Ela disse sim



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Encontro05.10.2018
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ELA DISSE SIM
Uma peça de Marco Antonio Martire

PERSONAGENS


Felipe – Ator iniciante

Vanda – Atriz iniciante

Marcus – Ator iniciante

Giovana Santiago – Celebridade, atriz

René – Cabeleireiro

Nestor Arruda – Diretor de tevê

Luis Otávio – Autor de novela

Mãe – Mãe de Felipe


Cena 1 - Dois sujeitos correm pelo palco.


Marcus – estamos quase chegando.

Felipe – se você correr um pouco mais a gente chega mais rápido.

Marcus – Olha quem fala. Não sou eu quem está um quilos fora de forma.

Felipe – Você podia calar sobre isso. Parece que o peso é motivo de tudo. Nós somos atores. Existe uma verdade maior nisso.

Marcus – Você pode não acreditar mas nessa profissão peso é tudo. Ou você não sabe que na tevê a gente fica mais gordo?

Felipe – E quem disse que a tevê é tudo? Existe vida fora da tevê.

Marcus – Pode até ser. Mas não é vida assalariada.

Felipe – Pára de falar e corre que o Nestor Arruda não vai esperar pelas suas queixas.

Marcus – Calma. Não tem erro. Eu pesquisei direitinho. Ele sempre dá ponto nesse bar. A gente vai conseguir entregar o currículo pra ele.

Felipe – Já te falei que não é só entregar currículo. A gente tem que marcar presença. Mostrar nosso eu. O cara está acostumado. Não vai dar chance só pra quem entrega currículo. Deve receber uns cem por semana.

Marcus – Mesmo assim eu acho que devia ter feito um regime.

Felipe – Esquece essa história de regime. E ele quer lá saber disso? O que importa é o talento.

Marcus – Eu queria estar mais bonito, dá licença?

Felipe – Eu quero que meu peso se dane. Eu vou vencer pelo cansaço.

Marcus – Vai vencer no cansaço, você quer dizer. Quando chegarmos lá, não teremos nem fôlego pra um boa noite.

Felipe – O importante é a gente falar da peça. Mostrar que somos capazes e não estamos esperando por uma solução caída do céu.

Marcus – Eu queria uma solução caída do céu. Sua mãe não te enche o saco?

Felipe – Não, eu digo que estou trabalhando. Estou ensaiando uma peça.

Marcus – E ela quer saber de peça?

Felipe – De que mais então?

Marcus – Quer saber de grana. Você acha que a minha acredita nesta figura aqui por quê?

Felipe – Por quê?

Marcus – Eu sou bonito, cara! Esse rostinho aqui foi feito pra televisão.

Felipe – Meu Deus. Você só pensa em televisão.

Marcus – Eu vou pensar mais no quê? Em mostrar um talento extraordinário? Isso é muito raro. Eu não sou esse. Sou aquele que vai chegar lá e dizer o meu texto. Não vou chorar, não vou gritar, não vou espernear pra impressionar ninguém. Teatro pra mim não tem mistério. Você chega lá e diz o texto.

Felipe – Eu não vou discutir com você.

Marcus – É claro. Nem adianta. Eu sei muito bem o tipo de ator que você é.

Felipe – Ah é? Que tipo de ator eu sou?

Marcus – Você é do tipo que mergulha no personagem, que se banha nas alcovas, nas sombras do palco.

Felipe – Pôxa, não sabia que você era capaz de uma visão assim tão poética.

Marcus – Pois é, ainda sou um poeta. Não se esqueça de falar isso pro Nestor Arruda.

Felipe – Pode deixar. Se eu tiver chance, eu falo isso pro Nestor Arruda. Mas desse jeito, pelo adiantado da hora não vamos conseguir pegar o cara sozinho na mesa. Vai estar cheio de gente.

Marcus – E daí se estiver cheio de gente?

Felipe – Não vai dar pra mandar aquele papo, isso se a gente conseguir uma mesa.

Marcus – Fica tranqüilo. Nós vamos chegar.
Cena 2 – Os dois chegam no bar. Nestor Arruda está sentado em uma das mesas. Giovana Santiago também está no bar sentada em uma mesa afastada. Um fotógrafo tira fotos suas.
Marcus – Eu não te falei? Lá está ele.

Felipe – Ótimo. Vamos sentar primeiro.


Os dois sentam em uma mesa atrás de Giovana, bem longe de Nestor.
Marcus – E agora? O que a gente faz?

Felipe – Vamos lá falar com ele!

Marcus – Falar o quê?

Felipe – Que estamos ensaiando uma peça. Que seria ótimo ele ir lá, ver a gente atuar.

Marcus – Está bem. Você fala.

Felipe – Deixa comigo.


Felipe se levanta. Marcos o acompanha. Os dois juntos se dirigem até o Nestor.
Felipe – Senhor Nestor...

Nestor – Senhor está no céu, garoto.

Felipe – Certo, apenas Nestor então. É que...

Nestor – Fala o que você quer, garoto.

Felipe – É que nós estamos ensaiando uma peça...

Marcus – E gostaríamos que o senhor comparecesse...

Nestor – Eu comparecer? Pra quê?

Felipe – Pra dar algumas dicas de atuação, conferir nossa performance.

Nestor – Garotos, eu sou um homem muito ocupado. Não tenho tempo pra isso.

Felipe – Mas é uma horinha só, o senhor vai lá e depois nos diz o que achou.

Nestor – Já te disse que eu não sou senhor. E além do mais, eu não trabalho de graça.

Marcus – Mas é pra ajudar quem está começando. Seria o máximo se o senhor fosse. Desculpe pelo senhor.

Nestor – Garotos, eu sou um assalariado como outro qualquer. Ganho a vida defendendo meu salário. Não dou consultoria de graça. Você está vendo esse uísque? Foi pago pelo suor do meu corpo. E talento. Vocês acham que tem talento?

Felipe – Muito. Muito talento.

Nestor – Então dêem duro, trabalhem muito que um dia vocês chegam lá. Um conselho: emagreçam um pouco. Vocês estão um pouco fora de forma pra televisão.

Felipe – Nestor...

Nestor – Diga, garoto.

Felipe – Você podia ao menos ficar com nossos currículos? Talvez você precise de uma cara nova na televisão?

Nestor - Deixa aí em cima da mesa. Mal não faz.
Os dois deixam os envelopes e voltam pra sua mesa.
Felipe – Que cara babaca. Quem ele pensa que é?

Marcus – Um diretor de televisão importante pra caramba.

Felipe – E daí, só por causa disso ele pode tratar a gente como lixo?

Marcus – Até que não foi tão mal. Pelo menos ele ficou com nossos currículos.


Nestor paga a conta e deixa o bar. Os envelopes com os currículos ficam em cima da mesa.
Marcus – Ah, não. O cara esqueceu nossos currículos em cima da mesa.

Felipe - Que esqueceu o quê! Ele fez de propósito. Não está nem aí pra dois jovens atores como nós.


O fotógrafo se aproxima.
Fotógrafo – Por favor, vocês podiam sentar em outra mesa. Queremos tirar uma foto da Giovana com o bar ao fundo.
Os dois se levantam e vão sentar na mesa onde estava Nestor.
Felipe – Quem é essa daí? Alguma atriz que eu não conheço?

Marcus – Ela é uma celebridade. Estava naquele programa, como é mesmo o nome?

Felipe – Quem quer saber?
Giovana se levanta pra tirar foto, aproveita e olha para trás.
Marcus – Não acredito. Ela está olhando pra você.

Felipe – Pra mim? O que ela quer comigo?

Marcus – Eu não sei. Viu? Olhou de novo. Cara, ela está te dando mole.

Felipe – Fala sério. Só está fazendo pose. Olha o namorado dela chegando.


Um homem alto, forte e musculoso entra no cenário e se posiciona ao lado de Giovana. O fotógrafo continua a sessão de fotos.
Marcus – É, é o namorado mesmo.

Felipe – Não acredito que o Nestor fez isso com a gente. Nem o currículo ele se dignou a examinar.

Marcus – Não fica assim. Existem outros diretores de televisão.

Felipe – O que a gente faz agora?


Fotógrafo – Acabamos, Giovana. Ficou ótimo.

Giovana – Você acha mesmo?

Fotógrafo – Ficou lindo.

Giovana – Que bom.

Rapaz – Vamos embora agora, amor?

Giovana – Vai tirando o carro que eu já vou, meu bem? Vou ao toilete.


Os dois trocam um beijo quente. O fotógrafo tira mais uma.
Fotógrafo - Essa vai ficar uma beleza. Pronto. Vamos embora.
O rapaz sai do cenário assim como o fotógrafo. Giovana passa por Felipe e Marcus na volta do banheiro. Senta na mesa deles.
Giovana – Olá, rapazes. Eu sou a Giovana.
Os dois se espantam com a chegada da moça.
Marcus – Nós sabemos quem você é.

Giovana – Ah, já me viram na mídia, não é? Que ótimo. Qual é o seu nome?


Ela pergunta apontando para Felipe.
Felipe – Felipe Duarte.

Giovana – Olá, Felipe. Então você é ator?

Felipe – Somos ambos atores.

Giovana – Pois é, eu ouvi a conversa de vocês com o Nestor. Não liguem pra ele. O cara é um porco. Dizem até que essa pose toda é uma reação ao fato de que um de seus membros não é tão grande quanto ele gostaria. Não sei se vocês entendem.

Marcus – Sério? Como você sabe disso?

Giovana – Ah, rapazes, uma vez que se está nesse meio, fica-se sabendo de tudo. Eu não dormi com ele. Mas conheço gente que dormiu. O que é isso?

Felipe – São nossos currículos. Queríamos que o Nestor examinasse, mas ele esqueceu na mesa.

Giovana – Ah, que canalha. Deixou vocês dois decepcionados.

Marcus – Mas não tem nada não. A gente dá a volta por cima. Estamos ensaiando uma peça que vai ser um sucesso.

Giovana – Sobre isso que eu queria falar. Sabe, Felipe... Felipe é um nome bonito, nome de ator. Forte. Gostei de você. Acho até que a gente podia sair juntos.

Felipe - Eu e você?

Giovana – Sério. Eu sou uma celebridade. Saindo comigo você vai entrar na mídia, vão te fotografar, perguntar quem você é, o que faz. Com isso você vai conseguir patrocínio pra essa peça mole.

Felipe – Mas eu? Por que eu?

Giovana – Gostei de você. Mas tem um probleminha.

Marcus – Qual?

Felipe – Isso. Qual?

Giovana – Você viu meu namorado, né?

Felipe – Vi.

Giovana – Pois então. Ele é grande, bonito, musculoso.

Marcus – Deve ser burro feito uma porta.

Giovana – Ele não é burro, não seja maldoso. Só não tem muito o que dizer na frente das câmeras. É o tipo de cara com quem eu saio. Sair com você, Felipe, seria o máximo mas tem um porém...

Felipe – O quê?

Giovana – Óbvio, né? Você tem que emagrecer, ficar mais fortinho. Aí, a gente sai junto, fica numa boa, diante das câmeras, vai ser bem legal.

Felipe – Emagrecer? Mas eu não estou gordo.

Giovana - Felipe, vamos ser sinceros. Você está fora de forma. Então, topa?

Marcus – Topa, Felipe!

Felipe – Tá bom, eu topo. Como é que a gente faz isso? E o seu namorado, ele não vai querer me encher de porrada?

Giovana – Que ótimo! É o seguinte: você tem um mês pra perder esses quilinhos. E não liga pro meu namorado, ele não vai durar até lá. A gente se encontra aqui daqui a um mês. E aí, eu vou dizer se ganhei ou não ganhei um novo namorado. Vai ser sim ou não. Beijo pra vocês!


Giovana se levanta. O namorado dela se aproxima.
Rapaz – Giovana, estou com o carro na porta.

Giovana - Já estou aqui, meu amor. O pipizinho foi mais longo do que eu esperava.


Giovana deixa a cena.
Marcus – Felipe, você deu muita sorte.

Felipe – Você acha que vai ser bom?

Marcus – Claro. Daqui a um mês, estreamos a peça e você sai com ela por aí, divulgando.

Felipe – Sei não. Alguma coisa me diz que ela sou brincou comigo.

Cena 3 – Felipe corre na esteira de casa.
Felipe – O que a gente não faz pelo sucesso.

Mãe – Falando sozinho, meu filho?

Felipe – Não, tava só respirando mais forte.

Mãe – Que bicho te mordeu hoje?

Felipe – Como assim?

Mãe – Você correndo nessa esteira. Você nunca a usou em toda a sua vida.

Felipe – Não posso usá-la, por acaso?

Mãe – Usar pode. Mas quando seu pai comprou, ela ficou esquecida no teu quarto. Ficou tanto tempo que eu trouxe pro meu. Está na minha hora de malhar.

Felipe – Espera só um pouquinho, mãe. Já to acabando.

Mãe – Nada disso, bebê. Mamãe tem que trabalhar. Você tem o dia todo pra correr depois de mim.

Felipe – Isso aqui é trabalho, mãe. É preparação pra peça.

Mãe – Preparação pra peça... quantas vezes já te disse pra parar com essa bobagem.

Ainda está em tempo, meu filho, de você fazer uma faculdade séria.

Felipe - Eu faço uma faculdade séria. Faculdade de teatro.

Mãe – Isso não é faculdade.

Felipe – Claro que é.

Mãe – Seu pai só paga essa escola de teatro na esperança que você perceba o erro que está cometendo. Você ainda é muito jovem.

Felipe – Eu não vou desistir mãe. É meu sonho.

Mãe – Sei. Aos quinze anos o sonho era ser modelo. Fizemos book, corremos as agências e deu em quê? Nada.

Felipe – Agora é diferente. Eu tenho talento. Todo mundo diz.

Mãe – E antes não tinha talento?

Felipe – Eu era muito novo. Nem barba tinha ainda. Não tinha o corpo desenvolvido.

Mãe – Meu amor, seu corpo de agora é o mesmo daquela época. Não mudou nadinha.

Felipe – Pôxa, mãe, colabora. Você nunca me dá uma força.

Mãe – Eu dou toda a força do mundo. Quando o sonho é justo. Justo com seus pais que te criaram com todo o amor do mundo. Nós queremos que você seja um sucesso.

Felipe – Eu vou ter sucesso no teatro. Você vai ver.

Mãe – Está ótimo. Agora sai daí que eu tenho que malhar.
Felipe desce da esteira.
Felipe – Quando eu for um sucesso vou ter uma esteira só minha.

Mãe – Certo. Aí você aproveita e gasta horas em cima dela como todos os atores fazem. Ou você já viu algum ator de sucesso por aí com essa barriga?

Felipe – Não precisa pegar pesado. Eu já saí. Pode malhar á vontade.

Mãe – Bom dia pra você, meu filho.


Felipe caminha pelo palco.
Felipe – Eu não quero nem saber. Vou emagrecer na marra. Já está mais do que na hora da minha vez chegar. Não fui feito pra sofrer dessa maneira. Esta ansiedade que torna tudo mais difícil. Será que eu não tenho direito ao meu sonho? Não é questão de talento, isso eu sei. Todos falam que eu tenho muito. Resta a sorte. A sorte que escolhe seus heróis, seus favoritos. Como ela os escolhe? Será o destino dando suas ordens, tecendo esta minha realidade? Não posso acreditar nisso. Sorte ajuda quem trabalha. E a Giovana... é essa a minha sorte. Posso talvez nunca mais ter uma chance como essa. Além do mais, que mal pode haver em perder uns quilinhos? O máximo que pode acontecer é ouvir um não. O décimo da minha carreira. É isso mesmo, sou louco. Eu conto os nãos que levei nessa carreira. Ainda bem que ninguém sabe, ou seria motivo de piada no palco. Giovana, você vai me ver sarado. Quero ver você não gostar deste material aqui. E ainda vou te levar pra cama. Você vai sentir esta pulsão. Vou dar show e te deixar louca. Louca de amor.
Cena 4 – Giovana conversa com o cabeleireiro.
Renê – Você é louca, fazer isso com o pobre rapaz.

Giovana – Dava pena, você precisava ver. O Nestor deixou os dois arrasados.

Renê – É, eu conheço aquele homem. É um horror. Qualquer dia alguém vai puxar o tapete dele. Aí, eu quero ver. Quem vai estender a mão.

Giovana – Além do mais, o rapaz é bonito. Não vai ser nenhum sacrifício sair com ele. Se ele fizer como eu falei, é claro. Tem que perder uns quilinhos, aprumar aquela barriga.

Renê – E você vai dizer sim pra ele?

Giovana – Não sei, vai depender dele.

Renê – Estou falando de outro sim. Aquele na cama...

Giovana – Ah, esse sim. Não, esse sim não. Tem que ser muito bom pra me levar pra cama, você sabe. Eu sou exigente.

Renê – É mesmo?

Giovana – Claro. Eu sou muito ativa na cama. Gosto de pular, de dançar, de fazer coisinhas. Não é qualquer homem que agüenta não. A maioria me olha com a cara de quem não está entendendo nada, sabe? Um até me perguntou outro dia: Você quer fazer sexo, ou não? Eu queria né? Já tinha passado uma semana. Então fiquei paradinha. Olhando pro teto. Preciso dizer o que houve? Nada. Não aconteceu nada.

Renê – Não sentiu nada?

Giovana – Como eu te disse: nada.

Renê – Mas podia ter explicado pra ele como você gosta. Não precisava ter ficado parada.

Giovana – Você sabe, eu sou famosa. Sou uma celebridade. Os caras que ficam comigo, eles querem se mostrar, sabe? Provar que são homens, que sabem como fazer. Esse tipo sensível, que deixa a gente fazer tudo, não chega em gente como eu.

Renê – E por que você não chega nesses caras?

Giovana – Primeiro: onde estão eles? Porque eu não vejo, e olha que eu procuro. Além do mais, eu tenho que me preservar. Não vou ficar dando em cima de qualquer um, que logo me chamam de vagabunda. Você sabe como é.

Renê – Sei sim. Como sei. O povo fala.

Giovana – Eu tenho que preservar minha imagem.

Renê – E o que você viu nesse rapaz que te levou a fazer uma promessa dessas?

Giovana – Ah, com esse rapaz é diferente. Ele é ator. Ator transa muito bem.

Renê – Mas você não disse que não vai levá-lo pra cama?

Giovana – É, eu disse. Não vou mesmo. Se ele pensa que sim, está redondamente enganado. Além do mais, ele não vai conseguir. Fiz isso só pra sentir a emoção.

Renê – E que emoção. Sair com a belíssima Giovana Santiago, celebridade da hora.

Giovana – Da hora só não. Celebridade de sempre. Ficou bonito isso, né? Vou sugerir pro próximo ensaio que me convidarem.

Renê – Eu quero minha parte. Metade dessa idéia é minha.

Giovana – Não delira. Você é melhor com os pés no chão.

Renê – E as mãos no seu cabelo, né?

Giovana – Isso mesmo. Vai ficar bonito, né?

Renê – Vai ficar linda. Confia. Vai arrasar na balada.

Cena 5 – Felipe e Vanda estão sobre o palco ensaiando uma cena.


Vanda – Assim não dá, Felipe. É a quinta vez que você erra o texto.

Felipe – Desculpe,Vanda, eu estou distraído.

Vanda – Distraído, eu sei. O que você planeja fazer a respeito?

Felipe – Calma, também não é pra tanto.

Vanda – É pra tanto sim. Estamos a um mês da estréia. E se você não puder dar conta do recado é melhor que diga logo.

Felipe – Eu posso dar conta do recado, Vanda. O que é que você está dizendo?

Vanda – Você, de um tempo pra cá, está distraído, aéreo. Sempre pensando em sei lá o quê.

Felipe – Eu não estou sempre distraído, estou distraído hoje. Só isso.

Vanda – Não é o que está parecendo.

Felipe – Calma, vem cá, me dá um beijo.


Felipe tenta puxá-la. Vanda o rejeita.
Vanda – Que beijo o quê. Você merece é um tapa, isso sim.

Felipe – Um tapa? Por que isso?

Vanda – Felipe Duarte, você é o homem mais cafajeste deste mundo. Está pra nascer um outro igual a você.

Felipe – Você andou conversando com o Marcus, não é?

Vanda – É sim. E ele me contou tudo.

Felipe – Tudo?

Vanda – Tudo, Felipe. O encontro com aquela piranha da Giovana. O trato que vocês fizeram. Eu não acredito Felipe. Eu já te falei mil vezes pra emagrecer. Você sempre desconversou. Não, eu estou em forma. Estou ótimo. Eu tenho talento, não preciso ser um corpo bonito. Então, aparece uma vagabunda que não faz outra coisa na vida a não ser tratar do cabelo e posar pra fotos e você começa a malhar. Está até mais magro.

Felipe – Estou? Você acha?

Vanda – Felipe, presta atenção no que eu estou falando.

Felipe – Eu estou prestando atenção no que você está falando. Você disse que eu estou mais magro. Será que ela vai dizer sim?

Vanda – Eu não acredito que você vai realmente levar essa história a sério. Ela só estava brincando com você.

Felipe – Eu não tenho nada a perder.

Vanda – Ah, não tem nada? Eu sou nada? Eu sou nada. Muito obrigado.

Felipe – Meu amor, você está com ciúmes.

Vanda – Eu estou morrendo de ciúmes, tá legal? Você não tem o direito de fazer isso comigo. Estamos junto há quase um ano. Eu pensava que significava algo pra você. Estou vendo que estava errada.

Felipe – Não, meu amor. Você não estava errada. Você é meu amor, significa muito pra mim.

Vanda – Então esqueça essa história. Vamos nos concentrar na nossa peça. Esse é o nosso trabalho. Não sair por aí, tirando foto, dando uma de celebridade.

Felipe – Vanda, escuta: não vai acontecer nada de mais. Nós só vamos sair juntos por aí. Ela vai ajudar a promover nossa peça. E não está cobrando nada.

Vanda – Justamente, ela não está cobrando nada. Ela quer você. Você!

Felipe – Você já viu os caras com quem ela sai? Não têm nada a ver comigo. Eles são todos musculosos, altos, bonitões. Eu sei que não sou páreo pra eles. Eu não sou um rosto bonito. Eu tenho talento. Mas talento também precisa de um empurrãozinho de vez em quando. Eu vou fazer isso pela nossa peça.

Vanda – Não, Felipe. Você não vai fazer isso. Se fizer isso, acabou. Acabou tudo entre nós.

Felipe – Não, Vanda!

Vanda – Acabou tudo! Não quero mais nada com você.
Vanda sai de cena chorando. Marcus entra.
Marcus – O que é isso, Felipe? Vocês nunca brigam.

Felipe – Você é um amigo da onça. Por que tinha de falar pra ela a história da Giovana?

Marcus – Pensei que ela fosse adorar. É um jeito de divulgar a peça. Não achei que ela fosse ter uma reação dessas.

Felipe – Pois teve, linguarudo. E agora, como é que fica a peça?

Marcus – Amanhã vocês voltam às boas. Não há de ser nada. Deixa ela chorar um pouquinho, depois vai lá e convence ela.

Felipe – Não sei se vai dar pé, Marcus. Ela parecia bastante chateada.

Marcus – Coisa de mulher. Ela só estava um pouco sensível.

Felipe – Não sei não.


Cena 6 – Nestor Arruda está em seu escritório falando ao telefone.
Nestor – Eu não quero saber se foi planejada assim ou assado. Dá o teu jeito. Essa história está muito morna. A audiência está baixa, já pegou mal com os anunciantes. Eu não quero mais ouvir gente reclamando no meu ouvido. É todo dia. Toma as tuas providências. Eu não ligo se tiver que matar metade dos personagens. Metade dos que estão ali não estão atuando mesmo. Manda todo mundo pra vala! Grosso? Você me chamou de grosso? Grosso é a sua mãe, aquela safada que te botou na terra... desligou. Escritorzinho de merda! Isso é que dá pagar uma fortuna pra esses caras. O desgraçado compra um apartamento de frente pro mar e fica pensando que é grande coisa. Qualquer um pode morar num apartamento de frente pro mar. O difícil é continuar lá. Pagar as contas todas ano após ano. Eu tenho trinta anos de televisão. Eu sim sou um sucesso. Se eu quisesse também podia morar de frente pro mar. Só que eu não quero. A maresia enferruja tudo, tem aquela brisa que não pára. Sem falar que vem todo mundo te pedir dinheiro. É só mudar pra um apartamento de frente pro mar que todo mundo pensa que você montou no dinheiro. Aparece parente não sei de onde, amigo, conhecido, sogro, sogra, todo mundo quer tirar uma casquinha. Eu não sei pra que serve parente. Depois de uma certa idade a gente não devia se freqüentar mais. O que temos em comum depois dos trinta? Mulher e filhos, mais nada. O trabalho toma conta de sua vida e você só saber falar nisso. Eu tenho tempo pra outra coisa na vida a não ser trabalho? Vou morar de frente pro mar pra quê? Pra ficar olhando o mar e aquele monte de gente que não tem o que fazer? Droga, a audiência está baixa. Preciso fazer alguma coisa, do contrário não vou conseguir dormir essa semana. Nem meu uisquinho vai dar jeito. Suzana!
Entra a secretária.
Suzana – Sim, senhor?

Nestor – Você consegue atuar, Suzana?

Suzana – Claro, senhor. É meu sonho. Só aceitei esse emprego por causa da chance de me tornar atriz.

Nestor – Você estudou, tem curso de teatro?

Suzana – Claro, estudei com muita gente boa.

Nestor – Ótimo. Me liga com o escritor da novela. E se prepare. Vai pra casa que você vai receber o seu texto hoje mesmo.

Suzana – O Luis Otávio, senhor?

Nestor – Ele mesmo. Não quero esperar muito, liga logo.

Suzana – Ele vai escrever pra mim? Eu sou fã dele.

Nestor – Vai escrever pra você porque eu vou mandar. É isso, vou mandar naquele vagabundo.

Suzana – Diz pra ele que eu aceito qualquer coisa. Posso fazer qualquer papel.

Nestor – Você vai ganhar um ótimo papel. Não se preocupe. Agora, me arruma a ligação.

Suzana – Sim, senhor.
Cena 7 – Luis Otávio está em seu quarto.
Luis – Se aquele diretor de merda pensa que vai me dar uma volta está muito enganado. Ele quer cara nova, pois serei eu a encontrar a face nova do horário. Não vou dar mole não. Eu nunca vi um diretor ser tão escravo da audiência assim. Caiu um ponto ou dois já me liga que nem um doido querendo mudança na trama, na sinopse. Sinopse... como se existisse sinopse na mente desse doido. Não tem sinopse. É a cena, o cara só pensa na cena. Até parece que não sabe, o texto tem que ter uma estrutura, um encaixe. Não dá pra sair inventando qualquer coisa ao sabor do momento. O público sabe disso. Ok, não sabe. Mas sente quando o texto lembra uma barata tonta atirando pra todo lugar. Eu não vou alterar meus planos em nada. Vou sim encontrar um rosto novo, um talento novo pra dar um frescor ao horário. Vejamos, onde é que posso ir pra conseguir uma atriz nova, jovem e linda? No banco de talentos da emissora não. Ele já deve ter pensado nisso. Vou dar uma olhada na praia. Quem sabe? Morar de frente pro mar, foi pra isso que eu vim pra cá. Quer ver gente bonita? Desce e dá um passeio na praia. Vai ver uma seleção brasileira de corpos sarados e rostos morenos. É o que o horário está precisando. Ou não me chamo Luis.
Cena 8 – Luis caminha na praia. Renê e Giovana entram no cenário. O fotógrafo bate fotos.
Renê – Olha lá, Giovana! Aquele escritor de novela, o Luis Otávio!

Giovana – Estou vendo, Renê. O que eu faço?

Renê – Vai lá, boba. Pede um papel pra ele. Diz que você é atriz.

Giovana – Será que cola?

René – Vai colar. Deus há de querer.

Giovana – Então fica aqui. Não sai daqui.


Giovana se aproxima de Luis Otávio. O fotógrafo a segue.
Giovana – Oi. Você não é o Luis Otávio?

Luis – Sou eu mesmo. Por quê?

Giovana – Sou sua fã. Adoro seu trabalho.

Luis – Obrigado. É uma satisfação ouvir isso.

Giovana – Inclusive, eu estava pensando se você não teria um papel pra mim nessa novela. Eu já fiz vários cursos e...

Luis – Desculpe, mas o que é esse rapaz tirando fotos?

Giovana – Ah, isso. Eles me seguem em todo canto. É uma loucura. Tudo isso porque eu sou uma celebridade.

Luis – Celebridade?

Giovana – Isso mesmo. Não me viu na tevê? Naquele reality. Não viu?

Luis – Não vi, desculpe.

Giovana – Não tem importância, você deve ser muito ocupado mesmo. Sempre criando aqueles textos maravilhosos que tanto encantam a gente.

Luis – Escuta, eu não quero ser fotografado. Então, vou indo.

Giovana – Mas já?

Luis – O rapaz não sai daí. Foi um prazer.

Giovana – Mas, Luis. E o papel na novela?

Luis – Me liga. A gente marca um teste.


Luis se afasta. Giovana se aproxima de René.
Renê – E aí, conta!

Giovana – Ele disse pra ligar pra ele e marcar um teste!

Renê – Ah, que lindo!

Giovana – Renê, vou precisar malhar pesado. Olha esse corpo, está uma negação. O cara nem é casado e mal me olhou. Preciso também fazer uma dieta pra encarar esse teste.

Renê – Mais dieta, Giovana? Você mal come.

Giovana – Sacrifício. Preciso arrasar nesse teste.

Renê – Tá bom. Mas não perde o telefone dele, ok?

Giovana – Telefone? Ele não me deu o telefone. Nossa, esqueci de pegar o telefone!

Renê – Como é que você esquece de pedir o telefone, criatura? Corre lá atrás dele.

Giovana – Não, eu não vou fazer isso. Ele vai achar que eu sou uma pessoa desconectada, sem amizade na mídia. Nada é pior do que isso. Se ele não me deu o telefone, é porque esperava que eu tivesse o número dele. Deixa assim. A gente consegue o número. Não é, René?

Renê – Ai, não sei. O telefone dele? Deve ser difícil.

Giovana – A gente consegue. Agora faz uma pose aí, o paparazzo continua fotografando. Será que vai sair a foto que ele fez de nós dois? Imagina: eu e o grande autor de novelas Luis Otávio. Seria o máximo.


Giovana e Renê deixam a cena. Entra Vanda de biquíni e chorando. Em seguida, entra Luis Otávio. A moça atrai a atenção do escritor.
Luis – Ei, você! Qual é seu nome?

Vanda (limpa as lágrimas) – Vanda.

Luis – Vanda, você sabe quem eu sou?

Vanda – Claro, que atriz não te conhece? Você é o Luis Otávio, autor de novela.

Luis – Isso mesmo. Você é atriz?

Vanda – Sou sim, iniciante.

Luis – Claro, você é muito jovem. Está começando. Você já fez algum trabalho?

Vanda – Estou ensaiando minha primeira peça.

Luis – Primeira peça, nossa!, também chorei muito no ensaio da minha primeira peça.

Vanda – Jura?

Luis – Sim, no meu início eu chorava de emoção toda vez que via alguém interpretando meu texto.

Vanda – Mas não é nada disso. Briguei com meu namorado.

Luis – Ah, brigou com o namorado. Mas isso faz parte... você está mais sensível. Ele é ator também?

Vanda – Sim, ensaiamos juntos a mesma peça.

Luis – Oh, mas que par vocês devem ser. Posso perguntar o porquê da briga?

Vanda – Não vale a pena. Ele é um idiota.

Luis – Bravo, menina. Com esse rostinho lindo, não vão faltar caras querendo ficar com você. Só me diga uma coisa: você o ama?

Vanda – Eu não sei.

Luis – Pois precisa saber. Isso faz toda a diferença do mundo.

Vanda – Faz?

Luis – Claro, você precisa saber se vai dar a ele uma segunda chance. Se você gosta mesmo dele, não importa o motivo da briga, faça ele te pedir desculpas e lhe dê uma segunda chance. Mas ele tem que pedir desculpas primeiro. Por te fazer chorar. Não se faz uma garota linda como você chorar impunemente. Você consegue? Acha que consegue fazer isso?

Vanda – É, acho que sim.

Luis – Boa. Vi logo que você é das minhas. Uma garota que sabe dizer seu texto. Escuta, quero te fazer uma proposta. Você estaria disposta a fazer um teste pra entrar na minha novela?

Vanda – Sua novela? Mas é claro.

Luis – Ótimo, vejo um futuro pra você, Vanda. Qual é o seu telefone?

Vanda – 8888-6666.

Luis – Ótimo, olha está tocando. Sou eu ligando. Esse é meu número. Amanhã, você me liga pra marcarmos o seu teste?

Vanda – Claro. Vou ligar sim.

Luis – Boa garota. Vou estar esperando. Não se esqueça.

Vanda – Pode deixar, Luis Otávio.

Luis – Pode me chamar de Luis. Agora, vou indo, vê se não chora mais. Lembra do que falamos.

Vanda – Vou lembrar.


Luis Otávio deixa a cena. Surge Felipe, ele se ajoelha diante dela.
Felipe – Vanda, me perdoa!

Vanda – Você está arrependido?

Felipe – Estou. Olha, se você quiser eu não vou encontrar a Giovana. Eu deixo pra lá, tudo que importa é você e a peça.

Vanda – Não, eu não quero, Felipe.

Felipe – Não quer?

Vanda – Não é justo. Você tem essa chance, e eu estou no caminho. Vai ficar com a Giovana, eu não quero mais você.

Felipe – Mas Vanda... pensei que a gente se gostasse.

Vanda – Mas eu gosto de você, só não acho que eu deva ficar no caminho entre você e o sucesso. Você obviamente está empolgado com esse encontro. Até já emagreceu. Ele te entusiasma. Dá pra sentir. Eu não vou ficar no caminho.


Felipe tenta beijá-la.
Vanda – Não, Felipe. Não tente. Mas não se preocupe, eu vou continuar na peça. Vamos ser profissionais. Agora quando eu te beijar na peça, vai ser só profissional.

Felipe – É assim, então? Um ano juntos e acabou.

Vanda – Acabou. Pode seguir o seu caminho. Eu não vou ficar contra o seu sonho.
Felipe deixa a cena. Vanda choraminga um pouco diante do mar.
Cena 9 – Felipe está em casa no banheiro vomitando. Sua mãe bate na porta.
Mãe – Meu filho, o que é isso? Você está vomitando?

Felipe – Não, mãe.

Mãe – Mas eu estou ouvindo barulho de quem está vomitando. Você acabou de jantar. Será que alguma coisa que eu fiz te fez mal?

Felipe – Não, mãe. Eu estou bem.

Mãe – É essa peça que vocês estão ensaiando. Está te fazendo mal.

Felipe – Não é nada, mãe. Me deixa em paz.

Mãe – Você não foi feito pra isso, meu filho. Arruma uma faculdade decente. Teu pai iria gostar tanto se você escolhesse outro caminho.

Felipe – Eu estou bem no meu caminho.

Mãe – Está, claro que está. Vomitando de nervoso. Isso é vida, meu filho?

Felipe – Eu já falei que não estou vomitando.

Mãe – Eu já fiz o que podia. Olha, eu lavo minhas mãos por você. Você quer continuar maltratando seu corpo, tudo bem. Depois não diga que eu não avisei.
No banheiro, tem uma balança. Felipe se pesa. O peso não é o que ele espera. Ele deita no chão do banheiro e começa a fazer abdominais.
Felipe – Você não vai me escapar. Não vai.
Cena 10 – Apartamento de Giovana. Ela e Renê bebem drinques.
Giovana – E agora, Renê? O que eu faço?

Renê – Calma, eu vou arrumar esse telefone pra você.

Giovana – Mas tem que ser pra ontem. Se não ele vai até esquecer que me prometeu um teste.

Renê – Como se fosse possível esquecer a sua imagem. Claro que ele não vai te esquecer. Ele vai te arrumar um papel na novela dele.

Giovana – Mas tem que ser logo esse teste. A novela já está no meio.

Renê – Eu vou ligar pra uma amiga minha que talvez tenha o telefone dele.

Giovana – Liga logo, então.

Renê – Mas eu vou ter que falar a verdade, né?

Giovana – Verdade? Que verdade?

Renê – Que você encontrou com ele e que ele te prometeu um papel. Só que vocês estavam na praia, nenhum dos dois tinha levado o celular.

Giovana – Ah, não. Vai parecer que eu estou desesperada.

Renê – Não, meu bem. Vai parecer que você está procurando trabalho. Todo mundo faz isso. Por isso é que conseguir o telefone é tão difícil. Esses autores se protegem. Eles não dão o número pra qualquer um não.

Giovana – Não, assim eu não quero. Dá um outro jeito.

Renê – Mas que jeito?

Giovana – Diz que é pra uma amiga sua que está começando como atriz.

Renê – Essa mulher odeia quem está começando Precisa ouvir as barbaridades que ela fala das iniciantes.

Giovana – E se você falar que é pra mim, ela vai me ajudar por quê?

Renê – Você poderia depois pagar o favor. Sabe como é, ela tem uma grife de moda praia. Você podia fazer presença em evento dela de graça.

Giovana – Não, Renê, não me exponha. Quero ficar no anonimato.

Renê – Claro, está bem. Mas olha, confia em mim. Deixa comigo que eu te ajudo. Não é assim que se fala no salão? Não estrague sua beleza com desconfiança. Faz mal pra pele.

Giovana – Vou confiar. Mas vê lá, René. Não toca no meu nome.
René saca o celular e faz a ligação.
Renê – Oi, querida. É o Renê. Tudo bem? Sim, eu sei. Nosso encontro é só amanhã. Mas eu precisava falar com você hoje, amiga. Sabe o que é? Tenho uma prima minha que está começando na carreira. Que carreira? De atriz, ora. Pois é e ela encontrou com o Luis Otávio... como que Luis Otávio? O autor de novela. Isso. Ele gostou muito dela. Pediu que ela ligasse pra ele e marcar um teste. Foi. Mas sabe como é... o papo foi tão bom que ele esqueceu de dar o número de telefone dele. Sério. Não, ela não pediu. Não, ela não é idiota. Só tava nervosa, tadinha. Mas me diz, você tem o número dele? Não tem? Ai, meu Deus. E agora? Você conhece quem tem? Quem? Paulinho, o ator? Não. Quem então? O jogador de futebol? Ele tem o telefone do Luis Otávio? São amigos? Mas como são amigos? Não tem nada a ver. Sei. O que importa é que ele tem. Está ótimo. Você fala com ele? Faz isso por teu amigo? Ótimo então. Aguardo você retornar a ligação. Tchau.
Giovana – E aí?

Renê – Aí, é isso. Ela disse que não tem mas aquele jogador de futebol, o Paulinho, tem. Parece quer os dois são amigos. Saem juntos e tudo.

Giovana – Mas eu nunca vi uma foto desses dois na mídia.

Renê – Mas é a verdade. Os dois são unha e carne.

Giovana – Então, ela deu o número dele?

Renê – Falou que vai ligar pra ele e pedir o número. Me liga logo em seguida. Faz figa, Giovana.

Giovana – Claro. Vai ligar.

Renê – Que ironia, não é?

Giovana – O quê?

Renê – Você promete para aquele garoto um encontro pra lançá-lo na mídia e promover a desconhecida peça que ele está ensaiando e nós aqui, loucos para sermos lançados na novela do grande Luis Otávio, o autor das multidões.

Giovana – Mas se eu conseguir abrir espaço nessa novela, não vou cumprir o acordo.

Renê – Não, não vai ajudar o garoto?

Giovana – Claro que não, né Renê? Eu vou estar numa novela, aparecendo para todo o Brasil como atriz. Não vou poder ser vista com um atorzinho zé ninguém. Tenho que dar vôos mais altos. Pegar um diretor de tevê, quem sabe um empresário.

Renê – Você não vai no encontro, então?

Giovana – Não, no encontro eu vou. Mas uma vez lá, é só falar que ele não está em forma o suficiente pra sair comigo. Isso se eu estiver num dia bom. De outra forma, digo simplesmente não e pronto. Lamento, mas eu sou Giovana Santiago e tenho uma novela pra fazer.

Renê – Vai acabar com o sonho do rapaz. Ai, eu queria ser uma mosquinha pra assistir isso.

Giovana – Sim, mais um sonho que se vai. Mas o meu continua vivo.
O celular de Renê toca.
Renê – Oi, querida. E aí? Sim, ela é muito bonita. Muito linda. O quê? Ele só entrega o telefone se ela sair com ele? Mas o que é isso? Esse jogador de futebol pensa que é quem? Ai, não sei... isso está me cheirando mal. Esse Paulinho vive saindo na mídia, cada dia com uma. Vai pensar que minha prima é uma dessas.
Giovana faz sinal pra ele topar.
Renê – Sério? Só assim, então? Está bom. Fazer o quê? Se só ele tem o telefone. Tem certeza que não tem outro jeito? Está certo. Diz pra ele que ela topa. Ah, você vai me dar o número? É pra ligar e marcar? Ótimo. Deixa eu anotar. Ela vai ligar. Certo, tchau. Amanhã te conto tudo o que rolou. Beijo.

Giovana – Eu ligo pra ele. Pode deixar que eu mesma ligo.

Renê – Tem certeza? Esse Paulinho vai querer te levar pra cama.

Giovana – Ele até que é bonito. Não vai ser um sacrifício tão grande.


Cena 11 – Felipe e Marcus estão no bar.
Marcus – Você não está levando essa dieta muito a sério? Nem um chopinho?

Felipe – Não, eu preciso estar em forma pra quando eu me encontrar com a Giovana Santiago. Pense, vai ser a divulgação perfeita pra nossa peça. Vão todos perguntar: quem é o rapaz que está saindo com a Giovana Santiago? Ah, ele é ator? Que trabalho ele está fazendo? Capaz até de dar entrevista pra televisão.

Marcus – Televisão? Você está ficando louco. Se nem ela consegue televisão. Tudo que eu sei dela são dessas revistas e sites de fofoca.

Felipe – Isso porque ela não tem talento. Dá pra sentir.

Marcus – É mesmo, ela não tem o menor talento.

Felipe – Eu, se tivesse a colaboração da mídia como ela tem, já tinha estourado. Já estava fazendo até novela.

Marcus – Falando da peça, acho que nosso projeto deu em nada.

Felipe – Por que você está dizendo isso? Está tudo em cima com a peça.

Marcus – Mas como se não temos a Vanda? Ela não vai participar, não é?

Felipe – Quem disse?

Marcus – Você. Vocês dois não brigaram?

Felipe – Sim, nós brigamos. Mas eu conversei com ela. Seremos ambos profissionais. O namoro acabou mas a peça continua.

Marcus – Sei não, Felipe. Será que vai dar certo?

Felipe – No que depender de mim, sim.

Cena 12 – Giovana está sentada numa cama. Com o celular na mão, ela liga pra Renê.
Giovana – Alô, Renê? Consegui o número. Parece incrível mas aquele tosco é realmente amigo do Luis Otávio.

Renê – Mentira? E como é que você conseguiu o número?

Giovana – O que você acha? Dormi com ele.

Renê – Ah, minha querida, não me diga que você precisou chegar a esse ponto. Eu falei, eu falei, não precisava.

Giovana – Fica tranqüilo que não foi ruim. Na verdade, ele é um gostoso. Eu bem tava precisando de um homem assim. Sabe, forte na cama.

Renê – E onde você está agora?

Giovana – O que você acha? Na casa dele. Fica num condomínio incrível perto da praia.

Renê – Liga pro Luis Otávio.

Giovana – Vou ligar, pode deixar. Vou ligar hoje mesmo.

Renê – O que você está esperando, linda?

Giovana – Antes vou aproveitar mais um pouquinho esse presente que Deus me deu.

Renê – Aproveita então, linda. Mas não esqueça de ligar hoje mesmo.

Giovana – Pode deixar.
Um homem surge no cenário e deita na cama fazendo-lhe carícias.
Giovana – Já está pronto pra outra? Nossa, você é o máximo
Cena 13 – Vanda e Luis Otávio estão no apartamento deste último. Os dois bebem champanhe.
Luis Otávio – Vanda, agora que acabamos este maravilhoso jantar eu tenho que lhe dizer por que estamos aqui.

Vanda – Você disse que iria me dar umas dicas que me ajudariam com meu teste.

Luis Otávio – Na verdade, eu vou fazer coisa melhor. Beba mais champanhe.

Vanda – Não sei, Luis. Eu tenho esse teste amanhã, talvez seja melhor não beber mais.

Luis Otávio – Calma, eu não quero minha candidata de ressaca no dia mais importante de sua carreira. É só um pouco. Ajuda a relaxar.

Vanda – Está bem.


Enquanto, Vanda bebe, Luis Otávio pega um calhamaço de folhas.
Luis Otávio – Sabe o que é isso?

Vanda – Não, o que é?

Luis Otávio – É o texto de seu teste.

Vanda – O quê? Luis, você é louco! Como conseguiu isso?

Luis Otávio – Esqueceu que eu sou o autor da novela? Fui eu que escolhi o texto. É uma das primeiras cenas, quando a mocinha se declara para o protagonista.

Vanda – Nossa, e agora? O que vamos fazer?

Luis Otávio – Vamos ensaiar a cena até você estar preparada pra amanhã.
Vanda salta de felicidade e abraça Luis Otávio. Os dois aproximam seus rostos.
Vanda – Luis, eu não queria chegar assim tão perto.

Luis Otávio – Agora já chegou. Não tem volta.

Vanda – Sério?

Luis Otávio – Muito sério. Eu tinha planejado que isso acontecesse durante a cena, mas se você resolveu antecipar-se ao meus planos, tudo bem.


Luis Otávio beija Vanda. Depois de alguns segundos, Vanda o repele.
Vanda – Não, Luis. Não pode ser.

Luis Otávio – O que há?

Vanda – Não seria melhor sermos profissionais?

Luis Otávio – Vanda, não há por que não juntarmos o profissional com o prazer. Você está desimpedida, não está? Você me disse que terminou tudo com o seu namorado, não é verdade?

Vanda – Sim, mas...

Luis Otávio – E eu sou o divorciado mais solteiro do Brasil. Ninguém está mais livre do que eu. E vou te dizer uma coisa, Vanda: já faz tempo até demais. Eu não agüento mais acordar sozinho na minha cama. E você, você é tão jovem, cheia de vida. Me inspira. Sinto que posso fazer uma novela inteiramente nova com você do meu lado.

Vanda – Pára com isso, Luis. Você só está dizendo isso porque me quer na sua cama.

Luis Otávio – Sim, eu quero você na minha cama. Que mal há nisso?

Vanda – O mal há que a partir de amanhã seremos colegas de trabalho. Não podemos misturar as coisas.

Luis Otávio – Vanda, isso é televisão. Nesse meio, todo mundo mistura tudo.

Vanda – Eu não. Não sou assim. Uma coisa é você me ajudar com o texto, achei ótimo. Outra coisa é dormirmos juntos. Não tem nada a ver.

Luis Otávio – Isso é por causa da diferença de idade? Sou muito velho pra você?

Vanda – Não é nada disso, Luis. Você é um homem maravilhoso. Vamos fazer o seguinte: depois que terminar a novela, se você ainda estiver a fim de mim, eu fico com você. Aí, o trabalho já vai ter terminado e nós poderemos ser mais do que amigos.

Luis Otávio – É sua palavra final? Depois que acabar a novela?

Vanda – Sim, depois que acabar a novela, eu serei toda sua.

Luis Otávio – Mal poderei conter todo o meu desejo.

Vanda – Coloca toda essa empolgação no texto pro meu personagem.

Luis Otávio – Será um personagem inesquecível.

Vanda – Agora, me dá esse texto e deixa de lado esse champanhe. Vamos ensaiar.
Cena 14 – Luis Otávio e Nestor Arruda estão no estúdio. Suzana, Vanda e Giovana Santiago estão em um canto esperando sua vez no teste.
Luis Otávio – Nestor, essa cena é perfeita pra gente testar uma atriz ainda desconhecida, um rosto novo que atraia a multidão. Tem que ser uma atriz de absoluto potencial, cujo corpo deslumbrante fascine o público. Ela tem que ser perfeita.

Nestor – Sei, é claro. Tenho certeza que vamos encontrar durante este teste, Aliás, eu tenho a candidata perfeita.

Luis Otávio – Que engraçado você falar isso, porque eu também tenho a candidata perfeita. Ela é ótima, tem sex appeal, tem timing, é praticamente uma veterana.

Nestor – Se fosse assim, não precisaríamos de testes, não é verdade?

Luis Otávio – Nestor, quero te dizer uma coisa antes de começarmos: para apreciá-la você vai precisar desvestir esse ego que preza tanto.

Nestor – Ego? Que ego? E diretor tem ego? Eu tenho é profissionalismo. Sei dizer o que é uma atriz só de olhar pra ela. Pelo jeito como ela anda. Só na parada que ela dá diante da câmera já consigo saber: vai ser um sucesso, não vai ser um sucesso. São trinta anos de carreira lidando com elas. Acho que isso me dá uma certa autoridade no assunto. Eu não passei esse tempo todo diante de uma tela em branco. Passei observando a relação delas com a câmera.

Luis Otávio – Não quero ser insistente, mas a minha candidata é ótima. Ela estuda teatro e está ensaiando uma peça.

Nestor – Onde você a descobriu? Por que não foi no banco de talentos aqui da emissora.

Luis Otávio – Como é que você sabe?

Nestor – Eu pesquisei. Vanda Frappone. O nome é péssimo. Precisa de uma mudada.

Luis Otávio – Como assim péssimo. É italiano.

Nestor – Italiano está meio fora de moda. A onda agora é uma coisa bem brasileira. Algo como Suzana Oliveira.

Luis Otávio – Comum demais.

Nestor – O público adora. É simples. É direto no coração do povo. Mas essa Vanda... onde a descobriu? Não vai me dizer que foi na praia?

Luis Otávio – Não. Um amigo em comum me pediu pra dar uma olhada no ensaio deles. Sabe, como é, dar umas dicas. É gente que está começando, que não tem uma voz pra lhes dar atenção, uma crítica é sempre importante. Notei logo que ela era um achado. Um verdadeiro talento.

Nestor – Você sabe que aqui existe a câmera, não é teatro. Tem que ser avaliado como ela se sai na tela, a sagrada telinha. Teatro é outra coisa.

Luis Otávio – Claro, quero muito conhecer sua opinião sobre ela. Estou louco por isso na verdade. Mas e a Suzana?

Nestor – O que tem a Suzana?

Luis Otávio – Como foi que você a descobriu?

Nestor – Ela também está ensaiando. Passei lá pra dar uma garimpada, nós diretores, temos que estar sempre de olho nos novos talentos. Assim que bati o olho, pensei: está aí um rosto perfeito pra televisão. Chamei pra esse teste na hora.

Luis Otávio – Parece que estamos prontos, então. Vamos começar?

Nestor – E a outra?

Luis Otávio – A outra? Ah, não sei o que fazer com ela. Não sei como ela conseguiu o meu número mas me ligou e pediu uma oportunidade. E como tínhamos este teste marcado, convidei. Parece que é famosa, né?

Nestor – Estava justamente pensando nisso. Poderíamos usá-la a nosso favor nessa nova fase da novela. Que tal darmos a ela um papel de empregada ou secretária? Aquela coisa: abre e fecha porta. Diz bom dia. Oferece um café. Que acha?

Luis Otávio – É, pode funcionar. Com aquele corpão, ficaria ótimo num figurino justo.

Nestor – Melhor ver antes se ela sabe decorar duas linhas pelo menos.

Luis Otávio – Isso mesmo. Vamos começar que eu já estou ansioso.

Nestor – Segura esse ego, Luis.

Luis Otávio – Engraçadinho.
Antes de começar as três conversam
Giovana – É isso aí, meninas. Chegou a minha hora.

Suzana – Vai calminha que vai dar tudo certo.

Vanda – É, Giovana. Você vai conseguir.

Giovana – Não precisam ser falsas meninas. Eu sei que estão torcendo pra eu gaguejar ou coisa parecida.

Suzana – Não precisa ser grossa.

Vanda – Estamos apenas competindo, não somos inimigas.

Giovana – Está bom, quando sairmos daqui vamos tomar aquele chope.

Vanda – Por que não?

Giovana – Se liga, garota! Só existe um papel e ele é dessa gostosa aqui.

Suzana – Como se ser gostosa garantisse um papel na televisão. O que não falta por aqui é mulher bonita.

Giovana – Acontece que eu não sou só uma gostosa como muitas por aí. Além de ser famosa, eu posso interpretar.

Suzana – Isso é o que vamos ver, né?

Vanda – Calma, meninas. Vamos manter o nível, tá legal?

Giovana – Além do mais, eu não vim aqui à toa. Eu tenho quem olhe por mim, queridinhas. E o nome dele é Luis Otávio.

Vanda – Luis Otávio te conseguiu esse teste?

Giovana – Claro, garota. E você não sabe o que eu precisei fazer pra conseguir que ele me indicasse.

Vanda – O que você fez?

Giovana – Ah, não seja ingênua. Você sabe como a coisa funciona.

Vanda – Não, não sei. Você poderia me dizer? O que você fez pro Luis Otávio?

Giovana – Só posso dizer que ele gostou muito. Foi o que ele me disse depois. Gostou muito.

Vanda – Você está mentindo.

Giovana – Vai achando. Vocês perderam a viagem, pode acreditar.

Suzana – O Luis Otávio não escolhe nada. Quem decide o elenco é o diretor. No caso o Nestor Arruda.

Giovana – Já está tudo certo. O Luis Otávio já falou com ele a meu respeito.

Suzana – Deixa de ser metida, garota. Ninguém acredita em uma palavra do que você diz.

Vanda – A interpretação é lá diante da câmera.


Nestor – Vamos, gente. Quem vai ser a primeira? Não temos o dia todo.
Giovana – Quem disse que eu não tenho talento? Beijo pra vocês duas.
Giovana se move pra frente da câmera.
Suzana – Bruxa!

Vanda – Vagabunda!


Cena 15 – Marcus e Felipe estão no palco ensaiando.
Felipe – Não, Marcus, você errou de novo. Não é desse jeito.

Marcus - Não foi assim que a gente combinou?

Felipe – Você podia atuar um pouco melhor.

Marcus – Como é? Você está questionando a minha atuação?

Felipe – Você chama isso de atuação? Você está declamando o texto. Essa fala não é um poema.

Marcus – Eu tenho talento, tá legal? Posso fazer essa cena com o pé nas costas.

Felipe – Ah, vamos lá. A quem você está querendo enganar?

Marcus – Enganar? O que você está querendo dizer com isso?

Felipe – Que você não é um ator e sabe disso. Fica aqui brincando de atuar...

Marcus – Eu não estou brincando. Eu me dedico de verdade.

Felipe – Fala a verdade, Marcus. Você só vem aqui pra sentir o gostinho e fofocar. Tanto que até agora a gente não ensaiou as cenas de verdade. Você fica adiando.

Marcus – Fofocar? Eu venho aqui pra atuar, atuar, você está me ouvindo?

Felipe – Ah, é? Hoje o pessoal veio me zoar na coxia. Vieram me perguntar onde estava a Giovana Santiago. Quem contou pra eles?

Marcus – Eu não contei, eu juro!

Felipe – Fala a verdade uma vez na vida, Marcus.

Marcus – Você pode acreditar no que quiser, mas eu não contei.

Felipe – Você tinha que expor minha vida, não sabe como isso me faz mal, cara. Mentir você sabe. Agora usa no palco. Vai, faz aquela cena.

Marcus – Agora não, eu não decorei.

Felipe – Viu? É sempre assim, você sempre diz isso. Não decorei ainda. Vai chegar a noite da peça e você vai fazer o quê? Vai ler o texto?

Marcus – Não, Felipe, eu vou decorar, eu juro.

Felipe – Não é só isso, amigo. Se fosse só isso. A verdade é que você não tem talento.

Marcus – Não, Felipe.

Felipe – É a mais pura verdade, cara. Sinto ter que ser eu a lhe dizer isso. Ainda somos amigos.

Marcus – E você me diz isso agora? Você se diz meu amigo? Está todo deslumbrado com esse lance da Giovana que agora temos que ser estrelas pra contracenar com você? Você não manda nada aqui, eu vou continuar até o diretor me dizer não.

Felipe – Ele já disse, cara. Deu pra mim essa tarefa, sinto muito. Você está fora da peça.

Marcus – Você... você é nojento, Felipe.

Felipe – Vai, pode desabafar, eu vou te ouvir.

Marcus – Quer saber? Não vale a pena. Não tenho nada pra te dizer. Só isso: boa sorte na estréia.


Marcus deixa o palco.
Cena 16 – Suzana conversa com Nestor Arruda.
Suzana – O que deu errado, Nestor?

Nestor – O que deu errado? Eu que digo: o que deu em você? Você disse que tinha estudado teatro...

Suzana – Mas eu estudei...

Nestor – O que você aprendeu, afinal? A ler?

Suzana – Não, eu aprendi tudo o que a escola tinha pra me ensinar, eu juro.

Nestor – No seu caso, não foi suficiente, querida. Você me deixou completamente constrangido. Fiquei com cara de palerma diante daquele idiota do Luis Otávio. Até a Giovana Santiago consegue dizer uma fala melhor que você.

Suzana – Me dá mais uma chance, Nestor. Eu não vou decepcionar.

Nestor – Não é questão de chance, Suzana. O que você tem é nada. Não dá pra fazer nada com você. Se você tivesse ainda um corpo fenomenal como a Giovana ainda podia bancar a gostosa. Mas nem isso. Você é só magrinha.

Suzana – Então, é isso. Vou malhar muito a partir de agora.

Nestor – Não faça isso consigo mesma, garota.

Suzana – Não, Nestor. Um dia eu vou conseguir. Meu sonho é trabalhar na televisão.

Nestor – Suzana, você não tem talento pra ficar na frente da câmera. Fica contente com seu cargo de secretária. Já é muito pra você.

Suzana – Nestor, não faça isso. Eu faria qualquer coisa por mais uma chance. Eu faria tudo.

Nestor – Sinto muito, Suzana. Mas não sinto tesão por você. Nem adianta.

Suzana – Mas eu não quis dizer isso, Nestor. Eu não faria isso. Sou uma mulher de respeito.

Nestor – Está certo. Você não disse nada. Só insinuou.

Suzana – Não!

Nestor – Quer saber? Não importa. Você perdeu o papel, ok? Não está nessa novela nem em qualquer outra que eu dirigir. Agora, engole esse choro e me traz um café.

Suzana- Sim, senhor.
Suzana sai.
Nestor – Como é difícil ser eu, meu Deus. Ainda vão inventar alguém que faça melhor o que eu faço.
Cena 17 – Vanda e Luis Otávio bebem champanhe.
Vanda – Eu não sei como te agradecer, Luis. Você foi fantástico.

Luis – Não fui? Eu sei.

Vanda – O texto era exatamente aquele que a gente estudou.

Luis – É claro que era, Vanda. Eu não te disse, sou o autor da novela.

Vanda – Eu sei... é que é simplesmente difícil de acreditar...

Luis – Ei, você está vivendo seu sonho, é assim mesmo.

Vanda – Eu estou numa novela. Eu estou numa novela. Fico me repetindo isso o tempo todo.

Luis – Põe teu sentimento pra fora, eu estou ouvindo.

Vanda – É difícil dizer. Eu sempre sonhei com isso. Sempre. Desde criança. Vivia brincando de viver histórias. Mamãe lia pra mim as historinhas e eu fazia de conta. Mamãe tinha que me chamar a atenção pra eu parar de viver o personagem.

Luis – Eu sei, é simplesmente incrível quando a gente realiza nosso sonho. Eu também quando comecei ficava deslumbrado com a magia, os atores, os bastidores, camarins, tudo.

Vanda – Você sentia medo de que não acontecesse?

Luis – O tempo todo. Eu tinha que aparecer, tinha essa vontade de me destacar e ao mesmo tempo uma insegurança, sabe? Era uma mistura de emoções. Às vezes tava feliz, às vezes triste. Até que a chance veio e eu pude mostrar o meu talento.

Vanda – Deixa eu adivinhar. Primeiro trabalho, sucesso!

Luis – Bem, não foi bem assim. Pra falar a verdade, não foi lá essas coisas. Mas eu era um cara muito atento. Estava sempre pronto e atento, buscando aprender tudo. Ninguém aprende do nada. É preciso trabalhar, trabalhar muito para atingir a marca de um espetáculo de qualidade. Eu hoje me considero no melhor da minha forma.

Vanda – Ah, mas a novela não vai tão bem.

Luis – Isso é passageiro. Com as mudanças que estamos planejando, a coisa vai entrar nos trilhos. Voltaremos aos picos de audiência. Às vezes, a gente se engana quanto ao que o público quer. Mas isso não dura muito tempo. O recado do público vem rápido e é preciso ter humildade pra reconhecer, fazer o ajuste.

Vanda – E o ajuste sou eu.

Luis – É, parte do ajuste é você. Mas tem toda a história que precisa mudar, o foco tem que ser diferente.

Vanda – Ai, você fica realmente interessante quando fala do seu trabalho.

Luis – É que me dedico muito, respiro a novela o tempo todo. Quando não estou escrevendo uma novela, estou pesquisando a próxima. Sabe, é um trabalho incessante.

Vanda – Fala mais.

Luis – O quê? Você quer que eu fale mais?

Vanda – Na verdade, não. É que essa champanhe e mais tua voz estão me dando uma ondinha.

Luis – É mesmo? Eu estou bem nessa tua onda?

Vanda – Muito bem.
Suzana beija Luis.
Luis – Mas você disse: só depois da novela.

Vanda – Eu sei mas é que com essa onda veio um tesão.

Luis – Sério? Acho que devíamos aproveitar. Vamos pro quarto?

Vanda – Não, me beija aqui na sala mesmo.


Os dois se beijam.

Cena 18 - Felipe está ensaiando no palco quando entra Vanda.


Felipe – Até que enfim chegou, pensei que não viria mais hoje.

Vanda – Felipe, temos que conversar.

Felipe – O que foi, está nervosa com a proximidade da estréia? Não se preocupe, vai ser ótimo. Você está muito bem e eu estou com o texto na ponta da língua.

Vanda – Mesmo? E o personagem do Marcus? Eu soube o que você fez com ele.

Felipe – Estamos procurando por um substituto. Não vai ser difícil. Em último caso, cortamos as cenas dele. O personagem não é tão importante assim.

Vanda – Felipe, você não tinha o direito de falar o que falou pra ele.

Felipe – O quê? A verdade? Você sabe melhor que ninguém, Vanda, que o Marcus não consegue atuar.

Vanda – Não, não sei não. Eu só sei que você não tem o direito de destruir assim o sonho das pessoas.

Felipe – Eu destruí? Não, Vanda. Não fui eu quem destruiu. Quem fez isso foi ele mesmo. Com a preguiça, a falta de vontade, o despreparo. Você sabe que ele só tava aqui de onda. Ele não é profissional.

Vanda – Não, ele não estava de onda. Ele estava aqui evoluindo, dava pra sentir o crescimento dele como ator, a vontade de melhorar crescendo nele. Quem é você pra dizer que ele não serve pra esta peça? Estamos todos começando aqui. Você é por acaso uma estrela consagrada com um talento indescritível?

Felipe – Vanda, não tem comparação. Eu me esforço, eu me dedico. Estou aqui todos os dias, me aprimorando, dando a cara a tapa.

Vanda – Quem te nomeou dono desta peça?

Felipe – Eu sei que você está chateada, mas olha, já era decisão tomada. Se não fosse eu, seria o diretor. Nós dois achamos que seria melhor se eu contasse.

Vanda – Felipe, ele é seu melhor amigo. Como é que você fez isso com ele?

Felipe – Quer saber? Foi fácil. Quando se pensa o que está em jogo... ao contrário dele, eu não estou aqui só de onda. Isso pra mim é muito sério. Vanda, eu tenho vontade de vencer nessa carreira. Eu vou vencer nessa carreira. E tudo tem que ser perfeito. Não quero nenhuma falha. Ou você acha que o público não perceberia a falta de profissionalismo do Marcus?

Vanda – Profissionalismo? O que você está dizendo? Só tem gente começando aqui.

Felipe – Por isso mesmo. Eu tento dar o exemplo. Chego cedo, saio tarde. Canso de ensaiar cada cena. Estou sempre disponível. O Marcus não. Ponto final. Agora vamos ensaiar? Qual cena você quer primeiro?

Vanda – Felipe, eu tenho que contar uma coisa.

Felipe – O quê? Não adianta vir com mudança no texto, estamos a poucas semanas da estréia.

Vanda – Não, é isso. É outra coisa. Difícil pra caramba mas tenho que falar. Eu não vou poder continuar na peça.

Felipe – Não vai o quê?

Vanda – Isso mesmo que você ouviu. Eu não vou continuar na peça.

Felipe – Mas por quê?

Vanda – Eu fui selecionada através de um teste pra trabalhar numa novela. As gravações já começam hoje e eu não tenho tempo pra ensaiar.

Felipe – Novela?

Vanda – Isso mesmo. Novela.

Felipe – Parabéns. Eu estou muito feliz por você.

Vanda – Obrigada.

Felipe – Mas Vanda, e a nossa peça?

Vanda – Sinto muito, Felipe. Mas é a vida. Eu vou me dedicar cem por cento à novela. Preciso aproveitar essa chance. É minha chance de ver minha carreira decolar.

Felipe – Mas seu personagem é um dos protagonistas. Teremos que adiar a estréia.

Vanda – Isso. Adiem.

Felipe – Você está matando a nossa peça. Ninguém poderá fazer o personagem como você.

Vanda – Deixa disso, Felipe. Há uma porção de gente talentosa por aí.

Felipe – Mas ninguém tem o seu talento! Vanda, precisamos de você.

Vanda – Desculpe, mas não posso decepcionar as pessoas que acreditaram em mim.

Felipe – Nós acreditamos em você primeiro.

Vanda – Não é questão de primeiro mas de prioridade. Uma novela é muito mais importante. Traz mais visibilidade. Sem falar no salário.

Felipe – Então é isso? Você vai deixar a peça? Você vai me deixar?

Vanda – Para com isso, Felipe. Não faz drama. Nós nem estamos mais juntos.

Felipe – Por que você não quer. Surtou com aquela história da Giovana Santiago.

Vanda – Eu não ligo mais pra aquela história da Giovana Santiago. Ainda que vocês dois fiquem juntos, eu não estou nem aí.

Felipe – Mas Vanda, eu te amo.

Vanda – Não faz isso, Felipe. Você está tornando tudo mais difícil.

Felipe – Mas e á mais pura verdade. Eu te amo. Vamos ficar juntos.

Vanda – Não é mais tão simples assim. Sabe, eu conheci uma pessoa.

Felipe – Você conheceu uma pessoa? Quem é?

Vanda – Isso não vem ao caso.

Felipe – Claro que vem ao caso. Em menos de duas semanas, você me larga, deixa a peça, vai estrear numa novela e agora me diz que conheceu alguém? Eu tenho o direito de saber quem é o responsável por tudo isso.

Vanda – Não, não tem. É a minha vida. Aliás, eu não tenho mais nada a fazer aqui. Queria falar com você primeiro. Isso eu já fiz. Tchau.


Vanda se vai.
Felipe – Vanda! Não me deixa aqui sozinho.
Cena 19 – Nestor Arruda está no escritório do chefe, de quem só se ouve a voz.
Nestor – Você mandou me chamar?

Chefe – Mandei.

Nestor – Sim, o que eu tenho que fazer? É só falar e eu movo meus pauzinhos.

Chefe – É sobre a novela. O que está sendo feito?

Nestor – Nós mudamos consideravelmente a história. Vamos apresentar novos personagens, rostos novos que vão atrair a simpatia do público. Agora, tenho certeza que a novela vai decolar.

Chefe – Você já disse isso antes.

Nestor – Mas desta vez eu estou certo disso.

Chefe – Você tem consciência que essa audiência baixa está começando a mexer com o ânimo de nossos anunciantes? Alguns já estão pedindo desconto. É inadmissível que está situação perdure do jeito que está. A novela precisa ser um sucesso.

Nestor – Vai ser, chefe. Vai ser. Isso se...

Chefe – Se o quê?

Nestor – Se Luis Otávio voltar à forma de antigamente. Sabe, eu tenho achado ele um pouco relapso. Pra não dizer preguiçoso. Essa história de apartamento na praia, parece que o cara tirou férias permanentes, só vive na praia. O texto está todo apressado, como se ele não quisesse trabalhar.

Chefe – Ah, o Luis Otávio. Aquele apartamento é uma beleza. Passamos uma tarde de domingo lá, eu e a minha esposa assim que ele comprou. É um ótimo apartamento. Tem uma vista incrível.

Nestor – É isso o que eu estava dizendo. O apartamento é ótimo, lindo, tem uma vista espetacular. Mas tudo isso é uma distração imensa. Está interferindo com o talento dele.

Chefe – Nestor, você devia pensar em comprar um também. Sabe, pode ajudar na recuperação dela. Como está o câncer?

Nestor – Está ótima. A quimioterapia foi ótima. Resolveu tudo.

Chefe – E os cabelos? Já voltaram a crescer?

Nestor – Não, mas ela se vira muito bem com a peruca.

Chefe – Ótimo. É impossível não ser afetado por uma coisa dessas. Procure fazer bom uso de seu tempo livre.

Nestor – Eu uso todo o tempo livre que eu tenho pra estar com ela.

Chefe – Isso é que eu chamo de um marido dedicado.

Nestor – Tenho tentado.

Chefe – Espero de você a mesma dedicação à esta novela. Nem um pouco a menos. Nossa corrente é tão forte quanto nosso elo mais fraco, entendeu?

Nestor – Entendi, chefe.

Chefe – Pode ir.

Nestor – Certo, chefe. Pode ter certeza que darei o meu melhor, como sempre. A audiência vai crescer, pode anotar.

Chefe – Muito bem.


Cena 20 – Nestor está no estúdio de gravação com Luis Otávio e Vanda.
Nestor – Pela última vez, não olhe para a câmera. Você é surda? O que você quer que o público pense? Que você está ciente de sua presença?

Vanda – Desculpa, foi reflexo.

Nestor – Diga uma coisa: você é apresentadora? Você é?

Vanda – Não.

Nestor – Então quer ser?

Vanda – Não.

Nestor – Então pare de olhar para a maldita câmera!
Vanda cai no choro e sai de cena.
Luis – Espere, Vanda! Vanda!

Nestor – Malditos iniciantes! Como são amadores!

Luis – Precisava tratá-la dessa maneira? Ela é uma atriz. É uma criatura sensível.

Nestor – Sensível, o quê! Sensível é essa cena! E o meu rabo, que vai ficar de um jeito como nunca vi se a audiência dessa novela não crescer logo.

Luis – Não deixe essa pressão pela audiência afetá-lo dessa maneira. Pensa que é o único sob pressão aqui? Não ponho os pés na praia a não sei quanto tempo. Mas se continuar tratando o elenco desse jeito, vai ter que botar um pessoal com lencinho aqui no estúdio. O pessoal vai cair no choro. Estão todos pressionados em busca da audiência.

Nestor – Não me venha com esse papo psicológico. Eles têm que fazer o que é certo. E o certo sou eu que digo. Eu mando aqui. A responsabilidade é minha. Se essa novela for pro ralo, perdermos anunciantes, quem vai pra rua sou eu.

Luis – Você andou falando com ele, não é mesmo?

Nestor – Falei. Mandou me chamar, o que eu ia dizer? Que tinha uma cena a ser feita e precisava estar gravando no mesmo horário. Você sabe como ele é? Mandava um helicóptero me buscar.

Luis – E o que foi que ele disse?

Nestor – Basicamente... que eu sou o elo mais fraco da nossa corrente. Que a minha vida pessoal está uma merda e que estou deixando isso afetar a qualidade do trabalho.

Luis – Não... ele disse isso?

Nestor – Com todas as letras.

Luis – Que injustiça. Você que tem tantos anos de casa. Seu trabalho é uma referência na emissora.

Nestor – Pois isso não vale de nada quando as receitas caem. Tem que haver um responsável. E a bola da vez sou eu.

Luis – Eu vou falar com ele.

Nestor – Por favor, não se dê ao trabalho.

Luis – Mas eu posso falar com ele, não custa nada.

Nestor – E vai dizer o quê? Que o Nestor tem uma mulher se recuperando de um câncer, em luta pela vida? Que ela é a coisa mais importante da vida dele, que sem ela, Nestor não é nada? Que foi ela quem deu sentido à vida dele, quando ele era um zé ninguém sonhando com televisão? Que graças a ela é o homem que é hoje, que tem tudo o que sempre sonhou: filhos, dinheiro, carreira, tudo? E que quando chega em casa tudo que espera é vê-la feliz? E que a mera possibilidade de vê-la assustada, abatida com a presença da morte o enlouquece? Isso que você vai dizer a ele?

Luis – Por que vocês dois não vem passar uma tarde em meu apartamento? Nós podíamos tomar uns drinques e assistir o pôr do sol. Vanda iria adorar recebê-los.

Nestor – Deve ser espetacular o pôr do sol nesta época do ano.

Luis – É lindo.

Nestor – Deixe-me pensar nisso. Vou ver o que ela diz.

Luis – Isso, converse com ela. Tenho certeza que será uma tarde memorável.

Nestor – É, pode ser uma boa.

Luis – Deixa eu ir lá falar com a Vanda. Não temos todo o tempo do mundo, ela tem que se tocar.

Nestor – Faça isso.


Cena 21 – Marcus vai visitar Felipe em sua casa.
Mãe – Ele está assim há dias. Nem tem ido aos ensaios. Mal come. E fica fazendo exercícios. Está com fixação nisso.

Marcus – Eu só vim porque você insistiu muito. Não tenho nada a dizer ao Felipe. Ele me tirou da peça.

Mãe – Mas a peça foi adiada. Por tempo indeterminado, ele me disse antes de ficar assim. Será que foi por causa disso?

Marcus – Acho que é muito mais que isso. Ele e a Vanda terminaram.

Mãe – Terminaram? Mas agora que ela está na novela? Podia ajudar com o sonho dele.

Marcus – Pois é, eles brigaram e ela foi trabalhar numa novela. Agora, está namorando o autor.

Mãe – Mas ela está ótima na novela. Como tem talento. Esse pessoal da televisão sabe descobrir um talento.

Marcus – O Felipe a adorava. Acho que a perda da Vanda foi demais pra ele.

Mãe – Mas ele tem que se tocar e dar a volta por cima. Perder uma namorada é perfeitamente comum nessa idade. A fila anda. Bota outra no lugar.

Marcus – Acho que não é tão simples assim.

Mãe – Tem que ser. Vai ficar mordendo cotovelo por causa de mulher? Tem que ser homem. Fala com ele.

Marcus – Vou tentar.

Mãe – Isso. Tente.
Marcus entra no quarto. Felipe está malhando.
Marcus – Felipe! Felipe!

Felipe – O que é?

Marcus – Você tem que parar com isso. Assim vai ficar doente.

Felipe – Nada mais importa, Marcus. Eu tenho que entrar em forma.

Marcus – Você está deixando todos nós preocupados.

Felipe – Você também está preocupado comigo?

Marcus – Claro. Somos amigos.

Felipe – Nós não somos mais amigos. Eu tirei você da peça. Destruí o seu sonho.

Marcus – Você não destruiu o meu sonho, amigo. Você só me fez lutar mais por ele. Eu até me matriculei em um curso de teatro de verdade.

Felipe – Sério?

Marcus - Sério. E quero um dia poder dizer que atuo como você.

Felipe – Que bom pra você.

Marcus – Vamos lá, Felipe. Me ajuda aqui. Sua mãe está morta de preocupação. Dá um alívio pra coitada.

Felipe – Não dá, Marcus! Você sabe muito bem por quê.

Marcus – Por causa daquela história da Giovana Santiago?

Felipe – É, por causa daquela história. Eu não posso descansar. Tenho que entrar em forma.

Marcus – Pelo amor de Deus, Felipe. Isso foi séculos atrás. Ele nem deve lembrar que você existe. Se toca, por favor.

Felipe – Ela lembra, eu sei que ela lembra. Posso sentir. É minha grande chance.

Marcus – Tá bom. Ela se lembra. Você já está ótimo. Não precisa ficar nessa.

Felipe – Nenhum esforço é grande demais. Eu quero ser excelente nesse papel.

Marcus – Que papel?

Felipe – Celebridade. Eu vou ser uma celebridade. É assim que eu vou chegar onde eu quero.

Marcus – Você está louco. Isso está te fazendo mal. Está afetando sua saúde.

Felipe – Nada disso. Minha saúde está perfeita. Olha esse braço! E esse abdômen. Eu estou ótimo.

Marcus – Eu não sei mais o que dizer. Vou trazer a Vanda aqui.

Felipe – Não ouse trazer a Vanda aqui. Ela não quer nada comigo. Eu não quero nada com ela.

Marcus – Mas você gostava dela.

Felipe – Gostava? Eu ainda gosto. Eu amo aquela mulher. Não posso suportar ficar na presença dela e não querer beijá-la, abraçá-la.

Marcus – Você soube que ela está com o autor da novela.

Felipe – Eu vi os dois juntos na capa de uma revista.

Marcus – Isso deve ter te deixado arrasado.

Felipe – Arrasado eu fiquei quando ela terminou comigo. Ver a tal foto devastou meu mundo.

Marcus – Não precisa ficar assim. Tem muita mulher bonita por aí.

Felipe – Ela era a mais linda de todas.

Marcus – Não se deixe abater. Vamos sair um pouco. Tem muita coisa boa acontecendo lá fora.

Felipe – Não vai dar. Preciso acabar minha série.

Marcus – Vou te deixar sozinho aqui então.

Felipe – Tchau.

Marcus – Tchau.
Mãe – E então?

Marcus – A coisa é mais grave do que pensei. Preciso falar com Vanda.


Cena 22 – Marcus e Vanda conversam. Giovana está num dos cantos do estúdio com um texto na mão.
Vanda – Acreditem em mim, Marcus, eu aparecer do nada por lá não vai adiantar.

Marcus – Como não, Vanda, ele ainda te ama.

Vanda – E o que você espera que eu faça? Que chegue lá e o beije na boca, que diga que está tudo bem, nós vamos ficar juntos não importa o que aconteça? Não, Marcus, eu estou muito feliz com o Luis Otávio.

Marcus – A ponto de esquecer os amigos?

Vanda – Ei, para com isso, está bem? Eu te trouxe aqui, não é? Não me venha dizer agora que o sucesso me subiu à cabeça e me fez esquecer de onde eu vim. É uma bruta mentira.

Marcus – Está bem, desculpe. Mas acho que seu plano não vai dar certo.

Vanda – Claro que vai. Pense comigo. Tudo começou quando a Giovana Santiago brincou com vocês e fez aquela promessa idiota. A partir daí, ele nunca mais foi o mesmo. Ele ficou obcecado com essa história.

Marcus – Claro que não. Ele está assim porque perdeu você, perdeu a peça. A promessa da Giovana é conseqüência.

Vanda – Conseqüência ou não ela vai ter que desfazer o mal entendido.

Marcus – Como assim?

Vanda – Ela vai ter que ir lá e dizer pra ele que não vai sair com ele coisa nenhuma. Que ela só estava brincando.

Marcus – Você acha que ela vai topar?

Vanda – Isso nós só vamos saber tentando. Olha lá, ela decorando o texto. Duas falas na cena: quer um café? Com açúcar ou adoçante? E ela precisa de duas horas ensaiando.
Os dois se aproximam de Giovana.
Vanda – Giovana!

Giovana – Ah, se não é a mais nova estrela do momento se dirigindo a uma reles mortal.

Vanda – Que exagero.

Giovana – Quem é seu amiguinho? Largou o autor? Puxa, conheço uma repórter que iria adorar essa história. É verdade?

Vanda – Claro que não. Eu e Luis Otávio estamos super bem.

Giovana – Que sorte a sua. Falem logo, eu estava ensaiando.

Vanda – Lembra de dois rapazes que você encontrou quase um mês atrás e prometeu que se dali a um mês ele emagrecesse você sairia com um deles?

Giovana – Claro que lembro. Você precisava ver as caras deles. Parecia que nunca antes tinham conversado com uma celebridade. Foi divertido. Mas como é que você sabe disso?


Vanda aponta para Marcus.
Marcus – Eu era um deles.

Giovana – Claro, agora me lembro. Você era o mais feinho. Mas a promessa eu fiz para o outro. Eu não te prometi nada.

Marcus – Eu sei, foi com o Felipe, meu amigo.

Giovana – Aliás, o dia está chegando. E aí? Ele emagreceu? Estou muito curiosa.

Vanda – Acontece que o nosso amigo não sai de casa, mal come por sua casa. Ele só quer saber de malhar e fica falando nesse encontro tempo inteiro. Está obcecado.

Giovana – Não me diga. Então o seu amigo está obcecado por mim? Que legal! Nunca tive alguém que fosse obcecado por mim. Lógico, tem os fãs mas não se pode sair com fãs. É uma regra minha.

Vanda – Você não entendeu. Ele está obcecado com a possibilidade de sair com você e ficar famoso, entende?

Giovana – Claro que entendo. Foi exatamente isso que eu propus a ele. Parece que ele é um ator, não é isso? Vocês dois são atores. E havia uma peça. Eles estavam ensaiando e iam estrear.

Marcus – Verdade, só que a peça não existe mais.

Giovana – Não? Que pena.

Marcus – O diretor cancelou a estréia. Perdemos os dois protagonistas. Ele e ela.

Vanda – A peça só não vai pra frente porque ele não sai do quarto. Ele desistiu de atuar. Agora só pensa na fama que vai conseguir se sair com você.

Giovana – Nossa! Que sacrifício. Estou achando lindo.

Vanda – Para com isso, Giovana. Você não está entendendo nada.

Giovana – Estou entendendo sim. O rapaz espera que eu diga sim no nosso encontro. Mas para que isso aconteça ele vai ter que merecer. Ele está realmente mais magro?

Marcus – Já deve ter perdido uns dez quilos.

Giovana – Que milagre! Em um mês? Ele vai ter que me contar como foi essa dieta.

Vanda – Nós queremos que você vá conosco à casa dele.

Giovana – E o que eu vou fazer lá? O nosso encontro é num bar.

Vanda – Queremos que você desfaça essa história. Que diga que tudo não passou de uma brincadeira. Você não vai sair com ele.

Giovana – Aí que você se engana, queridinha. Se ele me agradar, vou sair sim.

Vanda – Para com o jogo, Giovana. Você só sai com jogador de futebol.

Giovana – Ah, você viu isso na mídia? Ele é ótimo. Mas não é verdade. Eu saio com outros caras. Se eu bato olho e me agrada eu fico com ele. Por que não? Não fico procurando autor de novela pra me favorecer na carreira.

Vanda – Escuta: o Felipe está mal por sua causa. Você tem que ajudá-lo.

Giovana – No meu entender, ele já está se ajudando. Ninguém fica mal porque perdeu dez quilos. Pelo contrário. Fica melhor. E se isso for verdade, ele deve estar um gato. Vai ser ótimo sair com ele.

Vanda – Essa é sua última palavra, então? Você não vai lá com a gente?

Giovana – Vou te contar o que vou fazer, queridinha. No dia marcado, eu vou fazer o cabelo, me maquiar, botar um vestido justo daqueles que os fotógrafos adoram, morrem querendo que eu pague calcinha e vou aparecer naquele bar. Se o seu amigo estiver bonito, gostoso como vocês estão dizendo eu vou dizer sim. E aí o céu é o limite.

Vanda – Você é louca!

Giovana – Sou louca mas sou famosa.

Vanda – Vamos embora daqui, Marcus.

Giovana – Diz pra ele que estarei esperando.
Cena 23 – Giovana está na cadeira de René, o cabeleireiro.
Giovana – Vai René, arrasa. Eu quero estar linda.

Renê – Quer dizer que você vai dar realmente uma chance pro rapaz?

Giovana – Vou dar uma chance pra mim. Faz tempo que eu não pego um gatinho.

Renê – Será que ele emagreceu isso tudo mesmo? Dez quilos em um mês.

Giovana – É o que o desejo pela fama faz com as pessoas.

Renê – Eu não sei se conseguiria.

Giovana – Claro que precisa de uma motivação. Eu sou uma tremenda motivação.

Renê – Verdade, você é linda. Ainda não sei como aquelazinha conseguiu o papel no seu lugar.

Giovana – Não sabe? Ela está com o Luis Otávio, autor da novela.

Renê – Sim, mas o que será que ele viu nela? É tão sem sal, tadinha. Não tem metade do seu corpo.

Giovana – Não importa. O que importa é estar dentro. Eu estou na novela. Mesmo que seja um papel pequeno. Mesmo que fosse pra servir mil cafezinhos. Agora já posso dizer: eu sou uma atriz. O pessoal enche a boca pra dizer isso, precisa ver. Eu agora posso fazer o mesmo: eu sou uma atriz. É mais uma vitória na minha carreira. Depois eu penso em como conseguir papéis maiores.

Renê – Como você vai conseguir isso saindo com o zé ninguém do teatro?

Giovana – Ah, René, você é muito imediatista. Vai ser ótimo sair com o rapaz do teatro. Já estou vendo o que o pessoal da mídia vai dizer: lá vai aquela atriz com aquele ator de teatro. Ótimo pra minha imagem.

Renê – Então está resolvido. Você vai dizer sim.

Giovana – Não sei ainda. Vai depender do que meus olhos irão ver.

Renê – Ai, meu Deus! Que ansiedade. Estou morto de curiosidade.

Giovana – Pode deixar que você vai ver nossas fotos nos sites e revistas. Pode apostar.

Renê – Traz ele aqui depois pra eu fazer o cabelo dele?

Giovana – Na cortesia, que nem eu, não é?

Renê – Na cortesia, é claro.


Cena 24 – Felipe está no bar. Quando Giovana se aproxima com o fotógrafo a tiracolo.
Giovana – Olá, posso sentar?

Felipe – Claro, estava te esperando.

Giovana – Nossa, como você emagreceu.

Felipe – Você notou?

Giovana – Claro, nem parece mais o mesmo rapaz que sentava aqui um mês atrás. Me disseram que você perdeu dez quilos.

Felipe – Te disseram? Quem?

Giovana – Aquele seu amigo e mais a Vanda.

Felipe – Eles foram falar com você? Mas por quê?

Giovana – Queriam que eu te convencesse de que tudo não passava de uma brincadeira. Sabe, disseram que você não saía do quarto. Fiquei chocada. Quase comovida.

Felipe – Eles não acreditavam que eu estava bem. Só me preparando para agarrar uma oportunidade.

Giovana – E a oportunidade sou eu, suponho.

Felipe – Sim, é você. Eu tinha certeza de que você não estava brincando De que falava a verdade. Que estava disposta realmente a me dar uma chance.

Giovana – É, você levou bem a sério a minha proposta.

Felipe – Eu não tinha mais a que me agarrar.

Giovana – E a peça? Por que deu errado?

Felipe – Depois que a Vanda terminou comigo, ela resolveu também abandonar a peça. Não dava pra estrear sem a protagonista.

Giovana – Espera ai, você está dizendo que ela terminou contigo? Vocês dois eram namorados?

Felipe – Sim, namoramos por quase um ano.

Giovana – Nossa, você está ficando cada vez mais interessante. Agora, ela está com o Luis Otávio, o autor de novela. O que você acha disso?

Felipe – Que foi bom pra ela. Se não ela não ficava com ele.

Giovana – Bom pra ela. Foi ótimo pra ela. Graças a ele, a Vanda conseguiu o papel.

Felipe – Não, a Vanda não é disso. Tenho certeza que ela está com ele por amor.

Giovana – Amor? Amar é muito fácil quando seu par é um escritor famoso e pode garantir um papel de destaque numa novela. Pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso.

Felipe – Não acredito nisso.

Giovana – Ah, você ainda gosta dela.

Felipe – Não, não gosto.

Giovana – Claro, que gosta. Não precisa mentir por medo de me magoar. Eu sei como essas coisas funcionam. Já amei muito, sabia?

Felipe – E não ama mais?

Giovana – Digamos agora que eu prefiro me divertir. Não tive boas experiências com o amor. O amor só me levou pra trás.

Felipe – Verdade?

Giovana – Sim, eles só queriam saber de me explorar e viver da minha fama.

Felipe – Desculpe, mas não é isso que você está propondo pra mim?

Giovana – Com você, é diferente. Confesso que você me impressionou, mas eu não estou apaixonada. Longe disso. Eu quero me divertir com você. Encare isso como um reality show. A partir de agora, as câmeras estarão apontadas pra nós.

Felipe – Posso ver o fotógrafo do outro lado da rua.

Giovana – Você viu? Isso, meu caro, é a fama.

Felipe – Isso é um sim, então? Passei no teste?

Giovana – Isso é um sim! Pode soltar os fogos.

Felipe – Uhaa! Acho que devemos comemorar então. Que tal um beijo?

Giovana – Você está se saindo bem espertinho. Já quer um beijo?

Felipe – Por que não? Estão fotografando. Vamos dar a foto que eles querem.

Giovana – Está bem, mas só por causa da foto. Você ainda tem a noite inteira pra me convencer a dormir com você.

Felipe – Nossa!, isso vai ser ótimo.


Os dois se beijam. O fotógrafo se aproxima e tira a foto.
Cena 25 – Vanda, Luis Otávio e Nestor Arruda estão no apartamento de frente pro mar.
Nestor – Realmente, o pôr-do-sol daqui é lindo.

Luis – Ainda sinto muito que ela não pôde vir com você.

Nestor – São os efeitos da quimo. Ela fica assim às vezes.

Luis – É uma pena. Pegue mais um drinque, eu já alcanço você.


Luis se aproxima de Vanda.

Luis – O que você tem, amor?

Vanda – Nada.

Luis – Eu te conheço. Conta pra mim.

Vanda – Um grande amigo meu tem um teste importante esta noite. Estou preocupada.

Luis – Não fique assim, tenho certeza de que ele vai se sair bem.

Vanda – Sabe, ele é um ator talentoso. Não sei como não falei dele antes pra você. Ele tem aquele algo mais, sabe? Na escola de teatro todo mundo percebia. Quando estávamos em dúvida quanto a uma cena e o professor não estava disponível, quem procurávamos? Ele.

Luis – Se ele é tão bom assim, porque ainda não dei uma chance a ele?

Vanda – Pois é, eu não queria confundir as coisas. Acontece que ele é meu ex-namorado.

Luis – Entendo.

Vanda – Eu não queria que você pensasse que eu ainda gostava dele e estava te usando.

Luis – Vanda, olhe pra mim. Eu confio no nosso amor. Você não precisa ficar temendo o que eu vou pensar, o que eu vou fazer. Eu confio em você. Eu sei que você está comigo porque me ama.

Vanda – Jura?

Luis – Claro. Vamos dar uma chance ao rapaz. Que tal? Liga pra ele.

Vanda – Acho que não. Ele está noutra agora. Tem esse teste pra um reality show.

Luis – Parece que ele escolheu o caminho dele, então.

Vanda – Só que ele não precisa disso. Ele tem muito talento.

Luis – Nem todo mundo com talento está disposto a passar pelo que é preciso nessa profissão.

Vanda – É que eu tive tanta sorte.

Luis – Você tem é talento. Já te mostrei os últimos números? A audiência está ótima. O público aceitou as mudanças. Aceitou você. És uma estrela.

Vanda – É isso é ótimo.

Luis – É assim que a verdadeira fama tem que vir. Pelo resultado do teu trabalho. E não pela massiva exposição de um reality show. Trabalho. Não se esqueça disso. Nenhuma foto que tirem de você é mais importante que o seu trabalho, dia a dia, ali diante da câmera. É assim que se fica famosa.

Vanda – É, eu sei. Sou obcecada pelo meu trabalho. Não pela fama.

Luis – Isso. Agora, vamos nos juntar ao Nestor. Ele tem uma tendência a beber demais quando está sozinho.

Os dois se aproximam de Nestor.
Luis – E aí, Nestor? O que você acha de morar de frente pro mar?

Nestor – Realmente ótimo, se eu ganhasse o que ganha um autor de novela.

Luis – Para de chorar, Nestor. Eu sei quanto ganha um diretor. O chefe me disse.

Nestor – Disse é? Pegue esse valor e divida por dois. É quanto ele me paga.

Luis – Ainda assim é uma boa grana. Dá pra vir se juntar a nós.

Nestor – Se ela quisesse mesmo, eu me mudava amanhã.

Luis – Por que ela não quer?

Nestor – Ela não gosta de se expor muito. Diz que aqui todas as câmeras estão ligadas. Não têm a privacidade que ela tem morando em nossa casa. Sabe que temos um jardim?

Ela adora o jardim.

Luis – Não vou negar que esses batalhões de fotógrafos que cercam o bairro às vezes são um pé no saco. Eles não tem a menor noção. Sair de manhã pra comprar pão com cara de sono, nem pensar... Eles botam no ar aquela cara amassada mesmo. E pra ir na praia, você tem que estar em forma. Esquece a barriga. Se não, lá está. Estampada a sua gula nas revistas. Mas com o tempo você acostuma. A Vanda adora. Não é, meu amor?

Vanda – Sim, é muito gostoso. E os fotógrafos, esses são um pequeno preço a pagar por morar no paraíso, não é mesmo?

Luis – Tem razão.

Nestor – Não sei. Eu ainda prefiro a privacidade da minha casa. Fui feito pra estar atrás das câmeras. Não diante delas. Pode parecer bobagem, mas não me sinto á vontade.

Luis – Mas no começo de sua carreira você trabalhou como ator, não é mesmo?

Nestor – O bastante pra saber qual é a minha. Não, atuar é tão importante que não pode ser uma profissão meia boca. Pra quem quer mais ou menos. Tem que querer estar ali, emocionando, dando sua cara a tapa, botando sua experiência pra fora, mostrando quem é. Eu ficava tão nervoso que precisava de umas duas doses só pra me acalmar. Isso a qualquer hora. De manhã, de tarde, de noite. Se eu tivesse continuado na carreira de ator, hoje seria um alcoólatra com certeza.

Luis – Ainda bem que mudou de lado, então, né Nestor?

Nestor – É, graças a ela. Foi minha esposa quem me deu coragem pra arriscar a profissão de diretor. Eu era jovem, inseguro. Não acredito até hoje que subimos naquele altar. Não acredito que ela me disse sim. Aquele sim salvou minha vida.

Luis – Ao sim, então, um brinde.


Vanda, Luis e Nestor erguem seus copos.
Todos – Ao sim.
FIM.

Marco Antonio Martire



tomesk@yahoo.com


Ela disse sim


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