Em 2007 o Museu de História da Medicina de Berlim exibiu a exposição intitulada “dor”; a intenção era remontar o processo evolutivo da instrumentalização médica



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Objetos de Cura, Objetos de Tortura: A Medicina entre o compromisso de alívio e as fontes da dor.

Andrezza Christina Ferreira Rodrigues

Resumo

O presente trabalho visa elucidar algumas das questões historicamente constituídas no campo dos saberes médicos no desenrolar do século XX. A preocupação com o combate à doença e seus males nos parece algo inerente a ética médica, no entanto, no que tange à dor do paciente durante o processo de cura é algo ainda polêmico. Se a dor, enquanto sintoma, pode dizer muito a respeito do quadro patológico desenvolvido pelo doente, esta também pode abrir espaço para discutirmos os meios de curar; os objetos de cura médicos oscilam entre o alívio da dor e a instauração de outras dores típicas do processo curativo. O foco dessa discussão, portanto, situa-se no momento onde as ciências médicas evoluem de uma fase experimental do processo de alívio da dor a uma fase comprometida com a manutenção da vida humana.



Palavras-chave: doença, ética médica, dor.

Abstract


The present work aims at to elucidate some of the questions historically consisting in the field of medicine knowledge in uncurling of XXth century. The concern to the combat of illness and its developments seems something inherent on medical ethics, however, in what it concerns to the patient’s pain during the cure process is something still controversial. If pain, as a symptom, can tell many things about the pathological picture developed by the sick person, also can argue the ways to cure; the medical objects of cure oscillate between the relief of pain and the coming of other typical pains of the treatments process. The focus of this quarrel is placed on the moment where medical sciences evolve of an experimental phase of the process of relief of pain to a phase compromised to the maintenance of the human being life.

Keywords: illness, medicine ethics, pain.

Em 2007 o Museu de História da Medicina de Berlim1 exibiu a exposição intitulada “dor” 2; a intenção era remontar o processo evolutivo da instrumentalização médica. Mas, para além da exibição de uma série objetos utilizados cotidianamente pelos profissionais da saúde, havia uma pergunta incômoda no ar: os instrumentos desenvolvidos para a cura e tratamento aliviam as dores causadas pelas doenças ou provocam outras?

A dor não é uma exclusividade do corpo humano, mas através de sua inteligência e capacitação, o homem chega a atingir as coisas sensíveis de uma maneira distinta. Cria mitos em torno de si, organiza-se em sociedades e partilha assim de um imaginário que torna o grupo coeso. A dor aparece então como algo para além do corpo, cheia de signos, mas que ainda parte dele. As sociedades inventaram uma “cultura” da dor física que não pode ser desprezada, tampouco esquecida.

Por que, afinal, estudar a dor? Porque ela constitui uma parcela importante da formação e das indagações humanas acerca de si e, principalmente, nas fronteiras do corpo. O corpo que “constitui uma das grandes lacunas da história, um grande esquecimento do historiador” (LE GOFF;TRUONG:09:2006) serve de objeto para compreensão dos processos e produções humanas, pois afinal a história tem um corpo e este também uma história. Logo, a dor e seu emaranhado de sentidos e subjetividades dão espaço a um objeto para o estudo do corpo: aos “poderes do corpo” os problemas.

Este corpo físico, carnal, que desde o sacrifício de Jesus em prol da humanidade trouxe perturbações ao Ocidente, tem suas raízes aprofundadas na Idade Média e, finalmente na “Era Moderna”, no povoamento da América portuguesa; cruzou oceanos, fora trazida, e aqui encontrou maneiras particulares de se propagar. Aos poucos, nas estruturas sociais específicas constituídas do lado de cá e não de lá do Atlântico – como a presença de sociedades autóctones e, pouco depois, na presença africana – a dor desenvolveu uma forma híbrida de se expressar, essas que causaram admiração, medo e até surpreenderam viajantes e memorialistas estrangeiros que aqui aportaram até a primeira metade do século XIX. Mas, porém, nada se compararia com o choque causado pelas idéias modernas3 que, novamente, viriam de lá e arraigariam cá novas manifestações culturais da dor.

A dor, durante muito tempo, dentro da dicotomia saúde-doença, foi experimentada como causa da doença e não seu sintoma. “No século XIX, morria-se mesmo era de febre, e assim devemos considerar, pois era a aparência e o visível que contava.” (CAMARGO:12,2007) Desta forma, pode-se considerar a dor como elemento fundamental da dinâmica que movia os corpos; se havia dor, ali estava instaurado um problema. A dor encontrava meios diversos de surgir no corpo: marcava sempre um “mal estar físico”, sejam estes nos pulmões, cabeça, braços, pernas, etc.

Os avanços médico-científicos europeus, que chegaram aqui aos poucos, possibilitaram a abertura de um novo campo de saberes; o corpo, progressivamente, foi alvo de quantificações e medições, algo que visava o bem coletivo por meio do bem individual; uma sanitização do corpo humano para chegar ao corpo social. Nesse complexo panorama, as especificidades brasileiras – clima, economia, política, religiosidade e raça – desenharam formas características de mentalidades; às aventuras do corpo4, novas medidas; à dor, novas perspectivas.

Com o advento da medicina social, com os modelos modernos de punição – esta no sentido de reeducar, não mais como físico, mas em um sentido desencarnado, alcançada pela organização de novas instituições, identificadas como carcerárias e asilares5 –, a intensificação dos saberes de curar o corpo, e finalmente, uma política de medicina preventiva que visava à profilaxia primeira à uma patologia, a dor perdeu seu sentido secular, criou-se uma cultura científica da dor: perpassa à todos de uma maneira igualitária, independente de classe social ou credo religioso. Foucault6 localiza o nascimento da medicina moderna, ou seja, do saber médico como ciência científica e positivista, nas últimas décadas do século XVIII, quando o corpo humano passou a ser descrito e analisado de forma totalmente diferente em relação ao que ocorrera nos séculos precedentes. O que havia permanecido debaixo do visível e do enunciável, passa à superfície, sendo assim esquadrinhado, fundando a objetividade científica.

Essa medicina preventiva aparece com maior visibilidade nas instituições educacionais brasileiras a partir da década de 1870 – pelos “homens de sciencia7” –, evidenciando-se as faculdades de direito e de medicina e, desta maneira, reformando o pensamento acerca das instituições penais e hospitalares no país. De acordo com Roy Porter8, as doenças são produtos sociais, tal quanto a luta da medicina contra elas. Nessa perspectiva, a dor passou, do imaginário popular à um imaginário restrito, científico e, assim, perdeu sua parcela de suplício, de sofrimento; passou a ganhar em respostas, caminhava enfim para uma nova era, onde não mais os homens eram iguais perante a Deus, mas perante às ciências.

Siegfried Lenz9 notou que, no momento em que a dor eximiu-se da responsabilidade de ser o “mal”, ela passou a ser fundamental para a medicina no combate às doenças “incômodas”. A tuberculose, por exemplo, tinha em seu conjunto de dores, uma névoa que, até a qualificação destas como sintomas, povoou o imaginário de muitas maneiras: o romantismo teve nessas “dores” inspirações diversas, identificadas com a boemia, com o soturno, com o amor. Muitos poetas sentiam dores de amor, quando em verdade, sentiam as dores causadas pela presença do bacilo. Também, o cólera, o tifo e a sífilis foram alvo desta literatura romântica.

Álvares de Azevedo pôs o peso das dores em seus escritos. Condicionadas ao cotidiano da cidade e seus círculos sociais, implicou o retrato da dor como inerente à condição da doença e, desta maneira, inerente ao corpo social. “És um louco, Bertram! Não é a lua que lá vai macilenta: é o relâmpago que passa e ri de escárnio as agonias do povo que morre... aos soluços seguem as mortalhas do cólera”10!

Na passagem, no século XIX, de um imaginário calcado em um universo místico para um científico, viu-se o achatamento das classes sociais através da emergência de correntes de pensamento vinculadas aos modelos do darwinismo social, das teorias evolutivas. O que se valorizou no Brasil, a partir da década de 1870, foi uma “cientificidade difusa e indiscriminada” (SCHWARCZ:2007,30). A ciência revela-se um “modismo” que busca, sobretudo, difundir o pensamento vindo da Europa e só posteriormente instalar-se aqui como prática e produção.

“Homem de ciência, é só de ciência, nada o consterna fora da ciência11”. Através da frase de Simão Bacamarte pode ser percebido como a ciência fora vista mais do que uma profissão, mas como uma missão: precisava ser enaltecida, difundida, adorada.

Com o estudo sistemático das doenças e suas qualificações, as dores passam a interagir no campo sintomático; há, portanto um padrão de dor para cada tipo de doença. A dor que para os românticos expressou algo mais sensorial, agora fora reduzida ao simples sintoma. Podia agora ser objeto de estudo de patologias; podia ser medida. A dor perdia seu invólucro de mistério, passou a ter, juntamente com outros elementos constitutivos do corpo, um espaço próprio, uma disciplina própria para entendê-la cientificamente.

A partir do século XX, o médico é o principal agente de difusão dos conhecimentos médicos, ou seja, aquele que leva ao paciente todas as informações acerca de sua doença. O paciente, nesse sentido, só pode ser compreendido em suas experiências com o desenvolvimento do quadro patológico e, conseqüentemente, as dores desenvolvidas nesse processo, pelo olhar do médico, pois mesmo que seja o paciente a sofrer, ele só encontra significados para tais dores através do médico. O paciente sente, o médico analisa sob o prisma da ciência objetiva.

Quando Susan Sontag12 analisa a doença e seu impacto social, percebe que a dor dos enfermos pouco aparece; há sim um horror à doença, uma dor descarnada, que perpassa os grupos: a dor da exclusão, a dor compartilhada pelo isolamento. No século XX a dor não era alcançada, justamente “numa época em que a premissa central da medicina é que todas as doenças podem ser curadas” (2007, 12). Foucault13 demonstra que a intenção do isolamento está em cercar a sociedade de uma normatização moral e ética e que, neste sentido, o enfermo deve ser excluído, deve ser privado de seu direito de ir e vir; o doente não se enquadra nas sociedade saudável, deve ser mantido nos espaços adequados à sua condição física e social: seu contato deve ser com o médico e com os tratamentos terapêuticos. Sendo uma constituição cultural, portanto histórica, a dor, mesmo vista como algo inerente ao corpo, deve se conformar à regras morais de uma determinada sociedade.

Barbara Duden14, em um estudo pioneiro sobre as relações médico-paciente na cidade de Eisenach, na Alemanha do século XVIII, evidenciou que a percepção da dor – como sintoma ou provocada por tratamentos terapêuticos – só pode ser remontada na historiografia através da própria relação; a dor expressada pelo paciente fora recebida pelo médico e transcrita nos prontuários e, conseqüentemente, perdeu-se a real sensação desta, pois ela se encontrava apenas no interior do paciente, mas este, ao descrevê-la ao médico, necessitou de recursos para se fazer compreender. O médico, em sua visão objetiva-científica tentou diagnosticar o significado da dor no campo sintomático e, assim, prescrever tratamento adequado. A dor que incomoda o paciente seria para o médico apenas a evidência do sintoma de uma determinada patologia.

Se retomarmos o pensamento de Maurice Merleau-Ponty15 notamos que – mesmo que a dor pertença à esfera do indizível e, mesmo quando linguagem que a expressa é metafórica – é possível recuperá-la através da análise dos materiais legados através das maneiras que “os corpos” encontraram de se expressar no mundo; é na herança das relações do corpo e suas percepções com outros corpos que se encontra o caminho para desvendar a dor.

Elaine Scarry16 examinou a dor através de suas representações intelectuais, artísticas e culturais, localizadas a partir da Bíblia, passando por Marx, até chegar ao presente. O objetivo era estabelecer que fosse inerente a essência da dor o fato de ela ser inexprimível em sua “verdade” física. Pois ela parte de um sujeito e, apenas este pode ter a real dimensão de sua dor. Contudo, a dor pode ser descrita através de palavras e imagens, que tentam remontar à quem vê ou lê sensações provocadas pelo corpo em dor. O sujeito se relaciona com o mundo através da comunicação e utiliza-se de seu corpo, seja em gestos ou palavras para estar no mundo.

Para Alain Corbin17 os modos de expressar dor, sua linguagem particular, influenciam fortemente a experiência e a situação do paciente. Apresenta-se a questão de saber se esta experiência é comunicável ou pertence à esfera do indizível.

Logo, em um momento em que a dor do paciente é apenas analisada no campo sintomático e não há uma preocupação com os desdobramentos dessas dores no próprio campo curativo do paciente, abre-se a questão quanto a objetividade científica médica. Consegue de fato dar conta da cura dos enfermos de maneira total ou apenas a cura localizada? O quanto isso afeta o processo de cura da doença e como, em âmbito social, as doenças, que são divulgadas por essa medicina, são excludentes.



Bibliografia




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