesmo assim não ta satisfeito em relação...economicamente então eu acho que não vale a pena. Em que a gente não possa dar uma boa educação aos nossos filhos, que a gente não possa ter nosso lazer, que a gente não possa, não é? Aí não vale a pena, porque não é só festa a vida. A vida não é só festa e curtição. A vida é...tem outras prioridades, é isso.

E: e pra você quando chegou aqui em Portugal, o que foi mais impactante pra você? O que você percebeu de mais diferente que causou esse impacto?

J: Foi isso, a forma depressiva das pessoas lidar com as coisas, esse desânimo, esse mau humor e a dificuldade deles em aceitar as pessoas e ajudar as pessoas, isso tudo foi...me senti um bocado excluída, de certa forma. Me senti excluída, sabe? Me senti assim...sei lá, de início eu fiquei um bocado assim, eu queria mesmo voltar.

E: e como é que você deu a volta a isso?

J: Ah! Foi com a ajuda do meu marido, foi com a ajuda dele. Ele me ajudou a ver as coisas de outra forma, de outro ângulo, sabe? Ele me ajudou a conhecer as pessoas daqui melhor, ele me ensinou como lidar com essas pessoas daqui. Tudo isso foi com a ajuda dele e os meu sogros também...

E: então ele foi um elo importante aí na sua...

J: Foi e os meus sogros também me aceitaram muito bem, desde a primeira vez que eu fui na casa deles eu não tive dificuldade nenhuma, eles gostaram muito de mim. E foi bom, porque eu me senti em família.

E: e hoje eles tão aqui ainda?

J: Tão, tão.

E: te dão apoio?

J: Dão, dão, sempre que eu preciso, vão buscar o meu filho na escola ou fica com eles, sabe? Eles ajudam muito.

E: então são pessoas que você pode contar?

J: Pode contar, confiar, sabe? São pessoas que estão sempre unidas. Depois o meu marido é filho único, não tem mais irmãos. A minha sogra também só tem um irmão, mas é muito distante, não tem muito, sabe? A gente...somos a única família deles. E aqui eles são a nossa única família também, então foi isso que me ajudou a me sentir mais em família, mais...é...mais como é que se diz, mais em família, tava mais, tava bem, tava me sentindo apoiada de certa forma, mas não deixei de sentir falta da minha.

E: e o que você buscava encontrar aqui em Portugal você encontrou?

Não, porque na altura eu vim com outro...não vim com esse intuito de vim morar e casar e formar uma família aqui, eu nunca pensei nisso. Porque assim, a gente que mora no Brasil tem uma visão diferente de quem mora aqui. Pessoas que moram no Brasil acham que quem mora na Europa tem muito dinheiro, ganha esse dinheiro fácil, que é como é que se conseguem as coisas fáceis e que é tudo muito fácil, tudo muito lindo. Mas não é assim, não é, a realidade é outra, nunca foi assim, pode ter sido assim quando era mais fácil de ter trabalho, ganhava-se mais e uma pessoa...mas uma pessoa aqui pra ganhar dinheiro tem que ter dois, três trabalhos, uma pessoa não vive, uma pessoa só trabalha e mesmo assim não é valorizado. Não é assim como as pessoas pintam, então quando eu vim praqui eu vim com a intenção de ganhar dinheiro, de juntar dinheiro.

E: e ir embora.

J: É isso mesmo, eu vim com a intenção de juntar aquele dinheiro, achei que aqui seria fácil, eu pensava comigo: nem que eu tenha dois, três trabalhos, eu vou juntar aquele dinheiro e depois pago a minha faculdade e eu fico mais aliviada. A minha intenção era essa, mas quando eu cheguei aqui eu vi que as coisas não eram bem assim. E era difícil arranjar trabalho, as pessoas exploravam demais, né? E tinha dificuldade de receber e tudo isso eu vi que as coisas não eram assim, não se ganhava assim tanto quanto as pessoas diziam, mas o meu plano era vim, juntar dinheiro e voltar, mas entretanto Deus estava a preparar outra coisa, né? A gente planejou coisas e Deus fez outra, foi isso que aconteceu comigo.

E: e aí teve que refazer os seus planos, remodelar e partir pra um outro caminho então?

J: Sim, foi difícil porque eu tinha aquela idéia fixa na minha cabeça, tinha aquela idéia e depois eu tive que abdicar dessa idéia e de tudo o que eu tinha planejado pra tentar outra coisa, então isso foi um bocado difícil. Foi difícil de início, foi muito difícil. Mas olha, eu consegui e agora...

E: mas agora também está conseguindo algumas coisas, quer dizer, agora está com sua vida mais organizada está pensando em retomar algumas coisas, não é? Já retomou o curso de inglês, depois vai fazer uma faculdade. Então, quer dizer, acho que você vai aos poucos tentando também conquistar o que você disse que vinha conquistar logo de início, né?

J: Sim, mas é mais difícil, agora com a família é muita responsabilidades, sabe, é casa, é os filhos, é atenção, é escola, é muita responsabilidade mesmo, que aqui é muito diferente do Brasil. No Brasil se uma pessoa trabalha a pessoa tem uma empregada em casa a fazer o serviço. Aqui não, se você for contratar uma empregada é um balurdio, é muito caro, então é tudo isso, é um conjunto, então a pessoa tem que ter muita força de vontade pra conseguir conciliar tudo. Muita força de vontade, pensamento positivo, muita paciência, sabe? A pessoa tem que ter uma mistura disso tudo pra poder conseguir conciliar tudo, casamento, filhos, curso, trabalho, a casa. É difícil, não é fácil, mas a gente vai conseguindo, né? Aos poucos...eu digo ao meu marido: o importante é estarmos unidos e não nos preocuparmos muito que isso não vai adiantar de nada, não vai resolver os nossos problemas, a gente tem que fazer as coisas assim, uma de cada vez, que vai dar tudo certo. Ele diz que que eu sou...que eu tenho muita vontade de viver, que eu sou...é...otimista, que é por isso que ele consegue ver as coisas de outra forma porque ele era um bocado pessimista, um bocado triste, sabe? E aí ele diz isso. É verdade porque é assim. (Risos).Tem que ser uma a puxar pelo outro.

E: quer dizer ele te ajudou muito no que diz respeito a você se inserir aqui e se integrar mesmo na sociedade portuguesa e você ajudou ele no que diz respeito ao otimismo, a alegria, a esperança.

J: Isso mesmo.

E: então cada um no casamento faz a sua parte.

J: É isso mesmo, ele me apóia numas coisas e eu apoio ele em outras. Assim a gente vai conseguindo conciliar tudo.

E: hum,hum, então ele é muito importante dentro desse seu processo migratório, né? Ele é uma figura central, né B.?

J: Acho que sem ele eu não teria conseguido. Não teria conseguido ta aqui ainda. Porque eu não tinha suporte, não tinha suporte, sabe? Não tava assim...me sentia sozinha e depois eu não consegui concretizar aquilo que eu vim tentar, sabe? E isso tudo tava a me deixar frustrada, até como hoje eu me sinto um bocado frustrada por isso, por não ter emprego como deve ser, por não ter valorização em relação a isso, por não conseguir fazer a minha faculdade ainda. Tudo isso me deixa um bocado, né? Eu me sinto assim...mas aos poucos eu vou tendo pensamento positivo que eu vou conseguir, uma coisa de cada vez. A gente só não pode deixar se acomodar, senão a pessoa se acomoda e eu digo assim: o tempo que foi o R., a gravidez e tal, foram quase três anos, não é? Porque foram dois anos, mais os nove meses, não foi perdido, porque foi o meu filho, sabe? É uma coisa que eu gosto, eu gosto de olhar pra ele, gosto de ter dado a atenção que ele precisava durante esse tempo todo, eu gosto. E de agora pra frente a gente vai ter...a gente vai tendo esperança e fé que vai dar tudo certo.

E: então você tem novos planos ainda?

J: Tenho, mas isso tem que ter muita força de vontade e tem que lutar por isso, não deixar que as coisas se acomodem, nem nada, porque nada vem bater na sua porta. Eu digo sempre ao meu marido: não se acomode, porque você quer fazer um curso. (Ele quer fazer um curso de energias renováveis).Então procure saber do curso, corra atrás, procure saber quem já fez, saiba se o curso é rentável, se depois vai ter oportunidade no mercado de trabalho, procure correr atrás, não fica: eu quero fazer o curso, eu quero fazer o curso. Que o curso não vem bater na tua porta, não é?

E: será que esta não é uma característica mais do brasileiro?

J: É, mas eu tenho que puxar por ele, eu tenho que puxar por ele porque a gente é uma família, a gente tem que cada dia mais tentar melhorar nossa família, a gente não pode deixar se incomodar porque ta difícil, sabe? Ta difícil a gente vai procurar melhorar. A gente vai procurar lutar, procurar correr atrás, não dá aqui por esse lado, vai ter que dar por esse. O importante é a gente ta unido.

E: mas eu acho B. que tem uma diferença fundamental, que é assim: no Brasil a gente sempre acostumou a lidar com crises, não é? Nós enquanto íamos crescendo, enquanto íamos desenvolvendo a gente sempre ouviu falar em crises e lidar com as dificuldades nossos pais sempre lidaram e o país de uma forma geral sempre esteve nesse processo de buscar um lugar ao sol, não é? E aqui as coisas sempre foram muito fáceis, há uma certa estagnação do povo em função até disso, havia muito tempo que não havia crise aqui. Então tem pessoas que não conhece a crise.

J: Pois, mas muita gente também não tem do que reclamar, mas reclama na mesma. (Risos). Porque há crise, a crise se instalou geral. Por mais que não esteja, mas há crise. Olha o medo! Às vezes eles são um bocado assim. (Risos). Mas...

E: mas eu acho que eles têm medo da crise e nós não, essa que é a diferença.

J: Acho que é isso, mas eu é...é assim, por exemplo eu não tenho medo da crise, porque se não tiver trabalho ali eu trabalho aqui. Eles não, eles já têm essa dificuldade em não trabalhar naquilo que eles não sabem fazer. Eles não tentam algo novo, eles têm medo, são um bocado inseguros, sabe? Eu não, se eu tiver ali e não tiver dando certo eu procuro noutro lado e vou trabalhar e trabalho na mesma, mesmo que não seja na minha área, mesmo que não seja o que eu to habituada a fazer, eu trabalho. Faço meu trabalho e vou tentar cada dia melhor e melhorar. Eles não, eles já têm dificuldade: Aí meu Deus! Se eu perder esse trabalho o que que eu vou fazer. Vai morrer. (Risos). Não tem mais nada a fazer? Tem, tem sim, se não deu esse trabalho, vamos tentar outra coisa.

E: essa característica peculiar sua é que dá um diferencial também, né?

J: Sim, sim, temos que ser assim, não é? Não adianta reclamar da vida. E há uns dias atrás eu tive a conversar com um senhor que é brasileiro e teve...é até chato falar sobre isso...câncer de próstata, não câncer na bexiga e ele tava a falar das sessões de quimioterapia, como é que era, sabe? E aquilo deu um...um aperto assim no coração, a ver ele passar por aquilo tudo e ainda ta ali, forte, pra lutar e a tentar e tal. Eu falei...depois que a gente saiu da mesa e tal, fomos pra casa e eu falei pro meu marido que a partir de hoje a gente não vai reclamar mais de nada, não pode ser. Porque a gente, graças à Deus, temos saúde, os nossos filho têm saúde e é isso que importa, mais nada. A gente tendo saúde, o resto a gente consegue. Porque aquilo foi mesmo triste ele falar sobre aquilo, sabe? Foi triste, eu fiquei triste, fiquei assim a pensar e há pessoas que reclamam de tanta coisa, né? Porque elas têm um trabalho reclama, se não tem um trabalho reclama, se...como é que se diz? Se tem uma roupa nova reclama, se não tem uma roupa nova reclama. Não deve ser assim, sabe? Se acorda cedo reclama, se não acorda cedo reclama, sabe? Acho que a pessoa não deve ser assim, a gente tem que levantar todos os dias e agradecer a Deus por tudo aquilo que tem e eu graças a Deus tenho tudo, só os meus filhos e a minha família, já fico muito feliz.

E: então pra você ter vindo pra cá foi...uma experiência, ao fim ao cabo, foi positiva, porque você não esperava, né? Encontrar tudo isso que encontrou aqui.

J: Não, não esperava não...

E: quer dizer, esperava encontrar algumas coisas que não encontrou , mas encontrou também outras coisas que não esperava. (Risos)

J: Tinha outra perspectiva, tinha outra perspectiva de vida. Não pensava em ter um relacionamento, primeiro que eu tive um relacionamento de quatro anos e foi o meu primeiro relacionamento e foi um bocado conturbado, foi um bocado difícil, então a última coisa que eu queria era relacionamento, mas eu acho que tava pra ser mesmo. Era o que tinha que ser, Deus preparou e foi isso que aconteceu. E eu to feliz por isso. Tenho que ir embora.

E: ta bem, ta bem, só mais uma pergunta B. pra gente fechar, ta? Então em que medida você acha que você se transformou na sua forma de lidar com o próximo, com o seu marido, com o seu vizinho, com a sua sogra...em que que você mudou depois que você passou por essa experiência de imigração?

J: Acho que a maneira de pensar, né? Porque antes eu era muito...eu era oito ou era oitenta, se uma pessoa me tratava mal, não gostava daquela pessoa. Se uma pessoa não gostava de mim eu me afastava, se uma pessoa era isso, sabe? Generalizava muito, então hoje em dia eu vejo as coisas de outra forma, eu dou sempre aquela segunda chance pra conhecer a pessoa, pra ver porque aquela pessoa tem aquela visão e...ha! Mudou muita coisa, antes eu era solteira, agora sou casada, a forma de agir, a forma de pensar, a gente amadurece, com essas experiências que temos aqui, a lidar com outras pessoas, outra cultura, né? A gente acaba por amadurecer, aprender certas coisas que é bom. Nada na vida eu levo como mal, eu levo como experiência. Se eu errei aqui, vai servir pra amanhã ou depois eu não errar outra vez, vai servir como forma de experiência pra mim, sabe? É mal a gente errar, é chato, mas é isso que eu encaro a vida, encaro a vida dessa forma.

E: então você acha que ta mais maleável desde que veio pra cá conviver com essa cultura tão diferente?

J: Sim, vejo a vida de outra forma, vejo as pessoas de outra forma, vejo a vida de outra forma, tenho outra visão das coisas.

E: e isso foi positivo?

J: Foi, foi positivo. Apesar de tudo foi positivo.



E: muito obrigado.




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