ElucidaçÕes dionisíacas: sobre o conceito de liberdade em bakunin



Baixar 56,13 Kb.
Página1/2
Encontro02.03.2019
Tamanho56,13 Kb.
  1   2

ELUCIDAÇÕES DIONISÍACAS: SOBRE O CONCEITO DE LIBERDADE EM BAKUNIN

Em memória de Robson Achiamé (Resquiescat in pace)

Mikhail Bakunin [1814-1876], que não era sábio, tampouco filósofo, muito menos escritor profissional, e que, mesmo assim, amava apaixonadamente a liberdade, procurando incansavelmente pela verdade (GUÉRIN, 1980, p. 27), afirma ser a realização da vida dos seres humanos no mundo a conquista objetiva da sua humanidade, isto é, para o anarquista russo, a plenitude da realização do ser no mundo é a tendência natural de tudo que vive, porém, antes de atuar sobre o lado de fora, na realidade objetiva, é necessário olhar para dentro, em um exercício de introspecção reflexiva, se autoconhecendo ao obter a consciência total de ser pensante e vivente de só uma vez (BAKUNIN, 1975, p. 7). O pensador libertário do Conceito de Liberdade [1975] identifica a existência de um princípio que move os seres humanos em busca do conhecimento de si e dos segredos da natureza a sua volta: para o gigante fomentador de insurreições (ONFRAY, 2013. p, 267), o saber é uma necessidade inexorável do ser humano, um elemento essencial para a constituição da natureza humana, é a virtude que permite a liberdade do ser no mundo (BAKUNIN, 1975, p. 7). O conhecimento de si mesmo e da natureza são, para o titã de Premukhino (ONFRAY, 2013, p. 267), as molas propulsoras para a realização plena da natureza humana prática (BAKUNIN, 1975, p. 7). Em outras palavras, o anarquista poliglota (ONFRAY, 2013, p. 267) acredita que a negação do saber constitui uma renúncia ao que há de natural no ser humano, ou seja, a sua própria humanidade e que, sendo o saber um dever para todos os seres humanos, devem estes procurar cada vez mais aprofundar o pensamento na realidade do mundo, compreendendo desta forma a sua própria natureza (BAKUNIN, 1975, p. 8). Liberdade vem de líber; líber quer dizer livro; o livro é um instrumento da liberdade, uma ferramenta que liberta os seres humanos, um utensílio cujo principal objetivo é libertar o ser humano da ignorância: a liberdade, segundo o rebelde irrefreável (ONFRAY, 2013, p. 267), não se conquista sem conhecimento. A magnitude da tarefa de conhecer nada mais é do que infinita; além disso, é conhecendo que se vai sentir revolta: em poucas palavras, o ser humano tem o dever de conhecer o que houver ao seu alcance.

A grandiosidade das dimensões do globo terrestre é tão inacessível em sua totalidade quanto são inacessíveis as dimensões de todo o universo: a ausência de uma última palavra sobre as coisas não é um motivo para haver o desespero (BAKUNIN, 1975, p. 8). O libertário cosmopolita (ONFRAY, 2013, p. 267) advoga a destruição dos limites como uma forma de poder felicitar o ser humano e reconhece a capacidade ilimitada dos seres humanos de poderem abstrair todas as coisas que desejam conhecer (BAKUNIN, 1975, p. 8). A revolta do espírito humano contra todas as barreiras impostas em seu caminho para a sua mais alta emancipação é a imanência da natureza desobediente dos seres humanos intrinsecamente rebeldes: o poder e a força da liberdade do ser humano residem na imensidão da sua vontade de rebeldia desenfreada contra todas as formas de opressão e limitação tanto conhecidas quanto desconhecidas (BAKUNIN, 1975, p. 9). O possível é realizado e conhecido mediante a procura pelos limites do impossível.

A emancipação interior dos seres humanos só poderá ser alcançada, na perspectiva do boêmio revolucionário (ONFRAY, 2013, p. 271), quando não só o ser humano, mas todos os seres vivos, se libertarem do peso da dominação da natureza exterior sobre as suas vidas, rompendo as cadeias da ignorância com a destruição criadora do conhecimento (BAKUNIN, 1975, p. 9). Dito de outra maneira, a verdadeira ferramenta de trabalho dos seres humanos é a sua inteligência e o instrumento que mais o aproxima da humanidade enquanto a sua própria natureza é a sua vontade de ser pensante para poder ser atuante e eficiente contra as forças da opressão dos poderes instituídos (BAKUNIN, 1975, P.9). A potência de abstração dos seres humanos é uma lente que permite a visão das suas paisagens imaginárias, nas quais a liberdade de um passeio no íntimo do ser se materializa com reflexões, as ações exteriores são um reflexo das elucubrações interiores, e as faces da subjetividade são vividas na objetividade.

O brutamonte que trazia nas suas barbas o cardápio da semana (ONFRAY, 2013, p. 273), visualiza que as pulsões, tendências e impulsos dos seres humanos, são movidos pela vontade individual de cada um, e ainda, observa que todas as facetas da subjetividade são moldadas pelo corpo social: a sociedade influencia e as peculiaridades das circunstâncias corroboram para o enfraquecimento ou para a fortificação dos atributos internos e externos dos seres humanos (BAKUNIN, 1975, p. 10). O materialismo libertário de Bakunin, apresentado na totalidade das entrelinhas dos tomos das suas Oeuvres Complètes [1961-1981] e, em especial, nos excertos do seu Conceito de Liberdade, postula a sociedade como uma força transformadora dos seres humanos, assim com defende a incontestabilidade da natureza, indo contra a reatividade do hegelianismo de direita dos idealistas da filosofia moderna, o pensador fenomenal do coletivismo adere à atividade materialista da dialética negativo-antinômica, destruindo inutilidades filosóficas como sistemas de pensamento reacionários e conservadores, agindo e pensando para mudar radicalmente a estrutura da realidade material, a sua concepção de anarquia é um cocktail molotov para aqueles que têm sede de revolta e que dão vivas para o som da explosão.

A realidade do indivíduo humano, de acordo com o aristocrata ingovernável (ONFRAY, 2013, p. 297), é a sua universalidade e abstração: atributos que determinam as particularidades do caráter individual de cada um e que fazem com que as ações de cada ser só sejam suas (BAKUNIN, 1975, p. 10). Comendo no lugar de vários, com um apetite monstrofágico de ogro, encarnando fisicamente a revolução (ONFRAY, 2013, p. 273), o revoltado visceral das rebeliões (ONFRAY, 2013, p. 297) destroça completamente as narrativas mitológicas das fábulas míticas que instituem ficções abracadabrantes no cotidiano da vida material (ONFRAY, 2013, p. 293), e defende uma completa inexistência de seres imateriais no controle das vontades humanas, assim como não admite o domínio da inteligência humana pelas forças invisíveis desprovidas de razão, uma tendência ao pioneirismo que antecipa as teorias do determinismo social e biológico é forte no seu pensamento, e o seu socialismo dionisíaco o aproxima da postura libertária dos materialistas radicais (ONFRAY, 2013, p. 292): a felicidade social é a realização material da liberdade compartilhada sem contenções e a reverberação dessa liberdade e felicidade multiplicada é o auge da dignidade na terra.

A radicalidade da anarquia dionisíaca do maçom coletivista (ONFRAY, 2013, p. 274) lança luzes na profundidade do abismo social para enxergar as raízes do ser na sociedade e a real natureza da sua liberdade na esfera objetiva do plano coletivo: é devido ao peso do mundo que as formas de pensar são modeladas e as maneiras de ser são construídas para que o indivíduo possa agir em senso amplo (BAKUNIN, 1975, p. 11). As novas gerações que enfrentam o efeito do peso dos séculos lutam no campo dos fatos reais da sociedade para lá se tornarem as causas viventes da transformação do planeta (BAKUNIN, 1975, p. 11). A educação autoritária na formação inicial da vida humana ensombrece a consciência da liberdade individual dos seres humanos e as instituições vão deformando o pensamento do ser humano até o ponto das ações de cada um ter movimento involuntário no espaço social (BAKUNIN, 1975, p. 11). A tentativa basbaque de apresentar ideias que expressem as aspirações coletivas da sociedade é uma demência que tetaniza o espírito humano com as lâminas enferrujadas da falsa revolução dos socialistas autoritários e dos ditadores nazifascistas: os alienadores de consciência, as vedetes do espetáculo, os arrebanhadores sociais, são opositores ferozes da emancipação dos espíritos livres que se atrevem a enfrentar sua autoridade e a violência da sociedade sobre a liberdade de contestação humana é monumental.

Antes da libertação através do saber, a consciência humana está sujeita ao social, e mesmo bombardeando as barras de ferro dessa cadeia, o ser humano está exposto às represálias da sociedade: a pressão exercida pelo social sobre os indivíduos não perdoa nem o caráter e nem a inteligência dos seres humanos (BAKUNIN, 1975, p. 13). O músico violinista que um poema sinfônico sobre Prometeu compôs (ONFRAY, 2013, p.276), atesta que a bolha social é um mal temporário à existência de todos os seus integrantes porque ela agrega os costumes de coexistência polivalente entre cada um deles, interligando as relações sociais na esfera da cultura, ela tanto domina quanto sustenta quem a integra (BAKUNIN, 1975, p. 13): o que não tem nada de natural, pois é por causa da comodidade das tradições que as rotinas sociais não são superadas pelos indivíduos e assim todo o progresso da história se atrasa em larga escala.

Pensar como impõe a massa cega é a melhor maneira de não se expor ao esmagamento social. Mimetizar as invalidades alheias é repetir cada vez mais e com uma maior insignificância o pensamento dos outros – o que não passa de uma maneira para se diminuir como ser humano a partir da mediocridade improdutiva do vazio existencial. A obediência servil aos consensos sociais da vulgaridade massificada e a autoflagelação da submissão cotidiana dos indivíduos à moral e aos bons costumes são as causas do atraso na evolução da liberdade de pensamento e uma das razões para o enregelamento das revoltas naturais da vontade dos seres humanos: se ainda é preciso ter muita coragem para desafiar as convenções instituídas, chegará um momento no qual não haverá mais convenções para serem desafiadas... Muitas vezes um gorila tem mais consciência de sua animalidade do que um ser humano tem de sua humanidade (BAKUNIN, 1975, p. 14). A existência humana tem o seu ponto de partida na sociedade e a liberdade pessoal das personalidades individuais só poderá ser experimentada em conformidade com a fluência do ser social no espaço grupal sem qualquer interferência repressiva de ordem recíproca (BAKUNIN, 1975, P. 14). O Estado é uma ferida humana exposta cujo pus está vasando da gangrena sobre o seio da organização oficial das sociedades submetidas ao e torturadas pelo governo malfazejo das hierarquias políticas do poder esmigalhado pelos tentáculos degenerados do imperialismo no centro da sociedade capitalista contemporânea.

A revolta contra a influência da sociedade organizada é a revolta inevitável contra o Estado policial da repressão totalitária (BAKUNIN, 1975, p. 14). A violência imperativa do Estado é a máscara da sua tirania esmagadora (BAKUNIN, 1975, p. 15). A revolta dos indivíduos contra a sociedade é em partes e também uma revolta que se volta contra eles (BAKUNIN, 1975, p. 15). Assim como é impossível se revoltar radicalmente contra a sociedade, também não é possível se revoltar radicalmente contra a natureza (BAKUNIN, 1975, p. 15). O Estado é um rebento bastardo da bestialidade primitiva cuja necessidade é tão importante para o presente quanto a sua total extinção imediata.

A natureza violenta do Estado naturalmente provoca nos seres humanos a revolta mais profunda. A revolta da liberdade se legitima quando a ordem deteriora a dignidade dos indivíduos. O Estado é, para o amante aficionado das barricadas da revolução libertária, (ONFRAY, 2013, p. 280) a completa negação da liberdade plena dos seres humanos (BAKUNIN, 1975, p. 16). A prática do bem desobrigada consiste na culminação da liberdade (BAKUNIN, 1975, p. 16). A sociedade se individualiza nos seres humanos e transmite a sua natureza de maneira social para cada um: o Estado impõe pela brutalidade das suas vontades tiranas de soberania a dor da ordem através da violência contra quem não se comporta nos seus padrões de aceitação. A solidariedade dos seres humanos se manifesta quando a reciprocidade da influência natural lhes aproxima no contexto social de convivência existencial. A solidariedade social e a liberdade individual são as duas leis mais ancestrais da humanidade (BAKUNIN, 1975, p. 16): a natureza dos seres humanos está contida na interpenetração e na inseparabilidade dessas duas leis primordiais (BAKUNIN, 1975, p. 17). A liberdade é o desenvolvimento da solidariedade pela humanização da natureza dos seres humanos. A solidariedade social, distante das relações de esperto-otário, é uma lei natural que se aplica no cotidiano individual para a libertação pessoal: anarquista jamais é babá de malandro, predispondo-se a nunca sustentar um parasita. A liberdade dos indivíduos é um produto extraído da sociedade na qual se encontram. Destruir a humanidade é a prévia condição para não ser um ser humano (BAKUNIN, 1975, p. 18). Abolir a influência natural e benéfica de um ser sobre o outro seria ditar para os seres humanos a morte (BAKUNIN, 1975, p. 18). A verdadeira abolição das influências perniciosas da sociedade deve começar contra a formação de paraísos inexistentes veiculados pelo Estado e pelas instituições de natureza secular que nulificam a expressão da liberdade social do ser no mundo.

Todas as coisas que se isolam não existem completamente: só se existe de maneira verdadeira ao fazer isso junto ao todo (BAKUNIN, 1975, p. 18). Das sociedades humanas às partículas subatômicas, das grandezas microscópicas à estrela com mais massa, dos mundos moleculares à estrutura arquitetônica das pirâmides: a interdependência dos elementos é um fator preponderante, que assegura a manutenção do equilíbrio cósmico (CAPRA, 1993, p. 104), e harmoniza o indivíduo no contexto social. O ser é ação: uma genialidade intransmissível não passa de nada quando aquilo que há dentro se coloca para fora (BAKUNIN, 1975, p. 19). O vazio íntimo é o mal da miséria dos gênios ignóbeis. Uma sociedade fundamentada na igualdade, direcionada pelo princípio da solidariedade, nas quais as relações se articulem no respeito recíproco, será propícia à liberdade irreversível dos seres humanos (BAKUNIN, 1975, p. 19): a força tamanha de tal sociedade fará cair por terra todo o poder das autoridades até então instituídas pelo Estado e pelas instituições propagadoras dos poderes do atraso. Em poucas palavras, a liberdade interpessoal, enquanto fato social, ao infinito aumenta a liberdade pessoal.

A influência nefasta das autoridades metafísicas desumaniza cada vez mais a liberdade dos seres humanos (BAKUNIN, 1975, p. 20). A moral clerical subverteu a ética natural pela perversão do material em ideal (BAKUNIN, 1975, p. 20). Para que todas as necessidades possam ser saciadas pela solidariedade, a luta pelo desmoronamento das instituições da desigualdade é um dever ético de todo ser humano. A inexorabilidade da liberdade construída pela solidariedade é uma luta de resistência contra qualquer autoridade controladora da naturalidade dos seres humanos em sociedade. A miséria das autoridades que se debatem para representarem a totalidade condiciona a existência dos indivíduos por meio da ignorância ao total desajuste antinatural à liberdade natural do ser humano (BAKUNIN, 1975, p. 21). Não querer se tornar livre é se converter em um agente manipulado pelas forças da repressão (BAKUNIN, 1975, p. 21). A tristeza da realidade na submissão não é uma mera ilusão de ótica: a servidão voluntária é um cadáver putrefato na viscosidade opressiva da lama morta de um pântano fétido cujos juncos putrescentes amarram a humanidade no fundo do lodo.

A liberdade total e completa de um indivíduo só será realmente possível na medida em que os outros indivíduos ao redor se tornem livres sem distinção (BAKUNIN, 1975, p. 22). A liberdade é a dignidade do ser humano; todo ser humano tem o direito à dignidade; todo ser humano tem o direito de ser livre. A confirmação da liberdade individual pela liberdade total é o aval que as estende ao infinito (BAKUNIN, 1975, p. 23). A liberdade do ser humano consiste numa vida harmoniosa com as outras liberdades à sua volta e para isso é necessário que não deixe de haver interação na intenção de produzir mais harmonia (BAKUNIN, 1975, P. 23). A pressão exercida pela natureza através da tirania das leis naturais sobre os seres humanos só poderá ser amenizada mediante a um esforço coletivo (BAKUNIN, 1975, p. 23). O que há de mais humano nos seres humanos é a sua liberdade que só pode ser conquistada através da luta de um trabalho coletivista (BAKUNIN, 1975, P. 24). O amor pela humanidade e pela completa liberdade de todos é o critério necessário para a total autoafirmação do ser enquanto humano: apenas pelo respeito às liberdades é que se pode ser respeitado para ser livre.

O Estado é a espetacularização prática da mais profunda escravidão que se possa conceber em toda história da humanidade. A sociedade, quando sufocada pelo miasma do Estado, se catapulta em repressões sobre os indivíduos, em contratos antinaturais encarceradores, que advogam a propriedade privada, e que cada vez mais vão mutilando os seres humanos, causando na humanidade uma deformidade subjetiva: enquanto segue aniquilando a natureza da humanidade, diminuindo a força viva da liberdade, as presas do Leviatã vão dilacerando a dignidade através da tortura, fortalecendo a grande mentira da estética dos ossos, que defende só haver a igualdade depois da morte (BAKUNIN, 1975, P. 25). Para o amotinador de energia inexaurível (ONFRAY, 2013, p. 281), a igualdade é possível aqui e agora: para isso, é preciso que se faça obliterar todas as formas de domínio, quer psicológico, seja fisiológico, pois a dominação é o alicerce da desigualdade, e é urgente desabar as estruturas do poder.

A sociedade que se desumaniza pelas linhas de um contrato tem a cara bestificada como a do monstro Leviatã. A fraudulência degenerativa do contrato social é uma praga devastadora para a liberdade dos seres humanos. As relações contratuais na sociedade são passíveis à infâmia contaminadora da corrupção dos cães sarnentos da burocracia autoritária do Estado. O contrato social é uma sentença glacial de prisão perpétua mútua: uma vez tendo se sujeitado às suas cláusulas, o indivíduo desconsidera a sua própria natureza de ser livre, renunciando a uma parcela da sua liberdade natural, ao se enganar por entender que o bem comum pode ser determinado pelas mentiras do Estado, condiciona-se a viver preso como uma fera torturada pelos sádicos do circo dos horrores (BAKUNIN, 1975, p. 26); uma vez fracionada, a liberdade se apaga por inteiro, pois sendo uma virtude indivisível, não tem como resistir pela metade (BAKUNIN, 1975, p. 27). Em uma frase, o primeiro ato de liberdade é a desobediência.

A mentira central que dá sustento ao apetite insaciável do Leviatã é a de que não é possível para os povos governarem as suas vidas: esta falsidade ideológica é o viés pelo qual se difunde a imundície dos rastros de morte da besta famélica. Em outras palavras, o Estado é necessariamente autoritário, pois nada quer a não ser governar, comandar, controlar, dirigir, administrar a natureza dos seres humanos, e fazer dela o seu modelo de fabricação antinatural, como se isso satisfizesse as necessidades impreteríveis de todo mundo (BAKUNIN, 1975, p. 29). A máquina do Estado é o patrimônio do privilégio (BAKUNIN, 1975, p. 29). A miséria absoluta dos povos é uma consequência desastrosa da exploração constante e a propriedade privada é a causa da pobreza universal: sendo assim, uma vez que a burguesia fique gorda, o raquitismo toma conta dos miseráveis, e o poder se perpetua empilhando as ossadas de criancinhas assassinadas pela fome.

O Estado em toda parte do planeta está fadado a se destruir enquanto existir ao levar junto consigo o que houver ao seu redor. Em nome da soberania de um Estado a ruína da humanidade será construída... A função principal do Estado é procurar por estender o seu poder atropelando a liberdade das diferenças a sua volta (BAKUNIN, 1975, p. 30). A força exterminadora das armas de destruição em massa é o escudo de segurança que o Estado levanta contra as suas calamidades inesperadas. Para vedar o descontentamento das populações amordaçadas, o Estado oferece a censura intelectual, o policiamento comportamental e a brutalidade silenciadora aos seres humanos: isso é o que alcunha-se de segurança do bem-estar, apelida-se de pura paz perpétua ou denomina-se de contrato social humanitário. A patetice das forças armadas só não se torna uma piada hilariante porque os escravos ridículos de farda estão armados com fuzis municiados (BAKUNIN, 1975, p. 31). Quando se trabalha para a morte, a própria dignidade já está morta: não existe liberdade para a matança, mas existe a matança da liberdade.

O regimento dos quartéis é um atentado à liberdade. A soldadesca se faz compor como uma máquina robótica de guerra desprovida de senso crítico. A dominação através da truculência é a desumanização do ser humano. A monotonia do devotamento implacável às autoridades é a rotina sistemática da tortura de ser militar (BAKUNIN, 1975, P. 31). Amar a liberdade é detestar a disciplina (BAKUNIN, 1975, p. 32). Todas as infecções deletérias da moléstia do Estado têm de ser erradicadas para sempre da face do mundo e da sociedade para que seja possível contemplar a liberdade natural de ser humano (BAKUNIN, 1975, P. 32). A finalidade do objetivo mais elevado da humanidade é conquistar e executar completamente a sua total liberdade, desenvolvendo todas as condições necessárias ao exercício da solidariedade desobrigada, para que possa existir sem restrições a emancipação social e econômica de todos sem exceção, e assim possa haver o triunfo da vida na terra (BAKUNIN, 1975, p. 34). Em uma breve colocação, de um ângulo materialista-libertário-revolucionário, todas as medidas promotoras do atraso são atrasadoras e todas as movidas produtoras do avanço são emancipadoras.

O instinto de revolta é uma atitude saudável em relação à doença contagiosa da tirania dos governos e do Estado. A liberdade estabelecida por um contrato social e vivenciada dentro de um Estado é uma sórdida ficção autoritária (BAKUNIN, 1975, P. 39). A vulgaridade dos vícios da truculência sedenta de sangue se faz um espelho refletor para os lamentos das dores do mundo causadas pelas pragas do governo. A verdadeira ordem e a justiça autêntica serão frutos maturados pela força dos povos ao invés de ferramentas destrutivas desenvolvidas pelos facínoras parlamentares. A ignorância disseminada pelos aparelhos corruptores do Estado é o segredo sinistro que possibilita a sua própria manutenção e assim denuncia os seus propósitos perversos.

A sociedade governada pelos desmandos da ciência se converte numa monstruosidade desumana (BAKUNIN, 1975, p. 40). Por um lado, o autoritarismo prevaleceria se a ciência determinasse a moralidade na esfera social e para tanto ela teria que bloquear a liberdade dos seres humanos (BAKUNIN, 1975, p. 40). Por outro lado, o mais rasteiro nível da estupidez se implantaria sobre todos a considerar que a ciência não é feita para muitos (BAKUNIN, 1975, p. 41). A ciência autoritária é a polícia do pensamento subjetivo. As generalizações do pensamento cientificista autoritário classificam a realidade objetiva da empiria como se fossem verdades completas. Não obstante, as constantes atualizações das definições científicas fazem da ciência uma metamorfose incessante, e as suas ininterruptas transformações não dão conta das forças da vida (BAKUNIN, 1975, p. 42). A ciência se relaciona mais diretamente com a superfície de todas as coisas porque se dirige ao que há de geral: a vida está ligada mais objetivamente à sublimidade das experiências indescritíveis do conhecimento da profundidade do ser (BAKUNIN, 1975, p. 43). A ciência reduz o real a palavras e testes: a vida amplifica o real rumo aos antípodas do intransponível.

A inferioridade que distancia a ciência das artes é astronômica: enquanto as artes se voltam das abstrações para a vida real, a ciência regressa da vida real para as abstrações (BAKUNIN, 1975, p. 43). A ciência pensa a realidade que não vive, abstrai uma vida que não realiza: as artes, porém, palpitam de vida vibrante, humanizam os seres do mundo real. As artes tem o poder de criarem a vida e a ciência só faz constatar que reconhece as criações (BAKUNIN, 1975, p. 44). O verdadeiro objetivo da ciência é o esclarecimento das coisas da vida. A vida não é obrigada a ser governada pela ciência. A ciência coloca limites à liberdade porque só permite conhecer o conhecido. A vida não se resume às teorias abstratas de uma ciência repleta de falhas. Viver para a liberdade é se criar constantemente porque as artes não se inspiram por teorias e a vida no seu mais profundo sentido é também uma obra de arte.

A vida é pura criação e quanto mais livre do morticínio da subordinação doutrinária ela estiver tanto mais plena será sua ação espontânea de ser criativa. As profundezas oceânicas do pensamento são acessíveis apenas ao fluxo inesgotável da criatividade que parte da vida. Para que a ciência possa cumprir o seu papel libertador é necessário que a vida seja a sua condutora (BAKUNIN, 1975, p. 47). A ciência quando atua como uma bomba pulverizadora de alienações está cumprindo o seu papel emancipador: oferecendo para os povos a libertação da dominação (ONFRAY, 2013, p. 291). Todas as visões abstratas da sociedade são perspectivas gerais de apreciação postas pela ciência. As generalidades abstratas da ciência que forem capazes de conduzir a humanidade à sua completa emancipação poderão ser aceitas como canais de propagação da liberdade necessária ao ser humano em sociedade. Apenas a vida livre dos governos exploradores e das doutrinas autoritárias é capaz de ser criativa.

A função dos gênios autênticos, movidos pela potência da revolta, instigados pela mais incorrigível rebeldia, objetiva destruir a esclerose dos mundos decrépitos, arquitetando a planta nova de um mundo revigorado, alicerçado pelos pilares da liberdade política, da solidariedade econômica e da igualdade social, para que se possa triunfar sobre a depravação dos privilégios, reconquistando por esse caminho a natureza criadora da vida livre (BAKUNIN, 1975, p. 48). A igualdade é uma lei e ao mesmo tempo a condição da liberdade na humanidade que se desenvolve pela verdade de todas as manifestações da vida humana (BAKUNIN, 1975, p. 48). A desproporção provocada pela repugnância da politicalha propaga o pauperismo ao redor do mundo.

A arrogância é o governo da palermice. Um governo que fosse embasado pela ciência resultaria em autoridade (ONFRAY, 2013, p. 291): ainda sem qualquer fundamentação, todo governo é autoritário. A consequência antinatural da profissão científica é se voltar contra a natureza: a ciência desumana é depravada, conivente com o crime, covarde com a vida, incurável para os doentes, sábia para os servos (BAKUNIN, 1975, p. 51). Todas as autoridades estão submissas ao erro: quem se governa pelos erros se torna um escravo de tudo. A mais completa igualdade proporciona a mais profunda liberdade, que é política, social e econômica. O dever natural do campo social que receberá a fundação da total liberdade é estimular a cooperação dos indivíduos, sem dividir a sociedade em grupos específicos ou categorias segregadas: a divisão da sociedade desfaz a força da união internacional entre os indivíduos, tão necessária à amplitude prática do conceito de liberdade (BAKUNIN, 1975, p. 57). A ciência, em síntese, é útil, mas não infalível: a natureza é a única força verdadeiramente incontestável.

A verdadeira pátria do ser humano é a sua própria humanidade, a saber, o próprio mundo e o ser no mundo como um todo (BAKUNIN, 1975, p. 58). O amor falsificado nos seres humanos pela máquina de crimes do Estado é um aparelhamento sentimental para a restrição da liberdade inviolável da humanidade: esta hipocrisia emocional implantada na consciência humana pelo poder faz do Estado a sua cela metafísica de chumbo, mas nenhum Estado pariu ninguém, pois o Estado não é o berço dos indivíduos, tendendo mais para sepultura do que para cama, o Estado dissimulou a sua doença através das fronteiras (BAKUNIN, 1975, p. 59): a terra, porém, um dia muito lhe pesará, e quando restarem somente os escombros da velha ordem, o nascimento de um mundo livre acontecerá... É incontestável o direito dos povos e dos indivíduos de ser o que são. A unidade que se forma desassociada da liberdade é nociva e destrutiva para a emancipação da humanidade: essa é uma das incontáveis tendências negativas do patriotismo.

As nações estatizadas são inimigas da libertação de todos os povos da dominação do poder. Os países são a consolidação dos interesses do Estado contra a emancipação do ser humano. A pátria que nasceu do lado de fora da liberdade está negando os direitos dos seres humanos à conexão com as suas naturezas (BAKUNIN, 1975, p. 61). O patriotismo instintual é uma paixão animal que se inflama quando é preciso sobreviver: por um lado, o patriotismo é a guerra; por outro lado, é a síntese coletiva do egoísmo (BAKUNIN, 1975, p. 62). As raízes do patriotismo não estão fixadas na humanidade dos seres humanos: elas estão aprofundadas no que há de bestial no ser humano (BAKUNIN, 1975, p. 63). O patriotismo não é um terreno fértil para a proliferação da liberdade porque faz o processo evolutivo da humanidade em direção da libertação retroceder aos seus inícios.

A liberdade verdadeira, capaz de construir o paraíso humano na terra, gerando com prodigalidade a felicidade total da humanidade, para Bakunin, consiste, portanto, não só no epicentro do seu pensamento (ONFRAY, 2013, p. 289), mas na realização de todas as potencialidades latentes em cada um, independente de todas as leis que lhes sejam impostas, apenas a natureza regulamenta essa liberdade, não há quem seja capaz de contê-la no mundo, exceto a terra, nada pode governar a verdadeira liberdade que, fundamentada pelo princípio de solidariedade, reforçada pela lei da igualdade, leva a ser imprescindível construir um mundo novo (GUÉRIN, 1980, p. 28). Em uma mesma sintonia, na vibração da dignidade, rapidamente sintetizada em uma frase, a liberdade é o conceito original para a expansão e para o desenvolvimento das inteligências e da felicidade dos seres humanos: anarquia é liberdade e liberdade é felicidade!

Jan Clefferson Costa de Freitas



bakkalaureus@rocketmail.com

Natal-RN, 2014

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BAKUNIN, Mikhail. CHAUVET, Paul. DELHON, Joël. KROPOTKIN, Piotr.




Compartilhe com seus amigos:
  1   2


©psicod.org 2019
enviar mensagem

    Página principal