Do Estigma à Humanização: práticas, dinâmicas e vivências No caminho da reinserção social



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8.3. A Equipa Multidisciplinar

A reunião do serviço, reunião de equipa, realiza-se uma vez por semana, à sexta-feira. Na reunião estão presentes o director do serviço (médico), todos os médicos e internos, dois representantes da equipa de enfermagem, as duas psicólogas e as duas assistentes sociais afectos ao serviço. A reunião começa às 11 horas, com alguma tolerância de atrasos, mesmo que não estejam todos os técnicos presentes. A reunião decorre numa sala ampla com uma mesa redonda (esta é a sala onde se realizam a maioria das actividades terapêuticas), todos os técnicos estão frente-a-frente. São apresentados todos os casos pelo médico assistente da utente. Todos os técnicos envolvidos no tratamento dessa utente complementam a informação e partilham conhecimentos sobre o caso. Esta reunião é o palco principal das interacções entre os técnicos, é o momento privilegiado para a troca de ideias em relação à doente.

Durante a reunião observa-se a existência de uma hierarquia, o que não acontece no quotidiano do serviço. O director faz a primeira intervenção enunciando o nome da doente cuja situação vai ser discutida e o respectivo médico assistente; o médico expõe e só depois os outros técnicos têm a palavra. Esta reunião necessita ser presidida para que haja um fio condutor e não se disperse, no entanto, parece-me que esta seria mais eficaz e os técnicos retirariam mais proveito se não fosse tão formalizada, se se dedicasse mais tempo à discussão dos casos. Na minha opinião, nem sempre as situações são muito aprofundadas, poderiam ser definidas mais estratégias no conjunto da equipa do serviço. “Na área da saúde, a dominância dos médicos é uma característica necessária do profissional: poder e superioridade do médico em relação a outras profissões. Podemos definir dominação médica como um conjunto de estratégias que exigem controlo sobre a situação de trabalho, as características institucionais dos profissionais médicos mais ampla autonomia dentro da divisão do trabalho e, finalmente, ocupacionais relacionadas com a soberania sobre grupos profissionais. Essa dominância médica envolve mais de uma localização privilegiada no seio da classe geral, na estrutura da sociedade” (Turner, 1995).

Roger Bastide (1968: 13) afirma que “o psiquiatra só se interessa pelos indivíduos, e por consequência o seu método é mais o método clínico ou histórico de casos; para ele trata-se de pesar acção respectiva dos diversos factores sociais na etiologia das perturbações de tal ou tal paciente”. Na minha observação eu não constatei este facto. No hospital psiquiátrico o médico interessa-se, em primeiro plano, pela situação clínica do utente, mas, após a sua compensação, preocupa-se com toda a situação em torno do doente. “O conhecimento especializado dos profissionais cria a base para o prestígio e a distância social entre o especialista e o cliente, uma vez que o cliente, por definição, está excluído do conhecimento esotérico da associação profissional. A base do conhecimento profissional é a racionalidade cognitiva pela qual o estatuto privilegiado da profissão é baseado numa disciplina científica. A profissão tem que ter uma base hermenêutica, isto é, tem que haver desenvolvimento da interpretação, que prevê a barreira contra a rotinização externa através da regularização da sua base de conhecimento” (Turner, 1995).

Ao contrário do que acontece num Hospital Geral, em que “os enfermeiros sofrem, em particular, os dilemas de profissionalismo versus burocracia, uma vez que no contexto hospitalar, muitas vezes, é difícil para eles exercerem iniciativa e autonomia. O enfermeiro ocupa uma posição subordinada dentro do hospital e com pouco prestígio” (Turner: 1995); neste serviço (clínica feminina), a equipa de enfermagem é bastante autónoma e com iniciativa no seu trabalho. É a enfermagem que está 24 horas com as utentes, é da enfermagem que partem as actividades, é a enfermagem que avalia evolução da doente. A equipa de enfermagem ocupa uma posição mais central, é esta equipa que realmente melhor conhece a evolução da doente.

Como eu já disse, nós temos uma intervenção que é interdependente, temos uma área que é interdependente e nessa não temos independência. Tem um prescritor que é o médico e nós executamos, é um procedimento técnico. Temos outras que da área da autonomia da enfermagem. E as que são da autonomia da enfermagem são as que se inscrevem nas intervenções em que nós avaliamos, prescrevemos, desenvolvemos e voltamos a avaliar. Portanto, é neste sentido…desde que uma intervenção seja prescrita por nós, isto é, seja identificado o problema, seja prescrito por nós qualquer intervenção…e depois vamos avaliar o resultado final…isso inscreve-se nas intervenções autónomas da enfermagem. Obviamente que há delas que são da competência exclusiva dos médicos, sobretudo a prescrição farmacológica…e algumas outras prescrições, indicações terapêuticas…mas de resto, a maiorias das que aqui se desenvolvem…algumas são interdependentes mas muitas delas são independentes. Temos autonomia que está determinada no nosso código” (Ent. nº 6, lin. 171-183).

O excerto supracitado visa mostrar que, ao contrário do que acontece no Hospital Geral, como Graça Carapinheiro (1993) constatou no seu estudo: “neste serviço [medicina interna] o trabalho de elaboração de diagnóstico depende ainda fundamentalmente de raciocínios médicos, particulares e individualizados (…) dada a autonomia e o poder que os médicos desfrutam no hospital, as suas estratégias limitam inexoravelmente as capacidades estratégicas dos restantes profissionais e as possibilidades estratégicas dos doentes”; no serviço de psiquiatria geral, clínica feminina de agudos, este tipo de trabalho hierarquizado não existe. Há uma interacção de saberes, cada profissional aborda o caso da doente de acordo com o seu saber. É esta troca, esta partilha de informações que permite uma humanização no tratamento da doente, esta é encarada como um todo e não apenas na sua componente biológica. Pode observar-se uma perda de hegemonia do poder, do saber médico face a outros grupos profissionais que progressivamente se integram no sistema de assistência psiquiátrica.

O hospital psiquiátrico não é um hospital como os outros. Existe uma maior proximidade técnico-utente, os doentes são acompanhados desde o primeiro momento e mesmo após a alta. O doente sabe que quando sai do hospital o apoio permanece, pode telefonar aos técnicos, pode aparecer no hospital para falar. É visível uma humanização permanente, uma preocupação com a situação do utente.






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