Do Estigma à Humanização: práticas, dinâmicas e vivências No caminho da reinserção social


Características da População Residente Feminina



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Características da População Residente Feminina

São pessoas maioritariamente idosas, a mais nova tem perto de 60 anos e a mais velha está quase com 90 anos, nasceu em 1920. Contudo, algumas estão muito bem conservadas para a idade que têm. Umas viveram toda a vida no hospital, outras tinham uma vida mais ou menos estruturada, casaram e tiveram filhos. Acabaram por ficar no hospital, pois a sua patologia agravou-se de tal forma que não era possível permanecerem em casa. A residente mais antiga está no hospital desde 1952, há 57 anos. Nessa altura as famílias não tinham capacidades nem físicas nem psíquicas para cuidarem dos seus familiares doentes. A doença não se controlava com a medicação. Muitas ficam agressivas quando descompensam.

A última doente a entrar foi em 1984, há 25 anos. A grande maioria destas doentes entrou na década de 50/60. Foi o resultado das políticas sociais da época, e da mentalidade da sociedade.

De uma forma geral, a sua escolaridade é baixa. Estão internadas há muitos anos, algumas desde crianças, não tiveram oportunidade de aprender a ler e a escrever.

A maior parte das famílias não visita estas doentes. Os contactos são muito irregulares. Algumas já não têm pais nem irmãos, há filhos que ainda vêm. Algumas famílias mantêm a ligação, mas muito pontualmente. Isto pode ter duas explicações: acomodaram-se a esta situação, não conseguem imaginar a sua familiar noutro contexto que não como residente no hospital; por outro lado, podem ter algum receio que lhes seja pedido que levem a sua familiar para casa, e não querem assumir essa responsabilidade. Nalguns casos, só telefonam esporadicamente, não há recordação de visitas. Numa ou noutra situação em que os contactos se vão mantendo, nas épocas festivas, como o Natal e a Páscoa, estas doentes vão a casa de familiares ou de pessoas significativas passar uns dias.

A equipa não insiste com as famílias para manterem o contacto, procura não pressionar o relacionamento para que o pouco que há não se perca.

Relativamente aos diagnósticos médicos psiquiátricos, pode-se constatar (no quadro da sala de enfermagem) que predominam a esquizofrenia, a oligofrenia e as psicoses. Sendo que, em alguns casos, foi-lhes atribuído mais do que um diagnóstico concomitantemente. Às doenças psiquiátricas juntam-se, igualmente, patologias orgânicas próprias da idade, como doenças cardiovasculares e doenças de pele.




    1. Rotinas

De manhã, por volta das 8h30 a equipa de enfermagem faz a passagem de turno, até cerca das 9 horas. Começa, então, a rotina de higiene.

Depois dirigem-se ao refeitório para tomarem o pequeno-almoço, até cerca das 10h30. Duas doentes mais autónomas são responsáveis pelas actividades domésticas, como lavar a loiça e arrumar a cozinha, põem a mesa. Há outra doente que é responsável pela roupa, passa a ferro e arruma.

No refeitório cada uma tem o seu lugar, as cadeiras têm cartolinas com os nomes e desenhos criadas por elas. Todas se sentam à mesa para a refeição. É um incentivo à realização das actividades.

Existem duas cadeiras próprias para o banho. Todos os dias, todas as doentes tomam banho de chuveiro.

O quarto de banho é grande, com duas divisões individuais e apropriadas. O local para os banhos não é o mais confortável, mas sem dúvida está adaptado às necessidades destas doentes. É largo e amplo, permitindo que a cadeira de rodas ali permaneça, bem como mais do que uma pessoa para auxiliar o banho. Como são muitas doentes e, praticamente todas precisam de ajuda, os banhos estão escalados para várias horas: de manhã, à tarde e à noite. Tenta-se manter ao máximo as suas capacidades, manter um mínimo de autonomia das doentes, ajuda-se no banho, mas, depois, orientam-se sozinhas para se vestirem.

A hora do almoço é entre as 12h30 e as 13h30. São sentadas de forma estratégica, de acordo com o seu grau de dependência e o tipo de patologia, por exemplo, algumas gostam de comer a comida das outras, portanto tem de se ter atenção a quem se senta ao seu lado. É um espaço grande e agradável. É nesta hora que a enfermagem vai distribuir pelos pratos a medicação. Algumas doentes têm diabetes, ou hipertensão, doenças próprias da idade, como já referi, então, está afixada no refeitório a dieta de cada uma. Após o almoço, muitas das doentes vão descansar um pouco.

Por volta das 16h, a enfermagem troca o turno. Seguindo-se o lanche. As doentes que estão destinadas ao banho na parte da tarde, fazem-no antes do jantar que é às 19h. Por volta das 21h as doentes vão dormir.

As doentes não estão em quartos individuais, estes têm de duas a quatro camas. As residentes mais dependentes ficam nos quartos do rés-do-chão, as com alguma autonomia ficam no primeiro andar. No entanto, devido à avançada idade, cada vez mais vão passando para o andar de baixo. Isto está a limitar muito o espaço físico.

Os quartos estão decorados de acordo com as preferências de cada uma, como se estivessem em casa. Umas gostam muito de peluches, têm vários em cima da cama; outras, mais religiosas, têm várias imagens e santos; outras gostam de brinquedos, tendo prateleiras arrumadas onde os guardam.

Aquelas que necessitam de cadeira de rodas, não podem ter muitos bens nos quartos, pois dificultam a sua mobilidade.

Junto à sala de enfermagem está a sala da medicação, onde está separada a terapêutica diária de todas as doentes. Está neste local todo o material que é necessário ao nível da enfermagem, como pensos e desinfectantes.





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