Do Estigma à Humanização: práticas, dinâmicas e vivências No caminho da reinserção social


O Contributo das Ciências Sociais



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2.3. O Contributo das Ciências Sociais

A afirmação do paradigma sociológico constituiu um momento fundamental de ruptura e construção da psiquiatria contemporânea.

Ao problematizar a fronteira do normal e do psicopatológico, ao evidenciar factores socioculturais relacionados com a incidência de doenças mentais (factores ecológicos, distribuição de doenças mentais por classes sociais, grupos profissionais, religiões), ao investigar conceitos e representações socialmente dominantes sobre a doença mental, o doente e as instituições de cura, a Sociologia das Doenças Mentais (Bastide, 1968), um dos pilares de afirmação da Psiquiatria Social, constitui um outro eixo de abordagem das instituições psiquiátricas tradicionais e das próprias raízes epistemológicas da psiquiatria como forma de conhecimento e de poder, estabelecendo o início da emergência de novos paradigmas na abordagem da doença mental.

A Sociologia entra no domínio da Psiquiatria com vista a explorar caminhos ainda pouco experimentados, surge o conceito de Psiquiatria Social. Num primeiro momento, este tinha como objecto “o estudo dos remédios e dos meios utilizados pela sociedade na sua luta contra as doenças mentais” (Bastide, 1968: 10). Preocupava-se com este tipo de doenças, pois estas constituem um problema social. Num segundo momento, a Psiquiatria Social foi entendida como sendo os trabalhadores sociais a exercerem funções no campo da psiquiatria. “O hospital psiquiátrico não é um hospital como os outros, onde se prestam cuidados a doentes que, nas suas camas, continuam a fazer parte da sociedade, o hospital psiquiátrico é ao mesmo tempo uma «comunidade» em que o doente deve fazer a reaprendizagem da vida social, onde deve reencontrar o sentimento da sua responsabilidade moral e o sentido da sua autonomia” (idem). Deste modo, pode entender-se a Psiquiatria Social como uma terapêutica que visa a reinserção social do doente mental na sociedade. Num terceiro momento, surge um outro sentido para a Psiquiatria Social que vai ao encontro do anterior, porém, com algumas modificações: “é o estudo dos métodos de tratamento por meio da formação de comunidades, pela reeducação das inter-relações, pela socialização dos «isolados», e mais particularmente pela grupoterapia e ergoterapia” (Bastide, 1968: 11). Nesta linha, valoriza-se as mais variadas técnicas da reaprendizagem da vida social, que incluem o psicodrama e as dinâmicas de grupo, por exemplo. Estes três sentidos dados à Psiquiatria Social fazem esta ciência mais prática do que teórica. É importante que exista uma ciência teórica na base da prática para que não se perca a objectividade no tratamento dos fenómenos sociais. Assim, surge uma definição de Psiquiatria Social teórica: “será o estudo das influências dos factores sociais (constelação familiar, habitação, nível económico e tensões profissionais, religião, etc.) nas perturbações do comportamento” (Bastide, 1968:12) e, a par desta, um outro sentido teórico no qual a Psiquiatria Social seria o estudo das colectividades mórbidas. Certo é que, desde que a psiquiatria Social foi reconhecida como ciência, o seu sentido e o seu objecto variaram sempre de acordo com o autor/investigador e o país que se propunha estudá-la, sendo o único denominador comum o social.

Auguste Comte apelidou os médicos de “veterinários do corpo humano” (Bastide, 1968: 18) não tendo em consideração que o homem não é só um ser biológico, é um ser social. Nesta sequência, o seu seguidor Audiffrend “faz notar que a desorganização da personalidade vai a par com a sua sociedade, e que é preciso distinguir os períodos orgânicos com um mínimo de perturbações mentais, dos períodos de crise com um máximo, lança as bases da Sociologia das doenças mentais” (idem). A Sociologia das doenças mentais destaca-se, então, da Psiquiatria Social, “estabelece correlações entre factos sociais e certos tipos de doenças sem afirmar que estas correlações sejam forçosamente leis causais” (ibidem).

Comte, na sua teoria, mostrava a influência dos factores sociais sobre as doenças mentais; pelo contrário, Morel mostrava a influência das doenças mentais sobre a sociedade. Contudo, a Sociologia francesa sofreu uma crise com o desaparecimento de Comte. Vários autores como Lévy-Bruhl, Blondel e Durkheim introduziram dicotomias em relação à Sociologia das doenças mentais. No entanto, quer a teoria caminhasse da Sociologia para a Psiquiatria, quer a Psiquiatria caminhasse para a Sociologia, a conclusão a que se chegou no final do século XIX e inícios do século XX foi que “há uma dimensão social da doença mental” (Bastide, 1968: 28).

Pierre Janet acrescenta a complexidade crescente da vida social. “Enquanto a sociedade não põe problemas difíceis, enquanto não exige acções demasiadamente custosas, os indivíduos dispostos às perturbações psíquicas podem chegar a adaptar-se e a levar uma existência normal; é o caso das comunidades homogéneas e tradicionais, como as comunidades rurais; mas com a concorrência, com a luta pela melhoria do seu nível económico de vida ou do seu estatuto social, a grande cidade, heterogénea e progressista, obriga-nos a desgastar rapidamente os nossos últimos recursos” (Bastide, 1968: 29).

A corrente marxista é, igualmente, importante para o estudo da Sociologia das doenças mentais. A presença do marxismo apresenta-se com duas tendências: “uma que parte dos conceitos de luta de classes e de alienação, e que vai esclarecer o papel patogénico das condições económicas da vida, outra, que é a da psiquiatria soviética ortodoxa, centrada no pavlovismo e na teoria dos reflexos condicionados” (idem). Assim, a corrente de Marx vem demonstrar que nenhum fenómeno, em qualquer domínio, pode ser afastado das condições ambientais do seu aparecimento. Essas condições são situações reais como as divisões e as contradições da sociedade.

Todas estas teorias enfrentam o problema quer de serem demasiado generalistas, quer de serem demasiado específicas. A sua especificidade põe “em evidência principalmente um aspecto, a desorganização, a anomia, a dificuldade de comunicação, os conflitos dos valores ou dos papéis”; a sua generalidade deve-se ao facto de “falar de factores sociais das perturbações mentais em geral não significa grande coisa” (Bastide, 1968: 43).

A Sociologia das doenças mentais não pode esquecer a importância do grupo familiar no seu estudo. A família pode ser vista como “uma instituição social organizada, controlada pelo Estado através do estado civil, ou pela Igreja que considera o laço conjugal como irredutível”, ou pode ser encarada como “um grupo social estruturante, segundo certas normas culturais, um conjunto de relações interindividuais entre marido e mulher, entre os pais e os filhos, entre os irmãos e as irmãs, eventualmente, entre os avós, os pais e os netos” (Bastide, 1968: 183). Assim, a família pode ter uma face institucional ou relacional.

Para finalizar este ponto sobre a importância das Ciências Sociais, nomeadamente a Sociologia, no estudo das doenças mentais resta perspectivar qual o lugar que estas doenças ocupam na sociedade. Em primeiro lugar, os diversos estudos históricos sobre as concepções que ao longo dos tempos se têm feito sobre a doença mental permitem perceber que “o doente mental continua a ser encarado com medo ou desgosto, como um ser perigoso ou mentiroso, como um ser à parte. A loucura, como o cancro, ainda é para o povo uma «doença má», que se esconde” (Bastide, 1965: 223). Em segundo lugar, os estudos sobre as relações sociais entre o médico e o doente e sobre o hospital psiquiátrico enquanto instituição ou conjunto de inter-relações, permitem visualizar que no meio hospitalar se forma uma sociedade artificial de comportamentos e atitudes impostos. “O doente já não tem relações familiares, e mesmo a vida sexual é-lhe teoricamente interdita; já não tem relações profissionais, e mesmo que esteja submetido a uma ergoterapia não recebe salário pelo seu trabalho. Mas, além disso, entra numa sociedade de novo fortemente hierarquizada, de mobilidade bloqueada, de comunicação imposta” (Bastide, 1968: 226). Em terceiro lugar, os estudos sobre a reinserção dos doentes estabilizados na sociedade reflectem que esta reinserção é mais a nível profissional do que familiar. No entanto, estes doentes necessitam do apoio e aceitação familiar para terem sucesso na reinserção. “O isolamento que, para certos psiquiatras, define o mundo do doente mental não é mais do que a tradição no plano morfológico, deste marginalismo dos valores repelidos e reprimidos pela sociedade global; numa organização que se desdobra no espaço, é a procura de nichos onde estes valores se podem esconder, vegetar, defender-se também, segregando uma carapaça, que finalmente reduz aquilo que se queria salvar ao seu mínimo existencial” (Bastide, 1968: 235).

Concluindo, o papel da Sociologia das doenças mentais consiste em relacionar os doentes e os que os tratam definindo os critérios da loucura e da cultura.





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