Do Estigma à Humanização: práticas, dinâmicas e vivências No caminho da reinserção social



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7.2. A Família

“O primeiro desafio para a família e os amigos é mudar a forma de encarar aqueles comportamentos que podem ser sintomas de doença – comportamentos como não querer sair da cama, estar irascível e irritadiço, «acelerado» e irreflectido, demasiado crítico e pessimista” (Mondimore, 2003: 284).

A família exerce para com o doente mental um papel primordial, tanto ao nível de aproximação como de afastamento. O meio familiar é o porto seguro que o indivíduo necessita para se manter equilibrado. “Se o sistema familiar funcionar de forma conturbada, com conflitos e indefinições de papéis e de regras, os seus elementos e, sobretudo, o paciente designado, ou doente, quando existe, ressentir-se-á muito fortemente, nomeadamente, com sinais de hostilidade e desinteresse, reacções impulsivas, inesperadas, infantis, ou outras quaisquer formas que adopta para, ilusoriamente, atenuar a insegurança que vive e, de algum modo, controlar as referências ao seu próprio contexto” (Cordo, 1992: 49).

A família deve perceber que tem um papel fundamental para o tratamento e reinserção do doente, deste modo deve cooperar e ser activa neste processo. Muitas vezes as famílias oscilam entre se sentirem responsáveis pela doença e atribuírem-na ao próprio doente ou a causas externas.

A doença mental tem características muito próprias, que acabam por desgastar e sobrecarregar aqueles que acompanham estes doentes. O impacto da doença é visível não só no próprio doente como na família, nas pessoas de referência, com quem mantêm laços, no meio envolvente. O sofrimento e desgaste, sobretudo ao nível das famílias, acontece porque toda a dinâmica familiar fica perturbada, todos os membros da família são afectados pela doença.

Neste momento, podemos dizer que a família está mais desperta para. Antigamente, e também porque as políticas mudaram…antigamente a pessoa era internada e ficava. A família ia visitar e demitia-se do dever que tinha para com o outro. Neste momento a família não se demite tanto. Aquilo que acontece muitas vezes é que há um estado de saturação, quando a doença é uma doença crónica, com dificuldades de se adaptar e até de se restabelecer após a situação de agudização da doença. A família aí fica um pouco cansada…fica cansada e necessitam de um certo alívio. Essas famílias não são tão apoiantes, porque já estão muito saturadas. Mas podemos dizer, e uma vez que estamos hoje aqui na consulta de gerontopsiquiatria, posso-lhe dizer que aqui é raro o doente que venha sozinho. Vem quase sempre, habitualmente, ou com alguém de família ou com uma pessoa significativa” (Ent. nº 7, lin.95-105).

A família pode ter duas características: protectora ou ausente em relação ao utente. A família protectora mantém os laços afectivos fortes; isola o doente, limitando a sua interacção com as redes. Este tipo de família procura um contacto frequente com os técnicos e serviços, contudo, nem sempre cumpre as orientações técnicas, gerindo a terapêutica de acordo com as suas convicções. Ao querer proteger o doente de tudo, esta família protectora dificulta o seu tratamento. A família ausente caracteriza-se por manter laços afectivos muito fracos. Tende a desresponsabilizar-se do apoio ao doente, chegando mesmo a afastar-se deste. Os contactos com os serviços são escassos e não colabora na orientação terapêutica do doente. Esta desvinculação das famílias acontece devido à grande sobrecarga que o apoio ao doente exige. Não existem respostas que aliviem as famílias no apoio ao doente, originando, muitas vezes, o afastamento destas e a fomentação do estigma, pois começam a olhar o doente como um estorvo.

A rede social de apoio, seja ela qual for, pode desempenhar um papel importante. Nunca se pode impor como tarefa tratar de um familiar com quem não se tem uma relação próxima. Ter uma pessoa doente é uma grande seca. Ninguém quer um familiar doente. Nem todos os doentes têm boa família. Temos de ter um trabalho de os cativar para os nossos objectivos terapêuticos. Foi por isso que inventaram o Serviço Social, é porque a família não chega” (Ent. nº 1, lin. 66-72).

Por norma, a família é um núcleo pequeno, pelo que se encontra sobrecarregada, caracterizando-se as relações entre os seus membros pela assimetria e falta de reciprocidade. A pessoa doente recebe muito mais do que aquilo que pode dar, causando situações de stress, tensão e desgaste. A doença pode aglutinar todo o sistema familiar como grupo, fomentando o isolamento social e reduzindo todo o contacto com o exterior.

Quando o projecto da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados de Saúde Mental (RNCCISM) for implementado as famílias irão receber um apoio mais próximo para o seu doente. De acordo com a CNPRSSM (2007: 87) esta Rede Nacional de Cuidados Continuados visa, entre outros objectivos, a reabilitação, integração social, participação e autonomia das pessoas com perturbações mentais graves e ou incapacidade psicossocial, residentes na comunidade e sem suporte familiar e social adequado; a integração familiar, social e profissional; o apoio aos familiares ou cuidadores informais, quer na respectiva preparação e qualificação, quer na prestação dos cuidados; a melhoria contínua da qualidade na prestação de cuidados continuados de saúde mental e de apoio social.

A equipa multidisciplinar considera as famílias o principal suporte para os doentes psiquiátricos. Assim, as famílias devem estar dotadas com conhecimentos e informações sobre a doença e a terapêutica prescrita ao seu familiar, bem como devem possuir uma orientação sobre as estratégias adequadas aos cuidados diários a executar e a exercer nos momentos de crise.

A informação, a orientação e o suporte dado às famílias constitui parte integrante do processo de reintegração social dos doentes psiquiátricos. A participação das famílias constitui uma dimensão importante no tratamento dos doentes, contribui para uma maior adesão ao tratamento tendo impacto positivo nos Serviços de Saúde Mental.





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