Do Estigma à Humanização: práticas, dinâmicas e vivências No caminho da reinserção social



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8.2. Quotidiano do internamento

Durante o internamento há regras a serem cumpridas por todas as doentes. O horário das refeições é fixo e quando as doentes são chamadas devem dirigir-se ao refeitório. Entre as 9h e as 9h30 é servido o pequeno-almoço, às 13h o almoço, às 16h o lanche, às 19h o jantar e às 21h a ceia. No final desta última refeição do dia as doentes estão livres para fazerem o que entenderem (ver televisão, ler, conversar, etc.), entre as 22h e as 22h30 recolhem ao leito.

Quando chegam ao internamento são-lhes retirados os objectos cortantes, os perfurantes e mais alguns que eventualmente possam constituir perigo, como fármacos que tragam do domicílio. São orientadas a entregar os vernizes e os produtos voláteis, que eventualmente tragam, de resto, podem ficar com o que trazem. Os objectos de valor devem entregar à família, caso não o queiram, entregam à enfermagem e são colocados no cofre. Se a doente estiver em condições de decidir, pode optar ficar com esses objectos sabendo os riscos que corre, nomeadamente, roubos. Relativamente ao telemóvel, por enquanto as doentes são induzidas a entregá-lo, não é retirado. Elas aderem quase sempre voluntariamente, outras vezes tentam enganar a enfermagem. Não devem ficar com o telemóvel devido a más experiências anteriores. Muitas vezes havia telemóveis a tocar às três e quatro horas da madrugada, o que não é benéfico nem para a doente, nem para quem está no serviço. Por outro lado, estas doentes estão internadas para um período de maior tranquilidade, pelo que, por vezes o exterior tem de chegar de uma forma mais filtrada. Evita-se que relações mais complicadas do seu meio passem para o internamento. Procura-se fazer uma filtragem do exterior negativo para o internamento. Família e outras pessoas que não perturbem a doente, são estimuladas a telefonar e a visitar. Têm uma hora longa de visita (entre as 10h e as 19h, respeitando o horário das refeições) e podem atender os telefones sempre que queiram. Portanto, não há uma rotura.

Relativamente ao dinheiro, deve ser a doente a ficar com ele e a geri-lo. Quando uma doente traz muito dinheiro, muitas vezes pela sua psicopatologia, não o quer entregar à família. A enfermagem guarda-o no cofre, mas não o gere. O dinheiro é entregue à doente no momento da alta ou quando estiver mais estabilizada, decide o que quer fazer.

Por norma, as doentes durante o internamento vestem-se e tratam da sua própria roupa. Só quando estão mais perturbadas do ponto de vista mental, e não são capazes de gerir a sua roupa individual, podendo mesmo perdê-la, é que são vestidas com roupas do serviço. Alguns casos de excepção são aquelas doentes, que pela sua concepção de doença, andam sempre de pijama no internamento. Estas doentes entendem o internamento psiquiátrico com um internamento num hospital geral, no qual os utentes devem permanecer de pijama ou mesmo com as roupas do hospital. Num internamento psiquiátrico não é relevante as roupas que os utentes vestem, pelo que essa situação fica ao critério de cada um.

Os quartos estão fechados durante o dia mas apenas por um período de tempo. As janelas estão abertas para arejar os quartos, de maneira que as portas têm de ser fechadas para que não haja risco de fuga. Isto acontece por um curto período de tempo, entre as 9 e as 11 horas. Não é benéfico as doentes dormirem durante o dia, e tenta-se sensibilizá-las para essa questão. Então, muitas vezes, deliberadamente as portas dos quartos estão mais tempo fechadas.

A clínica é composta por 34 camas, mais 5 que pertencem à UCIT (Unidade de Curto Internamento e Triagem). Duas das enfermarias são denominadas SO1 e SO2 que são, na verdade, quartos de isolamento. Destinam-se a doentes muito descompensadas, que coloquem em risco a própria vida e/ou a de terceiros. É um quarto pequeno, com apenas uma janela e uma cama. Tem ar condicionado. As paredes não têm esquinas e estão isoladas com um material almofadado. Nalgumas situações mais graves é retirada a cama, ficando apenas o colchão. Todas estas características visam a prevenção de um acidente. A doente regressa ao internamento normal quando já não representar perigo.

Anexa ao refeitório está uma sala de convívio muito pequena e desconfortável, composta por alguns sofás, cadeiras e uma televisão. As paredes estão decoradas com cartolinas de trabalhos realizados (por exemplo, ditados populares), provavelmente, por outras doentes. Esta sala está quase sempre vazia, sendo as doentes mais dependentes as principais frequentadoras. As doentes mais autónomas não gostam de estar muito tempo junto das outras, optando por ficar ao ar livre ou nos corredores. Em dias de sol, a opção de estar fora do pavilhão é privilegiada pela maioria.

A higiene pessoal é feita pelas próprias doentes quando capazes, ou com o auxílio de uma auxiliar, se necessário. Está sempre presente um elemento da enfermagem que supervisiona e auxilia todo este processo.

O refeitório funciona num regime de cantina. As doentes fazem uma fila, pegam num tabuleiro e dirigem-se à copa onde recebem a refeição. Podem escolher o lugar onde se vão sentar, porém, os espaços mais próximos da saída são privilegiados para as doentes com mais dificuldades motoras. Tal como acontece com a higiene pessoal, a refeição é acompanhada de perto pela equipa de enfermagem e pelas auxiliares. É nestas horas que é administrada a medicação. Preferencialmente seria na sala da medicação, no entanto, como são muitas doentes não seria prático esse método. A medicação vem da Farmácia do hospital, já preparada para cada doente e de acordo com a prescrição clínica, para 24 horas. A medicação SOS é aquela que é administrada só se necessário. Esta figura do SOS existe em todos os planos terapêuticos, e é da gestão autónoma do enfermeiro. Isto é, o enfermeiro avalia se é necessário administrar, administra e depois avalia o efeito. É mesmo administrada só em SOS, se há alguma situação que de todo exija uma intervenção mais incisiva do ponto de vista farmacológico, por exemplo, se a doente não conseguir dormir durante a noite.

As saídas para o exterior (consultas, urgências, etc.) são realizadas com o acompanhamento de uma auxiliar e um elemento da enfermagem (poderá ir outro técnico, se necessário).

Todas as doentes podem sair do pavilhão e passear dentro do recinto do Hospital, excepto aquelas que estão com internamento compulsivo, ou que tenham indicações terapêuticas para que não (alguns comportamentos desadequados lá fora, ideações suicidas ainda presentes e marcadas). O bar é longe, fica fora da capacidade de controlo quer da equipa de enfermagem, quer das auxiliares. Assim, aquelas que têm permissão para sair são estimuladas a ir em grupo. Não existe restrição quanto às saídas, no entanto é consensual irem depois do pequeno-almoço, bebem café e fazem uma caminhada; depois do almoço e, por vezes, à tarde. Neste último período, por norma, vão com as visitas.

Embora esteja regulamentado um horário de visitas específico para os hospitais (15h-20h), a clínica feminina permite as visitas das 10h às 19h, sendo sempre respeitada a hora da refeição. Os telefonemas são permitidos entre as 10h e as 21h. A comunicação da doente com o exterior é sempre facilitada, salvo restrição médica.

Durante a semana há actividades terapêuticas fixas e autónomas da enfermagem. Não existe nenhuma intervenção terapêutica multidisciplinar.

Quadro III - Actividades Terapêuticas





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