Do Estigma à Humanização: práticas, dinâmicas e vivências No caminho da reinserção social



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Actividades

A sala de convívio tem um aspecto confortável, com sofás, cadeiras, mesas, televisão e rádio. Não tem apresentação de hospital, mas sim de uma pequena residência. Anexa a esta sala, está uma sala de actividades. Todos os dias, de manhã durante meia hora, uma hora (e às vezes, também à tarde), realizam algumas actividades terapêuticas. A enfermagem tem um plano que normalmente segue. Essas actividades englobam ‘jogos de recordar e aprender’, o ‘movimento e saúde’, realizam passeios pelo hospital, jogos à bola, dançar, jogos que impliquem actividade física. Jogos terapêuticos, como o dominó ou desenhos. Realizam trabalhos de acordo com a época do ano ou festividade. Temáticas para se manterem ocupadas, actividades que ajudem a manter as capacidades cognitivas activas. São pequenos trabalhos simples como relacionar roupas com a época do ano, o dia da família, o dia do vizinho. Aproveita-se o tema para desenvolver actividades. A maioria dos trabalhos é feito em cartolinas e todos são expostos. Todo o rés-do-chão do pavilhão está decorado com os trabalhos das doentes. Todas as sextas-feiras fazem uma actividade de culinária. Umas partem os ovos, outras batem, outras colocam o produto em formas. Elaboram refeições simples como gelatinas e pudins. No final todas apreciam o resultado e comem ao lanche. É uma actividade que é realizada em grupos pequenos.

Relativamente às actividades exteriores, a enfermagem vai dialogando com elas o que gostariam de fazer. Este ano já visitaram, em Fevereiro, o Museu do Brinquedo, em Sintra; em Abril, a Feira de Março, em Aveiro; em Maio, o Museu do Pão, em Seia. Não são actividades mensais, pois exigem muita logística e recursos financeiros e humanos. Curiosamente, são as doentes mais dependentes que mais se interessam em ir. Nunca vão todas, mas procura-se que todas vão saindo. É um convívio bom, passam um dia diferente, criam uma relação com os espaços exteriores. Almoçam aquilo que mais desejarem, normalmente refeições que no hospital não fazem, como batatas fritas e ovos estrelados.

Uma vez por ano, vão passar uma semana de férias na Tocha. É uma actividade que depende muito do hospital e dos técnicos. É uma semana diferente, com muitas actividades, com bailes, etc. Vão todos os doentes residentes do hospital. Todas gostam muito de ir de férias.

É preciso incentivá-las, porque nem sempre aquelas que têm mais capacidades são as que mais colaboram. Algumas adoram realizar as actividades, sobretudo se for com pessoas novas que apareçam no serviço, como os estagiários de enfermagem. Os trabalhos são imensos: reciclagem, dia do coração, dia dos namorados, as profissões. No carnaval participam sempre com um tema. Este ano vestiram-se de estudantes cartoladas. Foram elas que ganharam o primeiro lugar do cortejo de carnaval. Precisam de ser incentivadas e estimuladas a participar, mas no final gostam muito. Evita-se que passem o dia a dormir.

Por vezes passam um dia fora do hospital para irem às compras. O dinheiro é gerido pela enfermagem. Por norma, compram o que querem, porém, às vezes é necessário a enfermagem orientá-las e direccioná-las em relação ao que estão a comprar.

Uma pequena minoria frequenta a Terapia Ocupacional, fazendo muitos objectos em barro, por exemplo. São aquelas que ainda têm alguma autonomia e procuram manter-se activas durante o dia.

Uma das doentes residentes tem um namorado também residente no hospital. Os dois fazem vida de namorados, passeiam juntos, vão às compras. As refeições, cada um faz no seu pavilhão, mas passam o dia um com o outro. Este caso, reflecte a importância que o hospital tem na vida destas doentes. Foram ficando, algumas sem qualquer referência na comunidade. Adaptaram ao máximo a sua vida ao hospital, hoje reconhecem-no como a sua casa.

Estas utentes gostam de receber visitas, a minha presença suscitou alguma alegria. Algumas das doentes mais apelativas fizeram questão que eu visse trabalhos realizados por elas e algumas fotografias expostas nas paredes, como recordação das suas actividades ao ar livre.

É interessante observarmos estas mulheres. Adaptaram-se ao contexto do hospital, vivem como se estivessem em casa, têm uma rotina diária, com higiene e actividades, tratam das suas roupas, têm os seus quartos de acordo com aquilo que gostam. Dão os seus passeios quando querem, saem para irem às compras, nesse dia almoçam e lancham fora do hospital. De acordo com os profissionais que trabalham com estas doentes e pelo que pude observar, estas doentes residentes vivem felizes, a sua doença é apenas uma pequena parte do seu ser. Tiveram a infelicidade de serem internadas numa altura em que a sociedade vivia à margem da doença mental. Hoje, a sociedade evoluiu, já reconhece a doença mental, no entanto o estigma permanece e, ainda não existem estruturas que acolham estas doentes. Residem no hospital, pois foi aí que aprenderam a viver, é aí que se sentem protegidas. Não é fácil desinstitucionalizar estas mulheres, já têm este modo de vida muito vincado. A sociedade terá de estar bem preparada para as receber sem que se sintam ameaçadas. Ainda faltam respostas, aquelas que são menos dependentes poderiam perfeitamente receber apoio de um Centro de Dia, por exemplo.





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