Do Estigma à Humanização: práticas, dinâmicas e vivências No caminho da reinserção social



Baixar 418,6 Kb.
Página14/35
Encontro06.04.2018
Tamanho418,6 Kb.
1   ...   10   11   12   13   14   15   16   17   ...   35
5.1. Hospital de Dia

O Hospital de Dia situa-se no Pavilhão 6 e foi criado em 1998, para dar resposta a situações que não têm um tratamento efectivo em regime de consulta e que, também, o tratamento no internamento não foi por si só eficaz. São situações difíceis, algumas crónicas, com problemáticas ao nível do tratamento, e/ou com dificuldades ao nível de adaptação social e familiar. Muitos doentes não melhoram com os tratamentos clássicos e, então, precisam de um tratamento mais prolongado, e/ou necessitam de psicoterapias especificas, como o psicodrama e a terapia familiar. Podem ser individuais ou em contexto de grupo, muitas são difíceis de levar a cabo num internamento completo. É uma intervenção mais qualitativa e mais prolongada, pode durar muitos meses. São actividades umas de âmbito informativo, outras de âmbito formativo, outras de significado terapêutico.

Destina-se a todos os utentes que necessitem de um tratamento mais prolongado e mais próximo, quer tenham uma patologia mais leve ou mais severa.

A maioria dos pacientes são encaminhados pela consulta, no entanto, durante o internamento, também, se pode preparar a alta do doente com vista a um seguimento no Hospital de Dia. Este procedimento não é aconselhável, pois o doente deve tentar primeiro retomar a sua vida, no seu meio. É preenchida uma ficha de encaminhamento pelo médico assistente, que fornece a informação clínica; e pela assistente social, que fornece a informação social e, em seguida, é realizada uma entrevista de avaliação feita pela equipa do Hospital de Dia (médico, enfermeiro, assistente social). Tem que haver algumas condições básicas: 1) os pacientes não podem estar a fazer consumos, isto é, não podem estar num plano terapêutico e continuar a consumir adições, seria um contra-senso; 2) outra condição é não residirem longe, pois morar longe pode constituir um grande encargo para o paciente e para a família dado que não recebem nenhum subsídio; 3) a idade não é uma contra-indicação, mas se for uma pessoa idosa poderá ter dificuldades de adaptação num grupo mais jovem. À quinta-feira o grupo confecciona o almoço e os técnicos (toda a equipa que está ao serviço) almoçam com os pacientes. A cozinha envia para o Hospital de Dia os alimentos para os utentes prepararem o almoço. É um reforço positivo ao seu desempenho. Dependendo da situação assim se traça o programa. As saídas para o exterior são comparticipadas pelo hospital.

A duração de um programa não é definida à partida. Não pode haver uma pressa excessiva em relação ao tratamento, pois são situações mais difíceis, nas quais o acompanhamento em consultas não foi suficiente, ou em que os fármacos por si só não resolvem o problema. O programa pode ser alterado consoante a evolução do paciente. O grupo tem um perfil heterogéneo, com homens, mulheres, pessoas empregadas, desempregadas, à procura de emprego.

O Hospital de Dia tem duas vantagens muito importantes, não quebrar a ligação com a família e, em muitos casos, não quebrar o ritmo e as obrigações laborais. São muito poucos os doentes que vão ao Hospital de Dia todos os dias. A maioria vai uma ou duas vezes por semana.

Cada utente tem um programa individualizado, num horário que vai das 9h às 16h30-17h. Este programa é elaborado depois de uma avaliação da equipa, e em conjunto com o utente. Este tempo está ocupado com actividades variadas, desde a marcha, que é uma actividade diária, até sessões de educação para a saúde, onde um técnico, que por norma é um enfermeiro, fala sobre um tema. Fazem-se reuniões de grupo, onde são analisadas histórias de vida, o paciente conta o seu percurso de vida. Tenta-se perceber o sentido individual do utente, que é algo que se perde no internamento completo. O doente não é visto apenas como tal, tem uma história de vida e características próprias, realça-se a sua individualidade. Este é um internamento parcial. O paciente está a meio caminho entre a consulta e o internamento propriamente dito.

Há também um grupo pós-alta, para acompanhamento e melhoria da transição, com um número variável de pessoas, cerca de quatro a seis pessoas. Já tiveram alta mas vêm frequentemente ao Hospital de Dia, por exemplo de quinze em quinze dias. Analisa-se a situação, o que se passa, como é que têm passado, as interacções, trabalho, as dificuldades, etc.

Realizam-se, ainda, reuniões com as famílias onde se procura que venha o maior número possível de familiares e que se destinam a informação e formação. São reuniões grupais, mais demoradas, onde as famílias colocam questões aos técnicos, há um debate. Fala-se sobre a doença, como agir em certas situações, como se explica certo comportamento, dão-se informações sobre o paciente, há uma interacção. Procura-se que as famílias participem mais. Existem sessões mais terapêuticas, mais pedagógicas que são, grosso modo, realizadas por médicos, nas quais se fala, por exemplo, dos fármacos e dos seus efeitos positivos e negativos ou em temas de psicopatologia, como o que é a depressão, como se manifesta, etc. e em que se usa uma linguagem simples e pedagógica. No final, há um debate onde os pacientes dão a sua opinião e colocam questões, há uma interacção.

Este tratamento é complementado com saídas e passeios, como por exemplo, às Caldas da Rainha, onde um grupo visitou uma fábrica; ou sessões que os pacientes organizam, fazem e apresentam algo sobre um tema, como o 25 de Abril, sobre a história de Coimbra, etc. Segue-se depois um debate. Não há uma avaliação propriamente dita, salienta-se o que está bem e o que pode ser melhorado. No Hospital de Dia realizam-se também sessões com o objectivo de moderar e controlar a ansiedade. Os pacientes lêem um texto escrito por eles, enquanto os outros estão a assistir, é filmada a sessão. No final, passa-se a gravação para o paciente ver o seu desempenho e faz-se um comentário entre todos. É um conjunto de actividades programadas que ocorrem de semana a semana. O relacionamento é outra questão importante. Procura-se que seja mais próximo, horizontal em relação aos técnicos, o que permite trocas, há uma maior proximidade. É outro contexto, por um lado mais fácil, mas por outro lado mais exigente, pois os pacientes colocam mais questões e solicitam mais os técnicos.

O Hospital de Dia tem uma vantagem relativamente ao tratamento em ambulatório (consulta externa), pois como os técnicos estão com mais frequência com os pacientes, isso resulta num benefício ao nível farmacológico, pois podem avaliar melhor os resultados e alterar as terapêuticas, podem monitorizar tudo mais facilmente. Habitualmente os pacientes aderem porque se sentem apoiados, fazem novos conhecimentos, há um maior contacto que é por eles avaliado como positivo e importante.

Todas as terças-feiras se faz uma reunião de equipa que dura toda a manhã. Discutem-se todas as situações, avaliam-se os casos, os tratamentos, as entradas, as saídas. Outra actividade é o relaxamento, que tem lugar uma vez por semana e de que os pacientes costumam gostar muito. À sexta-feira faz-se uma programação para o fim-de-semana, sendo que, depois, na sessão seguinte se faz uma avaliação de como correu.

O número máximo de pacientes aconselhável por dia é doze. Os pacientes devem aderir voluntariamente ao tratamento, e devem estar estabilizados. É um serviço mais próximo da comunidade, na medida em que o tratamento é feito em ambulatório. Os utentes mantêm a sua vida familiar e social, não existe um afastamento do seu meio. A questão da proximidade da comunidade pode ser discutível pois, como já referi, residir longe é um impedimento para realizar este tratamento. Como se trata de uma reabilitação, sobretudo, ao nível das competências sociais seria importante o investimento na descentralização deste serviço, uma vez que muitos dos utentes do CHPC estão impossibilitados de frequentar o Hospital de Dia pela distância geográfica.

A equipa é constituída por três médicos, três enfermeiras (diariamente estão duas) e alguns estagiários, uma assistente social, um psicólogo, que não está no serviço mas colabora e, duas auxiliares de acção médica. Há uma ligação ao Serviço de Reabilitação, devido a alguns programas em comum. A equipa divide-se pelas actividades.

Quando há uma melhoria significativa, quando já foram ultrapassados alguns condicionalismos de regresso pleno à vida diária, é dada a alta. O paciente acaba o tratamento mas o acompanhamento não. Ou seja, o médico assistente vai continuar a acompanhá-lo, ou, então, o utente junta-se ao grupo pós-alta. Não se perde a ligação com o Hospital. É uma segurança para os pacientes que, muitas vezes, telefonam só para conversarem um bocadinho, receberem algum apoio, criando assim vínculos com o serviço. Este é um tratamento mais activo, mais personalizado e mais individualizado, não sendo concentrado na doença e procurando valorizar outras situações.

No Quadro I está ilustrado o exemplo de um programa de intervenção terapêutica. Como já referi, os programas são individuais, pelo que o quadro seguinte representa apenas, o exemplo de uma possível semana no Hospital de Dia.


Quadro I – Programa de Intervenção Terapêutica







Compartilhe com seus amigos:
1   ...   10   11   12   13   14   15   16   17   ...   35


©psicod.org 2017
enviar mensagem

    Página principal