Departamento de Sociologia


Representações Sociais sobre doença mental: O tema da Medicina Tradicional e da Saúde Mental na imprensa escrita de Moçambique (2009): o caso do Jornal “Notícias”



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2.7.1 Representações Sociais sobre doença mental: O tema da Medicina Tradicional e da Saúde Mental na imprensa escrita de Moçambique (2009): o caso do Jornal “Notícias”
De forma a fazer um levantamento da percepção da população moçambicana acerca da doença mental e Medicina Tradicional, utilizou-se como ferramenta o estudo das representações sociais destas temáticas (entenda-se por representação social a área do conhecimento, cuja função é a elaboração de comportamentos e a comunicação entre os indivíduos) presentes no Jornal “Notícias” durante o ano de 2009. Pretende-se através da análise destas representações sociais, enquanto marco teórico, que permitam o estudo da conduta social como um todo integrado de conteúdos, quer a nível do seu carácter emocional, quer do seu perfil de racionalidade intencional.

Na impossibilidade de obter as informações requeridas por levantamento directo optou-se por recolher a informação através da imprensa, uma vez que como realça Abad e Luján (2005), a imprensa não proporciona apenas notícias, informação asséptica mas também as categorias através das quais se possa interpretar o facto social publicado. Estes meios de comunicação facilitam ainda às pessoas os meios comuns necessários para que estas possam formar as representações sociais dos aspectos da ciência ou da sociedade, que não entendem ou que aos que não podem ter acesso de outra forma. Outra mais-valia a destacar prende-se com o facto de determinarem a ordem e a importância dos temas que serão objecto da comunicação interpessoal e da centralidade dos mesmos, no que diz respeito ao próprio discurso presente na imprensa.

Pretende-se aqui identificar e analisar os artigos presentes nas edições do jornal moçambicano “Notícias” durante o ano de 2009, inclusos na rubrica de “Opinião” (rubrica onde constam exclusivamente textos enviados pelos leitores), acerca das temáticas de loucura e Psiquiatria e, bruxaria e Medicina Tradicional e, analisar da percepção dos leitores acerca de cada conceito.

A escolha do jornal “Notícias” prendeu-se com o facto de este ser o jornal diário de maior circulação no país, um jornal que se afirmou como órgão de comunicação incontornável no panorama moçambicano, que, pela sua antiguidade se tornou uma verdadeira instituição, sendo considerado o jornal de maior influência na vida nacional (Chefo, 2009). É um jornal de grande renome em Moçambique e, o único que tem um arquivo on-line, imprescindível à realização deste estudo. O jornal “Notícias” sofreu uma série de alterações ao longo da sua existência até aos dias de hoje. Foi fundado a 15 de Abril de 1926 e surge com o principal objectivo de defender o sistema vigente e dar uma visão europeia da colónia portuguesa em Moçambique. Durante a Segunda Grande Guerra o diário trabalhou para a espionagem dos aliados e, mais tarde, aquando da fundação da FRELIMO em 1962 o diário apoiou abertamente a guerra colonial. Na transição do regime colonial português para a independência nacional a FRELIMO tomou o controle da sociedade do «Notícias». No período pós independência o diário tinha como principal preocupação o informar sobre o que se passava em todo o país pela criação de uma nova nação. Desde Abril de 2006 que o jornal publica também na internet, sendo hoje em dia um jornal diário privado pertencente à Sociedade de Notícias SARL.

Para a realização deste estudo, foram analisados 1583 artigos durante o ano de 2009 dos quais 24 faziam referência ao tema da Saúde Mental e Medicina Tradicional; destes, quatro, fazem referência à problemática da Saúde Mental e da loucura e os restantes 20, a temáticas relacionadas com bruxaria, curandeirismo e Medicina Tradicional.

Nos artigos relacionados com a temática da loucura e doença mental, é notória a diversidade a nível da terminologia utilizada para exemplificar ou fazer alusão ao fenómeno da loucura e da doença mental. Termos como “deficiente mental”, “maluco”, “louco”, “doente mental”, “demente”, “desparafusado”, “pancado”, “pessoas que padecem de perturbações mentais” são exemplificadores da falta de clareza vigente nos discursos dos autores dos referidos artigos. Salienta-se também a presença da imagem do doente mental como alguém que percorre as ruas, com uma postura diferente, ou por vezes bizarra, comparativamente com a restante população “dita” normal, pelo que é possível encontrar nos artigos analisados referências a “pessoas que andam em sentido contrário”, “fulano com os fusíveis queimados” e ainda caracterizações de índole física tais como “dentes amarelecidos”, “imagem grotesca”, “o pouco que tinha de roupa” e ainda características como “o tipo falava ameaçadoramente”. De acordo com a análise realizada, todos os aspectos são depreciativos, com excepção do facto de se conotar as pessoas com doença mental como pessoas livres, embora até neste conceito se possa denotar alguma bizarria e comportamento desviante tendo em conta o resto da população envolvente. Salvaguarda-se no entanto que o diminuto número de artigos relacionados com esta temática possa influenciar os referidos resultados.



De salientar que, de todos os artigos analisados, apenas um autor faz referência a uma possível ligação entre a Medicina Tradicional e a doença mental. No referido artigo o autor traz uma discussão repleta de dados estatísticos, tais como a preocupação manifesta do autor face ao elevado número de doentes mentais que são observados no âmbito da Medicina Tradicional e, que por conseguinte, não entram para as estatísticas. O autor acrescenta ainda que é crença generalizada nas comunidades rurais e mesmo em alguns residentes dos meios urbanos que as doenças mentais têm origem basicamente em transgressões às instruções dos curandeiros sobre determinadas “drogas”, na sua maioria destinadas ao enriquecimento fácil, sorte no lar, ascensão a cargos e funções de direcção e chefia, busca de fama, entre outras. Está presente também neste artigo a afirmação de que antes de recorrerem a qualquer médico, os familiares dos doentes mentais recorrem à Medicina Tradicional e, que quando tal acontece, é já numa fase tardia, com evolução prolongada da doença mental. No que concerne às causas das doenças, ressalta-se no referido artigo o consumo de substâncias psicoactivas, nomeadamente a suruma14, álcool e tabaco, apontando como população mais vulnerável a camada jovem por ser aquela camada populacional com maior acesso a este tipo de substâncias. Apesar do autor apresentar um artigo repleto de dados estatísticos é notória a posição do mesmo e a sua percepção com grande carga negativa face ao doente mental, quando este afirma que “Porque é que o país não adopta a estratégia de criar centros de acomodação destes deficientes mentais para evitar que pululem pelas ruas e causem todos aqueles transtornos? Sou da opinião que o Estado não deve continuar a olhar o problema de forma leviana pois, em nome da estética, não é bom que os malucos continuem a circular nas vias públicas sem que isso preocupe a ninguém”. Talvez, pelo facto do autor ser natural de Manica, apesar do artigo datar de Dezembro de 2009, não detém conhecimento do programa de recolha de população de rua que se iniciou na cidade de Maputo em Agosto de 2009. Esta acção tinha como público-alvo todos as pessoas em situação de rua que aparentassem problemas de Saúde Mental. Após a identificação dos indivíduos em questão, uma equipa constituída por técnicos de saúde e autoridades locais, recolhia as pessoas na rua com possível diagnóstico de doença psiquiátrica e direccionava-as para o Hospital Psiquiátrico do Infulene, onde eram internadas. Esta foi uma das medidas tomadas pelo então Ministro da Saúde moçambicano, no sentido de diminuir as pessoas em situação de rua da capital do país e promover a sua eventual reintegração sócio-familiar.

No que concerne aos restantes vinte artigos analisados do Jornal Notícias, parece relevante destacar a panóplia de designações atribuídas aos praticantes de rituais de cura inseridos no âmbito da Medicina Tradicional: “magos”, “curandeiros”, “praticantes de Medicina Tradicional”, “doutores-cura-tudo”, “feiticeiros”, “médicos tradicionais”, “adivinhos”, “médicos sociais”, “mágicos”, “doutores”, “donos da terra” e “doutores especiais”. De realçar que para além de não haver um consenso quanto à designação atribuída, verifica-se também que ao longo dos artigos a distinção entre médico tradicional e os designados “cura-tudo” em alguns casos é distinguida atribuindo aos primeiros um conhecimento fidedigno, no entanto, casos existem em que os autores dos artigos não fazem qualquer distinção. Não só a designação do praticante de rituais de cura se apresenta de uma grande diversidade e riqueza, também é possível detectar uma alargada parafernália inerente aos rituais de cura: tambores, sacrifícios de animais, bebidas tradicionais, penas e sangue de galinhas, pó de farinha, cinzas de fogueira, panelinhas de barro, serpentes vivas, ossadas humanas, gatos pretos e rabos de animais ferozes, alguns dos quais se vão repetindo ao longo dos artigos. As temáticas mais abordadas nos artigos analisados prendem-se com fenómenos relacionados com a Natureza como “amarrar a chuva” ou fenómenos “estranhos” ligados a animais que cometem actos maldosos; regresso de antepassados; temáticas relacionadas a objectos e rituais de feitiçaria; questões relacionadas aos curandeiros e Medicina Tradicional; ataques ou desaparecimento de indivíduos por possível causa mágica/feitiçaria e acontecimentos do quotidiano com possível causa mística/feitiçaria e a Medicina Tradicional e acontecimentos de ordem sobrenatural em campanha eleitoral (ver Quadro 2.1). Muitos destes fenómenos são designados por Geissler e Poll (2006), como o descrito na revisão bibliográfica, como rumores. A temática mais presente nestes vinte artigos diz respeito à presença constante dos antepassados bem como no dia-a-dia dos cidadãos, quer na sua rotina diária, quer em rituais de evocação, quer em cerimónias comunitárias, quer mesmo sob a forma de indivíduos após ressuscitamento. São exemplos do referido anteriormente o “Crê-se que o espírito do Benjamim sabia retribuir dos parentes vivos os tributos que lhe eram prestados ‘ano-a-ano’ já que eram visíveis os sinais de prosperidade da vasta família Magaia”, ou “Alguém que se dizia ter ressuscitado da morte e que afirmava que o seu corpo era à prova de balas”. A Medicina Tradicional e os curandeiros, régulos e outras figuras de autoridade tradicional são diversas vezes referidas enquanto participantes de relevância na vida social das populações, inclusive, em situações como as eleições e as campanhas eleitorais, onde os candidatos deverão ter em conta, respeitar e criar ou manter boas alianças com estas autoridades, de forma a garantirem um bom desenrolar da campanha eleitoral e bons resultados nas urnas. No que diz respeito a fenómenos como o de “amarrar a chuva”, nos casos analisados verificou-se que o ritual teria sido realizado por pessoas a título individual, com poderes para tal, mas sem o consentimento da comunidade e com intuito de prejudicar a população. Dentro do universo de artigos analisados apenas um faz referência ao binómio Medicina Tradicional e Biomedicina, sendo que o autor realça a importância da comunhão entre as duas ciências. Finalmente, no que concerne aos artigos que fazem referência aos “doutores-cura-tudo” como os indivíduos que têm necessidade de fazer grandes campanhas de marketing à volta das suas práticas, muitas vezes de fidedignidade duvidosa e que prometem a cura e o tratamento para diversas patologias e males. Em ambos os artigos onde esta temática está presente, os autores ressaltam a preocupação no que diz respeito ao marketing realizado no que diz respeito à cura de doenças graves como o HIV-SIDA.

2.1. – Quadro síntese da frequência das temáticas relacionadas com bruxaria, curandeirismo e Medicina Tradicional.






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