Do Estigma à Humanização: práticas, dinâmicas e vivências No caminho da reinserção social


Métodos e Técnicas de Recolha de Informação



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3.3. Métodos e Técnicas de Recolha de Informação

O meu estágio no CHPC consistiu numa investigação em trabalho de campo. Através de vários métodos e técnicas de recolha de informação procurei responder às questões colocadas no ponto 3.2. Privilegiei a metodologia qualitativa, ou seja, socorri-me, sobretudo, da observação participante3 e das entrevistas semi-estruturadas. É o método do estudo de caso, cuja experiência de campo envolve muita participação do investigador. “A investigação de terreno tem lugar em situações sociais nas quais o investigador participa. A tarefa do investigador é aqui observar e registar a vida das pessoas tal como ela ocorre” (Burgess, 2001: 57). Este procedimento permite elucidar o significado das situações, o modo como o mundo social é estruturado pelos sujeitos sociais, o modo como interpretam a sua experiência e constroem a realidade. Deste modo, decidi adoptar uma postura compreensiva e auto-reflexiva no manuseamento dos diferentes instrumentos metodológicos utilizados, procurei assumir uma perspectiva crítica. Apesar de fazer uso de uma variedade de técnicas de recolha de informação, pretendi na base de uma estratégia metodológica obedecer a um princípio comum: o de privilegiar uma orientação compreensiva e reflexiva.

Não é possível estudar todas as pessoas e todos os acontecimentos numa dada situação social. A amostra é construída para delimitar os contornos da pesquisa. Para o meu trabalho pareceu-me pertinente utilizar uma técnica de amostragem não probabilística: a amostragem intencional e casuística, uma vez que a minha abordagem vai ser amplamente qualitativa. “Na amostragem intencional os informantes podem ser seleccionados para o estudo de acordo com um certo número de critérios estabelecidos pelo investigador, tais como o seu estatuto (idade, sexo e ocupação) ou experiência prévia que lhes confere um nível especial de conhecimentos. (…) A amostragem casuística é usada para referir o processo pelo qual os investigadores de terreno encontram informantes que lhes proporcionem dados de campo. Neste caso o investigador selecciona os indivíduos com os quais é possível cooperar. Nestes termos a replicação é impossível porque o investigador selecciona indivíduos que estão disponíveis e desejam cooperar na investigação” (Burgess, 2001: 59).

O tempo de estágio foi curto (4 meses) para uma abordagem mais completa. Assim, o meu objectivo principal foi conhecer de uma forma mais detalhada tudo o que o CHPC pode oferecer. Os meus informantes privilegiados foram os técnicos de serviço social e os profissionais de enfermagem, no entanto, contei também com um apoio fundamental de médicos e psicólogos. Fiquei ligada à clínica feminina de psiquiatria geral (agudos), acompanhando todo o trabalho de uma técnica de serviço social responsável por este serviço. Deste modo, os acontecimentos e as pessoas com quem tive mais contacto e acompanhei a realidade quotidiana pertencem a este serviço. Não obstante, procurei dividir o tempo afim de poder conhecer e analisar aquilo a que se propunha o meu estágio.

No inicio deste percurso existiam dúvidas, por parte de todos aqueles que constituem o CHPC, relativamente ao meu papel neste terreno: se era visitante, se era estagiária de serviço social, enfim, a questão fundamental prendia-se com ‘o que faz uma socióloga no hospital?’. Existiam, algumas dúvidas sobre até onde me poderiam franquear o acesso. Com a rotina da minha presença no hospital, a desconfiança foi diminuindo, eu fui-me integrando nos vários grupos e começou a perceber-se melhor o meu papel. Numa terceira fase, a minha presença como socióloga a fazer um estágio para o Mestrado foi claramente aceite, tive a minha integração completa e aceitação pessoal.

Num primeiro momento do meu trabalho, a observação sistemática e participante, as entrevistas não estruturadas, as conversas informais e a análise documental foram os instrumentos privilegiados. Para estudar o mundo social abarcando todos os elementos subjectivos da vida social, o investigador deve ser um observador participante. “Na investigação que envolve o uso da observação participante é o investigador que é o principal instrumento da investigação social. Nesta base a observação participante facilita a colheita de dados sobre interacção social: na situação em que ocorrem e não em situações artificiais (como na investigação experimental) nem em situações artificialmente construídas que são criadas pelo investigador (como nas pesquisas através de inquérito). A vantagem de um observador participante reside na oportunidade de estar disponível para recolher dados ricos e pormenorizados, baseados na observação de contextos naturais. Além disso, o observador pode obter relatos de situações na própria linguagem dos participantes, o que lhe dá acesso aos conceitos que são usados na vida de todos os dias. O investigador pode, por conseguinte, fazer a avaliação de uma situação social na base de relatos que foi obtendo a partir de informantes” (Burgess, 2001: 86).

A observação participante foi o grande alicerce do meu trabalho, estando presente em todos os passos que dei no terreno. As conversas informais e as entrevistas não estruturadas foram outra fonte de informação elementar. As pessoas com quem fui falando não se sentiam confrontadas relativamente ao seu saber, deixando a conversa fluir, conseguindo transmitir as informações que eu queria recolher.

A análise documental foi uma base importante no início do meu trabalho. Fiz uma longa pesquisa sobre o enquadramento histórico do hospital, pois para perceber a reestruturação que agora está acontecer é primordial que se conheça toda a evolução, com as várias modificações, do hospital. Nesta análise documental dei, igualmente, particular importância ao aprofundamento do tema da saúde mental, não só a evolução da Lei, como também investiguei os vários conceitos relacionados com esta área, para que no meu dia-a-dia de trabalho esses termos não me fossem desconhecidos. Deste modo, os capítulos I e II deste trabalho foram sustentados por esta técnica metodológica.

Numa fase final do meu percurso, decidi registar informação mais estruturada. Realizei oito entrevistas semi-directivas à equipa multidisciplinar, ou seja, entrevistei dois médicos, duas enfermeiras, duas assistentes sociais e duas psicólogas. Todos aceitaram colaborar de bom grado. Todas as entrevistas são impessoais e anónimas, têm como objectivo comparar as concepções dos diferentes técnicos relativamente ao serviço e à área da saúde mental. Com este tipo de entrevistas pretendi suscitar a reflexão, para que as respostas ganhassem autenticidade e espontaneidade. Três das entrevistas não foram gravadas, todas foram realizadas sem a presença de terceiros, a sua transcrição está disponível no Anexo III.

Toda a II Parte deste relatório foi elaborada recorrendo a informações recolhidas através de entrevistas não estruturadas durante a pesquisa social. Foram conversas preciosas, baseadas no questionário dirigido, com informantes privilegiados nos respectivos serviços. O último ponto desta parte (capítulo VIII) teve como suporte os dados documentais disponíveis na Biblioteca do CHPC. A última parte o meu trabalho, descrição e avaliação das actividades de estágio, comporta todos os métodos e técnicas metodológicas atrás descritos.

Esta experiência foi muito rica tanto a nível pessoal, pois confrontei-me com uma realidade que desconhecia e que percebi que a sociedade em geral também ignora, daí o meu particular interesse em ‘abrir as portas’ do hospital psiquiátrico e mostrar a realidade como ela é; como a nível de trabalho, tive oportunidade de aplicar várias técnicas de investigação e enriquecer a minha prática. Cruzar estes dois aspectos foi fundamental para conseguir uma dimensão compreensiva e reflexiva nesta pesquisa.

II Parte


No Caminho da Humanização




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