Do Estigma à Humanização: práticas, dinâmicas e vivências No caminho da reinserção social


Capítulo VII – Doença Mental: Exclusão e Reinserção Social



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Capítulo VII – Doença Mental: Exclusão e Reinserção Social


  1. Da Exclusão ao Estigma Social

Deficiente mental será pois o que tem uma falha na ferramenta mental de que dispõe ou na capacidade prática de a utilizar. (…) O deficiente mental existe, mas existe também – não o esqueçamos – a nossa deficiência (dos que julgam ser suficientes) em compreendê-lo” (Matos, 1980: 90).

A expressão exclusão social está hoje muito generalizada e difundida, porém, poucos sabem claramente o que significa. Robert Castel (apud Costa, 1998: 9) “define «exclusão social» como a fase extrema do processo de «marginalização», entendido este como um percurso «descendente», ao longo do qual se verificam sucessivas rupturas na relação do indivíduo com a sociedade. Um ponto relevante desse percurso corresponde à ruptura em relação ao mercado de trabalho, a qual se traduz em desemprego (sobretudo desemprego prolongado) ou mesmo um «desligamento» irreversível face a esse mercado. A fase extrema – a de «exclusão social» - é caracterizada não só pela ruptura com o mercado de trabalho, mas por rupturas familiares, afectivas e de amizade”. Assim, a exclusão social pode ser de tipo económico (pobreza, falta de recursos), de tipo social (ausência de laços sociais), de tipo cultural (factores de ordem cultural, como o racismo), de origem patológica (factores de natureza psicológica ou mental), e por comportamentos auto-destrutivos (como a toxicodependência e o alcoolismo) (idem: 21). Deste modo e de acordo com o glossário da Segurança Social5, exclusão social é um conceito que traduz uma situação oposta à de participação e que pode assumir diversas acepções conforme os contextos nacionais em que ela é usada. A exclusão surge com a agudização das desigualdades, resultando numa dialéctica de oposição entre aqueles que efectivamente mobilizam os seus recursos no sentido de uma participação social plena e aqueles que, por falta desses mesmos recursos, se encontram incapacitados para o fazer. A exclusão resulta, então, de uma desarticulação entre as diferentes partes da sociedade e os indivíduos. Coexistem, ao nível da exclusão, fenómenos sociais diferenciados, tais como o desemprego, a marginalidade, a discriminação, a pobreza, entre outros.

A exclusão social que se manifesta na pessoa que sofre de uma doença psiquiátrica acontece a todos os níveis, quer seja no seu meio social, na família ou no local de trabalho. A sua doença é vista como a justificação de todo e qualquer comportamento, perdem credibilidade e competências, pois a sociedade desvaloriza as suas capacidades. Os próximos dois excertos das entrevistas que realizei no período de estágio aos técnicos reflectem bem esta ideia.

A exclusão social do doente com patologia psiquiátrica manifesta-se no meio onde este se insere. A doença afecta o funcionamento do indivíduo e a ausência de tratamento atempado agrava e acentua a prevalência da sintomatologia. Tal situação é muitas vezes fundamentada pela dificuldade destes em aceder ao serviço de saúde especializado” (Entr. n.º 5, lin. 61-65).

Eu acho que se manifesta por um grande preconceito, dado ao medo, acho que não há nada que assuste mais o Homem saudável do que poder enlouquecer. Eu acho que existe muito esse medo, e esse medo leva a um certo afastamento da doença psiquiátrica. Esse afastamento, esse estigma, esse preconceito depois fecha muito as portas a doentes que…inclusivamente tivessem uma oportunidade, a não exclusão permitia a sua cura, não é?! Há situações que se tornam autênticas bolas de neve, em que um determinado diagnóstico, ou um determinado internamento, ou uma determinada situação impede que haja uma aceitação. A exclusão social é muitas vezes parte do problema dos nossos doentes, que não conseguem integração e mais facilmente vão ter uma recaída ou não vão suportar. Às vezes uma coisa tão simples como conseguir um emprego pode dar a âncora para que recupere definitivamente” (Ent. n.º 3, lin. 263-273).

Na minha opinião não devemos falar de exclusão social, mas sim de estigma. Estas pessoas vivem uma discriminação por algo que as categoriza e que de algum modo as diferencia daquelas ditas normais, são rotuladas.

Foi com os gregos que nasceu o termo estigma, criaram esta palavra para “se referirem a sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma coisa de extraordinário ou mau sobre o status moral de quem os apresentava (…), actualmente, o termo é amplamente usado de maneira um tanto semelhante ao sentido literal original, porém é mais aplicado à própria desgraça do que à sua evidência corporal.” (Goffman, 1988: 11). Quando falamos em estigma, referimo-nos a um atributo verdadeiramente depreciativo. “Um atributo que estigmatiza alguém pode confirmar a normalidade de outrem, portanto ele não é, em si mesmo, nem honroso nem desonroso” (idem: 13).

Os indivíduos portadores de doença psiquiátrica confrontam-se no seu dia-a-dia com os medos e os preconceitos dos outros. As pessoas ditas normais têm medo pois acreditam que estes doentes sejam perigosos. O estigma é o maior obstáculo à recuperação, pois a doença pode ser tratada, no entanto a discriminação continua.

“O estigma para as pessoas que sofrem de doenças psíquicas começa na própria rotulação, com a denotação vaga de «doença mental» a conotar a pessoa como menos válida, incapaz, imprevisível, incurável, má, etc. (…) A questão do estigma tem grande relevância para a saúde pública, para a saúde das pessoas que sofrem de doenças psiquiátricas, para a saúde mental e para a saúde moral. Por isso, a OMS e a Associação psiquiátrica Mundial inscrevem o combate ao estigma como uma importante tarefa no sentido de igualizar as pessoas com doenças mentais às pessoas que sofrem de outras doenças. Para a redução do estigma, apontam-se algumas linhas de orientação que se inscrevem numa melhoria dos cuidados de saúde, desde a prevenção primária até à reabilitação” (Jara, 2006: 21).

E depois à questão do tabaco e de outras medidas que, não sendo estigmatizantes per si, acabam por ter uma leitura diferenciadora que não sei se é positiva. Todos os doentes internados não devem fumar, não fumam mas os de psiquiatria, os doentes do foro mental, desde que tenham um local para fumar, eles podem fumar. Acho que de alguma forma isto diz que eles são diferentes, e não são, são pessoas que têm características obviamente diferentes, têm até necessidades diferentes, mas isso até um outro doente num outro hospital tem. Não tem forçosamente que ser a pessoa com patologia mental” (Ent. n.º 6, lin. 85-92).

A pessoa que sofre de doença mental é uma pessoa comum.




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