Disfarces de amor



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Disfarces de Amor - Relacionamentos Amorosos e Vulnerabilidade Narcísica





Capítulo 1 – Os disfarces de amor

Um dia publicámos que se escrevessemos um livro sobre o amor, ele teria 100 páginas, 99 das quais em branco e na última apenas escreveríamos: a grande vantagem do Amor é que pouco se sabe falar sobre ele e, como tal, andamos sempre dele à procura! Este não é um livro sobre o amor, não tem 99 páginas em branco, é exactamente um livro sobre o que o amor não é, mas não deixa de ser uma procura dele. Resulta de um estudo realizado no âmbito de provas de Doutoramento em Psicologia Clínica, onde se procurou entender algumas modalidades de relacionamento amoroso que se estabelecem mais em função do próprio que do outro, enquandrando-se num tipo de relacionamento designado narcísico, que visa a exaltação do Self do próprio, com pouca consideração pelo outro, com grandes complicações no amor ao próprio e ao outro.

Sabemos que o amor é uma de entre várias emoções intensas mas a de mais difícil definição. Somos capazes de saber porque sentimos ódio, ciúmes ou inveja, mas incapazes de explicar porque sentimos amor por alguém. No entanto, esta deve ser a emoção mais transformadora do mundo interno, criando uma necessidade que se mantém ao longo da vida.

A procura de um objeto de amor parece ser uma característica da condição humana, sendo uma relação amorosa a que mais poderá contribuir para um desenvolvimento do indivíduo, uma vez que o amor fortalece o Self e este, fortalecido, é capaz de estabelecer e desenvolver relações verdadeiras e com profundidade. No entanto, muitas pessoas vivem constantemente numa indecisão sobre se mais valerá só que mal acompanhado ou mais vale mal acompanhado que só.

Assim, procuramos compreender como é que o amor se insere numa sociedade onde o mal-estar abunda, assistindo-se a uma procura incessante de excessivos estímulos externos que visam disfarçar o sofrimento, revelado na adoção de pseudo-vidas, mediadas por pseudo-necessidades, estabelecendo-se pseudo-relações que resultam de uma dificuldade em se estar só e com o seu mundo interno.

Assiste-se nos dias de hoje a um incremento de um pensamento que é da ordem do concreto, onde condutas operatórias consumistas pretendem acalentar as dores e possibilitar um significado ao Self, numa procura de viver tudo freneticamente ainda que com desencantamento, sem veracidade do Eu, visando o alcance de um estado maníaco artificialmente provocado, quer por recurso a álcool e drogas, quer pela compulsão de consumo que mascára o que falta ao Eu transformando-o num deus de posse, dono de uma anestesia afectiva com entorpecimento dos sentidos, aproveitados de modo superficial: toca-se mas não se sente, ouve-se para não se escutar, cheira-se mas não se distingue odores, olha-se para o que está à mostra mas não se vê a essência. Desenrolam-se nestes contextos relações amorosas, pessoais, de trabalho, sem vivacidade nem intimidade, traduzidas numa conduta camaleónica de pseudo-adaptação que não resulta em amor nem em produtividade.

Esta sociedade tem incentivado o surgir de uma espécie de deuses às cegas, que procuram um controle e uma posse do objeto que se possa manipular à mercê das necessidades narcísicas do próprio, sempre em espelho, sem a mínima competência para olhar, ver e sentir o outro na sua essência e diferença do próprio.

Vivemos numa época repleta de pseudo-eus, que afirmam a sua autonomia pelo poder, negando a dependência e a necessidade do outro. Estes procuram incessantemente a admiração externa, essa tão necessária para encobrir as dúvidas sobre as próprias competências reais para despertar o verdadeiro amor. Procura-se admiração pelo que está fora do Eu, este perdido em si próprio e escondido detrás de imitações ao outro idealizado, de forma tal que o verdadeiro Eu ninguém pode encontrar, porque é vivenciado como inerme e frágil.

Desta perda do Eu verdadeiro resulta a perda da proximidade entre o Eu e o outro, e a aproximação a existir estará sob o desígnio do poder e do domínio de um face ao outro, em que os desejos de intimidade são silenciados com todo o esforço, à custa de um “nada me falta” colorido com bens materiais, os quais ilusoriamente preenchem um vazio no qual o Eu se vai afundando cada vez mais. A vivência bipolar - dominador/dominado - não deixa espaço para a igualdade entre seres humanos nem sequer dá lugar à diferença porque também essa põe a nu os sentimentos de menor valia dos quais o próprio se tenta despojar, e porque acorda a inveja, é o funcionamento narcísico. O que está esquecido é que o Eu não se pode constituir/desenvolver sem ser numa relação de intimidade e profundidade com o outro, desde cedo e ao longo da vida, porque fica sub-nutrido e sub-desenvolvido, consequentemente, estas




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