Em relação ao Alcoolismo, você sabia que



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Em relação ao Alcoolismo, você sabia que...

1) A Organização Mundial de Saúde (O M S) pontua o alcoolismo como doença progressiva e incurável?

2) O abuso do álcool e o seu descontrole começa com o chamado “beber social” e que aproximadamente 10% dos funcionários de uma empresa fazem uso abusivo?

3) Os “porres” de fim de semana, isto é, quando se bebe em grande quantidade  e ocorre os apagamentos (você não se lembra do que ocorreu), pode destruir até 20.000 neurônios que são células cerebrais que não se reproduzem?

4) Os tremores matinais dos membros superiores (mãos) e que cessam após ingestão de um trago já significa um estado de dependência física?

5) O início do beber, entre outros fatores, ocorre na adolescência, para diminuir a timidez e insegurança, comportamentos característicos da juventude?

6) A falta de orientação e informação sobre o Uso Abusivo do Álcool da qual se origina a doença alcoolismo leva a um sentimento de onipotência representado pela frase: “Eu bebo, mas não me preocupo, pois paro quando quiser”?



O alcoolismo no universo Teen e a informação que é veiculada nos suplementos para jovens

Aparecida Ribeiro dos Santos e Babette de Almeida Prado Mendoza*









 

"Mesmo para os que, entre nós, consideram-se crescidos, pensar sobre adolescência, envolve pensar sobre nós mesmos: sobre o que éramos e somos, sobre o que poderíamos ter sido, sobre o que esperamos ser"

Isolda de Araújo Günther

RESUMO


Vivemos sob a "égide da informação", portanto, parece-nos estranho falarmos da falta de informação sobre os males que a bebida alcóolica causa tanto para quem bebe quanto para quem convive com o adido. Seriam os adolescentes realmente mal informados? Ou o problema residiria não na falta de informação ,somente, mas nas formas discursivas como são veiculados o saber, a cultura e a própria informação a esse público jovem? Será que há o respeito por parte da mídia, de educadores de entender essa faixa etária com seus ídolos, símbolos, idéias e linguagem inovadoras, que são seres que vivem um momento único, e portanto, angustiante, conflitante na sua busca de uma identidade social- política e comportamental?

Essas são algumas das questões que procuraremos atingir através de um estudo do Pr. Dr. JACQUES VIGNERON (UMESP) e levantamentos sobre os suplementos para jovens veiculados nos jornais diários, realizado por MARIA CRISTINA GOBBI (doutoranda da UMESP) e pela ANDI (Agência de Notícias dos Direitos da Infância).

Palavras-chaves: comunicação, suplemento juvenil, alcoolismo.

INTRODUÇÃO

A comunicação em suas mais variadas matizes insere-se num processo contínuo de disseminação do saber, da informação e da conscientização das pessoas enquanto seres sociais, políticos e históricos. Portanto, deve fazer-se presente nas discussões tangentes às problemáticas de nossa sociedade, como o alcoolismo, que não é um assunto só do Brasil, mas de âmbito mundial, porém no Brasil assume um aspecto diferenciado de outros países, pois como as nossas leis vigentes a respeito de consumo e venda de álcool para adolescentes são ineficazes, delineia-se um quadro bastante caótico e preocupante frente ao crescente alcoolismo juvenil.

Interessante notar que em estudos desenvolvidos, como o do Projeto Conhecer de um colégio de ensino médio, revela-nos que dentre as opções de lazer temos em primeiro lugar a música, em segundo a TV e em terceiro o bate-papo com os colegas. O consumo de bebida alcoólica é uma opção de lazer que pode facilmente ser aliada às outras opções. Existe claramente uma "cultura" de que os encontros têm de ser regados com bebidas alcoólicas, pelo seu caráter transgressor que atrai os jovens e por ser um desinibidor que "abre portas" e integra o indivíduo ao grupo, como se fosse um ritual de iniciação.

Sabemos que hoje o adolescente é alvo de muitas publicações que tratam dos mais diversos temas como música, sexualidade, comportamento, etc. Há jornais de grande circulação que encartam semanalmente um suplemento destinado a esse público. As drogas ilícitas estão incluídas na lista de temas abordados para tal segmento.. Resta-nos saber se o abuso de bebida alcóolica é abordado nesses suplementos e com que linguagem, ou seja de que maneira se faz uso desse veículo para fins de prevenção ao alcoolismo juvenil.

Há um mascaramento , uma dissimulação velada a respeito da droga lícita- o álcool- reforçado por um ritual de apoio ao primeiro porre e posteriormente o beber socialmente. Não se vêem campanhas contra o álcool nas escolas, universidades, e quando ocorrem como no período do carnaval enfatiza-se o perigo de dirigir alcoolizado- "você pode beber desde que outra pessoa dirija"- é sempre o estímulo ao ato de beber. Chega-se ao ponto de usar como estratégia um comportamento seguro para vender bebida alcóolica, esse é o caso do anúncio em outdoor de uma cachaça muito conhecida: "Usar cinto de segurança é uma Boa Idéia".

Para a professora do Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP, BEATRIZ CARLINI COTRIM, o consumo de álcool aumentou entre os jovens e os pais não impõem proibições e limites aos filhos: "A sociedade ficou traumatizada com a ditadura e hoje tem dificuldades para estabelecer certas normas" (site sobre alcoolismo).

Enfim, os pais deveriam se conscientizar que o álcool já é avaliado como a real "porta de entrada" para o mundo das drogas e os jovens precisam ser orientados a adotar um estilo de vida com menos riscos e um cuidado especial com a saúde.

Esse trabalho pretende atingir a cultura do uso da bebida alcóolica no universo do jovem através do discurso de adidos jovens em recuperação de um grupo de Alcóolicos Anônimos e a abordagem do tema em suplementos para jovens que circulam em grandes jornais do Brasil.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

As estatísticas mostram que o álcool , é de longe, a mais perigosa das drogas, responsável por 90% das internações em hospitais psiquiátricos, responsável, ainda, por 45% dos acidentes com jovens entre 13 e 19 anos e por 65% dos acidentes fatais. Provocando 350 tipos de doenças físicas ou psíquicas (www.aprendiz.com.br) . Portanto não há necessidade de ser um matemático para que se perceba o engano ao afirmar-se que os viciados em drogas lícitas também representam um caso grave de saúde pública.

O Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas (CEBRID) diz que de 15.503 estudantes entrevistados nas capitais do país, 53,2% consomem álcool e 6% são dependentes. Depois de beber, 11% envolvem-se em brigas e 19% faltam à escola (www.terra.com.br/istoe).

Em outra pesquisa do CEBRID, publicada na Folha de São Paulo, aponta que a faixa etária que apresenta maior índice de dependência de álcool entre homens (18,2%) é a de 18 a 24 anos. Essa é a idade que "vê menos risco em tomar um ou dois drinks por semana: 39,6% contra 42,2% em média" (IZIDORO - Folha de São Paulo).

O consumo de bebidas alcoólicas é tão comum que muitas pessoas não imaginam que elas são drogas potentes. A relação entre álcool e câncer tem sido avaliada, no Brasil, por meio de estudos de caso-controle, que estabelecem a associação epidemiológica entre o consumo de álcool e canceres da cavidade bucal e de esôfago. Além de agente causal de cirrose hepática, em interação com outros fatores de risco, como, por exemplo, o vírus da hepatite B, o alcoolismo está relacionado a 2 - 4% das mortes por câncer, implicado que está, também, na gênese dos canceres de fígado, reto e, possivelmente mama. Os estudos epidemiológicos têm demonstrado que o tipo de bebida (cerveja, vinho, cachaça, etc.) é indiferente, pois parece ser o etanol, propriamente, o agente agressor. Essa substância psicoativa tem a capacidade de produzir alteração no sistema nervoso central, podendo modificar o comportamento dos indivíduos que dela fazem uso. Por ter efeito prazeroso, induz à repetição e, assim, à dependência.(www.inca.org.br)

Esse aspecto endêmico tende a piorar se pensarmos que:

O álcool faz parte de um mundo simbólico, bacaniano de iniciação à vida adulta, sendo estimulado até em momentos ditos familiares como festas infantis, quermesses de igreja, natal. E o que dizer em festas de caráter profano como o carnaval.

O estímulo está em toda a parte na televisão com os anúncios das famigeradas cervejas- há até o dia da cerveja- em outdoors, revistas, músicas. É o poder do dinheiro , do patrocínio das cervejarias em eventos culturais , esportivos- é o paradoxo do paradoxo. Segundo Dra. COTRIM, "o marketing hoje é voltado para conquistar um público jovem" (FORMENTI).

O álcool é a droga que mais vicia no mundo, em termos de número de pessoas viciadas a substância é livremente anunciada em toda a mídia: rádios, televisão, revistas. E o que nos parece mais importante:

É exibida como um troféu, parte essencial dos momentos de prazer, vinculada à sucessos financeiros e acertadas decisões. O álcool é um grande negócio, a receita dessa indústria gera milhões anuais no Brasil e a partir do marketing cria-se imagens sedutoras, procurando encobrir os efeitos destruidores que o alto e freqüente consumo trazem.

A partir de um projeto do Prof. Dr. VIGNERON da Universidade Metodista de São Paulo "O papel da comunicação na prevenção do alcoolismo juvenil na recuperação dos sujeitos alcoólicos jovens no contexto das organizações educacionais" analisar-se-á o papel da comunicação na prevenção do alcoolismo juvenil, assim como, assertivas sobre o assunto em questão.

Faz-se necessário definir-se o alcoolismo. Para o leigo é um vício, palavra preconceituosa que provoca a rejeição do sujeito alcóolico. O verbete – do Dicionário Aurélio - vício tem uma conotação negativa muito forte; para comprovar este fato basta ler as definições propostas pelo dicionário da língua portuguesa: "1- Defeito grave que torna uma pessoa ou coisa inadequada para certos fins ou funções. 2- Inclinação para o mal ( nesta acepção , opõe-se a virtude. 3- Costume de proceder mal; desregramento habitual. 4- Conduta ou costume censurável ou condenável; libertinagem, licenciosidade, devassidão. 5- Qualquer deformação física ou funcional. 6- Costume prejudicial"1

Quando se fala de alcoolismo , esta carga negativa é muito forte e aumenta o grau de rejeição do sujeito alcoólico.

As associações que trabalham na prevenção do alcoolismo e na recuperação do sujeito alcoólico, tais Alcóolicos Anônimos "AA", "Croix d’or" e outras, consideram o alcoolismo como uma doença: "O alcoolismo , segundo Croix d’Or, constitui progressivamente uma doença caraterizada por uma fragilização do indivíduo antes de atingir uma fase verdadeiramente patológica. Esta fase é precedida de um longo período de distorção que evolui lentamente para a inadaptação e depois pela regressão, para no fim chegar a uma estruturação anárquica no qual o fim é a demência ou obtusão intelectual e a catástrofe econômica." 2

Em termos de comunicação talvez um dos melhores trabalhos sobre o alcoolismo que encontramos no Brasil é a biografia de Garrincha escrita por um dos grandes jornalistas brasileiros, Ruy Castro "Estrela solitária"3

Na orelha do livro lemos " Estrela solitária é uma história de amor, um romance de ação, um documentário social, um drama sobre o alcoolismo, um livro para ser lido com a mesma emoção com que foi escrito." O alcoolismo de Garrincha tem suas origem na própria cultura da cachaça. Desde cedo ele foi tratado com o cachimbo: " mistura de cachaça com mel de abelhas e canela em pau, posta para curtir numa garrafa envolta de cortiça e pendurada numa viga do teto. O pai certificava antes se a cachaça era da boa. O cachimbo não era usado para fins recreativos ou embriagantes – pelo menos não de propósito - mas medicinais. As mulheres o tomavam durante a gravidez. Depois do parto, continuavam tomando-o enquanto durasse o resguardo. Adultos e crianças o tomavam como purgante, xarope fortificante e para combater gripes, lombrigas, coqueluche, asma e dor de dentes. Aos bebês era dado até como tranqüilizante; uma ou duas colheres antes de dormir para não terem sonhos agitados. Graciliano Ramos admite em Infância ter sido embriagado muitas vezes dessa forma"(Pg.21). Amaro o pai de Garrincha foi criado a cachimbo e o próprio foi criado do mesmo jeito. Assim começou o drama da Estrela Solitária.

O alcoolismo é uma realidade complexa e dramática. O alcoolismo é vicio, doença , dependência, sofrimento?. Michel Legrand quando fala do álcool o compara com " o Diabo e o Bom Deus", lembrando o existencialismo de Jean-Paul Sartre: "O álcool é conhecido, fabricado e consumido desde tempos imemoriais; é espalhado em todos os recantos do planeta no horizonte da humanidade. Como entender, que na sua substância , tem alguma coisa de pouco comum. Alguma coisa de extraordinário, com que sem dúvida pode rivalizar nenhuma droga. O que é? Sua infinita agilidade, sua prodigiosa variedade e heterogeneidade de expressões de paladares, de efeitos. Pode ser celebrado como um favor dos deuses ou ser odiado como um malefício, obra de Satanás. Pode se consumir pouco, nada, muito, apaixonadamente, até a loucura. Para uns exalte à alegria para outros mergulho na tristeza; para uns torna carinhoso e afetuoso, para outros exacerba a violência, Para uns exalta , para outros deprime Para uns levanta até o céu para outros torna o homem bicho. Talvez ainda opera tudo isso. De um momento para outro num turbilhões desenfreado, muda, modifica os seus efeitos: exaltação, euforia, depressão, tristeza, raiva, medo, remorso vergonha. Porque e como se abster? Mas também como não ter medo quando o consumo desencadeia num mal-estar autodestruidor do funcionamento alcoólico?"4 Talvez por tudo isso quem não passou pelo drama e o sofrimento do alcoolismo entenderá esta problemática.

Nota-se na explanação conceitual e reflexiva do Prof. Dr. VIGNERON:

A necessidade iminente da comunicação como viabilizadora de um processo construtivo da conscientização dos sujeitos alcoólicos.

Segundo a OMS há de se considerar como mais propenso ao uso das drogas o adolescente:

Sem adequadas informações sobre o efeito das drogas; com saúde deficiente; insatisfeito com sua qualidade de vida; com personalidade deficientemente integrada; com fácil acesso às drogas (Projeto Conhecer).

A esse trabalho interessa o primeiro item, ou seja, saber mais à propósito das informações sobre drogas – álcool – veiculadas nos suplementos dirigidos especificamente aos jovens.

A ANDI (Agência de Notícias dos Direitos da Infância) conclui através dos resultados das pesquisas sobre "Os Jovens e a Mídia" (veiculados em seu site – www.bireme.br/bvs/adolec/p/cadernos) que o comportamento das revistas e suplementos dirigidos especificamente ao público jovem vêm apresentando mudanças significativas:



  • as publicações estão abandonando os estereótipos editoriais – assuntos considerados "áridos" eram riscados da pauta.

  • as transformações contribuem para a inclusão de temas importantes como prevenção ao HIV; gravidez precoce; qualidade da educação; violência; medidas sócio- educativas aplicadas ao jovem em conflito com a lei; políticas públicas para a juventude e projetos comunitários

  • tem dado ênfase aos direitos dessa faixa da população

Para essa avaliação fora elaborado um índice de Relevância Social, correspondendo a um indicador do compromisso dos veículos para jovens com a formação/informação e segundo suas pesquisas esse indicador tem crescido substancialmente. Quando foi medido pela primeira vez (1997) esse índice era de 24,2% e a mais recente pesquisa (1999) já registra um índice de 36,1%.

São temas considerados de Relevância Social (para o período de novembro de 1998 a abril de 1999): AIDS & DST; Cultura; Direitos & Justiça; Drogas; Educação; Família; Formação Profissional; Gravidez; Kosovo ; Meio Ambiente; Mídia; Portadores de Deficiência; Projetos Sociais; Protagonismo Juvenil; Saúde; Sexualidade e Violência.

Apesar da crescente cobertura das temáticas socialmente significativas, existe uma dificuldade encontrada, pelos editores dos veículos, em contemplar de forma mais homogênea todas as retrancas citadas.

Existe uma certa lentidão em integrar definitivamente à pauta questões como Formação Profissional, Saúde, Sexualidade, AIDS & DST e Violência. Predominam os temas de entretenimento e mesmo que cheguem a abordar assuntos que contribuam para a formação de seu público, retrancas cruciais como Gravidez e Portadores de Deficiência estão longe de merecer a devida atenção.

O agrupamento que nos interessa: Família; Drogas, Projetos Sociais, Gravidez, Meio Ambiente e Portadores de Deficiência vem sendo ignorados em termos de inserções, tem recebido no máximo a faixa de 50 inserções no período de seis meses. Apesar dessa constatação verifica-se uma tendência de crescimento das temáticas relacionadas a saúde do adolescente, sem contudo afirmarmos que se tenha chegado próximo ao patamar ideal, como já fora mencionado.

A ANDI aponta para a necessidade dos profissionais de jornalismo atingir:

A compreensão quanto ao papel estratégico que representam no processo de conscientização dos jovens, integrando o conceito de que ao profissional da mídia jovem cabe também o papel de educador.

Na dissertação de mestrado de GOBBI (doutoranda da UMESP), Na trilha juvenil da mídia impressa - Identificação, perfil e análise dos suplementos para jovens veiculados nos jornais diários do Brasil, encontramos um inventário da quantidade de suplementos para jovens, veiculados nos jornais brasileiros, distinguindo as diferenças entre as publicações dos diversos estados, caracterizando o perfil dos suplementos.

Na análise da autora:

Nos jornais das cinco regiões e dos três prestigie papers, analisados num período de um mês, o tema Drogas tem uma inserção de apenas 6% e o de Saúde 0%.

O tempo de estudo foi o mês de abril de 1999 e foram analisados oito periódicos, com duas edições de cada um, perfazendo um total de 16 edições. Esses dados nos parece significativos da falta de homogeneidade das inserções desses temas.

Por outro lado, verificamos a presença do tema alcoolismo ou alto consumo de bebida alcoólica em revistas como a VEJA e no suplemento folhateen, da Folha de São Paulo (várias reportagens). São matérias com linguagem acessível, com depoimentos de especialistas, consumidores adultos e jovens, alcoólatras, familiares de alcoólatras e adidos em recuperação.

Como a informação a respeito dos malefícios da bebida alcoólica chega ao universo teen?

A revista VEJA em reportagem de 28 de maio de 1997 "A crua realidade" abordou a questão do alcoolismo em adultos e jovens. Menciona um encontro de adidos:

Vindas do Brasil inteiro , elas chegavam de ônibus fretado de carro, bicicleta, táxi ou, quem morava nas redondezas, a pé mesmo. Passaram o feriado enfurnadas em auditórios e salas, ouvindo palestras ou dando depoimentos. Mesmo sem se conhecer, reconheciam-se no essencial: à exceção de alguns conferencistas, todos eram alcoólatras. E sobreviventes. Festejavam os cinqüenta anos de fundação dos Alcoólicos Anônimos, AA. No Brasil. Naquela platéia , qualquer um que se levantasse teria uma história de perdas e precipício semelhante para contar.

O Psiquiatra, MARCOS MICELLI, que atua no Hospital Psiquiátrico do Pinel – Rio De Janeiro – explica na matéria:

"Não creio que exista algum trabalho científico de importância , em algum lugar do mundo, que mostre que o alcoólatra pode voltar a beber com moderação. Não importa a quantidade ou a freqüência com que a pessoa beba, , ela não consegue diminuir o seu patamar ou mantê-lo diminuído por longo tempo".

Ainda na mesma matéria utiliza-se o recurso de pesquisas de organismos de prestígio com OMS, apontando as possíveis conseqüências do uso abusivo do álcool e a caracterização da doença do alcoolismo:

Micelli, como cerca de 85% dos médicos americanos considera o alcoolismo uma doença, no sentido de ser um distúrbio involuntário. A Organização Mundial de Saúde classifica a doença do alcoolismo como síndrome, de causas múltiplas. A metabolização do álcool passa por uma substância chamada aldeído acético (a mesma encontrada na combustão de motores a álcool ) e se transforma em glicose por um processo de transformação celular . Isso explica porque muitos alcoólatras que tomam cachaça e não comem nada ainda têm energia para continuar bebendo todos os dias.

Esclarece também quanto a responsabilidade social da mídia e a importância da imagem do consumo de bebida alcoólica para a promoção da "cultura do porre" na nossa sociedade:

A pesquisadora Ilana Pinsky, do Instituo de psicologia das USP e co-autora, com o professor Ronaldo Laranjeira, do livro O Alcoolismo, analisou 2107 comerciais de TV para a sua tese sobre propaganda e bebidas alcoólicas na televisão brasileira e constatou que há mais comerciais de bebidas alcoólicas na TV do que de não alcoólicas.

Enfatizando a argumentação exposta na introdução deste trabalho os autores do livro lembram que:

"hoje, a sociedade não faz outra coisa senão convidá-lo a beber . E, quando você faz parte dos 10% que se tornarão alcoólatras, ela simplesmente o rejeita".

 Quanto ao consumo entre os jovens aponta para a precocidade acentuada progressivamente da aquisição desse hábito entre os jovens brasileiros. Segundo o psiquiatra gaúcho PAULO KNAPP (autor do livro Prevenção da Recaída):

"Hoje, a garotada começa a beber entre os 12 e os 13 anos de idade, ao passo, que cinco ou dez anos atrás a iniciação se dava entre 14 e 15 anos, em média."

A revista VEJA de 14 de maio de 2000 retoma ao tema do alcoolismo focado no adolescente de colégios particulares "Recreio com cerveja - Adolescentes estão bebendo cada vez mais cedo em bares vizinhos de colégios particulares da cidade de São Paulo".

A matéria tem como ponto forte os depoimentos de adolescentes que consomem álcool de maneira inconseqüente e que revelam um traço comum, o da desinformação.

"De segunda a quinta - feira- a gente só vai quando falta algum professor, mas na sexta é de lei , a turma sempre se reúne no bar", diz Ana, 15 anos, aluna do 1º colegial de uma escola no Butantã.

Já com relação ao consumo próximo aos colégios a sensação de impotência fica clara:

Muitos jovens costumam ser transgressores e, no geral, os colégios pouco podem fazer depois que eles cruzam o portão de saída. O que choca é a facilidade cada vez maior com que meninos e meninas compram e consomem bebidas em lugares públicos.

Especialistas apontam para a necessidade do esclarecimento e da não conivência com atos inconseqüentes dos jovens:

A proibição está longe de ser um simples moralismo ou uma mera convenção. Já que, ingerido em grande escala antes dos 18 anos, o álcool acarreta graves conseqüência físicas e psicológicas. "Na adolescência, o sistema nervoso ainda está em formação" explica MARIA LÚCIA FORMIGONI, coordenadora da Unidade de Dependência de Drogas da Universidade Federal de São Paulo. "Por isso , a possibilidade de ficar dependente é muito maior".

A matéria da VEJA, chega a chocar com observações realistas como estas:

Veja, São Paulo, percorreu bares próximos a escolas. Constatou-se a surpreendente naturalidade com que estudantes entre 14 e 17 anos, que muitas vezes tomam achocolatado no café da manhã, às vezes se embriagam depois das aulas.

Seguem-se depoimentos de adolescentes:

"Bebo umas três garrafas cada vez que sento aqui". Márcio, 15 anos, aluno do 2º colegial Ele contou que sua mãe sabe que o bar é seu destino após as aulas. "Ela só pede para que eu não exagere." Neide, aluna do 1º colegial:

"Meus pais sabem, mas não gostam, mas também não proíbem. Comecei a beber com 11 anos. Aos 12, tomei o primeiro porre. O álcool deixa você mais sossegada, alegre. Toda Sexta a gente vem aqui. Acho que bebo três vezes por semana. Sei me controlar . Não vou me tornar uma alcoólatra". Laura, 15 anos, aluna do 1º colegial:

A matéria também dá espaço para especialistas que apontam para a necessidade da interferência dos pais para educar e informar devidamente seus filhos:

"Educar dá trabalho diz o psiquiatra e psicoterapeuta de jovens Içami Tiba. Antes de questionar os filhos, eles pensam na mão- de- obra que vai dar e acabam deixando para lá".

Segundo um levantamento feito em 1997 pela Unifesp, o álcool é a droga mais consumida pelos jovens. De 2730 alunos de escolas públicas da capital ouvidos, 74% o experimentaram pelo menos uma vez. As taxas de reprovação coincidem com a intensidade do uso. Quem bebe mais leva mais bomba na escola. Ao contrário do que se imagina, o álcool , e não a maconha, é a principal porta de entrada parra as drogas mais pesadas.

Aponta também para o meio propício para a busca de transgressões por parte dos jovens :

O histórico familiar influi muito. "Pais separados, brigas e agressões são alguns dos motivos que levam o jovem ao álcool"- afirma a psicóloga Denise de Michelli.

No âmbito educacional, ou seja, a veiculação de informações a respeito do crescente alcoolismo juvenil , segundo a professora IZABEL GALVÃO é precária e recente. "Há uma década em geral as escolas achavam que por que acontecia fora de seus muros era apenas problema dos pais. Hoje isso tende a mudar".

Tenderá a mudar, pois essa política de isolamento, de não assumir para si a responsabilidade social, não pode fazer parte das instituições que lidam com educação, até porque o reflexo do crescimento do alcoolismo juvenil expande-se de dentro para fora e de fora para dentro. Não há muros que possam isolar a escola, o lar e o espaço público.

"O importante , para os pais e para as escolas, é reconhecer que ele existe e , a partir, daí, mostrar para o adolescente que a pessoa só pode tomar a decisão de beber quando tiver condições de assumir todos os riscos e responsabilidades que essa decisão traz. E isso nunca acontece antes dos 18 anos" (Içami Tiba).

Um dado que os analistas da ANDI também verificaram é que o comportamento dos veículos dirigidos aos jovens apresentam oscilações nas retrancas socialmente relevantes como Drogas e pode acontecer devido a dependerem de "ganchos factuais", aqueles capazes de forçar as portas da mídia, são as notícias quentes. No caso das drogas um exemplo foi o lançamento do livro da jovem PALOMA KLISYS: "Qual é o barato", um relato de sua experiência no mundo das drogas. Esse fato mereceu várias inserções na mídia jovem.

Entramos em contato com KLISYS, que é estudante de jornalismo, pedindo para que ela opinasse a respeito do crescente consumo de álcool entre os jovens. KLISYS escreveu um artigo a respeito deste assunto especialmente para este trabalho:

"Vivemos em uma sociedade de consumo que gira em torno de basicamente três valores: poder, status e dinheiro. As drogas são um artifício de união entre estes valores... Há um incentivo cultural ao consumo de drogas, sendo elas lícitas ou não. Isso indica uma relação de consumo com as coisas... A droga atinge todas as camadas sendo um elemento de massificação apesar de atingir com maior impacto as classes subalternas; até porque elas têm menos chances de se livrarem da dependência por uma questão econômica. O jovem marginalizado não tem expectativa mas o jovem de classe média enfrenta o mesmo problema, cercado em um condomínio sem a possibilidade de conhecer outras realidades, está enclausurado.

O álcool além de ser socialmente aceito, funciona como um objeto intermediário entre o adolescente, seu grupo, e o universo adulto. Seu uso acaba representando um modo de satisfazer a necessidade de auto-afirmação, de aceitação, acolhimento e de inclusão em determinado contexto.

Exemplificando-se alguns aspectos abordados por Paloma em sua explanação há o caso do filho mais velho do primeiro ministro britânico , Tony Blair. Eron de 16 anos foi preso por estar bêbado. A sua prisão causou um grande embaraço a Blair, pois recentemente ele reconheceu que os incidentes de violência causados pelos jovens bêbados converteram-se num problema nacional. Propôs a imposição de multas a quem for encontrado em estado excessivo de embriaguez (Fonte: Estado de São Paulo-7/7/2000).

Portanto torna-se:

Perigoso, quanto se trata de informar, associar o uso do álcool em excesso somente às classes menos favorecidas, o que gera preconceito e mascaramento social. É sem dúvida um problema social que não escolhe sexo, cor, nem classe social e que tende à massificação via cultura do consumismo desenfreado.

Porém se o objetivo é atingir o público jovem na sua totalidade, a comunicação se torna absolutamente necessária. Há de analisar-se a mídia que está mais perto deste publico alvo e portanto, tentar refleti-lo em seu discurso e nas temáticas tratadas nestas publicações de modo a informá-lo e conscientizá-lo . Como exemplo do uso pertinente da mídia podemos citar o jornal Folha de São Paulo de 3 de maio de 1999 no 6 caderno, folhateen.

O artigo em "Onde acaba esta festa?" de SILVIA RUIZ discute

A atitude descompromissada por parte dos pais que liberam a bebida alcoólica, assim como a provação por parte da sociedade, do bar que vende e da propaganda que incentiva.

Tendo como resultado imediato desta atitude complacente e irresponsável o número crescente de adolescentes envolvidos com a bebida que por vezes torna-se a porta de entrada para outras drogas como a maconha, cocaína e crack.

Nota-se que houve uma preocupação por parte da autora em não ser explicitamente didática e nem assumir uma postura crítica, fazendo uso de uma linguagem simples, direta e de um formato que seduza o leitor.

Sendo a folhateen um espaço dirigido aos adolescentes procurou-se em abordar o assunto por meio de depoimentos com faixa etária condizente a dos leitores e histórias de vida muito parecidas.

F.L.Q, 16 anos " Eu experimentei bebida pela primeira vez em casa. Meu pai bebia e me dava a espuminha da cerveja. Você toma a espuma, depois dá um gole, depois bebe um copo..."

L.L.A, 15 anos "As propagandas influenciam o subconsciente. Você não percebe, mas o impulso positivo para beber fica gravado na sua cabeça".

No mesmo artigo há abordagem de como a publicidade da bebida alcoólica é veiculada livremente nos meios de comunicação:

Os jovens estão na mira dos fabricantes de cerveja. A maior parte das campanhas publicitárias elegeu como seu target- público-alvo.

A cerveja Antártica investe pesado em campanhas publicitárias. Indo de anúncios em revistas voltadas para esse público até a Internet.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por meio dos dados expostos nesse trabalho nota-se que já há uma certa mobilidade por parte da mídia em debater temas tabus. A folhateen da Folha de São Paulo abriu espaço para discutir o alcoolismo juvenil, assim como, a revista Veja por duas vezes abordou esta temática.

Analisando-se estes dados conclui-se que a mídia omite-se sobre assuntos polêmicos, apesar de haver um sopro preconizante de que tal situação no futuro tenderá a modificar-se. Quanto a eficácia da comunicação representada pela VEJA e a folhateen observa-se o seguinte:

- A revista VEJA não é uma publicação estritamente ligada ao universo teen;

- Uma das reportagens sobre alcoolismo juvenil restringiu-se a Veja São Paulo, ou seja, analisou-se um problema de uma forma local, apesar dos depoimentos dos especialistas. Esta mesma reportagem concentrou-se no universo da classe média de alunos de escolas particulares;

- Ressalta-se, porém a iniciativa e o conteúdo recheado por depoimentos - histórias de vida- que de uma certa forma une o depoente ao leitor.

- A folhateen fez uma abordagem do tema com profundidade, mas sem um tom didático e crítico;

- A folhateen também apoiou-se em depoimentos a fim de atingir os seus leitores, aproveitando para falar sobre os sites das cervejarias na Internet e de programas como o extinto H (da emissora Bandeirantes) tão apreciados pelos jovens. Apesar da crítica implícita aos sites e ao programa que na época aceitava o patrocínio de uma cervejaria, tudo é tratado de maneira o menos didática possível.

Faz-se necessário ressaltar que é pouco o que tem sido feito até agora. Pois o consumo de álcool não é apenas uma questão de saúde Há a questão da violência, do dirigir embriagado . Segundo DIMENSEIN somos órfãos: apesar dos fatos e números a respeito dos malefícios da droga lícita, são raras as campanhas advertindo para os perigos do álcool. As campanhas sobre o álcool nem pífias são. Inexistem. Pior: a indústria da bebida é ainda mais agressiva do que a indústria do fumo. Quanto mais penso, mais me convenço de que a educação para a cidadania é a prioridade: não é só uma questão de justiça ou moral. (Folha de São Paulo, 20/5/2000)

Um traço comum encontrado em todas as matérias é o uso de depoimentos de consumidores de bebida alcoólica. Outros elementos encontrados nos discursos é a fala do especialista, o discurso competente que visa esclarecer à propósito dos males que o consumo abusivo de álcool pode provocar; referência a pesquisas de instituições competentes, com dados numéricos que apontam para o crescimento do consumo entre os jovens, juntamente com o crescimento das conseqüências trágicas que esse hábito pode acarretar (desde os múltiplos efeitos do alcoolismo até incidência de tragédias como homicídios, atropelamentos e acidentes automobilísticos); um recurso menos freqüente nos discursos é o de fazer uso de depoimentos de familiares de alcoólicos.

Todas as matérias dos suplementos teens pecam por não se preocuparem devidamente com o seu papel de educador. A mídia jovem, aquela que elabora seus discursos pensando o receptor adolescente vem vencendo resistências, rompendo com tabus, no entanto os temas de relevância para os adolescente ainda não atingem um número de inserções favoráveis; além disso é preciso saber conciliar linguagem "sedutora" (o formato das matérias dos suplementos teens) e a informação consistente e reflexiva (matérias da VEJA).






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