Defensor perpétuo



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Quem foi D. Pedro II? O que pensava do Brasil, como exercia sua missão de "defensor perpétuo" esse Bragança carioca, descendente dos Habsburgo, de Carlos V, de Luís XIV, e que se perpetuou meio século no trono brasileiro? Para os não estudiosos na matéria, D. Pedro II se afigura um monarca bondoso, liberal, amante das ciências e das artes, literato nas horas vagas. São os clichês dos livros escolares, necessariamente redutores. Daí a relevância deste D. Pedro II, memórias imaginarias do último imperador. Sua originalidade é múltipla. Pelo tema: é uma "autobiografia" de nosso imperador. Pelo método: é wn relato ficcional, decerto, mas fiel aos episódios de nossa história. Pelo autor: jean Soublin é francês, estudioso do Brasil e com gosto e inegável talento para os romances históricos.

Vichy, verão de 1890. D. Pedro II é um dos hóspedes ilustres do grande hotel da estação de águas. Não faz muitos meses que perdeu sua esposa, sua Coroa, seu Império, tendo sido banido em condições humilhantes - embarque em plena noite por generais até às vésperas monarquistas. No amargo sossego do exílio, Pedro d'Alcântara, 65 anos, procura entender o que lhe aconteceu. Desde a juventude, nutriu as mais nobres ambições para o seu povo, que desejaria instruído, livre e, voto supremo, respeitado pelos europeus. Tempo não lhe faltou: reinou por quase cinco décadas. Onde falhou? Por que se popularizou o apelido de Pedro Banana? Orfão de mãe aos 3 anos, de pai aos 9, educado por tutores severos, políticos aduladores, cortesãos intrigantes, o menino foi imperador aos 5 anos, e reinou efetivamente aos 14. Na vida amorosa, acumulou frustrações. A noiva de sangue azul, buscada em Nápoles, baixinha, feia e manca, foi uma decepção; o amor pela condessa de Barral, baiana educada na França, seria quase platônico; é verdade que houve - deliciosa surpresa deste livro - as aventuras fugazes no Brasil e nas viagens a Europa com damas que partilharam seus sonhos, quiçá algo mais. O longo Segundo Reinado, que se estendeu de 1840 a 1889, enfrentou insurreições provinciais, guerras platinas, a terrível guerra do Paraguai, a acintosa persistência do regime escravista, mas também consolidou a unidade territorial, modernizou o país com as primeiras estradas de ferro, a navegação a vapor, a urbanização das cidades. Em tudo isso, D. Pedro II teve um papel primordial, nem sempre lembrado. Agora, graças às memórias imaginadas por Jean Soublin, podemos enfim penetrar no universo psicológico do imperador, e, desvendando-lhe as fraquezas, as angústias, os acertos, as conviCções, conhecer mais a fundo a sua visão de uma história que é tão dele quanto nossa.

BIOGRAFIA

Jean Soublin, francês da Normandia, interessou-se desde jovem pela literatura brasileira, que estudou na Sorbonne. Morou no Brasil nos anos 60 e, de volta à Europa, foi alto executivo de um banco brasileiro. Estreou na literatura nos anos 70 com o romance histórico Lascaris d'Arabie, e hoje divide seu tempo entre a ficção e a critica literária. Dos seis títulos de sua obra, a Paz e Terra também publicou o romance O Comitê de Riscos (1989).D. Pedro II, memórias imaginárias do último imperador, lançado na França em março de 1996, foi finalista do prêmio literário Lire-RTL.

capa: MENEZES, Retrato DE D. PEDRO II, 1855 Museu Histórico Nacional Rio de Janeiro

D. PEDRO II O DEFENSOR PERPÉTUO DO BRASIL

MEMóRIAS IMAGINÁRIAS DO úLTIMO IMPERADOR Jean Soublin

Título do original: Je Suis L'Impereur du Brésil Tradução Rosa Freire d'Aguiar

EdíÇão de Texto Thaís N. de Camargo

Capa Ch ko Nunes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Soublin, Jean

D. Pedro II: Memórias Imaginárias do último imperador.

Rio de janeiro: Paz e Terra, 1996.

ISBN 85-219-0229-8 O DEFENSOR PERPÉTUO DO BRASIL

1. Ficção francesa.

i. Mitulo

MEMORIAS IMAGINARIAS

DO ULTIMO IMPERADOR 96-2682 CDD-843.91

índices para catálogo sistemático

1. Novelas: Século 20: Literatura francesa 843.91

2. Século 20: Novelas: literatura francesa 843.91

EDITORA PAZ E TERRA S.A. Rua do Triunfo, 177 01212 - São Paulo - SP Tel.: (011) 223-6522 Rua Dias Ferreira nº 417 - Loja Parte 22431 - Rio de Janeiro-RJ Tel.: (021) 259-8946

PAZ E TERRA

1996 Impresso no Brasil / Printed ín Brazil

O terceiro banco está ocupado por um cavalheiro correto, terno claro e chapéu de palha. Refiro-me ao terceiro banco à direita, quando do roseiral olha-se para o coreto. Aquele que fica à sombra do único pé de magnólia do parque. Aquele perto de onde passam obrigatoriamente os que vão beber na Grande Fonte, em trajes matinais, às vezes de chambre: isto é, meu banco. Está ocupado. Detesto semelhantes contratempos. O cavalheiro lê a Gazette de "y. Não vou, afinal, sentar-me ao seu lado; ele iria puxar conversa comigo. Discorreríamos sobre o tempo, as corridas. De súbito, eu o veria fitar-me com atenção, mostrarse pensativo e, depois, perplexo. Corando ligeiramente, haveria de perguntar-me: "Perdão, mas... o senhor não seria ... ?". Não. Não desejo falar com ninguém. A conquista do meu banco por esse impertinente estragou-me definitivamente a manhã. Terei de me postar lá adiante, exilar-me perto das rosas, não ver mais ninguém, não ser mais notado. Como é agastante! Havia que chegar mais cedo, só isso.

Certamente não foi a correspondência que me atrasou: nada, ou quase nada. Pelo menos, nada de lá. Um bilhete de Isabel, que virá na próxima semana com os filhos. O pedido de um enfadonho. Um convite do prefeito do Allier por ocasião da visita do presidente Sadi Carnot. Recebi também um embrulhinho que me envia o rabino de Avignon, na certa um livro. Não abri.

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Muito gostaria de examinar meu pé, que vem me doendo há dois dias. A dor nasce sob o segundo artelho e, na minha idade, é um bocado dificil observar a própria planta do pé. Após contorções dolorosas em que tudo estalou - quadril, joelho, tornozelo, e nuca também, virada para que eu enxergasse melhor -, tive novamente de admitir que meus óculos já não estão adaptados à minha vista. Há que falar com Isabel. Só pude observar uma vaga vermelhidão geral e manchas de sangue pisado :



Guillaume, o parvo indolente e maroto que cometi a insanidade de contratar para a temporada, concordou em me preparar um escalda-pés. Pedi-lhe para sondar o fundo de minha botina. Como não encontrasse nada, arranquei-a de suas mãos. Com a ponta dos dedos descobri a extremidade de um prego. Ele prometeu ir à cata de um sapateiro e trazer-me a botina antes do meio-dia.

Tudo isso, naturalmente, fez-me atrasar. Só terminei meu primeiro copo na fonte às 9h14: como pretender ainda escolher um banco? No entanto, tenho que me sentar em algum sítio até a hora do segundo copo. Aqui, perto da roseira, o único lugar livre. Tomara que não haja vespas!

Ninguém! Percebo, lá longe, a tropa de curistas desfilando pelo fim da alameda. Toda essa gente de sociedade, banqueiros, artistas, deputados, bonitas mulheres, que cumprimento cada manhã e que hoje se inquietarão ao não me ver. Aqui: o deserto. Uma governanta em sua cadeira dobrável, toda empertigada, ar triste. Brinca mecanicamente com um cacho louro saído de sob o véu azul que lhe cinge a fronte. Olhos fitos no vazio, desconsolada como eu em face da inatividade. Sequer acompanha com o olhar a criança de quem cuida, um pirralho de sete ou oito anos, mais moço do que meu último neto. Ele está vestido com um terno azul-marinho de calças curtas, chapéu de palha enfeitado com uma fita azul-marinho comprida, e seu joelho mostra os traços de um tombo recente. Olha pensativo para o aro de madeira, causa provável do acidente. Eu também possuía um aro de madeira lá em São Cristóvão; também era triste.

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É permitido brincar com o aro de madeira na esplanada, entre a estátua de Flora e a de Céres, de onde se principia a ver o mar. Também é permitido correr pela grande alameda de bambus, com a condição de não se aproximar do posto de guarda, onde os dragões exercem a vigilância, nem das grades do parque, além das quais avistam-se os casebres dos pretos entre as bananeiras. É proibido entrar em casa com o aro, ainda que esteja chovendo, ainda que se morra de vontade de experimentá-lo nos intermináveis corredores: o da frente, quase sempre vazio, que dá para as salas de recepção, e o dos fundos, amontoado de domésticos, que cheira a cozinha e a suor. Também é proibido visitar sozinho as cocheiras, dirigir a palavra aos criados que não usam galão dourado, acender as luzes após as 21 horas, correr pelas escadas, falar durante as refeições, a não ser sobre os estudos e a religião e, acima de tudo, acima de tudo, fazer barulho ao passar por perto dos apartamentos do sr. Tutor.



O menino não está sozinho ao brincar à tarde no jardim, entre dezesseis e dezoito horas. Tem duas irmãs um pouco mais velhas: estudam, comem, brincam juntos e dão-se muito bem, os três. jamais uma briga, jamais uma maldade, jamais um tapa. Afinal, com quem o menino machucado haveria de se queixar? Mamãe morreu há tanto tempo que eles não lhe guardam a menor lembrança, senão, ocasionalmente, essa, vaga e suave, de uma gorda mulher deitada que os acariciava. Ela teve muitos filhos, que poderiam formar um bando a trepar nas mangueiras da Quinta. Mas a morte ronda em torno deles. Perderam dois irmãozinhos e outra irmã, levada aos onze anos pela doença que arrastava desde sempre. O próprio menino é doentio, tem crises terríveis. Em voz baixa, suas irmãs repetem a palavra: epilepsia!

Ainda bem que há o papai. Mas o papai foi-se embora há três anos para cuidar da irmã mais velha, mais uma, a primogênita, que deve estar com os seus quinze anos. Se papai retornasse, compreenderia como são infelizes, os três. Chamaria de volta a Dadama, a gorda governanta portuguesa vestida de preto que eles adoravam. O sr. Tutor expulsou-a, largandoos em mãos de professores ineptos e de domésticos linguarudos.

Eles vêem muito pouco o sr. Tutor, felizmente. Quando avistam sua alta silhueta calva, sua sobrecasaca preta, estremecem, escondem-se e fazem um sinal para que ninguém fále. Se ele aparece na sala de aula, levantam-se, balbuciam, trêmulos, um trecho de poesia latina. O sr. Tutor encara-os, resmunga qualquer coisa e se vai, encolhendo os ombros. O professor parece tão aliviado quanto eles ao vê-lo desaparecer.

O sr. Tutor nunca os castigou, nunca os espancou, mas todos guardam a lembrança de episódios horrorosos em que sua fúria se soltava. No início da noite, uma cavalgada defronte da escadaria, gritos pela casa inteira, clarões para os lados da cidade, um estrondo. Trovão? não, trovão nenhum. O sr. Tutor surge nos quartos deles, escoltado por camaristas: "Vistam-nos; depressa, mais depressa." Numa sacola amontoam-se roupas, livros, brinquedos. "Rápido, rápido." As crianças, mal despertas, titubeiam, são agarradas, são transportadas. Um dragão pega o pequenino nos braços e xinga em alemão. O sr. Tutor enerva-se: "A berlinda está pronta? Vamos!". Entra o grupinho no coche, o comboio põe-se a caminho, deixa a Quinta pelo portão dos fundos, aquele que dá para os morros. Ouve-se o galope de um piquete de escolta. Por fim, o sr. Tutor abre a sua tabaqueira e cheira um bom rapé.

Então, as três crianças passam alguns dias no campo, antes de voltarem para casa. Nada mudou, mas à noite uma ou outra acorda suando e chama pelo pai.

Certo dia, foram informados de que ele morrera por lá, no estrangeiro. Choraram muito, às escondidas, mas pouco depois a vida dos três amenizou-se. O sr. Tutor partiu, expulso pelos granadeiros que disparavam tiros no térreo enquanto as crianças reviam seu catecismo no primeiro andar. Chegou

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um novo tutor, o Marquês, um velhote indulgente e jovial, joga damas com a sua quarta esposa, uma negra quarenta anos mais moça, cujos trejeitos as crianças macaqueiam às gargalhadas.



O Marquês chamou de volta a antiga governanta, a Dadama. Distribuíram-lhes novos brinquedos. No estrangeiro, a irmã mais velha vai brevemente se casar. Eles não ouvem mais os tiros para os lados da cidade, já não são obrigados a sair correndo no meio da noite, por causa dos sediciosos.

E cada vez mais amiúde a Dadama chama o menino, certifica-se de que ele foi mesmo ao urinol, manda o mordomo vesti-lo: de coronel de artilharia ou de almirante-de-esquadra,

depende. Os dois sobem numa caleche acompanhada por um pelotão de archeiros pretos da guarda montada. A caleche cruza o portão monumental e toma a direção da cidade por caminhos lamacentos. Logo eles alcançam os primeiros casebres, as casas baixas escondidas sob as árvores. O povo comprime-se contra os muros para dar-lhes passagem na rua esburacada pelas rodas dos carros: vendedoras de frutas, amoladores, homens da lei, escravos que carregam o tonel de excrementos escorrendo, e que eles despejarão na praia, pescadores, capuchinhos. Todos admiram o esplendor dos archeiros, rostos bantos sob os capacetes de penachos. Os cavalos relincham, busca-se identificar os passageiros da caleche, identificam-nos, um velhinho cospe, outro tira o boné, uma anã se benze.

Então, a governanta aperta suavemente o braço da criança, mostra-lhe a rua e murmura:

"Cumprimente, menino! Cumprimente, imperador."

Eu era o imperador do Brasil. Ainda o era, dois anos atrás. Não sou mais do que um ancião exilado que bebe copos d'água em Vichy. Pois depuseram-me, destituíram-me, baniram-me.

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Mas a amargura de minha queda não é tão cruel quanto a lembrança de minha infância abandonada, aterrorizada.



Todavia, aquela época tão triste foi também a das brincadeiras, da ternura fraternal, dos sainetes que ensaiávamos no teatro ao ar livre. órfãos em um palácio sinistro, sem outros parentes senão nós mesmos, permanentemente espiados por intrigantes, tínhamos, ainda assim, nossos acessos de riso e nossas grandes alegrias: Januária, Francisca e eu, Pedro, imperador constitucional e defensor perpétuo do Brasil.

Ao fim e ao cabo, tal reminiscência de minha infância fez-me bem. Gosto de escavacar assim minha vida, para mim mesmo, só para mim, no sigilo de um jardim público, em Vichy Há tantas coisas obscuras, até mesmo para mim. Leio tantas perguntas nos olhos dos que me encontram aqui. Para eles, está claro, não digo "era", mas "sou" o imperador do Brasil. O tempo do verbo tem pouca importância, é o título que desorienta os meus interlocutores. Se os franceses compreendem facilmente que uma velha inglesa torne-se imperatriz das índias, relutam em admitir que um curísta de barba branca, amável e meigo, possa reinar num país que eles imaginam povoado de índios nus.

Há que contar-lhes a história, no fundo um tanto burlesca, de meu avô, o rei de Portugal. Esse homem gordo e preguiçoso, assustado, com justa razão, diante da chegada das tropas napoleônicas que acorriam a Lisboa, escafedeu-se com a corte para a sua colônia do Brasil. Foi em 1808. Restabelecida a paz, voltou para casa, entregando a seu filho adulto a guarda de suas possessões tropicais. Os brasileiros haviam apreciado a comodidade de um governo sediado em sua terra, não queriam tornar a ser colônia. Meu pai compreendeu-os, opôs-se violentamente ao Parlamento português e prodamou, sucessivamente, a independência e o Império, essa forma de monarquia que parece estar na medida do território gigantesco sobre o qual ele tencionava reinar.

Inexperiente, mal aconselhado, no mais das vezes instigado por um ardor irrefletido, ele cometeu erros, dentre os

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quais este, gravíssímo, de ter guardado por Portugal uma nostalgia sobremodo visível. Quando vagou o trono de Lisboa, com a morte de meu avô, imaginou colocar ali a sua filha mais velha, minha irmã Maria da Glória. Tal intriga muito o ocupava, pois seu irmão Miguel opunha-se-lhe pelas armas. Como o Brasil não passasse de um trampolim para a reconquista de Portugal, meu pai impacientava-se com as reticências e as dissidências da elite local. Governou à matroca, destituiu os constituintes e promulgou pessoalmente uma Carta, muito liberal, aliás. Reprimiu uma revolta em Pernambuco, causando derramamento de sangue, e foi perder uma guerra calamitosa que lhe custou o Uruguai. Ali os ingleses trataram de erguer uma república independente em nome do equilíbrio do Rio da Prata: é gente que preza os Estados-tampões.



Meus professores eram pagos para fazer-me execrar as folganças paternas e para explicar-me semelhantes loucuras. Sempre as desaprovei; o Uruguai, contudo, envenenou-me a vida inteira. Mais tarde, por meio de alusões instruíram-me a respeito do mau comportamento de meu pai: os cinco bastardos que ele concebeu com a amante Domitila, os dois que teve com a irmã desta, e todos os que gerou com um mundo de modistas, camareiras, costureiras francesas, mulatas, escravas. Minha mãe havia lhe dado sete filhos, quando morreu, aos trinta anos, minada pelo infortúnio, prostrada pelos insultos e pelas bofetadas que ele lhe assentava quando ela ousava duvidar de sua fidelidade.

Recordaram-me semelhantes infâmias a minha vida inteira, como que para me esmagarem sob o fardo da hereditariedade. Adolescente, jurei não tolerá-las entre os meus íntimos, nem entre os funcionários do Estado, nem na minha própria existência. Mais tarde, suportei os meios irmãos pedinchões que me imploravam uma pensão: no Rio, mas também em Londres, em Paris, em Lisboa. Eu pagava as pensões; devia-o. Não era eu o filho de um bruto lúbrico, fuzilador de liberais e espancador de esposa?

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Todavia, por mais que eu procure, nada entrevejo desses horrores em minha memória. Eu tinha cinco anos quando ele nos deixou para exilar-se em Paris, guerrear em Portugal e, finalmente, coroar Maria. Eu tinha cinco anos, muito pouco para julgar, mas o suficiente para sentir. Suas costeletas espetavam-me quando, levantando-me com uma só mão, colava a minha face na sua. Suas medalhas esfolavam-me os joelhos e, apesar do perfume com que se inundava, acabrunhava-me seu odor selvagem. O ruído cercava-o como a Zeus no Olimpo: vociferações, ordens gritadas, impropérios, estalidos de esporas, uma pancada do sabre contra a poltrona. Risos, ataques de risos quando minhas irmãs puxavam-lhe o dálmã para também serem beijadas. Nele, tudo era sonoro, vivo e caloroso.



Casara-se de novo após a morte de minha mãe. Se o papão não tinha ares de papão, a madrasta não tinha nada de uma rainha megera. Essa Beauhamais educada na Baviera andava, a esse tempo, com dezesseis ou dezessete anos. Sua beleza atordoava-nos, e mais ainda os arrebiques, os pós e as rendas que ela consentia mostrar-nos quando nos comportávamos bem. Eu a reverenciava como a uma fada, venerei-a toda a sua vida e ainda pronuncio com ternura o nome dessa mulher nobre e digna que por tanto tempo ajudou-me com seus conselhos: Amélia!

De seu exílio, nosso pai escrevia-nos cartas melancólicas e carinhosas. Interceptava-se nossa correspondência e só pudemos ler os bilhetes mais inofensivos. Estes bastaram para perturbar mais ainda o frágil herdeiro incapaz de saber se descendia de um anjo ou de um demônio.

Com toda certeza, alguns maridos traídos foram, por volta do final de seu reinado, engrossar a multidão de inimigos de meu pai, na qual conviviam os liberais indignados com o seu autoritarismo, os xenófobos irritados com seus conselheiros portugueses, os federalistas combalidos pelas próprias derrotas. Surdo aos seus clamores, acreditou ele, até o fim, poder conservar o Brasil e reinar em Portugal, por intermédio de sua filha. Porém, em 1831 o exército voltou-se para o lado dos liberais.

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Se burlesco foi o qualificativo que empreguei para a desventura de meu avô sobremodo confiante em seu filho, a destituição desse jovem príncipe, após nove anos de reinado, é, francamente, digna de opereta. Pois à época todas as forças armadas dependiam de uma só família de oficiais. Na noite de 7 de abril, entre a tropa reunida no Campo da Aclamação, para exigir a abdicação, e o Batalhão do Imperador, unidade de elite aguerrida e fia o combate podia ser incerto. Era o que meu pai almejava.



Ora, o general das tropas rebeldes ordenou simplesmente ao comandante do batalhão imperial que se juntasse à insurreição. Esse coronel era seu irmão, obtemperou. E, por sua vez, mandou que seu auxiliar marchasse até o Paço. O auxiliar era seu filho; este deu um toque de clarim e meu pai foi parar na barra do Rio dejaneiro, a bordo de uma fragata inglesa.

O jovem oficial cuja ação destituiu meu pai chamava-se Luís Alves de Lima e Silva. Dei-lhe o título de duque de Caxias quarenta anos mais tarde, a fim de recompensá-lo por uma vida inteira de inabalável lealdade para comigo. Desejava igualmente silenciar a calúnia segundo a qual se pretende jamais ter-lhe eu perdoado a fatídica insubordinação. Como é possível que após vida pública tão longa ainda me conheçam tão mal?

Meu pai abdicou em meu favor. Faleceu em Portugal, no quarto que o vira nascer, um destino, afinal, invejável, e que me agradaria compartilhar. Nasci em 1825 no paço de São Cristóvão, no Rio de janeiro. A dar ouvidos aos decretos do governo provisório da atual República, muito receio nunca mais lá pisar, sequer para falecer.

" Imperador aos cinco anos!", exclamam os franceses, e mais ainda as francesas, tratando de imaginar o anjo louro por trás do sexagenário. Aos cinco anos ordenaram-me que fizesse uma saudação na sacada do Senado, antes de me confiarem

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ao sr. Tutor que, a partir desse dia, reputou-me o refém ideal para consolidar o poder de sua facção. A esse tempo, os republicanos formavam com certeza a maioria da população. De bom grado ter-me-iam trancado num convento. Mas havia uma Constituição, aplicaram-na. Ela previa um regente, nomearam-no.



Quanto ao menino-imperial, haveriam de exibi-lo ao povo republicano que, comovido por sua desventura, dele se condoeria e refrearia esses maus instintos. Para se assegurarem de conquistar a todos, compararam-me com o menino Jesus, tal como o exibem nas procissões da festa de Pentecostes, quando a tradição portuguesa, revista pelo misticismo brasileiro, chama-o justamente de imperador do Divino. As peixeiras do mercado, confundindo um e outro, passaram a dar-me um apoio fiel. Os revolucionários, que destruíam e ensangüentavam as províncias, acostumaram-se a prestar-me juramento de obediência antes de degolarem os burgueses e fuzilarem os oficiais. Creio, de fàto, nunca ter sido tão popular quanto nesse tempo.

Eu era um bem precioso, e, no segredo dos gabinetes, os políticos tramavam intrigas para conquistarem, não as minhas boas graças - para que poderia eu servir, pobre fedelho assustado -, mas a posse fisica de minha pessoa.

Só com o falecimento de meu pai, em 1834, pude livrarme de semelhante pesadelo. Com ele, desaparecia o espectro de uma restauração pela qual a extrema direita esperara. Ela aliou-se ao centro. A esquerda, os que receavam o regresso de Pedro I moderaram seus pleitos: restou apenas uma franja de republicanos cada vez mais discretos. Em breve, um novo regente, conservador, foi eleito.

Quando rememoro esse período conturbado da Regência, o que me contaram, o que li a respeito, ocorre-me lamentar não tê-la vivido quinze anos mais velho. Gostaria de extrair do esquecimento essa época inebriante da Regência, aqueles homens com as mais diversas opiniões que então lutavam com entusiasmo pela felicidade da Pátria, mas não ouso fazê-lo nos salões parisienses. Como pintar a generosidade, a

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abnegação, a integridade? Como revelar os incomensuráveis lampejos de esperança que brotavam de uma proclamação, de um manifesto? Como descrever o tempo em que os brasileiros ainda morriam alegremente por suas idéias? Nesta Europa fim-de-século, há que se ter uma honestidade algo rara para admitir uma idéia, uma liberdade, uma descoberta até, que não hajam nascido em Londres ou em Paris. Só os incidentes pitorescos interessariam, falar-se-ia de gritarias de mulatos, de macaquices.



Durante toda a minha vida tive de enfrentar estrangeiros irônicos, por vezes arrogantes, convencidos de que nada de sério, de digno, pode vir da América. Muito moço percebi semelhante desdém entre os diplomatas que eu credenciava, e essa injustiça magoou-me. Persuadido, como qualquer pessoa, da superioridade das potências européias, e consciente, mais do que a maioria dos meus, de nossas insuficiências e de nossas indolências, eu negava a fatalidade de tais diferenças.

Não me encontrava de todo indefeso em face da arrogância da Europa, minha genealogia sempre me ajudou a desfazer os sorrisos zombeteiros. No coração do francês mais gambettista, mais republicano, jaz um camponês disposto a tirar o chapéu quando passa o senhor com os seus escudeiros. Aqui, uma frase como "é por minha avó que descendo de Luís XIV" basta para acalmar os impertinentes. É verdade que não acrescento que essa princesa espanhola Carlota, buscou por quinze anos assassinar o marido, ao mesmo tempo em que alimentava a cizânia entre seus filhos. Em outra ocasião, hei de lançar que é por minha pobre mãe que descendo de Carlos V, ou, caso sinta cheiro de bonapartismo no ar, hei de derramar uma lágrima por meu primo irmão, o duque de Reichstadt.

Evito mencionar os Bragança, linhagem de meu pai. Estes jamais gozaram de reputação muito boa. Aliás, diversas vezes indaguei-me como uma arquiduquesa da Áustria, qual minha mãe, não muito feia, culta, pôde deixar-se entregar a um Bragança esquecido no Brasil, onde ainda nem sequer era

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imperador. Dizem-me que ela adorava as ciências, o exotismo, e que o próprio Humboldt incitara-a a partir. Seja como for, é dela, dos Habsburgo, que eu aparentemente teria herdado isso a que alguns chamam de minha altivez.



"Não negais que sois um Habsburgo", resmungava Gobineau quando eu o repreendia. Absurdo. Há em mim um único traço de caráter que eu possa identificar com tal linhagem? Teria eu sido condenado no berço a pensar, a agir, a vencer, a sofrer como um Habsburgo? Não, não, recuso semelhante fatalidade, nego-a. Procuro conhecer-me, consigo-o um tanto bem, e julgo-me sem indulgência. Aliás, essas conversas comigo mesmo hão de me ajudar, caso eu me decida a prossegui-las por alguns dias enquanto aguardo a chegada de Isabel. Cometi erros, não me os perdôo invocando os maus gênios de meus antepassados. Seria o mesmo que consultar as vísceras de uma galinha. Aliás, graças a Deus, várias doidices que hoje observo na corte de Viena foram-me poupadas. O primo Francisco José bem faria em vigiar seus sobrinhos.

Ocorre com os homens o mesmo que com os povos, repeti-o diversas vezes: seu destino depende da educação. Sou um Habsburgo, mas não fui criado na corte da Áustria. Ora, é aí, no ritual esmagador, na estufa superaquecida onde proliferam as intrigas, que têm origem as fraquezas de minha família. Foi também aí, no crisol cosmopolita onde conviviam as raças, que se forjaram as suas grandezas. Não pleiteio umas nem outras.

Restam, naturalmente, os traços fisicos que se poderão verificar nos quadros da família: tenho a beiçada. Minha mandíbula avança, disfarçada sob a barba há trinta e cinco anos, e minha fronte proeminente coroa uma face visivelmente côncava. Se determinismo há, prefiro este, ditado pela forma original de meu crânio, e creio mais na frenologia do sr. Lavater do que na hereditariedade austríaca. Meu rosto, tal como se apresenta, é uma alegria para os caricaturistas. Desenharam-me como uma lua crescente, como uma banana, como uma

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castanha de caju. Um Habsburgo, um verdadeiro, teria trancafiado os autores dessas brincadeiras de mau gosto. Deixei-os em paz, do que me gabo.



Quem me ouvisse divagar dessa maneira acerca de meus antepassados - Deus me livre! -, poderia descobrir em minhas palavras uma frieza, uma reticência, digamos o termo: um rancor pelos Habsburgo. O indiscreto estaria certo: não gosto dessa gente. Não me criaram aborrecimentos, nunca me ajudaram, porém, e poderiam, creio, ter sido um pouco mais calorosos com o primo de olhos azuis, tão miseravelmente só, que lutava sob o Equador para conduzir seu povo ao progresso.

Quando eu era criança, meu avô Francisco limitava-se a incumbir o embaixador da Áustria de observar minha saúde e o desenvolvimento de minhas faculdades. Este diplomata de bem inquietou-se com a minha fragilidade. Sugeriu que me fosse autorizado praticar alguns exercícios fisicos no parque da Quinta da Boa Vista. O Tutor consentiu: não havia pensado nisso.

Na noite que se seguiu a um dia de rebelião, o austríaco, aflito, solicitou a Viena o envio de uma fragata com duzentos fuzileiros para irem nos evacuar, a minhas irmãs e a mim, e conduzir-nos a Livorno. Que eu saiba, o almirantado jamais respondeu.

Foi esta, em minha vida, a primeira ocasião de me desvencilhar de um poder que tanto me pesou. Perdida, como as seguintes.

Mais tarde, Metternich atropelou o quanto pôde a negociação de minhas bodas. Sua política em Veneza e na Hungria chocou-me pela barbárie. A Áustria não levantara sequer um dedo para socorrer o órfão, não alteou a voz quando tive problemas com a Inglaterra, e menos ainda durante a guerra. A visita de Maximiliano ao Brasil e o relato que fez não melhoraram as coisas. De toda maneira, aborreci-me tremendamente

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nas raras vezes em que jantei com Francisco José, talvez porque Sissi não estivesse: jamais encontrei a imperatriz.



Haviam-me agraciado com o Tosão de Ouro em 1835, e eu o exibia, naturalmente, em seus jantares. Sempre o portei, aliás, mesmo à paisana, preferindo-o a qualquer outra condecoração. Ainda hoje, ele está pendurado na botoeira de meu fraque, penduricalho de ouro que desperta a cobiça das criadinhas e dos senadores. Feíssimo, aliás: lembra um carneiro que uma talha leva ao matadouro. Por que havê-la distinguido, se tanto odeio os Habsburgo? Confesso baixinho, longe dos cientistas e dos democratas: ainda há motivos de orgulho. Somos os mais antigos da Europa. Nos confins da Argóvia, nas torres do Habitchsburg, o castelo dos abutres, a ninhada amedrontava, bem antes que existissem os Capeto.

Não vamos sondar demasiado tais contradições, elas me embaraçam um pouco. É melhor retornar ao ano de 1837, quando, num clima apaziguado, a direita elegeu um regente.

Eu ia entrando na adolescência, começou-se a cuidar seriamente da minha educação. Quem começou? Não é fácil saber com clareza a quem devo os cuidados e as proibições que me foram prodigalizadas, uma vez que eu não tinha pai nem parente para me orientar. O regente, e além dele a Câmara e o Senado, afirmavam-se responsáveis por minha formação. Nas Câmaras tinham assento burgueses esclarecidos, por vezes nobres, todos imbuídos de cultura francesa e em quem nada de profundo impelia a defender a monarquia. A república era a regra em todo o continente e todos seriam republicanos caso, entre os povos vizinhos, o sistema não houvesse demonstrado que trazia o risco de provocar excessos desagradáveis, a divisão do país, o desarranjo de suas finanças, em suma, a desordem.

De modo que se chegara a um acordo sobre essa matéria. Já que havia um imperador, este seria mantido, e já que

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mais ninguém cogitava de modificar a Constituição, o jovem príncipe adaptar-se-ia ao augusto documento. Bastaria educá-lo. A esse tempo, o mundo inteiro acreditava que o homem nasce bom e que a educação confirma, ou corrompe, suas felizes propensões.



Mas quem zelaria por tal educação? Quem guiaria o jovem soberano ao trono? Como se pode imaginar, candidatos não faltavam. Vigiavam-se uns aos outros. Quem vencesse poderia, no melhor dos casos, insuflar-me suas idéias e garantirlhes o triunfo, no pior dos casos, fazer de mini um fantoche mole e dissoluto: essa gente conhecia Suetônio. Por outro lado, aos treze anos, as minhas opiniões já podiam exercer certa influência, reputavam-me capaz de favorecer certas ambições, barrar outras. De modo que todos os partidos, ou melhor, todas as facções desejavam achegar-se de mim para conhecer meus gostos e cultivá-los em proveito próprio.

Ora, uma dessas facções achava-se, quase por acaso, detentora de minha pessoa. Compunha-se de meu tutor e da Dadama, do mordomo-mór da Casa Imperial, Paulo Barbosa, e do ministro da justiça, Aureliano Coutinho. Sem nada exigir em troca, ou porque eram íntegros, ou porque suas posições elevadas já lhes conferiam tudo o que desejavam, essas pessoas erigiram ao meu redor formidáveis barreiras contra os cortesãos. Ninguém se aproximava do imperador, ninguém lhe dirigia a palavra em particular. As crianças que partilhavam minhas brincadeiras eram em especial os filhos de meus professores, e mais alguns outros, escolhidos a dedo, como Pedreira, cuja amizade conservei e que me acompanhou em quase todas as minhas viagens. Quanto aos domésticos, escolhiam-nos com rigor, vigiavam-nos sem folga. Lembro-me de um camareiro inglês e, evidentemente, de meu querido Rafael, soldado negro a quem meu pai me confiara, e que acaba de falecer, quase centenário.

O marquês, meu novo tutor, redigira um protocolo tratando dos meus estudos e, de longe, zelava devotamente pela minuciosa hierarquia que concebera para me educar. Todo

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ano, diante das Câmaras reunidas, anunciava que Sua Majestade portava-se bem e brilhava nas diversas disciplinas. Depois, retornava a casa a fim de paparicar a jovem esposa.



O verdadeiro responsável por meus progressos era meu diretor de estudos, Cândido. Ele escolhia meus mestres, vigiava-os e incumbia-se pessoalmente das humanidades. Logo abaixo, vinha o meu diretor de consciência e professor de matemática, frei Pedro, que fazia as vezes de preceptor e acompanhava-me o dia inteiro. Até o falecimento de ambos, manifestei por esses homens uma gratidão enternecida. Outros ensinaram-me o bom gosto, a ciência ou a política, mas aqueles ensinaram-me a pensar como um homem. Um, fiz marquês, o outro, bispo, pois também detinha semelhante poder.

Frio sem severidade, irônico sem maldade, cético a respeito de tudo a não ser de certos grandes princípios, mas a estes ligado por indestrutível fidelidade, Cândido acreditava profundamente no homem e no seu triunfo.

Ensinava-me o lugar do humanismo num mundo lógico que afinal terminaríamos por compreender. Encontrava em Sêneca ou Lucrécio máximas fraternas e progressistas, que comentava sorrindo, e depois, indo até a varanda acender seu charuto, mandava-me recopiá-las em letra bastarda e praguejava contra um certo Boulanger que recebera a incumbência de melhorar minha caligrafia.

Eu encontrava em frei Pedro uma versão humilde de Cândido. Se não era maçom (conquanto eu tenha conjecturado sobre isso), com toda certeza esse homem de bem venerava Rousseau, e maravilhava-se que o Ser Supremo pudesse havê-lo escolhido, a ele, pobre frade brasileiro da ordem do Carmo, para educar um Emile coroado. Sua moral era simples: mais vale ajudar os pobres do que os ricos, tem mais tempo de fazer o bem quem çedo levanta, sente-se melhor quem come pouco. Pregava tudo isso com bondade, e só endurecia o olhar para condenar a luxúria. Nessa matéria, freqüentemente corava e enredava-se em metáforas complexas

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que o encabulavam mais do que a mim. pois eu nada compreendia. De bom grado teria ele dispensado semelhantes exortações para retornar à matemática, mas, creio, recebera instruções rigorosas sobre o assunto.



A moral que me ensinou pelo sermão e pelo exemplo, sempre a segui, digamos quase sempre. Considero-a muito distante das práticas de meu povo. No princípio, todos felicitaram-se por me verem adotar regras tão diferentes das que guiavam meu pai. Em seguida, irritaram-se com o meu rigor: o levantar-se às cinco horas, a canja de galinha, os banhos de água fria e tudo mais progressivamente afastaram-me de meus súditos. Ainda mais tarde, ao descobrirem-me certas fraquezas na minha maturidade, riram sem piedade: a velhice Ja me separava do mundo.

Não menciono o italiano que nos ensinava musica, o espanhol que nos fazia dançar, o inglês de nome engraçado, Tilbury, que me lecionava a sua língua. O ensino do alemão incumbia ao sr. Schüch. Eu muito o estimava, porque fora para o Brasil junto com a minha mãe e também tinha uma queda pelas ciências naturais. Levava-me para herborizar no parque ou, quando nos autorizavam a sair até os rochedos da ponta do Caju. Mostrava-me a baía, identificava os locais batizados outrora por um povo marítimo: as enseadas do Galeão, de Botafogo, o Arpoador, a pedra do Leme e a da Gávea. Fazia-me admirar a tempestade de basalto imóvel em torno do Rio, dissertava sobre a elevação dos morros, suas origens, suas formas.

Minha cabeça andava tão cheia de ciências, por essa época, que eu recompunha a paisagem à minha maneira. O Pão de Açúcar é um velho triângulo isóscele que manca. O Corcovado procura ao longe a sua hipotenusa, a serra dos órgãos, com seus pára-raios de pedra, deveria concentrar sobre si todos os temporais e desviá-los do Paço. Este último pensamento muito me agradava, pois eu sentia um medo horrível do trovão. Com certeza, isso vinha-me, tanto quanto o medo horrível do clarim, da desagradável lembrança das rebeliões

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de minha infância. Travei algumas guerras, jamais, porém, estimei os militares: em todas as ocasiões, eles fazem barulho demais para o meu gosto.



O sr. Schüch ensinou-me alemão, Cândido e frei Pedro ensinaram-me a pensar, mas Félix Taunay, este fez de mim um francês. A grandiloqüência de tal asserção seria indesculpável caso eu não a mantivesse em meu foro íntimo. Hoje consigno, como o fiz em meu diário íntimo, meu apego filial à França. Decerto, não é isso que me impede enxergar seus graves defeitos, da mesma maneira que constato aqueles, bem diversos, do Brasil, mas o fato irrefutável é que, quando desci do trem em Hendaia, em junho de 1871, meu coração bateu mais forte do que jamais batera em qualquer fronteira. Em Paris, sinto-me em casa, respiro um cheirinho de inteligência que muito me agrada. Também me sinto em casa, em Cannes ou em Vichy, e até neste banco, muito apropriado, afinal de contas, para o meu devaneio. Voltarei amanhã.

O pai de Taunay, pintor conhecido, participava de uma missão artística enviada por Luís XVIII a meu avô. Esses retratistas, esses gravadores, esses arquitetos deixaram marca duradoura em nossos monumentos e em nosso gosto. O pai retornou à França, os filhos ficaram no Brasil. Félix casou-se com a filha de um oficial emigrado, refugiado em nossa terra. O recém-casado dirigia a Escola de Belas-Artes que seu pai fundara. Naturalmente, nomearam-no para ensinar-me desenho, e, mais tarde, francês.

Era um homem baixinho e gordote, de olhos coruscantes, com muito espírito, que jamais ofendia alguém, feliz no lar, feliz com os filhos, feliz, enfim, no Brasil. Não é nada fácil, reconheço, para um europeu acostumar-se com os nossos hábitos, e vi mais de um, forçado a partilhar nossa existência, refugiar-se no desprezo, por vezes na depravação. Este, assim como o sr. Schüch, adaptara-se à perfeição, sem nada abdicar de sua origem.

Taunay não era homem de se deixar ditar um programa, nem, aliás, de respeitar aquele traçado por si mesmo. Suas aulas seguiam-lhe a fantasia e passávamos tranqüilamente de

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Voltaire a Chateaubriand, seu ídolo, e dos Plaideurs às Méditations, que ele reputava um pouco modernas demais. Sua grande paixão era a leitura de jornal. Se bem me recordo, tratavase do Joumal des débats, ou talvez do Quotidienne. Nós os recebíamos aproximadamente uma vez por mês, dependendo dos veleiros, e fazíamos uma festa. Meu mestre não me prevenia. Entrava, colocava sua pasta preta sobre a mesa, como de costume, estendia um lenço sobre a cadeira. Eu aguardava. Piscava-me o olho, abria a pasta, tirava o jornal e entregava-me, dizendo displicente: "Vereis como Guizot quebrou a crista dos liberais. Que homem, Majestade, que homem!".



Eu lia, fascinado pelas palavras, pelas frases. Sim, Guizot brilhara na tribuna, mas havia também Victor Cousin na universidade, Augustin Thierry e seus merovíngios... Vigny publicava La mort du Ioup, do qual reproduziam-se alguns trechos. "Lêde isto, Majestade, comentaremos depois." Ah!, o bom mestre, ah!, os doces momentos passados ali no meu gabinete do primeiro andar, com os postigos semicerrados para nos protegermos dos rigores -da tarde. Ouvíamos as chamadas, o chiado de carruagens no cascalho do pátio, melopéias de escravos. Alguém, talvez Francisca, tocava piano no andar de cima, uma trompa soava no corpo de guarda, e eu lia, perdidamente:

"... Si tu peuxfais que ton áme arrive, Afórce de rester studituse et pensive, Júsqu'd ce haut degré de stoiquefierté Oú, naissant dans les bois, fai tout Xabard monté. Gémir, pleurer, prier est également Uche. Fais énergiquement ta longue et lourde táche Dans la voie oú le Sort a Youlu Cappeler, Puis aprés, comme mai, souffre et meurs sans parler "

Se puderes, faz com que tua alma chegue/ de tanto ser estudiosa e pensativa/ a este alto grau de estóica vaidade/ a que, nascendo nos bosques, primeiramente eu subi./ Gemer, chorar, rezar é igualmente covarde./ Cumpre energicamente tua longa e pesada tarefa/ Pela via aonde o Acaso quis te chamar,/ E depois, como eu, sofre e morre sem falar. (N.T.)

Eu era um aluno assíduo, quem não o teria sido, com Taunay! Ele me apreciava, assim como os meus outros professores, mas demonstrava menos respeito e mais ternura singela e afável. Quando partia, abandonando-me, no palácio lúgubre, aos camaristas subservientes, aos homens de poder que os dirigiam, vez por outra eu flagrava, sem compreendê-la, uma sombra de tristeza em seu rosto tão alegre. Sentia pena de mim, era de fato o único, à época.

Hoje, é seu filho quem se condói do imperador. Este escritor de grande talento largou a política no dia de minha destituiÇão. Vem com freqüência ver-me em Paris. Pedi-lhe que cuidasse de minha biblioteca, ou do que dela resta. Após minha partida, o exército invadiu São Cristóvão para instalar a sede de seu Comitê. Os canalhas serviram-se: adeus, meus Tito Lívio e meus Plutarco, minhas bíblias russas e meus talmudes. Meu bibliotecário suicidou-se. No entanto, eu havia prometido legar tudo à Nação.

Cada um a seu modo, meus professores cumpriram bem sua missão. Ensinaram-me o que podiam, o que talvez não fosse o essencial. ótimo em álgebra, em tradução para o grego e em geologia, eu só sabia a respeito dos homens o que se lê em Camões, a respeito dos imperadores, o que se lê em Tácito. Para as mulheres, eu contava com Racine e Bernardin de SaintPierre: desconfiava-se delas mais ainda do que dos cortesãos.

Eu atravessava uma puberdade agitada. Aprendera a aliviar como podia os ardores que me vinham ao ler estrofes românticas ou reclames de gazetas. Seguramente, o mundo exterior procurou lançar-me algum objeto encantador com quem eu havia de consumar um amor precoce e a ruína de meus protetores. Para os políticos, uma jjovem favorita em meu leito, bem orientada, valia mais do que a maioridade diante do Senado.

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Mas a Dadama vigiava. Fizeram-na dama do paço; assim sendo, ela gravitava bem acima do pequeno mundo de meus professores, mas havia-me acompanhado desde o berço e continuava a ensinar-me o catecismo. Víamo-nos diariamente. Entre uma e outra aula sobre a Sagrada Escritura, ela observava minhas olheiras, assim como, provavelmente, examinava meus lençóis, e multiplicava as artimanhas para adivinhar o que eu sabia acerca das mulheres.



Estava de olho em tudo. As varsoviennes de nosso professor, eu só as dançava com minhas irmãs; eu organizava a encenação de peças francesas para as quais as amigas delas imploravam, em vão, por um pequeno papel; e ai da engomadeira que não baixasse os olhos quando eu aparecesse! Proibiam-me até de subir aos quartos das princesas antes do meio-dia, temendo que alguma peça íntima fosse perturbar minha inocência.

Casei-me virgem. Mas havia lido Lamartine e não ignorava que podemos sofrer de amor. Conquanto ao meu redor sempre se denegrisse meu pai, eu também sabia que os devassos semeadores de bastardos nem sempre são maus homens.

Como muitos adolescentes, consolava-me de minha castidade pela leitura. Meu tutor mandava buscar na Europa livros que lanchas repletas descarregavam na praia: atlas, dicionários, clássicos, modernos em todas as línguas, gramáticas, tratados de equitação, de etiqueta, regulamentos militares a educação de um príncipe!

Eu lia em qualquer recinto: no jardim, na cama, à mesa. Tomava notas, rabiscava comentários às margens, roía-me de impaciência nas cerimônias oficiais, enquanto lá em cima, sobre minha mesa, restavam-me a concluir cem páginas de Rob Roy. Passei por minha fase portuguesa, iluminada pelo poeta Almeida Garrett, minha fase inglesa, com Wordsworth, e inebriei-me com Walter Scott, como qualquer pessoa. Os alemães vieram um pouco mais tarde, com Hoffinann e Chanússo. Logo depois deu-se o deslumbramento com os italianos. Manzoni seduziu-me a ponto de ter-lhe eu enviado, acompanhando uma carta tímida e confusa,

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uma tentativa de tradução de sua Ode ao 5 de maio. Essa carta marcou o princípio de uma correspondência que durou decênios.



Há de se compreender que semelhante existência preparava-me muito mal para a vida mundana. Minha timidez, normal em minha idade, agravava-se por meu isolamento, pelo banímento das mulheres ao meu redor. Certas partícularidades fisicas acentuavam-na ainda mais e atormentavam-me. Eu era franzino, volta e meia caía doente, e, como disse, era muito medroso. Considerava desgracioso meu rosto prognata, magro demais meu corpo, e, para cúmulo da vergonha, minha voz mudara para uma espécie de falsete que se prestava a sorrisos. Mantenho a mesma voz, mas há tempos que já mais ninguém sorri.

Nos dias de recepção do corpo diplomático, com o uniforme de gala, no salão dos Embaixadores, eu ficava de olhos cabisbaixos, sem atrever-me a olhar o semblante de tantos adultos brilhantes, espirituosos, traquejados na etiqueta, e que talvez tivessem encontrado Macaulay ou Chateaubriand. Suas esposas examinavam-me com olhos curiosos, um pouco decepcionadas, mas mesmo assim avaliando as possibilidades de aventuras amorosas.

Eu não me comportava melhor com os visitantes estrangeiros. Decerto, não recebíamos qualquer um. O príncipe Luís Napoleão passou pelo Rio em 1837. Comunicaram-lhe que a Corte não desejava entreter-se com um conspirador notório. Por outro lado, o príncipe de Joinville era bem-vindo. Esse filho de Luís Filipe vinha de canhonear os mexicanos em Vera Cruz e de reconhecer a nova república do Texas. O jovem oficial de Marinha, muito alegre, quase turbulento, teve direito, de minha parte, a alguns resmungos abafados, que aliás ele não ouviu, pois era surdo como uma porta.

Alguns anos mais tarde, concedi audiência à primeira parisiense que encontrei. Filha de acadêmico, mulher de cônsul, essa baronesa era a perfeição em pessoa. Dez anos de convento, dez anos de corte nas Tulherias, temperados aqui e

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acolá com pitadas de adultério: a essa época, os franceses ainda sabiam preparar suas damas para o mundo.



Ela me dirigiu olhares de agradecimentos entontecedores, durante cerca de quinze minutos. Eu escutava sem responder, com os olhos fitos no tapete. Ela insistia e, quanto mais brilhava, eu me fechava assustado com o meu próprio acabrunhamento, torturado por tantas rendas em cima de tantos decotes, suplicando aos deuses que me fulminassem ali mesmo, extinguissem para sempre minha parvoíce. A malandrinha prosseguiu falando.

Taunay vigiava-me de soslaio, havia que responder, havia que formular a saudação que preparáramos.

"li - disse em tom abafado, sem atrever-me a erguer os olhos para o seu esplendor -, li o discurso de seu pai na Academia.-

A baronesa calou-se, desconcertada, e, por via das dúvidas, lançou-se numa reverência ruidosa e reveladora. Levantei-me, saudei-a e encerrei a conversa, sem nada acrescentar. Queria morrer.

Meus educadores, estou convencido, pensavam agir corretamente ao isolarem-me e ao condenarem-me aos livros. Esperavam dotar o Brasil de um príncipe democrático e indolente que viveria decentemente e deixaria a política para os profissionais. Só poucos anos mais velha, a rainha Vitória acabava de ser coroada. Para eles, Vitória era o exemplo ideal da soberana moderna, quer dizer, passiva. O que meus protetores não enxergaram, felizmente, foi que a etiqueta que erigiam ao meu redor para que eu fosse inacessível a seus adversários levava-me a provar, por seu próprio rigor, certas formas de poder, o que poderia prejudicar o êxito de tal iniciativa.

Desde muito tempo delimitaram-me uma parte dos jardins da Quinta, uma espécie de terraço à sombra das goiabeiras. Ali havia bancos, estátuas cuja nudez antiga se haviam

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esquecido de cobrir, e rosas muito miudinhas. Por um édito do mordomo-mór, o terreno era privativo meu. Ninguém, senão os jardineiros, podia penetrar ali sem minha autorização. A esse primeiro poder que me foi dado, minhas irmãs logo se submeteram. Aos doze anos, expulsei de meu jardim as princesas imperiais, a fim de passear em paz em companhia do amigo Pedreira, muito acabrunhado com semelhante incidente, que se renovou amiúde, de outras formas. Aquelas pobres mocinhas fizeram suas vidas longe de mim, bastante bem, penso eu, apesar de seus exílios. Agora, vejo-as com freqüência, após cinqüenta anos de separação, e prezo-as sobremaneira para não me arrepender de minha dureza naqueles anos. De certo modo, foram elas minhas primeiras vítimas.



Em 1838, por mais tímido que eu fosse, reputaram-me maduro para uma encenação organizada deliberadamente sem o meu conhecimento, e que haveria de inflamar a vida política. Era a festa do Santíssimo Sacramento, a Corte reunia-se em grande pompa na igreja de Santa Cruz. Como de costume, eu devia dirigir-me sozinho ao adro para receber as aclamações do povo. O regente caminhava atrás de mim, com sua casaca verde de enfeites dourados, seu bicome de plumas, suas medalhas e sua espada. De súbito, senti-o dirigir-se para o meu lado. Olhei-o, intrigado. Sorriu-me, a fim de me serenar, e depois ajoelhou-se em cima das pedras ainda cobertas pelas folhagens da procissão. Pegou-me a mão direita e lentamente, ostensivamente, beijou-a. A multidão calou-se, estarrecida, mas toda a Corte gritou "Viva o imperador", e logo o povo juntou-se aos vivas.

O beija-mão vinha-nos de Portugal, antiga tradição de obediência, símbolo de uma adulação sedimentada em muitos séculos. Meu pai exigia-o, e com certeza saboreava tal ocasião de melindrar os retóricos de sua Câmara e de seu Senado. Aboliram-no desde a sua abdicação: o clima igualitário da época certamente não se adequava com um salamaleque desses. Porém, havia algum tempo que o regente andava organizando

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o retorno da direita, a retomada do país pelos amigos da ordem. Tinha ele suas opiniões sobre o papel que me cabia desempenhar. Não se deu conta de quanto apreciei, por um breve instante, ver a meus pés o visconde de Olinda. Ordenei que se reerguesse, olhei discretamente minha luva e cumprimentei sem sorrir, como de costume.



No dia seguinte, a imprensa exaltada enfureceu-se. Referiu-se a uma conspiração restauradora, a práticas medievais, à barbárie. Não contente em seqüestrar o imperador, em atribuir-lhe como professores ignorantes apátridas, o regente retomava as aviltantes manias do antigo regime. O Brasil não o toleraria. O Brasil o tolerou, porém, e por longo tempo. Banqueiros milionários, fazendeiros podres de rico, jurisconsultos, bispos, generais, todos beijaram-me a mão durante trinta anos. O que eu não detestava.

Relato semelhantes episódios para lembrar a mim mesmo que o gosto pelo poder veio-me cedo. Evidentemente, não sinto o menor orgulho por tais ouropéis, os únicos que à época eu podia apreciar: que mérito há em tiranizar as próprias irmãs ou em entregar a mão aos lábios de um cavalheiro recamado? O verdadeiro poder, esse que se manifesta numa assinatura, por vezes numa simples inicial embaixo de um ato de nomeação, chegou mais tarde: seu sabor é muito mais forte. Foi-me mais dificil desvencilhar-me dele do que das formas antiquadas a que me refiro. Contudo, desvencilhei-me, convencido de que a razão me ditava. Aí está a história de minha vida: lentamente despi-me do poder, após tê-lo conquistado. Jamais por obrigação, mas deliberadamente, no meu momento e nas condições que eu desejara. Por que semelhante abandono? A razão, disse eu, mas que razão? Ainda o ignoro, procuro compreender.

Após trinta anos de reinado, eu já não mandava, senão em meu camareiro, em minha esposa e no presidente do Conselho. Vinte anos mais, e este último ainda me consultava só por cortesia: eu já não detinha o poder. Restava-me algo mais

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sutil e ainda mais saboroso, a quintessência de cinqüenta anos, o suco de tantas vidas exaltadas ou arruinadas por mim, de tantos triunfos e derrocadas, de tantas interrogações secretas na noite do palácio, de tantas mortes também. A isso chamo de autoridade.



De fato, era o que os incomodava, foi o que desejaram proscrever, dois anos atrás. Por que depor um monarca mais democrata do que eles, que respeitava as leis, submetia-se às maiorias? Porque queriam suprin-rir um olhar, um olhar que os incomodava.

Na ocasião, estávamos reunidos, minha família e eu, no Paço da Cidade cercado pela tropa. As senhoras choravam, meu genro exercitava suas bravatas, eu lia. Um coronel entrou, enviado pelo chamado governo provisório. Bateu os calcanhares à minha frente, ergui os olhos. Sua nússão não era fácil, eu sabia. Devia dirigir-se a mim, seu imperador destituído, mas de que maneira? Com que fórmula? Pelo sim pelo não, balbuciou:

- Excelência...

Eu nada disse, nada fiz, sequer um franzir de cenhos: o olhar, simplesmente o olhar. Ele parou imediatamente e recomeçou, mais baixo:

- Vossa Alteza...

Era só o que faltava! As criadas chamam de alteza meu neto que não tem dez anos. O pobre oficial padecia um martirio. Ahn, como é dificil ser republicano. Eu continuava a olhar. Por fim, de um fôlego ele murmurou: Vossa Majestade...

e consenti em tomar-lhe das mãos a mensagem que me destituía.

No início de 1840, a esquerda não perdoara a questão do beija-mão. Atacava sem quartel a direita, cujos gabinetes sucessivos

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iam se tornando mais e mais impopulares. A situação do regente ia ficando intolerável.



Surgiu então a idéia de se antecipar a idade de minha maioridade legal. Eu estava entrando na adolescência, nada conhecia da vida política, que aliás não me interessava nem um pouco; sentia-me paralisado de medo tão logo um desconhecido dirigia-me a palavra, mas e então? Necessitava-se de um chefe de estado, com quem não se contaria para muitas coisas: um pouco de fausto, alguns discursos que lhe ditariam, e a sua assinatura num decreto convocando os liberais ao poder. O menino, afinal de contas, devia ser capaz de tanto; não se repetia que ele lia os bons autores assiduamente?

A imprensa explorou a questão com entusiasmo. Cobriram-me de loas, alardearam núnha surpreendente maturidade, qualificaram o regente de traidor e de infame porque ele temporizava. Na rua, o povo cantava impaciente:

Queremos Pedro II Embora não tenha idade. A Nação dispensa a lei E viva a maioridade!

Entre os mais ressentidos por não estarem no poder, havia os dois irmãos de meu antigo tutor, o terrível ancião que fora afastado sete anos antes e que, justamente, acabava de falecer após um retiro rancoroso e atormentado. Esses homens tinham seus validos na Câmara, seus agentes na imprensa, seus agitadores na rua.

Mais hábeis que os Graco, baldaram as manobras do regente. Trovejaram na tribuna, invocaram a vontade do povo e, como soía acontecer, o respeito devido à augusta pessoa do soberano que, creio, nesse momento devia estar seguindo em palácio uma aula de álgebra sem desconfiar de coisa alguma. Após acalorarem a assembléia, lançaram-se num golpe de Estado parlamentar. A Câmara enviou à Quinta uma delegação

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incumbida de procurar saber se eu aceitava ou não tornar-me maior Pela primeira vez, pediam-me minha opinião.



Meu tutor pôs-me rapidamente a par dos acontecimentos. A deputação que me enviavam representava tanto a esquerda quanto a direita. Os liberais, dirigidos pelos dois irmãos, queriam-me maior de idade para que eu os instalasse no poder. Os conservadores seguiam-nos, tontos com as suas vociferações. Naquela hora tardia, a menor reticência não pareceria insultante para o imperador? Na dúvida, todos se juntavam: que fazer, senão? Ninguém me conhecia, ninguém previa minhas reações, ninguém sabia o fundo do meu pensamento, sequer se eu tinha algum.

Ninguém, senão meus professores e os políticos que os haviam orientado: Aureliano e Barbosa, aqueles que me tinham protegido contra o mundo e, ainda assim, formado. Estes mantiveram-se à margem das discussões, persuadidos de que o movimento era irreversível, contando com a minha gratidão para assegurarem-se da própria sobrevivência. Mereciam-na, conseguiram-na, por certo tempo.

Trajado à paisana, portando à guisa de condecorações unicamente o colar da Ordem de Cristo, ouvi, pois, a delegação unânime propor-me uma decisão ilegal: tomar o poder antes da data prevista. Indagaram-me se queria ser declarado maior: respondi que sim. Desejaram saber se queria sê-lo imediatamente. Fitei o regente, sabendo que ele preferiria esperar mais seis meses, consultei meu tutor e frei Pedro, respondi novamente "quero já!". Houve gritos de triunfo seguidos de um beija-mão geral maçante demais. Em seguida, ordenei a convocação da Assembléia Geral para o dia seguinte: havia que jurar perante ela, e pela Bíblia, defender o Brasil, a Igreja católica e a Constituição.

Eu era chefe de estado, tinha catorze anos.

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II

Mas, afinal, quem atirou em Paulo Barbosa? A pergunta persegue-me desde a manhã. Às seis horas, ao trazer-me o chá, Guillaume abriu as cortinas mais bruscamente do que eu gostaria. Eu havia passado uma noite abominável. Pisquei os olhos, tossi e mexi devagarinho meu pé. Uma fisgada debaixo do artelho acabou de me acordar e no mesmo instante pensei naquela noite longínqua do verão de 1845 quando, numa curva fechada de uma estrada montanhosa, dois ou talvez três assassinos abriram fogo contra o coche do meu mordomo-mór. Foi só um susto, e eu havia me esquecido por completo desse incidente: hoje ele ressurgiu como um lembrete sinistro. Os bandidos nunca foram capturados, tampouco descobriu-se quem era o mandante. Eu ainda estava pensando nisso depois da minha toalete, ao examinar o pacote do rabino de Avignon. Não se trata de um livro, conforme eu imaginava, mas de uma coletânea inquarto de folhas manuscritas e presas entre duas cartolinas por cordões amarelos. Alguém escreveu na capa: Chants du Conttat Vênaissin. Sorri ao reconhecer o objeto de que me falara o rabino em Nimes, vinte anos antes. Trata-se, evidentemente, das poesias do ritual israelita camponês, aquelas que Léopold Zunz menciona em seu magistral Zur Geschíchte und Literatur. Tudo escrito em hebraico: excelente! Material para encher algumas tardes chuvosas. Veremos se meu óculo é



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suficiente, caso contrário, pegarei a lupa. Bom homem, esse rabino! Mas, afinal, quem atirou em Paulo Barbosa?

Não consigo tirar a indagação da mente. A noite inteira revivi as primeiras lutas de meu reinado. Desorientado pela febre, pelo cansaço, pela minha dor no pé, meu pensamento vagava de um ano a outro. Eu revia os acontecimentos, os rostos; ouvia a voz de homens há muito sepultados. Cochilava um pouco, depois despertava. Parecia-me imperativo identificar o momento em que, após observar o poder de perto, terminei assumindo-o definitivamente. Fora no dia de minha coroação, no dia de minhas núpcias? A deposição, por mim desejada, do ministro Honório fora decisiva?

Por fim, adormecendo minutos antes da chegada de Guillaume, pensei em Paulo Barbosa. Aterrorizado com o atentado, implorou-me que lhe confiasse uma embaixada na Europa, para se pôr ao abrigo. Sua partida em nada modificou minhas atividades, mas pode perfeitamente marcar o fim de um período, os cinco anos em que, a duras penas, gradualmente, conquistei o poder, isto é, o poder que me era atribuído.

A tentativa de assassinato também me atormenta por fazer-me lembrar o clima que então dominava na Corte. A vigilância montada ao meu redor por Aureliano e Barbosa relaxara-se com a minha coroação. Doravante, era possível aproximar-se do imperador, encontrá-lo no conselho de ministros, no conselho de Estado, em inúmeras cerimônias oficiais, ou até no teatro, aonde eu ia com freqüência.

Ainda sem conhecer-lhe os limites e as exigências, qualquer um podia, portanto, almejar as boas graças do príncipe, para o que todos obravam e solapavam tanto quanto possível os esforços do vizinho em lográ-lo. A etiqueta ensurdecia as invectivas, o cerimonial amortecia os golpes, mas mantinham-se os apetites, descomunais, ensandecidos e por vezes criminosos. Alguns esboçavam adulações, e depois, ao se aperceberem que me deixavam insensível, exageravam-nas às ralas do absurdo, às raias do execrável. Louvavam ao extremo o imperador, sua família, seus

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ancestrais e todos os que aparentavam ter a fortuna de agradá-lo. De repente, contudo, preocupavam-se: um rival parecia mais bem colocado, era mister barrá-lo, inventar alguma coisa para difamá-lo. Nisso empenhavam-se, semeavam calúnias, preparavam armadilhas. Entrementes, não governavam. Tal era o mundo onde entrei em 1840, armado de Plutarco e de Salústio.



Outorgada por meu pai, nossa Constituição pretendia ao liberalismo, que ele se absteve de aplicar. Encontravam-se enumerados e garantidos os direitos humanos, e a soberania popular manifestava-se, entre outras coisas, pela eleição para a Câmara dos Deputados e pelo controle por esta exercido sobre o gabinete. No plano jurídico, nosso regime era, ao lado dos da Inglaterra e da França, a mais avançada das monarquias. Havia-se inclusive introduzido, sob a influência dos textos de Benjamin Constant, uma novidade que não existia em nenhuma outra parte, a do poder moderador incumbido de controlar os três outros. Era o papel, a razão de ser do imperador.

Ele sancionava ou negava-se a sancionar as leis, ele nomeava e exonerava os magistrados. Também escolhia os senadores entre três candidados eleitos por cada província, uma função vitalícia, generosamente remunerada, com a qual sonhavam os políticos e que conferia à minha escolha uma importância toda especial. Por fim, o imperador podia, em circunstâncias graves, dissolver a Assembléia.

A essas prerrogativas somava-se uma que Benjamin Constant com certeza reputaria um sério barbarismo: o soberano escolhia os ministros, que eram responsáveis perante si. Exercia, pois, o poder executivo ao mesmo tempo que o moderador.

Essa confusão de poderes causou-me aborrecimentos por toda a minha vida. Cumpria admitir, à francesa, que o rei reina mas não governa? Ou cumpria seguir as glosas luminosas do visconde do Uruguai, cujo avô fora guilhotinado com os girondinos, e segundo as quais o rei governa, posto que reina?

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De toda maneira, a Constituição só fora aplicada nos seus artigos de exceção relativos à Regência. Em 1840, ignorávamos todos em que consistia exatamente o poder moderador e de que modo eu o exerceria.



Afora a Constituição, outros textos ou tradições atribuíam-me maneiras diversas de influenciar a marcha dos acontecimentos. Eu conferia ordens, títulos de nobreza, e esse privilégio não hereditário, que por vezes suscitava os sarcasmos da imprensa, sempre atraiu mais postulantes do que eu desejava. Fiz barões, viscondes, marqueses e um duque. Escolhi-os guiado pelo interesse do país, cuidando de esquecer minhas preferências. Devalde buscariam os meus validos. O amigo Pedreira, visconde do Bom Retiro, mereceu o título, tanto quanto os outros, pelo vigor de sua ação administrativa. Por fim, Defensor Perpétuo do Brasil, eu me encontrava naturalmente à frente de suas forças armadas e, por conseguinte, de sua diplomacia.

Para muitos, eu era todo-poderoso aos quinze anos. Digamos que possuía alguns meios de dar a conhecer minhas opiniões e guiar meu povo.

Seja como for, nos primeiros meses não se tratava de governar, mas de aprender. Apresentaram-me a lista dos mínistros, assinei-a sem titubear. Dela constavam os dois irmãos que conspiraram para me coroar, e outros que os haviam apoiado. Constava também Aureliano, presença tranqüilizadora.

Todo esse mundo pertencia à burguesia católica, no mais das vezes mestiça. As observações de Benjamin Constant para quem a reflexão política exige comodidades que só a posse de bens permite, haviam sido bem assimiladas. De maneira que se fixara, como em toda parte à época, uma renda mínima para quem pleiteasse a qualidade de eleitor.

A diversidade das correntes no seio de cada partido, suas rivalidades, suas alianças, suas rixas dificultavam a execução de uma política de longo fôlego. Governava-se no dia-a-dia, tratando o melhor possível dos problemas à medida que se apresentavam. Tencionava-se servir o país, mas todos subordinavam

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em seu coração a felicidade da Pátria aos favores do imperador.



Ora, o imperador não concedia favores. Atordoado com o tumulto das paixões a meu redor, preocupado em não proferir o disparate irreparável, temendo o ridículo e mais ainda o desdém que os velhos chefes políticos demonstravam por minha adolescência, eu me agarrava àqueles que conhecia. A integra inteligência de Aureliano, o vigor de Barbosa ainda me guiavam. No convívio com eles, senti que havia que resistir às adulações, estudar pessoalmente as questões e jamais ceder na dignidade.

Um homem feito poderia atacar tudo isso de frente com elegância, afastar os bajuladores sem magoá-los, e mesmo assim firmar uma autoridade benevolente. Mas eu era uma criança e acumulava as inabilidades.

A primeira, e quiçá mais grave, foi fechar-me em mim mesmo. Convinha desdenhar os elogios? Pois bem, eu não lhes daria resposta! Convinha temer proferir uma tolice? Pois bem, eu não me pronunciaria! Convinha desconfiar das interpretações abusivas? Eu não diria mais nada! Calar-me tornou-se meu sistema de governo. Assistia ao Conselho de Ministros, mantinha-me mudo. Ia visitar as repartições, as fábricas, os hospitais: não proferia uma só palavra. Todos conjecturavam às escondidas por que o menino-imperial taciturno e ponderado proibia-se a menor palavra de estímulo, o menor sorriso, e se, por infelicidade, tinham-no desagradado.

Entretanto, eu bem sentia que convinha falar, convinha agin Por certo tempo perdoar-me-iam uma reserva pueril, mas, e depois? Eu pressentia que findariam decidindo por mim, se eu não lograsse impor-me. "O rei reina e não governa." ó, céus! Estava eu, pois, fadado à passividade, teria eu que me resignar com a sorte de Vitória, quando na verdade eu fervilhava de projetos? Encontrava-se em jogo o poder, e meu trono quem sabe ameaçado, mas o que fazer?

Profundamente romântico, eu sonhava com o amor universal, com o bem que almejava fazer a meu povo, com as grandes proezas que realizaríamos. Mas o medo, o medo atroz do escárnio calcinava-me o espírito: de tudo o que me agradaria propor e cumprir só sobravam cinzas.

Por escrito, era um pouco mais fácil. Eu podia estudar a fundo um tema no sossego de meu gabinete; certamente não temia o esforço solitário, lera o suficiente para formar opiniões, senão para expressá-las em conselho. De modo que eu esquadrinhava os despachos e os relatórios e enviava a meus ministros Palavras de apreciação ou pedidos de esclarecimento.

Tínhamos um ministro da Guerra muito ilustre. Estudante em Coimbra no tempo da invasão napoleônica, ele lutara contrajunot num batalhão de universitários. Em seguida, servira a meu avô e a meu pai, em suas guerras. Tomei birra com esse velhote, que me dava a impressão de carecer de energia na reorganização do exército. Merecia ser um pouco destratado, apesar de seu prestígio. Eu lhe expedia bilhetes para criticar as promoções e exigir punições. Mas não lograva encontrar o tom adequado, queria ser firme e era descortês: um inimigo, já.

Minha altercação com Honório ocorreu um Pouco mais tarde. Aos cinqüenta anos, esse senadorjá acumulava atrás de si uma impressionante carreira política e brilhava como uma das principais estrelas do Partido Conservador.

Quando eu vinha de completar dezoito anos, ele formou um Gabinete conservador que parecia ir de vento em popa: a Câmara acabava de lhe conceder o voto de confiança. Porém, à guisa de primeiro ato de governo, esse homem temível decidira-se pela ruína do diretor da alfândega, de quem um parecer lhe desagradara. Afigurou-se-me injusta semelhante demissão, motivada por um desacordo puramente político. Resolvi defender o funcionário da alfândega.

Honório foi ao meu encontro e, praticamente sem explicitar sua posição, pôs sob o meu nariz o decreto de exoneração.

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Tomando-lhe o papel, respondi que iria refletir, e encerramos o assunto. Quando voltou, dois dias depois, pareceu-me um tanto esquentado. Sem rodeios, exigiu minha assinatura. Repeti-lhe que desejava refletir. Então, perdendo a cabeça, bateu no fecho de sua pasta e resmungou entre os dentes alguma coisa que ouvi muito bem: "Ainda que imperador, uma criança não deve zombar de homens que envelheceram a serviço da nação".



Com certeza, empalideci ao me levantar, e com certeza tremi, mas reuni coragem suficiente para articular: "O imperador meditará sobre a questão que há de ser resolvida em tempo útil." Malgrado o tom dilatório, esses termos, ele bem o sabia, eram, palavra por palavra, aqueles previstos pela Constituição quando o poder moderador veta uma lei. Foi o que bastou; Honório retirou-se, demitiu-se, junto com o seu Ministério, e foi-se ironizar no Senado. Em vão: já não lhe davam ouvidos.

Eu buscava onde podia a coragem para enfrentar esses homens maduros. O orgulho pelos meus antepassados, o hábito de mandar dentro do Paço, o desejo de um dia aceder à onipotência ajudavam-me, sem dúvida; mas também a convicção mais e mais nítida de que minhas leituras não haviam sido inúteis e de que meus conhecimentos causavam efeito tanto quanto meu mutismo. Eu observara durante os Conselhos que já conhecia o Brasil melhor do que a maioria dos políticos. Entretanto, jamais saira dos arredores do Rio de janeiro, mas lera narrativas de viagem.

Ninguém sorria quando eu comentava a pororoca do Amazonas ou os perigos da estrada de Curitiba. Toda a gente escutava-me, surpresa, perplexa. Eu ganhava um pouco de confiança em mim mesmo. Semelhante conhecimento acerca do Brasil, por livresco que fosse, era parte de meu oficio, conforme eu repetia: cumpre a um monarca conhecer seu país melhor do que os seus secretários, é questão de dignidade.

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Tal idéia viera-me no dia de minha coroação, ou seja, um ano após minha maioridade antecipada. O governo não economizara nas despesas: tratava-se de impressionar a plebe e agradar o príncipe. Queriam que eu reinasse como Luís Felipe mas coroar-me-iam como Napoleão. Aliás, escolheram para organizar as cerimônias um pintor de renome que estudara na França.



Este mandou edificar um dossel gigantesco no largo do Paço. Os corpos constituídos reuniram-se a meu redor para ouvirem arengas de toda espécie, saudações de escolares, odes à minha glória e fanfarras. Houve beija-mão até dizer chega! Fizeram-me então envergar os trajes imperiais, o manto de veludo verde salpicado de estrelas de ouro e a murça de plumas de galo-da-rocha. Eu transpirava como um mouro. Em seguida, cinco bispos entregaram-me, sucessivamente, as insígnias de meu poder: a coroa, a esfera armilar, a espada, a mão da justiça e o cetro coroado por um grifo. Quase fui ao chão sob esse peso, enquanto o arauto do Paço clamava a minha proclamação.

Fazia menos calor na capela imperial e pude sentar-me durante o sermão. As plumas da murça começavam a pinicarme o pescoço. jamais vi um galo-da-rocha nem encontrei alguém que houvesse avistado esse volátil amazônico, procurado por sua plumagem deslumbrante e famoso pelas artimanhas com as quais; seduz sua Remea. Arrancado do dorso de uma ave algo mítica, o ornamento conferia-me, por assim dizer, uma dignidade suplementar, a de um cacique supremo. Ele figura em todos os meus retratos com uniforme de gala, mas bem poucos artistas souberam restituir com exatidão a inacreditável nuance alaranjada de suas plumas.

A murça conteria algum encanto? Um pajé silvícola teria revestido-a com alguma substância? Ou seria simplesmente o sermão, tão maçante, do nosso bom bispo?...

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Identificando-me com o pássaro esplendoroso cuja plumagem eu envergava, repentinamente levantei vôo entre os faveiros e os mognos da Amazônia. Alcei-me, a floresta silenciosa estendia-se a meus pés, rumo ao infinito. Cruzei com araras, em seguida com um vôo de garças, por fim, com uma águia, espantada que alguém ousasse atingir as solidões de seu reino. Galo-da-rocha sedento de zênite, varei o azul qual uma flecha vermelha. Atingi alturas inefáveis, e olhei. Entrevi a neve dos Andes, o Caribe, o oceano, o rio da Prata. O Império, meu Império espraiava-se langoroso e esplêndido. Por sua forma dilatada ao alto, estreita embaixo, identífiquei uma cornucápia prestes a derramar seus tesouros sobre o mundo.



Observava meus rios e suas bacias imensas: o Amazonas, o São Francisco, o Paraná. Notei o terrível escarpamento à beira do mar, atrás do qual planaltos férteis e ermos descem suavemente até os Andes, como se em tempos idos outro mar houvesse-nos banhado, ao sopé das cordilheiras. Admirava a harmonia das cores. Aquela massa escura ao norte era a floresta. Ali os padres estabeleceram povoados à margem dos rios, os da ordem do Carmo ao norte, no Negro, os jesuítas ao sul, no Madeira. Mais adiante, surgia a cana-de-açúcar em manchas cor de esmeralda debruadas de praias douradas: Pernambuco e Bahia exibiam-me o seu esplendor. Precedida pelo ocre dos sertões nordestinos, Minas Gerais oferecia o seu oásis luminoso e fresco, com seus vulcões extintos, suas montanhas e seus prados. O verde lustroso dos cafezais já anunciava a província do Rio de janeiro: cresciam em fileiras apertadas, às portas da cidade, e volutas pretas assinalavam as matas que eram queimadas para lhes abrir caminho. Indo rumo a São Paulo, a terra tornava-se roxa, mas no Sul, tão logo ultrapassadas as montanhas, o verde retomava o seu império e coloria o pampa. Por fim, a oeste, pelas fronteiras longínquas do Mato Grosso, vi cintilarem os pântanos à margem dos quais antigos fortes vigiavam: Coimbra, Cáceres, Beira...

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Baixei ligeiramente a fim de procurar distinguir a marca dos homens na terra. Éramos bem poucos para ocupar tanto espaço: cinco ou seis milhões de habitantes, afora os escravos, que jamais eram contados, tamanho o medo que infundiam. Onde, afinal, viviam meus súditos? Com esforço, avistei umas palhoças perto dos rios, fazendas isoladas e, pela pista de Minas, um conjunto de tropeiros que desciam carregando peles em direção do mar. Aquilo que galopava lá longe, no pampa, talvez fossem cavaleiros, talvez emas. Mais nada.



Por fim, enxerguei homens no litoral, caranguejos pusilânimes apinhados entre mar e montanha. Ali haviam construído suas cidades. Belém vegetava sob o Equador, Recife murava-se em seus conventos e em suas escolas, Salvador regurgitava o ouro dos traficantes de escravos, Rio dejaneiro enfim, a minha cidade, entregava-se toda à sua paixão pela ociosidade. Contava com aproximadamente 150 mil almas, hoje acolhe quinhentas mil. É um progresso? Tenho alguma coisa que ver com isso?

Salvo esses portos, eu nada enxergava, ou praticamente nada: uma cidadezinha universitária, São Paulo, modorrava à beira de um riacho e, num vão de montanha, pensei ver brilhar o ouro barroco de Ouro Preto.

Lá de cima compreendi as razões da calamitosa concentração no litoral. Possuíamos a riqueza e o espaço, faltavamnos os meios para merecê-los. Os romanos riscavam o mundo com suas estradas, os franceses, os ingleses calçavam seus principais caminhos para a passagem de suas diligências. Os americanos perfuravam canais. Não possuíamos nada disso, íamos a cavalo, de carro-de-boi, a pé, e, sobretudo, de barco. Levavam-se três dias de mar para chegar a Santos, e, dali, mais um dia para subir até São Paulo, a duras penas. Nossos barcos levavam oito dias até Salvador, doze até Recife, trinta até Belém: tudo era longe, tudo era ermo.

jurei a mim mesmo tudo modificar. Haveria de abrir nossas províncias ao comércio e, portanto, à cultura, às luzes, ao progresso. Haveria de despachar agrimensores e geólogos para os

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quatro cantos do Império a fim de recensearem e cálcularem-lhe as riquezas. Haveria de domesticar os rios, construir represas, modernizar os portos: era mister, era o essencial, o mais viria de per si.



Toda a minha vida lutei nesse sentido, ou tencionei lutar. Aprovei projetos, autorizei concessões e contribuí do meu bolso para empresas de transporte. Hoje, não estou certo de tê-lo conseguido. Possuímos uma estrada, que leva às portas de Minas, um canal, nove mil quilômetros de estradas de ferro. Necessitaríamos de cem mil. Afinal, o que preteri ou neguei-me a fazer? De que maneira quebrou-se o ímpeto romântico que tanto me animava naquele dia, durante o sermão de um velho caduco que finalmente o Te Deum interrompeu?

Fui para a Quinta da Boa Vista dormir, exausto por aquele dia, e retomei o trabalho desde o alvorecer. Havia mil questões a solucionar. Em meu vôo emplumado cor-de-laranja eu não vira, ou não quisera ver, o clarão dos tiros e o cintilar das baionetas: lutava-se em meu Império, lutava-se por toda parte.

A Regência conseguira apaziguar o Pará, Pernambuco e Bahia; para reprimir os graves distúrbios do Maranhão, recorreu-se, em 1840, ao jovem oficial que derrubara meu pai, o general Alves de Lima.

Eu o conhecia e apreciava, ele ensinara-me esgrima. Já empapuçado por essa época, ele usava um bigodinho de poeta. Mais tarde, viriam as costeletas e o jeito de marechal russo. Avaro em palavras, ríspido e direto em seu comportamento, não chegava a ter, porém, ares de um chefe de guerra. Carecia de um não sei quê de bárbaro, e, sob as pálpebras pesadas, seu olhar traía um cansaço desiludido, como se houvesse aprendido, ao mesmo tempo que a arte de matar os homens, a de conhecê-los e julgá-los pelo que valem. Tal humanidade cética, que meu pai teria detestado, muito me agradava.

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No plano militar, era um desses generais que ganham suas batalhas antes de travá-las, porque mais brilham na preparação do que na manobra. Por vezes atríbuiram-lhe reflexos táticos algo sumanos e lentos. Fraco de intuição, quiçá por abominar o menor risco de revés, recuperava-se na organização. Era o homem dos preparativos, dos campos de instrução, dos mapas bem-feitos, das patrulhas de reconhecimento, do lento amadurecimento das manobras. A tropa em suas bases, o inimigo em sua toca aguardavam sua disposição. Um dia, considerando-se pronto e absolutamente seguro de vencer, ele atacava. Então, havia que segui-lo, suas marchas e contramarchas tornaram-se legendárias.



Foi dessa forma que liderou a campanha do Maranhão, coroada pela queda de um burgo chamado Caxias, último reduto dos rebeldes. Conferi ao vencedor o nome dessa batalha, ao fazê-lo barão, o primeiro dos títulos de que o cumulei.

Se ilustrou-os por seus triunfos, mereceu-os ainda mais pelo uso que fazia da vitória. Caxias não era homem de pilhagens, de incêndios punitivos, de execuções sumárias. Mais ainda que o sucesso, ele saboreava a clemência. Conforme demonstrou em todas as nossas guerras civis, ao respeitar os revoltosos derrotados, ao compreender o desespero ou o erro que os extraviara, ao enxergar nos adversários brasileiros a serem convencidos mais do que inimigos a serem esmagados. Devo-lhe muitas adesões que outros não teriam sido capazes de obter.

Devo-lhe mais, inclusíve. Não estou certo de que, aos dezoito anos, eu me atreveria a ser indulgente e a impô-lo a meus conselheiros. Graças a ele, cedi mais facilmente a minhas propensões naturais: o horror pelos rancores duradouros e pelas divisões nacionais. Perdoei, creio, mais que outros. Não há injúria, não há traição que eu não tenha sabido esquecer caso reconhecesse em seus autores as qualidades de que o país necessitava. Retribuí muitas mágoas com baronatos ou marquisatos, e meu Conselho de Estado acolheu mais de uma

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inteligência que se imaginava irrecuperavelmente implicada em minha perdição. Eis o traço de meu caráter que prefiro; nada tem de evangélico, mais se trata de abnegação em face dos interesses da pátria. Bem posso, aqui referir-me a grandeza. De onde me vem ela? Quem sabe, de certa forma, de Cornefile:



"n'est Mme rwers moi qu'un repentir n'efface... si tu veux me hair, hais-moi sans plus renfeindre,. Si tu me yeux aimer, aime-moi sam rien craindre."

... mas também, em parte, de caxias, estrategista conciliador. O general-barão ainda tinha muito a fazer, a sedição cruzava o país como incêndio no matagal. Em São Paulo e em Minas Gerais os liberais empolgaram as armas em 1842: convoquei Caxias.

Pelo menos dessa vez, o corpo expedicionário estava pronto. Caxias embarcou-o sem tardar, desembarcou em Santos, galgou de imediato a serra costeira com sua artilharia e chegou a São Paulo. Não encontrou qualquer vestígio dos rebeldes, que, com vagar, concentravam-se mais a oeste. Findou encontrando-os na planície de Campinas, onde eles debandarani sem combater.

O passeio militar complicou-se diante dos revoltosos de Minas, mais aguerridos e comandados por um coronel prussiano. Caxias teve que travar batalha em terreno montanhoso, delicado, onde um erro de apreciação quase lhe custou a vitória. Mesmo assim, safou-se do aperto. Em três meses, restabeleceu a ordem em toda essa parte do Impéxio.

Foi por essa época que recebi a visita perfumada de Domitila. Meu pai cumulara-a de honrarias, de riquezas e de filhos. Ela vivera cinco anos com ele, numa casa deliciosa a cem metros da Quinta. Ali davam festas mirabolantes cuja algazarra

Não há crime contra mim que um arrepender-se não apague.../ Se queres me odiar, odeia-me sem mais nada fingir./ Se queres me amar, ama-me sem nada temer. (N.T.)

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minha mãe podia escutar de seu quarto. Isso contribuiu para o seu falecimento, conforme já disse, e só a incomparável beleza de minha madrasta Amélia pôde fazer a estrela de Domitila declinar.



Diante da ninfa européia, a escandalosa eclipsou-se em São Paulo, onde vivia em meio a uma corte de admiradores. Um deles comoveu-a, rico fazendeiro de cabelos já grisalhos. Ciente da marcha do tempo, entregou-se docemente ao novo amor que ela pressentia ser duradouro; mais tarde, porém, as coisas desandaram.

O velho gaiteiro fazia política, era um dos chefes da rebelião que vinha de ser derrotada. Ela fora encontrá-lo em Campinas, quando os soldados revoltosos rendiam as armas, evaporavam-se pela floresta e retomavam o caminho de suas fazendas. Na cidade esquadrinhada pelos legalistas, os dois pombinhos zanzaram à noite de igreja em igreja, à procura de um padre para casá-los, conquanto suas esperanças já caíssem por terra. Terminaram encontrando um. Em seguida, o marido rendeu-se, e Caxias mandou-o prender. Sua esposa vinha pedir-me a graça.

Eu a fitava narrando para mim mesmo sua romanesca aventura. Observava-lhe a toalete, calculada de modo a conferir-lhe ares de penitente, mas sem prejudicar-lhe sobremodo o encanto: vestido de cetim preto com manguinhas e renda cor de malva disfarçando o decote, pouco arrebique mas jóias, perolas e esmeraldas, na certa presentes do finado imperador. Calculei que devia ter 45 anos. As rugas em volta dos olhos realçavam-lhes o brilho, em vez de empaná-lo. Seu colo farto, seus braços sublimes, um pouco gordos, davam-lhe uma majestade voluptuosa sob a qual pressentia-se, mal-e-mal domesticada, a suculenta mescla de alegria, sexo e distinção que lhe valera o título de marquesa de Santos.

Falava devagar, olhos baixos, aflita diante de minha impassibilidade, ora feminina, ora quase maternal, evitando evocar meu pai, insistindo na paixão que lhe dedicava o seu fazendeiro,

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minimizando-lhe os erros, quando na realidade o pilantra proclamara-se com despudor presidente de São Paulo no lugar daquele por mim nomeado.



Procurando dominar minha timidez, eu buscava a coragem de me mostrar severo perante tão grave ofensa. Debalde. Meu pai escolhera aquela mulher, dera-lhe um título de nobreza, viveram juntos. Não seria ela parte de minha família, dessa família tão dolorosamente ausente? Afinal, quem no Brasil, afora minhas irmãs, podia pretender a tal qualidade? A marquesa deve ter sentido em mim a necessidade de parentela, com a qual manobrou. Interrogou-me sobre os velhos cortesãos de minha infância, sobre a Dadama, sobre minha irmã Maria, rainha de Portugal, de quem se lembrava muito bem. De meu lado, pedi-lhe notícias de minha meia irmã, a duquesa de Goiás, que tinha aproximadamente a minha idade. Respondeu-me que fizera um ótimo casamento na Alemanha.

Conversamos sobre as novidades da cidade do Rio de Ja neiro, sobre as modificações que eu planejava empreender na fachada de São Cristóvão, sobre as perspectivas abertas pela cultura do café em sua província... A graça para o velho marido já não deixava dúvidas. Ainda por muito tempo ele dominou a política de sua província, desde então fidelíssimo à mo narquia e à minha pessoa. Nunca mais revi a marquesa.

Reprimidas com facilidade no plano militar, as revoltas de 1842 deixaram cicatrizes. O espectro da secessão recusavase a dissipar-se. Ameaçava-nos sobretudo no Sul, onde havia quase dez anos que se guerreava, sem resultados.

Mais próximos de Buenos Aires do que do Rio de Janeiro, os habitantes dessas paragens adotaram costumes muito diferentes dos nossos. Providos de um território onde cavalos e bois multiplicavam-se à vontade, robustos e bem nutridos, amantes de cantigas e danças, detestando as cercas e os impostos, eles indagavam para que podia servir, no fim das contas, um governo central, ou mesmo, pura e simplesmente, um governo. Puseram-se a apresentar pleitos, conquanto protestando

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obediência à monarquia, mas quando a Regência despachou-lhes a tropa, proclamaram uma república. Um aventureiro italiano chamado Gaiibaldi foi ao encontro deles e, marchando pelos rincões montanhosos de Santa Catarina, instituiu outra república, antes de se retirar prudentemente em face de uma coluna governamental.



Caxias era o general em voga, foi mandado para a guerra distante. Fiel a seu feitio, instalou-se, escutou, observou. Tão fino político quanto bom militar, compreendeu as mágoas de amor-próprio, calculou os mal-entendidos, avaliou as fidelidades. Tudo girava em torno do comércio de charque, a carne seca que alimentava os escravos e era vendida em todo o Brasil. O mais não passava de um emplastro republicano em cima de vaidades feridas. De modo que ele restabeleceu o comércio, desobstruiu estradas, reabriu os matadouros, renovou contratos. Assim, conseguiu seduzir um dos chefes da rebelião e obteve sua adesão. Só então partiu para a guerra.

Lutava-se a cavalo, lutava-se depressa. De repente, esquadrões ligeiros, emboscados atrás de uma ondulação de terreno, disparavam contra um acampamento tranqüilo onde soldados assavam um boi. Quando o cerco apertava demasiado, bandeavam-se para o Uruguai a fim de pouco depois atacar o outro extremo da fronteira. Caxías não se fatigava com esse bárbaro carrossel. Amargou as derrotas, conquistou algumas vitórias. Propunha a paz, recusavam-na, ele repartia para a peleja, comprava adesões e renovava os oferecimentos de trégua; em vinte meses, pôs fim a uma guerra de dez anos.

No Paço, eu acompanhava essas campanhas com um entusiasmo juvenil pelas aventuras distantes em regiões que procurava imaginar. Martirizava as repartições do Ministério para que me inteirassem dos episódios mais significativos, das mais ínfimas decisões. Minha sede de pormenores nasceu por essa época. Como Caxias, eu não queria deixar nada ao acaso, e pretendia saber tudo sobre as armas, as munições, a forragem dos cavalos e a ração dos homens. Os funcionários davam de

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ombros, espantados que alguém lhes disturbasse dessa maneira a sonolência, mas eu insistia, exigia e obtinha aquilo que se lhes afigurava irrisório e que me parecia decisivo.



De minima non curat praetor, dizia-se em Roma; de minha parte, pretendo, ao contrário, que é pelos pormenores que um príncipe controla seus ministros e seus generais, que lhes perturba, proveitosamente, o sossego ao interrogá-los sobre o que devem conhecer. A minúcia, longe de prejudicar os vastos pensamentos, alimenta-os, propaga-os e sustenta-os.

Houvessem meus ministros se atrevido, e poderiam ter respondido ao adolescente que os importunava que seus vastos pensamentos do momento eram mais importantes do que um carregamento de feno para a cavalaria, posto que diziam respeito a mim. em primeiro lugar, já que se tratava do meu casamento.

Será mesmo necessário repisar semelhante episódio tão penoso, chicotada assentada pelo destino em um adolescente romântico e sincero? Para que reabrir a ferida desde muito fechada? Enganaram-me, é verdade, mas acreditavam agir corretamente. Odiei minha esposa por seis meses, suportei-a por dez anos e, depois, envelhecemos lado a lado. A adoração que me devotava tornou-a menos insuportável, aprendi a respeitar-lhe a bondade, a dignidade, a perdoar-lhe os cômicos ciúmes. Mesmo sua parvoíce contrita terminou por me enternecer e com toda a sinceridade pranteei-a quando ela me deixou.

Pálido, bem pálido consolo para um ancião que desperdiçou sua primavera em gestos estéreis. Eu sei: fiz em minha juventude coisas das quais nem todas foram inúteis, mas hoje, quando o trono está perdido, quando o Brasil vacila, que me importa? O que eu tanto gostaria de poder me contar, o que eu então almejava era a paixão, essa que dilacera aos 20 anos, essa que nos sacode, nos contorce e nos precipita nos êxtases

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e nas abominações. Sondo minha juventude, encontro uma azá£âma inútil, falas intermináveis, manobras, guerras, mas onde estão as serenatas, os dedos que se tocam, as tolices murmuradas, onde estão as lágrimas, onde estão as rosas?



Sentia-me pronto para amar naquele verão de 1843, como sentia-me pronto! Minha esposa logo surgiria, fina, suave, luminosa como nos versos que eu lia: uma Elvire, uma Eva. Então, "o amor, divino vadio, enfiando-se entre as almas", invadir-nos-ia para sempre. Adeus, palácio sinistro, adeus, deploráveis intrigas! Nós nos amaríamos. Ela haveria de me ajudar, eu haveria de extrair de seus olhos a força para governar, haveria de encontrar em seu coração ventura suficiente para prodigalizar a meu país. Ai de mim!

Desde muito tempo eu compreendera que não me cabia escolher. Nesse ponto, assim como em tantos outros, um monarca é menos livre do que seus súditos. Também aprendera que minha esposa deveria pertencer necessariamente às famílias reais da Europa, o que não havia certeza de se lograr. Eu não era rico, reinava num país distante, politicamente insignificante, monarquia tão recente que prestava-se ao riso. Por fim, os excessos de meu pai não deixavam-me atrair os favores das mamães: não desfrutávamos de boa reputação.

Aureliano tomou a questão em mãos. Decidiu ele que só em Viena podia-se encontrar um partido aceitável, e que meu tio, o imperador da Áustria, por mais decrépito que fosse, dispunha em sua corte de arquiduquesas suficientes para nos tranqüilizar. Isso significava entregar-se a Metternich. Decerto meu mentor desconhecia que este o chamava de "o mulato Aureliano". Enviou um diplomata a Viena com plenos poderes para trazer-me uma esposa e, já que estava lá, um marido para cada uma de minhas irmãs.

Três meses passaram-se, depois seis, depois doze. Principiávamos a desconfiar que Metternich não nos estimava, que se recusava a imolar-nos uma austríaca, que não se dignava a procurar para nós em outra corte. Para nosso enviado, era

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cada vez mais dificil ser recebido. Valsando, a corte ironizava o alcoviteiro exótico que não gozava da estima do todo-poderoso ministro. Ele deixou a Hofburg e pôs-se a freqüentar o corpo diplomático, que se condoía de sua sorte. Foi nesse pequeno mundo, após dezoito meses de incertezas, que se encontrou com o embaixador do rei de Nápoles: este possuía não uma, mas três princesas para casar.



Nosso homem pulou em cima da ocasião. Temendo o insucesso de uma missão que se complicava dia a dia, e desejando retornar o quanto antes ao seu país, partiu para Nápoles. Ali, sem consultar ninguém e confiante nos poderes que lhe haviam conferido, assinou com a maior naturalidade o meu contrato de casamento. Em seguida, conseguiu um retrato da minha noiva e enviou-me.

Aureliano estimava-se relativamente satisfeito. A família de Nápoles, os Bourbon Sicília, traziam em suas veias tanto sangue azul quanto se podia desejar. Minha noiva, Teresa, era Bourbon por três de seus avós, Habsburgo pela outra avó. Era de esperar que não tivesse o mesmo temperamento, digamos, extravagante de sua irmã, a duquesa de Berry; ou de sua mãe que, após ter criado dezessete filhos, acabava de contrair segundas núpcias com um belo coronel.

Evidentemente, a família era pobre, e o dote, minguado, haveria que se descobrir outra coisa para enriquecer minha casa. Ademais, a moça tinha quatro anos mais do que eu, o que era desagradável, mas, afinal, diziam que era piedosa e ótima cantora, e, além disso, tratava-se da sobrinha de Maria Amélia, rainha dos franceses, o que podia ter sua valia.

Quanto a mim, eu só manifestava um único senão, referente a meu futuro cunhado, o rei de Nápoles Fernando II. Esse príncipe católico ao extremo podia satisfazer os conservadores do meu ministério, mas a mim não me agradava nem um pouco. Proibira o porte da barba no seu reino, alegando que era um sinal de reconhecimento dos republicanos. A semelhante ridículo, acrescentou a crueldade, conforme vimos cinco anos depois, quando sua armada bombardeou selvagemente seus súditos de Messina. Chamaram-no de rei Bomba. Eu não gostava nada desse aspecto da aliança. Não era eu o único; para me atingir por intermédio dele, um de meus opositores qualificou Bomba de monarca "atrozmente piedoso e devotamente verdugo". Convinha adotar uma atitude de desconfiança quanto à família de minha mulher. Por ora, havia que esperar pelo retrato.

Este chegou, circulou ao redor da mesa do Conselho, pelas mãos do mordomo-mór e dos vultos da Corte. Os ministros deram um suspiro de alivio. Por fim, mostraram-me. Contemplei, tendo ao fundo o Vêsúvio, o rosto de uma moça com penteado de gala e diadema de rubis, e encantadores cachinhos emoldurando faces bem cheinhas. Ela sorria, descontraída, serena, mais simpática do que sensual. Corri a mostrar a efigie às minhas irmãs, que me confirmaram a impressão. Por fim, tranquei-me em meu quarto para sonhar: minha noiva era bonita, eu seria feliz.

Necessitamos de dez meses para armar a fragata Constituição que iria a Nápoles buscar minha esposa. O objetivo era maravilhar os napolitanos e sossegá-los quanto ao fausto que reservávamos à sua princesa. Por todo lado havia ouro e prata, o castelo de popa foi transformado numa caixinha de bombons, ali instalando-se um salão para 24 pessoas, um quarto dominado, ao centro, por um leito de mogno com baldaquino de cetim branco. Os decoradores atrasaram-se, como de costume, e também os marinheiros, que foram treinados nas manobras para termos a certeza de que não fariam feio ao dobrarem Capri.

Acompanhada por duas corvetas, a fragata aparelhou em março levando a bordo meia dúzia de damas de honra e um eminente tabelião, incumbido de receber minha esposa em casamento, em meu nome. Um mês depois da chegada a Nápoles, a esquadra, agora escoltada por três navios napolitanos, tornou a partir com Teresa, doravante imperatriz do BrasiL

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Dia 3 de setembro de 1843 ... Estamos em 1891 e ainda tremo ao proferir a data maldita ... Dia 3 de setembro, por volta das seis da tarde, a Constituição fundeava na bala do Rio de janeiro. Eu a esperava, sentinelas haviam-na assinalado no raiar do dia ao largo de Cabo Frio.



Tudo estava pronto para a cerimônia do dia seguinte: "Às dez horas, Sua Majestade, com uniforme de almirante, alcançará a Constituição a bordo da lancha imperial, enfeitada na proa com o dragão dourado dos Bragança, na popa com um dossel de veludo verde. Os 24 remadores portarão em seus chapéus a fita branca com as cores das Duas Sicilias. As tripulações da esquadra, de pé nos estribos de verga, saudarão a chegada do soberano com um triplo hurra, enquanto a Parthenope disparará por seu estibordo uma salva de canhão.

Três outras embarcações transportarão os ministros, os camaristas e os fidalgos da Câmara. Convida-se o corpo diplomático a obter, às suas expensas, barcas que poderão hastear as cores dos representantes credenciados.

"O imperador fará um breve agradecimento ao comandante da fragata tão logo os fuzileiros tenham-lhe apresentado armas. Em seguida, dirigir-se-á aos aposentos de S.M. a Imperatriz, onde esta o receberá em presença de suas damas de honra e de seu irmão, S.A.R. o conde d'Aquila.

"O casal imperial sairá de bordo às onze horas. Então, as igrejas, capelas e conventos da capital repicarão os sinos. A policia terá distribuído petardos e foguetes entre as classes trabalhadoras. A lancha imperial acostará no cais doravante batizado de cais da Imperatriz. Então, os soberanos dirigir-se-ão em carruagem à capela imperial para um Te Deum e um beija-mão, e depois, dali, à sede da Câmara Municipal. SS-AA.II. as princesas irmãs de Sua Majestade, e SAR. o conde d'Áquila, os ministros e os dignitários do Paço seguirão em quinze coches. Aconselha-se aos comerciantes edificarem arcos de triunfo no itinerário do cortejo.

"Em seguida, dirigir-se-ão ao Paço de São Cristóvão para um jantar de gala. A municipalidade organizará bailes nas paróquias

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onde os escravos serão autorizados a exibir suas danças e tocar sua música em homenagem à S.M. a Imperatriz, mãe dos brasileiros."



O programa era perfeito, eu reconhecia o dedo de Barbosa, sempre irrepreensível quando se tratava de cerimônias oficiais. Dentro de dezesseis horas, eu conheceria minha mulher, cujo retrato havia dezesseis meses que eu beijava. Por ora, convinha acalmar-me, trabalhar um pouco, ler talvícz, dormir. Dezesseis horas! Era insuportável.

Chamei minha irmãJanuária, mandei atrelar e enviei um estafeta ao Arsenal para que se armasse uma galeota. Lá pelas nove horas da noite, desafiando todo o protocolo, aproximávamo-nos da fragata onde já soava o apito de um arrais aflito: "o imperador está chegando, o imperador está aqui!". O imperador ardia de excitação.

Minha mulher fora avisada às pressas, esperava-me no convés quando cruzei o portaló; ergui os olhos. Ela era baixa, quase uma anã, ela era gorda, ela coxeava. Ela era feia.

Findava-se o retrato, findavam-se os sonhos: a verdade diante de mim, brutal, tão brutal que uma tonteira forçou-me a escorar-me no ombro de Januária. O sorriso de Teresa cristalizou-se antes de se desfazer de todo; ela compreendera muito bem. Fitamo-nos, murmurei um cumprimento de boas-vindas e depois algo como "até amanhã", e tornei a descer a escadinha que levava à baleeira.

já não me lembro, senão vagamente, da noite que se seguiu, do trágico enterro de minha vida de solteiro. Eu pensava em demitir os ministros que me haviam tapeado. Pensava em mandar embora a imperatriz, espécime não conforme, e soluçava de ódio contra a pobre pequena. Boa família? Ah! nós conhecemos as Duas Sicílias, curta e vergonhosa história. Bonita voz? Detesto as cantigas. Piedosa? Abomino as carolices. Caridosa? Então, que me poupe desposá-la.

A Dadama veio ao meu encontro, pálida de agonia. Quis me consolar, referiu-se ao dever sagrado. Invocou a fatuidade

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da beleza, a onipotência do tempo que passa, a solidez dos amores quando sustentados pelo dever, a difícil construção da felicidade conjugal, garantia de sua perenidade. Demitir o ministério? Que criancice! Mandar embora a princesa? Que desatino! Os Bragança banidos da Europa por dez gerações! Então, não havia nada a fàzer? Sim, rezar, trincar os dentes e, depois, procurar dormir um pouco antes do carnaval do dia seguinte.



Teresa concebeu meu primeiro filho em maio, dez meses depois. Nada mais direi sobre nossas relações durante esse período, senão que em maio eu necessitava urgentemente de um herdeiro, porquanto em abril o maroto do seu irmão desposarajanuária e poderia, caso eu falecesse, subir ao meu trono.

Quanto a Francisca, havia tempos que partira. Joinville, que já conhecíamos, fora buscá-la a bordo do BeNe Poule, o navio em que ele acabava de transportar à França as cinzas de Napoleão. O espertinho escondera suas intenções durante a primeira visita, mas todas as hetairas de Paris não o fizeram esquecer-se da brasileirinha. Francisca estava com 18 anos. Reputava-o bonito, engraçado, generoso, e, além do mais, havia aquele cheiro salgado de marinheiro e aquela maravilhosa farda escura... Ele pediu-me a sua mão, senti-me radiante em concedê-la. Por ele eu me aliava aos Orléans.

Essa família merecia toda a minha admiração, toda a minha simpatia. Mantenho-as ainda hoje, e esforço-me para imitar em meu exílio a dignidade do exílio dos Orléans. Aprecio sua vontade de viver, sua cultura, seu bom senso. Minhas idéias políticas correspondem às suas: respeitar o povo que, um dia, haverá que conduzir ao comando, sem por isso fraquejar em face da violência dos canalhas.

Conheci-os todos: Nemours, Montpensier, a duquesa de Saxe, Aumale, que ainda outro dia oferecia-me um jantar em Chantilly. Todos ajudaram-me com seus conselhos, suas intervenções, com as pessoas que me apresentaram. Como se sabe, desde aquela época nossas famílias estão estreitamente ligadas e orgulho-me de semelhante harmonia, conquanto preferisse

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que se mencionasse os Bragança e Orléans, e não os Orléans e Bragança.



Joinville fez Francisca feliz. Por certo, os venturosos dias nas Tulherias com Luís Felipe não duraram: quatro anos de bailes, viagens e jogos, e depois, a revolução e o longo exílio na Inglaterra. Minha irmã nunca retornou ao Brasil, mas acompanhou de muito perto os meus problemas e jamais hesitou em dar-me sua opinião sobre tudo o que me dizia respeito. Com a idade, terminou se esquecendo de nossa língua, e seus galicismos irritavam-me; hoje, enternecem-me. Sei que seu coração não se esquece.

O casamento de Januária deu-me muito mais preocupações do que o de sua irmã. Os incidentes que suscitou fizeram-me padecer uma farândola de amarguras que eu ainda ignorava: os ciúmes, a humilhação, a desavença fraternal. Sem desculpar minha tola brutalidade naquela circunstância, atribuo-lhe, porém, uma explicação: por essa época, eu tomei conhecimento de que não era popular, e de que outros podiam sê-lo em meu lugar. Tal descoberta foi-me intolerável.

Como deve ser doce granjear o sorriso dos pobres, os vivas de uma multidão, o amor de um povo! A história julga os resultados, é claro, mas onde estão suas recompensas? Devo contentar-me com os elogios de um compêndio do próximo século? A própria idéia de que um escrevinhador do futuro tencione esquadrinhar minha vida e compreender o meu pensamento horrípila-me. As calúnias, estou convencido, não haverão de cessar após minha morte. Sempre existirá alguém para avançar inépcias, como esta, por exemplo, de que o sorriso dos pobres também é importante, pois inspira os bons reis e ajuda-os a governar. Tolices? Ahi, já não sei. Não soube ser popular, como se aprende? Januária o era. Atribuíam-lhe o sorriso

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afável e a dignidade de uma rainha. Quanto a mim, reputoa algo tola, não lhe concedo o espírito nem a graça de Francisca. Contudo, devia ter algum brilho aos vinte anos, uma vez que, por ocasião de minhas bodas, Áquila, irmão de Teresa, lançou-se sobre ela e transtornou-lhe o coração. Noivaram tacitamente antes que ele partisse para Nápoles, de onde regressou seis meses depois. Desposaram-se em abril e minhas contrariedades principiaram.



Áquila levava às raias da caricatura as qualidades e as esquisitices que costumam ser atribuídas a seus compatriotas. Bem-apessoado, voz forte, olhar imperioso, impressionava antes de tudo por certa majestade. Sua presença era logo notada, mesmo no salão mais animado.

Bastava aproximar-se dele e seu olhar se aveludava, surgia o sorriso, encantador, contagiante, aparentemente sincero. Tinha um modo jovial de abraçar, de deixar muito tempo a mão no ombro alheio, fingindo simplicidade. Insinuante com as mulheres, sussurrando para as mais desenxabidas elogios extravagantes, também adorava fàzer os homens rir. Seus chistes de fumoir, por vezes ousados, para não dizer inconvenientes, circulavam pelas ante-salas de São Cristóvão. Em suma, gastador como um boiardo, xucro como uma porta, jogador como um milorde, e muito menos escrupuloso que um bandido calabrês.

Detestei-o desde o primeiro dia. Não lhe perdoava seus defeitos nem, sobretudo, suas qualidades, por saber que destas eu carecia. Minha timidez reputava estúpida a sua facúndia e vulgar a sua cordialidade.

Entretanto, havia que me habituar com o cunhado. Enquanto não tivesse eu um filho, Januária, princesa herdeira, não estava autorizada a sair do Brasil: a Constituição proibia-o. Assim, alugaram uma casa no bairro de Botafogo, e puseram-se a receber. Paulo Barbosa, que nos criara e que administrava as nossas fortunas, quis vigiar-lhes o trem de vida e indicarlhes a criadagem: mandaram-no passear, secamente. Começaram inclusive a receber seus adversários, junto com os de Aureliano.

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Fizeram festa para Honório, que eu acabava de demitir. Ligaram-se também a gente que eu sequer conhecia, que jamais comparecia ao Paço.



Todos comentavam essas recepções. Parece que Januária brilhava, a pobre moça. Áquila pavoneava-se, relacionava-se com qualquer um, inventava excursões sempre exitosas, piqueniques durante os quais jamais chovia. Eu, levantando-me às cinco horas, escrevia a Caxias e lia Hopstock, enquanto minha irmã e seu marido tornavam-se a coqueluche do Rio de janeiro.

Imaginavam estar se comportando mal? Houve de verdade uma conspiração para derrubar-me e colocar minha irmã e seu janota no trono? Hoje, não creio, mas sopravam-me ao ouvido. Convinha desconfiar, o napolitano nutria ambições. Aventureiros ingleses não acabavam de lhe oferecer o trono da Bolívia, certos que estavam de derrubar a república instalada? Ele recusara: prova de que visava mais alto. Precavei-vos, Majestade.

Acreditei nessas potocas que me eram relatadas especialmente por Paulo Barbosa. Eu estava errado, mas elas me convinham. Conspiração ou não, havia lá em Botafogo uma congregação de políticos que não me estimavam, que me consideravam tristonho, maçante, demasiado jovem; aí se situava a ofensa, intolerável.

Resolvi tirar a questão a limpo diretamente com minha irmã e seu marido. Acusei-os sem rodeios de conspirar a mi nha ruína. Áquila intimou-me a fornecer-lhe as provas. Eu não possuía nenhuma, franzi o cenho e parti proferindo vagas e ridículas admoestações. Tendo esse revés fortalecido-me o ran cor, a situação envenenou-se, a discórdia familiar fez-se notória.

Ostensivamente, ignorei meu cunhado nas cerimônias. Ele não foi convidado para os festejos do aniversário de minhas bodas, apesar das lamúrias da imperatriz: eu descobrira pelo menos isso para afirmar meu poder. Aliás, tal manobra pueril funcionou às mil maravilhas: Áquila começou a parecer

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um empesteado, seus acólitos abandonaram-no; encerraram-se as recepções, ele se viu sozinho com Januária.



Humilhado pelo isolamento, tornou-se insolente, grosseiro: esta era a verdadeira índole do personagem, do marido que arruinou minha irmã, do homem que, não fosse eu, teria sido preso em Londres por dívidas de jogo, em 1865.

Avisou-me por carta sua intenção de deixar o país dali a uma semana, aproveitando-se da passagem de um navio de guerra francês. Raptar a princesa imperial, seqüestrá-la num barco estrangeiro! Tornava-se flagrante o desejo de insultar o Brasil. Propus-lhe uma de nossas fragatas, ele recusou. Sua teimosia em desonrar-nos fê-lo perder seus últimos fiéis, e foi a sós que o casal embarcou enfim para Brest.

Um ano depois, alguém atirava em Paulo Barbosa. Inimigos não lhe faltavam. Devia-os a maior parte a seu temperamento ambicioso, à violência com que afastava os que lhe barravam o caminho para as honrarias. Outros reprovavam-lhe o zelo ciumento que demonstrara em distanciar-me deles. Também havia uma certa camarilha napolitana reunida em torno do embaixador desse reino. Essa gente saboreara a glória na época de meu casamento com sua princesa, decerto almejavam mais ainda, com Áquila. Talvez um atentado noturno numa estrada deserta haja distraído esses lazzaroni da nostalgia que sentiam.

Eu via a Dadama com menos freqüência. Estava completando um ano que Aureliano deixara o Ministério para governar a província do Rio de janeiro. Eu entendia melhor a máquina política, havia demitido um ministro, dissolvido uma Câmara, imposto mais de uma vez minha vontade ao Conselho de Estado. Nascera meu filho Afonso, anjo magnífico cujos borborigmos me encantavam. Eu ia me tornando mais falante, acontecia-me rir. Muito me respeitavam, temiam-me mais ainda e, se não gostavam de mim, pelo menos eu não me dava conta. Estava com vinte anos, tornava-me um homem e reinava definitivamente.

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III


"GEENEMEn~

Como trabalham, esses franceses! Da varanda onde me postei, com a perna esticada para aliviar a dor no pé, observo a atividade matutina do hotel. Vejo trabalharem sob a chuva os moços de recados e os ajudantes de padeiro, pintores e jardineiros, cocheiros, mariolas, limpa-latrinas. Todos franceses, todos eleitores. Alguns, quem sabe, descontentes com a própria sorte, ruminando anarquias possíveis, mas mesmo assim dispostos a transportar, bombear, capinar, sovar o pão o dia inteiro.

Que diferença com o Brasil de minha juventude! O trabalho manual não existia e meu povo não tinha calos nas mãos. Um brasileiro podia tornar-se oficial de justiça, soldado ou sacristão, podia pedir esmola, prostituir-se ou vociferar na Câmara, mas nunca ninguém o faria carregar um embrulho ou lavar um tilburi: para isso, lá estavam os negros. De modo que transcorriam o dia lendo ou redigindo jornais, contando dinheiro, recebendo pensões ou aluguéis, alimentando rancores e, é claro, passando carão nos escravos.

Disse eu que estes, nós não os contávamos; em todo caso, evitávamos divulgar as estimatÍvas de nossas províncias, temendo que, informados do próprio número e de sua força, eles resolvessem um dia utilizá-la. Todo o Brasil vivia numa vaga inquietação, mas nós, no governo, sabíamos exatamente o que podia suceder, o que certamente haveria de suceder um dia.

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A meu ver, duzentos mil escravos no mínimo viviam na província do Rio de janeiro e na capital. Ou seja, 150 mil homens, ou seja, cem mil guerreiros potenciais, à espreita, a menos de vinte léguas do meu palácio. Poderia principiar numa forja, ou entre os barqueiros do rio, ou perto de um acampamento de almocreves ou, mais provavelmente, numa fazenda. Por uma ninharia, um barril de charque apodrecido, uma punição injusta,



Naquela noite, os feitores trancaram as portas dos dormitórios, tudo parece calmo. Estão faltando facões no armazém, como sempre, algumas tochas também, e o capataz afirma que a reserva tinha oito e não sete barris de pólvora. Já amanhã falarão com o senhor. Mas, antes do alvorecer, cortam-lhes a goela, e a casa-grande do fazendeiro está em chamas, assim como em chamas está a de seus vizinhos rio abaixo, vejam aqueles clarões vermelhos, e outros mais atrás dos morros enfeitados com volutas pretas.

Na aurora, alguns cavaleiros atordoados, por vezes ensanguentados, dão o alerta pelas aldeias. Cruzam com parentes, com amigos também esbaforidos, também espavoridos: -Então, na sua casa também? É, e na de Joelmir, na do barão de Campo Bonito, na dos padres.- Um corneteiro da Guarda Nacional entoa trêmulo o seu toque de clarim, alguém procura chegar às cidades vizinhas; os estafetas voltam: lá também, pior do que aqui. Então, por todo lado? Por todo lado. Os pretos, os pretos combinaram tudo antes.

As colunas negras elegeram chefes antes de saírem a caminho. Ei-los em marcha. Numa ou noutra fazenda, demoram-se para dar uma mãozinha a âma-os em apuros. Enforcam os feitores, esfolam o patrão, estupram as filhas, vão-se embora. Estão armados com facões, forcados, varas; basta isso para derrubar os policiais diante do depósito de armas da localidade.

Eis as armas, eis a pólvora, obedeçam direitinho a seus chefes. Os de Valença estão a caminho, Vassouras arde, Píraí está em cinzas. Parece que o exército de brancos esperam-nos

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no rio, passaremos pela montanha. Os deuses, os deuses da África estão conosco. Exu, senhor dos fogos, das forjas e dos raios, Xangô, juiz augusto e severo, e Iansã, a furiosa rainha das batalhas. Na nossa terra, lá longe, em Wydah, no Calabar, no Benim, nossos deuses embarcaram suas armas nas grandes caravelas pretas e vermelhas para virem nos ajudar e levaremnos de volta à terra natal. Onde vamos encontrá-los? No Rio de janeiro! No Rio de janeiro onde nossos irmãos cercam o Arsenal, onde os marinheiros se amotinam. Amanhã o Rio, depois de amanhã, a África...



O pesadelo de um levante organizado aterrorizava todas as mentes. Pensávamos incessantemente em São Domingos, onde ele se cumprira cinqüenta anos antes, malgrado a potência francesa. Ao som de caramujos e tambores, a bandeira do Barão Samedi expulsara o exército do primeiro-cônsul com o qual, evidentemente, o nosso nem se comparava.

Em nossa terra, a última revolta ensanguentara Salvador em 1835, e foram necessárias horas de luta para sufocá-la. Durante os processos que se seguiram, descobriram, perplexos, uma organização, uma hierarquia, objetivos, um pouco sumários, é verdade, mas mesmo assim: matar os brancos, escravizar os mulatos e proclamar a independência. Cumpria admitir que, apesar de todas as precauções e apesar da imbecilidade animal que lhes atribuíam, os escravos refletiam, conversavam uns com os outros, formavam organizações, de fazenda em fazenda, de bairro em bairro. E inclusive no estrangeiro: os sudaneses tinham conservado sua religião muçulmana, ninguém o ignorava, mas preocupamo-nos ao descobrir centenas de Alcorãos impressos na França; como entraram em nosso país? Os veteranos da polícia lembravam-se de que em 1805, um ano depois da independência do Haiti, foram confiscadas no Rio de janeiro efigies de Dessalines.

Por trás de tudo isso, mais ameaçadora e mais profunda do que o cálculo dos contingentes ou o fantasma das conspirações, pairava uma dúvida que tínhamos a respeito da África

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e de seus povos. Havia duzentos anos que importávamos músculos e sexos. Faziamo-lo por necessidade, e porque era assim. Mas principiávamos a compreender que, ao lado dos corpos nus e sujos, algo mais viajara no porão imundo dos navios negreiros: um conhecimento sutil que não dominávamos, um amor pela terra natal, uma religião fermentando sob as cinzas, um pensamento, em suma, decerto diferente, não cristão, mas, era forçoso reconhecer, humano. Havia realmente motivos para o medo, por volta de 1840.



Estávamos errados em ter medo, conforme provaram os acontecimentos. Quando a Câmara votou a abolição da escravatura cinqüenta anos depois, fê-lo para inclinar-se à opinião burguesa. Na longa e tortuosa história da libertação, os escravos não desempenharam qualquer papel. Não houve mais nenhuma revolta, nenhum pleito após minha ascensão ao poder.

Todavia, se o levante tão temido jamais ocorreu, a questão permanecia: como governar um povo do qual um quinto sofria nos grilhões?

As colônias espanholas julgaram conveniente, em sua maioria, abolir a escravatura no momento da independência. De maneira que, no continente, restávamos nós e os Estados Unidos.

Lá por meados do século possuíamos aproximadamente tantos escravos quanto eles, cerca de um milhão e meio, e importamos mais, de vinte a quarenta mil por ano. Esses infelizes vinham de Angola, que nos fornecia bantos robustos e dóceis, ou dos portos da Guiné, famosos por seus mandingas e seus sudaneses altos e orgulhosos. Entre estes, a raça mina chamava a atenção dos compradores pela grande beleza das peças, por sua frugalidade, sua inteligência, seu apego altaneiro ao islã, sendo todas essas características capazes de valorizar ou desvalorizar o cativo, dependendo da finalidade a que ele se destinava.

Os navios desembarcavam os escravos numa ilha da bala. Ali, eram lavados e tratados antes de ser vendidos. Os grandes

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compradores iam lá para negociar e partiam para suas fazendas com dúzias de pretos amarrados por cordas: matéria bruta, assustada com a viagem e o exílio, que chamávamos de boçal. Seriam formados nos campos, tornar-se-iam ladinos assim que entendessem português, e seus filhos, nascidos no Brasil, seriam os crioulos. Alimentando-se de carne seca, mandioca e suco de laranja, capinariam os cafezais e, depois, fariam a colheita. Os mais robustos iriam desbravar novas terras nas encostas dos morros.



Os negreiros reservavam os mais frágeis e os mais inteligentes para os varejistas, concentrados, no Rio de janeiro, no bairro do Valongo. Enquanto o tráfico negreiro de longo curso estava a cargo dos portugueses, espanhóis ou americanos, os ciganos controlavam o comercio a varejo. Ali exerciam suas sinistras malas-artes na venda e troca de cavalos. Tanto quanto os outros, semelhante oficio não atraia os brasileiros; o cansaço, creio eu, repugnava-os, mais do que o nojo.

Seduzido pelos anúncios publicados na imprensa, no Valongo qualquer um podia se dar ao luxo de comprar um postilhão ou uma engomadeira. Longe dos campos tórridos, estes viveriam um pouco melhor e um pouco mais, contanto que suportassem as fantasias de seu sinhô, de sua sinhá desocupada e das crianças. Os mais bem aquinhoados eram vendidos a capitalistas como negros de ganho. Zanzavam pela cidade, procurando alugar-se como diaristas, e toda noite levavam seus ganhos para o patrão.

Um aparato jurídico sumamente minucioso regulamentava tal organização. Podemos confiar nos nossos brasileiros quando se trata de procedimentos, mesmo se, como neste caso, era o próprio crime que se codificava. Uma certidão oficial atestava a posse dos escravos e de seus filhos. Podiam ser dados em penhor, assim como um boi ou uma carroça, alugados e, evidentemente, revendidos. A justiça reservava para si os castigos, e teoricamente processava os donos que preferiam se encarregar da questão pessoalmente. Não era isso que impedia

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os senhores de Minas Gerais, os mais cruéis, de fazerem reinar o terror em suas terras, mas os escravos das cidades, pelo menos, gozavam de certa proteção.



Todos ou quase todos concordavam com semelhante sistema, e só se ouviam raras vozes para denunciá-lo. Meu pai, é verdade, pronunciara-se contra a escravidão, mas, perfeitamente capaz de chicotear um preto demasiado lerdo ao lhe dar passagem, desprezava as idéias humanitárias, e era da economia que extraía seus argumentos. "Um escravo, explicava aos fazendeiros, custa-lhes afinal mais caro do que um braço livre. Os senhores têm que cuidar dele caso adoeça, alimentálo na entressafra. Ademais, têm que vigiá-lo, pensem nos salários dos seus feitores. Portanto, contratem homens livres e mandaremos de volta os negros para a África."

Porém, de que modo encontrar trabalhadores livres num país que abominava o esforço? Poderíamos procurá-los na Europa, mas isso levaria tempo. Até lá, caso desejássemos manter a produção de arroz, de açúcar, de tabaco e desenvolver a de café, necessitávamos de mais, muito mais escravos.

Eis por que, quando uma lei da Regência aboliu o tráfico em 1831, os negreiros deram de ombros e prosseguiram seu contrabando. Todos reputaram a lei um artificio destinado a apaziguar a animosidade dos ingleses. Pois os ingleses, conquanto ainda não tivessem abolido a escravidão, haviam cismado em encerrar o transporte de negros. Tratados que tinham assinado conosco os autorizavam a estabelecer no Rio de janeiro uma estação naval e a vistoriar os navios suspeitos. Contra todas as expectativas, empenharam-se para que fosse respeitada uma lei que, eles pelo menos, tomavam a sélio; enquanto as inspeções eram procedidas em alto-mar, em navios estrangeiros, não podíamos protestar.

Os latidos do dogue inglês afligíam-me mais à época, confesso, do que o ranger dos grilhões dentro de meu império. Pela primeira vez em meu reinado, os negócios estrangeiros ultrapassavam a simples recepção mensal do corpo diplomático.

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Uma potência, e que potência!, intrometia-se em nossos debates. Em 1845, um certo George Gordon, lorde Aberdeen, conseguiu aprovar em Westminster uma lei que poderia fulminar-nos: todo e qualquer navio, ainda que brasileiro, que transportasse ou houvesse transportado escravos seria, de agora em diante, considerado pirata e tratado como tal. Havia quinze anos que nossas leis condenavam o tráfico negreiro, mas nós nos recusávamos a aplicá-las? Muito bem, alguém o faria em nosso lugar. Pouco se lhes dava a soberania do Brasil, a minha soberania.



Ai de mim!, que avistava na bala as fragatas inglesas, mais poderosas, sozinhas, do que toda a nossa pobre esquadra. Sabia que Londres poderia ordenar o bombardeio do Rio de janeiro. Pela primeira vez, senti nossa fraqueza, nossa dependência de povo pueril a quem o Almirantado impunha sua vontade, sua moral de país forte e justo. Mas o que se havia de fazer contra o Almirantado?

Por volta de 1849, os cruzadores ingleses puseram-se a apresar nossos navios. Fizeram-no com todo o vigor, toda a arrogancia e toda a má-fé de que Albion é capaz. Sucederam-se humilhações. Viamos nossos navios incendiados diante de nossas praias, fuzileiros ingleses perseguiam em terra tropas de escravos recém-chegados, interceptavam os meus navios de guerra para verificar se os marujos eram mesmo livres. Oficiais de marinha subiam a bordo de escunas da linha que ia para a Bahia, vistoriavam os passageiros, confiscavam-lhes os escravos, serviçais nascidos no Brasil, que por vezes os serviam há vinte anos e que o inglês alforriava de imediato para mandá-los cortar cana na Jamaica como trabalhadores supostamente livres.

Que podíamos fazer, senão curvar a cabeça e ruminar nossa vergonha? Como protestar, onde se queixar? Meus ministros possuíam escravos, que crédito podiam esperar da corte da Inglaterra? Povo de mulatos insignificantes, estávamos inermes diante da majestade dos navios britânicos entrando e saindo de nossos portos sem uma saudação aos nossos pavilhões, sem um olhar para os nossos canhões.

Senão uma vez: certo dia, uma fragata inglesa entrou na baía de Paranaguá, pequeno porto adormecido em suas águas profundas. Ali apresou dois navios negreiros e puxou-os a reboque. Quando adentrava pelo canal em direção do mar alto, os marinheiros de nossa bateria costeira abriram fogo, espontaneamente, e continuaram a canhoneá-la até que largasse suas presas. Foi esta, ao que me consta, a única vez em que tenhamos resistido. Esses marujos salvaram-nos a honra.

Porém, como falar de honra quando defendemos negreiros? Éramos mais que fracos: éramos mal-intencionados, éramos pecadores. Merecíamos, a bem da verdade, que a virtuosa Europa saísse por um momento de suas graves meditações e viesse nos dar uma lição de moral. Anos sombrios esses, em que meu povo principiou a entender que os tempos haviam mudado, que o bem e o mal haviam mudado, que os escravos possuíam uma alma e a Inglaterra, canhões.

A teimosia britânica deu seus frutos, dentro de mim, e a humilhação abriu-me os olhos. Tal qual os ingleses, imaginei que havia graus na ignomínia. É horrível obrigar seus semelhantes a trabalharem sob o chicote, pior ainda, parecia-me, é arrancá-los de suas famílias e transportá-los nas condições que se conhecem. Sem ainda condenar a escravidão, decidi ajudar aquele que, espontaneamente, travou em nossa terra a luta contra o tráfico negreiro.

Ele merece ter seu nome aqui mencionado. Contra os traficantes e seus milhões, contra os proprietários rurais e os votos que controlavam, contra os liberais que a eles se aliavam para embaraçarem o Ministério, Eusébio de Queiroz logrou a prevalência do bom senso e da justiça. Redigiu uma lei rigorosa punindo o tráfico, obteve sua aprovação em 1850 à força de paciência e habilidade e, por fim, ministro da justiça, aplicou-a.

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Eu fazia tudo para apoiá-lo, opondo-me ao tráfico negreiro com voz clara e precisa assim que se apresentava uma ocasião. Todo o país inteirou-se do que eu pensava acerca dos negreiros e por que excluía-os das honrarias e das prebendas. Não ignorava que a quase totalidade de meu povo ainda raciocinava de outra maneira e recusava-se a mudar de opiniões e de hábitos; mas eu insistia, sem medo dos adversários e certo de minha verdade. Pois é privilégio dos estadistas, o mais belo quiçá, ir, quando necessário, contra os interesses da opinião pública, guiar o povo cego pelo egoísmo e fazê-lo escalar, contra a sua vontade mas em seu beneficio, as encostas austeras da moral.



Viajei muito, o fato é notório e a Gazette de Vichy, ao saudar minha chegada aqui, listou corretamente minhas visitas aos quatro continentes. Com um pouco mais de verve, o jornalista poderia ter acrescentado que nenhum chefe de Estado jamais percorreu o mundo tanto quanto eu, o imperador dos globe-trotten. De Estocolmo a Sevilha, de Boston a São Francisco, de Brest a Moscou, a Jerusalém, a Luxor, percorri o mundo como observador apaixonado e cioso. Alegro-me quando penso em narrar um dia as peregrinações de um monarca tropical por terras civilizadas, mas por ora atenho-me à primeira de todas essas viagem, a que fiz em 1945 ao sul de meu império.

Caxias pacificara o Rio Grande, quis mostrar-me ao povo reconciliado, servir-se de meu prestígio para coroar sua obra e dar-me, de passagem, uma lição de política. A imperatriz acompanhar-me-ia nessa oficialissima viagem; tínhamos gente suficiente em palácio para cuidar de nosso recém-nascido, que gozava de ótima saúde.

Caxias selecionara a multidão que nos aclamava em Porto Alegre? Subornara-a? Não pude furtar-me a imaginar, de

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tal modo surpreendeu-me seu entusiasmo. É verdade que essa gente vivia no litoral. Haviam sofrido com a guerra civil, mas não a fomentaram, era natural ouvi-los aclamar um monarca pacificador. Os ex-rebeldes, estes sim, lambiam as próprias feridas em suas tocas do oeste, era lá que eu devia ir, veríamos se iam me aclamar.



Após um mês de teatros, danças e festas em Porto Alegre, lancei-me, pois, numa longa viagem pelo pampa, a fim de solidificar as alianças. Caxias organizara o passeio de reconciliação. O II Batalhão de Cavalaria escoltava minha carruagem e atravessávamos com fanfarras burgos empoeirados sob arcos de triunfo enfeitados com rosas e palmas.

O tempo esteve sempre bonito, sempre seco. O prado amarelado ondulava ao infinito. Nuvens ocres assinalavam ao longe as manadas e os rebanhos. Peões montados em seus pequenos cavalos galopavam ao longo da estrada abanando seus chapéus de couro. Eu ordenava que a carruagem parasse, descia, interrogava-os. Haviam-se alugado como marcadores de novilhos para um grande criador da região. Mostravam seus ferros, o laço, o tridente, a sela de pêlo de carneiro. Haviam lutado na guerra? Baixavam os olhos. Sim, agiram mal, a culpa era dos políticos, doravante só desejavam a salvação do império e a glória do soberano. Sentados sobre os ponchos, tomávamos mate numa cuia que passava de mão em mão, era maravilhoso.

Nas cidades, os ex-chefes rebeldes pediam audiência, homens cansados, curtidos pela guerra, sumamente felizes de poderem afinal voltar para casa, contar suas vacas e acariciar os filhos. Juravam-me fidelidade, tocavam em suas espadas, depois esticavam o punho na direção da fronteira argentina para mostrarem que, doravante, só as desembainhariam contra o estrangeiro. Eu os condecorava, distribuía títulos de barões ou viscondes, instava-os a candidatarem-se às eleições. Quando partiam, meus soldados apresentavam-lhes armas. Mantiveram-se fiéis, todos.

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Voltei ao Rio de janeiro seis meses depois de ter partido. Retornava amadurecido, mais confiante em mim mesmo, mais seguro de meu poder sobre os homens. A descoberta dos horizontes infinitos de nossas províncias confortara-me em minha fé em nosso futuro. Agora, eu sabia que éramos imensos, que éramos ricos. Bastava explicar nosso futuro ao povo, indicar-lhe os objetivos, trabalhar para alcançá-los, em suma, governar.



Era justamente o que o Ministério se esquecia de fazer. Não havia nada de novo; nenhuma idéia, nenhuma visão, nenhum esforço de construção. Desculpavam-se miseravelmente diante da Câmara e do Senado, dando a entender que o imperador, no fundo de seu palácio, entravava as ações e esterilizava as imaginações. Afastado Barbosa, aposentado Aureliano? Pouco importava, sempre inventavam novas eminências pardas. Por um título recusado, uma promoção adiada, por um parente demitido, logo esbravejavam contra a arrogância de São Cristóvão, a insuportável intromissão do poder moderador.

Como ousavam pensar semelhante coisa? Eu, que perdoava incessantemente, eu, o homem dos auxílios e absolvições, eu, que entregava o poder aos liberais após tê-los derrotado pelas armas, eu, um tirano? Como Carlos X, então, ou como meu cunhado Bomba? justamente: não me compreendiam, recusavam-se a entender-me.

Punham-me em causa a meia-voz, breve haveriam de me injuriar. Um panfleto de vinte páginas intitulado O libelo do povo surgiu no Rio de janeiro. Todos o disputavam, foi reimpresso, as sucessivas tiragens esgotaram-se em poucas semanas. Só se falava em Timandro, seu autor, pseudônimo que escondia um certo Sales Torres Homem, deputado bem pouco conhecido que subitamente virou a coqueluche da oposição.

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Filho de um padre e de uma negra, esse mulato sumamente feio, adiposo e calvo, gabava-se de ser um carrasco de corações e vestia-se qual um Brummel. Seu colete amarelo e os nós extravagantes de suas gravatas eram uma sensação na Câmara e, palavra de honra, deviam mesmo causar efeito em certos corações femininos. Mas sob esse aspecto ridículo, Torres Homem ocultava uma inteligência afiada, apoiada em vasta cultura e provida de uma retórica fulminante. É um dos melhores estilistas que conheci, e não pude deixar de invejá-lo ao ler sua prosa assassina.



Seu O libelo do povo evitava atacar-me nominalmente. Principiava por descrever a Europa inquieta, transpassada de frêmitos libertários, sugerindo que o ambiente era propício às revoluções. Em seguida, atacava meus antepassados e pintava-os como uma linhagem de canalhas infectos. Ia, assim, de Bragança em Bragança, enumerando os crimes e as taras. João IV, bastardo, Afonso VI, crápula, Pedro II, moedeiro falso, João V, libertino sacrílego, José I, uma nulidade, Maria I, louca, João VI, afinal, meu avô, padrinho de uma corte corrompida.

O tipo acertara no alvo, todos o sabiam, e eu em primeiro lugar. E aí Timandro ironizava: "Cabe ao nosso monarca e tutor pensar e querer em nosso lugar. Disso a nação tira incalculável proveito, pois a opinião do povo é naturalmente viciada, a da Coroa, assistida por seus favoritos, sempre excelente e salutar." Para concluir, apelava, pura e simplesmente, às armas e à Constituinte.

Insulto caracterizado, ataque frontal, subversão evidente; havia motivos para que eu me enfurecesse e punisse, meios não me faltavam. No entanto, passada a raiva, principiei a hesitar. Timandro não estava sozinho, seus leitores identificavam-se com ele, toda uma parte de meu povo andava definitivamente convencido de que eu martirizava os opositores e sufocava as liberdades.

Inebriante e deleitável quando o povo a tolera, a força também dá ensejo a amarguras. Inclinamo-nos diante da Constituição, respeitamos a soberania popular, e nem por isso o mundo

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odeia-nos menos. Foi o que li em Tácito, mas eu era sobremodo jovem para assimilar semelhante lição.



Muitos queriam que eu reinasse sem governar, e a isso, a isso eu me recusava. Conhecia minhas capacidades, minha integridade, comparava-as com os graves defeitos da classe política. Não abandonaria meus súditos a esse mundinho egoísta. A capitulação, a reclusão em São Cristóvão não eram de meu feitio. Cumpria adaptar-nos, mudar nossos métodos e quem sabe modificar o funcionamento de nossas instituições.

Os ingleses contavam com um primeiro-ministro, inventado ao tempo do rei Jorge I. Esse Hanover não sabia inglês e não se preocupava em aprendê-lo. Em troca, conversava em latim com Walpole, e incumbiu-o de transmitir ao Parlamento os desejos da Coroa: assim nasceu a instituição que só foi formalizada à época de Vitória. Provável que fosse um exemplo a seguir.

Sugeriu-me a idéia um velho liberal íntegro e respeitado; findou por varrer minhas hesitações e tornei-me um soberano parlamentar, o único dessa espécie, ao lado de Vitória.

Em tudo acumulávamos atraso, eu bem o sabia, e não era culpa minha, mas, pelo menos em direito constitucional, não tínhamos motivo para envergonhar-nos. Abri mão de boa parte de meu poder, esse que exercia na escolha de meus ministros. Agora, excetuando-se o Conselho semanal, eu só me dirigia ao presidente do Conselho de Ministros. Sobrava-me mais tempo para os estudos e para a educação de meus filhos. Isabel nascera no ano anterior, adorável fruto de nossa viagem ao Sul, e Teresa estava grávida de novo.

Foi justo por essa razão que resolveu não me acompanhar a Campos.

Interrogo-me sobre a conveniência de contar essa viagem, rápida excursão a uma região bem próxima, não mais que trezentos

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quilômetros a vôo de pássaro. Lá demorei-me menos de quinze dias. Não a mencionaria se Teresa tivesse me acompanhado, porque, neste caso, nada haveria a contar. Sem ela, e longe de frei Pedro que ainda me confessava regularmente, as coisas tomaram um cariz diferente.



Tudo isso é muito desagradável de contar, e bem percebo como estou acanhado. Com freqüência acusaram-me de jamais desvendar todo o meu pensamento; é exato, há certos fatos, certas ações que me repugna revelar, conquanto hoje eu não as desaprove. Muito pelo contrário, conservo de Campos duas ou três impetuosas lembranças que me aquecem a velhice.

Dou-me conta de que cumpriria ser mais claro, mas, justamente, a escuridão me convém, e a ela tenciono ater-me. Reputo-a oportuna e conveniente nesse episódio. Foi em Campos que, além de outros apetites mais condenáveis, tomei gosto pela dissimulação, pelas cartas cifradas, pelos mensageiros discretos, pelas arcas cuidadosamente fechadas com cadeado. Foram necessárias toda a sanha dos republicanos, toda a desonestidade de um criado chantagista para se descobrir, quando eu me aproximava dos sessenta anos, parte de meus pobres segredos. Apesar dos pesares, o muro construido em redor de minha intimidade manteve-se bastante firme.

Provavelmente, não me serviu na política; fosse eu mais gabola, como meu pai, teria sido mais amado. Num Brasil onde tudo é venial, meus súditos não gostam dos quietarrões, a discrição não é seu forte, e o passatempo predileto de todas as camadas da sociedade consiste em narrar as próprias façanhas, invejar as dos outros, enfim, falar de mulheres, já que é disso que se trata.

Mulheres não havia no grupinho que embarcou con-úgo: nossos criados, dois camaristas, um ministro e, se bem me recordo, o amigo Pedreira, todos felizes companheiros radiantes com a escapada.

Levava-se um dia para chegar ao pequeno porto de Macaé, de onde entrávamos num canal recém-inaugurado, orgulho

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de Aureliano. O tempo manteve-se bonito e passamos o dia sob o toldo armado ao pé do grande mastro. A conversa, muito animada, só foi interrompida para observarmos o trabalho de um baleeiro ianque esquartejando uma vítima. Nossa corveta passou suficientemente perto para que o cheiro incomodasse-nos. A caldeira a óleo, enorme pote suspenso sobre o tombadilho, exalava uma fumaça acre e pegajosa que cobria o convés, as velas e os marujos com uma película nauseabunda. Ao longe, os cachalotes, um casal, esguichavam alternadamente.



Um de nossos companheiros conhecia Campos. Banhada pelo rio Paraíba, a cidade mantinha-se fiel à cana-de-açúcar, e a proliferação de cafezais poupara a região. Nosso amigo descreveu a colheita, as longas filas de pares de escravos, o primeiro corta, o segundo debulha. Contou os lentos carros-de-boi transportando montanhas de açúcar, imitou o chiado das rodas, tão característico de nossos campos. A cana era lavada, esmagada em moendas acionadas pelas águas canalizadas do rio. Cozinhava-se o caldo dentro de tonéis ingleses; os foguistas ficavam amarrados diante da fornalha dezoito horas por dia.

Eu escutava atento, comparando a descrição com a que lera em meus livros, mas outros interrompiam tranqüilamente a narração: "E as pretas, como são elas, em Campos?". Eu franzia o cenho, os narizes baixavam. Todos pensavam na imperatriz, o que não deixava de esfriar os ânimos.

Afastando-me um instante para não constranger meus companheiros, pedi ao comandante que me apontasse o cabo de Búzios. Entrementes, às minhas costas trocavam-se recordações ou endereços. Eu os ouvia rindo às gargalhadas, todos com água na boca por causa das delícias da Cápua açucareira. Eu sentia calafrios, não sei se de esperança ou de repugnância.

Deixo de lado as bênçãos e os Te Deum que me recepcionaram, entrecortados por falas e elegias. Tudo suportei como um monarca exemplar, sem imitar a impaciência das personalidades: a aristocracia do açúcar em Campos, pouco afeita em perder

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tempo com boas-vindas oficiais, desejava em especial mostrar-me suas riquezas, seu talento para a dança e suas mulheres.



Organizaram-se bailes todas as noites. Cada fazenda mantinha a própria orquestra, ou melhor, orquestras, pois aos violinos do senhor de engenho respondia nas dependências o tambor dos escravos, igualmente incitados a serem deferentes com o augusto visitante. Dançávamos valsa, polca e sobretudo quadrilha. Essas quadrilhas perderam-me. As figuras da dança, as mudanças de parceiro que ela impõe, suas fases lânguidas e o frenesi do seu galope aparentam, a bem dizer, ter sido concebidos para emocionar osjovens; imperadores em vilegiatura.

Em meia hora, graças à quadrilha, todas as mulheres da região passavam por meus braços, arqueavam-se, curvavam-se, rodopiavam, exatamente como se o único objetivo da dança fosse levar-me a admirar os atrativos, quase sempre muito ostensivos, das fadas de Campos, a mim apresentadas como odaliscas ao sultão. Enlacei esposas de senadores e filhas de barões, em princípio inexpugnáveis, mas também tias, primas, amigas de infãncia, viúvas pobres, cuidadosamente escolhidas para me agradarem, e, se necessário fosse, não me decepcionarem.

No dia seguinte, recomeçava-se na casa de outra personalidade, mas os convidados não variavam, de tal forma que o rosto que me impressionara na véspera aparecia no dia seguinte com as mesmas promessas, as mesmas interrogações, a mesma impaciência.

Quando a festa ia chegando ao fim, às vezes ordenava-se aos escravos que se aproximassem para dançar no quintal. Descíamos até lá para encorajá-los, entre homens, pois as mulheres honestas proibiam-se o espetáculo de semelhantes macaquices. O fazendeiro mandava que as tochas ficassem distantes, e os escravos dançavam para nós na escuridão. O suor escorria-me pelas palmas das mãos, suor culpado que nada devia ao calor nem ao ponche inebriante do bufê. Pois aqueles pobres-diabos, desde que lhes lançassem uma moedinha, ousavam tudo, mostravam tudo. Vestidas de sombra, as pequenas olhavam-nos

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rindo, olhavam-me, a mim, o imperador, como se diante delas eu não passasse de uma sede, de uma gula que queriam saciar.



Virando-me a fim de me esquivar do alucinante desafio daqueles olhos, eu distinguia rostos grudados nas vidraças do salão: as mulheres também queriam ter sua cota de espetáculo e saboreavam-no, apesar de seus confessores. Entrávamos, e as últimas quadrilhas eram de um furor, de uma entrega jamais vistos nas Tulherias.

Meus companheiros evaporavam-se, sabe Deus onde. Infatigável, inebriado pelos perfumes, pelo reflexo dos lustres em suas nucas, pelas mãozinhas aninhadas dentro da minha, eu seguia dançando diante de meus anfitriões radiantes. A noite inteira eu saboreara os cochichos em meus ouvidos, as piscadelas, os gorjeios risonhos. Agora meu coração disparava ao sentir aproximar-se a hora de colher os adoráveis frutos preparados para o todo-poderoso visitante, a hora das deliciosas ansiedades, do tamborilar de dedos nas portas entreabertas, dos suspiros defensivos, das rendições úmidas.

No dia seguinte, eu distribuía baronatos, condecorações e, mais discretamente, jóias com que o Maligno guarnecera meu escrínio antes da partida.

Voltei para São Cristóvão cheio de remorsos e tristemente arrependido. Caíra na tentação, e as palavras fraqueza e queda soavam em minha mente de jovem cristão em perigo. Caso a contrição afrouxasse, eu logo me entristecia por ter deixado em Campos felicidades possíveis, terminantemente proibidas ao imperador. Por fim, interrogava-me qual um colegial: o que haviam apreciado em mim? o jovem dançarino desengonçado, pálido, taciturno ou, mais provavelmente, o soberano paramentado com as seduções da Coroa?

Ao contar minha vida aqui, percebo quão marcada pela política foi toda ela. Gostaria de narrar meus triunfos e meus reveses pessoais, mas na verdade este relato fala mais dos efeitos do poder sobre quem o exerce do que das desventuras de um homem comum. É de poder realmente que se trata, e era justamente sua luminosidade afrodisíaca que me banhava nos salões de Campos, e sempre, e toda vez que alguma mulher dirigiu-me o olhar.

O poder dos outros, onde quer que se encarne, enlouqueceas. Que estranha coisa, na verdade, essa vertigem por uma abstração, e que profundidade ela nos revela em nossas companheiras!

Menos superficiais do que nós, que nos deliciamos com os atributos fisicos, elas vão ao essencial. A finura da mão encanta-nos, o deleite de um tornozelo entrevisto "cumula nossos jovens olhos de loucos": elas sorriem diante de tanta simplicidade! Para elas, o bigode mais conquistador há de merecer apenas um olhar furtivo. Nosso espírito pode distraí-las, nossos versos, enternecê-las, nossa riqueza, interessá-las, mas nada disso importa; creiam num imperador. Que passe um alferes, um conselheiro de Estado, um tirano, e o enxame de crinolinas sai voando atrás. Sempre foi assim, afirmam os velhos, e no vale de Neandertal o chefe da tribo cobria mais mulheres do que o melhor caçador de bisões ou o mais lindo pintor rupestre.

Meu pai aproveitou-se disso sem sofrer, pois era um homem simples. Também aproveitei-me, mas sofli. Pareceu-me lamentável que corações se enlanguescessem diante de minhas dragonas e que pernas tremessem quando passava minha caleche escoltada por fidalgos empenachados. Teria prekrido que estremecessem diante de minha ciência, ou de meu sentido do dever, ou de meu patriotismo, terrenos em que eu não temia nenhum rival. Entregar-se a uma patente, mais do que a uma criatura, parecia-me um comportamento retrógrado, quase feudal, escandaloso no século XIX. Eu era um imperador liberal, gostaria de ser um amante democrático. Isso, ninguém levou em conta, e bem sei que até o fim o meu Tosão de Ouro fascinou mais que meus versos gregos. Nunca me amaram por mim mesmo, senão a condessa, mas, justamente... Não pensemos na condessa, ainda não.

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E expulsemos semelhantes maus pensamentos, esse inútil palavrório, há tanta desgraça a relatar.



Meu antepassado João IV - sabe-se o que penso de meus ancestrais - certo dia espancou aos pontapés um franciscano que ele reputava impertinente. Esse monge amaldiçoou-o e especificou a maldição: nenhum filho primogênito dos Bragança jamais haveria de reinar. Eu achara graça na previsão, confirmada entretanto de geração em geração ao longo dos séculos, uma vez que até mesmo meu irmão mais velho morreu ao nascer. já não acho graça.

Meu filho, o pequeno Afonso, meu herdeiro, tinha dois anos, brincava no quarto com bichos de madeira pintada. Contraiu uma febre, não se sabe qual; tudo se consumou em dois dias. Chorávamos todos, menos Isabel, que fazia seus tatibitates no berço. Ele repousa em Santo Antônio, nunca mais hei de rever seu túmulo.

Execrável franciscano que jamais pranteaste uma criança, o que conheces da dor? Não estás cansado de tua vingança? Amaldiçoo-te também! O filho de Isabel hoje tem dezesseis anos, frágil pretendente que uma facção minúscula de monarquistas conspira para um dia reconduzir ao trono. Hão de conseguir? Monge seguramente maldito, quando afinal hás de nos deixar em paz?

As más notícias acumulavam-se. Em abril de 1848, fui informado da destituição de Luís Felipe. O comandante de uma fragata brasileira que singrava pela Mancha pôs-se à disposição de minha irmã Francisca para levá-la à Inglaterra em companhia de Joinville.

Nem todas as revoluções que incendiavam a Europa deixavam-me abalado. Eu compreendia muito bem os napolitanos desesperados com o meu cunhado. Instruído pelas cartas de Manzoní, apoiei os húngaros, e mais ainda os venezianos. Seu chefe Manin tornou-se meu ídolo pela coragem com que

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enfrentava as bárbaras inepcias de Viena. Mas na França! Como aceitar Barbès e Blanqui, que desatino desencaminhava Lamartine? Então os governos mais liberais eram os mais ameaçados? Para que, afinal, o empenho em ouvir o povo? Com a monarquia francesa desmoronava o exemplo em que todos desejávamos nos mirar.



E nós, seríamos poupados? Sim, o Império mantinha-se calmo, salvo em Pernambuco.

Um enxame de descontentes talentosos formara-se nessa província, em torno de um jornal intransigente que destilava seu fel malgrado as advertências e as violentas incursões da policia. Multiplicavam-se os incidentes, insurretos em armas ameaçavam Recife, onde as autoridades custavam a conter a sedição. O chefe dos revoltosos foi morto durante uma manifestação e a Guarda Nacional dispersou os rebeldes. Algumas penas de prisão logo anistiadas, alguns breves exílios bastaram para, em fins de 1849, restabelecer a ordem, que não mais esteve seriamente ameaçada no Império durante quarenta anos.

Eu ia completar 25 anos, a primeira metade do século chegava ao fim. Quantas reviravoltas em cinco decênios! A filha napoleônica jugulada em imensas batalhas, a Santa Aliança triunfante e depois rachada, o liberalismo que vem tranqüilizar a todos e, recentemente, o socialismo, à espreita atrás das barricadas. Afinal, para onde ia a Europa?

Para nós, o meio século encerrava-se no luto. Eu ainda chorava o meu Afonso quando seu irmão morreu, aos dois anos, da mesma maneira, provavelmente de uma encefalite. Nós o havíamos mandado para o campo a fim de protegê-lo da canícula, ali ele faleceu subitamente, longe de nós, rodeado de médicos aterrorizados pela própria impotência.

Minha mãe deu à luz uma criança natimorta; minha filha também. Sei muito bem que a comparação é abominável, e que desconheço a dor das mães, mas mesmo assim posso afirmar que, ao menos para um pai, existe uma diferença entre o embrulho inerte que uma parteira carrega apressada e a

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criaturinha rósea e loura que aprendemos a venerar, que nos sorri em meio à febre, que sente dor, que se contorce e morre enfim entre suas pelúcias e seus brinquedos. Restavam-nos duas filhas, Isabel e Leopoldina.



A morte atacara meu palácio, agora rondava meus súditos. Um brigue norte-americano que atracara em Salvador trouxe-nos do norte um sinistro presente: febre amarela? vômitonegro? tifo icteróide? Conhecia-se tão mal a doença que sequer se sabia como chamá-la. Devastou Salvador, depois, o Rio de janeiro: cinco mil mortos em quatro meses. já não se sabia onde sepultar os cadáveres que se pensava serem contagiosos; proibiu-se a inumação perto das igrejas, foi preciso construir cemitérios públicos. Em outros lugares, queimavam-se os defuntos na praia, esperando que a fumaça afastasse os urubus.

justiceira lúgubre, a febre sectária mais facilmente acometia os palácios do que as palhoças, os ricos do que os pobres, os brancos do que os pretos. Mas o cólera que nos visitou alguns anos depois matava a todos, sem se deter nas aparencias.

Continua a chover no parque da Fonte, uma chuva cheirosa de verão que afugenta os curistas. É uma pena para os passeios vagarosos e o concerto das cinco horas! Chegou o tempo da leitura, da sesta, dos jogos de sociedade nos salões do hotel. Os mais aventureiros irão tomar uma ducha escaldante, "um bom ensaio do purgatório", advertia a marquesa de Sévigné. Eu evitaria experimentá-la. Não irei sequer beber meu segundo copo, pois tenho de poupar-me este pé.

A malfada da ferida, cada vez mais feia, priva-me de excursões. Previra passeios de estudos pelos arredores. Reli todo o De bello gallico a fim de me preparar para a Gergóvia. Essa história de tribos rixentas é um bocado divertida, mas não

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consigo decidir, entre o bigodudo derrotado de antemão e o glabro eficaz, para onde vai a minha simpatia. Talvez para um terceiro bandido, Ariovisto, príncipe do leste; afinal de contas, não foi a Germânia que tudo submergiu?



Não conhecerei a Gergóvia, nem Alésia, nem Royat, onde contava rever Claire. Ela deve ter envelhecido bastante, coitada, mas, outrora, que ardor animava-lhe o rosto! Quando foi? Em setenta e sete, creio, em Paris. Ela demolira corações à época de Napoleão III e concedeu-me esplêndidos restos. Eu tinha mais de cinqüenta anos: um capricho crepuscular, até mesmo esse tempo ficou para trás.

Em compensação, um telegrama anuncia-me a visita do dr. Charcot. Excelente homem! já salvou-me a vida, sem dúvida há de me salvar do tédio. Para esperá-lo, tenho meus Chants du Comut, meus piutim, conforme se deve dizer. Chegarei a decifrá-los? Não duvidaria, caso a língua deles fosse pura, mas entre as palavras hebraicas identifiquei vocábulos siríacos e outros, totalmente surpreendentes, de consonância românica. Cumpre lançar-me, estudar tudo isso palavra por palavra e, depois, tirar esse sapato e fazer outro curativo.

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IV

Havia oito anos que durava o cerco de Montevidéu. Tempo em demasia, no nosso entender: decidimos levantar o cerco e libertar a pequena capital do pequeno Uruguai. Insisto no "nós": eu entregara a direção do gabinete a um presidente do Conselho; nossas decisões tornavam-se colegiais, senão consensuais, e eu me felicitava por esse sistema. Em questão tão delicada, que pela primeira vez no meu reinado envolvia relações de vizinhança, decerto eu necessitava de todas as opiniões e de todos os talentos.



A questão datava da Independência, e mesmo de antes. Uma longa e sangrenta história que cheirava a churrascos, a couro recém-curtido e a mate fumegante. Uma história de boleadeiras e correias, chicotes e cordas. Uma história de navalhas e de fogo. Aquecidos diante do fogareiro, os europeus deliciam-se ao lerem semelhante gênero de aventuras. Nós as vivíamos.

As pastas do ministério estavam abarrotadas de tratados, de trocas de alianças, de incidentes de fronteira. Eu as consultara e escutara as sínteses, sempre límpidas, do ministro visconde do Uruguai.

"Considerai, dizia-me, dois grandes rios correndo para o sul, o Paraná e o Uruguai, que se juntam para formar o Rio da Prata. Banham terras férteis, por vezes onduladas, raramente montanhosas. Suas margens são povoadas, seu curso relativamente

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navegável apesar das estiagens. Eis o teatro em que se desenrola o interminável melodrama a que chamamos de questão platina.



-Os atores são quatro países. Entre Brasil e Argentina, o Uruguai, sobremodo fraco para nutrir ambições, aparece, antes de mais nada, como um objeto de disputa. Vosso avô conquistou-o, vosso pai perdeu-o, hoje a Argentina tenciona influenciá-lo. O Uruguai compensa a própria fraqueza por uma intensa atividade comercial, já que sua posição permite-lhe em princípio comandar o tráfico fluvial da região: o sistema bancário e os negócios fazem a riqueza de Montevidéu.

"Por fim, este Estado recente, implantado entre dois gigantes, representa um símbolo: o equilíbrio das potências e das liberdades americanas.

"por isso é que o Paraguai, à margem, excêntrico e misterioso, zela pela independência do Uruguai, condição de sua própria liberdade. Quanto ao Brasil, não pretende modificar semelhante equilíbrio e não apresenta qualquer pleito territorial. Vossa política, Majestade, é não mexer na geografia.

"Sem dúvida o lograríamos pela via da negociação caso as potências, refiro-me aqui às que contam, Inglaterra e França, não viessem periodicamente embaralhar o jogo e atiçar as rivalidades. Esses países reputam os obstáculos à liberdade do negócio como um insulto ao bom senso, e como injúrias aos seus pavilhões, de tal forma são sedentos pelo comércio. Têm nos portos da região inúmeros compatriotas comprometidos nessa atividade e que berram tão logo lhes; questionamos os lucros. E então, a Europa despacha suas fragatas. Os Estados Unidos estão demasiado distantes para impedi-los em nome de sua doutrina."

Desnecessário ao visconde esclarecer que nada se podia fazer contra a humilhante ingerência. A arrogância inglesa na questão do tráfico negreiro, que nesse tempo chegava ao paroxismo, fizera-me entender essa realidade de nosso mundo.

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Éramos um pião no tabuleiro de xadrez onde outros jogavam a partida.



Sempre poderíamos consolar-nos sorrindo diante das bobagens dos cavalheiros de Londres e de Paris. Em 1845, por exemplo, a frota conjunta forçara a foz do Paraná, em Obligado, após uma batalha em que os canhões argentinos quebraram-lhes muitos mastros e alguns crânios.

Franceses e ingleses, então, remontaram o rio, acompanhados por uma flotilha de navios mercantes. íamos só ver o que ia acontecer! Sob a proteção de Palmerston e de Guizot, o Comércio alcançaria afinal aquelas paragens, suas populações em breve saboreariam as delícias de uma fatura, as doçuras de um endividamento. Aqueles pobres-diabos produziam sebo, peles, lã, certamente necessitavam de rendas, caldeirões, louça. O intercâmbio enriqueceria a todos.

Ora, os comerciantes foram recebidos a tiros de espingarda. As autoridades recusaram-se a receber os oficiais, uma onda patriótica varreu a região e a frota teve que partir com suas trouxas sem nada ter vendido. No final das contas, a aventura reforçara o poder do governo de Buenos Aires, quer dizer, de Rosas.

Esse homem de ferro, autoritário, violento, mas profundamente patriota e dotado de uma visão política incomum, governava sua província apoiando-se nos pequenos criadores - os gaúchos - e nos operários dos matadouros. Não sem crueldade, dizimara ele a aristocracia local e lutava contra as forças das outras províncias argentinas que lhe recusavam a preeminência. A guerra civil entre federalistas e unitários ensanguentava o pampa. Lutavam com lanças, facas ou girando bolas de ferro na ponta de uma corda. Para se reconhecerem na confusão, os federalistas usavam bigodes e raspavam o queixo, os unitaristas faziam o inverso e enfeitavam-se com barbas horríveis.

Rosas sonhava em federar em torno de Buenos Aires o Uruguai, o Paraguai e a inacessível Bolívia. Assim, formaria

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ao sul do Brasil um conjunto quase tão vasto quanto meu Império, muito mais rico e militarmente bem superior.



Semelhante projeto preocupava-nos sobremaneira, mas por ora nada mais fazíamos senão alardear nossa propaganda contra o tirano sanguinário de Buenos Aires. Confesso ter acreditado eu mesmo em suas atrocidades: eu execrava Rosas. A velhice tomou-me mais indulgente, ou mais cético quanto à natureza humana. Encontrei partidários seus, não eram monstros, e, aliás, a violência política que tanto me repugna na história da Argentina, aqueles seqüestros noturnos, aquelas degolações, aquelas torturas, não cessaram após sua queda, é de crer que a natureza desejou contrabalançar a riqueza do solo com a barbárie dos políticos.

O sonho imperialista de Rosas ia se realizando no Uruguai. Nesse país, ele apoiava um rebelde; seu dinheiro, seus canhões e inclusive suas tropas cruzavam descaradamente o Prata para irem dar apoio aos insurretos que, desde tanto tempo, cercavam Montevidéu.

Meus súditos do Rio Grande do Sul acompanhavam atentamente a evolução do cerco. Muitos possuíam terras no Uruguai, pastos excelentes para a invernada do gado. Tendiam a apoiar o poder legal assediado em Montevidéu e não hesitavam em empunhar armas contra o vassalo de Rosas tão logo este os importunasse. A tais escaramuças de fronteira, a imprensa de Buenos Aires respondia com insultos contra os macacos brasileiros.

já muito degradado, o clima piorou com a queda de Luís Filipe, principal adversário de Rosas desde que este, ao que parece, pactuara com os ingleses. No Rio de janeiro, todos compreendiam que a situação ia se tornando insustentável, mas brigavam a propósito dos meios para contorná-la.

A fim de solucionar o mais urgente, o Brasil concedeu a Montevidéu um empréstimo considerável. Isso possibilitou aos assediados comprar armas na Europa e angariar, a preço alto, o apoio de Alexandre Dumas. O escritor, sensível à moda

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da época, sonhava com insurreições e barricadas. Naturalmente, tudo desconhecia da situação, mas, esclarecido por nossas patacas e por seu amigo Walewski, que fora utilizado por Luís Filipe no Prata, não hesitou em fazer uma opção entre os comerciantes de Montevidéu e os gaúchos rosistas. Redigiu em favor dos primeiros um panfleto ardoroso, La nouvelle Troie, que liquidou definitivamente com a reputação de Rosas na França.



Ocorreu-me ajudar escritores franceses em dificuldades. Fui, por exemplo, bastante generoso com Lamartine destituído, subscrevendo centenas de exemplares de seu Coursfamilier de littérature. Agradeceu-me-lo: "O príncipe filósofo supera o poeta coroado de Potsdam", o que de fato era-me prazeroso. Ainda recentemente, comprei de dois oficiais de justiça a biblioteca de meu finado amigo Alphonse Karr para poder restituí-la à viúva, mas jamais financiei a pluma de um panegirista estrangeiro, a não ser dessa vez, e algo involuntariamente.

O apoio da opinião nacional francesa podia ser de alguma valia, mas a neutralidade da Inglaterra era indispensável, e eu sabia muito bem que não bastariam as páginas deslumbrantes daquele que em Buenos Aires logo seria denominado de "o mulato Dumas vendido a Montevidéu". Pois desde que nossas baterias de Paranaguá lhes haviam canhoneado uma fragata, encontrávamo-nos em situação delicada com os ingleses. Que acordos tinham eles celebrado com Rosas, que garantias de apoio lhe tinham dado? Não sabíamos. Aborrecidos com essas rixas exóticas, os ingleses finalmente nos deixaram de mãos livres.

Cumpria igualmente tranqüilizar Urquiza. Esse caudilho argentino dominava a região situada entre os rios Paraná e Uruguai. Ali, vivia qual um nababo, enviava embaixadores a todos os sítios e zangava-se com Rosas porque este taxava suas exportações. Aceitou de imediato nossas ofertas de aliança.

As operações desenrolaram-se com vigor. Caxias e Urquiza invadiram simultaneamente o Uruguai. O primeiro foi

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libertar Montevidéu, o segundo foi combater os rebeldes que o haviam assediado. Restavam os federalistas e Rosas. Nossa Armada fez os unitários de Urquiza cruzarem o Prata, apoiados por alguns batalhões brasileiros. Eles desbarataram as defesas inimigas em fevereiro de 1952 e entraram em Buenos Aires. Rosas fugiu num navio inglês, morreu em Southampton trinta anos depois. Conforme o prometido, nossas tropas evacuaram o Uruguai e deixaram Urquiza desembaraçar os sangrentos fios da meada política argentina.



Eu ganhara uma guerra, mostrara à Europa que podíamos solucionar entre americanos os problemas da América e, já que as potências exigiam obstinadamente a livre navegação pelo Paraná, obtive-a dos ribeirinhos. Nosso prestígio internacional principiava a crescer. O Brasil ia se tornando um pais sério com o qual era possível tratar. Reconheciam-nos capazes de garantir a ordem nessa impossível região do Prata, da qual a Europa nada conhecia. Inclusive, poderíamos um dia, sonhavam os ingleses, opormo-nos aos Estados Unidos, que terminavam de estraçalhar o México sem respeito pelos bons costumes: o equilíbrio, sempre o equilíbrio!

Os Estados Unidos, justamente, bombardeavam-nos de notas cominatórias. Uma vez que garantíamos a liberdade das águas do Paraná, ao sul, intimavam-nos agora a abrir-lhes os portos do Amazonas, ao norte. Abrir o Amazonas? deixar os americanos remontarem o rio e inventariar-lhe os recursos? Em nenhuma hipótese! Como era possível comparar o Paraná e suas margens prósperas com o Amazonas, gigante de curso incerto, inundando florestas desertas? Não havia nada por lá, na selva, nada senão fortes vetustos e igrejas abandonadas. Os americanos queriam fazer negócios ali, mas que negócios? Convinha temer uma tentativa de anexação?

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Tais inquietações fortaleciam nossa resolução: a região permaneceria vazia e suas riquezas, desconhecidas, mas manter-se-ia brasileira, nenhum estrangeiro jamais poria os pés ali, pelo menos até que descobríssemos os meios de povoá-la, nós mesmos.



Para defender nossa causa, desenterramos o holandês Grotius, jurista contemporâneo do duque de Alba e cujo Mare liberum estabelecera em 1608 as regras de liberdade nos mares e nos rios. Sua autoridade, confirmada por muitos tratados, parecia inexpugnável. Ademais, o bom doutor era antiescravista, o que, considerando as circunstâncias, em nada atrapalhava.

Para Grotius, os rios pertenciam a seus ribeirinhos e só a eles. Estes podiam, juntos, aceitar navios estrangeiros, conforme havíamos feito no caso do Paraná. Quanto ao Amazonas, de comum acordo com o Peru, o outro país ribeirinho, éramos contra a sua abertura. Tal resposta irritou muito Washington, um pouco Londres, mas confirmou o que nossas vitórias no Uruguai haviam estabelecido: convinha contar com o Brasil, suas armas e seus argumentos. Em breve seríamos tal qual a Europa.

Ser tal qual a Europa! Que o Brasil pudesse afinal tomar assento no concerto das nações e executar sua partitura! Extinguir para sempre o desdém, a ironia. Ter peso suficiente, reputação, senão navios, para que hesitassem em nos esmagar com um ultimato. Recusar a condescendência e tornar-se, em toda a extensão do termo, um Estado soberano.

Como parecia dificil! Pertencíamos à América Latina, cada revolução entre nossos vizinhos, cada crime salpicava em nós, atraindo para o continente o opróbrio da virtuosa Europa onde, como todos sabem, as revoluções são sérias e os assassinatos, motivados. Além do mais, possuíamos escravos, e essa mancha hedionda negava-se a desaparecer de nossas mãos. Por último,

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éramos pretos, o sangue da África conspurcava-nos irremediavelmente aos olhos dos reis e dos povos. A sombra de Faustin I do Haiti, imperador de chacota, ameaçava atingirme. Ainda não nos confundiam, mas aproximavam-nos, num todo vago, algo cômico, algo preocupante, não-europeu, e que convinha tratar com firmeza.



Os homens que me serviam não se ofendiam excessivamente com semelhante desprezo, aliás, não raro partilhavamno quanto a seus próprios compatriotas, e assim sentiam-se protegidos, pensando, não sem razão, que sempre somos um pouco europeus quando somos ricos. Mas eu sofria com essa ferida do amor-próprio nacional. Seria porque eu lia mais, e porque os livros estrangeiros amontoavam-se sobre minha mesa? Victor Hugo, até ele, para vilipendiar Napoleão III, escolhia propositadamente fora da Europa seus exemplos de abominação:

Aujourd'hui, dans Paris, un prince de la p¿gre, Un pied-plat, copiant Faustin, singe d'un négre, plus faux qu'Ali pacha, plus cruel que Rosas...

Existia outra explicação para a minha suscetibilidade e desconfiança? Creio que sim. Queria que se respeitasse o Brasil porque queria ser levado a sério.

Eu terminava de completar 25 anos quando derrubamos Rosas, quando o bando de mulatos brilhantíssimos que me serviam como ministros mostrou ao mundo que sabiam negociar, honrar compromissos e destituir um tirano belicoso em nome da comunidade internacional. Eu lutara por dez anos para impor-me a políticos mais velhos, mais experientes e, em muitos casos, mais inteligentes do que eu. Bem ou mal, conseguira, mas minha ansiedade de jovem isolado, inseguro

Hoje, em Paris, um príncipe da corja,/ Um pé"duro, copiando Faustin, macaco de um negro,/ Mais falso do que Ali Pacha, mais cruel do que Rosas... (N.T.)

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a respeito de si mesmo, não amainava com semelhante sucesso. Pois os negócios estrangeiros, ao alargarem-me o horizonte, faziam com que surgisse, mais além dos oceanos, um mundo irônico que com toda certeza escarnecia de mim: "Um imperador, onde mesmo? no Brasil? ora, essa!".



De que serviam nossas florestas, nossos pastos, nossas minas? Para que todo aquele açúcar, todo aquele café? Quanto pesavam meus oito milhões de súditos em oito milhões de quilômetros quadrados? Não éramos europeus, permaneceríamos sempre à margein. Ah, se eu fosse príncipe de Liechtenstein ou de Thurn und Taxis! Ter-me-iam respeitado muito mais.

Tal qual as angústias de minha infância, esse medo do menosprezo perseguiu-me a vida inteira. Explica diversas decisões, diversas atitudes que meu povo compreendeu mal. Creio inclusive que, mais tarde, separou-me do Brasil, haverei de me explicar sobre isso se um dia referir-me aos últimos decênios de meu reinado.

A paz restaurada possibilitava-me refletir sobre os meios de afirmar, senão nossa grandeza, pelo menos nossa respeitabilidade. Não me custava enxergar o que podia se prestar a risos em nossa vida política em meados dos anos 50: a sucessão constante de ministérios, os ataques odiosos da imprensa, a ronda dos partidos infectavam o ambiente. Todos se queixavam.

Procurei na opinião nacional os meios de resolver o problema. Gabava-me de senti-la e compreendê-la. Atribuía ao poder moderador a prerrogativa de conhecer os fracos e protegê-los. Não, decerto, íncitando-os a revoltar-se contra a natureza e contra o destino que esta lhes reservara, mas amenizando semelhante destino pela estrita observância das leis. Consegui? Não!, bem sei, mas que não digam que não o tentei, sinceramente, pelo menos nessa época dejuventude romântica.

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O povo, tal como eu o observava, estava unido na crítica ao sistema. Desprezava as futilidades da política, desejava o fim dos insultos, das zombarias, das armadilhas. Esperava dos eleitos que se pusessem de acordo, e do governo, que governasse. Daí, dessa constatação de uma perigosa impotência resultante de um excesso de liberdade, nasceu um dia a idéia de um governo de união.



Para levar a bom termo essa obra de conciliação, cumpria-me apelar para um conservador, mas um conservador flexível o bastante para compor, fino o bastante para seduzir. Muito em especial, eu necessitava de um homem cuja independência em face do Paço fosse total, a fim de que não se denegrisse a nova política como sendo uma manobra do imperador. Honório reunia todas essas condições.

Envelhecera desde o dia em que, quase criança, atrevime a botá-lo no seu devido lugar, mas conservara seu imenso orgulho, e não perdeu a ocasião de promover uma reconciliação histórica à frente de um gabinete que eu previa duradouro. Até mesmo seu temperamento dificil servia a meus propósitos, pois dava às ofertas de paz um perfume de sinceridade.

Honório formou em poucos dias um ministério magnífico, composto de homens novos, entusiastas e jovens. O ardor que demonstravam, a sinceridade, a mão que estendiam aos liberais fizeram, de início, maravilhas. Na Câmara, o tom baixou, restabeleceu-se a concórdia. Durante três anos, conseguiram votar sem dificuldades as levas de reformas indispensáveis e obtiveram a adesão dos liberais. Entre estes, reparei em Torres Homem, que vituperara contra mim com o nome de Timandro. Ele reconheceu que agira mal e tornou-se diretor do Tesouro, antes de entrar para o gabinete e de receber o título de visconde. Entre tantos perdões durante meu reinado, este, símbolo da reconciliação nacional, é o mais espetacular. O mais útil também, pois Torres Homem compartilhava minhas idéias acerca da moeda e ajudou-me a defendê-la. Coberto de honrarias, o pobre-diabo foi

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morrer num quarto de hotel em Paris: horrível destino, esse passamento solitário, que por pouco não me sucedeu, há três anos, sinto calafrios ao pensar.



Eu angariara grande sucesso político ao restaurar a serenidade. Tranqüilo, meu povo podia se pôr mãos à obra, agir, criar. A segunda metade do século prenunciava-se propícia às grandes realizações, ao entusiasmo que haveria de nos transformar. Sentíamos isso no vigor com que o país se desenvolvia.

Saíamos de um mau momento. Aos anos faustos das guerras napoleônicas, favoráveis às nossas exportações, sucedera a crise do açúcar, que sofria a concorrência de Cuba e da beterraba. Tudo ressentia-se dessa situação, e durante os trinta anos de tumultos e guerras o povo empobrecera constantemente.

Entretanto, havia pouco tempo que o café se tornara nossa primeira fonte de renda; podia salvar-nos mas, para enfrentar a demanda, era mister crescer a produção, possuir terras. Encontravam-se terras em São Paulo, mais planas e mais férteis do que nos arrabaldes do Rio de janeiro. Quase milagrosas, as primeiras colheitas nessa região atraíram os fazendeiros da província, cujo dinamismo, cuja clarividência sempre diferenciaram-se do torpor de seus rivais do Rio de janeiro. Avançavam rumo ao oeste inabitado, rumo a terras cada vez mais ricas onde cada semeadura satisfazia-os além de toda esperança.

A surpreendente expansão de nossa agricultura, excelente em si, causava-nos, todavia, um problema. Como jamais um brasileiro aceitaria trabalhar no campo, havia que pensar em importar mão-de-obra livre.

Os espíritos esclarecidos zombavam: homens brancos, inadaptados ao nosso clima, jamais suportariam penar doze horas por dia sob o nosso sol. O negro, e só ele, podia cultivar a terra, Deus assim o quis, e fora uma precipitação condenar o tráfico de

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escravos. Respondiam-lhes que não só era possível pôr os europeus para trabalhar, mas que a vinda deles apresentaria outra vantagem: desposando as negras, teriam filhOs mestIÇOs que Por sua vez gerariam quadrarões. A imigração significava mão-de-obra barata e embranquecimento da raça. Seríamos como a Europa!



Terras não fáltavam: as que ninguém explorava pertenciam ao Estado. De maneira que podíamos distribuir lotes aos colonos que os desejassem. Bastava anunciá-lo na Europa, os miseráveis de lá logo compreenderiam que prometíamos ainda mais do que os Estados Unidos.

As primeiras experiências malograram. Colonos alemães ou suíços instalaram-se nas regiões ermas que lhes havíamos atribuído. Desmataram, plantaram, colheram, e então perceberam que viviam num deserto onde ninguém podia comprar suas batatas ou sua mandioca, pois careciam de estradas para levar toda a produção aos mercados.

Fazendeiros de São Paulo procuraram, então, orientar os imigrantes para as suas plantações de café e pô-los para trabalhar ao lado dos escravos. Os pobres coitados foram parar sob o chicote de feitores incapazes de entender a diferença entre um brandeburguês e um banto. Um deles conseguiu, não sei como, voltar para a Europa e escrever um livro denunciando semelhantes maustratos. A obra provocou escândalo e a Prússia, pura e simplesmente, proibiu que seus camponeses se instalassem em nosso país.

Mais uma vez, a Europa torcia o nariz ao ouvir Edu do Brasil, mas o que devíamos fazer? Ninguém podia controlar os fazendeiros nos confins de suas terras, as objurgações, as ameaças de nada serviam contra a brutalidade paulista. Para o senhor da casa-grande, qualquer um que trabalhasse, animal, escravo ou colono, era ipsofacto um pau para toda obra, entregue ao deus café sem distinção de raça; então, por que vinham amofiná-lo a respeito de empregados que, afinal, não passavam de estrangeiros?

Fiz o que pude para amenizar os sofrimentos dos imigrantes. Dei conselhos e financiei colônias. Amiúde, recebia os novos que iam chegando. Recém-desembarcados, iam me ver em grupo

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na Quinta, antes de partirem para a província que lhes era designada. Eu recebia aqueles homens macilentos, aquelas mulheres extenuadas pela wavessía, aquelas crianças famélicas arrancadas das brumas da Curlândia e da Pomerânia. Em alemão, conversava com eles sobre o Brasil, suas riquezas, sua liberdade, o brilhante fúturo que o país reservava aos trabalhadores honestos.



Fitava seus rostos miseráveis, procurava detectar alguma superioridade, um orgulho. Pertenciam à raça dos cavaleiros teutônicos, a dos granadeiros de Frederico, como era possível duvidar de que seriam úteis? Era exatamente do que precisávamos para nos elevarmos: de europeus. Os pobres coitados não suspeitavam da nobre missão que eu lhes confiava in petto. Haviam morrido de fome na Alemanha, o Brasil não podia ser pior. Não enxergavam mais longe do que isso; entrementes, seus chefes cumprimentavam, curvando-se todos: "Ihre Majestaet!"..., e levavam-nos para seu destino.

Com certeza meu notário interesse por eles foí-lhes de alguma serventia, e os fazendeiros aprenderam a tratar decentemente a mão-de-obra assalariada. Quando deixei o Brasil, os imigrantes introduziam-se em nosso país por dezenas de milhares. Hoje, devem ser por volta de um milhão, dos quais nenhum é monarquista. Em vez de alçarem-nos ao nível da Europa, rebaixaram-nos ao nível da república. Por que aborrecer-se com esses pobres tipos? Ajudei tantos outros, mais poderosos, que me abandonaram nas horas decisivas!

A febre financeira das cidades correspondia às mudanças na agricultura. O fim do tráfico negreiro liberara capitais gigantescos: durante trinta anos havíamos gasto mais com os negros do que com todas as nossas outras importações, agora, cumpria encontrar um escoadouro para as fortunas acumuladas

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pelos grandes comerciantes de escravos da Bahia, como o português Pinto da Fonseca, negreiro tão rico que o apelidaram de Monte Cristo. Ora, nada empurrava essa gente para a agricultura ou para a indústria; nossos cafezais, nossas tecelagens, nossas fundições aborreciam-nos. Estavam acostumados com o dinheiro rápido, com as cartadas lucrativas, enquanto os outros se esfalfavam, em suma, queriam casas bancárias: em dez anos fundaram cerca de cem, que em sua maioria, aliás, periclitaram.



Semelhante desvario bancário, acompanhado por uma expansão de nossas manufaturas, atordoava-me. Andava ocorrendo alguma coisa no Brasil que eu não compreendia perfeitamente e nem controlava. Como todos neste século inovador, eu desejava ardentemente o progresso para o meu povo e para o mundo. Apaixonava-me pelas inovações técnicas, essas pelo menos eu as entendia, e sem dúvida melhor do que meus ministros. Mas a indústria e os bancos introduziam algo novo, modificavam as relações entre os homens de maneira sutil, obscura, inquietante. Eu inclusive pressentia, sem ser capaz de demonstrá-lo, que findariam afetando o poder do Estado, do qual eu era o zeloso guardião.

Procurava informar-me, ler o que escreviam os economistas, mas eles analisavam as forjas da Inglaterra ou as fiações de Boston, tão distantes, tão diferentes de nossa realidade. Considerava-os enfadonhos. Mentiria caso afirmasse que entendi tudo a respeito das teses de John Stuart Mill, em seu ensaio sobre O papel do Governo, e sobre essa espécie de correspondência ou de coerência que ele estabelece entre a moeda, a alfândega, a indústria, a atividade bancária.

Para Mim, havia escolhas a fazer, intimamente ligadas ao poder e cujo alcance eu percebia mal. Cumpria, por exemplo, adotar um laissez-faire abstencionista ou exercer a política voluntarista posta em prática por Hamilton nos Estados Unidos e que Bismarck ilustraria vinte anos depois?

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jamais desejei escolher. Vinham falar-me do protecionismo: parecia ter êxito nos Estados Unidos, mas os ingleses instavamnos a não sucumbir a ele. Eu pendia nessa direção, a livre-troca atraía-me por um não sei quê de moderno, anunciava as idéias de Darwin que eu abraçaria mais tarde: a proteção de suas carapaças não salvou os dinossauros. Nosso Brasil ficou a meio-caminho, menos protecionista do que a França ou a Alemanha, porém mais do que a Argentina que se dedicava definitivamente à exportação.



Nesse campo tão fastidioso da economia tive sempre uma única certeza: há que defender a moeda. Considero-a sagrada, não devido aos misteriosos mecanismos pelos quais, dizem-me, protege o poder aquisitivo do povo, mas porque ela é visível, é um pavilhão brasileiro içado na City e que jamais deve ser baixado. Aos olhos do mundo, o câmbio era a expressão mais conclusiva, mais indiscutível de meu poder. Queiramos ou não, e dele padeci mais que qualquer um, a Inglaterra impõe-nos seu modelo. Alguns admiram-no, outros odeiam-no, mas todos procuram copiá-lo. Ora, esse país apóia-se na libra esterlina, e é com essa bitola que nós, governantes, devemos medir nossos resultados. Nosso Mil-réis flutuou durante meu reinado, especialmente em virtude das cotações do café, mas sempre conseguimos trazê-lo para perto de sua paridade, digamos de 27 pence.

Criticaram-me por isso, assim como por tudo o mais. Tínhamos nossos partidários da emissão desenfreada. "Para que defender a cotação da moeda? indagavam, temos que irrigar nossas empresas com dinheiro, assim como um verdureiro rega suas couves. Moeda, mais moeda, e o Brasil estará salvo."

Deixei que se fizessem experiências, todas levaram a desastres. Basta ver o que ocorre hoje, acompanhar a cotação do mil-réis na pretensa república: treze, ou mesmo doze pence, linda imagem que essa gente fornece de nós! Ocorre com os países o que ocorre com os indivíduos: enriquecemos pelo trabalho e pela poupança. Não é uma idéia moderna, ao que parece, mas é de meu tempo e compreendo-a; pelo menos durante a época em que reinei, meu país não se tornou um cassino.

Enquanto os negreiros entregavam-se ao fascínio das casas bancárias, a juventude entusiasmava-se com as estradas de ferro. Sabíamos desde muito tempo que se quiséssemos conquistar o Brasil necessitaríamos, mais cedo ou mais tarde, cercá-lo com uma malha de ferrovias. A Inglaterra já contava com cinco mil quilômetros, a Bélgica, proporcionalmente, com mais ainda. Mas quem poderia suportar, durante pelo menos uma geração, o esforço financeiro necessário? Certamente, não os antigos nababos do tráfico que só pensavam em especular. Foi um inglês, filho de um ex-almirante de meu pai, que nos explicou como fazer.

"O dinheiro, dizia ele, existe, senão no Brasil, pelo menos na Europa. - Mas como imaginar que um poupador de lá aceite interessar-se por nós? - Isso é assunto dos banqueiros. Os senhores de Rothschild sabem convencer os econômicos e expurgar seus pés-de-meia dos escudos supérfluos. - E o que pedirão esses banqueiros? - Nada, ou quase nada: a garantia de um rendimento mínimo, cinco por cento, por exemplo."

Lei neste sentido foi votada em 1852 e os promotores não tardaram a apinhar-se nas ante-salas do gabinete. Certo dia, em uma margem barrenta da baía do Rio de janeiro, um deles entregou-me uma pá de prata maciça e um carrinho de mão de jacarandá indicando-me onde eu devia começar a cavar a primeira trincheira da primeira estrada de ferro brasíleira.

Esse homem chamava-se Irineu, e fiz dele o barão de Mauá dois anos depois, por ocasião da inauguração dos catorze quilômetros de sua linha. Ele participou de perto ou de longe de todos os grandes projetos de seu tempo e tornou-se o homem mais rico do país.

Nem bem foi inaugurada a primeira linha, projetaram-se outras ferrovias no norte para servir aos arredores de Recife e à Bahia. Mauá fazia-se cargo de tudo: recolher os fundos na Europa, contratar engenheiros e indicar as empresas de terraplenagem.

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Mas o café da província do Rio de janeiro fazia-nos viver, e era para ele que devíamos orientar as novas ferrovias. As locomotivas substituíam as tropas de mulas albardadas galgando a duras penas a montanha rumo à baía e ao porto. Podia-se sonhar com uma linha audaciosamente traçada por duzentos quilômetros de rochedos e de precipícios até o rio Paraiba, onde as chatas entregavam as sacas? Saberíamos construir pontes, abrir túneis? E quem supervisionaria tão prestigiosa empreitada? Mauá? Ele de novo?



Desta feita, foi ele afastado. Seus adversários, uma coorte de funcionários sem dinheiro, convenceram-me de que o Estado assumisse seu papel de propulsor econômico. Para esse caminho de ferro vital, o governo financiaria o capital, e a estrada levaria o meu nome. Em percurso tão delicado, o projeto apresentava riscos, realizá-lo sem Mauá era um desatino, percebemos tarde demais.

Em matéria de engenheiros, só contávamos com os formados pela Escola Militar, e estes jamais haviam encaixado um trilho. Tivemos de contratar estrangeiros; os que foram recrutados, norte-americanos, aliavam a incompetência à desonestidade. Fizeram as obras desafiando o bom senso. Foi necessario ?derniá-los, aceitar atrasos, rever os orçamentos para conseguirmos enfim, após dez anos de esforços, abrir os túneis e chegar ao rio. Tomei horror para sempre ao dirigismo.

Mauá acompanhara de longe a lamentável aventura. Observara a expansão dos cafezais de São Paulo, cuja produção algum dia haveria que ser escoada pelo porto de Santos. Ali, nenhum túnel a cavar, nenhum desfiladeiro a cruzar, simplesmente uma serra quase vertical de setecentos metros de altura que devia ser escalada para se ter acesso ao planalto. "Impossível", afirmavam os peritos. Mauá refletia. Seus aliados ingleses terminaram propondo uma solução cuja história, a da São Paulo Railways, inclui-se entre as mais belas aventuras técnicas de nosso século. Seus engenheiros acimentaram na escarpa uma série de planos inclinados sucessivos nos quais sarilhos gigantescos içavam os vagões, um a um, por cabos de

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aço. No alto do último plano atingia-se o nível do planalto, na linda várzea do Paranapiacaba. Ali eram reconstituídos os comboios que partiam em meio ao vapor e aos apitos para as terras roxas do Oeste.



No curto trajeto dessa linha, outras vieram enxertar-se, ramificando-se por toda a província. O café circulava dias a fio, de rede em rede mas, de onde quer que viesse, sempre findava ali, no alto da serra, diante do plano inclinado onde a Santos-Jundiaí cobrava seu pedágio. Com essa passagem obrigatória, a companhia fez imensa fortuna, enriqueceu enormemente seus acionistas, salvo Mauá, pelo menos dessa vez, lesado por seus sócios por causa de um contrato mal redigido.

Como em outros países do mundo, a estrada de ferro revolucionou nossos costumes. Provocou diversas vocações de engenheiro e dobrou o preço das terras. São Paulo prosseguiu sua formidável expansão para o Oeste, Minas Gerais deve ter sofrido ao ver violados seus arredios confins. No menor povoado, a estação tornava-se símbolo de progresso, pólo de modernidade. Um engasgo da locomotiva na serra, o gemido de um apito, uma nuvem branca subindo por cima dos cafezais faziam nossos corações dispararem de alegria, de orgulho, de esperança: não há nada mais bonito neste século.

O país ia encolhendo, com as ferrovias inauguravam-se estradas de rodagem, telégrafos; todos aplaudiam as novas invenções, os pobres, os ricos, e sobretudo o imperador, que com elas aproximava-se mais de Petrópolis.

Petrópolis, minha cidade, desejada, povoada, ornamentada por mim! Seu nome atesta para sempre a minha paternidade. Antes de mim, muitos reis saborearam o inefável prazer de semear pelo mapa mementos do próprio poder! Pois é possível edificar templos ou palácios, erguer obeliscos, mas tudo

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isso é varrido pelo tempo. Uma cidade, ao contrário, renasce sempre, ninguém lhe apaga o nome dos atlas.



Para criá-la há que se ter a obstinação e o amor que um jardineiro dedica ao arbusto predileto. Trazer terra, vigiar a rega, afastar os predadores, podar os brotos inoportunos. Em seguida, enxertar os habitantes, zelar por seu bem-estar e as boas relações entre eles. Por fim, se possível, aguardar e saborear. Não concebi Alexandria nem Petersburgo, mas tirei mais proveito de Petrópolis do que os construtores dessas metrópoles.

Meu pai comprara propriedades nas montanhas vizinhas ao Rio de janeiro, de um lado e outro da linha divisória de águas, a novecentos metros de altitude. Um relevo atormentado, um entrelaçamento de pequenos vales onde murmuram riachos com suas cascatas. Neblinas românticas envolvem a paisagem durante as manhãs de inverno, demorando-se nos vazios ou esgarçando-se nas cristas rochosas. Quem leu Victor Hugo pensa nas margens do Reno, aguarda a melopéia de Lorelei.

O verão transforma o sítio em oásis: o sol assassino do litoral ali se ameniza, torna-se o compadre bondoso dos passeios e dos piqueniques. As noites reúnem as famílias nas varandas, conversa-se alegremente entre um lado e outro da rua, ou sonha-se sob as estrelas. No Rio, os corpos suados agitam-se sobre os lençóis úmidos, sem pegar no sono, ao passo que lá na serra, no auge da canícula, puxa-se a coberta antes de dormir.

A idéia de aproveitar essas terras e esse clima coube a um mercenário alemão. Oficial de engenharia junto ao rei da Prússia antes de servir no nosso país, esse major estava construindo uma estrada na região. Interessado em garantir uma atividade para seus dias de velhice, propôs-me criar uma colônia que ele povoaria com camponeses recrutados em sua Renânia natal. Seu projeto parecia tão mais sedutor na medida em que ele concluíra a estrada e que seria possível construir perto da colônia uma residência de verão para o imperador.

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O major contratou uma firma de Dunkerque para seduzir seiscentas famílias dos arredores de Colônia e encaminhá-las ao Rio de janeiro. Instalaram-se em pequenos grupos, de acordo com sua origem e sua religião, e batizaram as terras com o nome de suas cidades natais. Vimos surgir uma Cobleriz, uma Mosela, um Bingen entre as jaqueiras e as bananeiras. Construíram casas a seu modo, depois plantaram legumes, desviaram enxames para as colméias e prepararam queijos. Encantadas, as personalidades da província convidavam-me a ir conhecer o milagre: cenouras e repolhos expostos em tabuleiros por meninotes de cabelos louros.



Ouvi murmúrios respeitosos quando cumprimentei essa gente honesta, e em seguida, vivas aclamações quando anunciei que lhes oferecia uma igreja com a minha lista civil, a fim de que pudessem rezar no seco, bem como um templo luterano, ambos próximos da minha residência de veraneio.

Meu palácio de Petrópolis! Falta-me coragem para descrever essa pequena jóia. Tantas maravilhosas recordações, tanto sossego familiar depositaram em seus lambris uma pátina de felicidade que não quero embaçar com minha tristeza. Expulsaram-me da casa de minha família, onde cresceram minhas filhas, meus netos. Vêm-me lágrimas aos olhos no momento em que uma freira entra no meu quarto para trocarme o curativo do pé. Para o velho caduco, para o inválido, o decadente, é cem vezes menos cruel contar a si mesmo suas desgraças do que procurar reencontrar a suave luminosidade de seus bons tempos. Suportamos as dificuldades do passado, as humilhações, os lutos, mas como tolerar o deslumbramento da felicidade perdida? Estou aqui, converso, fálo de guerras, de crises e de locomotivas, mas dou-me conta ao longo deste relato que penso o tempo todo em Petrópolis, que inclusive só penso nisso. Vichy convida-me a tanto, com suas sombras e suas colinas, e com os jardins de Napoleão III à beira do rio, tão parecidos com os que um francês desenhou por lá.

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Passei quarenta verões em Petrópolis, durante as férias da Câmara e do Senado. A princípio, levávamos dois dias para chegar, e algumas horas apenas tão logo a estrada de ferro pôde subir a serra. Lá eu me encontrava, há dois anos, quando o presidente do Conselho anunciou-me por telégrafo o levante do meu exército. Meu genro queria que eu ali permanecesse, e que organizasse a resistência. Preferi retornar ao Rio, enfrentar meu destino.



In Xanad¡¿ did Kubla Khan A stately pleasure dome decree.. And there were gardens bright with sinuous rib Where blossomed many an incense-beating tree, And here were forests ancient as the hills, Enfolding sunny spots of greenery.

Não sou o mogol de Coleridge, bem sei, mas como ele vi desabar meu sonho após ter sorvido o leite do paraíso.

Hoje em dia, corre um pequeno rumor nos círculos monarquistas: a República poderia revogar meu banimento. Muito além do provável, em algum lugar entre o sonho e a loucura, cintila por vezes um filturo de aposentado, comportado e discreto, prometo, ah!, como prometo, sob as folhagens de Petrópolis, em casa!

Eu havia distribuído a meus colaboradores lotes de terra em torno do palácio, onde construíram palacetes. Os diplomatas, cansados de se hospedarem no hotel quando queriam encontrar-me, puseram-se também a construir. Todos os que tinham influência no Rio de janeiro iam encontrar-nos no vêrão para fugir do calor e das epidemias. A Corte reconstituíase longe das salas lúgubres e da etiqueta minuciosa de São Cristóvão. Pensávamos melhor no frescor das montanhas, trabalhávamos mais, resolvíamos mais rapidamente os negócios.

E, ademais, achávamo-nos entre nós. Afastados do Rio, formávamos uma colônia temporária de ricos, senão de brancos,

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homens de poder fatigados com a balbúrdia popular, convencidos de que podemos muito bem administrar os interesses do povo sem ter de suportar-lhe o suor e as patacoadas. Eu saía vestido de fraque, sozinho ou acompanhado por um amigo, tendo no máximo um lacaio atrás de mim. Ia ao hotel tomar suas duchas, ou ao livreiro, ou fazia uma visita a um dos colégios da cidade. Senadores cumprimentavam-me, banqueiros ofereciam-me seu landau, eu agradecia e seguia a pé. Na hora do trem, todos encontravam-se na estação para receber os amigos ou simplesmente para ver quem ia chegando e com quem se podia contar para o próximo baile: tal e qual o Vichy de Sadi Carnot.

Afora esses passeios, algumas mundanidades e as horas passadas com minhas filhas, eu dedicava a maior parte de meus verões à leitura e à pesquisa.

Pois o estudo invadira-me a vida. Influência de meus antigos mestres? Saudades de suas tranqüilas lições? Preocupação em escapar da insípida Teresa? Afinal, o que eu ia buscar na solidão de minha biblioteca? O fato é que por essa época, desde a morte de meus filhos, principiei o lento processo de fecharme sobre mim mesmo por intermédio dos livros, ou para eles.

Adaptava meus programas às minhas residências. A sossegada Petrópolis convinha à leitura, à poesia, à lingüística. No Rio, eu tinha menos tempo, porém mais espaço, dispunha de um laboratório de física, do observatório que mandei construir, das coleções naturalistas herdadas de minha mãe; de modo que me dedicava mais à ciência. Todos os seus campos interessavam-me. Cidadão de um mundo em plena transformação, queria eu ser informado de tudo e tudo entender.

Para tanto, contava com as vantagens da fortuna e do poder. Sempre ligado a meus antigos professores, arregimentei,

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para somarem-se a eles, os especialistas mais eminentes do Império. Um aluno de Arago, ensinava-me o cálculo diferencial e, para a astronomia, havia o sr. Liais, do Observatório de Paris, que se comprazia no Brasil, para onde fora atraído por um eclipse.

Era-me fácil assinar todas as revistas científicas da Europa e dos Estados Unidos. Fácil também manter uma correspondência com os autores dos artigos que me intrigavam: esses sábios, por vezes obscuros em seus países e quase sempre menosprezados pelos poderosos, maravilhavam-se com meu interesse por seus trabalhos. Assim, formei uma rede de relações úteis que me indicavam pistas e fontes. Só me restava ralhar com minhas embaixadas para que me fornecessem livros e instrumentos, os mais recentes, os melhores, a qualquer preço.

Por exemplo, comprei um dia na Saxônia uma lente que imaginava necessitar para minhas observações. Sua focal chegava a oito metros e ninguém em nosso país sabia confeccionar um tubo metálico de tal comprimento para aí adaptar a lente. De modo que mandei montar minha luneta sobre pequenas lâminas de uma madeira de lei da Amazônia, afuniladas numa extensão de oito metros e coladas juntas. Ela ainda existe e ainda serve, a única luneta, é provável, que os astrônomos devem encerar regularmente.

Com estudos e muita memória, alcancei em diversas disciplinas um nível, digamos, correto. Assim, quando minha cabeça funcionava à perfeição, fui um dos bons matemáticos do Brasil, mas certamente não o único. A fisica e a química sempre atrairam-me muito pelas aplicações práticas que eu entrevia para meu povo. Técnico sólido, manipulador hábil, eu me colocava sem dúvida um pouco acima dos engenheiros de nossa Escola Militar. Em botânica, em geologia, campos em que tínhamos menos especialistas, eu me alçava sem esforço entre os primeiros. As únicas ciências em que creio ter ultrapassado todos os meus súditos - sem todavia exceder o nível

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de um bom estudante de quinto ano de uma grande universidade alemã - são a lingüística e a astronomia; entretanto, mesmo em semelhantes campos, passei meu tempo sobretudo a verificar, às vezes a corrigir o que outros avançavam: jamais descobri alguma coisa.



A única tentativa, por sinal desastrosa, que fiz para me impor como pesquisador refere-se mais à técnica do que à ciência pura. Tratava-se simplesmente de uma idéia, creio tê-la concebido antes dos outros. Em 1851, o francês Foucault suspendeu um pêndulo na cúpula do Panthéon e deixou-o balançando diante dos populares. O plano em que o engenho oscilava, em vez de ficar imóvel, girava devagar sobre si mesmo. Esse plano, demonstrou Foucault, em realidade permanece fixo no espaço e são os populares que se mexem ao redor, porquanto estão com o pé na terra e porque a terra gira. Minha idéia era aparelhar o movimento do plano oscilatório para transformá-lo em força motriz.

Escrevi a Foucault. Agradeceu-me enviando-me um giroscópio, aparelho que acabava de inventar e que confirmava a demonstração de minha idéia. Quanto a esta, manteve-se mudo, e foi um certo Dettwefler que mais tarde atribuiu-a a si mesmo. Aliás, pedi no mês passado ao meu amigo Daubrée, da Escola de Minas, que procure encontrar minha anotação de quarenta anos atrás. Sua resposta, muito amável, elude minha questão. Custo a fazer-me entender, devem ter tomado minha idéia por uma mania, ou por um tolice que não se atrevem a levar em consideração. No entanto, parece-me que..., ah! como é irritante!

Não faz mal, afinal de contas jamais tentei publicar o que quer que fosse, nem mesmo conceber, e em seguida verificar, uma hipótese verdadeiramente original. Dispersei-me demasiado em demasiados ramos do saber: não sou um cientista, jamais procurei sê-lo, para tanto haveria que ser mais inteligente, e creio conhecer os meus limites.

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Em todo caso, necessitaria de melhor organização, mas queria fazer tudo, sozinho. jamais ditei minhas cartas nem confiei a um secretário particular o cuidado de organizar-me o tempo, classificar-me as notas ou redigir sínteses. A bem da verdade, fazia minhas pesquisas um pouco ao acaso. A verificação de uma tese apresentada nos Annales de phyque ocupava-me por quinze dias, e depois, desconfiando do erro de um geólogo, eu passava várias semanas tentando refutá-lo.

Ia de uma ciência a outra, perdendo minhas notas, rabiscando um comentário à margem de um artigo sem jamais poder encontrá-lo depois, extraviando minhas cartas aos cientistas. Escrevi para minhas filhas e meus sobrinhos compêndios científicos: onde foram parar? De todos esses esforços, hoje nada resta senão a acumulação de fàtos numa memória que anda falhando.

Desculpem, algo subsiste: uma pedra eterna, uma pedra veloz, ignorada pela maioria, que gira acima de nossas cabeças. O astrônomo Flammarion, meu amigo, recomendara-me a Charlois, do Observatório de Nice; fui visitá-lo, no ano passado. Ele vinha de descobrir um asteróide. Em minha homenagem, para celebrar o ancião que tanto aprendeu e tão pouco memorizou, batizou-o com o nome de Brasilia.

Como eu me sentia bem, no laboratório de São Cristóvão, ao lado da grande biblioteca do segundo andar! A cidade- alvoroça-se ao longe, um canhão anunciava a chegada de um navio, e eu regulava meu bico de Bunsen. Na Câmara, um deputado apoplético, enterrado na tripla volta de sua gravata, proferia uma catilinária contra o poder pessoal, e eu contava gotas em minha praveta. Um túnel de ferrovia desabava, a cotação do café baixava, a seca dizimava nossos bois, e eu, fascinado por uma nuvem opalescente num tubo, saboreava a precipitação dos sulfetos.

Ali, diante de minhas retortas e meus manômetros, não temia mais ninguém, nem a sanha dos jornais, nem a sátira dos caricaturistas, nem a ironia silenciosa de um conselheiro de Estado. Ah! maravilhoso isolamento do pesquisador, agradável fortaleza da ciência, doce fuga para o saber.

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A visita de Charcot, esperada com impaciência há três dias, distraiu-me dessas recordações. Que noite aprazível passamos juntos! Esse médico cuidava da neurose, como diz, de Teresa, desde 1877. Há três anos, em 1888, salvou-me a vida quando eu agonizava em virtude de uma pleurisia num hotel de terceira classe em Milão. Mas a amizade que tenho por ele não decorre apenas de minha gratidão. Somos gêmeos, com a diferença de poucos dias, e, assim como eu, ele não conheceu sua mãe. Nele encontro meu interesse pelos avanços do saber e minhas dúvidas sobre seus beneficios, minha ternura condoída pelo homem e minha preocupação diante de seus desvios. Entendemo-nos a respeito de quase tudo.

Sua chegada causou sensação no hotel. Eis um homem que não passa despercebido, e mais de uma bonita curista já pensa em se deixar hipnotizar. Felizmente, não trouxe a sua macaca, um bicho esplêndido que lhe ofereci e que ele acaricia com uma afeição vagamente suspeita. A freira abriu-lhe a porta e tomou-lhe a bengala quando ele ia se aproximando de meu leito com seu bondoso sorriso.

Olhei-o desfazer a atadura de meu pé: a cabeça, quase sem pescoço, grudada num tronco forte demais para as pernas curtas, o cenho batalhador, o nariz petulante e aquela boca caída onde leio tanta amargura. Não apreciei sua careta ao ver a ferida, e nem seu diagnóstico: gangrena! Mas uma gangrena bem-educada, parece, sensível aos remédios e que em breve há de estar curada. Naturalmente, devo ficar de cama, pelo menos até a chegada de Isabel, depois de amanhã.

Mandei que se trouxesse o nosso jantar ao quarto, implorando a Charcot que escolhesse um médoc por mim, ele, que é tão apreciador dessas coisas! Quando Guillaume tirou a mesa, conversamos, ou melhor, ouvi-o discorrer, um lento monólogo em tom abafado, quase uma confissão. Como esse

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homem é inquieto apesar das honras acumuladas sobre sua cabeça, e como sofre!



Durante toda a vida, tratou de mulheres histéricas, eu mesmo assisti a uma de suas lições no Salpêtrière. O que naquele dia não vi, o que ele esconde dos ouvintes mundanos, é o outro lado da medicina, o inferno das enfermarias. Charcot narrou os olhares perdidos, os cheiros, os berros súbitos, as freiras agoniadas que acorrem. Descreveu as crises, o corpo feminino arqueado, teso a ponto de rachar, as seqüências místicas e as seqüências sensuais. Repetindo o médoc, falou, não sem visível excitação, dos corpetes arrancados, das saias levantadas, das pernas abertas diante do interno - ou do professor a quem elas fazem um convite e a quem imploram.

Ele estudara tudo isso por vinte anos, certo, absolutamente certo de, um dia, identificar no cérebro, na matriz, em algum lugar, a lesão responsável que poderia ser tratada para curar o doente. jamais descobriu. Para acalmar suas pacientes, cumpria recorrer à barbárie das bofetadas, das duchas, das camisas-de-força, do compressor de ovários. Vinte anos de torturas infligidas a feiticeiras: então o mundo não mudara desde o Santo Oficio?

As novas teses da psicologia abalavam sua alma atormentada pelo fracasso; mas podia-se imaginar uma moléstia sem lesão, sem fato gerador, sem outra causa que não os eflúvios impalpáveis, quiçá elétricos, em certas regiões do encéfalo? Seus jovens colaboradores estavam mais adiantados nessas hipóteses, pressentiam algo mais além da consciência, a coisa genital, que nos governava a todos e podia destruir-nos.

Essas novas concepções ultrapassam-me e chocam-me. Charcot me perdera, atrás dele, já havia um momento, e creio até ter cochilado um pouco, mas recostei-me nos travesseiros ao ouvi-lo pronunciar o nome de Marguerite-Marie Alacoque, a freira de Paray-le-Monial a quem devemos o culto ao Sagrado Coração de Jesus. O santuário fica perto daqui e Isabel, sempre assídua quando se trata de aparições milagrosas,

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ameaça arrastar-me até lá. A pobre vai se tornando cada vez mais carola, ao envelhecer. Vou contar-lhe, de brincadeira, o que Charcot pensa a respeito da beata e de seus estigmas. Ou então vou me calar, pois percebi muito bem que ele não brinca com a fé; a filha de um de seus amigos de infância, rebelde a todos os tratamentos, acaba de se curar em Lourdes.



Deixou-me há alguns instantes e eis-me às voltas com os demônios da insônia. A dúvida levantada por Charcot a respeito de toda a sua vida desperta-me outras na consciência, a impudente sarabanda que dançam cerca-me e arrasta-me. A exemplo de Charcot, sempre acreditei ter agido direito, sempre gostei de meus pacientes, meus suditos. À falta de descobrir o remédio para suas discórdias, encerrei meu povo no imobilismo, em suma, recorri à camisa-de-força do direito público em vez de procurar e descobrir outra coisa. E se tivesse me enganado, a respeito do Uruguai, da moeda, de Mauá? E se tivesse errado ao me isolar em Petrópolis, ao me esconder atrás da ciência?

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A visita de Charcot não bastou para curar-me o pé. A diabetes que há vinte anos vem me debilitando apodreceu-me as artérias e prolongou meu combate contra a gangrena; para subjugá-la, foi preciso mais do que o olhar de um professor de medicina. Enfim! eis-me curado, lépido, conquanto eu dispensasse perfeitamente essas horas febris e os fantasmas que me visitaram. Guillaurne alega que delirei por três dias e sugere que proferi insanidades; a freira baixa os olhos, invocando a vontade do Senhor.

Vi os berços de meus dois filhos descerem por uma ladeira vertiginosa à beira da qual eu me encontrava amarrado. Recuei de terror diante do rosto de meu amigo Pedreira, lentamente calcinado como a ponta de um charuto. Escapei por um triz da espada de um marechal paraguaio. Outros horrores mais, todos macabros. Até mesmo a condessa, que tão freqüentemente visita minhas noites, mostrava um rosto cadavérico. No livro que me apresentava, grosso como uma coleção dos salmos, eu sabia que devia ler a frase inscrita em meu diário há alguns meses: "14, quarta-feira, janeiro 1891. Duas horas e cinco. Morreu a condessa de Barral, minha amiga desde 1848."

Ela me olhava com severidade. Eu procurava explicar-lhe o laconismo de uma fórmula, justificar a seca necrologia: qualquer um pode ler o meu diário. Guillaume é bem capaz de surrupiá-lo, para vendê-lo. Sempre fomos tão discretos, devemos

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nos expor, agora que tudo acabou? A condessa negavase a me escutar. Reputo-a cada vez mais irascível em meus sonhos, e irritada, sinto, por não ter ainda aparecido neste relato. Breve, condessa, breve!

Tenho 65 anos, estou doente, praticamente sozinho e sinto dificuldades para ler: assim sendo, como se espantar de que eu fale com os mortos, e por vezes com a morte?

Sei que estás à espreita, Parca, não te regales de antemão, estás espiando uma -vítima assaz medíocre. De mim não ouvirás os gritos, os protestos, as lágrimas aflitas que desconfio que esperas com gula. Tampouco não contes com as covardias, as abjurações, as desistências de última hora. Deus, seja ele qual for, me guarda e terias de ser muito forte para abalar a tranqüilidade de minha consciência: fiz o que pude. E se saboreias as mortes tempestuosas, os falecimentos sensacionais, devias ter passado mais cedo, há três anos, por exemplo, quando um desequilibrado errou o alvo a dois metros de mim, antes de se entregar à polícia com sua pistola. Ah! o belo funeral que teriam me feito! Mas olha hoje, olha o velho exilado em torno de quem ceifaste às braçadas, desde sempre. Não tenho mais filhos, mais esposa, mais país, mais condessa: como queres que eu te tema?

Qual um cavaleiro do apocalipse dispersando as quimeras, minha filha Isabel chegou aqui ao fim do último pesadelo. Com seu passo decidido, imperioso, à falta de já ser imperial, cruzou meu quarto para abrir a janela e arejar o aposento antes de beijar a mão de seu pai. Os eflúvios de dez dias de gangrena evaporaram-se em direção dos castanheiros do parque.

Gastão, seu marido, teve que ficar em Paris. Ela instalou as crianças no terceiro andar do hotel e pediu que se transferisse um casal de espanhóis a fim de poder se hospedar no

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quarto vizinho ao meu. Deu a Guillaume uma gorjeta colossal, perfeitamente desmerecida, e substituiu a freira, com quem, porém, eu me acostumara. Por fim, arregimentou ao meu redor a horda de médicos de Vichy e convocou um oculista. Segunda-feira terei meu novo píncenê.

Em suma, Isabel fez como de hábito, transtornou meu ramerrão cotidiano sem o perceber, com a eficácia que confere às suas obras de caridade. Como de hábito, resmunguei, reclamei por causa de um livro mudado de lugar, de uma missa para onde ela me arrastou, e deixei-me levar, radiante. Mas não há como trabalhar em semelhantes condições, quando a vejo mexendo-se em meu quarto, arrumando tudo, acariciando cada objeto com suas mãozinhas roliças (a meu ver, engordou ainda mais desde o mês passado), procurando um Pretexto para tirá-lo de lugar, cantarolando um trechinho de um cântico enquanto me finjo de mal-humorado, atordoado, irritado, mas orgulhoso, como, sempre, orgulhoso de minha filha.

Isabel, como dizem os velhos pais, nunca me deu preocupações, mesmo quando trabalhávamos juntos para a salvação do Brasil. Decerto, tínhamos nossas rusgas: na idade dela, naturalmente, estava mais impaciente do que eu para transformar as coisas; mas eu estimava o vigor de suas opiniões e inclusive seu temperamento rebelde, traço herdado sem dúvida de minha mãe, enquanto que sua devoção é a dos reis de Nápoles.

Conversamos, é claro, ou melhor, ela falou, formulando as perguntas e as respostas e deixando-me apenas insinuar aqui e acolá uma observação. Contou histórias de nossos amigos de Paris, citou as boas notas das crianças no Stanislas, os prênmios que acabam de ganhar. Quando a interroguei sobre as últimas novidades do Brasil, mudou de conversa com uma frasezinha melancólica que creio pouco sincera. Ela adora Paris, o exílio atinge-a menos que a mim e a perda do trono praticamente não a agonia. Sua vida na França está garantida, os estudos das crianças serão mais bem-feitos do que no Rio de janeiro, fez aqui várias amigas, em suma, ei-la francesa, tal como seu marido.

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A mim, resta-me a melancolia de prever que essa moça extraordinária, atenta a seu povo, generosa, obstinada, e que soube enfrentar os grandes, quando foi preciso, findará seus dias tomando as lições das crianças, inaugurando asilos, absolutamente convencida de que o bom Deus cumulou-a de graças. Que desperdício!



Também falamos de dinheiro, como sempre desde nosso banimento. Parece que gasto muito, que a vida de hotel terminará me arruinando por completo. Ela gostaria que eu alugasse uma casa, talvez em Versalhes. Deixo-a falar. Assim como aprecio a idéia de um imperador pobre, reduzido à mendicância para vergonha dos que o destituíram, assim também detesto a perspectiva de me instalar em algum sítio. Devo, ao contrário, fingir que estou em viagem. Estabelecer-me na França seria reconhecer que estamos definitivamente excluídos de lá, seria aceitar, e eu não aceito.

Assim que Isabel partiu, pude retomar o trabalho sobre os cantos do Comtat em hebraico. Leio muito bem essa língua; aprendi-a com um judeu sueco exilado no Brasil. Prossegui os estudos com uma sucessão de lingúistas alemães que eu convocava ao Brasil para que se agregassem à minha Corte. Com eles, pude também aprofundar o árabe e enfronharme nos mistérios do persa e do sânscrito.

Entretanto, por mais treinado que eu esteja, tropecei nesses pequenos poemas salpicados de palavras caldéias e de versos escritos em caracteres hebraicos que, em realidade, são da língua provençal; o que em nosso jargão denominamos de versos recheados. A situação é corrente em textos tardios, e estes não são antigos, conforme salientou o rabino de Avignon em sua resposta aos meus agradecimentos. Ele atribui os versos a Mardochée Ventura ou a Mardochée Crémieux, dois predecessores seus do século XVIII. A identificação, esclarece, é facilitada por acrósticos que soletram o nome de Mardochée. Com os diabos! eu não havia reparado nesses acrósticos.

O provençal tomou-me muito tempo. Estudei um pouco os felibres desde minha visita a Frédéric Mistral em 1871 (meu

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Deus! aquele vento na praça de Maillane!), mas não me sinto ao abrigo de um solecismo. Felizmente, os textos são simples, quase ingênuos.



Não me desagradam minhas primeiras tentativas; hei de melhorar, mais adiante, por ora, trata-se de desbastar. Eis os dois primeiros Nutim:

Es venga lou ca A mangia 10U cabri Que avié aciéta moun pairé Un escu, douz escus. Had Gadia, Had Gadia.

E agora, no gênero recheado:

Venfan que é circunci Au huitièmejour Pèr crégné Dieu siégé na, Nuitetjour Lou veiré a Ia man EnjubilMon.

Trabalho com lupa e dicionário, suspirando diante de um vocábulo rebarbativo, repetindo-o bem alto para que me penetre. Não raro grito de alegria ao descobrir um significado obscuro, uma frase elegante. Guillaume considera que é uma mania de velho. Imbecil! Toda a minha vida fui apaixonado pela tradução. Traduzi milhares, quiçá dezenas de milhares de versos. Tragédias de Ésquilo, a Divina Comédia, cantos sânscritos, odes de Longfellow, boa parte da Bíblia.

Traduzi, muito em especial, para me distrair. Um texto fácil é como um jogo, agradável porque solitário, e que aceita ser jogado, abandonado, retomado, de certa forma como um quebra-cabeça. Porém, logo a facilidade me enfastiam e o que persegui foi acima de tudo o prazer ineável. de um significado exatamente, insisto, exatamente restituído. Meu hábito da

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precisão científica, meu horror pelo vago provavelmente arrastaram-me para semelhante exercício quase religioso, pois enxergo na tradução de um verso uma equação dotada de alma. Seu significado não reside apenas nas palavras, mas sobretudo em suas cores, em seu perfume, em sua música, que cumpre apreciar numa língua e restituir na outra.



É esta a disciplina que me imponho e que exijo dos outros, severo com suas traduções tanto quanto com as minhas. Convém reconhecer que nas deles, assim como nas minhas, raramente, rarissimamente encontrei algo que me satisfizesse.

Tomemos por exemplo o soneto de Arvers. Seu lamento de amor secreto transtornou minha geração. Aparentaria ser escrito para mim que por tanto tempo escondi meus amores, e ainda aprecio recitá-lo, com um aperto no coração:

Et j'aurai jusqu'au boutfait mon temps sur la terre, N'osant Y¡en dmander et Wayant rien refu.

Toda a minha vida num dístico! A tradução que fiz parece-me, porém, algo inexpressiva. O que diria a condessa se eu lhe tívesse mostrado? O que diria "lendo esses versos dela repletos"? Teria perguntado "quem é afinal essa mulher"? Não. Teria me explicado que toda e qualquer poesia é intraduzível. que as equações não têm alma ou que conhecera muito bem a filha de Nodier, objeto, afirma-se, de semelhante obra-prima. Decididamente, há que £álar da condessa, sinto-o, está chegando a hora.

Intraduzível, a poesia? Senão talvez por um poeta, mas sou eu um poeta? Seja como for, se traduzi milhares de versos, escrevi-os mais ainda. Meu velho mestre Cândido possuía

E até o final terei cumprido meu tempo na terra? Nada ousando pedir e nada tendo recebido. (N.T.)

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alma lírica, ensinou-me as regras. As mulheres forneceram-me o pretexto; quando eu tinha vinte anos, não se podia seduzir uma pequena sem lhe despejar uma dose de alexandrinos. Dentre meus amores, os que menos me reprovo exigiram violetas e quadrinhas cuja veemência terminava por contagiar-me.



Não é só o amor; a disciplina também arrancou-me, quando não inspirou-me, versos. Em várias épocas de minha vida impus-me não dormir sem ter composto meu soneto cotidiano. A chegada da condessa, sempre ela, fez-me abandonar esse gosto; ela teria insistido em me ler, e eu receava sobremodo decepcioná-la.

A versificação era-me apenas um exercício. Foi em outras paragens que procurei os ornamentos do pensamento, e sempre fui um fanático pela verdade para não admitir o seguinte: que sou tão pouco poeta quanto cientista. Mas sei reconhecer um belo verso, caso o encontre.

Não se privaram de zombar de meus sonetos: vale tudo quando se deseja demolir um homem. Que um quitandeiro pai de família excite a Musa, e todos se enternecem; perdoam-no se faz manobras para conseguir publicar seus versos de almanaque; mas que um imperador alinhe estrofes no sigilo da noite, e o assassinam: estou acostumado.

Meus detratores preferem se esquecer do quanto ajudei os poetas. Aqui, convém lembrar aos moços de nosso fim de século, ocupadíssimos com as fornicações de Maupassant e com os lojistas de Zola, que nossa juventude romântica abraçava nobres causas, que as defendia em versos e que, à época, podíamos muitíssimo bem duelarmo-nos ou casarmo-nos por um hemistíquio.

Em 1836, três moços brasileiros, estudantes em Paris, fundaram uma revista de poesia que batizaram com um nome estranho: Niteroy. Haviam descoberto esse nome, pretensamente indígena, na narração do francês Thevet, viajante em nossas latitudes durante o século XVI. Semelhante escolha

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tencionava indicar aos brasileiros a fonte poética onde cumpria buscar inspiração: a da cultura indígena.

Não era uma idéia totalmente original, uma vez que tivera seus defensores no século XVIII, e que Chateaubriand a utilizara. O português Almeida Garrett, o francês Ferdinand Denis, finos conhecedores de nossas letras, também haviam-na recomendado; ninguém lhes deu ouvidos. Desde muitos anos nossos poetas copiavam os de Portugal, eles mesmos atentos ao que se escrevia em Londres ou em Paris. De maneira que cantaram os amores de ninfas e de faunos dançando em torno de colunas dóricas, ao som da flauta de Pã, coisas que eram todas dificeis de ser encontradas sob os nossos coqueiros.

Quanto aos índios, eram nossos; celebrá-los significava afirmar nossa autonomia no único terreno em que o podíamos. Comprávamos perfumes franceses de comerciantes portugueses, inclinávamo-nos diante das fragatas inglesas, mas ninguém iria sonhar em nosso lugar com os timbiras ou os tamoios.

Sabíamos muito poucas coisas a seu respeito, conquanto fossem numerosos, quase quinhentos mil, estimava o ministro do Interior. Por vezes interroguei-me, ao ouvir essa cifra, como havíamos logrado escapar das guerras indígenas. Não digo que não tenha havido sangue derramado: os mundurucus ao norte, os guaicurus ao sul, por exemplo, davam outrora muito trabalho aos portugueses assim que se afastavam do litoral. Contudo, no meu reinado, graças a Deus evitamos os horrores do Chile com os araucanos ou do Texas com os comanches. Tivessem nossos índios nos escalpelado, ou melhor, comido, pois dizem que sào canibais, nossos literatos provavelmente teriam hesitado em tomá-los como heróis de suas epopéias.

Uma índole mansa mantinha tais tribos à margem, em regiões afastadas, onde o branco não penetrava. Dali saiam raramente, para trocar por ferramentas cerâmicas e maravilhosos adornos de penas, tal como a murça de galo-da-rocha.

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Atribuíam a seus pajés poderes de curandeiros que ninguém hesitava em qualificar de mágicos. De tudo isso depreendia-se a imagem de guerreiros valentes, dotados para as artes, com pendores para o sobrenatural e aparentemente condenados a desaparecer: o que comovia qualquer homem sensível.

Nossos poetas, jovens burgueses sufocados pela sociedade serena que eu ia organizando, aí encontraram uma causa. À alternância dos partidos, à estrada de ferro, aos aborrecimentos do Prata, opuseram a nobreza do cacique, o amor fatal da jovem indígena, a sabedoria grandiloqüente do pajé. Todos os que, à época, ferviam pela poesia, entraram a pôr em rimas amores silvestres, náiades acobreadas e combates épicos. Disputaram-se os antigos dicionários de nossas línguas nativas feitos pelosjesuítas para entremear as estrofes com palavras indígenas.

Um dos mais bonitos poemas dessa época chama-se I Juca Pirama; que o bom entendedor compreenda: aquele que há de morrer. Quando seu autor foi sepultado, um jornalista político dedicou-lhe uma ode fúnebre. Lembro-me desse mulato, Machado de Assis, porque enviara-me no ano anterior um soneto bajulador. Seus versos, aliás encantadores, lembram-me tanto minha juventude!

Coema, a doce amada de Itajubá Coema não morreu; a folha agreste

Pode em ramas ornar-lhe a sepultura, E triste o vento suspirar-lhe em torno; Ela perdura, a virgem dos Timbiras, Ela vive entre nós.

Há de se imaginar como eu me apaixonava por essa moda que aliava a poesia e a lingüística. Pus-me a estudar nossas duas principais línguas, o tupi e o guarani. A nota referente a elas no verbete "Brasil" da Grande Encyclopédie é de minha

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lavra; aí descrevo sua gramática sutil. Também servi-me de seus vocábulos sonoros para acrescentar um brilho indígena aos títulos que eu distribuía. Fiz de um poeta o visconde de Araguaia, de um fazendeiro, o barão de Itapetininga, e, para Torres Homem, um dos fundadores do movimento, imaginei um viscondado de Inhomirim.



Como se vê, os guerreiros empenachados escondidos na selva obcecavam-nos. Contudo, um país não escolhe impunemente suas maiorias. Tínhamos índios e tínhamos negros. Os primeiros, distantes e fracos, enterneciam-nos e faziam vibrar a lira do poeta. os outros amedrontavam-nos. Ao cantar-se os tormentos de um tupinambá martirizado pelos portugueses, procurava-se exorcizar outros martírios e outros verdugos. Nossa piedade, a dos homens e mulheres da elite, a minha, em todo caso, despertada pelas estrofes em voga, estendeu-se aos outros infelizes infinitamente mais chegados a nós. O indianismo resvalou com absoluta naturalidade para o antiescravismo, para o abolicionismo, cujos primeiros defensores foram os românticos da segunda geração.

Ajudei a esses poetas. Ao mais brilhante da primeira geração, Gonçalves Dias, concedi os meios de se formar na Europa, encomendando-lhe pesquisas históricas. A missão fazia parte de um projeto mais amplo, o de recopiar discretamente nas bibliotecas estrangeiras textos dos antigos tratados portugueses relativos a nosso território. Da massa de papéis reunidos por meus enviados, pudemos extrair os argumentos para o traçado de nossas fronteiras. Foram-nos preciosos nas desavenças que mais tarde opuseram-nos a nossos vizinhos e, sobretudo, na Guiana, à França e à Inglaterra.

Entre a meia dúzia de investigadores reunidos em torno de Gonçalves Dias, o mais curioso e o mais diligente vivia em Paris há quarenta anos. Este, que nada tinha de poeta, servira a Napoleão como médico militar e acompanhara o Exército Imperial à Rússia, amputando como podia os pés congelados

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dos hussardos e dos granadeiros; curioso destino, há de se convir, para um negro baiano.

Minhas subvenções tinham lá seus equívocos, logo descobertos por meus adversários. Provavelmente dei mostras de imprudência ao apegar-me a uma certa Confederação dos Tamoios, cuja caríssima publicação financiei. A crítica condenou unanimemente essa epopéia, em termos nada ambíguos. Um outro indianista orquestrava a tarefa de demolição. Mais tarde, escreveu um poema do mesmo gênero, O Guarani, no qual um brasileiro vivendo em Milão inspirou-se para uma ópera que fez algum sucesso no Scala, nos anos 70. Esse Carlos Comes vivia na Itália com a pensão que eu lhe dava.

Rememorar os favores que prestei aos intelectuais conduz-me a falar de minha generosidade. Nisso não vai qualquer humildade, ao contrário, eis uma de minhas vaidades favoritas, e orgulho-me, em minha idade avançada, de não ter conhecido a avareza. Mas que ninguém se engane: pratiquei tais liberalidades com meu próprio dinheiro e certamente não com o do Estado, pelo qual, aliás, a Câmara pedir-me-ia satisfações.

Minha lista civil elevava-se a aproximadamente dois milhões de francos-ouro, soma quejamais foi reajustada em função da alta de preços; entretanto, estes dobraram durante meu reinado. Eu tinha dinheiro à larga para manter meus palácios e pagar meus criados. O que sobrava partia em doações de todo tipo. Não faltavam pedintes: antigos servidores, militares, viúvas em apuros, hospitais, escolas. Eu dava sempre.

Não é assim que se poupa e que se enriquece, Isabel bem que me repetiu. No final, as viagens, a moléstia custaram-me caro, tive de recorrer a empréstimos. Quando fui deposto, eu devia vários anos de rendimentos, amplamente garantidos por meus imóveis, contanto que os militares não se apoderassem deles. Com o exílio, a situação tornou-se inextricável, e hoje vivo praticamente a expensas de meus partidários. A chamada República propôs-me, ao me expulsar, dar-me uma boa fortuna, para encerrar a questão! Recusei. Agora, falam em

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me conceder uma pensão, equivalente aos tratamentos do presidente deles; recusarei.

Pouco se me dá a pobreza, o que importa é um mínúsculo decreto que foi assinado às pressas. A República far-se-á cargo das pensões que o Imperador pagava do próprio bolso; a vergonha força-a a cuidar dos pobres coitados a quem eu ajudava. Uma vez que não é popular ou, como se diz, social, o novo regime pensa comprar a gratidão dos pobres deixandolhes o que tinham no Império. Saboreio.

Repetindo aqui já várias vezes que vivíamos no Brasil em um estado de direito que respeitava as liberdades, cedi, confesso, a uma ilusão que muitos de nós nutriam e desejavam manter. Nossa Constituição, nossas leis refletiam nosso desejo de eqüidade e nosso respeito pela pessoa; o liberal inglês mais avançado nada teria a acrescentar. Mas a Arcádia que essas leis regiam não existia.

Éramos justos, mas não reconhecíamos aos índios outros direitos senão o de enfeitar nossas elegias. Respeitávamos os homens, mas açoitávamos nossos negros. Esses dois vícios manchavam nosso sistema. Não eram os únicos, e o próprio homem livre não podia esperar apoio dos magistrados quando sua palavra, seus bens ou seu voto incomodavam os mais poderosos do que ele.

Da meticulosa eqüidade de que nos gabávamos só tiravam proveito, no fundo, os partidários do governo vigente. Para os outros, quer dizer, os pobres e os da oposição, a majestosa igualdade das leis nada valia. O que valia eram o ouro e o cacete.

Com o ouro, os grandes proprietários podiam comprar votos. Podiam também manter uma clientela de capangas capazes de esbravejar quando necessário e, quando necessário, assassinar na calada da noite uma família rival. O cacete, o dos

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militares, facilitava o alistamento forçado, o terrível recrutamento inapelável e sem controle. A lei autorizava empregar contra os pobres essa arma absoluta: sete anos de serviço sob o terrível regulamento militar do conde de Lippe.



Se sobravam eleitores na oposição, eram amordaçados pela fraude eleitoral.

O presidente de província comandava a polícia, a magistratura e as forças militares; bastava-lhe desejar a vitória de um candidato para obtê-la. O governo nomeava os presidentes; bastava-lhe desejar uma maioria para que esta acorresse à Câmara, impaciente em se ajoelhar. Um de meus ministros, que bandeou para a oposição, certo dia denunciou esse circulo vicioso a que chamou de sorites do poder. Um sorites? todos correram a seus dicionários para conferir. Era um belo achado: um raciocínio que morde o próprio rabo. O governo faz a maioria que faz o governo.

O ministro tinha razão. A fraude eleitoral propiciava-me fantástica vantagem. Assim que compreendi tais mecanismos, percebi que cumpria escolher entre duas políticas.

A primeira, a do tirano, levar-me-ia a deixar no poder o mesmo partido e o mesmo governo, de legislatura em legislatura, durante vinte anos, tempo para que se cumprissem alguns feitos, respeitando, porém, a letra, senão o espírito da Constituição. Os jornalistas, controlados por leis sensatas, protestariam, justo o suficiente para atestar meu liberalismo. No mais, caso as coisas desandassem, eu continuava a contar com C * .

Mas estou convencido de que não necessitaria dele nem de suas baionetas. Teria dirigido meu povo a meu jeito, firme e sem severidade, rumo às metas que teria fixado, conhecendo as suas necessidades: arroz barato, estradas de ferro e escolas. Teria conduzido-o ao progresso, quem sabe à grandeza, evitando a perda de tempo e de energia provocada pelo excesso de liberdade. Ainda hoje estaria reinando, e num país mais rico e mais tranqüilo; que os que duvidem pensem em Bismarck, que teve um êxito considerável.

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A outra via apresentava-se-me mais áspera, mais exigente, portanto, foi a que escolhi: era a da alternância. Bem, as eleições são fraudulentas. Odiar a fraude mas reconhecer que existe. Utilizá-la para fortalecer o Ministério que as organiza. mas de vez em quando mudar a cor desse Ministério dissolvendo a Câmara. Passar dos conservadores aos liberais antes de retornar aos conservadores. Por quê? Para evitar os maus hábitos, para não desesperançar a oposição, para manter um debate, já que não se sabe o que o povo quer. Por fim, deixar os jornalistas falarem, por vezes há alguns, mais sinceros que outros, que conseguem auscultar a rua e traduzir os clamores.

E, todos os dias, em cada ocasião, em cada discurso, cada Fala do trono, cada instrução ao gabinete: condenar a fraude.

Essas eram minhas idéias e essa foi minha política. Apegado à Constituição como Ulisses a seu mastro, recusei-me a ouvir as sereias da tirania, dei ouvidos ao povo a fim de procurar distinguir, mais além dos cantos sedutores, o grande sopro da mudança.

Fiz-me muitos inimigos. Um regime autoritário teria ferido ideais, mas a alternância arbitrária era pior, pois feria interesses. Não há reconciliação fácil com um político de quem foram tomados inopinadamente cargos e honrarias.

Em realidade, a classe política desconsolava-me. Outrora fascinado pelo brio de seus tenores, eu já não enxergava senão suas torpezas. Ela não lutava mais pelo futuro da nação, mas disputava postos. Celebrara a majestade dos ideais, agora só se referia a dinheiro. Os mais íntegros, os que se horrorizariam com uma recompensa ou um presente suspeito, confabulavam com Mauá para obter-lhe mercados em nome da modernidade.

Tão distante da realidade popular, a política ia se tornando pouco a pouco um dever fastidioso que me obrigava a conviver com homens sem atrativos, por vezes duvidosos. Trabalhar a seu lado ia sendo penoso, ingrato, desde o momento em que eu sabia que era um jogo de cartas marcadas.

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Ceticismo, lassidão, desencorajamento e, por fim, abandono; os abutres da maturidade apanharam-me bem cedo entre suas garras. Covardia? Provável. Os golpes da história, as decepções, os lutos nada escusam, bem sei, mas desgastamonos na luta solitária. Assim sendo, que podia eu fazer? Em quem me apoiar para restaurar a moral? No povo, é evidente, mas quando podei-ia ele expressar-se livremente?



Às marteladas do insucesso preferi o conforto do distanciamento. Pondo em dúvida tanto seus êxitos como sua moralidade, deixei os ministros agirem, limitando-me a defender duas ou três idéias sobre as quais mantive-me intransigente. O jovem soberano, infatigável caçador de minúcias e promotor de ideais, tornou-se um velho cavalheiro sem amigos, teimoso em suas idéias fixas e insistindo permanentemente na legitimidade das eleições.

Lá pelo final, quando adotamos o sufrágio direto, que vinha apresentado como panacéia para a democracia, avisei que havia que ir mais longe, eliminar a fraude: "Não é mudando de vestido que Messalina se torna vestal". Mas ninguém escutava-me.

Como sou inábil! Hoje, ao choramingar meus reveses políticos, mancho todo o meu relato, deslustro tolamente o período mais excitante, mais feliz de minha vida. Falei de abandono, mas detesto a palavra; abandono de quem, abandono de quê? A idade esmoreceu certos entusiasmos, como ocorre com qualquer um, mas jamais abandonei qualquer de minhas prerrogativas. E por que proferir a palavra lassidão quando na verdade vivi aqueles anos 50 num turbilhão de atividades e de divertimentos, próximo, tão próximo à felicidade?

Eu principiava a desconfiar dos políticos, é verdade, mas havia os intelectuais. Estes não enganavam, quer dizer, não muito. Seus apetites mostravam-se claramente: uma bolsa de

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estudo na Europa, uma subvenção para um próximo livro. Expressavam-se, eu os compreendia, podíamos conversar.



E como conversávamos! Recebia-os em minha biblioteca de São Cristóvão, longe dos salões de aparato. Pintores, poetas, músicos vinham comentar, criticar, declamar até tarde da noite. Mostrava-lhes minhas últimas aquisições, maravilhavam-se diante dos volumes raríssimos, o Quattuor Vespuccii Navigationes, de 1507, ou, do bispo de Cesaréia, a Crônica de São Jerônimo, de 1483.

Não sei que lembrança toda essa gente guarda de nossas conversas. Minha reserva talvez lhes retirasse um pouco de calor, ali não reinava a anarquia descontraída de uma folgança de estudantes, nem sequer a liberdade efervescente de um salão parisiense. Meus convidados comportavam-se diante do Imperador. Enquanto conversavam, mantinham o respeito e eu mantinha minha dignidade, provavelmente como Luís XIV com seus protegidos. Que tom meu antepassado escolhia com Molière? Seja como for, eu estimava esses homens, conquanto nem sempre eles se apercebessem.

Conversávamos sobre poesia, música, mas também sobre teatro, outro derivativo para os desprazeres da vida pública. Eu havia apreciado os sainetes infantis com minhas irmãs sob as copas do parque, e conservei esse gosto pela vida afora.

Como em qualquer terreno, valia-me de meu poder para satisfazer minhas preferências. Contávamos com quatro ou cinco trupes teatrais por mim subvencionadas a fim de garantir-lhes a qualidade dos repertórios, e inclusive acontecia-me atribuir os papéis. Quanto às trupes estrangeiras, estavam sobremodo a par dos presentes (volta e meia desinteressados, nem sempre) que eu reservava às suas divas para não se informarem de antemão acerca dos desideratos do imperial espectador. Representavam o que eu apreciava: vaudeville, contanto que fosse decente, clássicos e dramas históricos. Casimir Delavigne maravilhava-me aos vinte

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anos, Victor Hugo ou Dumas, aos trinta, Offenbach, aos quarenta, cinqüenta, sessenta-



Quanto à ópera, foi necessário aguardar que tivéssemos uma sala decente. No Rio de janeiro, todos já conheciam Donizetti e Bellini, as moças torturavam os pianos com suas árias e cantavam seus duetos nas festas mundanas. Quando, afinal, foi possível admirar um cenário, ouvir um soprano cantando toda a sua partitura e vibrar com o dó de peito, junto com a platéia, a ópera submergiu o Rio dejaneiro. Formaram-se facções que se disputaram em nome de sua cantora preferida. A Crua, a Candiani, a Ristori desencadearam tormentas na torrinha e tempestades no coração dos burgueses.

Ainda não conhecíamos Wagner. A bem da verdade, se sua fama já percorria a Europa nos anos 50, a crítica francesa que líamos e formava-nos o gosto não lhe era favorável. Descobri-o e aplaudi-o desvairadamente, mais tarde. Entretanto, citaram-me como um de seus primeiros sequazes, o que ele mesmo prosseguiu crendo, conforme verifiquei quando o visitei em Bayreuth. Isso decorre de um mal-entendido. Um jovem brasileiro que morava em Leipzig ali conheceu o mestre. Exaltado pela admiração, prometeu-lhe que eu o convidaria ao Rio de janeiro para compor no conforto e no sossego; bastava que apresentasse-me sua candidatura, enviando algumas obras, e o jovem responderia por seu triunfo.

O músico atravessava então anos dificeis, em breve teria que deixar a Alemanha. As promessas do entusiasta interessaram-no, ele acreditou e enviou-me o arranjo para piano de suas três últimas óperas. Nunca as recebi e portanto nunca respondi. A carta de Wagner perdeu-se provavelmente nos arquivos do Paço, mas ele já principiara a compor Tristão e Isolda sonhando com o Brasil.

Por que tanto gostávamos de ópera? Isolados do outro lado do oceano, escorados num continente vazio, sentíamonos órfãos do mundo, como Robinson Crusoé em seus maus momentos. Líamos, íamos ao baile, fundávamos sociedades

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filarmônicas, mas no fundo de nós mesmos sabíamos muito bem que nada acontecia em nossa terra. Para as máquinas, para as grandes descobertas, havia que mirar os países ricos, todos sabiam. Igualmente para as diversões. Após os tratados e as lições de moral humanitária, Paris e Londres ditavam-nos como devíamos nos divertir, e ninguém haveria de procurar em outros sítios formas originais de distração. Os cantores que aplaudíamos traziam-nos um modelo que adotávamos com paixão. Era estrangeiro, portanto era bonito.



Acresce que a ópera tomava entre nós, mais ainda que em Paris, um aspecto de cerimônia sensual agradavelmente pagã. O soprano e as bailarinas ofereciam-se segundo ritos policiados pelos séculos. Nas flisas, transpirando sob os lustres e as duzentas velas da rampa, os barões do Império apalpavam os binóculos, inspecionavam as bailarinas e passavam um dedo no colarinho postiço, estimando, pormenorizando, avaliando os presentes necessários.

Um pouco gordas, um pouco passadas, as prima-donas os subjugavam pela magia de uma arte que não era tão-só lírica. Esquecidas as negrinhas da fazenda, as maleáveis mulatas do porto, os adultérios complicados! A cantora italiana tudo varria, envolvia-os numa nuvem almiscarada de contradições: a impertinência do olhar nega as recusas assustadas, o falso pavor desmente a intrepidez dos gestos, a voz abafada contradiz o rigor das reticências... Admirável civilização, suspiravam os barões, melhora até mesmo o pecado!

Disse barão como poderia ter dito comerciante atacadista, general ou empreiteiro de estrada de ferro, ou mesmo imperador. Do fundo do camarote imperial, também travei um duelo de olhares com Norma, Ana Bolena ou Lucia di Lammermoor. Houve presentes, cartas impetuosas, poucas lágrimas. No jardim de meus amores murchos as divas uniram-se a algumas grandes damas e a algumas roupeiras. Que não contem comigo para revelar nomes ou fornecer pormenores indecorosos. jÚlgo esses desvios sem indulgência, naquela época eu era tão severo quanto hoje, e esse tempo dos amores foi-me o dos remorsos.

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A sombra de meu pai molestava-me. Ele pecara, não só perante Deus, mas perante todos, e eu queria a qualquer preço evitar seu comportamento escandaloso, seus excessos em público. A falta, vá lá, pois o corpo a exige, mas a falta disfarçada, prudente: "Queima esta carta logo após lê-la", "Espera o teu regresso a Milão para portar estas jóias", "Meu criado Rafael avisar-te-á onde me encontrar esta noite". Tive sorte, escapei dos escândalos, dos bastardos, das doenças e, a não ser uma vez, da chantagem.

Teresa desconfiava deste mau comportamento? Ignoro. Se sabia, dissimulava com coragem. Após dez anos de matrimônio alcançáramos um equilíbrio conjugal baseado no respeito e na dignidade. A Dadama estava certa, os casais evoluem; Deus recompensa os esforços que fizerem, e a natureza humana é tão rica, tão diversa que os cônjuges que menos combinam, caso sejam sinceros, chegam a descobrir em si mesmos motivos para se parecerem e se unirem.

A desgraça aproximara-nos: dois filhos perdidos, um após outro, na idade de dois anos! Restavam-nos duas filhas, já maravilhosas, já caprichosas. Isabel, jovem criatura deferente e suave, um pouco frágil, e Leopoldina, sacudida, cheínha, temperamental, criança dificil.

Eu as convocava diariamente. Elas acorriam, contentes de escapar da disciplina das governantas. Penduravam-se nas abas de meu fraque, trepavam em meus joelhos, mexiam em minha barba. Eu procurava ser alegre, ser engraçado, elas riam às gargalhadas diante das caretas. Teresa sorria, satisfeita como uma mamma napolitana.

De repente, eu fechava a cara, anunciava a hora de tomar as lições: "Vejamos seus cadernos, senhoritas". Isabel exibia páginas de textos, mapas desenhados em que nenhuma cor borrava nenhuma fronteira. Leopoldina, menos orgulhosa

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de si, balançava-se, fazendo trejeitos. Depois, lia-lhes uma história, um conto dos irmãos Grimm, ou uma página dos Robinson suíços.

Nos instantes dramáticos, seus lábios delineavam exclamações de terror que não ousavam sair.

mas as governantas já iam chegando: hora do banho. Nós nos deixávamos em meio a uma confusão de beijos e afagos. Teresa continuava a sorrir: nem tudo ia tão mal assim, o imperador era um bom pai. Era um bom pai, sim; disso ao menos jamais duvidei. Gostei muito delas e eduquei-as bem.

Vivíamos na época das rainhas, a Inglaterra, a Espanha, Portugal eram governados por mulheres e tudo deixava pressentir que Isabel também um dia reinaria. Cumpria prepará-la para semelhante papel, melhor, se possível, do que eu o havia sido. Mas se o Brasil aceitara no trono um menino, de que maneira suportaria uma mulher no poder?

Nossos costumes domésticos não haviam evoluído desde o século anterior. Não reputávamos necessário instruir as meninas. Pais e maridos desconfiavam dos professores particulares e nenhuma escola pública aceitava-as. Fadadas à ignorância, as esposas passavam os dias conversando em casa com as escravas, sem outra ocasião de sair a não ser uma rara visita a parentas mais ou menos reclusas também. A religião fazialhes as vezes de cultura, as cerimônias religiosas, de evasão, o jornal das Famílias, de literatura, quando sabiam ler.

Os maridos reputavam conveniente tal estado de coisas, assim como estimavam saudável bater em suas mulheres de quando em quando, e prudente trancá-las num convento quando tinham que se ausentar. Julgavam indecentes as lutas da brasileira Nisia Floresta, que militava pelos direitos de suas irmãs na Paris de Napoleão III.

Isabel governaria um dia aquele mundo tão masculino, cabia-me esforçar-me para fornecer-lhe todos os meios de se impor, a iniciar por uma educação sólida. Afagando os cabelos de minha filhinha, tão comovente com seu estojo para guardar penas e sua pasta de escola, eu descobria um novo aspecto

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do poder, este que o espírito dinástico leva-nos a exercer para proteger o futuro de nossos filhos. A política decepcionavame, minha dedicação a meu povo principiava a fraquejar e restava-me o dever de pai: educar a herdeira e durar, em sua intenção.

Portanto: despertar das senhoritas às 6 horas, primeira aula às 7, não é nada engraçado ter um papai madrugador. Cândido e o inestimável sr. Schüch ainda viviam no Paço, retomaram o serviço. Para remoçar o ambiente, contratei certos jovenzinhos recém-egressos das fàculdades. Em matemática, minha escolha quase se orientou para um certo Botelho, bom rapaz que suportava corajosamente o nome infligido pelo pai: Benjamin Constant! Esse "Benjamin Constant" Botelho de Magalhães expressava opiniões novas que à época eu não soube perceber. É por sua causa, por causa daquele pequeno estudante tímido de óculos e cheio de espinhas, que me encontro em Vichy divagando acerca de meu passado. Entretanto, não chego a odiá-lo por ter, há dois anos, imposto a República aos militares. Creio que é mais sincero que os outros, e melhor em álgebra, seguramente.

Reservava para mim a astronomia, os clássicos portugueses e a meticulosa supervisão dos outros professores. Como outras garotinhas se associassem a certas aulas, São Cristóvão tomou ares de colégio feminino administrado com pulso forte, como os que eu almejava ver florirem um dia por todo o Brasil. Mas faltava-me tempo de tudo vigiar e pressenti que necessitaria de alguém para me ajudar; uma mulher, naturalmente, mas que gênero de mulher? E onde descobrir essa ave rara, preceptora de princesas, que a meu ver devia falar três línguas e não ser jovem demais, ter firmeza e compreensão, ser religiosa, habituada com as cortes reais, mas sem marido?

jamais a encontraríamos no Brasil, havia que buscar na Europa e pus minha família à procura. Minha madrasta Amélia vi-via em Munique desde a morte de meu pai, e fervia por esse tipo de missão mundana, mas de seus repetidos mergulhos ao fundo das cortes da Alemanha não trouxe nenhuma pérola.

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Parou a chuva, o parque da Grande Fonte está cheiroso e ainda não fui beber meu segundo copo. Seria mais sensato interromper aqui este relato da educação de minhas filhas, ou abreviá-lo. Aliás, essas recordações nada me trazem, ao ruminá-las só descubro arrependimentos e remorsos estéreis. Delas não tiro prazer nem vaidade, ao contrário; quanto mais considero minha vida, mais esta afigura-se diferente do que eu teria imaginado. Que eu avance mais um pouco, e a imagem tão satisfatória do monarca democrata, do príncipe filósofo poderá rachar.



Por que não deixar em paz a idéia que formei de mim mesmo, e, acima de tudo, por que aventurar-me no que sempre ocultei, no que conservo de mais doce, de mais intimo? Que tola empreitada essa minha, que mania de espremer uma espinha para ver sair-lhe o pus! Finalmente encontrei uma aia, que permaneceu no Paço por dez anos. Partiu após o casamento de minhas filhas, acaba de morrer. É isso, está tudo dito. Por que ir mais longe?

Porque ela está aqui, perto de mim, sinto-a. Porque meu coração ferve tão logo a condessa se aproxima, como ontem, como antigamente. Porque ela está escutando estas palavras murmuradas exclusivamente para nós dois, e aguarda, atenta ao que vou dizer.

Vi-a pela última vez em seu castelo de Voiron, dez meses atrás. O sol de outono dourava os lariços da Cartuxa e ainda tomávamos o café-da-manhã no terraço, tentando identificar os cumes através das neblinas matinais. Minha filha e meu genro estavam lá, seu filho e sua nora também, com um cortejo de netos que se dispersavam pela montanha desde o raiar do dia. Isabel, naturalmente, desejara ir rezar no santuário de La Salette, e fui levado ao monastério para falar com os cartuxos. Naquele dia, pensei em ir viver retirado com os monges,

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como meu antepassado Carlos V Prossigo pensando, mas me parece que tenho tempo.

No dia seguinte, a condessa organizou um piquenique numa campina à beira de um pequeno lago. O caminho pedregoso não me amedrontava, a ela, sim. Apoiou-se em mim, uma velhinha encarquilhada, envolta de preto, o fôlego rouco, que procura em vão controlar o tremor do braço. Coloquei meu mantô sobre uma touceira, onde pedi que se sentasse. As crianças chamavam ao longe. Um rebanho de carneiros descendo dos pastos alpinos passou à nossa frente numa algazarra de sininhos e balidos. Pisotearam tudo, a não ser umas dedaleiras tardias em cima de um morrinho, com as quais fiz um ramalhete.

A condessa pegou-o, colocou-o sobre os joelhos e, sem uma palavra, pôs sua mão sobre a minha, pobre mão pálida com manchas escuras, deformada pelos reumatismos. A raridade do gesto emocionou-me, conhecemos tão poucos momentos como esses! Mantivemo-nos calados, eu sabia que ela não me queria falando, que não havia nada a dizer. Procurei ler seu olhar, seus olhos quase cegos que já quase nada transmitiam, senão talvez uma chispa de vaidade, como se, aproximando-se a velhice, ela se orgulhasse de nossa longa e tortuosa história de amor. Nada deplorava, nem minhas súplicas, nem suas recusas, nem minhas iras, nem suas rendições parcimoniosas. Sentia-se quite com a vida, e hoje sua sombra conduz-me a idêntica quietude. Eis por que devo falar da condessa.

Amélia não encontrou uma aia para minhas filhas, mas minha irmã Francisca recomendou-me uma amiga brasileira. Eu havia esclarecido: "viuva e sem vínculos". Ora, a candidata tinha um marido e um filho pequeno; no mais, a acreditar em Francisca, responderia, e além do esperado, ao que eu desejava.

Nascera, escreviam-me, na Bahia, filha de um diplomata que a levara bem pequena para Paris, ao tempo do rei Carlos X. Esse homem rico, insigne poeta, sentia-se bem na França, onde se estabeleceu. A filha estava apalavrada para casar-se

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com um Político de sua província natal, e os dois velhos reputaram conveniente que a menina pequena fosse educada na França, não em Paris, onde as tentações podiam complicarlhes o projeto, mas em Boulogne-sur-mer. O isolamento desse lugar retirado lembrava o da casa de campo de Arnolphe e, assim como em Molière, a precaução foi inútil. A moça enamorou-se de um garrido aristocrata e desposou-o sem aguardar o consentimento paterno. Provavelmente houve gritos e lágrimas, mas todos findaram por se reconciliar e a jovem condessa instalou-se na rua d'Anjou com seu belo esposo. Ali levaram vida de luxo. O conde de Barral era aliado aos Beauharnais, muito bem vistos nas Tulherias. O salão dos jovens cônjuges brilhava entre os mais extraordinários de Paris. Recebiam Stendhal, Tocqueville, O jovem Gobineau, Ary Scheffer e suas duas filhas, Cornélie e Cordélie, das quais uma casou-se com Renan e a outra, com Marjolin, os dois Winterhalter, Listz, Chopin, Lacordaire: razão de sobra para deixar-me pálido de inveja sob os Iambris do Palácio da Quinta.

Quando Francisca e seu marido Joinville chegaram à corte de Luís Filipe, a condessa era a única brasileira disponível, e fizeram-na dama de honra de Francisca. Minha irmã é fiel, sempre fOi-lhe grata por ter guiado seus primeiros passos pelos corredores cheios de emboscadas do grand monde parisiense. Demonstrava gratidão pela pessoa certa: em fevereiro de 1848, quando tudo estava desmoronando e a família real dava às de vila-diogo, a jovem condessa, permanecendo em Paris, foi pedir explicações aos revolucionários que ocupavam as Tulherias e reclamar os pertences pessoais de Francisca. O brutamontes que quis mandá-la passear não sabia com quem estava lidando: uma chuva de sorrisos, trejeitos e palavrinhas em Português submergiu-o; ela passou a mão no que procurava e Partiu com as malas cheias.

Aliás, a condessa era brilhante em crises desse gênero, Comportou-se praticamente do mesmo modo vinte anos depois,

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na barreira de Saint-Denis, com um oficial prussiano que imaginava estar sitiando Paris.

Instalados na Inglaterra durante a II República, os Barral acompanhavam atentamente a ascensão de Luís Napoleão. Graças aos Beaubarnais, o conde podia almejar uma situação magnífica se o Bonaparte conseguisse dar seu golpe. Mas a condessa sentia-se profundamente orleanista e desconfiava do antigo conspirador. O casal decidiu estabelecer-se no Brasil. O conde viajava, sua mulher administrava as fazendas. Ela enfrentou dificuldades financeiras quando um bastardo de seu pai foi lhe exigir sua parte na herança. Por volta dessa época, recebeu nossa proposta.

A espertinha negociou, mencionou honorários extremamente altos, pediu para ser dama de honra da imperatriz, exigiu detalhes sobre seus aposentos, sobre os horários; por fim, requereu que se especificasse claramente a quem devia prestar contas. Sorri ao ler esta última exigência, nela identifiquei a mão de Francisca, que conhecia demasiado bem as intrigas de São Cristóvão e a maldade de meus cortesãos para deixar que sua protegida se expusesse. A resposta era óbvia, a condessa só obedeceria a mim; sob vigilância exclusivamente minha, dirigiria como lhe aprouvesse a educação de minhas filhas.

Havia que conseguir o acordo de Teresa quanto a esse ponto, concedido sem dificuldade. A pobre não ignorava que sua competência limitava-se unicamente à instrução religiosa. Temia ver entrar no Paço, para trabalhar comigo, uma mulher cuja vida era um pouco espantosa? Não sei de nada, quase sempre Teresa foi tão enigmática em seus ciúmes quanto eu em minhas aventuras. No que se refere à preceptora, duas particularidades tranqüilizavam minha mulher. A condessa, que estava para chegar pelo próximo vapor, era velha: quarenta anos!, e vinha com o filho, criança frágil que fora um temporão.

Havíamos perdido muito tempo em escolher a preceptora e em negociar seu contrato. Desejava que ela principiasse a trabalhar o quanto antes. Porém, ao esbravejar contra os atrasos

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da mala diplomática da Bahia, eu descobria outros motivos para minha impaciência, mais imperiosos e muito menos confessáveis.

Desde Homero, os poetas, os navegadores e os negociantes de escravos pretenderam que existem lugares habitados por mulheres mais belas, mais meigas e mais acessíveis do que as de outros sítios. Pode-se invejar os habitantes dessas plagas abençoadas por Afrodite, e ter pena das mulheres que aí não nasceram. Pode-se também sorrir de semelhantes preconceitos, mas, afinal, é bem possível que, no correr das gerações, a opulência, o clima e as regras da moral local influenciem a beleza das mulheres e, o que me parece mais importante, suas opiniões sobre o amor: a circassiana impera no harém do vizir.

Os que conhecem nossos poemas e nossas canções não ignoram que entre nós a província assim favorecida é a Bahia. Não sei o que pensava Darwin que, creio, ali fez escala com o Beagle, nem se essa escala contribuiu para suas teorias, mas meu cunhado Joinville, talvez melhor conhecedor do que o inglês nessa matéria delicada, confirmou os encantos da Bahia em suas recordações.

Na Bahia, a vivacidade portuguesa, a delicadeza indígena, a sensualidade africana, fundidas numa velha mestiçagem, afinaram os traços e avivaram os olhares. A riqueza da região, a indolência resultante de um clima ameno, permitiram aos habitantes elaborar uma arte de viver, portanto, uma arte de amar. A música e a dança, que eles adoram mais que outros, aperfeiçoaram-lhes a graça dos gestos. Por fim, a sem-vergonhice do clero, ao descuidar da moral em face da severidade dos pais e da vigilância dos maridos, acende nos olhos das mulheres, e até das mais honestas, certa centelha capaz de inflamar os corações mais indiferentes.

Ora, se a mulher da Bahia reinava no firmamento de nossos sonhos masculinos (falo, naturalmente, dos homens de minha geração, decerto tudo isso mudou), sabíamos muito bem que existiam em outras partes outros paraísos, enfeitados

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com outras seduções. Entre nós, os europeus e os que com eles desejavam se parecer, ou seja, quase todos, glorificavam os méritos de outro súcubo, igualmente delicioso, resultado, tal como sua irmã tropical, de vários séculos de requinte, e que denominarei, para simplificar, de "a parisiense". Os fazendeiros baianos traçavam sobre o tema comparações perfeitamente imodestas.

A condessa era baiana, fora educada ein Paris, como não ficar perturbado diante da perspectiva de brevemente encontrar essa variedade raríssima, quiçá única, da espécie feminina? Os mais experientes, que conhecem o peso da reputação e da expectativa nos mecanismos do amor, hão de deduzir, com toda razão, os perigos que se acumulavam sobre o meu sossego.

Eu havia comunicado ao mordomo-mor que nos apresentassem a nova aia tão logo chegasse ela à Corte. Eu a aguardava, ao lado de Teresa; as meninas esperavam na sala contígua. Quando a condessa entrou, vestida de cinza-pérola, impressionei-me, de início, com seu penteado. Sob a mantilha, os bandás bem arrumados eram totalmente grisalhos. O nariz um pouco comprido, os olhos grandes demais invadindo um rosto quase anguloso completaram minha decepção: uma rainha do amor, a baiana? Ora, ora! Poetas e libertinos deviam estar sonhando em suas nuvens. "Melhor assim, pensei, isso simplifica as coisas."

Contudo, quando adiantou-se para cumprimentar-nos, senti nessa mulher algo extraordinário e indescritível. A elegância do porte, a vivacidade do olhar, a segurança tranqüila não explicam à perfeição o que quero dizer. Presenciei diversas reverências em minha vida, com certeza mais do que qualquer homem do mundo, quando penso nisso. Vi as desajeitadas, as esbaforidas e as coxas, vi as aflitas, as cambaleantes, vi as pernósticas e as petulantes, mas nunca vi uma mulher fazer a reverência como a condessa de Barral. Respeitosa sem se humilhar, calma, segura de si e soberanamente submissa, transformava a reverência em obra de arte. Foi a primeira de

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uma longa série de lições de civilização que me deu, até sua morte.



Teresa e o mordomo também haviam se apercebido, o que confirmei em seus olhares: tínhamos ali alguém de excepcional. Minha mulher mandou-a sentar-se perto de si. Após as perguntas de praxe sobre a família e a viagem, percebeu que a condessa estava satisfeita com os aposentos que lhe destinaram. Expus então certas regras sobre a educação de minhas filhas. A condessa respondia com graça. Nesse caso, as palavras pouco importam, o tom é que interessa. Essa mulher, pela primeira vez em presença de seus soberanos, convidada a desempenhar junto a eles uma missão afinal subalterna, manejava a inteligência, a discrição e o respeito com uma habilidade que deixou-nos pasmos.

Mandamos as meninas entrarem, tão curiosas quanto intímidadas. Houve novas reverências, e em seguida o mordomo levou a condessa para apresentá-la às damas do Paço.

Para minha grande surpresa, logo fez amigas. Minha corte era menos detestável do que eu pensava? A de Luís Felipe preparara suficientemente a condessa? Seja como for, sua diplomacia produziu maravilhas. Multiplicava as amabilidades com todos, do cocheiro ao camareiro-mor. Sua bondade, sua piedade desarmavam os malvados, seus cabelos grisalhos serenavam os mais moços, seu encanto, tão distante dos cânones da beleza clássica, não preocupavam as que se empenhavam em me seduzir.

Estavam erradas. A condessa era dessas mulheres mediocremente dotadas pela natureza que sabem cativar pelo caráter mais do que pela beleza. A animação, a alegria suprem a irregularidade do rosto, a distinção compensa as imperfeições do corpo, o perfeito conhecimento de si disfarça os defeitos e valoriza as qualidades. Aí está, penso eu, uma grande vantagem para as mulheres, pois, assim, podem escolher o momento de agradar. A condessa sabia manter-se à sombra quando devia, a fim de serenar uma esposa ou deixar que um convidado

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brilhasse. Mas, quando desejava cativar, lisonjear, obter alguma coisa, um brilho irresistível a invadia, subjugava o interlocutor, enfeitiçava-o, desarmava-o.



Tais transfigurações eram raras, talvez fossem-me exclusivamente reservadas, e talvez o amor leve-me a exagerá-las. No Paço, todos gostavam da aia severa, sorridente e devota. Cumpria sua missão com aplicação e o Imperador parecia satisfeito. Não se ia mais longe que isso. Mesmo os que desconfiavam de meus deslizes não imaginaram que os cabelos brancos da recém-chegada eram capazes de me atrair. Prosseguiram não desconfiando de nada dez anos depois, quando a condessa deixou-nos para retornar a Paris, apesar de minhas súplicas, minhas lágrimas e, creio poder dizer, as suas.

A primeira aula para minhas filhas ocorreu dois dias depois da apresentação, e decidi assisti-la, como é natural para um pai atento. A condessa compareceu, claramente intimidada. Percebi seu acanhamento: eu estava habituado. Isso me agradou mais do que habitualmente, e não me descontentava abalar a segurança que tanto me causara efeito. Amedrontar uma pessoa qualquer pouco me importava, amedrontar a condessa era uma delícia. Em vez de tranqüilizá-la com alguns elogios e alguns cumprimentos, mantive-me impassível e severo.

No dia seguinte, eu mesmo devia dar uma aula de cosmografia. Ela mostrou desejo de assisti-la, "para sua própria educação", e permiti. Porém, diante de seu olhar também senti-me encabulado a ponto de gaguejar várias vezes. Ela se deu conta, pareceu satisfeita, o que deixou-me furioso. já estávamos envolvidos, um e outro.

"Eis a que ponto chegamos, diria o indiscreto, se estivesse perto de mim para ouvir tais palavras, eis a que ponto chegamos! A nova criada fisgou o peixe graúdo. Um pouco passada, a preceptora, quarentona, mas o jovem potentado jamais saiu de sua terra, não conhece Salvador, nem Paris, a mistura pimenta-champanhe venceu com facilidade. Aguardemos os

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versos, que ele adora, e as violetas. Acima de tudo, que ele desconfie, pois a sedutora faz coisas do arco-da-velha."



Do arco-da-velha, ah, sem dúvida! Pois chegou o momento de revelar o inacreditável, de formular abertamente as mil questões jamais elucidadas, dizer enfim, quem era a condessa e como a venerei.

A história, infelizmente, não comporta jantares à luz de vela numa sala particular, espartilhos desabotoados às pressas, uivos de prazer. Solicitei encontros, privacidades, entregas. Durante dez anos prometi mundos e fundos e murmurei bobices. Tivemos nossos momentos de êxtase, nossas lágrimas, uns deliciosos gritinhos de aflição e duas ou três noites complicadas, mas nada além. Só isso. Nosso interminável romance prestar-se-ia a sorrisos, se soubessem. Muitos, inclusive, ririam às gargalhadas.

Todas as desculpas serviam para me afastar: a proximidade de minhas filhas, a vigilância da Imperatriz, a espionagem dos domésticos. Mas também minha idade, os nove anos que nos separavam. E, ademais, o horror pelo pecado, o marido, o filho sobretudo, o filho que vivia com ela, que sempre estava doente, de quem devia cuidar. Como a odiei, essa pobre criança com a qual ela me martelava os ouvidos quando eu implorava, quando eu suplicava, desconcertado, humilhado, derrotado, apaixonado!

Fiz minha investigação: a condessa não tinha nenhum amante, jamais tivera, nenhuma paixão unia-a ao marido, um homem correto que o nascimento do filho aparentava ter afastado. Por que, então, por que se recusar ao jovem imperador?

Em vez de arrefecer, meu desespero exacerbou-se quando compreendi que ela também me amava, a seu modo, prudente. Nenhuma submissão em sua ternura, pelo menos no caso dessa mulher o poder não lhe virava a cabeça. Admirava minha generosidade, minha ciência, mas de maneira nenhuma meu poder. Ria como eu da murça de galo-da-rocha e da mão da justiça. Diante dela, não havia Imperador, apenas um

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homem; nunca ninguém tratara-me assim. Que monarca terá a coragem de pretender que não me inveja por ter conhecido semelhante sinceridade? Mas que homem negar-se-ia a se condoer de mim, de mim que, sob o seu jugo, fui obrigado a contentar-me com um aperto de mão, com o silêncio, com o uníssono em que nossas almas vibravam: o bom livro, o lindo crepúsculo, o bonito ramalhete... e mais nada.

Passei dez anos assim, transido de amor, Chateaubriand dessa Récarruer. E, depois, mais vinte anos de correspondência inflamada, de encontros sobremodo discretos quando eu viajava. Hoje, fico sozinho com minhas interrogações.

Por que tal insistência em resistir-me, posto que me amava? Para mim, nenhuma mulher contou tanto quanto esta, e sei que nenhum homem. (salvo seu filho, o diabinho) influenciou-lhe a vida quanto eu. E então? Que obscuros naufrágios temia ao recusar-se a embarcar para Citera? Pensei no sórdido: a preceptora receia perder o lugar caso descubram que se acosta com o patrão. Pensei no sublime: ofereçamos juntos a Jesus o sacríficio de nosso amor impossível. Supus inclusive o horrível, o defeito físico, a deformação que se oculta para sempre. Nunca soube, nunca entendi.

Interroguei-me sobre como, apesar dos pesares, a felicidade pôde insinuar-se em nossas vidas, aureolá-las com uma luz puramente espiritual e por fim unir-nos mais estreitamente do que a amantes saciados.

Meu cunhado Fernando, rei de Portugal, findou desposando sua bailarina quando minha irmã Maria da Glória morreu. Como se alegrou quando soube que eu aprovava sua iniciativa de se casar! Meu primo Francisco José passa suas noites com a atriz Kathi, trinta anos mais moça, certamente aliviado por Sissi ter aprovado o romance. A condessa não quis para nós dois esses simulacros burgueses, visou mais alto, introduzindo-se numa corte de amor cujas regras ela estabelecia e cuja pureza preservava. Ali vivemos, apoiando-nos um no outro e um pelo outro iluminados.

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Disso ela se orgulhava, com certeza aí está o que minha velha amiga queria me dizer no ano passado, numa campina ensolarada acima do Isère.

Teresa pressentiu tudo isso? Sempre deu provas de um afeto pela condessa que talvez incluísse a gratidão. Seu pobre cérebro praticamente não enxergava mais nada além do ato de contrição, mas ela também me amava, e a façanha da condessa garantia a um só tempo a minha felicidade, a tranqüilidade de nosso lar e a salvação eterna para todos.

Afora a imperatriz, um homem, só um, adivinhou a natureza de nosso amor: Gobineau. Falso conde mas verdadeiro escritor, transformou-o em romance.

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VI

Em junho de 1867, contra um muro de taipa sem dúvida descascado, índios mexicanos fuzilaram meu primo-irmão. Ponho-me esta manhã a imaginar a cidadezinha colorida pela aurora, os sinos barrocos, a muralha cerrada dos conventos. Aos poucos, meu quadro vai tomando forma. Nas praças do centro, eu desenho coretos rodeados de bancos de cerâmica. Acrescento estátuas, arcadas, rabisco algumas folhagens onde se agita a luz da manhãzinha.

No meio de tudo isso, coloco um alvoroço guerreiro: a tropa desperta. Soldados escanhoam-se, outros acendem uma fogueira, já se sente o cheiro de milho assado atrás do fedor repulsivo de uma poça de pulque perto de um garrafão emborcado. Encostados nas paredes, peões de túnica branca, mulheres enroladas em xales deslumbrantes observam em silêncio o bulício dos militares.

A poeira do verão cobre os arrabaldes, morros com casebres cinzentos atrás de cercas de cactos. Ali estão as carrocinhas dos verdureiros, as moças com trouxas de roupa descendo para o lavadouro, burrinhos açoitados por crianças tristes e, num estrondo, um pesado furgão puxado por quatro pangarés exaustos. Soldados o escoltam. Pensam nas bebedeiras da véspera, no mescal que lhes queima o estômago, na paz restabelecida, na desmobilização. Reclamam do sargento que os designou para a tarefa.

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Os cavalos esfalfam-se ao escalar a encosta do cemitério. Cerca de dez pessoas estão esperando ao alto da ladeira, perto do portão de ferro sobre o qual alguém pintou a palavra Reforma. Distingo dois padres e oficiais, seus ordenanças, seus cavalos. Um jumento mija ruidosamente. Afinal, o furgão pára, destrancam-lhe a porta, três homens em camisa recebem a ordem de descer, com as mãos amarradas nas costas: um imperador, dois generais,



Um major robusto, comprimido por um cinto largo de seda vermelha, lê o decreto de uma corte marcial. Do cemitério, avistam-se bem a cidade, o rio, os milharais, as fileiras de agave. Maximiliano sonha olhando para as igrejas de Queretaro, pensa na mulher Charlotte, enquanto um capitão, um endiabrado zapoteca, nariz chato, olhos puxados, indica-lhe o muro sem ousar mirá-lo de frente. Ouve-se um clarim ao longe, uma vespa zune em torno do condenado. Charlotte está protegida, na França.

Basta, não tenho nada a lucrar com semelhantes devaneios mórbidos, é melhor rememorar os fatos. Cinco anos antes da execução, uma junta de burgueses mexicanos depusera o presidente progressista Benito Juárez enquanto a frota francesa ancorava diante de Vera Cruz com o pretexto de cobrar prestações atrasadas da dívida. Napoleão III informara que se dignara a baixar os olhos para ajunta e a refletir sobre o futuro do México. Sua conclusão era que os mexicanos necessitavam de um imperador e que o arquiduque Maximiliano cumpriria tal papel admiravelmente. O diagnóstico acompanhava-se do apoio do general Bazaine à frente de algumas divisões do exército colonial.

Mas os partidários de Juárez não se renderam e prosseguiam controlando o interior do país. Um general texano deteve os franceses às portas de Puebla; ainda foi preciso um ano para que meu primo pudesse entrar na capital. Reinou por dois anos, apoiado pelas tropas francesas. Quando estas se retiraram, sob pressão dos Estados Unidos, Juárez ergueu a cabeça

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e retomou a ofensiva. O imperador, tolamente, isolou-se em Queretaro, foi preso, julgado, fuzilado.

Não me cabe qualificar tal crime. Todos caçoariam: "Vejam só, vejam só: ele não gosta que fuzilem imperadores, quem se espantaria?". Iriam mais longe, observariam que, alguns anos depois, eu mesmo ordenei a execução de um chefe de Estado, infelizmente!, e em condições mais sórdidas ainda. Deveras! o melhor é calar-me. Tanto mais que sempre haveria alguém a me objetar que nada fiz para ajudar meu primo. Ajudá-lo? Mas como? Com que meios? Dispunha eu de um exército para enviar-lhe, de uma frota para transportá-lo? Não, é certo, mas um apelo à clemência, uma intervenção junto aos Estados Unidos poderiam ter influenciado Juárez e seus generais. Uma simples carta fraterna teria, ao menos, reconfortado o primo em perigo, só, horrendamente só. Nada fiz, enrubesço. Na época, eu mesmo me encontrava defrontado aos horrores de uma guerra terrível, mas isso não é escusa, bem sei. Então, por quê?

Referi-me mais acima à minha desconfiança dos Habsburgo, mescla de timidez em face da força deles, de aversão pela brutalidade de sua política e de rancor contra os que me abandonaram na infância. Mas sei muito bem que meu primo distinguia-se do resto da família e que suas qualidades lhe valiam, justamente, a inimizade de seu irmão Francisco José. Válias características nossas poderiam ter nos aproximado, mas essa lógica não prevaleceu. Não, não foi o Habsburgo que abandonei à ferocidade mexicana, foi mais, como dizer? o rival.

Encontrei Max, conforme o chamávamos, bem antes que sonhasse com algum império, em condições inabituais que convém relatar, pois desempenharam um papel em minha atitude. Governador da Lombardia, ele dava livre curso as opiniões liberais e freqüentava sobremaneira a oposição. Francisco José preocupou-se e destituiu-o. Max acabava de desposar Charlotte, filha do rei dos belgas; resolveu viajar pelo Mediterrâneo, e depois, na ilha da Madeira, deixou a jovem esposa em vilegiatura

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e fez-se à vela para o Brasil. Havíamos combinado que o recepcionaríamos no Rio de janeiro, onde eu pretendia recebê-lo com bastante pompa a fim de convencê-lo de meu poder e dos méritos de um governo constitucional. Eu exultava de antemão em mostrar aos primos vienenses que não carecíamos de seus granadeiros para conduzir um povo e que não éramos os selvagens absolutos que eles imaginavam. Uma lição de moral política não faria mal a essa gente, lição que eu fazia questão de dar.



Encerrávamos, Teresa e eu, um longo périplo pelo Norte que nos possibilitara conhecer afinal Bahia e Pernambuco. Demorei-me nessas províncias e já nem pensava na visita de Max; ele chegou ao Rio mais cedo do que o previsto: não estávamos. O governo recebeu-o em minha ausência, sem o fasto que eu saberia organizar: minha trama malograra.

O mal estava feito, Max guardou de sua temporada no Rio a lembrança de uma pequena Corte provinciana, algo como o grão-ducado da Toscana, com a miséria e a escravidão a mais: de jeito nenhum o que eu desejava. Não se privou de zombar de nós em suas Esquisses de voyage, publicadas em Paris após sua morte.

Poderia ter-me aguardado na Corte, mas preferiu ir a meu encontro subindo o litoral, apesar das objeções dos ministros que previam meu mau-humor. Encontrou-me afinal na baía de um porto minúsculo, a três dias do Rio: enfureci-me.

Haviam-me assinalado sua suposta semelhança comigo. Eis uma observação menos anódina do que se pensa, e que convém manejar com precaução. Nossa vaidade é insaciável e, por mais admirável que seja o objeto a que pretendem comparar-nos, quase sempre ele nos parece muito aquém da imagem que cremos dar de nós mesmos. Assim, após ter me odiado durante a adolescência, sempre reputei-me bonito. Do que, evidentemente, nunca ninguém desconfiou, senão a condessa, que sabe tudo a meu respeito. Mesmo hoje sucede-me pensar que minha aparência, minha barba branca, as nobres rugas de

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minha fronte conferem-me um encanto excepcional. Eu seria aclamado o velho mais bonito de Vichy se a Compagnie Rrmièm tivesse a imprudência de organizar um concurso.



Quando vi Max pela primeira vez, examinei atentamente o rapagão de farda de almirante austríaco que me cumprimentava sorrindo. Reconheci a beiçada, a alta estatura, a fronte bojuda, a barba. Ele possuía mesmo, conjecturei, um certo ar de família. Mas era de fato uma semelhança impressionante? No máximo, considerei Max distinto e muito impertinente por se prestar, ainda que sem saber, a tolas comparações.

O mal-estar inicial cresceu durante nossas conversas quando, entre nossas idéias e gostos, descobri a mesma semelhança com a mesma irritação. Expôs-me suas opiniões liberais, que eu compartilhava sem sentir o menor prazer nessa coincidência. Eu teria preferido ser o único Habsburgo a compreender o povo. Vangloriava-se de conhecer o poeta Manzoni, com quem eu me correspondia, havia quinze anos. Mostrou-me sua biblioteca, repleta de livros de viagens e de obras científicas. Como? também precisava partilhar de meu gosto pelos estudos? O cúmulo foi quando se confessou poeta e tive que folhear uma de suas coletâneas: versos tão abomináveis quanto os meus, é verdade, mas eu, pelo menos, não tinha a audácia de publicá-los.

Contou-me de que maneira Napoleão III interessou-se por ele e desejou empurrá-lo para o tabuleiro de xadrez europeu. À época, Paris cogitava de um reino da Lombardia, onde poderia reinar. Eu era mais velho do que ele e infinitamente mais experiente, era natural que o advertisse contra o Bonaparte, que lhe explicasse a política européia, a rivalidade entre as cortes, as aspirações, dos povos. Ouviu meus conselhos com uma atenção cortês, o que era o mínimo, mas eu soube que depois contou a todos quão cômicas considerara as opiniões sentenciosas do primo brasileiro que jamais havia posto os pés num país civilizado.

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Quando, sete anos depois, Max obteve a coroa do México, sua primeira medida foi outorgar-se uma lista civil exorbitante, três vezes a minha! Em seguida, enviou-me um diplomata para conseguir o reconhecimento de seu governo. O enviado não duvidava do sucesso da missão. De imperador para imperador, de Habsburgo para Habsburgo, a questão, a seu ver, parecia resolvida. Na realidade, nossa opinião nacional, os partidos, os ministros e eu mesmo andávamos indignados com a ingerência francesa. A intervenção sangrenta em território americano contra um governo estabelecido, a instalação no México de um soberano fantoche repugnava-nos como atos de banditismo. Entretanto, toda a Europa reconhecia Maximiliano, e Juárez parecia definitivamente derrotado; seria inábil negar o fato consumado.

Fiz o diplomata esperar, mandei a Washington um funcionário para explicar nosso embaraço ao governo da União. Ali ele encontrou representantes de Juárez e manifestou-lhes nossas simpatias. Por fim, recebi o mexicano, aceitei o princípio de uma troca consular e discretamente consegui que fosse votado o reconhecimento do Império do México. O que se seguiu é conhecido. O bom rapaz deveria ter me ouvido. Em vez de acatar meus conselhos, levou do Brasil a idéia de que se governa facilmente americanos atrasados. Se seu primo o conseguia, relativamente, o que ele não iria realizar!

É assim. Não gosto que se assemelhem demasiado comigo, que imaginem que tive uma vida fácil. Lastimo meu rancor, um pouco. Naturalmente, ajudamos muito Charlotte antes que ela perdesse a razão; Orléans pela mãe, Coburgo pelo pai, pertencia à minha família espiritual, bem mais próxima de mim do que os Habsburgo com suas certezas.

Na realidade, a sobrevivência de meu primo dependia do desenlace da guerra de secessão nos Estados Unidos. Enquanto esta durou, os franceses sentiram-se de mãos livres. Mas, desde o fim da guerra na Vírgínia, retiraram-se e a União vitoriosa

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armou Juárez: a derrocada do primo era apenas questão de tempo.



Quanto a mim, eu apoiava Lincoln, tal como os Orléans, que mandaram os filhos combater a seu lado. O fato de Paris e Londres, apesar de suas boas intenções, terem ajudado o Sul escravista não me surpreendeu em demasia. Eu principiava a me acostumar com o cinismo das cortes européias e com a elasticidade de sua moral.

Disso tive mais uma prova com a questão Christie, um incidente diplomático que por pouco não nos causou danos irreparáveis. Ainda que o episódio haja me envenenado a vida por dois anos, não me estenderia sobre ele se não tivesse me revelado certos traços meus que eu desconhecia, por exemplo, como sou suscetível de manter a calma nas crises, mas também o quanto aprecio a glória pessoal, e de que sanha sou capaz caso me provoquem.

Esse Christie representava a Inglaterra junto à minha Corte. Em 1860, o Brasil vivia em paz, enriquecia-se e, assim, aproximava-se da Europa, quer dizer, da Inglaterra. Eu recebera com prazer o duque de Edimburgo, jovem filho de Vitoria, e dançáramos a bordo de seu navio. Preparávamos meticulosamente a participação brasileira na Exposição Universal de 1862, em Londres. Portanto, tudo estava bem encaminhado, aproximando-se do fito pelo qual eu tanto trabalhara: sermos reconhecidos como nação respeitável. Christie quase pôs tudo a perder.

Não sei que antigo rancor, que secreta mágoa haviam marcado esse homem, e nem por que seu governo cometera a bobagem de nomeá-lo para o nosso país. Sua política era ditada pelo desprezo que nos devotava. Cego diante dos nossos progressos, considerava o Brasil um povoado selvagem, de

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costumes dissolutos, desonesto nos negócios, e que ele jurara a si mesmo subjugar, para a glória de sua rainha.



Conhecêramos certos visitantes dessa laia; o próprio Gobineau não andava longe de partilhar semelhantes preconceitos quando serviu em nosso país, mas Gobineau tinha educação, mas nenhum poder, ao passo que Christie era um brutamontes à frente de uma esquadra.

Iniciou por ressuscitar a velha rusga dos emancipados, os escravos libertados outrora pela frota inglesa, mas retidos no Brasil e de facto cativos. Exigiu que os recenseássemos, mas o fez com uma insolência que irritou o ministro dos Negócios Estrangeiros. Meses mais tarde, percebendo que não lhe davam ouvidos, trouxe à luz do dia dois incidentes, afinal, menores, que qualquer diplomata sensato teria solucionado com uma nota verbal. Como o ministro não cedesse, Christie quis atacar-me e negou-se a acompanhar o corpo diplomático que ia apresentar-me congratulações por meu aniversário.

Intrigado com sua impertinência, solicitei as pastas a seu respeito. Eu ainda não lera o admirável Bagehot que, em 1867, haveria de comentar a política exterior de seu país: "Não seria milagroso que os ingleses, sendo o que são, praticassem uma boa política? Não estão eles acima das nações, longe do resto do mundo, insulares de pátria e de mentalidade? Não se trata de uma raça desdenhosa, sem educação e cultura, e que menospreza essas qualidades nos outros? Quem poderia esperar que tal povo compreenda os novos e curiosos acontecimentos em terras estrangeiras?"

O primeiro incidente relembrado por Christie referia-se à pilhagem, feita por bandidos, de um cargueiro britânico encalhado em nossas praias. Claramente, devíamos uma indenização, que estávamos dispostos a pagar. Porém, além disso, queria ele que castigássemos as autoridades responsáveis. O segundo incidente, muito mais espinhoso, referia-se à prisão de oficiais de um navio de guerra. Durante uma patuscada

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em terra, insultaram nossa polícia que os prendera. Christie exigia desculpas e punições.



O ministro recusava, no que estava certo, conforme lhe comuniquei. Então, o inglês, furioso com nossa recusa e decerto constrangido com as fórmulas corteses, argumentadas e, numa palavra, civilizadas com que tratávamos a questão, perdeu por completo a cabeça. Enviou-nos um ultimato e ameaçou-nos de represálias. A pretexto de informar os britânicos da cidade, mandou afixar na porta da legação suas exigências e ameaças.

A questão tornava-se pública, os comerciantes ingleses faziam barricadas em suas lojas e os moradores do Rio de janeiro desceram até o porto para observar a esquadra inglesa e contar suas bocas-de-fogo. A imprensa narrava de que maneira a Inglaterra, no ano anterior, atacara selvagemente a frota grega por causa da história de um negociante que levara uma surra.

Havia que reagir sem tardar, nada esconder do povo a respeito dos perigos que corríamos e indicar-lhe claramente o caminho da honra. Anulei minha viagem para Petrópolis e inclusive deixei a Quinta para ir me instalar na cidade, bem perto do porto. Visitei o Arsenal, encorajei os artilheiros das baterias costeiras e mandei que ficassem em estado de alerta os poucos navios de guerra de que dispúnhamos.

Esses dias de tensão uniram meus súditos em meu redor. Aclamavam-me a cada vez que eu saía, minhas exortações maravilhavam a multidão e os chefes da oposição só falavam de união sagrada.

No dia de expiração do ultimato, a esquadra inglesa deixou a baía e começou a apresar nossos navios mercantes. Que podiam fazer? Comboiá-los até a Inglaterra parecia algo arriscado, o mais provável é que procurassem rebocá-los até a base do Almirantado, na bala do Rio de janeiro. De modo que ordenei às fortalezas que vigiavam a barra que canhoneassem. as embarcações inimigas, caso viessem a fazê-lo. Capturaram cinco de nossos navios, mas, em face das nossas ameaças, preferiram mantê-los em mar alto sem ousar cruzarem a barra.

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Entrementes, o ministro procurava chamar Christie à razão. A energia de nossa reação e a ira popular calaram fundo no diplomata, e ditei-lhe minhas condições: indenização razoável para o navio pilhado, arbitragem internacional para o insulto à nossa polícia. Christie acatou, a esquadra largou suas presas, o povo veio manifestar-me sua veneração.

Poderíamos ter liquidado a questão, tanto mais que a arbitragem foi-nos favorável. Agora, tudo aconselhava a pacificação. Mas eu já não sentia desejo de pacificação. Obcecado por uma vaidade inebriante, embalado pelo êxito, não escutava mais ninguém. Londres cedia? Eu queria mais, queria a cabeça de Christie.

O apresamento de nossos navios prejudicara nosso comércio e merecia uma indenização. Nosso representante em Londres, por sua vez, exigiu um ressarcimento e desculpas. Evidentemente, era ir um pouco longe demais. Dessa vez, os ingleses consideraram a pretensão exorbitante, ou pelo menos inábil; mas principiavam a compreender os estragos que lhes causavam as infantilidades de seu representante: Christie foi substituído e, creio até, expulso da carreira.

Um embaixador de Sua Majestade britânica demitido porque desagradou aos indígenas, que novidade! Que vitória! Isso já não me bastava, cada êxito levava-me a entrever outros triunfos possíveis. Dei ordens para que se insistisse nas reclamações.

Nessa questão, eu já não me guiava pelo direito, sequer pelo interesse supremo do país, mas pelo rancor, esse mesmo rancor que me deixara indiferente ao infortúnio de Max. Pouco se me dava a indenização de nossos armadores, aliás, nunca nos pagaram. O que eu esperava de Londres era uma mudança de tom, era consideração. Umas palavrinhas corteses assinadas por lorde Russell ou por Vitória ter-me-iam satisfeito, mas era demais pedi-las aos funcionários do Foreign Office tão acertadamente descritos por Bagehot.

Então, levado por meu povo e minha ira, rompi relações com a Inglaterra. Pode-se verificar, bem poucos povos tiveram semelhante audácia, e nenhum recebeu de Londres a declaração

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conciliadora que terminaram me fazendo três anos depois. Não exatamente desculpas, mas quase.



Nessa questão assumi riscos inconsiderados e poderia ter perdido minha coroa. Nem pensava nisso, obstinado pelo que eu chamava de honra nacional e que, no fundo, não passava de uma deliciosa satisfação de amor-próprio.

Minha vitória contra Christie restaurou por certo tempo nossa unidade e congraçou meus súditos. Minhas visitas às fortalezas exaltaram nossos valentões e a partida da esquadra - sem ter disparado um só tiro de canhão - aliviou os poltrões. Quanto aos outros, a maioria alternadamente covarde e belicosa que forma todas as nações, celebraram tanto mais exaltados o meu triunfo quanto este fora pacífico.

Havia outros motivos de satisfação. As colheitas iam se vendendo bem, Mauá tirava de sua cartola de mágico os lampiões a gás, os bondes, os esgotos que facilitavam a vida; por fim, eleições pacíficas acabavam de enviar à Câmara uma penca de deputados populares. Por alguns meses, os mais rabugentos admitiram viver num país governado com sensatez. A calmaria durou pouco: em breve, as acusações contra minha maneira de governar foram redobradas, tão logo afigurou-se necessário substituir o presidente do Conselho.

Negava-me a nomear um liberal: a esquerda denunciava o cesarismo. Chamava um centrista: a direita tachava-me de fraco e populista; deveras, não havia meios de satisfazer a minúscula fração de meu povo que se interessava por política.

Ora, esses ataques contrariavam-me, tanto mais que a imprensa, ao se modernizar, ia-se tornando mais séria, mais respeitável e, portanto, mais perigosa. Ao grande órgão conservador, o Jornal do Commercio, opunham-se folhas mais recentes como o Correio Mercantil, onde trovejava o severo Tavares

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Bastos, e sobretudo o Diário do Rio de janeiro, alentado por assinaturas admiráveis: Saldanha Marinho, Quintino Bocaiúva, Machado de Assis ... José de Alencar ali publicava bilhetes ácidos que me agastavam mais que os outros porque o autor era bom poeta e simpático romancista, e que dele eu esperava ingenuamente uma espécie de indulgência confraternal.

No fundo, o que me reprochavam? Não curvar-me à vontade popular? Mas, afinal, onde esta se expressava? Não nas eleições, que eram fraudadas, conforme todos sabiam. Escolher arbitrariamente os presidentes do Conselho? Ora, essa! Cada decisão tomava-me semanas de meditações e consultações. Favorecer meus amigos? Eu não os tinha, nenhum. Gastar demasiado em viagens? Como? O Sul em 1845, Pernambuco em 1859, uma excursão a Campos, e mais nada.

Não, tudo isso não passava de pretexto, criticavam-me simplesmente por eu estar ali, por impedir que os políticos se entredilacerassem à vontade, por intervir em sua manobras, por impor regras. Minha presença severa, exigente, atrapalhava os conchavos, os arranjos no seio de uma classe política rica e poderosa, demasiado esquecida do povo. Sem mim, sem o vigilante-mór observando do fundo do seu palácio as inconveniências e as desonestidades, ter-se-iam divertido mais e enriquecido mais. Criticavam-me por isso, em vez de condenar meu maior erro, o único, talvez: minha moleza diante da fraude eleitoral. Por essa calamitosa fraqueza de minha parte, por esse crime de omissão que não me perdoei, a imprensa repreendeu-me? Jamais. Por quê? Porque eleições verdadeiramente livres, indispensáveis ao progresso de meu povo, teriam gravemente acabrunhado os políticos.

Minha tática foi sempre a mesma diante dos vitupérios dos jornais: uma dureza interior, o desprezo pela política e a falsa indiferença a que eu chamava de perdão das injúrias.

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Também consegui me convencer de que fazia o melhor possível e, como muitas criaturas, contentei-me com essa certeza.



A condessa condoía-se de mim, reconfortava-me, sem nunca me conceder aquilo com que eu sonhava. Nossas relações amargamente platônicas haviam-se enriquecido apesar de sua natureza tão complexa e apesar de nosso círculo: duas adolescentes de atalaia, sempre presentes, sempre atentas, uma esposa vigilante e pudica, serviçais maldosos, cortesãos à espreita.

Eu ainda não entendia as recusas de minha amiga, mas findei por aceitá-las: enquanto orientasse minhas filhas, enquanto permanecesse no Paço, e mesmo no Brasil, ela não cederia. Tomando inúmeras precauções, cabia contentar-me com o que possuíamos: uma confiança mútua absoluta, uma fidelidade total, uma estreita comunhão intelectual e espiritual. Gostos, preocupações, emoções sempre partilhadas. Em recompensa por essa ascese: minutos de solidão roubados, discretos sorrisos e, para o futuro, um sonho impreciso de reencontro, concretizado fora do Brasil, longe das meninas, longe de Teresa. Provavelmente o sonho jamais se realizaria, mas ajudava-me a estabilizar a situação, a refrear as exigências do coração.

Teresa, de seu lado, rezava. Não faltavam intenções para as missas que mandava celebrar. Após a salvação eterna, a meu ver pouco provável, para seu irmão Bomba recentemente falecido, ela solicitou aos céus a sobrevivência política de seu sucessor. Infelizmente, nem os arcanjos e nem o próprio São Genaro estavam à altura de Garibaldi! Este depôs o rei de Nápoles, e foi então pela proteção do Papa que Teresa viu-se obrigada a rezar.

Outro pleito foi somar-se à lista das graças que ela implorava ao Senhor: a de um bom casamento para nossas filhas. Quanto a este ponto, em verdade, carecíamos de todos os apoios. Isabel estava com dezessete anos, Leopoldina, com dezesseis. A condessa transformara-as em moças perfeitas, e

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eu, em brasileiras instruídas: em suma, bons partidos que poderíamos casar sem dificuldades se elas vivessem na Europa e se uma delas não estivesse convocada para reinar um dia. Pois a Constituição era categórica: o príncipe consorte, de onde quer que viesse, devia fazer sua vida no Brasil.



Que se imagine um rapaz, de sangue azul, naturalmente, pois eu era intransigente nesse ponto. Ele tem, digamos, 25 anos, vive no conforto, percorre a Europa para encontrar outros príncipes, seus primos, que o festejam. Caça, assiste às melhores óperas, deita-se com atrizes em voga. Sabe que, chegada a hora, poderá escolher entre cinco ou seis noivas aceitáveis, todas parentes suas, e que provavelmente ele conhece desde a infância. Se for ambicioso, ou orientado pela mãe sagaz, consagrará algum esforço para desposar uma moça um pouco mais rica e com mais brasões do que ele: eis o único cuidado, a única preocupação que de vez em quando perturba-lhe: as diversões. Por que diachos esse rapaz aceitaria estabelecer-se definitivamente entre selvagens a dez mil quilômetros de casa?

A essa terrível condição somavam-se algumas outras. Não queríamos casamento protestante. Meu ecumenismo admití-lo-ia de bom grado, mas nem Teresa nem a Igreja brasileira o tolerariam. Tampouco queríamos casamento português; a época colonial ainda era demasiado recente para apresentar ao país um príncipe dessa nação. Por fim, eu adorava minhas filhas e negava-me de anternao impor-lhes um parvo ou um ancião. Ou pior: afastei de saída a candidatura de Luiz Victor da Áustria que, ao defeito de ser um Habsburgo, somava outros de fazer as devotas corarem. Eu não haveria de pôr minha Isabel em concorrência com os jovens estivadores do Prater.

Poderia procurar entre nossos familiares, pois minhas irmãs tinham filhos. Mas os de Januária haviam herdado os defeitos do pai Àquila; um deles acabava de fugir para os Estados Unidos com uma aventureira cubana. Quanto ao filho de

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Francisca, o encantador duque de Penthièvre, fez ver à mãe, muito embaraçada, que um exílio no Brasil não o tentava nem um pouco. Recebemos idêntica resposta de Bruxelas, onde o segundo filho do rei retivera-me a atenção.

O tempo passava sem que eu conseguisse encontrar as duas aves raras de que carecia. Um artigo de jornal, aqui ou acolá, deixava-me pressentir que brevemente a sociedade haveria de se interessar pela questão. Mesmo em terreno tão Intimo, eu não me encontrava protegido dos sarcasmos e das admoestações. jornalistas, à falta do que escrever, podiam propor, impor talvez, qualquer candidato. Convinha agir depressa.

Relatei o quanto minha família ajudou-me nas diversas crises que atravessei. Sempre pude contar na Europa com uma espécie de comissão de apoio familiar comandada pelo casal Joinville-Francisca. Em Munique, minha madrasta Amélia dedicava a ociosidade de sua viuvez dourada a escutar proveitosamente os mexericos das cortes, e meu cunhado Fernando, rei de Portugal, que eu não conhecia pessoalmente, mantinha comigo a mais amistosa correspondência. Um casal de príncipe e princesa, uma imperatriz em exílio, um rei; dois Orléans, uma Beauhamais, um Coburgo. Hoje as coisas mudaram muito, não se faz uma idéia da força que isso representava em 1960.

O formidável batalhão pôs-se a caçar. Forneci-lhes pormenores, retratos, estimativas de dote. Sugeriram pistas e sondaram as intenções das rainhas-mães.

Dessas negociações delicadas dependia o futuro de minhas filhas e quiçá do Brasil; muita gente crê que minha decisão final pesou gravemente na vida política e talvez na minha deposição. Contudo, o lado burguês desse episódio não me escapa. Assisti a diversas peças de Émile Augier: ele não desdenharia o tema, na verdade, explorou-o de leve. Nessa história de um pai azafamado tentando casar as duas filhas, farejo o cheiro de pot-au-feu que dominava em Le gendre de M. Pairier.

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Afinal, meus aliados na Europa encontraram o que procuravam. Joinvile tinha dois sobrinhos em idade casamenteira, dois netos de Luís Felipe. O filho de seu irmão Nemours chamava-se Gastão, conde d'Eu, o filho de sua irmã Clémentine chamava-se Augusto, conhecido como Gusti, duque de Saxe-Coburgo. Ambos católicos, encantadores, segundo se dizia, Gastão mais militar, Gusti mais caçador. Ambos milagrosamente dispostos a se instalarem no Brasil e lisonjeados com a função, no entanto tão ambígua, de príncipe-consorte.

Era bom demais para ser verdade, convinha verificar. Convidei os dois primos para irem ao Brasil, sem compromisso de parte deles nem da minha. Conheceriam minhas filhas, eu os avaliaria e, se tudo corresse bem, concluiríamos um, quiçá dois casamentos.

Os dois rapazes desembarcaram e foram se apresentar. Logo percebi que a família não me enganara, enviavam-me dois sólidos pretendentes: jovens, alegres, muito bem educados, razões para acabar com as resistências de um pai. Minhas filhas caíam na risada a todo momento, o que era bom sinal.

Restava atribuir os papéis, decidir quem desposaria quem. A meu ver, era apenas questão de tempo. Se eu multiplicasse as ocasiões de encontros, não demorariam a surgir as preferências, o Amor haveria de nos guiar, e a ele eu haveria de me render em nome da felicidade de minhas filhas. Bastava esperar que Marivaux substituísse Augier. A condessa organizou saraus musicais, jogos de charadas, excursões ao jardim Botânico e piqueniques à beira de cascatinhas. Eu levava os quatro ao banho de mar. Alugamos em Botafogo umas carruagens fechadas que um cavalo puxava até o mar. Ficávamos de camisola e depois entrávamos nas banheiras de cobre instaladas de um lado e outro do engenho e que um sistema de talhas fazia descer até a água.

Em suma, fizemos o possível para despertar Cupido. Mas o deus devia estar volteando em outras plagas com seu arco. Não sei o que foi cochichado nos conciliábulos entre Isabel

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e Leopoldina, nem se Gastão e Gusti, fumando seus charutos vespertinos, procuraram dividir irmanamente as herdeiras Bragança, mas o fato é que quinze dias depois nenhum desiderato, nenhuma suave pressão filial lançou-me luzes sobre a questão.

Desde sempre Teresa manifestava certa preferência por Leopoldina. Imaginou pressentir na caçula uma inclinação por Gusti. A condessa, mais ligada a Isabel e fiel aos Orléans, considerava Gastão mais apto ao papel de príncipe-consorte. Terminei acatando essa solução e comuniquei ao conde d'Eu que o imperador desejava vê-lo escolher Isabel, princesa herdeira do Brasil. Ele aceitou, ao final de alguns dias, e logo depois Gusti pediu a mão de Leopoldina. Casamo-las, uma em outubro, outra em dezembro. Enquanto a Câmara padecia com os contratos nupciais, tratei de conhecer melhor o conde d'Eu, futuro príncipe dos brasileiros.

Gastão deu-me muito trabalho durante vinte e cinco anos, mas aqui o pai deve falar antes do soberano. Ele fez minha filha profundamente feliz. Não me refiro à felicidade racional que vemos nascer nos casamentos impostos. Menos ainda a felicidade serena das esposas um pouco tolas diante de um esposo deificado: minha filha é inteligente, mais culta que o marido e infinitamente mais sutil. Foi uma paixão autêntica, uma felicidade total que a acompanhou na vida. Gastão, creio, é-lhe fiel. Ajudou-a com ternura a suportar seus sofrimentos fisicos. É hoje um pai exemplar. Por tudo isso será bastante perdoado.

Custo a me lembrar do rosto cor-de-rosa e louro, quase de boneca, que é o seu nos retratos datando do casamento. No Brasil, logo emagreceu. Com o passar dos anos, seu corpo alto e esguio, seus bigodes compridos e retorcidos, sua barbicha, seus olhos sempre um pouco perdidos foram lhe dando ares de Dom Quixote, e é de fato o Cavaleiro da Triste Figura que Gastão lembrará se eu descrever-lhe o caráter, pois de

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Dom Quixote, desgraçadamente, ele possuía o realismo, o sentido político e o tato.



Admito muito bem que um europeu julgue-se superior ao resto do mundo, essa vaidade é-lhe inculcada desde o berço, e nós, estrangeiros, reforçamo-la bobamente com nossa admiração. Mas a esse defeito compreensível, o francês acrescenta outro do qual se jacta porque, justamente, diferencia-o de seus vizinhos da Europa: a generosidade. Suporta-se a arrogância de um alemão, a empáfia de um inglês, mas só um santo é que consegue perdoar as boas intenções de um francês.

Ele se condói das imperfeições alheias, explica-nos de onde elas provêm, indica os meios de remediá-las. Põe-se ao trabalho, sua sinceridade ofusca-o, arrisca a própria fortuna, por vezes a vida. Se tentarmos mostrar-lhe a diferença das situações, o valor dos costumes locais, ele se zanga: que atrevimento! Então não compreendemos? Lá está a França, sacrificando-se por você para ajudá-lo, para corrigir os seus erros em nome dos grandes princípios: de sua universalidade ai~ duvidaria?

Deveras insuportável. O Brasil almejava um príncipe discreto que o amasse como ele é e pelo que é, que adotasse nossos costumes e, se possível, nossos defeitos, e que vivesse deixando-se levar, suavemente. Mas Gastão, para desgraça minha, possuía uma nússão. iria mostrar o que vale um príncipe francês, imporia ao Brasil uma felicidade francesa, a única sensata, e caso os moinhos de vento da política se erguessem contra si, ataca-los-ia com a lança.

Não era malvado nem pérfido, sequer era um tonto, mas tinha opinião a respeito de tudo, e expressava-a, convencido de que o Brasil era um país de muita sorte ao apoiar-se nos conselhos de um francês.

Havia vinte anos que eu me empenhava em manter-me imparcial nas lutas intestinas, mas ele logo escolheu seu campo e exibiu suas preferências. Um Orléans não haveria de se juntar com os conservadores escravistas; decidiu freqüentar os liberais. Estes acolheram-no como a um maná inesperado

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e perceberam todo o proveito que podiam tirar de sua ingenuidade. Não tiveram dificuldades em recolher de sua boca certas opiniões muito sinceras e muito inábeis. Intrigaram-no para sempre com os conservadores, que se vingaram denunciando suas intromissões, sua avareza, seu sotaque francês, tudo o que podia prejudicá-lo junto ao povo.

Por que não escolhi Gusti para Isabel! Ele teria caçado no Amazonas, em meio à indiferença geral, sem querer corrigir o mundo, e talvez hoje estivesse reinando. Em vez disso, levou Leopoldina para a Europa, deu-lhe quatro filhos em seis anos, e depois ela faleceu. Praticamente perdi de vista meu genro saxônio. Quanto a Gastão, continua por aí, atento ao conforto de sua esposa e aos estudos de meus netos. A que mais? Não sei de nada e pergunto-me o que ocupa os dias desse príncipe que a história exilou em seu próprio país.

Terminei minha tradução dos cantos do Comtat e enviei-a ao rabino que a publicará com os Seguin Irmãos, em Avignon. Autor: Pedro d'Alcântara, simplesmente, um de meus quinze nomes de batismo. É meu nome de viagem, de pesquisador, meu nome de exílio também. Pedi duzentos exemplares, necessito-os para a família, alguns amigos, a imprensa e meus colegas do Institut de France. Sem esquecer Mistral, naturalmente.

Essa menção ao Institut de France lembra-me que devo estar em Paris no outono, haverá uma eleição na Academia de Ciências. Os membros estrangeiros, o que sou desde 1877, na seção de geografia, votam como os outros. Precisarei refletir e consultar, não darei meu voto a qualquer um. Antes de Paris, irei talvez às bodas dos Krupp, em Essen, gostaria muito de rever o Reno e suas ruínas. Em seguida, o inverno em Carines, e depois... depois veremos.

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VII


Classificar peixes, cento e dezesseis peixes, na maioria desconhecidos. O moço sorriu ao ler a proposta; com que então seus estudos de ciências naturais podiam lhe valer um emprego! Era na Suíça, em 1827, e a carta vinha de Munique. O bávaro Spix recolhera outrora os espécimes durante uma expedição à Amazônia com o naturalista Martius. Falecera antes de poder inventoriar os seus achados. Seu colega, que classificava palmeiras, procurava alguém para completar a obra do amigo. O jovem suíço, chamado Louis Agassiz, aceitou a proposta, partiu para Munique, pôs-se a trabalhar e principiou a sonhar com o Brasil ao desenhar os peixes sob a vigilância de Martius.

Imagino muito bem o laboratório onde os dois trabalham: vasta sala iluminada por janelas altas. Um cheiro de formol sufoca o visitante. Mesas atulhadas de mapas, croquis, herbários. Pilhas de folhas amontoadas num canto: a imensa Flora brasiliense de Martius. Uma prateleira corre ao longo das paredes, repleta de frascos onde há dez anos os peixes estão macerando. Nas etiquetas, Spix rabiscou os nomes indígenas de seus achados, sílabas magníficas coloridas de mistério: tambaqui, tucunaré, pirarucu, surubim... Cai a neve sobre o telhado verde da residência, enquanto Martius narra ao jovem suíço os rios solenes, as orquídeas, os vôos de tucanos e, naturalmente, as palmeiras. Sem desconfiar, transmite-lhe o singular

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micróbio que contamina ao acaso alguns estrangeiros e inflige-lhes para sempre a paixão pelo Brasil. Esse micróbio, Martius pegou-o do grande Humboldt, Agassiz haverá de transmiti-lo mais tarde a seus assistentes.



Ao tornar-se professor em Neuchâtel, o rapaz publicou afinal sua classificação: Pisces quos collegit et pingendos arcedit Spix. Atraído pela geologia, escreveu também um importante Estudos sobre as geleiras. Nele mostrou de que modo a estrutura dos solos pode revelar a passagem de geleiras desaparecidas há muito. Por volta dos quarenta anos, sentindo-se confinado no seu jura natal, emigrou para os Estados Unidos e foi ensinar na Universidade de Harvard. Casou-se com uma norteamericana, naturalizou-se e fundou o primeiro museu de ciências naturais em seu país de adoção.

Não se esquecera do Brasil. Em plena guerra de secessão, convenceu um mecenas a financiar uma expedição à Amazônia para prosseguir a obra de Spix e Martius. Naturalmente, pediu-me a autorização, que concedi de bom grado: não queria oportunistas ianques em meu território, mas a Ciência sempre seria bem-vinda.

Conheci Agassiz pouco depois das núpcias de minhas filhas, mas, se hoje resolvi falar desse homem e de alguns outros que me visitaram, não é para seguir servilmente o fio dos anos. Ao contrário, procuro afastar-me, fugir da cronologia. Até aqui, segui comodamente o curso de minha vida, que me levou a meados dos anos 60. Por essa época, ela me amedronta, pois em breve haverá de estar manchada de sangue. Ainda careço de coragem para tratar das atrocidades de que fui testemunha, ator e, sou obrigado a admitir, o responsável. Não busco esquivar-me de minha história, mas, único ouvinte de minha narração, não persigo mais a exatidão de uma efeméride nem pretendo a bajulação de um apologista: não tenho outra regra senão a sinceridade. Portanto, estou livre para conceder-me umas férias, demorar-me um instante nas doçuras

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da digressão, honrar a lembrança de certos homens ilustres que me visitaram.

Conheci-os de todo tipo. Príncipes, como o irmão de Guilherme II, em honra de quem dei meu último baile de gala em São Cristóvão; embusteiros, como Gustave Aimard, cuja conferência no Rio de janeiro a platéia vaiou; gaiatos amáveis, como o pintor Biard, pinta-monos brincalhão e aventureiro que atamancou-me meu retrato antes de ir desenhar índias às margens do Madeira; e pelo menos uma mulher, Ida I)feiffer, um Phileas Fogg de saias que por pouco não foi assassinada na estrada de Petrópolis durante sua primeira volta ao mundo.

Dentre os mais notáveis, três influenciaram-me bastante a vida e as idéias para que eu me demore neles. Três personalidades inovadoras de nosso século. Três homens radicalmente diferentes em suas visões do mundo e que, houvesse eu os reunido, com certeza iriam se altercar. Um suíço norte-americano, um francês, um argentino. Agassiz, o sábio, Gobineau, o pensador perdido, Sarmiento, o educador. Conheci os dois primeiros na maturidade, o terceiro, em minha juventude, e, quanto à cronologia, paciência!

Eu havia previsto observar um eclipse do sol no dia em que Agassiz veio apresentar-me seus respeitos. Luneta, lentes escuras, folhas de cálculo, espectroscópio: estava tudo a postos em meu observatório. Subi com o meu visitante, excitado com o acontecimento, mas intimidado por ter de estudá-lo em presença de um autêntico cientista. Ele mesmo espantouse talvez com a acolhida tão pouco protocolar.

Eram cinco horas da tarde e o sol declinava a seis graus. Revezando-nos na luneta, vimos um fio de sombra principiar a roer o astro, tomados ambos pela emoção que, desde sempre,

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confrange pastores e astrônomos quando, enfim, percebem fisicamente o efeito da magnífica mecânica sobre a qual meditam toda noite. Como sucede freqüentemente na primavera em nossas latitudes, uma neblina vinda do oceano envolveu de repente o sol, que desapareceu: estava encerrada a observação e eu podia guardar meu material.

Agassiz baixou os olhos para a paisagem. Indiquei-lhe os principais monumentos da cidade, e depois os diferentes maciços que a cercam. Ele iria percorrê-los incansavelmente durante sua estada.

Quando propus que descêssemos, vi-o erguer a cabeça e contemplar os pássaros que voavam sobre uma construção. "Urubus, disse-lhe, passam o dia vigiando os matadouros e de noite Vão se aninhar nos morros. Quanto aos palmipedes que está vendo lá longe, são às ilhas da baía que, à noite, eles retornam.." Franziu os olhos para refletir: "Mas então, Majestade... o eclipse ......

Compreendi e encostei-me numa janela, ao lado dele. A escuridão baixava sobre a cidade onde meus súditos estavam boquiabertos, esfregando os olhos. Uns extasiavam-se diante do fenômeno, outros rezavam o terço, pelo sim, pelo não. Na escuridão cúmplice, arrancavam-se bolsas, ou beijos. Debruçados um ao lado do outro, olhamos os abutres irrequietos pairarem no céu sem um bater de asas, esperando que o ar quente da tarde tragasse-os e levantasse-os. Nas praias, os mergulhões e os guarapirás piavam de aflição. Em seguida, todo esse mundo emplumado embicou para os abrigos noturnos, enquanto cala a noite fictícia. Nossa amizade nasceu dessa conivência diante dos urubus perdidos pelo uníverso desregulado.

Uns dias mais tarde, retribuí a visita de Agassiz indo ao laboratório improvisado que ele instalara perto da Sé, em cima da loja de um chapeleiro. Havia que se escalar os degraus desconjuntados antes de entrar numa sala arejada onde trabalhavam os membros da expedição. Vi os alunos de Agassiz, cerca de uns dez jovens, sendo que o mais velho não tinha

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trinta anos. Aguardando a partida próxima para a região amazônica, dissecavam os peixes, espetavam os insetos, ou lavavam os frascos, ou esticavam sobre uma prancheta a asa de um vampiro. Num canto, um aquarelista pensativo desenhava uma bromélia. Agassiz apresentou-me sua tropa juvenil.

Conheci o geólogo Hartt, instalado desde então em nossa terra, e William James, que iria ocupar por tanto tempo a cátedra de filosofia em Harvard. Seu irmão, dizem, escreve romances na Inglaterra. Todos partilhavam o fervor do chefe, tão contagioso que também me conquistou. Interroguei-os, perplexo com a competência deles, mas triste ao compará-la com a inércia de nossos universitários.

Inventariavam nossa fauna, e disso eu muito me alegrava, mas por que estrangeiros? Afinal, que faziam nossos cientistas, a que pesquisas abstratas podiam se dedicar, enquanto nossa natureza propunha-lhes tantos temas de estudo?

Convidei Agassiz para ir me visitar quando lhe aprouvesse. Ele tomou o hábito de passar pelo Paço aos domingos à tarde. Acomodávamo-nos sob os bambus do parque para conversar sobre o Brasil e a ciência. O grande debate à época referia-se à zoologia e versava sobre a origem das espécies. Uma paixão envenenada, feroz, insinuara-se nesse debate, pois o tema atingia também a religião e a política.

Crer, como Aristóteles acreditou, que as espécies não mudaram desde sua criação é admitir um criador. Inversamente, supor, junto com Lamarck, o que Darwin demonstraria em breve, ou seja, que as espécies transformam-se para se adaptar ao clima e à concorrência vital, era abrir a porta ao ateísmo. A obstinação do clero e a pugnacidade dos livre-pensadores afrontavam-se duramente. Os argumentos científicos entremeavam-se de ironia maldosa, de raciocínios enviesados, de falsificações, enquanto Pouchet pretendia descobrir uma terceira via, a da geração espontânea.

Minha inclinação levava-me para os que eram chamados de transformistas, e Agassiz acreditava na imobilidade da espécie.

167 Alinhava seus argumentos, eu tentava responder-lhes: que delícia eram nossas discussões! Passávamos do pré-cambriano aos cipós equatoriais, das migrações das enguias aos peixes do Danúbio, dos fósseis aos mutantes. O mundo inteiro e sua história alimentavam nossa conversa. Não fosse a prudência de meu visitante, calvínista convicto que se negava a ser arrastado longe demais, a conversa teria desembocado em Deus.

O objetivo declarado da expedição de Agassiz era recolher espécimes às margens do Amazonas. Em breve ele deveria partir, e lá ficaria quase um ano antes de empacotar suas coleções e levá-las para Harvard onde, suponho, elas ainda se encontram. Enquanto aguardava o momento de lançar-se em semelhante aventura, ele retomava a sua idéia fixa.

Disse eu que ele fora o primeiro a estudar o traço que deixam no solo as geleiras quando derretem. Essa investigação, principiada nas montanhas suíças, ele a prosseguira e ampliara nos Estados Unidos. já se sabia que a calota polar, em eras recuadas, estendera-se até as zonas temperadas. Agassiz suspeitava de que um dia ela cobrira todo o planeta, e que se reencontrariam traços de velhas geleiras até mesmo debaixo do Equador. Tencionava descobri-los na região amazônica, teve a surpresa de identificá-los às portas do Rio de janeiro, desde suas primeiras excursões.

Certo dia, convidou-me para acompanhá-lo num de seus passeios às montanhas da Tijuca, cujos contrafortes erguem-se por trás de São Cristóvão. Durante um dia todo, perambulamos pela paisagem encantadora que eu conhecia bem. Morros pelados que surgiam da floresta, clareiras acolhedoras, cascatas onde brincariam as náiades se vivêssemos na Ática: minha família e eu freqüentávamos essas paragens desde a infância.

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Agassiz via algo diferente de nós. Ele já não era jovem e o sol castigava, mas mesmo assim eu custava a acompanhá-lo. Pulando como um cabrito de pedra em pedra, auscultando a rocha com um martelinho, amontoando pedrinhas dentro do seu cesto, ele dava gritos de alegria e chamava-me imperiosamente para comunicar-me suas descobertas.



O que durante quarenta anos eu julgara ser um pedregulho árduo era uma moraina! Aquela massa de basalto que lembrava um elefante, e ali estava há dez mil anos, não era nem um acaso nem uma curiosidade, era, esgoleava-se o sábio, um bloco errático, arrancado de alguma muralha e arrastado até lá pela força tremenda de uma geleira. Vestígios, provas: eis a palavra! Um mar de gelo submergira outrora a Tijuca, que naquele dia estava escaldante sob um sol incandescente. A era glaciária congelara, pois, o planeta inteiro. Agassiz foi o primeiro a prová-lo, diante de um imperador extenuado, suando, e exultante.

Quando temos a sorte de contar com a presença de um homem desses, procuramos aproveitá-la ao máximo, e partilhar suas luzes com os outros. Contratei AgassiZ para proferir uma série de conferências. De que falaria? Do que quisesse. Em que língua? Em francês, se possível, pois éramos bem poucos a conhecer suficientemente o inglês.

Decidi dar ao acontecimento o maior brilho possível. Nossas comunicações científicas eram, em geral, reservadas a um grupo minúsculo de especialistas do qual se afastavam prudentemente todos os que poderiam levantar alguma dúvida ou suscitar uma questão. Cumpria mudar tudo isso, arejar a ciência, dar às conferências um caráter público e gratuito; organizamo-las no salão nobre de um colégio famoso.

Veio-me então a idéia de que convinha aceitar a presença das mulheres: eis algo que perturbou seriamente os espíritos. Mas minhas filhas haviam aprendido suficiente geologia para entender as lições de Agassiz, por que impedi-las de ouvi-lo? Se as princesas compareciam, era normal que a imperatriz

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também assistisse à conferência. Recrutei Teresa, não sem dificuldades; tive que impor uma relativa autoridade para que ela consentisse em escutar as elucubrações de um sábio que, sem negar categoricamente a criação do mundo, era, ainda assim, um protestante.



Quando chegou ao conhecimento que minha mulher compareceria às conferências, toda a raça feminina estremeceu de excitação e, creio, de gratidão. As esposas intimaram os maridos a descobrir-lhes compêndios de geologia e oferecer-lhes um vestido para a ocasião. O diretor do colégio, agoniado com as complicações que minha iniciativa geraria, julgou indispensável reservar uma entrada especial para as senhoras, a fim de protegê-las dos empuxões masculinos. Enfim, foi tudo acertado e Agassiz proferiu suas conferências. Falou-nos do jurássico e dos equinodermos, das palmeiras de Martius e dos peixes de Spix e, bem entendido, do Brasil gelado que ele entrevira no fundo das eras. As mulheres escutavam-no como a um pregador, devotamente, mais, creio, do que os homens. Na primeira fila, eu tomava notas, furiosamente.

Após os aplausos, quando os oficiais espremiam-se em torno do conferencista, vi a platéia retirando-se vagarosamente pelos corredores do grande salão. Lá estava toda a burguesia do Rio de janeiro, gente que eu encontrava tão amiúde no teatro, no concerto, na ópera. Entretanto, como estavam mudados, longe da excitação fútil e descomedida dos fins de festa! Eu os via, graves, cabeça erguida, cumprimentando os amigos com ares doutos ou trocando com suas esposas profundos pensamentos, convencidos de terem vivido um momento histórico, a primeira conferência científica de suas vidas. A maioria pouco entendera e pouco memorizara, mas eu sabia que isso não importava. O que importava, o que valorizava aquela conferência e recompensava meus esforços era que eles se sentiam orgulhosos, naquela noite, de serem brasileiros. Ter concebido essas conferências de Agassiz não foi a menor de minhas glórias.

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Quanto aos jovens estudantes reunidos no fundo do salão, tomara que possam eles não ter se esquecido da peroração do conferencista, que resume o pensamento de meu século: há que tudo verificar. "A quem me perguntar: 'Qual a vantagem disso? A que pode conduzir tal verificação?', responderei que a ninguém é dado predizer qual virá a ser o resultado de uma descoberta feita no domínio da natureza. Quando se descobriu a centelha elétrica, que era ela? Uma curiosidade. Quando se inventou a primeira máquina elétrica, para que servia ela? Para fazer dançar bonequinhos que divertiam as crianças. E hoje a eletricidade é a força mais poderosa de que dispõe a civilização. Mesmo, porém, que semelhante estudo não traga outros resultados senão este: saber que certos fatos na natureza se passam de tal forma e não de outra, que têm tais causas e não outras - o resultado em si já seria bastante útil, bastante grande, porque a finalidade do homem, seu objetivo, sua glória é a verdade."



A condessa conhecia o diplomata que Napoleão III enviou-nos em 1869 para representar a França no Brasil. Ela recomendou-me-lo calorosamente e fez-me chegar alguns de seus escritos. Eu conhecia o nome de Gobineau desde a publicação de seu Traité des écritures cuneiformes, condenado com razão na imprensa especializada, mas espantou-me saber que ele publicara vários outros livros: narrativas de viagem, romances-folhetins, poemas e tragédias. De modo que eu não estava lidando com um medíocre lingüista, mas com um escritor prolixo e desordenado que, ao que parecia, ainda não havia encontrado seu canúnho. Que valiam suas obras? Convinha tirar a limpo. Folheei Religions et philosophies de l'Asie central, que me pareceu bem informada, e lancei-me no Essai sur l'inégalité des races humaines, que a condessa confessava ter largado nos primeiros capítulos.

Também pedi para ter acesso à ficha do ministério referente ao novo enviado. Gobineau servira seu país na Pérsia e, mais recentemente, em Atenas. Nosso embaixador em Paris emitia dúvidas sobre seus títulos de nobreza, considerava desastrosa a sua vida conjugal e salientava - com bastante malícia, pareceu-me - o sangue africano que corria nas veias de sua mãe. Manifestamente, não nos tinham enviado uma estrela da diplomacia francesa.

Contudo, a amizade da condessa asseverava-lhe minha benevolência. Convoquei o francês já no dia seguinte de sua chegada, fora de qualquer protocolo; dispúnhamos de todo o tempo para exanúnar suas credenciais. Na hora combinada, introduziram em meu gabinete um diabinho de barbicha extremamente distinto, de uma elegância impecável que, ao fio dos meses, nosso clima iria macular singularmente. Cobineau fez-me algumas reverências um pouco compassadas, as quais encerrei conduzindo-o familiarmente até a minha biblioteca. Ele observou, sem nada dizer, seu Essai em cima de uma mesa, e lançou pequenas exclamações quase femininas ao examinar meus livros.

Interroguei-o sobre o novo ministério de seu Imperador. As coisas em Paris evoluíam depressa, o Bonaparte descobria uma alma de liberal, ao passo que sua esposa apoquentava-o para que ele interviesse na sucessão da Espanha. Eu necessitava entender tudo isso mais claramente, mas Gobineau respondeu-me com uma indiferença sem ilusões, algo surpreendente num diplomata em missão. "Um bom gaiato, pensei, com quem não devo contar para me informar dos assuntos políticos. Então, de que íamos conversar? De seu posto anterior? Tentemos."

Fiz-lhe uma pergunta sobre a Grécia e não tive mais que me preocupar com a conversa: ele falou sem parar. Sua paixão maravilhada por Atenas varreu a reserva do diplomata. Agora muito à vontade, soltou sua verve deslumbrante para descrever-me os helênicos, suas taras, suas mulheres e seus monumentos.

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Havia meia hora que o conhecia, mas já me sentia subjugado a seu encanto; assim me senti durante os dezesseis meses que ele passou entre nós. Gobineau muitas vezes divertiu-me, ocasionalmente irritou-me. Inspirou-me ironia e compaixão. jamais me amofinou.

Causcur vertiginoso, era inigualável em contar as anedotas! Seu olhar corrosivo decapava os homens e as cenas de tudo o que fosse acessório para por em relevo o essencial, fosse este nobre, desprezível ou ridículo. Resumia um livro com uma frase sempre pertinente, com um domínio da língua que, infelizmente, desaparecia tão logo ele se punha a escrever. Para ilustrar seu talento de contista, basta que eu diga que esse adúltero impenitente conseguia fazer a Imperatriz rir. Ela se encantara por ele e eu mesmo por vezes duvidei da tolice de minha mulher, ou da perspicácia de Gobineau, vendo-os subjugados um pelo outro.

Como anteriormente Agassiz, ele se acostumou a ir me visitar todo domingo e, para gáudio de Teresa, convidei-o para a minha comitiva por ocasião de uma viagem oficial a Minas Gerais. Ao fim de poucas semanas, principiei a conhecer bem esse homem e sua história.

Um pessimismo abissal obscurecia-lhe a vida. Ele multiplicara os reveses em todos os campos, a não ser na arte de brilhar e de seduzir. Nenhum de seus livros era vendido: Sainte-Beuve não se dignara a comentá-los em um de seus Lundis. Após um início bastante promissor à época de Tocqueville, sua carreira diplomática atolou naÁsia. Uma esposa gastadora e frívola, uma filha ingrata e carola completavam a infelicidade de sua vida.

É também culpa sua, eu me dizia, pois sua franqueza e sua falta de tato valeram-lhe várias inimizades no mundo literáfio, enquanto que sua falta de zelo e seus devaneios irritaram os seus superiores do Quai d'Orsay. Em suma, careceu demasiado de diplomacia para ter êxito em literatura, e cortejou demasiado as musas para brilhar na diplomacia."

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Fosse outro, mais medíocre, e ter-se-ia contentado com os êxitos de estima e com postos honoráveis, quando não brilhantes; mas Gobineau não se contentava com coisa alguma. Enfurecia-se por não conseguir impor-se nem nas belas-artes, nem na política internacional. Na realidade, era de uma admirável persistência em buscar o revés, em seguida, saboreá-lo num sombrio regozijo.

Que bobagem, por exemplo, ir conceber em pleno século XIX, quando o progresso nos guia e nos ilumina, um livro como o Essai sur "l'inégalité des races. A tese principal, segundo confirmou-me cem vezes, é que as sociedades regridem e que a história marcha às avessas. Que cegueira, que ferrenha vontade de nada enxergar em torno de si! Assim, não haveria Futuro? Não, respondia ele sombriamente: a grandeza, a felicidade ficaram para trás de nós.

Onde exatamente, ele não especificava. De vez em quando, resmungava que gostaria de ter vivido na época do Renascimento, não por causa de Michelângelo ou Ariosto, mas para devastar a Itália à frente de seus guerreiros brutais: os condottieri fascinavam-no. No dia seguinte, havia se esquecido de seus lansquenês e jurava que era um homem do século XII: o vínculo feudal unindo o servo ao Papa por intermédio de uma cascata de feudatários parecia-lhe o máximo da harmonia social. Mais um dia e ele voltava atrás e vilipendiava tudo o que ocorrera após o século V, o século dos suevos e dos vísigodos, de Teodorico e de Santa Genoveva, a jovem parisiense que ele venerava entre todas as mulheres.

Penso que eu poderia tê-lo feito confessar uma preferência por qualquer época, exceto a nossa, o século XIX. Este, ele abonúnava. "Mas, como o senhor ignora a eletricidade, o vapor, a função glicogênica do figado?" Ele dava de ombros, exasperado: o pretenso progresso só trazia uma felicidade fictícia à chusma popular que, de toda maneira, não o merecia.

Onde afinal ele ia buscar tais disparates? Pertencíamos à mesma geração, tínhamos um e outro lido muito e extraído

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dos mesmos autores os elementos de nosso pensamento, como era possível que nossas conclusões fossem tão diferentes?

Pois não estávamos de acordo a respeito de coisa alguma. Deixo de lado as preferências literárias: ele louvava Stendhal e detestava Flaubert, eu pensava justamente o contrário, questão de gosto, sem conseqüências. Mas sua teimosia em negar o progresso parecia-me grave, insultante para a espécie humana e, por assim dizer, pecaminosa. Eu lhe comunicava minhas reações à medida que ia avançando na leitura do Essai.

Essa idéia de uma decadência inelutável, de uma queda dos homens a partir de um ponto de partida luminoso tinha provavelmente algo a ver com a religião? Teria eu razão de pensar no paraíso terrestre? De jeito nenhum!, respondia ele com vivacidade. A Igreja quer ensinar-nos que as sociedades declinam porque são culpadas: está errada. De onde provém então esse declínio? Da criminosa mestiçagem das raças; ela embota o fio de nossa vontade, ela sobrecarrega nossos instintos, ela macula nosso pensamento e faz de nós uma população de tontos abastardados. Ah, então não existem mais os fortes? São uns boçais. Nem homens inteligentes? São uns pilantras.

E quando, afinal, produziu-se essa mestiçagem, em que momento da História? Antigamente. Mas quando, pergunto-lhe? Mostre-me a raça pura. O senhor nos fala dos arianos da Asia Central; com isso quer dizer que o bom Deus criou-os em suas estepes e que ali eles esperaram pacientemente pela Sua vontade, por milênios, sem viajar nem conhecer os vizinhos?

O senhor admira o vigor original do povo de Israel, enfraquecido por infames contatos com o mundo exterior. Portanto, considera que foram os estrangeiros que abastardaram os judeus? Deve-se crer que a ruína do Templo decorre de uma noite que o velho Booz passou com a estrangeira Ruth?

O senhor condena todas as mestíçagens, mas reconhece em si mesmo um sopro africano que o conduz à arte; quem sabe o senhor pensa que descendemos todos da Africa? Lacépède não diz que somos todos negros embranquecidos?

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Eu submetia as minhas objeções com cautela, pois descobrira sua suscetibilidade. Qualquer observação que não fosse de adesão total ao seu pensamento torturava esse mortificado. Eu mesmo não gosto nada que me contradigam; ocasionalmente divergimos com uma tensão bem pouco diplomática, e teríamos nos indisposto, por mais monarca que eu fosse, se em mim ele não tivesse reconhecido o que chamava de um filho de rei. Na cosmogonia estranha desse homem infinitamente complicado, tal título colocava-me muito mais alto do que o de imperador, no mesmo plano que ele, conde de Gobineau, descendente dos vikings.



Negando-me a magoar meu hóspede com novos argumentos, eu me contentava em provocá-lo para vê-lo jogar as cristas, de bigode arrepiado, furioso por ter de deixar na aljava as setas que de bom grado haveria de me cravar.

Lembro-me inclusive de tê-lo interpelado certo dia sobre a origem da palavra ariano ou ária. A raiz sânscrita, conforme Gobineau, significa ilustre. Ele estava certo, e eu bem sabia, pois deu Ehre em alemão e muitas palavras gregas ou latinas. Mas fingi estar de acordo com Ploix que pensa que ariano quer dizer branco, e inclusive mencionei, baixando os olhos, a tese de Beauregard, que lembra que o feminino arjuna poderia muito bem qualificar a prostituta. Logo interrompi essa brincadeira. Gobineau conhecia minha competência de lingüista e eu não tinha a menor intenção de perturbá-lo, quando, pelo menos uma vez, ele estava certo.

Muito me agradava fustigá-lo assim, não decerto para humilhá-lo, nem para chamá-lo à razão: jamais conseguiria. Simplesmente, eu cedia ao prazer de ver funcionar sua magnifica inteligência e de sondar sua inabalável sinceridade. Pois ele acreditava nas próprias idéias, que eram falsas.

Levei algum tempo, não para entender Cobineau, mas para esboçar um início de explicação ao seu temperamento. Todo o seu pensamento, toda a conduta de sua vida atormentada, toda a sua desgraça disfarçada com tanta galhardia sob o brio

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do espírito encontram raízes no seu nascimento obscuro. A nobreza fictícia, o gigantesco esforço para inventar-se uma filiação escandinava são os aspectos irrisórios dessa amargura. Sua visão social e histórica, igualmente fálsa, é o resultado profundo disso.



Indignado por ter nascido burguês, ele opôs a massa de boçais e pilarátras a um punhado de almas raras e nobres errando pelo mundo em busca da pureza: os que ele chama, justamente, de filhos de rei. E porque também se enfurecia por viver num século de comércio e de ciência, inscreveu-o numa degringolada da História que estaria levando o mundo a uma indolência universal.

Não nasci plebeu, conforme se sabe, mas também se sabe que sofri várias humilhações. Cuidei dessas mágoas trabalhando para que meu país viesse a ser como os outros. jamais me viria a idéia de reconstruir a história às avessas.

Sobre a mestiçagem, com toda certeza ele estava errado. O imperador do Brasil é, provavelmente, o homem mais bem colocado no mundo para sabê-lo, ele, que imperava num país onde, durante quatrocentos anos, judeus portugueses mais ou menos convertidos engravidaram negras e índias. Estamos nós hoje tão atrasados com respeito à Noruega ou à Islândia, onde Gobineau recenseia os derradeiros arianos?

Nosso ministro do Exterior era, à época, o barão de Cotegipe, um homem de deliciosa finura, fascinante e culto, quiçá não o mais inteligente de nossos políticos mas, com toda certeza, o mais esperto. Antes de todos os outros, ele sabia perceber numa situação ou num temperamento a incongruencia que provoca o riso ou a contradição passível de ser explorada. Esse Cotegipe vivia de birra com Gobineau: não suportava sua afetação, nem sua presunção. Sobre as questões ínfimas que o diplomata tinha que resolver, ele multiplicava à farta as dificuldades, sempre amável, sempre sorridente, e sempre inflexível. Paris impacientava-se, Cobineau, reclamava de seu zelo e louvava a condescendência diligente do governo

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brasileiro, mas seus negócios não iam para a frente. jamais ele percebeu que seu interlocutor o cozinhava a fogo lento. Pois bem! esse barão de Cotegipe, como outros, era um mulato.



Afora essas entrevistas estéreis no Ministério, Cobineau não tinha muito o que fazer. Nutria a pretensão de ser escultor e consentí. que modelasse o meu busto. Escrevia novelas, uma Adélaide cativante e uma Akiivie alguma coisa, que nunca me mostrou. Empenhava-se também num poema épico de grande alcance, para o qual previa vinte mil versos. Diversas vezes leu-me alguns de seus trechos. Eu encontrava nesse Amadis a grandeza ferida, a amarga nostalgia de um passado nobre e puro, tão cruelmente enraizados no autor. São versos que hoje parecerão um tanto antiquados caso eu os compare com os de Coppée- ou de Sully Prudhomme, mas seus toques wagnerianos ocasionalmente me comoveram:

Mes socurs, mes soeurs, tout meurt, tout change Pleurons mes socurs, tout estfini. - urgande, tout £'en va - Morgane, ¡l est banni Vespit qui nous soutient, de la nature enti¿re. Et toi, Dame du lac, pleurons l'espr¡t béni

Qu,ét0uffe d¿sm-mais le poids de la mati¿re: Pleurons mes soeurs, tout estfini.

Minhas irmãs, minhas irmãs, tudo morre, tudo muda,/ Choremos minhas irmãs, tudo terminou./ - Urgande, tudo se vai/ -- Morgane, foi banido/ o espírito que nos sustenta, da natureza inteira./ E tu, Dama do lago, choremos o espírito abençoado/ Que o peso da matéria doravante abafa:/ Choremos, minhas irmãs, tudo terminou. (N.T.)

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Cobineau prosseguiu escrevendo na indiferença geral quando voltou para a Europa. Apreciei sua Danseuse de Shamakha, tão lindamente transfigurada. Sua Histoire des Perses desconcertou-me pela ousadia de suas suposições. Ele também achou por bem pôr-me em cena com meus familiares num romance cifrado. A trama, bastante inconveniente, desagradou-me, e impede-me de comentar livremente a obra. Cabe-me o papel mais bonito, sob os traços de um certo príncipe jean néodore, mas evidentemente não posso admitir a pintura sarcástica da família imperial, caricatura grotesca de meu círculo. Quanto à condessa polonesa que ronda em torno de jean néodore, ela realmente não tem nada a ver com a outra, a verdadeira, a minha.



Percebe-se muito bem, ao lê-lo, que Gobineau guardou má lembrança do Brasil, e sua temporada no Rio, é verdade, não passou de uma seqüência dolorosa de mal-entendidos e desesperos. Ele conhecera certas satisfações profissionais na Pérsia, e certas condescendências femininas na Grécia. Era bem pouco para semelhante orgulho, mas o suficiente para fazê-lo sobreviver. No Rio de janeiro, não conheceu nada disso, excetuando-se nossas conversas e um namoro com uma consulesa um tanto incapaz, coitada, de sustentar e alimentar o fogo de sua inteligência.

Os outros membros do corpo diplomático detestaram-no assim que souberam da atenção que eu lhe dedicava. Quanto à boa sociedade local, sua tola prevenção contra os mestiços condenava-o de antemão; fizeram-no sentir que ele não era bem-vindo. Magoado com a indiferença de um mundo para o qual pensava ser uma dádiva dos céus, ele se fechou na sua legação e ali viveu amuado.

Sua amargura fermentou tão bem na solidão que ele findou por criar caso com um médico brasileiro à saída de um teatro. Um dos protagonistas esbofeteou o outro, eu nunca soube qual. Cotegipe contou-me o incidente com um sorriso deliciado. O médico tinha sangue quente, ao que parece, e

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poderia muito bem ter provocado a briga. "Um brasileiro esbofeteia um diplomata de Napoleão III, eis aí uma questão bem desagradável, Majestade", suspirava Cotegipe com ares falsamente preocupados. Cobineau, de seu lado, contava que fora ele quem dera um bofetão no patife. Seu orgulho satisfazia-se com essa versão, tanto quanto nossa diplomacia. "Entretanto, prosseguia Cotegípe com ares pensativos, se não era ele o ofendido, por que então mandou suas testemunhas à casa do médico? - Um duelo? - Desgraçadamente, Majestade." Eu conhecia muito bem Cotegipe para ler no coruscante de seus olhos que a questão fora solucionada. "O médico, contou-me ele, expulsou as testemunhas ameaçando-as de mandar seus escravos surrá-las."

A questão foi arquivada, mas, para Gobineau, era tempo de sair de cena. De uns meses para cá, debalde ele pedia para ser removido. Solicitei pessoalmente ao Quai d'Orsay que se aceitasse o seu requerimento, e chamaram-no de volta por motivos de saúde.

Revi-o diversas vezes, inclusive viajamos juntos por algumas semanas em 1877. Ele proclamara na Europa que éramos amigos, chegando inclusive a convencer-se disso. Há aí um exagero que teria sido cruel e inútil corrigir publicamente. Gobineau, já o disse, distraía-me. Levou-me ao Brasil, quando eu ainda não conhecia a Europa, um sopro de cultura e de inteligência pelo qual sou-lhe grato. Mas não se pode falar de amizade, sentimento ao qual, aliás, nem um nem outro éramos propensos. Jamais ouvi falar de um amigo de Cobineau.

A verdade é que, entre o príncipe liberal e o artista sem pecúnia, nossas relações tomaram bastante depressa um cariz monetário. Prestei-lhe alguns serviços, ele me distraiu. Mais tarde, ajudei também sua filha Diane. Alguns anos antes de sua morte, ele me cobrou demasiado caro uma estátua medíocre, que paguei para ficarmos quites. Nossas relações espaçaram-se, e até esfriaram, em especial depois que me encontrei com sua amante na Itália. A condessa De la Tour sabia ser discreta como eu, penso que ele jamais suspeitou de nossas relações.

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De modo que contesto a amizade, mas não afasto a simpatia pelo bom companheiro, a admiração pelo espírito excepcional, nem sobretudo a compaixão por Gobineau, um ser torturado que se reputava espoliado desde o nascimento e, ainda assim, lutou corajosamente.



Aos quinze anos, ao pé dos Andes, ele ensinava a ler aos camponeses de sua aldeia. Aos trinta, criava a primeira Escola Normal do continente americano. Cinco anos depois, tendo percorrido o mundo para observar os educandários e interrogar os professores, publicava um tratado fundamental que haveria de influenciar quatro gerações de mestres: De la eduracián p~

O admirável, em Sarmiento, é que ninguém educou esse educador. Foi comerciante, trabalhador forçado, mineiro, soldado, globe-trotter, jornalista, presidente da República; mas diplomado, jamais. A paixão de ensinar e de organizar o ensino assaltara desde a infância esse Doctor Montonero, como ele mesmo se qualificava, professor nos charcos, nascido entre os pobres numa província distante. Afeiçoado à soberania do povo, ele prometia a si mesmo "educar o soberano".

Encontrei na Europa e nos Estados Unidos alguns gigantes da instrução pública, nenhum me causou impressão como SarnÜento. Nele, o passado de lutador enriquecia o pensamento e sustentava o proselitismo. Eis aí um teórico que não viveu ex-cathedra! A miséria, o perigo, o sangue derramado, o horror pelo trabalho nas minas, tudo o que, enfim, ele sofrera, transmudado por uma alma nobre, tornou-se um amor infinito pelo homem, um desejo ardente de poupar às crianças do futuro os horrores que ele conhecera.

Durante as três semanas que durou sua visita ao Rio, nós nos encontramos quase diariamente para intermináveis conversas; refazíamos o mundo após tê-lo instruído. Pedi que me explicasse ponto por ponto o seu tratado de educação. Ali ele trata de todos os problemas que cumpre a um governo moderno resolver. o aprendizado da leitura, o financiamento dos estudos, a formação dos mestres, a escola para as meninas, a escola dos adultos, a inspeção, a definição dos programas: tudo lá se encontra, no livro do modesto argentino que nunca freqüentou a universidade. E ainda o coração que bate entristecido diante da ignorância, o coração que freme diante do cheiro de tinta e de giz, que se inflama ao imaginar uma sala de aula onde a criançada debruça-se sobre a lousa, aristocratas e artesãos, camponeses e burgueses, todos iguais perante a ortografia e o cálculo mental, todos convidados ao festim do progresso, todos repetindo estudiosamente sua lição de hberdade.

Não há futuro, não há grandeza sem escola, Sarmiento transmitiu-me sua fé. Extraí de seu livro e de nossas conversas a força de minhas próprias convicções. Lutei, ou acreditei lutar, pela instrução durante toda a minha vida. Bastaria, pensava eu então, referir-me continuamente a tais questões e mostrar que me eram caras para que meus funcionários considerassem-nas essenciais.

Quanta ingenuidade deste Imperador! Os presidentes de província preocupavam-se com a polícia, as eleições, suas promoções e os meios de enriquecer. Para eles, a educação dos pobres não passava de uma mania do monarca, mais uma, como a astronomia ou o grego antigo. Redigiram relatórios, falsificaram as estatísticas, mas nada levaram a efeito. Os professores na miséria, o matagal dentro das salas de aulas, as crianças na rua, eis como seguiam meu exemplo.

Sarmiento, mais tarde, veio a ser presidente da República argentina. Em seu governo, o país cobriu-se de escolas e o povo aprendeu a ler. Entre nós, infelizmente, ainda renunciamos a recensear os analfabetos: quatro quintos de meu povo, pelo menos.

Não faltam explicações, nem escusas. Pouco importa. Para o ancião desocupado que fala consigo mesmo e que se julga, a verdade perdeu seu rebuço; eu não soube impor, eu

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não soube punir. Algum dia demiti por negligência um responsável pela educação? Nunca. Instituí um ministério da Instrução Pública? Não. Os argentinos sabem ler, os brasileiros, não. Nessa matéria que mais prezávamos, o ex-mineiro teve sucesso em dez anos, eu malogrei em cinqüenta.



Pensador infatigável, Sarmiento não se limitava a organizar a instrução do povo, ele analisava suas vantagens para delas extrair uma fé inabalável no progresso. Essa fé aproximavanos, tanto quanto seu apostolado pela escola; sempre acreditei, ainda acredito no futuro. Se me opus a Cobineau, panegirista do passado, foi quase sempre com argumentos formulados à minha frente por Sarmiento vinte anos antes.

Semelhante visão otimista do mundo, ele a esboçou em outra obra maior, política, intitulada Civilización y barbarie.

Os "bárbaros" não são, como poder-se-ia acreditar, os índios pampas, cujas sangrentas incursões devastavam os campos ao sul de Buenos Aires. Sarmiento odiava-os sobremodo para estudá-los. Aliás, massacrou-os logo que chegou ao poder. Os "bárbaros" eram os gaúchos.

Descendentes dos primeiros conquistadores, eles ocupavam os prados há séculos. Ali encontravam sem maiores esforços sua própria subsistência graças aos cavalos e ao gado abundante na região. Capazes de satisfazer assim a todas as suas necessidades, amaldiçoavam o governo que inventava taxas e alistava à força a juventude. O primeiro caudilho que aparecia contratava-os facilmente sob sua bandeira, como fizera Rosas, com a condição de ser um dos seus e de prometer levá-los a Buenos Aires para degolar os deputados e os mestres-escola. Com efeito, razão para ofuscar Sarmiento.

Todavia, a leitura atenta de seu livro revela, por trás da vigorosa condenação dos chefes de bandos, uma admiração

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constrangida pelos seus partidários. Bárbaros, os gaúchos? Sim, certamente, mas que força, que amor pela liberdade, que sentido meticuloso da honra! O titã da instrução avança pelos pampas, armado com seus manuais. Com o imperioso dedo indicador, aponta os albores; da modernidade iluminando o horizonte. Mas eis que um cavaleiro coberto de couro caracola à sua frente. Maneja qual um virtuose armas de outra era: o laço, a seta, e o turbilhão mortal de suas boleadeiras. As esporas cintilam, o cavalo bufa e relincha. Sarmiento compreende que, instruindo os gaúchos, vai destruir essa beleza, sente-se atordoado, hesita.

Entrevejo nessa hesitação o vínculo sutil que o une a Gobineau. Qualquer que seja nossa vaidade de pertencer ao século XIX, trazemos todos dentro de nós a nostalgia de um passado mítico em que homens livres realizavam juntos grandes feitos. Instalados com todo o conforto no cantinho de um trem que nos transporta celeremente, ocorre-nos sonhar ao mirarmos, pela janela, o campo onde outrora galopavam os guerreiros seminus. Desejamos o progresso, mas lamentamos que ele apague os vestígios de nossa própria origem tribal.

A contradição é bastante comum em nossa época. Walter Scott nela tropeça ao pintar os clãs dos Highlands, Fenimore Cooper geme com a queda dos Delaware, e Tolstoi comove-se, ao lado dos cossacos, com as tribos chechenas que eles passam pelo fio da espada. Dessa nostalgia, Gobineau criou um sistema que reputo nocivo e que sei estar errado quanto às suas premissas raciais. Mas em diversos aspectos o talento de sua demonstração é comparável ao de Sarmiento defendendo a idéia contrária. Que lástima que esses dois não hajam se encontrado! Que suculento debate poderia eu ter organizado, um afirmando que a história derruba-nos na abjeção e outro provando que ela nos encaminha para a luz.

Que lástima também que o francês não tenha estudado os gaúchos em vez de se perder na Bactriana. Acabávamos, recordo, de derrubar Rosas. Posso apostar que Gobineau o

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teria apoiado. Rosas fechava suas portas aos "pilantras" de Londres e Paris, perseguia os "boçais" de Buenos Aires, cavalgava à frente de suas hordas como um príncipe ostrogodo. Ademais, isso mesmo!, tinha os olhos azuis e os cabelos louros.



Gobineau entre os gaúchos! A condessa De la Tour, que protege devotamente sua herança, protestaria caso me ouvisse. A indignação sacolejaria todas as pregas de sua barriga volumosa. Ela denunciaria a ironia desproposital, o sacrilégio. Entretanto, tanto quanto ela sinto-me no direito de comentar o pensamento de seu amigo. No momento em que se aproxima o triste instante de contar a Guerra Grande, posso afirmar que aquilo que Gobineau concebeu, eu presenciei. Sarmiento emasculava os gaúchos pela leitura, fiz bem pior com outro povo, igualmente nobre e orgulhoso, e que igualmente recusava o progresso, ou o meu progresso. Uns grandalhões acobreados, nem arianos nem vikings, mas tão valorosos, tão puros quanto as raças antigas imaginadas por Gobineau na Ásia central. Chamavam-nos os guaranis. Com meus negros e meus mestiços, exterminei-os. Vivi o Tratado sobre a desigualdade das raças humanas.

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VIII

A chuva amainara mas o vento continuava a assentar-nos suas vergastadas de garoa cortante. Subi a gola de meu mantô de couro, enterrei meu chapéu e, sem avisar ninguém, afasteime para ver melhor. Do morro onde me postei, descoffina-se o pequeno vale que estamos descendo desde a manhã, uma trincheira verde-escura entre colinas perdidas na neblina. A primeira carroça já cruzou o arroio mas a segunda tropeça numa pedra no meio do baixio. Os homens esforçam-se para conseguir que as parelhas recuem, quatro cavalos magros, com água até o joelho.

Os outros carros esperam sua vez. São quinze ao todo, carretas felizmente cobertas onde podemos refugiar-nos. quando chove, isto é, praticamente o tempo todo desde nossa partida, lá se vão duas semanas. Os carros-de-boi seguem atrás com o equipamento, sequer os vejo, nem aliás os trezentos cavaleiros de minha escolta que provavelmente escolheram outro baixio, a jusante.

À beira do riacho avolumado pelo inverno, os oficiais de meu séquito vigiam a passagem. Reconheço a silhueta agitada do ministro da Guerra, o pequeno Ferraz, cercado de fardas: dois generais, um almirante, uma penca de ajudantes-de-ordens. Do outro lado do rio, meus dois genros, Gastão e Gusti, parecem praguejar contra os rigores do inverno austral: gelará talvez esta noite, em meados de agosto! Lá longe, com o capote

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escuro e o chapeuzinho, é Caxias que está amuado, isolado. Vem-me a impressão de ouvi-lo amaldiçoar nossa perigosa teimosia e prever terríveis acidentes, afogamentos. Seus vaticínios não cessaram desde que deixamos o litoral.



Dois cavaleiros separam-se do grupo e esporeiam os cavalos até a elevação de onde os observo. Notaram minha ausência, expedem oficiais para me proteger: meus generais detestam que me isole dessa maneira. Eis aí meus anjos da guarda, que chegam e postam-se respeitosamente atrás de mim. Pressinto que estão olhando para todo lado, com a mão no punho da espada, orgulhosíssimos de fazer a guarda do Imperador.

Lançando uma última vista-d'olhos, reparo que a segunda carroça finalmente cruzou o baixio, as outras põem-se em marcha atrás dela. De longe, lembra uma caravana de ciganos a caminho de uma feira, e de perto, meu Deus!, é praticamente a mesma coisa. Vamos, tenho que ir encontrá-los!

Ao descermos a ladeira íngreme, meus protetores me informam: nenhum mensageiro, nenhuma novidade de nenhum tipo, mas os guias, pelo menos dessa vez, sabem exatamente onde nos encontramos. Sua Excelência, o ministro Ferraz, decidiu que acamparíamos logo que cruzássemos o arroio, a fim de ajudar os carros-de-boi a passar, pois estão chegando com nossas bagagens e a cozinha.

Como toda noite, armar-se-a uma grande barraca onde reunirei meus generais, meus ajudantes-de-ordens e os oficiais da escolta. Falaremos sobre o tempo, a caça ou o correto adestramento dos cavalos. Sobre o que mais poderíamos discorrer? Nada sabemos acerca do que sucede no mundo. Os homens terão acendido fogueiras para assar quartos de boi: carne, mais carne, ó céus! Então aqui não há outra coisa para comer? Em seguida, iremos dormir, cada um em sua carroça. O vento terá se erguido ao pôr-do-sol, o terrível minuano noturno que se infiltra por todo canto, tudo gela e nos corrói caso não estejamos atentos.

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Para me proteger, disponho de um poncho que me foi dado pelos argentinos, um agasalho magnífico de lã de vicunha, tão grande que me envolve inteiramente, tão fino que cabe em meu bolso, mais quente do que dois cobertores de um ordenança. Abrigado, vou apagar minha lamparina e pensar na condessa que partiu...



Com minhas filhas casadas, encerrava-se sua missão. Fazia tempos que eu temia esse momento: o que ela decidiria quando já não necessitássemos de preceptora? Abandonaria seu Imperador? Eu me negava a crer. Havia dez anos que nosso amor imperfeito perdera a vermelhidão apaixonada das labaredas iniciais para revestir-se dos tons pastel de uma doce amizade, exclusiva, construída sobre a compreensão a meiaspalavras, o cuidado atento pelo bem-estar do outro, o silêncio diante dos sacrifícios impostos e mais ou menos consentidos. Um velho casal, já! Não havia nenhuma razão para que isso findasse.

Pois bem, sim! Ela chegou, muito contrita, para anunciar-me a partida, sabendo o quanto me mortificava. Amavame, conforme repetiu, mas havia o marido, irrelevante enquanto ia bem de saúde, presença pesada agora que estava doente e sozinho em Paris. Havia, em especial, o filho, em idade de prosseguir os estudos; já o matriculara: Liceu Bonaparte. Protestei, supliquei, ela se manteve inflexível, como sempre. Partiu há cinco meses, trocamos cartas a cada vapor.

junto com a condessa, perdi a luz de inteligência e de cultura que me iluminara nos últimos dez anos, perdi sobretudo a única pessoa diante de quem eu ousava parecer fraco, indeciso, magoado. Trancava-se uma porta, a derradeira: eu estava sozinho. Sem ela, São Cristóvão tornava-se irrespirável, Petrópolis banhava na amargura.

Essa viagem vinha a calhar. Decidi fazê-la contra a opinião do governo, para espanto da imprensa e, parece, com o apoio admirativo de meu povo. Ora, hoje bem que preciso da

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benevolência popular, porque necessito de soldados: estamos em guerra há três meses.



De modo que decidi que o imperador embarcaria até um porto do Sul e, de lá, alcançaria oftont para acompanhar as manobras. Não previra a chuva, nem o minuano, nem o desconforto de nossas noites. Não imaginara que um monarca, um ministro, quatro oficiais-generais e trezentos cavaleiros pudessem se perder nos pampas desertos e altercarem-se em torno de mapas imprecisos que a chuva desfigura e o vento rasga. Todavia, foi o que nos sucedeu mais de uma vez.

Quero ir para perto do front, mas ninguém sabe onde este se encontra. O inímigo invadiu-nos, disso temos certeza. Uma de suas colunas cruzou o rio Uruguai e bate campo em algum sítio, à nossa frente. Onde? Ignoramos. Ignoramos também onde nosso exército está manobrando, e não temos a menor idéia do plano que pretende executar. Eis o quinhão que cabe ao imperador e à sua Casa Militar: cerração durante o dia, vento durante a noite, frio em permanência e, para se consolarem, mate infecto dentro de cuias duvidosas e churrasco, sempre churrasco.

Naturalmente, nosso grupinho engalanado disputa-se em permanência. Ferraz, o ministro, pretende conduzir as operações como se sua nomeação tivesse-o ipsofacto investido das qualidades de um estrategista. Caxias tem cem vezes mais experiência e prestígio que ele, mas Caxias não é general-emchefe, porque Ferraz o detesta. Mesmo assim, levei-o comigo, na qualidade de ajudante-de-ordens; ele não tem rigorosamente nada a fazer senão resmungar contra o que chama de disparates do titular. Os dois só concordam em um ponto: estou errado de vir para cá e dar minha opinião. Mas percebi muito bem o fervor dos voluntários que se alistam à medida que passamos, e as aclamações que me dirigem. Sirvo ao menos para isso, para mostrar aos moços o que é a Pátria. Mesmo quando chega sua hora, há coisas que os militares não entendem.

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A zoeira das altercações, o desconforto e o tiritar de frio há muito desapareceram. Dessa viagem irreal, e não raro extravagante, só me lembro do delicioso calafrio do perigo. Certamente, eu não queria morrer, mas a partida da condessa e os casamentos de minhas filhas esvaziaram-me a existência. Não tinha mais paciência para a leitura ou para a pesquisa, menos ainda para as manhas da política interna. Nessa quadra de minha vida, um pouco de loucura, um pouco de risco faziam-me bem. Eu corria um perigo limitado mas real, e sabia. Percorria os vales cerrados, propícios aos ataques; um grupo de inimigos podia, a rigor, derrubar minha escolta e capturar-me.

O inimigo eram os paraguaios, invadiram-nos para vingar o Uruguai que atacáramos: novamente o quebra-cabeça do Prata! Outro dia, referi-me aos dois grandes rios, o Uruguai e o Paraná, e às quatro nações que suas águas irrigam: o Brasil, o Paraguai, a Argentina e o Uruguai. Nossos fronteiriços instalavam-se, cada vez mais numerosos, ao Uruguai, e conheço suficientemente meus súditos para admitir de bom grado que ali se comportavam como em terreno conquistado. Segundo diziam, o governo de Montevidéu fazia-lhes poucas e boas, isto é, obrigava-os a pagar imposto e instavam-nos a alforriar seus escravos.

Nossos compatriotas relutavam. Tinham talento para a propaganda e dinheiro para corromper os jornalistas. Em poucos meses, convenceram a opinião nacional de que cumpria socorrê-los, isto é, expulsar os governantes de Montevidéu e substituí-los por um tal de Flores, caudilho venal e cruel, o

1 único que tínhamos à mão para assumir o poder. Assim sendo, nossas tropas e nossa armada ajudaram esse Flores a derrubar o regime uruguaio. Como sempre se faz em semelhantes ocasiões, falou-se de honra vingada e de liberdades restauradas.

O Paraguai enxergava as coisas de outra maneira: atacávamos seus aliados uruguaios, e ele declarou-nos guerra. Esperávamos

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um pouco por isso, uma vez que os paraguaios, desde alguns anos, fortificavam sua fronteira, contratavam oficiais prussianos e compravam navios de guerra em Londres.

Naturalmente, podíamos contar com o apoio de Flores, que acabávamos de instalar no poder no Uruguai - era o mínimo; mas também devíamos assegurar-nos do concurso dos argentinos, tão inquietos quanto nós acerca das intenções belicosas do Paraguai. Nossos países, Argentina, Uruguai e Brasil, assinaram, pois, uma Thplice Aliança, que estabelecia objetivos para a guerra, estipulava mínimas correções de fronteiras e instituía mecanismos de comando.

Os militares previam uma campanha rápida, e a vitória obtida no Uruguai inebriara um pouco nossos mata-mouros. Porém, ao recensear nossas forças, junto com o Ministério, dei-me conta do estado deplorável do exército e da debilidade de seus efetivos. Com oito milhões de habitantes, o Brasil podia arregimentar dez mil soldados. Os paraguaios eram no máximo um milhão, mas, segundo todos os relatórios, suas forças armadas totalizavam sessenta mil homens. Não havia tempo para procurarmos entender as razões de semelhante disparidade, cumpria recrutar tropas às pressas, em todo o Brasil.

Comovida com as quixotadas da imprensa patriótica, a juventude alistava-se com bastante entusiasmo para uma guerra que prevíamos curta. De todos os recantos do Império, afluíam voluntários ao Rio de janeiro, enquanto os paraguaios cruzavam nossa fronteira do Rio Grande. A capital tornou-se um campo de treino onde interioranos perplexos aprendiam o manejo das armas sob o encorajamento dos paisanos. Após uns poucos exercícios ~tos, esses jovens eram embarcados para os portos do Sul, de onde seguiam apé até o front: ao menos seis semana deviagem.

A primeira batalha ocorreu enquanto eu estava caminhando sob os temporais em algum lugar entre o litoral e o inimigo. Uma coluna paraguaia, assulada por Flores e seus uruguaios, refugiou-se estupidamente numa elevação que dominava um confluente; os cursos d'água na cheia barravam-lhe a retirada e Flores empurrou-a

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para os campos inundados. Um estafeta foi ao encontro de nossa caravana para nos comunicar a vitória: notícias, enfim.

À margem das celebrações ruidosas, levei o homem até minha carroça para interrogá-lo. Tivéramos baixas? Muito poucas, uns trinta homens. Prisioneiros? No início, sim, tivemos prisioneiros, alguns. E depois? Ele fez uma careta, eu insisti. "Mais tarde, o general disse que tínhamos o suficiente."

Os desertores jogavam suas armas e atolavam-se nos pântanos. Os cavaleiros de Flores haviam passado a noite inteira cercando-os, dividindo-os em pequenos grupos, pondo-os para correr pela água, até a terra firme, até o rio, e depois dando voltas, como peões que preparam um rebanho para a marcação ou para o matadouro. Em seguida, degolaram-nos, toda a coluna inimiga desapareceu: dois mil e quinhentos mortos!

jamais havíamos conhecido semelhante carnificina, em nenhuma de nossas guerras. Desde a Independência, os soldados de meu pai, e depois os meus, haviam atirado contra acampamentos, armado emboscadas, incendiado fazendas e saqueado vilas. A isso chamavam de fazer guerra, e sabia-se muito bem que a guerra era cruel. Não suspeitávamos que sucederia outra coisa, como aquele combate cujo nome o estafeta me soletrou: Yatahí, uma brigada inteira exterminada.

Ao lado, meus generais brindavam com champanhe: sucesso tão fácil era bom presságio para o futuro. Falavam de surra, de lição salutar. Fui encontrá-los aparentando bom humor. Tinham razão, pois afinal de contas estávamos em guerra, fôramos invadidos, aqueles mortos não seriam inúteis caso apressassem a paz.

De nada serviram, desgraçadamente! Hoje sei muito bem. Penso em Napoleão III aterrorizado diante das vítimas de Solferino, e no imperador Guilherme nos campos de batalha da França: "Das habe ich nicht g~Ut1". Tampouco desejei Yatahi, nem os horrores que se seguiram.

Uma segunda coluna inimiga isolara-se num pequeno porto do rio Uruguai, ali onde suas aguas separam-nos da Argentina. Que objetivo perseguia, tão longe da retaguarda? Não

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sabíamos e não procurávamos descobrir; naquele princípio de guerra, os paraguaios, decididamente, pareciam-nos um pouco tontos. Para a vila ocupada, Uruguaiana, convergiam nossas tropas, as dos argentinos e as forças de Flores, com suas botas ainda sujas de sangue dos vencidos. Decidi ir também, para assistir ao cerco e encontrar-me com os chefes aliados. O tempo ia ficando mais clemente, um sol pálido finalmente apareceu, quando, após três dias de marcha forçada, a expedição chegou às portas da vila que nossas tropas já cercavam.

Conhecia, desde minhas leituras de criança, tudo o que um cerco bem-feito oferece de teatral e de grandioso. Pensando em Pátrodo sob as muralhas de Tróia, insPecionei a desordem pitoresca de nossas tropas. Os aqueus apreciavam tanto as cores quanto nós?, conjeturava eu. Ali estão os granadeiros argentinos, túnica azul e calças vermelhas, com ares mais marciais que seus artilheiros vestidos de azul e branco como guris consagrados à Virgem Maria. Alistada sob a bandeira uruguaia, a brigada basca conservava a boina vermelha do cerco de Montevidéu, de vinte anos atrás; e aqui está outro resquício, os voluntários europeus do batalhão Garibaldi, há tempos abandonados por seu herói, que antes de deixá-los uniformizou-os de verde e vermelho.

As tropas imperiais, muito mais numerosas que as de nossos aliados, ocupavam o centro do dispositivo, sob as ordens de um velho veterano de muito brio, muita elegância e muitas cicatrizes, e que tinha o apelido de Murat brasileiro. Ele tratava de coordenar os movimentos dos recrutas que não paravam de chegar, mais coloridos ainda do que nossos aliados. Os voluntários do Rio Grande trajavam poncho marrom sobre calças franjadas, os da região amazônica tiritavam debaixo de um tecido fino branco e um chapelão de folha de palmeira trançada. Quanto à brigada baiana, dotaram-na com uma farda de zuavo, copiada da revista LIL'Ilustration, com barrete, colete vermelho e calças bufantes.

Essa tropa variegada manobrava desordenadamente entre caixas de munição, sarilhos de mosquetões, prólogos de artilharia,

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bois e cavalos. Para se descontraírem à espera das ordens, cavaleiros divertiam-se em apanhar galinhas sem tocar os pés no chão; um corneteiro bochechudo, sentado sobre a boca-de-fogo de um canhão, exercitava-se em socar a carga. Ao longe, os paraguaios, que não haviam lido Homero, escavavam trincheiras.



Eu andava ansioso para encontrar nossos aliados: vieram visitar-me no dia seguinte à minha chegada ao campo. Pela primeira vez, eu recebia chefes de Estado estrangeiros. Não atribuía maior importância a Flores, um velho escabroso de olhar arisco. Fora estípendiado para restabelecer a ordem no Uruguai, o que fizera com a crueldade que acabava de demonstrar em Yatahi. O personagem repugnava-me, não me condoí quando o assassinaram dois anos depois.

Mitre, o generalíssimo argentino, interessava-me mais. Havia vinte anos que esse guerreiro-poeta manejava o sabre e a lira. Lutara ao lado dos bolivianos, dos uruguaios e contra Rosas. Publicara odes delicadas, vários romances, dentre os quais um Robinson argentino, e traduziu para o espanhol o Ruy Blas de Victor Hugo. Vinha de ser eleito presidente da República. Sua alta estatura, seu rosto anguloso e comprido, a cabeleira que caía sobre os ombros conferiam-lhe ares de herói romântico, um Childe Harold ou um Cinq-Mars, com a arrogância a menos, as cicatrizes a mais: como ele devia perturbar as pequenas! Pensando bem, um homem extremamente simpático, com quem me entendi sem dificuldades.

Aliás, a visita de nossos aliados era mais um gesto de cortesia do que de conselho de guerra. Não havia muito a discutir. Nosso recente tratado designava Nfitre como comandante supremo das forças da Triplice Aliança, salvo se as operações se desenrolassem em território brasileiro, o que era o caso em Uruguaiana. Portanto, cabia-nos comandar o cerco.

Aguardamos por alguns dias a chegada de uma divisão fluvial para bloquear o porto e bombardear a cidade, e em seguida apresentamos um ultimato ao general paraguaio. Ele comandava

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cinco mil homens a trezentos quilômetros de suas bases, nós contávamos com vinte mil soldados de infantaria, a cavalaria e a artilharia: o general capitulou sem condições. Novamente champanhe, novamente previsões de uma guerra curta e fácil: os soldados passariam o Natal em casa. Infelizmente, estávamos em setembro de 1865 e a guerra ainda durava no Natal de 1869.



À espera da paz, dividiam-se os prisioneiros entre as três potências. Mitre apareceu certo dia no estado-maior, furioso, proferindo uma acusação inacreditável. Os brasileiros, afirmava ele, roubavam-lhe prisioneiros. Roubar prisioneiros? Mas por quê? O que fariam com eles? Verificou-se, Mitre tinha razão. Nossos cavaleiros vinham principalmente do Sul, alguns possuíam terras perto de Uruguaiana. Em vez de encaminharem os cativos para os campos de seleção, reduziam-nos à escravidão e levavam-nos durante a noite para suas estâncias.

Meus oficiais acalmaram o generalíssimo e prometeram medidas severas, mas o escândalo também deixou-me furioso. Meus soldados não assassinavam os vencidos, como Flores, escravizavam-nos. A essa prática, que eu era obrigado a tolerar no sigilo relativo de minhas províncias, eles se dedicavam às escâncaras, diante dos chefes de Repúblicas onde desde muito não havia mais escravos. De que maneira poderia eu contar com esses soldados larápios e indisciplinados, de que maneira haveriam de se comportar se a guerra viesse a ser-nos desfavorável? E como esperar que o mundo aplaudisse nossos sucessos se roubávamos homens para ferrá-los qual bois?

O mal estava feito, eu nada mais podia fazer. Porém, já que tínhamos prisioneiros, eu aproveitaria para melhor conhecer meus inimigos. Mandei que me trouxessem um grupo de paraguaios para interrogá-los pessoalmente. Sabia muitas coisas sobre o país deles. Conhecia sua geografia ingrata:

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umas cidades ao longo de um rio, protegidas do mundo pelo horrendo e inextricável chaco, estorricado no verão, inundado no inverno. Alguns maciços de montanhas, um pouco de selva, mais nada.

índios povoavam a região, mas, à diferença dos que freqüentavam nossas florestas, os pampas argentinos, os vales chilenos ou os prados texanos, aqueles índios construíam cidades, pagavam impostos e faziam primeira comunhão. Deviam tais liberalidades aos jesuítas, que os converteram e depois os arregimentaram nas nússões. Ali aprenderam a obediência, o trabalho coletivo, a solução amigável dos conflitos e o Confiteor, em resumo, a vida em sociedade.

Agastado por tal sucesso, o vice-rei da Espanha expulsou os jesuítas, e depois, certo dia, essa nação indígena proclamou a independência, como todas. Quer dizer que se entregou a um ditador, depois a outro e, por fim, ao filho do primeiro. Aquele que nos declarou guerra, Francisco Solano López, prosseguia a política do pai, que em nada diferia da adotada por Francia, el Supremo, desde 1811. Esses três homens notáveis, vindos do povo, tinham, em realidade, restabelecido a tradição jesuítica. Em cinqüenta anos, o país tornara a ser uma gigantesca missão, piamente consagrada ao trabalho e zelosamente protegida do mundo exterior.

Desconfiança em relação aos viajantes, pouquíssimos diplomatas credenciados, quase nenhum estabelecimento comercial. Guardas alfandegários esmiuçadores, uma polícia bem informada que expulsava prontamente os mascates que nutriam alguma pretensão. Por trás dessas fronteiras trancadas, uma economia florescente, apesar dos pesares. Um comércio de couros e de tanino controlado pelo Estado, mas também fundições modernas, estaleiros navais, tecelagens, estradas de ferro e, claro, arsenais; tudo isso em mãos do governo. Uma burguesia esparsa, composta de fúncionários e de oficiais, um povo bem alimentado, que sabia ler: assim era o Paraguai que eu havia descoberto nos livros. Como um país

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desses podia funcionar? Mistério! Nossos prisioneiros iriam explicar-me.



"Vereis, Majestade, não se consegue tirar nada deles", afirmavam meus ajudantes-de-ordens. Os primeiros que me apresentaram, meninotes espavoridos, negaram-se a responder às perguntas que eu lhes fazia em espanhol. Assustados apesar de meu tom benevolente, miravam o seu oficial como para implorar-lhe instruções. Despachei-os e fiz sinal ao tenente para que se aproximasse; um rapaz alto e calmo que se inclinou exageradamente à minha frente. Um cacoete, ou quem sabe um princípio de oftalmia, levava-o a piscar os olhos a todo instante com uma energia careteira e talvez dolorosa.

Perguntei-lhe se o tratavam bem, ficou calado. Então, repeti a pergunta em guarani. Conforme já disse, eu falava essa língua chiante e fanhosa praticada outrora por nossos índios brasileiros. O tenente levou um susto mas manteve-me mudo; teria ao menos me compreendido? Aprendi essa língua em gramáticas e léxicos do século XVI, compilados por missionários portugueses; jamais a empregara com alguém. Tentei de novo. Dessa vez, ele ergueu os olhos, fitou-me com um respeito aterrorizado, como se Santo Inácio acabasse de lhe aparecer, e em voz abafada respondeu que estava com sede.

Mandei trazer água e comida e pus-me a conversar tranqüilamente com o meu índio. Qual Demóstenes dialogando com um clefta de hoje, eu falava uma língua antiga, mãe distante de seu dialeto. Desconhecia os termos contemporâneos, o nome das roupas, das armas, dos meios de u~rte, mas, alternando com o castelhano, podíamos entender-nos relativamente.

Evitei tratar do exército inimigo e de suas manobras. Entretanto, gostaria muito de compreender o que impelira López a expedir-nos duas colunas de forma aventureira, sem respaldo e sem retaguarda. Porém, deixei a outros a tarefa ingrata de arrancar informações militares. Queria conquistar a confiança do índio para que me revelasse outra coisa. O quê, exatamente? Eu não o sabia, mas pressentia entre o Paraguai

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e seus vizinhos uma diferença impalpável, inquietante, nem geográfica, nem histórica, algo relacionado com a consciência. Os argentinos, os uruguaios têm seus defeitos e suas qualidades, conhecêmo-los, suportamo-los, mas o que significava ser um paraguaio?



A vida política do país, por exemplo, parecia assombrosa. Um punhado de opositores refugiados em Buenos Aires relatavam-nos as atrocidades de Lôpez. Como no tempo de Rosas, referiam-se a torturas, a execuções em massa: um povo gemendo nas correntes. O militar jamais ouvira falar de tais horrores. Nascera no chaco, freqüentara a escola e aprendera dois ofícios, o de curtidor de peles e o de sementeiro. A lei obrigava essa dupla formação, à qual somava-se o aprendizado das armas. Então ele não era militar de carreira? Não, qualquer homem válido guardava as armas em casa e esgaravatava-as regularmente para os períodos de treinamento. O exército eram todos. E os burgueses também? Ele não sabia o que eu queria dizer com o termo burguês. Bem, digamos, um fazendeiro rico também é soldado? Não havia fazendeiros ricos. A terra - que aberração! - pertencia ao Estado, quer dizer, a todos. Nas grandes propriedades, as estancias de La Pátria, os lavradores eram funcionários. Então não havia escravos? Quase mais nenhum: havia vinte anos que eram considerados livres os filhos nascidos no cativeiro. Esses trabalhadores deviam custar bastante dinheiro, pelo menos eram bem alimentados, bem cuidados? Seguramente: não faltava arroz e cada estância tinha um posto de saúde. O tenente pensava que o mesmo ocorria nas fundições. E quem cuidava dos pobres? Os pobres... os pobres? Ele não sabia, não estava entendendo.

Levantou-se para ir escarrar defronte da barraca, a sentinela seguiu-o com os olhos, de dedo no gatilho. Voltou para se sentar. Agora, sorria, e seu sorriso irritava-me mais ainda do que o irreprimível piscar de olhos. Onde, afinal, estavam as correntes, as execuções, as torturas que necessariamente sustentavam um sistema tão anormal? Ademais, ninguém tinha o

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direito de sorrir assim ao descrever uma ditadura sanguinária, aquele parvo não conhecia o próprio país. Perguntei-lhe o que pensava da polícia: ela lutava contra os inimigos do Mariscal. Ao proferir tal palavra, seu sorriso iluminou-se mais ainda. O Mariscal era López. Ah, ah! López então tem inimigos? Mas claro: os traidores, os desertores, os estrangeiros. E tem amigos? Claro, nós, nós todos.



Eu começava a me enervar, aquele jovem imbecil devia muito bem se dar conta de que não era livre. Livre?, novamente o olhar incerto, o cenho franzido. Era preciso explicar. Podia ir aonde quisesse? Naturalmente. Mesmo ao estrangeiro? Por que iria ao estrangeiro? Não havia nada a ver, nada a fazer, nada a aprender no estrangeiro. Ao menos pensava o que queria, havia jornais? OrgWhosamente, tirou-me do bolso uma folha dobrada em quatro, o jornal do exército. Decifrei o título: GabichÁ, quer dizer, abelha. Uma caricatura grosseira representava um enxame perseguindo um negro com a farda brasileira.

Abelhas, mas então era isso, pensei! Insetos sociais, determinados, diligentes, acorrentados pelos instinto à rainha e à colméia, e que rechaçam teimosamente qualquer intrusão vinda de fora. Nenhuma idéia de liberdade, nenhuma concepção de progresso. Inútil perguntar a meu rapaz se ele era feliz: pessoas assim sequer sabem o que é felicidade. E isso, em pleno século XIX!

Tamanha insistência no erro, tamanha recusa da história entristeciam-me e preocupavam-me. Toda a minha educação, toda a minha experiência provavam que um sistema social tão retrógrado não podia funcionar, tanto quanto as utopias que certos depravados socialistas intentavam instaurar contra a minha vontade em recantos afastados de meu Império. Contudo, no Paraguai, contra todas as expectativas, um milhão de índios submetiam-se a isso sem reticências. Tal docilidade tornava-os culpados? Decerto que não, mas a idéia que guiava seu chefe era perigosa, havia que extirpá-la, trazer esses pobres

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extraviados para o bom caminho, missão que me era confiada pela História.

O prisioneiro olhava-me refletir. Perguntei-lhe se queria que o libertasse, que lhe mandasse dar alimentos e um salvo-conduto. Recusou. Se voltasse para o Paraguai, o Mariscal o executaria, posto que se rendera. O Maríscal tinha razão, concluiu, sempre sorrin do. Foi nesse dia que compreendi que havia que matar lópez.

Uma carta de Frédéric Mistral acaba de me distrair dessas veleidades assassinas que outrora nutri, eu, o afável ancião a quem as mamães apresentam seus bebês. O félibre informa-me que mandará meus Cantos hebraicos para a Corte de Amor de Carpentras. Trata-se, se entendi bem, dos jogos florais provençais em que concorrem os escritores dessa língua. Tenho alguma possibilidade, segundo Mistral, posso esperar uma medalha, pelo menos uma menção: resultado no início de setembro.

O correio traz-me também um pedido de Stephen-Liégeard, o simpático poeta da Côte d'Azur que freqüento quando estou em Cannes. Ele anda pensando na Academia Francesa e fazendo suas visitas: a cadeira de Octave Feuillet. Seus adversários são fortes: Zola, Fabre, Paul Bourget e, sobretudo, Loti. Conheço pessoalmente uma vintena de acadêmicos, Stephen-Liégeard o sabe e pede-me para apoiá-lo. Eis-me um tanto constrangido. O poeta é excelente, admito, um ótimo homem, correto, mas a Academia, mesmo assim... Ademais, Sully Prudhomme não o admira, com esse voto não se pode contar. A questão é realmente delicada: apoiando Stephen-Liégeard, divido os votos de Loti~ hão de me acusar de eleger Zola. Tenho que refletir cuidadosamente, não me precipitar. Pensarei nisso hoje à tarde, verei o que posso fazer. Esse Zola! Na Academia!

Por ora, devo retornar à carnificina paraguaia, aceitar o risco de descobrir sobre mim mesmo algo menos glorioso do

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que aquilo que contam há vinte anos os historiadores oficiais. Fala-se de Sébastobol e de Sadowa; deixo falarem, os vencedores têm sempre razão. Mas os panegiristas enganam-se, meu combate tinha tão pouco a ver com esses quanto com o de Gettysburg. Não exterminei os guaranis porque criavam-me obstáculos para o meu comércio ou para a minha política continental, mas porque seu modo de vida negava a utilidade de qualquer comércio, os fundamentos de qualquer política. Porque eram diferentes: os persas de Heródoto, os germanos de Tácito.

Outro dia, eu indagava, ao mencionar nossos poetas indianistas, por que não guerreáramos contra os nossos índios, como os argentinos, ou os norte-americanos contra os pelesvermelhas. Imaginei sabe-se lá que explicação. Que tolice! Nós realmente tivemos a nossa guerra indígena, cem vezes mais assassina do que as outras. Os guaranis haviam evoluído graças aos jesuítas, mas foram os nossos comanches, comanches com um presidente, gráficas e obuseiros, Krupp, e que construíam fortalezas à beira de seu rio.

Pois a guerra ia se tornando fluvial. O Paraguai não fizera nenhum pedido de paz depois de suas derrotas iniciais, o que nos espantava, mas paciência!, a guerra estava bem avançada, duraria um pouco mais do que previsto. Enquanto eu voltava para o Rio de janeiro a fim de assumir o comando da guerra, Mitre conduzia nossas tropas para a fronteira paraguaia. Fixou-lhes como ponto de encontro uma planície onde o curso do Paraná, após subir para o norte desde o Prata, enviesa abruptamente para o leste e para o Brasil, enquanto um de seus afluentes segue rumo ao norte e introduz-se pelo Paraguai. Foi nesse confluente, num quadrilátero de cinqüenta quilômetros de lado, que a guerra foi travada e decidida, após três anos de mortandade.

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Um europeu que não leu Vidal de Ia Blache não compreenderá a majestade de nossos rios e a natureza de nossas batalhas. Não se trata de córregos como o Danúbio ou o Vistula. O Paraná atinge seiscentos metros de largura e, em certos lugares, cem metros de profundidade. Ali, um almirante pode manobrar uma esquadra, contanto que tenha enfrentado corretamente os baixios a jusante, os regos mal assinalados e as enchentes.

já nos primeiros meses de guerra, nossa frota entrara pelo Prata, e depois pelo Paraná. Promovendo uma barulheira de sirenes, clarins e salvas de treino, subira o rio. Nas margens argentinas, os gaúchos atraídos pela zoeira e pela fumaça negra viam passar meus cinco encouraçados, minha fragata, minhas doze canhoneiras e a incontável flotilha de avisos e torpedeiros. Diante da aparição dantesca, alguns cumprimentavam mecanicamente, tirando o chapéu; outros cuspiam pois esses gaúchos não apreciavam a Guerra Grande.

Os paraguaios desciam o rio que íamos subindo. Encontraram nossos navios à altura de um riacho, o Riachuelo. Lutaram na proporção de um contra dez, mas o que podiam esperar tendo um único encouraçado e meia dúzia de patachos blindados às prezas? Em poucas horas, havíamos destruído-lhes a armada.

Nossa frota lançou âncora. O almirante não recebera ordens, sabia que a poucas centenas de braças a montante, na fronteira paraguaia, aguardava-o um rosário de fortificações infinitamente mais temíveis do que os botes que acabara de pôr a pique. Não queria arranhar sua reputação levando tiros como um pato pelos soldados que estavam em terra; decidiu aguardar o exército. Que este tomasse as fortalezas, era sua missão, e em seguida ele faria sua esquadra passar.

O exército ia avançando, sem pressa, pelos campos argentinos. Chegou ao Paraná na primavera de 1866, tomou um fortim e transpôs o rio: doravante, lutava-se em terreno ininúgo. E lutava-se para valer. Os soldados que se jogavam sobre nós em nada lembraram os capituladores de Uruguaiana. Sem camisa nem sapatos, vestindo uma tanga e um quépi, tinham

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uma aparência risível, mas não se ria muito tempo diante da precisão de seus tiros e da fúria de suas investídas. Pela primeira vez surgiu o termo fànatismo. É, em geral, um termo de mau presságio nos relatórios de um militar em apuros.

Furiosos ao encontrarem-nos em sua terra, os paraguaios procuraram interceptar-nos em Tuiuti, onde se travou a mais terrível batalha da guerra. Nossa artilharia salvou-nos por um triz, graças ao sangue-frio do comandante, um francês chamado Émile Mallet. Quando o inimigo se retirou, tínhamos tantas baixas que o estado-maior decidiu fortificar o sítio e ali instalar a tropa, à espera de reforços.

No Rio de janeiro, o ministro Ferraz tratava de encaminhálos. Eu não tirava o olho do mínistro: a guerra era um assunto meu, e o ministro, meu executante. Nos arsenais, nas fundições, nas fábricas de pólvora e nos campos de tiro, eu estimulava, exortava a todos para que se empenhassem. A campanha começava a parecer longa? Vamos! faltava pouco: duas fortalezas a tomar, e depois a frota transportaria a todos até o palácio de López.

A primeira dessas fortalezas chamava-se Curupaiti. Uma ribanceira escarpada domina o rio nesse lugar, onde os engenheiros de López haviam esculpido essa escarpa. Ali instalaram sucessivas camadas de rocha e de tem batida atrás das quais vigiavam as bocas-de-fogo, temidas por nossa esquadra. Atrás do forte, para os lados da floresta, cavaram uma rede de trincheiras protegidas por troncos de lenha, montes de espinhos, casamatas, e depois, contravalações avançadas, estacas, e~ e, na frente de tudo isso, uma rampa desmatada aberta ao fogo das baterias. Três mil soldados guardavam a praça sob as ordens de um inglês.

Contra o inglês, suas trincheiras e seus canhões, Mitre lançou dezoito mil homens: duas brigadas argentinas e duas brasileiras. Um ataque frontal, praticamente sem preparação

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de artilharia. Coluna após coluna, os disparos paraguaios ceifaram nossos melhores batalhões. Quando foi dada a ordem de bater em retirada, pôde-se medir a amplidão do desastre. Em poucas horas havíamos perdido um terço de nossos efetivos. Os que sobraram correram a enfurnar-se no campo entrincheirado de Tuiuti, a poucos quilômetros dali.

Um povo minúsculo impedia-nos de conquistar a vitória. Ninguém entendia como. Pensáramos que fossem escravos de um tirano contra quem se rebelariam ao primeiro tiro de canhão, e eis que mais facilmente deixavam-se morrer do que abandonavam suas malditas trincheiras. Se acaso avançávamos, os camponeses queimavam colheitas e aldeias para atrapalharnos o avanço. Fanatismo, heroísmo? O fato é que resistiam.

Os estrangeiros compreendiam tão pouco quanto nós, mas impacientavam-se. O Peru promovia uma campanha diplomática contra a nossa intervenção e arrastava o nome do Brasil na lama. Os Estados Unidos desdobravam-se em oferecimentos de bons oficios. Em Londres, o Times exortava-nos a encerrar uma guerra tão prejudicial ao comércio. Em Paris, um jovem anarquista de nome Elisée Reclus predizia periodicamente nossa derrota na Revue des Deux Mondes.

Entrementes, o exército mofava no campo de Tuiuti, palavra que, eu sabia muito bem, significa "pântanos". Manifestou-se a malária, depois o cólera. As rivalidades do comando, exacerbadas pela ociosidade, repetiam-se em toda a hierarquia. A enorme aglomeração de jovens desocupados atraía mascates, saltimbancos, domadores de ursos. Uma nuvem de prostitutas infestava o campo. Os reforços, as munições iam chegando com vagar. Bandos de desertores vagavam pelas matas, apoderavam-se de nossos comboios de intendência para depois nos revendê-los a preços altos ou, caso reclamássemos, entregá-los aos batalhões paraguaios. Em fins de 1867, nosso exército não passava de um cancro dispendioso que nos arruinava, sem resultados.

Quanto à nossa frota, seu almirante preservava-a zelosamente das influências das forças terrestres. Mitre exigia que

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ele fosse bombardear os fortes inimigos, o homem do mar negava-se, alegando correntes contrárias, ou estiagem, ou falta de carvão. Seu pesadelo era passar por uma das fortalezas mas não conseguir passar pela segunda e, desse modo, ver-se espremido entre as duas, ameaçado por seus tiros cruzados, sem reabastecimento possível,

Havia que substituir o comando. Eu tinha duas soluções. A primeira era nomear meu genro Gastão, conde d'Eu, à frente das forças armadas. Era o que ele me pedia com uma insistência insuportável. Desde o princípio das hostilidades, não parou de propor estratégias e de criticar nossos comandantes com a impetuosidade de uma alma mais generosa do que ponderada, e cujo ardor sufocava toda e qualquer sutileza. Como podia ele imaginar que eu lhe entregaria, aos 25 anos, um estado-maior de generais ardilosos, dos quais alguns somavam quarenta anos de serviço? Nomeei-o marechal-de-campo, presidente de uma vaga comissão de provisões e desapachei-o, junto com Isabel, para estudarem catálogos de armas sob os pinheiros de Petrópolis.

O homem da situação, o único capaz de tirar-nos do aperto, era, evidentemente, Caxias, meu condestável, Caxias, de quem eu não desgrudava os olhos, e que eu não desejara impor no início da guerra para não contrariar o presidente do Conselho. já não era hora de semelhantes escrúpulos: Caxias recebeu plenos poderes.

Apoiei-o com todas as minhas forças durante o seu comando. Quando, um ano depois, exasperado com as intrigas dos civis, ele ameaçou retirar-se, sacrifiquei-lhe o gabinete, dissolvendo a Câmara que o apoiava. Esse golpe de força, o último de meu reinado, valeu-me não poucos inimigos, e sem dúvida favoreceu a ascensão das idéias republicanas que triunfaram vinte anos depois. Eis as agruras do poder!, eu seria derrubado por militares por ter apoiado em demasia um deles contra os civis.

já me referi diversas vezes ao método de Caxias, à sua mania de preparativos meticulosos: ele levou quase um ano para tomar em mãos os restos de exército que lhe entregavam.

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Compreender-se-á a cautela desse homem de guerra se eu disser simplesmente que uma de suas primeiras providências foi pôr a tropa para desmatar os arredores do campo, a fim de plantar alfafa e, assim, salvar nossa cavalaria.

Evidentemente, ele exigia reforços, pois as epidemias dizimavam-nos sem trégua. Ora, a fonte de voluntários secara, chegávamos ao momento das deserções, das automutilações, dos simuladores. Como a lei do recrutamento isentava os ricos, só se encontravam homens válidos nas prisões: agraciei os condenados para que assentassem praça. Não foi suficiente, pensamos então nos escravos.

Convocamos os fazendeiros a participarem do esforço de guerra alforriando negros que seriam imediatamente mobilizados. Muitos aceitaram, radiantes de mostrarem seu patriotismo desfazendo-se dos piores elementos de seu rebanho. Como esse manancial por sua vez também secou, foram enviados para o interior recrutadores carregados de ouro: compravam escravos nos mercados, alforriavam-nos na mesma hora e mandavam-nos para ofront.

Caxias instruía-os em Tuititi, onde, com a disciplina, renascia a esperança. A esse enorme esforço de restauração do espírito militar ele somou a façanha de convencer nosso almirante que se dignasse a lançar mão da esquadra. A inatividade da frota nos últimos dois anos melindrava a todos. "A vitória, dizia-se, será dificil sem ela, mas impossível com ela ..."

O almirante cessou de ter~. Esgaravatou seus canhões uma última vez, ordenou uma derradeira demão de tinta, mandou arear o tombadilho e guarnecer-lhe as bordas com sacos de areia. Em seguida, redigiu uma piedosa ordem-do-dia na qual concentrou toda a sua devoção de homem do mar. Para forçar a passagem de Curupaiti - proclamou a seus marinheiros -, ele escolhera o dia de Assunção da Virgem Maria, que não deixaria de abrir à frota o caminho da capital paraguaia: Assunção!

Definitivamente, as baterias de Curupaiti não podiam fazer muito contra a couraça de nossos navios. O almirante

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prosseguiu em sua investida; poucos quilômetros mais adiante, chegou à segunda fortaleza: Humaitá.



Então, deu-se conta de que em Curupaiti só havia transposto um bastião, um reduto avançado. Pois durante os meses perdidos, Humaitá transformara-se na mais fantástica cidadela da América; aguardava-o com seus duzentos canhões apontados para o rio.

Esse rio forma ali um cotovelo onde a correnteza é terrível, e nesse passo o inimigo pendurou enormes correntes que barravam a passagem. A todo o vapor, sob o inferno do bombardeio, os couraçados precipitaram-se, um após outro, para cima do obstáculo a fim de vencê-lo: debalde, a corrente reduzia demasiado a velocidade. Recuaram e refugiaram-se numa enseada fora do alcance dos canhões.

Ali permaneceram por seis meses, constantemente assediados por ataques noturnos e brulotes que o inimigo fazia derivar naquela direção. Enquanto isso, Caxias destruía Curupaiti e cercava Humaitá para que sua guarnição morresse de fome. No Rio de janeiro, acabavam de armar seis monitores blindados de baixo calado, movidos por máquinas enormes, que talvez conseguissem vencer o obstáculo das correntes. Graças a eles, a frota terminou por passar, mas já a montante o inimigo armava outras linhas de defesa; então aquilo nunca teria fim?

Em terra, batalhas sucediam a batalhas, massacres a massacres. López remediava as baixas alistando as mulheres, e nossos soldados matavam com baioneta matronas de peito aberto. Para transpor o Chaco alagado e atacar de flanco um entrincheiramento, Caxias mandou construir vinte quilômetros de estrada sobre colunas; durante um mês, as sanguessugas sangraram nossos sapadores, mas a artilharia findou passando; novos combates, aproximávamo-nos de Assunção. Caxias ali entrou em início de 1869 após uma dessas manobras fulminantes que ele preparava como um perito-contador e executava como uma onça-pintada.

Procurou-se López, procurou-se seu exército, nada se encontrou. Haviam abandonado a cidade e aguardavam num cerro, contra qualquer lógica, contra qualquer esperança. Caxias deixou-os

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tranqüilos. Reuniu um punhado de emigrados paraguaios e com eles compôs o governo provisório da República. Alforriou os últimos escravos dos guaranis. Fundou a primeira loja maçônica do país. Depois, reputando suficientes esses símbolos de adesão à ordem uni~ o comandante-em-chefe voltou para casa.

Devo me deter nesse episódio inacreditável de uma guerra em que nada seguiu um curso normal. Que se imagine Caxias no palácio requisitado onde está morando, em Assunção. Tem 66 anos, está coberto de honras, há muito conta com os favores do príncipe. Da nação, pode tudo obter, o proconsulado do Paraguai, se o desejar, a presidência do Conselho, se a cobiçar. Resta-lhe simplesmente capturar López: uma formalidade.

Essa formalidade, considera-a inútil, injusta para com um inimigo valoroso, indigna de um comandante-em-chefe. Recusa-a. Mas não diz que a recusa. Sem prevenir o imperador, nem o ministro, sequer a própria esposa, abandona o posto. Deixa seus oficiais estarrecidos, pega o navio. Chega ao Rio de janeiro, onde, evidentemente, ninguém o aguarda. Aluga um fiacre, segue para casa, de onde não sai mais. Um pronunciamento às avessas! Em vez de atravessar o Rubicão, César põe chinelos e vai ler Lucrécio em seu casarão.

Fingi acreditar nos motivos de saúde que ele alegou: o que podia eu contra um homem desses, e, aliás, tinha eu vontade de puni-lo? Eu não ignorava que outros ao meu redor davam a guerra por encerrada. A vida mundana retomava, todo o país dançava para festejar a queda de Assunção. Desmobilizavam-se os batalhões, os negócios iam recomeçando e eu teimava em repetir que a guerra prosseguia, que duraria até o exílio de López ou, caso ele não consentisse em fugir, até sua execução. Caxias não estava só, eu, sim.

Escutavam-me sem ousar me contradizer, mas não compreendiam. Não podíamos deixar López lá no meio do mato, ele não terminaria se rendendo? Eu recusava tal fraqueza, impunha, exigia o prosseguimento das operações. Afinal, de

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onde me vinha essa energia carregada de ódio após tanto sangue e tantas destruições?

Durante minha vida inteira desejei o progresso de meu povo. o progresso era Paris, era Londres. Hoje conheço a Europa, observei-lhe as mesquinhezas e as contradições que os meus livros, na época, não me haviam revelado. A Europa era para mim um farol de perfeição, o único, rigorosamente o único capaz de guiar-nos. López, tal como eu, queria educar seu povo, tal como eu admirava as Escolas Normais, as locomotivas e as óperas. Mas imaginava ter encontrado outra via que não a nossa rumo ao futuro, uma via coletiva, ao passo que eu acreditava no indivíduo, uma via singular, afastada das grandes veredas da humanidade, ao passo que eu sonhava com a harmonia mundialista.

A filosofia do Iluminismo ele ousava contrapor a herança de sua raça, como se existisse um progresso guarani, um modelo sul-americano. Sarmiento poderia ter escrito: ele aspirava à "civilização" mas se negava a abdicar à sua "barbárie", e isso era intolerável porque talvez ele tivesse razão. A simples diferença entre os homens não explica a agressão, a não ser quando ela supera um patamar além do qual principiamos a duvidar de nossa própria verdade, e, portanto, a temer o outro. Derrotado mas vivo, López ainda me amedrontava.

Pois quem podia garantir que meu povo achava-se protegido contra essas trevas? Amanhã, quiça, surgiria um visionário que galvanizaria os pobres prometendo-lhes essas inépcias bárbaras, e a que preço! O poder absoluto, o embrutecimento das massas, o fanatismo e, em troca, uma modesta prosperidade de animais domésticos bem alimentados. Talvez já tivesse nascido, esse falso profeta, talvez já preparasse a sua pregação, num porto, ao longo de um rio, ou melhor, num cerrado tostado do sertão, forjando seu misticismo com o fogo do deserto. Eu não queria arriscar-me a tal, havia que matar López, matar a rainha das abelhas.

Não dispunha de muita gente para executar essa missão de salubridade. Meus generais alegavam estar doentes, uns

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após outros: todos temiam suceder ao glorioso Caxias. Todos, menos um: Gastão, meu genro. Chegara sua hora.

Durante os cinco anos de guerra, eu havia suportado suas reclamações e as de sua família contra a inatividade em que o mantinha. Isabel, ao contrário, apavorada com a idé-ia de que o marido partisse para a guerra, suplicara-me sigilosamente que o mantivesse em segurança, perto de si. Teve de se curvar à minha decisão: um final de campanha contra uns bandos armados saciaria a sede de batalhas de Gastão sem expô-lo a demasiados riscos. Antes do casamento, ele combatera alguns meses no exército espanhol contra os mouros do Marrocos; eu lhe propunha o mesmo gênero de guerrilha. Ele também podia se imaginar na Argélia: bastava imitar o tio Aumale e tomar a Smala* de López. Levou a peito sua missão, mas o Mariscal não perdera a tenacidade. Agora, à falta de homens, armava as crianças e ensinava-lhes tristes jogos de trincheiras e de emboscadas. Gastão ainda sofreu muitas baixas. Em Campo Grande, na noite de uma pequena vitória sangrenta, meu genro perdeu o sangue-frio e mandou incendiar o capim seco do campo de batalha, tal como os paraguaios faziam contra nós sempre que podiam. As crianças feridas, as mulheres vindas para socorrê-las, as crianças saudáveis escondidas no matagal arderam junto com as crianças mortas.

Assediado por nossas tropas, Lôpez retirava-se para o norte, cada vez para mais longe, para regiões cada vez mais inóspitas. Nem um único de seus soldados o abandonou, mas morreram, uns após outros. O Mariscal achava-se então quase sozinho. Cavalgava com a esposa, uma irlandesa indomável

* O conjunto de tendas de um chefe árabe, com sua família e, seus pertences e equipamentos, que o acompanha pelo deserto. Referência ao duque d'Aumale que lutou na Argélia e derrotou o líder muçulmano Abd-el-Kader em 1843. (N.T.)

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que ele descobrira na corte de Napoleão III. O filho mais velho, de dezoito anos, acompanhava-os, bem como as irmãs. Alguns oficiais, uma centena de soldados maltrapilhos formavam o resto da tropa.



Após nove meses de perseguições, nossos batedores assinaralam-no numa clareira à beira de um riacho. A cavalaria cercou o acampamento e liquidou com sua guarda. López montou no cavalo e atirou-se no combate. Reconheceram-no. Recebeu dois golpes de lança na virilha e um revés de espada na cabeça. Assistido por seus oficiais, quis transpor o riacho mas caiu do cavalo. Cambaleante, com a água batendo nas coxas, conseguiu tirar o casaco e desembainhar a espada. Encostou-se na ribanceira e aguardou.

O general que comandava o destacamento intimou-o a se render. Ele respondeu: "Não terás minha espada, morro com minha espada", e depois, num sopro: "E pela Pátria". O general mandou um soldado desarmá-lo, ele resistiu. Os dois atracaram-se e rolaram juntos pela água avermelhada de sangue, levantaram-se tossindo e alguém matou López com uma bala nas costas. Seu filho morrera instantes antes. A irlandesa e as filhas enterraram os dois durante a tarde.

De acordo com o tratado da Tríplice Aliança, o Brasil não pleiteou qualquer indenização de guerra nem qualquer território. Após a guerra, quando foi recenseada a população do Paraguai, verificou-se que caira à metade: quatrocentos mil mortos aproximadamente. Dentre os vivos, mulheres, crianças, velhos, mas quase nenhum homem adulto; matamolos todos.

IX

Milhares de ex-escravos desmobilizados vagavam pelos portos em busca de trabalho. Fiéis a seus grilhões, muitos voltavam para a fazenda do antigo dono e alugavam-se como trabalhadores livres; outros vendiam suas medalhas e esmolavam pelas ruas. Ganharam a guerra, mais ninguém cuidava deles. Entretanto, ia surgindo uma preocupação a respeito de seus irmãos cativos. Quando extinguiram-se as luzes dos festejos, percebeu-se que a paz não resolvia os problemas e menos ainda, certamente, o mais grave dentre eles: a escravidão.



Desde a vitória da União nos Estados Unidos, éramos o único país escravista. Desse isolamento no opróbrio, meu povo não sentia vergonha nem orgulho, nunca pensava no assunto, pouco se lhe dava. Havia que libertar os escravos? Bem poucos interrogavam-se, nos anos 1860.

Os operários, os artesãos, os fÚncionários públicos não compreendiam que quiséssemos alforriar negros que mais cedo ou mais tarde iriam competir com eles. Desconfiavam que os fazendeiros, privados do braço gratuito, aumentariam os preços agrícolas, e a vida já andava bastante cara assim. Sobretudo, essas pobres pessoas consideravam, como todos nós, que não era desagradável conviver com gente mais infeliz ainda.

Também os ricos duvidavam da utilidade de uma mudança em nossos costumes. Bebendo seu cafezinho no alpendre,

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a matrona suspirava, junto com as amigas, que éramos muito injustos com os senhores, e que o Brasil era diferente. Exibia o escravo de luvas brancas que tirava as xícaras, exemplo pacífico de felicidade doméstica, atribuía-lhe de oficio o desejo de não mudar de condição, o medo do desconhecido, a desconfiança quanto às ilusões emancipatórias: "Ele é muito mais feliz aqui em casa."

Quanto aos agricultores, fingiam não compreender. Se queriam tomar-lhes os escravos, por que não suas vacas ou suas terras, já que era assim? O país vivia do açúcar e do café que produziam, sabiam disso, não se preocupavam exageradamente.

Entretanto, já em alguns corações burgueses mais sensíveis ou mais lúcidos o germe da emancipação preparava sua floração de dúvidas, de cólera e de sacrificio.

Indago-me como nos tornamos abolicionistas e por que nos tornamos tão depressa. Procuro lembrar-me desses fenômenos tais como eles surgiram em meu país e em minha consciência. As desordens da Regência durante os anos 1930 haviam ensejado um amplo debate em que todos se expressaram, inclusive um punhado de abolicionistas, precoces. Eu era uma criança, eles me apareciam representados como doidos perigosos, e não tiveram qualquer influência sobre mim. Dez anos depois, um pequeno juiz do interior imaginou soltar um escravo com o pretexto de que fora importado ilegalmente. O ministro da justiça calou o imprudente magistrado, de quem nunca mais se ouviu falar. Fico a imaginar o que foi feito dele, gostaria muito de cumprimentá-lo, hoje. Porém, ainda naquele momento o ambiente não era propício.

Melhorou nos anos 1850, após as pressões inglesas e a lei contra o tráfico. Principiamos a ter dúvidas. Para que as autoridades proibissem o comércio dos escravos, havia que descobrir-lhe o princípio condenável em que se apoiava, algo que enodoasse a prática imemorial da escravidão. Os mais esclarecidos, os mais desprendidos apuraram o ouvido, a fim de escutarem as vozes esparsas que o condenavam.

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Entre estas, por essa época a mais sonora e a mais clara foi a de Luiz Gama, o único abolicionista, que falava com conhecimento de causa, pois esse Gama fora escravo. Sua mãe, negra emancipada, tivera-o com um fidalgo branco de passagem. Educou-o, mal ou bem, com seu ordenado de engomadeira. Quando ele estava com dez anos, o pai, necessitado de dinheiro, voltou para vê-la, pegou a criança e vendeu-a como escravo: pode-se imaginar o horror da cena. Mas se o princípio dessa história traz à tona o que há de mais vil no homem, o desenlace revela-nos o que há de mais belo: seu gosto pela liberdade.

Na maioridade, Gama conseguiu milagrosamente que fosse reconhecida sua qualidade de homem livre. Estava tudo resolvido? Que nada! O exército recrutou-o de imediato, como recrutava todos os pobres sem profissão, e guardou-o, por sete anos. Então, ele se tornou jornalista em São Paulo e pregou a emancipação de seus irmãos. Foi dos primeiros, outros o seguiram apesar da indiferença e das ameaças.

Os argumentos de todos eles nos jornais respaldavam a inspiração dos poetas. Estes acenderam um fogo que não mais haveria de se extinguir, pois em nossa terra foi a lira que rompeu as correntes. Pertenciam à segunda geração de nossos românticos. Byron e Musset haviam influenciado a primeira, a minha, estes últimos só juravam por Victor Hugo. Comprometidos como ele na ação política, abraçavam causas e davam a seus versos a força altaneira do pássaro ao qual se comparavam: o condor.

O mais poderoso deles, Castro Alves, era da Bahia. Quando suas idéias abolicionistas passaram a ser perigosas, os adversários descobriram que sua família enriquecera no tráfico negreiro, assim como a de Chateaubriand, mas nenhum leitor sensato jamais duvidou de sua sinceridade quando ele pôs a África a prantear o próprio destino:

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?! É, pois, teu peito eterno, inexaurível De vingança e rancor?...

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E o que é que fiz, SenhOr, que torvo crime Eu cometi jamais que assim me oprime

Teu gládio vingador?!...

Em seu poema mais famoso, Castro Alves pinta o horror de um navio negreiro na hora abominável em que os negros são forçados a dançar no tombadilho para fazerem exercícios. O leitor espanta-se, condói-se, indigna-se: tal atrocidade é possível? Então, o poeta fulmina-o com uma denúncia precisa: trata-se de fato do Brasil e é nossa bandeira que protege os criminosos.

E existe um povo que a bandeira empresta P'ra cobrir tanta infâmia e covardia! E deixa-a transformar-se nessa festa Em manto impuro de bacante: fria!... Meu Deust meu Deus! Mas que bandeira é esta, Que impudente na gávea tripudia?!... Silêncio!... Musa! chora, chora tanto Que o pavilhão se lave no teu pranto...

Como se vê, os versos não valem grande coisa. De meu lado, prefiro esse poeta quando ele canta a mulher em seu admirável Hebréia, de toques parnasianos. Mas seu Navio negreiro tem peso e imagens fortes, todo o necessário para sacudir a juventude, refiro-me à juventude que lê, ou seja, em última instância, bem pouca gente. O poema teve entre nós o efeito de A cabana do pai Tomás nos Estados Unidos dez anos antes. Quando esse livro foi publicado, eu havia ordenado sua proibição: o ambiente, dentro de mim, ainda não era propício.

Depressa passou a ser. Sempre acreditei no homem, em todos os homens. Contudo, custei a desprender-me de meu círculo, de todos aqueles barões do café que punham seus escravos para dançarem em minha presença, quando eu os visitava. Custei mais ainda para dissociar o abolicionismo dos exaltados que o pregavam na minha juventude e o fourierismo,

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a República, o ateísmo e outras calamidades. O exemplo da Inglaterra muito me auxiliou nesse sentido, pois, se os pares ingleses militavam contra a escravidão, eu podia muito bem associar-me à sua luta, o abolicionismo tornava-se fashionable.



Compreendi que a emancipação far-se-ia apesar de tudo, no Brasil como em outras partes. Cabia-me conduzi-la com cautela, evitando os distúrbios que ela poderia acarretar: revoltas, secessão, ruína da agricultura. Não podia deixar os fatos decidirem em meu lugar em tal perigosa matéria, cabia-me orientá-los, canalizá-los, pôr-me à frente da opinião nacional antes que esta se inflamasse. Em suma, a emancipação era necessária porque era inelutável.

Disse-o ao presidente do Conselho, que me aprovou; pedimos a um jurista para estudar a questão observando dois princípios indispensáveis: o gradualismo e a indenização. Devia-se ir devagar, a fim de dar tempo aos agricultores para se adaptarem, e não deitar abaixo nossos exportadores ao priválos, da noite para o dia, de mão-de-obra. Devia-se igualmente respeitar o direito, não lesar fazendeiros volta e meia muito endividados e, caso os lesássemos, indenizá-los. Os poetas e seus jovens leitores nem sempre pensam em tais contingências.

O método empregado em vários países pareceu-nos adequado: declararíamos livres os filhos que nascessem de pais cativos. O proprietário da mãe poderia mantê-los em casa e fázê-los trabalhar até a maioridade. Também poderia, caso preferisse livrar-se deles, entregá-los ao Estado, que o indenizaria e tomaria a cargo a educação dos menores. Em duas gerações, teríamos findado com a escravidão.

O jurista redigiu seu relatório, modelo de profundidade e de clareza. Enfrentou habilmente o direito romano e o intangível princípio do partus sequitur ventre. Não, nem sempre a criança segue o ventre que a portou, afirmava ele, pois, se a mãe é cativa, seu ventre pode ser livre. Ao defender essa tese do ventre livre, ele analisava todas as suas conseqüências. No capítulo das dificeis provas de paternidade, invocou com elegância

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Venus omnivaga, a Vênus vagabunda dos antigos. Por fim, esse latinista recorreu à retórica para enobrecer seu tema: depois dele, mais ninguém referiu-se a escravos. Doravante, todos se debruçavam sobre o problema do "elemento servil", e as crianças livres tomaram o nome de "ingênuos". Quando a injustiça passa a ser obscena, quase sempre as sociedades escondem as próprias feiúras sob a ênfase da metonímia.



O relatório era juridicamente brilhante, mas, ainda assim, a lei havia que ser votada. Por desgraça, a Câmara era, então, totalmente conservadora, tendo os liberais rejeitado as eleições por haver eu dissolvido a precedente assembléia. Dentre os deputados, os que representavam a região cafeeira do Rio -de janeiro ergueram-se violentamente contra o projeto. Inversamente, certos fazendeiros do Norte e de São Paulo, muitos criadores do Sul e alguns representantes das cidades apoiavam, em nome do bom senso, a emancipação gradual e ordenada que eu lhes propunha. Os outros aguardavam para ver de que lado o vento iria soprar.

Todos defendiam os próprios interesses econômicos ou os de seus eleitores, mas, para conquistar o voto dos indecisos, disfarçavam a questão financeira com um palavrório terrorista. "Libertais os escravos, esbravejava um fazendeiro, falais de alforriá-los, que digo eu!, pensais apenas em fazê-lo, e amanhã o negro, pressentindo vossa fraqueza, há de se revoltar. Irá às vossas residências estrangular vossos filhos e desonrar vossas esposas. A escravidão é uma praga em que não se deve tocar!" O abolicionista respondia em tom idêntico: só a perspectiva de uma libertação próxima podia levar o elemento servil a ser paciente, corria-se o risco de tumulto caso a cegueira dos deputados viesse a dissipar tal esperança.

Assim, uns e outros divertiram-se em amedrontar-se durante demorados meses sem que se esboçasse qualquer maioria e sem que eclodisse nenhum distúrbio. Depois, um presidente de Conselho hábil e vigoroso logrou convencer suficientes indecisos para arrancar-lhes o voto em 1871. A partir dessa data, mais ninguém nasceu escravo no Brasil.

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A vida tornou-se mais amena nas plantações? Tenho dúvidas. Em sua maioria, os "ingênuos" ficaram com suas mães, mal recenseados, mal informados sobre as próprias prerrogativas, escravos de fato, senão de direito, mas, doravante, o tempo agia contra a servidão, era só aguardar. Todos compreenderam: calaram-se os tenores da abolição, satisfeitos com a vitória; os fazendeiros menos retrógrados contrataram assalariados, outros venderam suas terras para irem viver em Paris, não se falou mais do elemento servil.

Quanto a mim, fui informado da votação da lei por um telegrama, quando tomava chá a bordo do Mediterrâneo, num hotel de Alexandria. Eu viajava, enfim!

Havia escolhido um mau momento para ausentar-me. Os sangrentos distúrbios previstos na Câmara pelos oradores escravocratas afligiam os burgueses. Repetiam-lhes à exaustão que seu mundo haveria de desabar sob os golpes da facção abolícionista, recomendavam-lhes, em privado, que se armassem e escondessem as esposas. As notícias da Europa aumentavam suas preocupações: a França esmagada, o imperador dos franceses preso, e, em breve, Paris em mãos dos vermelhos.

Vermelhos que se suspeitava de inspirarem os jovens exaltados que vinham de publicar no Rio de janeiro um Manifesto Republicano, que fundavam um partido, que editavam um jornal de nome execrável: A República. Circulavam rumores, assegurava-se que o espanhol Castelar apoiava a extrema esquerda, falava-se de um agitador russo desembarcado no Brasil. E nesses momentos tão dificeis, em que os olhares convergiam para São Cristóvão em busca de garantias, o imperador evaporavase para uma longa viagem pela Europa. Quem deixava atrás de si? Uma regente de 24 anos, uma mulher! Como não supor uma fuga, um abandono?

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Políticos de todas as tendências não me ocultaram o que pensavam acerca de minha partida. Ora, eu necessitava deles para autorizarem minha viagem e entronizarem Isabel como regente; a Constituição exigia esse aval, que custei um pouco a obter. Não faltaram alusões ferinas. A mais dolorosa veio de um conservador escravocrata para quem o projeto de lei do Ventre Livre sacrificava o direito de propriedade no altar de minhas conveniências pessoais, sendo apenas um visto de viagem de que eu carecia para circular pela Europa abolicionista. Senti-me extremamente magoado, pois o orador acertara em cheio. Chefe do último Estado escravista, eu não estava protegido, em Paris ou em Londres, contra um incidente desagradável, contra mais uma humilhação, e a lei, caso fosse votada, ser-me-ia de extrema prestança. Mas, sucedesse o que sucedesse, eu estava decidido a partir.



A espera de uma viagem constantemente adiada ia se tornando insuportável. As leituras e os visitantes alimentavam-me, desde a infância, meu sonho europeu. Dez anos de vida com a condessa, que diariamente falava-me a respeito de Paris, haviam-no enfeitado com mil detalhes. Essa viagem, tive a esperança de realizá-la desde o casamento de minhas filhas: ir finalmente à Europa, reencontrar a condessa, era como uma recompensa pelos esforços que nos custara a educação das duas. Mas López declarara a guerra e a condessa partira sozinha.

Quando a guerra terminou, eu não me agüentava mais de fadiga e de impaciência, mas ainda tive de me inclinar diante dos mais moços e dar-lhes a prioridade: Gastão e Isabel embarcaram por seis meses. Quando se encontravam no solar inglês dos Orléans, de onde acompanhavam as notícias do cerco de Paris, inteiraram-se, antes de mim, da doença de Leopoldina. Seu marido, desinteressado pelo Brasil, instalara minha segunda filha em Viena, onde ela contraiu febre tifóide. Isabel precipitou-se e chegou justo a tempo de assistir ao falecimento da irmã.

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Ela deixava quatro filhos, sendo que o mais velho acabava de completar cinco anos. Que seria deles? A todas as minhas impaciências, acrescentavam-se tristes obrigações: ir buscar os meninos para educá-los em sua terra, no Brasil, e proporcionar a Teresa uma mudança de ares, transtornada como estava, a pobre, por esse novo luto. Seguramente, os espalhadores de notícias falsas e os semeadores de ansiedades não impediriam minha partida. Embarquei em maio de 1871 com Teresa, nosso médico, camaristas, entre os quais o amigo Pedreira, aias, criados: cerca de quinze pessoas. O vapor Douro levava três semanas para chegar a Lisboa, com escalas em Salvador e Recife.



Eu havia preparado a minha viagem; para falar a verdade, fazia meses que ela me ocupava, deliciosamente. Organizar de antemão seus deslumbramentos, eis o mais doce prazer do turista. Ele folheia monografias e catálogos de museus, estuda anuários das estradas de ferro, pára, sonha um pouco, imaginando o que vai descobrir. Saboreia tanto mais a leitura de uma descrição quanto tem a certeza de que em breve conhecerá seu objeto. Debruçado sobre os mapas, adiciona os quilômetros, acrescenta um desvio, indaga se vale a pena. Verifica a existência de água corrente nos hotéis, toma notas: não perder o Rubens da sacristia! Víve, assim, uma viagem virtual em que tudo é belo, um périplo sem cansaço nem contratempo, em que os trens chegam na hora e não encontramos maçantes nem ratoneiros.

Minha idéia era sair rapidamente de Portugal e aproveitar o verão para visitar a Europa do norte e do centro; em seguida, a Itália e, dali, o Egito. Terminaria pela França; em Paris, Thiers fuzilava os Federados, eu podia esperar um pouco antes de passar por lá.

Cada correio trazia-me sugestões novas de visitas a não perder, pedidos de audiências, confirmações de encontros

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marcados. As páginas de meu caderno iam se enchendo. Pois eu queria ver tudo e conhecer tudo. Deixava a outros as peregrinações absortas, as longas meditações sobre uma paisagem ou um quadro, o exame minucioso dos capitéis de um claustro: eu tinha pressa. Vivera quarenta anos para devanear, agora queria ver, sentir, verificar, e, depois, passar a outra coisa.

Ao festim da Europa eu chegava como um esfomeado. Não!, a própria comparação é imperfeita para descrever meu estado febril. O esfomeado sabe o que é comer, eu não sabia o que era viajar e não conhecia a Europa. Vejo-me obrigado a buscar metáfora mais íntima. Como um donzelo, eu me aproximava de uma desconhecida suculenta: um homem que vai pôr fim a quarenta anos de castidade e que estremece ao sonhar com a amante que escolheu. Quer tudo conhecer a respeito dos prazeres que ela pode lhe revelar. Sabe que dispõe de pouco tempo, que necessitaria de vidas para descobrir todas as maravilhas da noiva. Que importa, ele não agüenta mais, atira-se sobre ela, gourmand, glutão, guloso.

Julgar-se-á por meu itinerário, cuja voracidade hoje me envergonha. Até parece que não me sinto muito bem à toa, sentado debaixo de um castanheiro, em Vichy! De maneira que: Portugal, Espanha, e a França cruzada com rapidez. Inglaterra e Escócia, para saldar minha dívida com Walter Scott. Bélgica, Alemanha, Áustria, Itália. O Egito, quer dizer, o baixo Egito, e ainda a Itália. O Vaticano, a Suíça. E novamente a França, a Espanha. Regresso por Lisboa.

Em um ano, dir-se-á, eis algo perfeitamente fáctível. Vá lá, mas considere-se que a Itália é Vêneza, Milão, Turim, Florença, Parma, Bolonha, Perugia, Roma, Nápoles. Que a França é Rouen, Paris, Aix-les-Bains, Lyon, Marseille, Cannes, MontpeWer, Bayonne... Se o senhor não está convencido, que veja meu rol cotidiano de obrigações, segui-o à risca.

Levantava-me normalmente às cinco horas e saía às seis, apesar dos gemidos de Pedreira, a quem eu impunha meu ritmo. Longas caminhadas pelas ruas, exame das butiques, breves

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conversas com os comerciantes. Depois, as visitas do dia, os monumentos, os museus. Quando os apetites turísticos estão saciados, passamos ao exame das instituições, vamos visitar parlamentos, universidades, academias. Esforçamo-nos também para mantermo-nos a par das técnicas modernas nas fábricas e nos laboratórios. Haverá ainda certas mundanidades a tarde. À noite, todas as noites, teatro ou ópera. Por fim, a redação das anotações antes de dormir. Contenha esses bocejos, Pedreira!, é assim que viajo.

Eu comunicara a todos os governos da Europa que desejava viajar anonimamente, se possível, ou pelo menos alheio a qualquer protocolo oficial. Recusara de antemão jantares de gala, corneteiros, escoltas e trens especiais. Tais recusas humilhavam os príncipes, seduziam a imprensa, afligiam os serviços secretos encarregados, suponho, de minha proteção. Tudo isso muito me agradava.

Aliás, sempre gostei de fingir modéstia, e as pompas antiquadas de minha corte só sobreviviam porque ninguém me mostrara o seu ridículo. Foi-me necessária a Europa para compreendê-lo, e desde meu regresso aboli o beija-mão e os alabardeiros a cavalo escoltando minha carruagem. Só conservei a murça de penas de galo-da-rocha, envergada duas vezes ao ano para impressionar os parlamentares, tão ridícula, mas tão bonita!

Imitar o comum dos mortais oferece muitas satisfações a um imperador, entre as quais, esta, extremamente saborosa, de ser reconhecido, e esta outra, mais divertida, de pasmar os prepostos. Ao descer do trem em Saint-Raphael, perguntei ao chefe da estação se Alphonse Karr encontrava-se na cidade. Respondeu-me que se ausentara para ir colher rosas em Collobrières. "Apresente-lhe meus cumprimentos quando o vir, gosto muito de seus livros e, posto que se tornou jardineiro, gostaria de um dia conhecer suas violetas." "Sim, senhor, qual é o seu nome?" Então, acompanhado por um sorriso benevolente e uma moeda de meio-napoleão enfiada em sua mão, a

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frase mágica: "sou o imperador do Brasil". Assim, o incógnito bem explorado pode render pequenos dividendos de vaidade. Todavia, por mais que desejasse compartilhar a sorte de meus congêneres, dispensaria muito bem iniciar minha viagem por uma formalidade à qual, creio, nenhum chefe de EstadoJamais se submeteu: oito dias de quarentena no Lazareto de Lisboa.



Exigia-o uma epidemia de febre amarela no Rio de janeiro: ninguém podia ir a terra. Meu sobrinho, o rei de Portugal, deixara à minha disposição um navio de guerra onde teria imenso prazer em me distrair por uma semana. Mas eu não haveria de infringir minha regra de simplicidade antes de ter ao menos saído do barco, e ao Lazareto fui levado com minha comitiva e todos os outros passageiros.

Suspeito que esses bravos passageiros, se procuravam repousar do cansaço da viagem, lamentaram-se depressa de minha augusta companhia: aos gritos, num vaivém infernal de fardas e crinolinas, toda a corte do rei foi me visitar. Uma fanfarra militar estava acampada no refeitório e tocava sem interrupção árias de ópera. De minha janela eu via o Tejo e Lisboa, branca, feminina, enlanguescida em seus sonhos, a cidade de meus antepassados.

Quando nos declararam sãos, fiz outra coisa que jamais fizera na vida: dirigi-me com Teresa para um hotel. Seu nome vinha-me a calhar: Hotel Bragança.

Há muito que perdi meu diário de viagem, e só posso narrar aqui impressões sobre a febre itinerante que me confrangeu durante um ano. Um momento vem à tona, momento de felicidade, satisfação de um desejo acumulado há dez anos. Não está perto de sair de minha memória. Chegávamos de manhãzinha à estação de Hendaia, para baldear de trem. O sol nascente batia nos plátanos, a turba de passageiros acotovelava-se

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na plataforma entre as malas e os diabos dos carregadores. A locomotiva suspirava com força. Avistei duas curtas silhuetas correndo até o meu vagão.



Gobineau foi o primeiro a alcançá-lo: eu havia sugerido junto ao Ministério dos Negócios Estrangeiros da França que o designassem para me recepcionar. Ele se refizera de seus langores brasileiros, chamava aos berros pelos carregadores, empurrava os guardas alfandegários e expulsava o vWgum pccus a seu redor com grandes molinetes de braços. Depois, imobilizava-se de súbito para tirar uma fuligem presa à lapela. Atrás dele, a mulherzinha esbaforida, de vestido preto, era a condessa, eu estava na França.

Naquele dia, ela juntou-se a nosso pequeno grupo e acompanhou-nos até a Áustria. Durante três meses dormimos nos mesmos hotéis, com Teresa e o restante de meu séquito. Seis anos de separação não haviam alterado nossos sentimentos: a mesma fascinação amorosa, o mesmo desejo carnal, em mim, e, nela, a mesma resolução em se manter a primeira de minhas amigas, e mais nada. Ou, como de vez em quando assinava em suas cartas, "a mais humilde e ao mesmo tempo a mais soberba de vossas criadas".

Todavia, em um ponto eu já não era exatamente a mesma pessoa, estava mais ajuizado, ou me habituara: minhas investidas iam sendo um pouco menos prementes, meus galanteios, um pouco mais literários. Eu não me dava conta, ela, sim. A condessa não suportava que eu houvesse me acostumado com as relações excepcionais que ela desejara entre nós. Inquietou-se e, pela primeira vez, sentiu ciúmes, sem o menor motivo, aliás: de onde eu tiraria tempo para alimentar romances em minha corrida desenfreada pela Europa?

Nossas relações mudaram sutilmente: ela imaginou que eu estivesse menos apaixonado, senti-a agoniada com o tempo que passava, e mais vulnerável. Em Bruges, numa tarde de verão - seria o charme romântico dos canais ou a sensualidade mística dos quadros de Merrine. -, entregou-me parcialmente

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o que eu lhe pedia nos últimos quinze anos. Não nos saciamos, nem um nem outro, mas, mesmo assim, nos maravilhamos. À noite, anunciou-me que estava cogitando em retornar ao Brasil e fixar-se em Petrópolis.



Os reencontros e as recordações familiares causaram-me emoções mais confessáveis. Em Portugal, fui recolher-me no túmulo de meu pai, acompanhado por anciãos engalanados, sobreviventes das guerras que puseram minha irmã Maria da Glória no trono. Havia tempos que ela morrera, mas eu tinha duas outras irmãs na Europa, que não revira nos últimos trinta anos. Francisca encontrou-me em Rouen, com seu marido Joinville. Agora, os prussianos ocupavam a região e o general deles propôs-me uma serenata e uma escolta: que constrangimento! Eu pretendia passar por Berlim. dois meses depois, poderia, caso recusasse, insultar o imperador Guilherme? Mas como aceitar as salvas de uma soldadesca que ainda vinha fuzilando os gloriosos franco-atiradores de Caux, ali na Normandia? O general entendeu meu acanhamento e, elegantemente, retirou seu tambor e seus ulanos.

Francisca, um pouco gorda mas sempre viva e sedutora, discorreu, alegre, sobre as travessuras que fazíamos juntos na meninice. Com ela, eu teria facilmente me condoído de nossa sina, de sua vida de exilada, de minhas lutas, mas Francisca não aprecia as lágrimas inúteis e permanece tesa diante da vida, quiçá mais do que eu, que cada vez melhor saboreio meus próprios ais. Vez por outra, ela olhava de soslaio para a amiga condessa, como se desconfiasse de alguma coisa. Conversamos sobre o Brasil, ela me exortou encarecidamente a perseguir os republicanos. Deixei-a falar, sorrindo: Francisca sempre foi re-acionária, suspeito que tenha apoiado Boulanger dois anos atrás.

Quanto a Januária, aguardava-me em Southampton com Áquila. Beijando-a ao pé da passarela do paquete, pensei que Isabel puxava a ela, o que, de certo modo, era uma pena. Januária seguia seu caminho de princesa empobrecida, decepcionada com os filhos, mal casada, provavelmente espancada.

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Doce, corajosa, tudo aceitando, e só passando por perto da tristeza nos raros momentos em que buscava explicar o próprio destino.

Por fim, revi minha madrasta Amélia, segunda mulher de meu Pai. Disse o quanto essa Beauhamais inteligente e mundana ajudara-me com seus conselhos epistolares. Ela ia envelhecendo cercada por uma pequena corte, mantendo a dignidade que lhe marcou a vida. Deixara-me quando eu tinha cinco anos, e dela eu só conservava a lembrança muito vaga de um sorriso perfumado. Encontrei-a de cama, da qual não mais sairia, coberta de jóias, preciosa em seus gestos interrompidos às vezes por acessos de tosse, macilenta, sofrendo mas sempre bonita: a neta de Joséphine.

Conversamos sobre meu pai e a filha deles, minha meia irmã, morta aos vinte anos, mais uma! Lamentamos juntos o tempo que se esvai e a vida que poderíamos ter levado: meu pai estaria completando, naquele ano, 73 anos. Amélia teria iluminado São Cristóvão, teria-o transformado numa Malmaison. E eu teria sido um magnífico príncipe herdeiro, viajante e erudito, longe das Câmaras e dos gabinetes, com uma amante titular, reconhecida, uma condessa, por exemplo. Ah! deixemos de divagações.

Quanta doçura nos reencontros! Mas quanta excitação quando descobrimos semblantes que apreciamos sem conhecê-los, correspondentes que estimamos por intermédio de cartas, cuja aparência cem vezes imaginamos, e que finalmente podemos ver rindo, comendo ou coçando o nariz! Meu cunhado Fernando, Pai do rei de Portugal, conquistara minha amizade por suas cartas pacificadoras e sinceras, mas eu jamais teria imaginado aquela bocarra e aquele crânio calvo. Viúvo de minha irmã, ele se casara com a antiga amante e vivia um retiro sereno longe da rude política portuguesa. Em Milão, descobri afinal a juba branca de Manzoni, sempre muito lisonjeado com minhas traduções de seus poemas. Por último, perto de Lisboa, passei longas horas com Alexandre Herculano. Aqui, a

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curiosidade cedia lugar à gratidão e à veneração. Eu lhe devia, ainda lhe devo muito.



Não me lembro mais com que pretexto eu lhe havia escrito nos anos 1850, talvez a admiração por seus romances históricos como A abóbada, narração feérica da construção do mosteiro de Batalha. Na longa correspondência que então nasceu, ele desempenhou o papel de um mentor literário e político e favoreceu, ou talvez determinou, a eclosão de minhas idéias liberais.

Esse espírito bucólico enxergava na pequena propriedade rural e na autonomia das cidades o ideal da sociedade. Amava apaixonadamente a História; sem ter o gosto extremado pelo passado, como Walter Scott, ele daí tirava ensinamentos e propunha-os aos seus contemporâneos para a construção do futuro. Uma de suas idéias, a mais vigorosa, era o anticlericalismo ou, mais exatamente, a recusa de deixar Roma e os jesuítas desnaturarem a refiffio conforme a entendia.

Quando as Irmãs da Caridade, organização francesa extremamente militante, decidida a conquistar o mundo em nome da piedade, instalaram-se em Lisboa, ele proclamou que as freiras portuguesas não as haviam aguardado para cuidar dos doentes. Considerava nocivo e humilhante que tal congregação recebesse ordens de Paris. Eu me deparava exatamente com o mesmo problema no Rio de janeiro: por vezes a caridade dos países ricos substitui, ou precede, as suas canhoneiras. A influência de Herculano guiou-me quando exigi uma reorganização da ordem religiosa no Brasil com um centro de decisão local.

Como é de se supor, na Europa eu devia dedicar certo tempo aos soberanos e chefes de Estado. Assim, encontrei-me com meu sobrinho Luís I em Lisboa, monarca estritamente

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constitucional, amigo das letras, fino tradutor de Shakespeare. Nesses quesitos, parecia-se comigo, e, portanto, desagradoume; como se sabe desde a história de Max, os imitadores enfádam-me. Também conheci o rei da Espanha, Amadeu, de quem mais ninguém se recorda.



Em Roma, procurei reconciliar Pio IX com Victor Emmanuel: solicitaram-me que fosse cuidar de meus assuntos. Aproveitei para ir ver em Perugia o cardeal Pecci, futuro Leão XIII. jantei em Viena com o primo Francisco José: que maçada! No Egito, estive com o Quediva, que queimava em palácios grotescos as rendas anuais recebidas do Canal de Suez, em vez de restaurar Tebas ou Menfis. Vitória convidou-me para o castelo de Windsor, numa curta visita cerimoniosa. Encontrei o Kaiser e Bismarck, Leopoldo II, e o sobrinho de Teresa, rei destronado de Nápoles, Em Coburgo, na propriedade do duque de Saxe, chorei ao encontrar-me com meus netos órfãos. E estive com Thiers, aliviadíssimo por Gobineau ter-lhe descoberto in extremis a partitura do hino brasileiro que a Guarda Republicana assassinou vivace à minha chegada ao Palácio do Eliseu. Um bocado de tempo perdido, mas quem sabe alguns preconceitos desfeitos, e compraz-me pensar que essas visitas serviram a nossa causa.

Eu havia previsto passar seis semanas na França, sendo um mês em Paris, objetivo supremo e coroamento da viagem. Quando eu tinha doze anos, Taunay ali marcara um encontro espiritual comigo. Fui obrigado a esperar trinta anos! Cada leitura, cada conversa haviam aumentado a mescla de fervor, curiosidade e timidez que eu sentia ao me instalar no Grand Hôtel.

Encontrei muita gente em Paris, e, em primeiro lugar, os importunos que ali vivem da incessante circulação de cabeças coroadas. Minha qualidade de príncipe reinante atraiu-me de imediato a brigada das aventureiras e dos espertalhões. Se sorrio ao recordá-los, não é por estar evocando uma aventura qualquer com uma cocote em voga. A dupla vigilância de Teresa e da condessa, aparentemente associadas para garantirem-me

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a salvação, limitava-me a liberdade. Tive que me contentar em colecionar ocasiões perdidas. O que hoje suscita minha alegria é a lembrança do talento, da habilidade, do requinte que os parasitas de alto coturno adquirem quando caçam em Paris. Nem Londres, nem Viena têm vigaristas de tal gabarito. Mas os intrujões do Rio de janeiro também têm alguma competência, e haviam me ensinado mais de um golpe com que pude desarmar as miríficas combinações que me propuseram.

Eu despachava os enfadonhos para dedicar-me aos cientistas. Mesmo no auge da guerra, não abandonara minhas leituras, minhas investigações, meus experimentos científicos. Buscas solitárias: com quem falar? Com quem verificar a exatidão de um cálculo, a probabilidade de uma hipótese? Em Paris, não me faltavam interlocutores de alto nível, mestres que poderiam me orientar. Mas, como chegar a eles? Minha timidez levava-me a duvidar de que aceitassem me ver, pois a glória de um Berthelot ou de um Littré parecia-me infinitamente superior à minha. Levei certo tempo para avaliar o justo peso do prestígio de um imperador e a sensibilidade dos letrados, mesmo parisienses, às lisonjas que lhes fazemos. Quando aprendi a usar essa balança, lá por fins de minha permanência, forcei todas as portas com meu simples título. As da casa de Alphonse Karr, como disse, ou da universidade de Montpellier, onde todo o corpo docente reuniu-se para me encontrar, após um mero telegrama.

Enquanto não conquistava a confiança de um ambiente que não conhecia, eu me apoiava em minhas relações para chegar às sumidades. A condessa conhecia muita gente, Gobineau esforçava-se para me ajudar e, de Harvard, Agassiz multiplicara as cartas de apresentação. Graças a semelhantes apoios, muito depressa encontrei Taine e Quatrefiges, Claude Bernard e Jean-Baptiste Dumas, sendo que cada um deles apresentou-me aos colegas: em poucos dias, conheci praticamente toda a fina flor do mundo científico. Fizeram-me membro honorário-

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de inúmeras sociedades científicas e a imprensa extasiou-se diante das competências do príncipe filósofo.

Tudo isso, confesso, subia-me um pouco à cabeça, e acreditei nos louros que trançavam em minha intenção. Em Paris, centro do mundo, os sábios, os acadêmicos repetiam-me que eu era um deles. Seus elogios eram sinceros? Como adivinhar? Um pesquisador pensa em primeiro lugar em suas verbas, nas relações que deve manter para difundir seus méritos, nos apoios de que necessita na sociedade e nas repartições públicas. Não vai perder a ocasião de encontrar um monarca. Se este, com suas perguntas, demonstra um interesse sincero por seus trabalhos, ele decerto se sente lisonjeado, mas, sobretudo, atraído. Pressente o contrato importante, talvez decisivo. Então, como não exagerar nos méritos do visitante?

A humildade força-me, pois, a pôr um freio em tais bajulações, tanto mais que não eram unânimes: não pude encontrar George Sand nem Victor Hugo; dias depois da Comuna, esses republicanos preocupados com a própria imagem desconfiavam de um contato com a realeza.

Todavia, em dois homens descobri uma sinceridade amável da qual não posso duvidar, e nessas duas personalidades, tão contrastadas, reencontrei com emoção minhas próprias preocupações. Refiro-me a Renan e Pasteur.

A lingüística aproximava-me do primeiro, desde muito; sua extraordinária competência sobre as línguas semíticas orientou meus esforços quando principiei a estudá-las. Encontrar uma raiz, perceber uma desinência, identificar um sufixo conduzia-o, como a mim, à exaltação. Eu também me maravilhava ao descobrir-lhe, mil vezes mais bem expressa do que em minhas anotações pessoais, essa idéia, vital para o homem, de que a História possui um sentido. A seu ver, os persas tiveram essa intuição antes mesmo dos judeus, que a exprimem tão claramente na Bíblia.

Resta saber para onde nos leva a História, e é aqui que intervém a fé religiosa. Conservei a minha, Renan libertou-se

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da sua: "A fé que se teve, escreve ele, jamais deve ser um grilhão. Estamos quites com ela quando a enrolamos cuidadosamente na mortalha de púrpura onde dormem os deuses mortos."



Quando a sua Vida de jesus chegou ao Brasil, causou o mesmo alvoroço que na França: os dois Testamentos submetidos ao exame da ciência! Ele conta a vida de um rapaz simples e meigo, zangado com os irmãos e obrigado por eles a exilar-se em Cafarnaum. Brilhante e pio, assombrado com o próprio sucesso popular, e finalmente sacrificado por uma facção judia. Um homem admirável, único, não um Deus.

O êxito do livro punha em evidência, pela primeira vez, as dúvidas entre a burguesia. A inegável existência de Jesus Cristo até então embaraçara os ateus, aqueles que rezavam com George Sand por sua humanização: "ó, Cristo, virá um tempo... em que te restituiremos tua verdadeira grandeza, a de ter sido realmente o filho da mulher e o Salvador, isto é, o amigo da humanidade."

Renan respondia a essa aspiração. Mas eu, admirando muito o aparato científico sobre o qual ele apoiara essas teses, eu não partilhava de suas conclusões. Parece-me que ele enfraqueceu demasiado o caráter revolucionário de Jesus, que só sua divindade pode explicar.

Em seu laboratório da rua d'Ulrn, Pasteur andava arrastando a perna, seqüela da hemiplegia. Seu nome ainda era bem pouco conhecido. As fermentações haviam-no ocupado por dez anos; em seguida, os bichos-da-seda e o ensino na Escola Normal. No momento, ele procurava uma relação entre as suas descobertas, e pensava tê-la encontrado com a dissimetria molecular. O mineral é simétrico, não o orgânico: "a vida não produz corpos simétricos".

Eu jamais ouvira falar de algo semelhante, pois ninguém antes dele pusera o dedo numa diferença molecular entre o vivo e o inanimado. Na dissimetria, enxerguei um desequilíbrio, portanto, fonte de um movimento que vinculei, um pouco depressa demais, ao da História. O que Renan descobria

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no estudo das sociedades, Pasteur entrevia no microscópio! Mas o pesquisador rigoroso trouxe-me de volta à terra, alertando-me para as conclusões precipitadas. Foi ele, creio, que me citou a frase enigmática de Claude Bernard: "A dúvida é o travesseiro do sábio".

De resto, quando se tratava de História, o pensamento de Pasteur encolhia, e seus pontos de vista limitavam-se à esperança de uma revanche da França contra a Alemanha. Ainda bem que, em se tratando da vida, ele ia mais longe. Enxergava-a por todo lado, e sobretudo em nós, em nosso corpo que fervilhava de micróbios, agentes das doenças virulentas e das podridões: "A vida preside ao trabalho da morte".

Quando o revi seis anos depois, acabava de curar do carbúnculo os carneiros de Brie, e as doenças contagiosas o obcecavam. Tentei sem êxito levá-lo ao Brasil para estudar a febre amarela. Ele preferia a raiva, declinou meus convites, mas aceitou formar em Paris alguns de nossos médicos. Com orgulho, contribuí para a subscrição com que se construiu seu instituto. Meu busto ainda lá se encontra, ao lado do de Madame Boucicaut, confbrme veriflquei em minha última passagem.

Eu discorria sobre o meu país tanto com os cientistas quanto com os reis. Mostrar ao mundo a grandeza do Brasil era parte de meu oficio de imperador, e saí-me muito bem dessa incumbência, foi inclusive a que melhor logrei. Contudo, havia muitos desconhecimentos a suprir e muitos preconceitos a combater. As mundanas, aos acadêmicos, aos deputados, eu explicava que também tínhamos um gabinete responsável, um Instituto dos Cegos e insignes poetas.

Soltavam exclamações de surpresa, recriminavam-se por ignorarem tudo isso. "Mas sim, duquesa, desde a nova lei as crianças nascem livres, a escravidão há de se extinguir naturalmente, sem rebelião como em São Donúngos, nem guerra civil como nos Estados Unidos". Ou: "Nossa imprensa é livre, senhor conselheiro. Assim, durante a guerra que acabamos de

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ganhar, um jornal não cessou de escarnecer toda semana de nossos generais. Chama-se Bataclan, é de um francês".

Para manter o interesse de meus ouvintes, eu adotavalhes o modo de falar, as palavras em voga. Encontrava as anedotas convenientes, as comparações de atualidade, os números que memorizariam facilmente. Para melhor convencê-los, imitava-os e, no afã de querer assemelhar-me a eles, não mais descrevi o Brasil como meu país, minha carne, e sim como uma terra curiosa que eu visitara. Um parisiense narrando suas aventuras por uma região interessante do globo.

Tal qual os viajantes, eu embelezava um pouco, mas não era tonto, pelo contrário. Quanto mais pintava meu país com tintas favoráveis, mais este me parecia pobre, sujo, inculto, complicado e digno da indiferença de meus novos amigos. Eu me empenhara em puxar-nos para perto da Europa, qual um barqueiro rebocando a própria embarcação. Eu alcançara a margem, os curiosos aclamavam-me à salda do hotel, a imprensa tecia-me loas, os cientistas acolhiam-me em seus cenáculos. Mas a barca não saíra do lugar e eu me sentia distante, bem distante dela. Que estava ocorrendo? Havia eu mudado de campo ao mudar de sonho?

Não, certamente! Amava, sigo amando meu país e, sobretudo, meus súditos, essa abstração diversa e colorida, emotiva e orgulhosa, musical e vadia. Mas tornara-me parisiense, eles, não. O desestímulo soprava-me então sua casuística insidiosa: o patriotismo tem tanta relação com a eleição de um domicílio quanto o estado civil com a paixão amorosa. Minha mana Chica venera o país que abandonou aos dezoito anos, mas nunca mais quis pisá-lo. É doce amar o Brasil quando se vive no Rio de janeiro, e mais doce ainda apreciá-lo quando se mora no bulevar Malhesberbes, como meu amigo Nioac, que ali gasta os milhões ganhos no Brasil durante a guerra. É ele que casa a filha com um Krupp no mês que vem, tenho que ir a essas bodas.

Do pesar de não viver em Paris decorria, naturalmente, a tentação de abdicar. Mas será que abdicamos? Como vários

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homens de poder, amaldiçoei meu fardo, embora recusandome a admitir que outro saberia suportá-lo em meu lugar. Imperatriz, Isabel? É demasiado jovem, ora essa, deixemo-lhe o tempo de criar calos. Além do mais, há Gastão, que deve ser vigiado.

Hoje, minha consciência sopra-me maldosamente que a verdadeira coragem teria sido, justamente, passar o poder para minha filha. Ela teria compreendido melhor as idéias novas, teria evitado duas ou três crises que fui obrigado a enfrentar. Gastão, que conhecia os militares, ter-lhe-ia mostrado como amordaçá-los. E tu, prossegue minha consciência, olha o que perdeste por tua vã paixão pelo poder! ,

Está certa? Do que estou seguro é da melancolia que me invadiu quando tomei o barco de volta: o reinício das aulas para um aluno de internato com o coração afogueado pelas delícias do verão. Após a ciência solitária, após Petrópolis, após a verve da condessa, a felicidade da Europa separara-me de meu povo. Em breve, as rusgas parlamentares, as ironias mordazes, os golpes baixos. Encerrado o inebriamento aplicado do príncipe viajante. Um dia, talvez, eu voltaria. Mais tarde, tantas coisas sucedem, mais tarde.

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De volta ao país, fiz o que fazem os turistas: classifiquei as fotografias. Eu trazia malas inteiras. Em cada cidade visitada, em cada escala do trem, ou praticamente em cada uma, eu levava Teresa ao fotógrafo local. Ele tirava nosso retrato e o de nossos companheiros de viagem; mas, sobretudo, comprávamos álbuns. A esse tempo, a maioria dos profissionais ganhavam uns trocados a mais vendendo séries de clichês sobre as paisagens de sua região, os monumentos e as curiosidades, os costumes locais, as festas de santos padroeiros. Eu comprava tudo isso; tenho as Ruines de Paris de Liébert, a Terre Sainte de Mac Veigh, coleções de Disderi e, evidentemente, de Nadar, que me retratou diversas vezes.

As caixas com os clichês que eu estava levando juntaram-se, em São Cristóvão, aos álbuns empilhados há trinta anos. Digo: trinta anos. Arago anunciou em 1839 a invenção de Daguerre; logo em seguida, uma nuvem de fotógrafos estrangeiros invadiu nosso país. Mágicos ambulantes, em sua maioria, que adicionavam a câmera obscura à sua panóplía de mistérios. Iam de fazenda em fazenda, fotografavam os proprietários por dinheiro e os escravos por prazer. Ajudei-os desde o momento em que se abriram ateliês, comprando-lhes séries. Aos mais notáveis, o alemão Keller e seu assistente, o francês Marc Ferrez, confiei a iniciação de minhas filhas nessa arte.

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Todas as nossas embaixadas, todos os meus correspondentes sabiam me agradar expedindo-me fotografias, minha coleção enriquecia-se sem cessar. Com minha viagem à Europa, passou a ser considerável e, depois, gigantesca, quando visitei mais tarde os Estados Unidos e a Rússia: milhares de clichês, todo o século MY, o mundo inteiro em placas!

Perdi tudo isso, e também o resto, quando me depuseram. Pelo sim pelo não, leguei a coleção à Biblioteca Nacional. Talvez ali esteja, dormindo num canto, quem sabe? Eis aí mais um cargo a que aspiro se um dia a República revogar meu banimento. Não faz muito, insinuei aqui que gostaria de encerrar minha vida como um sossegado aposentado em Petrópolis, ou como professor de grego e latim no Rio de Janeiro; iconógrafo na Biblioteca Nacional, incumbido de inventariar as fotografias do citado Imperador, tampouco me desagradaria.

Parece-me que posso valer-me de alguns direitos. Comprei um aparelho de tirar daguerreótipos já em março de 1840, e usei-o durante alguns anos. De modo que fui o primeiro fotógrafo do Brasil, quiçá até o primeiro do continente americano. A menos que tal título pertença a Hercule Florence, nascido em Nice, fazendeiro de café em Campinas, que fazia chapas desde 1833, antes de Daguerre. Inventou ele o processo? Foi o que afirmou, mas vários outros no mundo avocaram, essa paternidade duvidosa. O que parece certo é que ele cunhou o nome da técnica, o que já é alguma coisa. A palavra fotografia foi escrita pela primeira vez no Brasil.

A classificação das fotografias de viagem de nada adiantou para que eu recobrasse o bom humor; ao contrário, avivou-me os arrependimentos de haver trocado Paris, onde festejavam-me, pelo Rio de janeiro, onde criticavam-me as decisões mais inofensivas. Minha saúde alterou-se: surgiu o diabetes, junto com uma erisipela que demorou meses para ser curada. A fadiga moral acrescentava-se agora uma prostração física; eu dormia cada vez menos à noite, e cochilava cada vez mais de dia. Na missa, nas audiências, nos exames que eu

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presidia, na ópera: nova razão para que os chistosos de sempre zombassem do Imperador.



Essa moléstia, essa fadiga permanente reforçaram a sensação de indiferença que me tomava desde Paris. O destino de meu povo importava-me um pouco menos, o meu preocupava-me um pouco mais. Eu ia me aproximando dos cinqüenta anos, meus cabelos haviam encanecido, bem como a barba, minha fronte sulcara-se de rugas, trinta anos de esforços para fazer-me respeitado haviam me conferido uma aparência severa e solene, em suma, eu aparentava um velho.

Decerto, ainda sentia-me jovem, capaz de grandes esforços e inclusive de grandes ilusões, houvessem eW me empolgado. Infelizmente, buscava em vão desígnios a perseguir, inimigos a vencer. A pobreza, a injustiça, as epidemias, tudo o que outrora deixava-me fervilhante e com furiosa energia já não me inspiravam senão compaixão sombria e lassa. Vivera meu único sonho em Paris; mal desembarquei, já calculava a data de núnha próxima viagem. Até lá, mantive uma correspondência frenética com meus novos amigos da Europa, convidei-os a ir ao Brasil, condecorei-os, prometi-lhes ir um dia revê-los em seus países.

A condução do Estado vinha em seguida. Por muito tempo haviam me recriminado imiscuir-me demasiado na política; na minha idade, eu podia sossegar um pouco. Aliás, não sentia mais vontade de lutar. Parecia-me menos imperativo provar meus méritos, afirmar minha força. Não havia eu me imposto na Europa, ali onde isso vale deveras? Lá, respeitavam-me, para que exaurir-me aqui? A máquina funcionaria sem mim, ou pelo menos sem minha vigilância diária.

Em nenhum caso eu abriria mão de qualquer de minhas prerrogativas; eu afastara a abdicação, não haveria de tolerar o menor sinal de enfraquecimento. Mas, doravante, poderia evitar os embates com os meus políticos. Prossegui escolhendo os presidentes do Conselho, mas o fiz deixando de lado minhas próprias preferências, e só tornei a dissolver a Câmara

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com infinita prudência. Vi-me obrigado a engolir certas cobras, mas praticamente não houve mais protestos contra o meu poder pessoal: encontraram-se outros pretextos para me atacar.



Destarte, exceto em raríssimas ocasiões, não mais governei diretamente após meus cinqüenta anos. Mas estava lá, e reputava ser minha presença suficiente para preservar o essencial: a monarquia para Isabel, a paz civil, a moralidade politica. A título de armas, só dispunha de minha personalidade, do respeito que continuava a me ser manifestado, apesar das caricaturas e das calúnias, e do temor que eu inspirava. Bagehot descreveu essa forma espiritual de poder na sua Constituição Inglesa. O monarca, escreve ele, possui "o direito de ser informado, o de encorajar, o de alertar". Era bem pouco se comparado com o poder quase absoluto de que eu dispunha aos quinze anos, mas eu não era nada aos quinze anos, e não sou nada hoje.

Por volta de 1872, era, creio, alguma coisa. Um homem muitíssimo bem informado, mais culto, mais erudito, mais experiente do que seus ministros e moralmente inatacável. Um homem tenaz, que se inclinava, caso fosse necessário, mas que não cedia jamais sem ter claramente explicitado o seu desacordo. juntando tudo isso, a alquimia política destila em suas retortas a forma mais sutil do poder, talvez a mais eficiente: a influência. Graças a esta, durei dezessete anos.

As notáveis qualidades de meu presidente do Conselho facilitaram-me o progressivo afastamento das lutas políticas: ao meu regresso da Europa, eu podia me escorar em Paranhos, visconde do Rio Branco.

Um dos mais antigos servidores do Império: Aureliano descobrira-o, Paraná orientara-o para os negócios estrangeiros. Aí ele fez carreira, desde o cerco de Montevidéu, nos anos 40, até a instauração de uma República liberal sobre os escombros do Paraguai.

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Era sempre visto cercado pela fumaça de um charuto, trinta por dia, afirmava. Um homem alto e forte, olhar penetrante sem acrimônia, costeletas magníficas. Cético e bon vivant, ele imitava o inglês nas suas idéias e no seu comedimento, na elegância e até no gosto pelo vinho do Porto. Menos brilhante do que outros em seus discursos, sabia melhor que ninguém tomar um adversário pelo braço, convencê-lo de se sentarem juntos na discrição de uma ante-sala, inebriá-lo de adulações e de argumentos e, finalmente, arrancar-lhe o voto: um homem de bastidor, mais que de tribuna.



Em poucos meses, obtivera a aprovação da lei do Ventre Livre, desde alguns anos atascada no Conselho de Estado. Então, excitado por uma febre de reformas, cuidou do serviço militar, do ensino superior, das concessões de estradas de ferro, da reforma eleitoral. Elevou os direitos alfandegários, procedeu à concessão das docas do Rio de janeiro e lançou programas de saneamento. A Câmara votava tudo, subjugada por sua energia. Também traçou um plano de grandes obras que pôs o Rio de janeiro de pernas para o ar. Foram abertas avenidas, criados subúrbios bonitos, modificados os acessos ao porto, redesenhados os jardins públicos. Doravante, um cabo telegráfico ligava-nos à Europa; disso tirou proveito a agência noticiosa Reuter, que se instalou no Rio de janeiro, e graças a ela nossa imprensa abriu-se para o mundo. Por todo lado, a mudança, as técnicas novas, as idéias modernas. Por todo lado, menos entre os padres.

Ordenei a prisão de bispos, é verdade. Eu, um homem maduro que se supunha cansado dos combates, um católico praticante, comprometido por juramento a defender a religião em meu Império. Pensa-se em Filipe, o Belo, em Henrique Plantageneta: como é possível?

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Odeio o sectarismo, relíquia pestilenta de outra era. Dele acreditei que saberia preservar meu povo, e tê-lo-ia logrado caso nos tivessem deixado em paz. Mas as lutas religiosas infectaram meu século; pior, entravaram-no quando ele caminhava para a luz, que desperdício!



Entretanto, eu devia ter desconfiado quando uma delegação de bispos foi me ver para rogar-me que não condecorasse Renan. Expressei minha admiração amigável por esse grande pensador; eu estava prestes a fazê-lo cavaleiro da Ordem da Rosa, junto com o republicano Jules Simon. Mas, a esse tempo, todos os tambores da cristandade rufavam contra a Vila dejesus, minha intenção foi reputada escandalosa e imaginou-se que uma trinca de bispos melífluos far-me-ia mudar de opinião. Despachei os prelados e expedi a condecoração.

A Igreja evoluía, como tudo em nosso século, mas, ao invés de se adaptar, conforme imaginaram os cristãos progressistas Lamennais e Lacordaire, ia enrijecendo-se. Pio IX, ancião encanecido confinado sob as abóbadas sistinas, só ouvia ainda uma camarilha de ultramontanos que os jesuítas alimentavam em argumentos teológicos.

Toda essa alta cúpula percebia a imensa popularidade do Santo Padre entre o baixo dero do mundo inteiro. Mesmo em nossa terra, os pequenos curas sentiram que pela primeira vez um papa interessava-se por eles e compreendia-lhes as dificuldades. Diante de seu zelo paternal, empenhavam-se em instruir-se e em restaurar a moral em suas vidas privadas. Demonstravam à autoridade pontifical imensa gratidão, e seguiam-na cegamente.

Sobre essa popularidade os conselheiros do velho pontífice edificaram sua funesta política. Inventaram uma ameaça que pesaria sobre a Igreja: o liberalismo, apoiado pela "má imprensa". Saíram em guerra contra esses demônios, contra os clérigos que os toleravam, contra os governos que eles haviam seduzido. A verdade, a deles, nascida em Roma, juravam impô-la a todos. Destituído de seu poder temporal, o papado

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tomaria a frente de uma organização disciplinada, superior aos Estados, aos quais ditaria sua lei espiritual, Os breves, as constituições, as bulas, as encíclicas caíam em rajadas sobre a cristandade estarrecida, enquanto as congregações erguiam a cabeça.



Assim sendo, foi preciso aceitar a Imaculada Conceição, a devoção ao Sagrado Coração. Em 1864, o Syllabus abalou os espíritos. Esse anexo da encíclica Quanta Cura enumerava os pecados de nosso tempo: Syllabus complectens praccipuos mostrae actatis errores; entre estes, o espírito liberal e a maçonaria, peste diabólica. Por fim, em 1870 veio o golpe de força do Concílio, a votação, arrancada às pressas, da infalibilidade papal, quando sessenta bispos já haviam deixado Roma para marcarem sua díscordância.

Essa avalanche de textos fulminatórios contrariava-me. Neste relato, aqui e acolá mencionei minhas convicções religiosas. Sou católico. Observei toda a minha vida os ritos dessa religião. Em maio de 1877, em Orléans, na procissão de Joana d'Arc, conduzi o pálio de monsenhor Dupanloup; em dezembro, comunguei em Belém no dia de meu aniversário. Assisto à missa em Vichy todo domingo, e com maior freqüência quando acompanho Isabel.

O ateísmo de um Renan ou de um lÁttré jamais tentou-me, e temo o dia, se este chegar, em que as descobertas da ciência haverão de impô-lo. Pois a religião é indispensável ao homem: propõe-lhe a moral, promete-lhe a recompensa e ameaça-o com o castigo. Não vejo outra maneira de fazer a besta humana avançar: há que existir um deus, porque há que existir um inferno.

Os oficiais ateus que me depuseram professam uma religião cujas tolices explicarei em breve. Sei que está condenada ao insucesso porque, justamente, não comporta qualquer moral.

Porém, muito embora sendo católico, sinto-me também protestante, e judeu. Não duvido de que exista um deus, mas não estou certo de qual. O dos reformados atrai-me por sua tolerância, o dos judeus, por seu clã histórico. Se me ative às

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práticas de minha infância, em vez de adotar um ou outro desses credos, foi porque não se comete apostasia, assim como não se abdica. Por respeito a meu povo, por delicadeza com minha mulher, por ternura por minha filha, vou à missa.

Ecumênica e tolerante, minha fé rebelava-se naturalmente contra as virulências da Cúria. Esta não me preocupava sobremodo, pois eu dispunha de armas para lhe resistir.

Tais recursos contra a guarda negra de Roma não me vinham de uma Concordata nem da Constituição. Meu poder sobre os padres, extraía-o de outra fonte, da herança Bragança. Uma bula antiga, Praeclara Portugalliae, outorgara aos soberanos portugueses, meus ancestrais, o direito de recusar a publicação de decisões pontificais em seu território. Para que viessem a ser aplicáveis, eu devia apor-lhes o meu Placet. Eu não dera o meu beneplácito à Quanta Cura nem ao terrível Syllabus. Ademais, como mestre de uma ordem de cavalaria, a Ordem do Cristo, eu mesmo nomeava os bispos e controlava seus deslocamentos.

Fossem tais prerrogativas meramente constitucionais, e eu teria quiçá me enfurecido menos nos episódios que se seguiram. A idade ia deixando-me conciliador, conforme disse. Mas não com respeito a um direito pessoal; este me vinha de meus ancestrais, eu o legaria à minha filha, e não suportava que se pudesse questioná-lo. Sempre conservei uma concepção patrimonial ou, caso se prefira, fúndiária, do poder. Ceder nesse ponto era abandonar uma antiga servidão, o direito de cruzar um campo, de usar um poço.

Aliás, até 1872, nem Roma nem meus súditos procuraram infringir meus direitos. Os padres cumpriam o seu oficio, e eu, o meu. Quanto aos monges, minha desconfiança era maior, não me apraz ver em meu país organizações submetidas às ordens do estrangeiro. Fechei os noviciados de nossos beneditinos e de nossos franciscanos, proíbindo-lhes formar novos monges. Com o tempo, seriam gradualmente extintos, à semelhança dos escravos com a lei do Ventre Livre. Só tolerei

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os colégios jesuítas porque carecíamos de professores. Apenas os capuchinhos podiam fazer o que lhes aprouvessem. Foi justamente um deles que armou a tempestade, após meu regresso da Europa.

O bispo de Olinda falecera e eu devia encontrar um titular para essa diocese de intenso lustro. Meu ministro dos Negócios Interiores, oriundo da região, propôs-me um certo dom Vital, capuchinho formado em Paris, virtuoso, inteligente, em suma, investido de todas as qualidades. Senão uma, porém: a experiência; tinha apenas 28 anos. Hesitei, o ministro insistiu: o monge era parente distante seu. Findei aceitando. Informei Roma que, por sua vez, espantou-se com a extrema juventude do impetrante. Mas Roma não podia recusar e entronizei o novo bispo.

Ele entrou em funções num momento em que as relações entre a Igreja e a maçonaria deterioravam-se em todo o Brasil. Contudo, as duas instituições conviviam, até então, em bons termos: colaboravam nas obras de caridade dentro do que chamávamos de Irmandades, associações leigas ligadas a uma paróquia, financiadas por dons, e que geriam igrejas, leprosários, hospitais e escolas para os pobres. Trabalhavam juntos a fazer o bem, e depois, iam, uns à missa, outros à loja, ou inclusive às duas, pois muitos de nossos padres também eram maçons.

O Syllabus veio destruir semelhante harmonia benéfica. Entre nós, seu valor era nulo, posto que eu não o aprovara, mas o texto circulava atrás da cortina. Os maçons, indigitados por Roma, irritavam-se com tal arrogância. Os padres hesitavam, mortificados entre o bom sorriso de Pio IX e seus companheiros de irmandade. Ambas as partes cometeram excessos que certos bispos quiseram reprimir. Uma loja do Rio de janeiro festajava seu cinqüentenário, mandou celebrar uma missa em homenagem, o que evidencia bastante bem o espírito conciliador de seus membros, mas o bispo demitiu o padre

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que oficiara. Um de seus companheiros tomou a palavra num banquete para fazer o elogio da maçonaria, e foi repreendido.



Rusgas sem importância, simples gestos de mau humor episcopal. Dom Vital tinha outros desígnios. Com o Syllabus na mão, proibiu seu clero de participar de cerimônias maçônicas: terreno puramente espiritual, eu não devia protestar. Em seguida, voltou-se para as irmandades, onde descobriu maçons e intimou-os a abjurarem suas crenças: recusaram. Então, dom Vital interditou essas Irmandades, as igrejas que elas administravam e bloqueou-lhes as verbas. Era ir longe demais; em nome de uma lei estrangeira, não ratificada no Brasil, ele lesava interesses laicos. Rio Branco, presidente do Conselho, franziu o cenho. Ele era grão-mestre do Grande Oriente e não apreciava, tanto quanto Pio IX, que tocassem em seus fiéis. Quanto a mim, furioso com os desmandos de um bispo que eu vinha de nomear, senti-me pessoalmente visado e não sabia o que fazer.

Os maçons de Pernambuco encararam a questão como a ocasião de se darem a conhecer e de encerrarem sua querela com o bispo. Levaram-no ao tribunal e intimaram-no a anular as interdições. No Rio de janeiro, o jornal católico O Apóstolo soltava gritos de horror, enquanto a imprensa de esquerda caçoava de minhas contrariedades.

Uma situação delicada, portadora de pesadas ameaças. Mandei o presidente da província ir conversar com o capuchinho, foi um total malogro. Ao contrário, esse novo SavonaroIa demitiu o decano da catedral de Olinda por suas relações maçônicas. Em Recife, a multidão irada quebrava as vidraças do colégio dos jesuítas, porém, mais ao norte, em Belém, o bispo do Pará repetia a ação de dom Vital, com as mesmas conseqüências. Agora, eu devia levar dois prelados às costas.

No plano jurídico, não se discutia a culpa dos bispos. Eles incorriam em pena de prisão. Cumpria reagir a qualquer custo. Enviei a Roma um embaixador para prevenir a Cúria sobre o que ia suceder se os bispos não capitulassem imediatamente. O diplomata

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abrandou meu ultimato com suficiente unção para obter da Secretaria de Estado, contra todas as expectativas, que desaprovasse seus pastores numa carta secreta: "Vossa conduta não é louvável, Gesta tua non Imídantur". Vencêramos: certo dia eu intimidara a Inglaterra, agora impunha-me ao Vaticano.



Mas a formidável máquina judiciária brasileira pusera-se em marcha, nada mais a deteria. Enquanto a carta papal caminhava pelos complicados meandros do protocolo eclesiástico, um procurador imperial intimou os bispos a retratarem-se. Sob suas mitras já nascia a doce, exaltante, perspectiva do martírio. Negaram-se: foram presos antes de ser julgados.

Quando o papa inteirou-se de que os dois destinatários já se encontravam atrás das grades, anulou a missiva, comunicou seu apoio aos presos e mordi os dedos por ter me afobado tanto.

O Supremo Tribunal anunciou a sentença: quatro anos de prisão com trabalhos forçados, imediatamente comutados em reclusão. A condenação transformou os sediciosos em vítimas. Recebiam em suas celas romarias de fiéis e de padres; dom Vital lançava da casa de detenção uma nova pastoral, tão incendiária quanto as precedentes. Por sua vez, o resto do episcopado condenava a maçonaria, cinqüenta anos de colaboração benéfica e pacífica iam-se em fumaça.

Pouco depois, chegava-se aos tiroteios. Nesse momento tão dificil de dúvida íntima, de ódio fraterno, de antagonismo venenoso, rugiu a revolta no Nordeste. Uma população selvagem e mística vivia nos sertões gretados dessa região. A questão dos nordestinos não tinha qualquer relação com dom Vital, eles não empolgaram armas para defender os bispos, mal sabiam que havia bispos. Se um dia empunharam facões e garruchas, foi para acabar com o sistema métrico, e deram a si mesmos o apelido de quebra-quilos.

A história ensina-nos que podemos nos sacrificar por várias causas, porém, eu não suporia que fosse possível morrer pela vara, pela toesa ou pela onça. Mas sim. Eu havia insistido

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para que se implantasse o sistema métrico no Brasil. A lei instituía sensatamente um prazo de dez anos para que se pudesse educar as populações e convencê-las das vantagens das novas medidas. Organizou-se uma campanha de informação por todos os sítios, menos no Nordeste, que provavelmente foi reputado longe demais, ingrato demais, quente demais. Em 1872, quando o prazo expirou, os inspetores dos mercados impuseram a lei a camponeses espantados, que se revoltaram no mesmo instante.

Culpa de quem? Culpa dos padres, bradaram os maçons, enquanto colunas rebeldes saqueavam armazéns e incendiavam coletorias. Procurando bem, encontraram de fàto alguns padres na insurreição, bom pretexto para castigar, e que serviu para expulsar alguns jesuítas, enquanto a tropa restabelecia a ordem.

Seis meses depois, o prezado e velho Caxias, retornando mais uma vez ao governo, logrou arrancar de mim a medida que todos esperavam e que terminei por aceitar a contragosto: a anistia dos bispos. Roma levara a melhor.

Mas eu havia me retratado tarde demais. À esquerda, os republicanos convidavam os católicos a unirem-se a eles, ao passo que os maçons, após me aplaudirem, acusavam-me agora de capitular diante da batina. Dividia-se o pais, uma fissum profunda, dolorosa, que rachava as amizades e as famílias. Eu o sentia muito bem em meu próprio lar, enquanto andava a pelejar-me contra os padres: Teresa resmungava em silêncio, Isabel queixava-se de meu sectarismo, Francisca escrevia-me suplicando-me que recobrasse o juizo. A própria condessa, a condessa, que acabava de chegar, que se instalava num chalé em Petrópolis, considerava que eu me excedera.

Só estávamos todos de acordo numa questão familiar: Isabel e Gastão acabariam tendo um filho?

Havia dez anos que o desejavam, em vão, e minha tristeza de pai crescia em virtude da preocupação política. Que sucederia

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com a dinastia? Talvez eu lograsse, apesar de todos os preconceitos, impor uma mulher para minha herdeira, mas, como impor uma princesa estéril?



Isabel fez o que fazem as mulheres em semelhante caso: novenas e curas em estações termais, Em desespero de causa, foi se consultar na Europa, seguiu um tratamento e afinal engravidou. Ora, o príncipe herdeiro devia nascer no Brasil, para que houvesse a certeza de que era brasileiro, e só isso. Assim é a vida dos reis: a menor dúvida com respeito à paternidade ou à nacionalidade e deparamo-nos com uma guerra de sucessão nos braços. Isabel havia que retornar ao Brasil.

Durante seu oitavo mês, quando julgávamos os bispos, minha filha fez uma viagem horrível, seguida por um parto atroz no Rio de janeiro; oito horas de sofrimentos antes de dar à luz uma menininha loura, morta.

No ano seguinte, grávida de novo e aterrorizada pela perspectiva de um novo revés, Isabel pediu-me para mandar buscar seu obstetra da França, o doutor Depaul. Eu sabia muitíssimo bem o que ia suceder. Convocar um francês para presidir ao nascimento do príncipe herdeiro era infligir uma afronta pública à medicina brasileira, levantar uma dúvida a respeito do patriotismo dos Bragança, alienar de si uma parte da opinião nacional, essa que se irritava mais e mais com os galicismos de meu genro, que não eram apenas sintáticos. Contudo, que pai recusaria a uma filha seu médico, após o que ela acabava de padecer? O francês chegou, Isabel deu à luz Pedro, meu neto.

Ele cresceu em Petrópolis, bem pertinho do palácio de seu avô. Agora, vive em Paris, com seus irmãos, tem dezesseis anos, vejo-o amiúde. Está cada vez mais bonito, um rapaz encantador, meigo e fino; Pedro, Pedrinho, meu herdeiro, futuro imperador do Brasil, pois essa República não há de durar, sinto: Pedro III!

Meu querido, teu nascimento causou-me muitos aborrecimentos. Esse doutor Depaul, era um francês da espécie vaidosa. Adular seus confrades brasileiros pouco esforço ter-lhe-ia

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custado, mas, ao invés disso, publicou artigos sarcásticos contra eles em Le Figaro, pelos quais, claro está, fui acusado. Que sombria solidão é a dos reis sinceros consigo mesmos, será que um dia a conhecerás? Estudaste bem o teu Cina?

J'ai souhaité l'empire et fy suis parvenu Mais en le souhaitant, je ne l'ai pas connu. Dans sa possession j'ai trouvé pour tous charmes D'effroyables soucis, d'éternelles alarmes, Mille ennemis secrets, la mort à tous propos, Point de plaisir sans trouble, et jamais de repos.*

Os fazendeiros desertavam-me porque eu libertava seus escravos, os padres, porque eu era tolerante, os nordestinos, porque eu acreditava no sistema métrico, e agora, os médicos, porque eu amava demais minha filha. Aprofundava-se o vazio ao meu redor, eu carecia de ar, saí em viagem.

A bordo do navio que me conduzia aos Estados Unidos em princípio de 1876, eu buscava todas as ocasiões para praticar o meu inglês. Conheci uma jovem norte-americana, filha de quinquilheiros que haviam enriquecido em Montevidéu. Habituamo-nos a ler juntos Shakespeare no tombadilho, cada um representando três ou quatro papéis, num momento em que Teresa e suas damas de honra faziam a sesta.

Essa jovem desinibida, grande organizadora de jogos, rainha das fantasias pitorescas e de hilariantes passagens pelo Equador, dirigia a toque de tambor os passageiros da primeira classe. Comigo, desde a partida deixara de lado toda e qualquer

Desejei o império e o conseguil Mas, ao desejá-lo, não o conheci./ Em sua possessão encontrei à guisa de encantos /Aterrorizantes preocupações, eternos alarmes,/ Mil inimigos secretos, a morte a todo momento/ Nenhum prazer sem tumulto e nunca o repouso, (N.T.)

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timidez, supondo-se que a tivesse, e tratava-me com magnífica familiaridade, gostinho antecipado, pensava eu, da simplicidade norte-americana. Esqueci-me de seu nome, e se me lembro dela é porque seu olhar, um olhar sincero de mulher livre e decidida, plantou por vezes no meu questões que me agoniaram e fizeram-me baixar os olhos. Eu tinha mais de cinqüenta anos, ela, menos de vinte. Sua juventude feriu-me.



Enamorada, impudente ou simplesmente natural, essa criança despertou-me uma agitação que me acompanhou por toda a viagem e mesmo depois. A castidade que eu observava de modo relativamente estrito desde que conhecia a condessa principiou-me a pesar. julgara-me velho, a norte-americana revelou-me que eu ainda podia agradar e brincar, e que não havia tempo a perder.

Essa viagem fora preparada com tanto cuidado quanto a anterior: os Estados Unidos, e depois a Europa. Um pouco de Ásia, um pouco de África e seis semanas em Paris para coroar tudo isso. Isabel, jovem mamãe exultante, assumia a regência pela segunda vez.

A imprensa norte-americana, muito excitada, anunciava minha chegada iminente: pela primeira vez, um monarca reinando desembarcaria no berço da democracia. O Herald enviara um jornalista ao Brasil para acompanhar-me durante a travessia e a estada e relatar em suas colunas as reflexões cotidianas de um imperador em Nova York. Fiquei amigo desse rapaz e, creio, amigo de seus leitores.

Em realidade, eu reunia todo o necessário para encantar a América. Para início de conversa, era um imperador, e sabe-se como as repúblicas mostram-se apaixonadas por monarquias, quando estas são estrangeiras; um turista bonachão que conversa com todos, que anda pelas ruas e aluga fiacres. Um amador do bom teatro que os nova-iorquinos tanto apreciam; um indagador incansável, que visita as fábricas, os campos de petróleo e as prisões. "Não fosse rei, escreviam os jornais, daria um excelente repórter". Por fim, um homem de ciência.

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Dentre tantos episódios que alegraram as redações, limito-me a narrar aqui o do Observatório de Washington, do qual muito me orgulho. Lá estive após ter cumprimentado o presidente Grant e almoçado com Sherman, dois heróis da guerra civil. Bastante bem aparelhado, esse Observatório é aproximadamente do nível daquele que o sr. Liais dirigia em nosso país. Mostraram-me as lunetas e os telescópios, e depois, de passagem, o relógio, diante do qual não desejavam se demorar: havia dez anos que se encontrava avariado e ninguém sabia consertá-lo. O relógio intrigou-me, pois era elétrico, o primeiro desse tipo no mundo; por que a avaria?



Entreguei o paletó do fraque a um camarista, acocoreime, examinei a base da máquina. Pedi que me providenciassem um nível de bolha, convidei os astrônomos a verificar: o pedestal, ligeiramente afundado pelo peso, não estava mais horizontal e seu desaprumo bloqueava o mecanismo. Que jornalista não se regalaria com semelhante história?

Eu desejava conhecer o Oeste e suas novas províncias, pelo menos a Califórnia, anexada trinta anos antes, rica e corrompida pelo ouro. Uma longa viagem de trem: a vegetação amarela cobrindo a pradaria plana, pequenas estações tão isoladas que nos perguntávamos quem as freqüentavam, mais vegetação, uma família de bisões, aqui e ali. Matadouros em Chicago, mórmons em Utah, onde encontrei Brigham, Young e os doze apóstolos do seu governo. Enfim, San Francisco, a cidade nova aninhada sobre o promontório, vigiando o rebanho de navios na baía. Não havia muito o que ver, apesar do entusiasmo de meus anfitriões, pioneiros rudes para quem o menor lampadário merecia uma visita. Apertei a mão de Stanford, homem das estradas de ferro e da universidade, e esquivei-me para dar um pulo à sinagoga.

Essa escapada rumo a Israel, permiti-me fazê-la em Londres, em 1871, e repeti-a mais tarde, em Odessa. Às vezes a imprensa torcia o nariz, mas sempre menos do que minha própria família. Eu me justificava lembrando que no Brasil

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não tínhamos judeus nem sinagogas. Na realidade, sinto pela Arca uma admiração respeitosa e não vejo razão em me proibir inclinar-me diante dela quando se me apresenta a ocasião. A sinagoga também é, além do gabinete de Renan, o único lugar onde posso falar hebraico.

Entro gravemente, converso um instante com os rabinos, em seguida peço para ver os textos. Espantam-se um pouco, cedem à fantasia do augusto visitante, e eu, empunhando os rolos sagrados, ponho-me a recitar no meio dos religiosos que, de tão emocionados, ficam mexendo em seus filactérios. Positivamente, mais aprecio os justos de Israel do que os Santos dos últimos Dias de Salt Lake City.

Essa recordação traz-me à memória a excelente notícia recebida ontem. Em Carpentras, os juízes da Corte de Amor apreciaram a tradução dos cantos hebraicos do Comtat que tanto trabalho me deu no mês passado. Muito mais do que um sucesso de estima, afirma Mistral, um triunfo: medalha de ouro hors-concours. A notícia provoca-me uma alegria infantil, e também, como sempre quando me recompensam, o desejo de melhorar, de encontrar outras dificuldades para superá-las. Há muito sei disso: as críticas paralisam-me e os elogios estimulam-me. Hei de descobrir diversos outros campos de estudos a cultivar. Prevejo um outono aplicado, um inverno fecundo. Coragem! Mesmo para mim, o futuro ainda existe. Só mais uns dias em Vichy e depois a Renânia, e depois Paris. Isabel há de descobrir onde me alojar. já não disponho de meios para me hospedar no Grand Hôtel, como outrora; necessitaria de um recanto digno e barato; um quarto, um escritório, perto da Madeleine, talvez.

Longfellow vivia em Brattle Street, em Cambridge, pertinho dos muros da Universidade de Harvard. Reputo-o um

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dos grandes poetas de minha geração. Como nosso Castro Alves, expediu o esquadrão de suas estrofes contra as falanges da escravatura e terminou por derrotá-las:



In Oceans wide domains,

Half buried in the sands, Lie skeletons in chains

With shackledfect and hands.

These are the bones of Slaves,

They gleamftom the abyss, They cry, from yawning waves:

"We are the witnesses".

No combate das idéias, um bom poeta vale por cem jornalistas.

Nós nos correspondíamos há anos e, é claro, eu havia lhe submetido certos ensaios de tradução de suas obras, um pouco do Evangelina e todo o Conde Robeno de Sicília. Respondera-me com elogios tanto mais aduladores quanto lia português bastante bem. Eu exultava de poder enfim conhecê-lo, expressar-lhe minha admiração, convidá-lo para ir ao Brasil. Os poucos dias que passei em Harvard superaram tudo o que eu almejava.

Ali eu não era um absoluto desconhecido. Fazia pouco que Agassiz falecera, mas sua mulher e seu filho esperavam-me, com WiWamjames. Conheciam todos na pequena cidade e graças a eles compreendi a admirável, a fecunda comunhão de talentos que a universidade permite. Temos no Brasil faculdades especializadas, isoladas, zelosas de sua ciência e desdenhosas com as outras disciplinas. Havia alguns anos que estávamos tentando unir todas elas, de preferência segundo o modelo alemão, mais autônomo do que o francês; todos os meus esforços baldaram diante da parvoíce dos mandarins, incapazes de imaginar que um contato permanente com outros cientistas alargariam-lhes os horizontes.

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Em Harvard, as idéias, todas as idéias conviviam numa harmonia burguesa. Encontrava-se o matemático na quitanda, o astrônomo morava na esquina, o biólogo organizava bailes memoráveis, o botânico cuidava das pescarias. Aquelas duas silhuetas que caminham conversando sob os pés de bordo: um fisico e um paleógrafo. De que estão falando? De política, de dinheiro, ou de mulheres, mas talvez também de botânica ou das pesquisas sobre as quais se debruçam durante a noite. O importante é que troquem idéias, e jamais pude fazer com que dois sábios brasileiros conversassem assim.

Na casa de Longfeflow, havia um pequeno salão de onde saíamos de vez em quando para tomar ares num jardinzinho coberto de sarças. Éramos seis ou sete: três poetas, um historiador de arte, um filósofo, e não dos menores, Emerson, o homem do transcendentalismo. Falei um pouco a respeito do Brasil, escutaram-me por cortesia, e bem depressa calei-me para deixar que a conversa retomasse, fascinado pelo alto nível dos pontos de vista e pela simplicidade do tom. Longfellow traduzira Dante, incitei-o a traduzir Camões, imagina-se o que tais espíritos tinham a dizer sobre esses gênios: que conversa!

Fui obrigado a me separar dos intelectuais, pois o centenário da independência chamava-me à Filadélfia, onde se comemoravam cem anos de liberdade com uma Exposição Universal. Inaugurei-a junto com o presidente Grant, e em seguída concederam-me um passe para eu retornar quando quisesse. Ali conheci dias de estudo: toda a técnica moderna em dez hectares!

Em um canto pouco freqüentado da Exposição, certo dia reconheci um expositor, um jovem professor da Escola de Surdo-mudos de Boston que eu visitara quinze dias antes. Insistiu em mostrar-me sua invenção para a qual ninguém atentara, um aparelho derivado do princípio de Koning sobre a transmissão dos sons. Eu estava um tanto apressado, pois o prefeito da Filadélfia escoltava-me com os membros do júri, vultos científicos, jornalistas. Mas o moço inspirava-me simpatia, fiz com que toda aquela gente parasse e prestei-me alegremente

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à demonstração: um verso de Shakespeare murmurado num funil e que o sr. Ba que se embaralhava entre os fios no extremo oposto do saguão, repetiu-me no aparelho de escuta. No dia seguinte, toda a imprensa comentava a invenção testada Pelo imperador. Prometi comprar-lhe um desses telephones tão logo estivessem realmente aperfeiçoados, o que fiz, em 1880.



Meu programa na Europa dependia do que se decidisse em Bruxelas, nossa primeira etapa. Lá, a condessa iria ao nosso encontro. Eu convocara dois médicos, Charcot, cuja reputação alcançara o Brasil, e Brown-Séquard, amigo de Agassiz que deixara Harvard para se instalar em Paris. Examinariam Teresa e decidiriam um tratamento apropriado para a doença nervosa que desde anos a atormentava. Previa eu que os acadêmicos de medicina recomendariam um tratamento de águas, durante o qual eu iria visitar a Escandinávia e a Rússia: haviam me convidado para o congresso dos orientalistas, em São Petersburgo. E depois, iríamos reencontrar-nos para irmos, Teresa e eu, à Terra Santa e ao Egito. Em seguida, é claro, Paris! Offenbach, os literatos, os sábios, tal qual na última vez. E, quem sabe, outra coisa. Afinal, conviria verificar: já seria eu um velho? O olhar da bonita passageira não me largava mais.

Entrementes, podia ir anunciando minha chegada próxima aos amigos e, por que não?, às amigas. Enviei de Nova York um pacote de cartas às quais, para certas pessoas, juntei núnha fotografia. Não se imagina como a fotografia transformou os métodos de sedução. Em minha juventude, contávamos com as miniaturas, mas a miniatura é infiel é dispendiosa. A fotografia, ao contrário, mostra-nos a preços módicos; enviamo-la à pessoa amada para que ela nos aguarde contemplando-a, expedimo-la à presa cobiçada para que e-la decida, apoiando-se em provas, se convém pensar numa rendição. Foi

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assim que me servi da fotografia no verão de 1876, inclusive acrescentando, no verso de algumas placas: "Como podes ver, cara amiga, mantenho-me tão robusto quanto por ocasião de nosso último encontro". Eu não precisava ser mais claro com minhas correspondentes parisienses: na primavera seguinte, algumas aceitariam verificar.



Charcot concluiu que Teresa necessitava das águas de Gastein. Conduzi-a até lá e deixei-a com a condessa. Eu não havia me separado de minha mulher um só dia desde Uruguaiana. Conquanto não combinássemos, ainda assim penamos lado a lado por cinqüenta anos. "Hei de ser paciente, meu amigo, como sempre me dizes que devo ser." Seu primeiro bilhete de Gastein, logo rasgado, deve ter, porém, me comovido, pois dele me lembro hoje com uma ternura condoída. Como deve ter sofrido, a santa mulher!

Acompanhado só por Pedreira, fiú para Bayreuth encontrar-me com Wagner, e ouvi-lo; dali, segui para Copenhague e Estocolmo, onde Gobineau representava a França. Ele aceitou acompanhar-me na continuação da viagem.

Foi há catorze anos, essa corrida pela Europa, que me parecia normal, a realização de um plano pensado, elaborado desde muito tempo, e no entanto! Referi-me a turbilhão e a glutoneria por ocasião de minha primeira viagem e justifiquei-os pela acumulação do desejo, pelos laços âmiliares, pelo fascínio por Londres, Roma ou Paris. Mas, por que a Dinamarca e a Suécia? Por que o Grão-Ducado da Finlândia, por que a Rússia? Não fiz nada de útil nesses dois meses, não encontrei ninguém de verdadeiramente marcante. Trens, hotéis, trens novamente, e a enumeração das curiosidades do dia no diário de viagem.

O congresso de orientalistas em Petersburgo era uma farsa organizada para justificar a política integracionista do Czar na Sibéria. Ali foram exibidos samoiedos sarnentos e amarelos enquanto os sábios dissertavam sobre sua língua. Permaneci duas horas. Em seguida, visitas a passos céleres para assombrar alguns universitários e alguns popes, mostrando-lhes

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que sei ler o velho russo e, logo após, o pulmann. Moscou, Nijni-Novgorod, Kiev, Odessa, Sebastopol. Depois, Constantinopla e as ruínas de Tróia, cujas honras fez-me Schliemann. Por que essa galopada, que demônio me esporeava?



O tempo, sem dúvida, este que se esvai diante dos qüinquagenários, este que alardeia maldosamente diante do ancião sem fôlego tudo o que ele ainda não fez, ainda não viu. Não, não sou velho: vejam os dias no trem, as horas de pé nos museus, as noites tão curtas entre a ópera e o trem da madrugada. Não, não sou velho. Vejam minha corrida com Gobineau para escalar a pirâmide de trigo nos cais de Odessa. Vejam também - nada mais quero ocultar - minhas companheiras de viagem, anexadas na Suécia a meu séquito. Alice, Patry: cinqüenta anos as duas juntas. O olhar da jovem norte-americana alertara-me: não sou velho.

Hoje, sinto mais indulgência pelo resto da viagem. Ir ao Onente era seguir Chateaubriand, Lamartine, Flaubert e uma centena de outros; fazer, em suma, o mesmo que qualquer pessoa. Minhas acompanhantes da Rússia h~ prudentemente desaparecido: Teresa e a condessa aguardavam-me em Atenas. A primeira, ainda fatigada pelo tratamento, queria repousar antes de ir salvar definitivamente a alma em Jerusalém. De modo que percorri a Grécia em companhia de Gobineau e da condessa.

Esta, aos sessenta anos, nada perdera de sua graça nem de seu vigor. Escalava as ruínas qual uma cabrita e suportava alegremente, dentro de uma charrete, as tardes empoeiradas, a fim de ir descobrir uma estela ou um monastério encarapitado num cocuruto. Compartilhávamos, a três, admirações eruditas e risadas de colegiais.

Contudo, lendo em mim muito melhor do que eu mesmo, a condessa não gostava do que ia descobrindo: o apetite

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tardio, o ardor sensual, o medo, não, o pavor de perder as derradeiras ocasiões. Seus ciúmes tornaram-se cada vez mais esmiuçadores. Foi-me extremamente dificil explicar-lhe a presença de Alice, cuja família e cuja reputação ela conhecia como? Por outro lado, com Patty mostrou-se mais compreensiva. Eu não procurava saber por quê, receio adivinhá-lo, hoje.



A condessa perdoava Patty porque fora quem me apresentara essa deliciosa inglesa. Naquele tempo, a idéia, perfeitamente insólita, e mesmo assustadora, não me passou pela cabeça, repito. É agora que a formulo, trêmulo, no momento em que repasso em memória todas as jovens amigas que ela colocou em meu caminho um pouco mais tarde, em Paris.

Acima de tudo, que não me entendam mal. A condessa nada tinha de uma Celestina. Conhecia muita gente e apresentou-me vários burgueses barrigudos e diversas megeras decrépitas. Mas repenso nos meus desvarios da primavera de 1877, procuro lembrar-me onde encontrei essa ou aquela, anoto as coincidências, e temo compreender. Como um mágico de sua cartola, a condessa tirava de sua caderneta de endereços chignons, botinas, dedos roliços, nucas perfumadas, gargalhadas: brinquedos luxuosos oferecidos ao menino rico para que ele nem pense em ir brincar na rua.

Como me amava, a condessa, e que formas perturbadoras demonstra por vezes a paixão feminina! Abnegação sublime? "Deixa-me então escolher, meu amor, a carne de que tua pobre carne necessita." Ou tentativa desesperada para ainda controlar o que a idade faz-se-lhe esvair entre os dedos? "Ele ainda me pertence, pertence mais a mim do que a ela, uma bobinha que não passa de frágil instrumento de minha vontade."

Após a última excursão ao último peristilo, a condessa regressou à França para encontrar seu filho e dedicar-lhe sua paixão ambígua feita de ternura e dominação. Senti ciúmes desse menino que absorvia a mãe, hoje considero-o um irmão. Fomos, ele e eu, os usufrutuários desse tesouro que era

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o amor da condessa, e talvez também as vítimas de seu excesso de sacrificio.



Gabineau também deixou-nos, para ir explicar ao seu Ministério por que abandonara o posto em Estocolmo. Por essa insensatez, e algumas outras, ele foi, como se sabe, demitido. Teresa, retemperada, fervia de impaciência no barco que, por Rodes e Chipre, conduzia-nos à Terra Santa e a Luxor.

Após o Egito, cheguei à Itália pela Sicília. Em Roma, havia duas visitas a fazer. Uma, muito delicada, ao papa Pio IX, para pôr um termo em nossos desacordos, e outra, constrangedora, à senhora De la Tour, amante de Gobineau.

Pio IX distraiu-se comigo durante meia hora para ver quem seria o primeiro a mencionar o Syllabus e os bispos presos, e, em seguida, sem termos tocado no assunto, separamo-nos invocando respectivamente a piedade filial e a benevolência paterna. Quanto à senhora De la Tour, Gobineau praticamente intimara-me a ir vê-la para que eu me desse conta da maravilha que era a sua amante. Não achei-a bela, sequer simpática. Porém, com toda certeza a interesseira inscrevera-me numa lista de personalidades a conquistar para favorecer as carreiras de seu marido diplomata e de seu amante artista. Deixou-me pressentir sua disponibilidade. Eu sentia sede de amor, e a ilusão de que ainda se admirava minha boa aparência levou-me a ceder. Passemos.

Após as indispensáveis visitas ao imperador da Áustria e ao kaiser, cheguei a Paris em 19 de abril de 1877, alguns dias depois do aniversário da condessa, tarde demais para festejálo- O que ela me recriminou amargamente.

Eu chegava a Paris sem a timidez da primeira viagem. Agora, conhecia muita gente, organizavam-me dezenas de recepções. As numerosas sociedades das quais eu era membro

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honorário, da de Higiene à dos Náufragos, preparavam entregas de prêmios sob minha presidência. Por fim, certas senhoras haviam me confessado sua impaciência nas entrelinhas de bilhetes perfumados.

A França mudara desde os dias sombrios do pós-guerra. Preparava-se para divulgar ao mundo sua inacreditável riqueza graças a uma nova Exposição Universal, mas os republicanos propagavam sua influência e o presidente Mac Mahon, que fui cumprimentar logo após núnha chegada, não me pareceu capaz de refrear-lhes a ascensão. Via-se Gambetta por todo lado: nos desfiles populares, na Câmara, nofoyer dos teatros. A aristocracia católica e conservadora ocultava o declínio por trás de festas esplêndidas cujo brilho, durante uma temporada, foi realçado pelo imperador do Brasil.

Meu prestígio crescera. Na primeira vez, haviam-me recebido com a curiosidade condescendente que inspira um monarca exótico amante da cultura. Agora, em mim respeitavam o viajante. Tendo visitado a Califórnia, a Finlândia, a Criméia e a Segunda Catarata do Nilo, eu me colocara definítivamente na primeira fila dos chefes de Estado, pelo menos em matéria de geografia, nenhum deles percorreu tanto o globo.

Ademais, à força de visitar fábricas e laboratórios pelo mundo afora, eu havia adquirido excepcional bagagem técnica. Sabia interessar as senhoras falando-lhes; de bisões ou de mujiques, mas também podia informar Pasteur a respeito do cólera no Cairo, explicar ao geólogo Daubrée a lavagem do ouro na Califórnia, desenhar para Viollet-le-Duc as fundações dos arranha-céus de Chicago e, evidente-mente, rir com Flammarion a respeito do relógio elétrico. Não, realmente ninguém abarcou tão bem quanto eu o estado das técnicas no século XIX! Assim, creio que merecia meu lugar na Academia de Ciências. Havia dois anos que eu era membro-correspondente, fizeram-me membro estrangeiro.

Membro do Institut! Nosso embaixador em Paris verificou discretamente: outros soberanos haviam acedido a tal dignidade?

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Sim: nenhum rei, mas, justamente, dois imperadores, Pedro, o Grande, e Napoleão. O primeiro, é claro; o outro tentou em vão. Essa companhia imperial não me desagradava-

Acadêmico de ciências, tinha eu liberdade para assistir às sessões da Academia Francesa, prazer a que não me furtava. Ali passei tardes inteiras, sentado entre meus colegas e conversando com eles "como um simples imortal". A expressão é de Dumas filho, e muito me compraz.

Em todo caso, compraz-me mais do que certo retruque de Isabel quando lhe confidenciei um dia que o orgulho de ser acadêmico era maior do que o de ser imperador. Que imprudência! - "Mas ora, papai, é por ser imperador que o senhor é acadêmico". Arre! Que sabe ela? Em todo caso, afirmo: jamais postulei, nem fiz visitas, nem mesmo sugeri o que quer que fosse.

Agora eu conhecia quase todos os insignes espíritos de Paris e quase todos os acadêmicos, exceto um, o maior, este que escreveu:

Dans ce vaste Brésil aux arbres xmès d'or, Passeront le Progrès, laforce- la clarté: On Yoit sur Yotrefront une aurore dété.

e ainda:


... Ce Brésa Si daré qu'ilfait du reste De Vunivers un exiL*

O mundo inteiro sonhava em encontrar Victor Hugo para poder, após certas banalidades de admiração, ouvir da voz do Mestre uma opinião, uma máxima, um estímulo. Não sendo possível,

* Nesse vasto Brasil de árvores salpicadas de ouro,/ Pa~ào o Progresso, a força, a claridade:/ VP--se. em vossa fronte uma aurora de verão.1 Esse Brasil I TAo dourado que faz do resto I Do universo um exílio. (N.T.)

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Procurava-se ao menos avistá-lo mesmo de longe, ou tocar em seu traje surrado do magazine La BeUejardinjiw, ou inclusive a camiseta de baeta escarlate cujos punhos lhe saiam pelas mangas. Quanto a mim, havia quarenta anos que eu admirava aquele a quem chamei de BugJargi* da literatura. Encontrá-lo ia se tornando uma idéia fixa, tanto mais que o que estava em jogo ultrapassa va o aspecto cultural para alcançar o político. Meus opositores no Brasil, os que vilipendiavam o poder pessoal e fliziam votos para a chegada da República, seguiam atentamente minhas idas e vindas em Paris. Haviam tomado nota da esquiva do poeta em 1871. Caso eu malograsse de novo, clamariam aos quatro ventos: "o leão de Guemesey não se deixa impressionar pelos falsos ares democratas do Bragança. Sabe reconhecer um tirano quando cruza com ele, o Povo brasileiro bem " de imitar-lhe a perspicácia".

Inversamente, se eu lograsse encontrá-lo receberia o título de amigo da humanidade, o selo de aprovação para calar os republicanos. Bastaria uma frasezinha, algo como: "Ele é mais do que um imperador, ele é um homem". Hugo disse isso de mim, um pouco mais tarde; porém, em abril de 1877, a partida estava longe de ser ganha.

Victor Hugo era-me indispensável, mas era igualmente muito dificil de ser alcançado. Aos 75 anos, praticamente entregava-se a um corrilho familiar e político que se arrogava o direito de definir e proteger o brilho do patriarca. Como monarca diletante, amigo do duque d'Aumale e de monsenhor Dupanloup, eu não devia esperar qualquer benevolência de esquerdistas como Vacquerie e Lockroy.

Iniciei minhas diligências cometendo uma bobagem, escrevendo ao poeta que haveria de recebê-lo com prazer no Grand Hôtel. A resposta, lapidar, desolou-me por algumas horas: "Víctor Hugo não faz visitas". Porém, outra mensagem, sobremodo surpreendente, chegou-me pouco depois. Propunha um encontro numa ante-sala do Palácio de Versalhes, a 16

* Herói do primeiro romance homônimo de Victor Hugo (1819). (N.T.)

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de maio de 1877. Informei-me, soube que Mac Mahon preparava um golpe de força e convocava para essa data o Congresso, ao qual Victor Hugo dirigiria um violento discurso republicano certamente inspirado por Gambetta. -Era claro que se procurava implicar-me numa manobra de política interna; o encontro foi anulado, Mac Mahon despachou os deputados para junto de seus eleitores, que lhe responderam por uma maioria republicana. E eu ainda não encontrara Victor Hugo.

Mas sabia que ele recebia todas as terças-feiras e que se levantava cedo; decidi bater à sua porta e apresentei-me sozinho no número 21 da rua de Clichy numa terça-feira às nove horas. Ele não me mandou embora.

Tivemos uma longa conversa, de início muito cautelosa: não tocar em política, não falar demasiado de Manzoni e de Longfellow, com os poetas, nunca se sabe; insistir nos clássicos da Antiguidade, nas viagens, na família. Fez-me uma dedicatória em Vart d'être grand-père, que vinha de ser publicado, e num desenho atormentado.

Quando chamou Jeanne e Georges, seus netos, para apresentá-los a mim, dei-me conta de que ganhara a parada. Tudo transcorria tão bem, e o ancião ia ficando tão simpático, que tirei partido de minha posição e, simplesmente, fiz-me convidar para jantar em sua casa na semana seguinte. Lá estariam Vacquerie, a viúva de Edgar Quinet, e Louis Blanc, o revolucionário de 1848, o vermelho. Eu, Pedro II, grão-mestre da Ordem de Cristo e cavaleiro do Tosão de Ouro, jantei com Louis Blanc: razão para amordaçar por um bom momento os republicanos de meu país.

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XI

XI



Os menos malvados chamavam-me "o Velho", os outros, "Pedro Banana". Como me detestavam, esses homens que só deviam a mim a liberdade de escrever! Seus epigramas deixaram em meu coração cicatrizes tão dolorosas que devo ir em busca de um resto de coragem para, mais uma vez, falar a respeito dos jornalistas e do mal que me fizeram.

Em meu reinado, podia-se pensar e escrever o que se desejasse a respeito da política. Existiam leis sobre a censura, jamais apliquei-as. Neguei-me a que fossem fechados os diários que apoiavam Rosas quando nós o combatíamos, e os dos partidários de López durante a guerra do Paraguai. Repreendi a polícia quando organizou um falso tumulto popular contra A República, que, entretanto, insultara nossa bandeira. Cheguei inclusive a proibir os ministros de condicionarem suas subvenções à linha editorial dos jornais.

Eu tolerava e perdoava os ataques contra minha pessoa. Timandro, apesar de suas injúrias, tornou-se senador e ministro, assim como um outro, que me tratara, porém, de "César caricato". já no final, nesse período dos anos 1880 dos quais desejo hoje falar, a calúnia estendeu-se a meus familiares, e, ainda desta feita, não dei cura.

Tal mansuetude custou-me o trono? Provavelmente. O público cansa-se depressa das maldades, é certo, e inclusive, vez por outra, indigna-se, mas ninguém esquece o escárnio. O

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apelido, a caricatura supuram nas memórias. Seu gotejar corrói as mais firmes instituições. Cria-se um clima em que o desrespeito substitui o ideal, o sarcasmo faz as vezes de opinião. Os pais inflamavam-se ao lerem os debates da Câmara, alimentavam ódios tremendos. Os filhos riem do último número do folhetim satírico, nada admiram, nada detestam; aderem a tudo, contanto que se divirtam. Deixei-os divertirem-se.



Há de se convir que fui bem além da sensatez política de meu tempo. Não se encontra na Europa nação onde a imprensa haja desfrutado de semelhante liberdade. Assim sendo, pelo menos dessa vez não foi o exemplo inglês ou francês que me guiou, e minha demência tem outras explicações.

Encontro a primeira no horror às brutalidades de meu pai. Minudenciaram-me demasiado seus desregramentos quando eu era criança: o exemplo a não seguir. Com a idade, separei uma coisa de outra, condenei o uso das baionetas e por vezes compartilhei o desprezo pelos parlamentares, perdoei e invejei as amantes ostensivas, mas jamais admiti a caça aos jornalistas. Borges da Fonseca, amordaçado por seus juízes, Luiz Augusto May, espancado por uns patifes, Líbero Badaró, assassinado. Não! Eu não queria isso em meu reinado.

Creio também ter poupado os jornalistas pela atração secreta que exerciam sobre mim, pela comunhão espiritual que me unia a eles malgrado seus ataques e que tornava seus golpes mais dolorosos ainda. Invejava-lhes o papel de educadores do povo, sonhava em poder convencê-los um dia, e admirava o talento dos melhores dentre eles. Homens como Aristides Lobo e Quintino Bocaiúva em A República, Joaquim Serra em A Reforma, José do Patrocínio em A Gazeta da Tarde, meus inimigos, todos, honraram nossa língua, nosso pensamento e a sua profissão. Agostini, em suas caricaturas, também superou limites de sua arte.

Outros, é verdade, ultrapassaram os limites da decência. O Mosquito, O Mephistópheles, A Galegada, A Gazetinha escrutavam minha vida privada e acreditavam poder desvendar o

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mistério com que eu a cercava desde a adolescência. Puni-los era confessar minha agonia e arriscar-me ao ridículo. Ora, quanto mais publicavam suas mentiras, mais as línguas soltavam-se a respeito de meus desvios de comportamento. Familiares do Paço, fornecedores demitidos, domésticas despedidas catavam para os jomalistas fiapos de infâmia. Do estrangeiro, funcionários de embaixada contavam histórias de endereços cifrados, de envelopes duplos, de flores que São Cristóvão pedia-lhes para enviar a Baker Street ou à rua de Monceau. As muralhas cuidadosamente erguidas em torno de meus amores fissuravam. Radiante, o leitor ria à socapa do velho imperador mais gaiteiro do que se supunha, Arlequim envergonhado de suas Colombinas. Nunca ninguém mofou-se de meu pai quando ele levava a passeio suas lindas modistas em caleche aberta.Um dia, veio a público um roubo em São Cristóvão. As jóias da imperatriz haviam desaparecido: mais de um milhão de francos-ouro. A polícia investigou e logo descobriu o tesouro e o culpado, um certo Paiva, irmão de meu camareiro. Eu não tinha nada a ganhar com um processo público; uma vez que as jóias haviam sido recuperadas, sugeri à justiça que suspendesse as diligências, e ela obtemperou.



A imprensa já havia farejado o escândalo, a veia suculenta. Meteu-lhe as garras e não a largou mais. Tratava-se de gente ilustrada, que conhecia a história do colar da rainha. Sem ousarem comparar Teresa com Maria Antonieta, deram a impressão de perceber no episódio um cheiro de fim de regime que os regozijava. Se eu acobertava o culpado, sugeriam, era por sentir-me ameaçado. Por quem? Por seu irmão, meu criado. Por quê? Porque ele conhecia meus deslizes. Com quem? "Ora bolas! com essa baiana que ele jamais largava, a ex-preceptora de suas filhas, a condessa!"

Publicaram-se versinhos sarcásticos, narrações alusivas e um folhetim medieval inteiro que mencionava as jóias e certo príncipe barbudo, astrônomo e libertino.

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Fui obrigado a suportar. Fui obrigado a receber ministros e embaixadores, dar ordens aos domésticos, comparecer às audiências e ao teatro quando, às minhas costas, escameciam da repercussão do episódio. Fui obrigado a contestar as reprimendas de Francisca, que me reputava demasiado fraco, e as cartas furiosas da condessa.



Por sorte, ninguém jamais provou coisa alguma, nenhum texto comprometedor veio à luz. O público terminou por se cansar das suposições e a paz voltou ao meu lar.

O mais vingativo de meus detratores, um certo Apulcro, escrevia num ignóbil pasquim chamado O Corsário. Se não gostava da Casa Imperial, detestava mais ainda os militares. Veio a falecer por isso, e sua coragem profissional em face do perigo merece que o saudemos, malgrado suas vilanias.

Certo dia, contou em sua coluna de que maneira um oficial do I Batalhão de Cavalaria expulsara a pauladas um honesto cabaretier que vinha lhe apresentar as contas atrasadas. O jornalista corria grande risco, não o ignorava. Se o imperador encurvava-se sob as calúnias, era sabido que os militares mostravam-se muito mais suscetíveis com a própria reputação. Com efeito, para se vingar, o devedor irascível invadiu o jornal com os companheiros e empastelou-o. Apulco poderia ter encerrado o assunto, mas preferiu zombar dos ferrabrases, decerto para ver até onde ousariam chegar. Prosseguiu a campanha, publicou dia após dia as ameaças que haviam sido rabiscadas nos muros do seu jornal. Acompanhava-as com uma espécie de aviso à população: "Perigo de morte! Em caso de encontro com dragonas, prestais extrema atenção, sobretudo se pertencerem ao I Batalhão de Cavalaria".

Os oficiais perderam a cabeça. Em turba furiosa, perseguiram-no de noite, pela rua. Ele se refugiou numa delegacia. Constrangida, a polícia comunicou-se com o Estado-maior, que despachou um capitão para acompanhar até em casa o jornalista ameaçado. Os oficiais pararam-lhe o carro numa rua escura: "Dai-nos este negro, capitão!". Sem esperar pela

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resposta, empurraram a escolta, agarraram Apulcro e apunhalaram-no. O Corsário foi fechado, acusou-se o chefe de polícia, e o ministro da Guerra teve de se demitir. Mas os culpados não foram punidos. Eis toda a história de Apulcro.



Ou quase toda, pois aqui devo confessar uma covardia que cometi. Esse Apulcro amedrontara-me com suas revelações; insultara a condessa e pusera em ridículo minha família. Na boa sociedade, suas vítimas eram incontáveis; em suma, sua morte arranjava a todos. Ora, desde muito tempo eu aceitara presidir, dias depois, uma cerimônia no quartel de cavalaria. Em nome da liberdade de imprensa, do direito, da simples humanidade, havia que anular a solenidade. Não o fiz, lá estive, brindei com os assassinos. Aí está: o pior dos pecados, este que se comete por fraqueza contra as próprias convicções.

Minha culpa explica provavelmente por que me lembro tão nitidamente do episódio. Com a idade, a memória vai se tornando seletiva e nem sempre são os bons momentos que ela deixa filtrar; comigo, pelo menos. Outros talvez tenham a sorte de obter que as horas ensolaradas de suas vidas desfilem à vontade. Eu, são mais as humílhações, as derrotas, as faltas que o passado joga-me no rosto quando intento contar os anos 1880. Posso experimentar, por exemplo, evocar os corpos nus de Eponina e de Vera, duas estreLas cadentes que passaram pelo crepúsculo de meus amores, não consigo. Seus próprios rostos esquivam-se diante dos rostos de companheiros desaparecidos, uns após outros. Como houve falecimentos ao meu redor, quando eu me aproximava dos sessenta anos!

Pedreira, tão fiel e discreto, Caxias, Rio Branco, meus velhos mestres Cândido e Taunay. Cada um deles levava consigo um fragmento de minha vida, e, quanto mais antigo fosse tal fragmento, mais eu me enternecia pelo amigo desaparecido

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junto com a minha juventude. Mais que a outros, pranteei o negro Rafael que me deixara pular sobre seus joelhos e cujas mãos grandes escuras tanto me assustavam. Serviu-me de mensageiro em muitas aventuras amorosas. O ladrão de jóias sabia pouca coisa, afinal; Rafael, sabia tudo e calou-se até a morte. Nenhum homem foi-me mais chegado do que esse ex-escravo com que meu pai me presenteara.

Dois outros rostos surgem na névoa funesta em que banha esse período. O de meu médico, primeiro, um barbudinho atento e dedicado. Minha saúde deteriorava-se de novo, com os ataques do diabetes. Eu arrastava a perna, vinham-me tonteiras, às vezes caía, e sempre a sonolência, o embrutecimento. Imagino que essa fadiga, mais do que a idade, explica a falência de minha memória a respeito dessa época. Lembrome vagamente de umas crises de sezão e de uma longa convalescença na propriedade de uma amiga nas serras do Rio de janeiro. O médico acompanhava-me, tal como minha sombra. Aliás, não cessou de fazê-lo, e hoje vive neste hotel, perto de mim. Muito afável, muito competente, mas sua presença acabrunha-me. Bem sei que devo morrer, não necessito de uma caveira sobre meu escritório para recordar-me-lo, nem de um médico à espreita no corredor.

Ainda assim, foi ele quem curou minha malária e, mal ou bem, deixou-me recuperado; foi ele também quem decidiu que eu devia repousar na Europa. Uma terceira viagem, bem diferente das outras, sinistra. Adeus às rondas enlouquecidas sob os lustres do baile, aos olhares furtivos para os decotes, e às visitas às manufaturas. Foi em 1887, eu mal me agüentava em pé. De estação termal em estação termal, impuseram-me o circuito dos anciãos. Passei dois meses em Baden, em seguida, o inverno em Cannes, alimentando-me de presunto e cenouras cozidas, deitando-me todas as noites com as galinhas.

Como eu me sentisse melhor, quis retornar ao Egito, mas o médico não deixou. Todavia, permitiu-me levar Teresa a Nápoles, mais uma vez, e bem sabíamos que seria a última.

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No regresso, quase morri num hotel de Milão: dessa vez, pleurisia, sobre um fundo catastrófico de vísceras depauperadas e cérebro confuso. Recebi minha primeira extrema-unção, Deus queira que a próxima seja a última. Lá estava o barbudinho, naturalmente; fez o que devia, pedir socorro a alguém melhor que ele. Charcot acorreu, despertou meu pâncreas à base de cafeína, e a insulina pôs-se de novo a circular. O imperador do Brasil ressuscitado pelo café!, o que, bem pensando, é muito justo.



Parti em convalescença para Aix-les-bains, mais dois meses, mas volta e meia a condessa vinha de Voiron, onde afinal se instalara. Ajeitava o cobertor sobre meus joelhos com um olhar muito significativo do meu estado de decomposição. No mais das vezes, eu fingia dormir, enquanto ela mantinha longos conciliábulos, com o barbudinho.

O outro rosto de que me recordo bastante bem é o de Pedro Augusto, meu neto. Não o filho de Isabel, príncipe herdeiro cujo nascimento relatei, mas seu primo, o primogênito de minha filha Leopoldina, aquele que fora comigo para o Brasil após a morte da mãe.

Estava com vinte anos, era um rapaz encantador, diplomado em geologia, com uma aparência um pouco banal, assim como seu pai Gusti, mas sorridente, afável e, sobretudo, como dizer?, simpático. Em seu palácio do Rio de janeiro, mantinha a mesa farta para seus inúmeros amigos, políticos, artistas, militares, um pouco de todo bordo. Regalava-os, deixava-os à vontade, fazia-os rir: todos gostavam de Pedro Augusto. E eu também, pois me ligara a esse órfão cuja educação eu vigiara. Encontrava-o com muita freqüência, tornamo-nos, apesar do parentesco e da diferença de idade, bons amigos.

Uma nuvem obscurecia nossas relações: Pedro Augusto não gostava da tia Isabel, e menos ainda de seu marido, Gastão, o conde d'Eu. Este, de seu lado, detestava o sobrinho, e eu sabia muito bem de onde provinha tal acrimônia: estava ligada à núnha sucessão.

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Isabel reinaria, eu tudo fizera para garantir-lhe o trono. Tudo, exceto o essencial, ensiná-la a tornar-se popular, porque disso eu era incapaz. De onde vem a popularidade? A história de minha vida mostra, creio, que ela nada tem a ver com os esforços do monarca, com sua imparcialidade, seu desprendimento. Deve haver outra coisa, nunca soube o quê, e Isabel tampouco.



Minha filha, quando ainda estávamos no poder, dividia sua vida entre Petrópolis e o Rio de Janeiro. Multiplicava as obras de caridade, Organizava bailes e, sobretudo, pequenos saraus musicais que reuniam casais de sua idade. Que mais devia fazer? Que mais fazia Pedro Augusto? Que mais fazia minha irmã Januária à epoca de meu casamento? Tudo o que posso dizer é que Isabel não era popular.

Para os pobres, de quem tanto cuidava, ela se mantinha como a grande senhora inacessível que passa de coche, que se avista à entrada de uma enfermaria de hospital, cercada por freiras de touca. Os políticos caçoavam da jovem mulher a quem teriam um dia que obedecer, aquela que ousava afirmar suas opiniões pessoais, aquela que não ouvia necessariamente o que lhe aconselhavam os homens. Os ateus, desde a questão dos bispos, detestavam a devota pertinaz que floria os altares e que o papa acabava de condecorar. Enfim, aos olhos de todos os outros, suficientemente esclarecidos para lerem os jornais mas demasiado obscuros para serem convidados em palácio, ela era a esposa do conde d'Eu.

As ilusões do pobre Gastão cheiravam a ranço. Sinceramente, generosamente, ele desejara ajudar a corrigir os feios defeitos que atribula ao povo brasileiro: sua opinião não foi levada em conta. Tendo-se afastado, tão desgostoso, fechou-se sobre si mesmo e sobre os filhos, seguramente mais fáceis de ser governados do que meus oito milhões de súditos. Semelhante discrição agradava tão pouco quanto as bravatas do principio. Nada lhe perdoavam, nem sua surdez, nem seu carinho pelos filhos, nem o cuidado que tinha em administrar sua

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fortuna, nem, sobretudo, seu sotaque. Não se admitia que Isabel pudesse ter uma idéia que não lhe fosse soprada pelo marido. Minha filha imperatriz significava o francês no poder, o que ninguém queria.

Eu procurava negar tal evidência, fechar os olhos para os sinais que a comprovavam, mas todos os que supunham contar com a minha confiança adjuraram-me que encarasse a verdade de frente. Um presidente do Conselho, a quem eu anunciava o reinado próximo de minha filha, ergueu os olhos para o alto respondendo-me: "Majestade, seu reino não é deste mundo".

E foi então que, pouco a pouco, logo enxotada mas voltando incessantemente, surgiu a tentação de uma mudança de sucessor. Abdicar antes que fosse tarde demais, conduzir Pedro Augusto ao trono, mandar Gastão e Isabel para a França.

Era o que devia ser feito, o que teria feito um avô sem tanta má sorte. Porém, a maldição do monge espancado por um Bragança, privando do trono todos os primogênitos de meus ancestrais, segue pesando sobre minha família. Pedro Augusto não reina hoje porque, desde essa época, quando ninguém desconfiava de nada, vi-o diversas vezes em seu quarto, atônito, convulso, um fio de baba nas comissuras, gaguejando insanidades. Ele vive na Saxe, com o pai, onde recebe cuidados; receia-se que seja louco.

Talvez ele tivesse se defrontado com os políticos, mas o povo tê-lo-ia amado, creio, e isso era cada vez mais importante. Pois, há cinqüenta anos abafada, desde a época turbulenta da Regência, a voz da rua recomeçava a se fazer ouvir.

Revejo a multidão amontoada diante das grades da Quinta da Boa Vista no dia 1º de janeiro de 1880, vários milhares de manifestantes, operários, empregados, escravos, com suas bandeirolas e seus tribunos. Eu os observava de luneta,

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de uma janela do primeiro andar: dorsos nus sob o sol, calças arregaçadas, chapéus miseráveis ou lenços amarrados à cabeça; pés descalços, quase todos. Algumas peixeiras de turbante, algumas crianças. Pretos sobretudo, excitados, enquadrados por um punhado de mulatos que brandiam os punhos. Mais uma lembrança sinistra que vem à tona.



E que me calou fundo porque eu sentia medo. Que me compreendam: não creio ser covarde; corri riscos no cerco de Uruguaiana, visitei coléricos e sustentei, sem piscar, os olhares da Parca no hotel de Milão. Mas tenho medo do povo, mais exatamente, do povo do Rio de janeiro.

Passeei sozinho pelos bairros populares de Londres e do Cairo, vaguei durante anos sob as árvores frondosas de Petrópolis; no Rio de janeiro, jamais saí sem escolta. Não conheço a doçura de um passeio solitário pela praia, nem os encantos das perambulações por nossos bairros antigos. O olhar terrível do pobre, seus músculos nus, seu suor, sua sujeira afligemme, e seus clamores mais insignificantes deixam-me sobressaltado: um chuveiro de injúrias entre embriagados, uma briga de rua e eis meu coração disparando.

Tal pusilanimidade vem-me, evidentemente, da infância, da época dos tumultos e dos tiroteios. Aquele tempo, senti, como sente uma criança, o terror de meus familiares quando o Rio de janeiro inflamava-se a favor ou contra o regente. Jamais consegui me livrar disso. Se tanto experimentei educar meus súditos, foi também para amordaçar essa violência de que os reputo capazes e que tanto me perturbou.

Eu não corria quase nenhum risco, naquele 10 de janeiro. Certamente, a multidão não se deslocara para apresentarme seus votos, mas nossos portões eram sólidos e nossa polícia, bem treinada. Aliás, não me queriam mal, simplesmente pediam-me para abolir um imposto.

Nosso ministro da Fazenda, um técnico excelente, apreciava como eu os orçamentos equilibrados e a moeda forte. Ora, naquele ano os direitos alfandegários, que constituíam

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nossa principal receita, não tinham rendido o esperado. Em vez de taxar portas e janelas, ou a Bolsa, ou os lucros do café, ele considerara engenhoso taxar a passagem do bonde e dos trens: um vintém recebido no trajeto por um cobrador ladeado por dois guardas.

Isso desagradava ao povo. Nossa cidade estende-se por uma estreita faixa costeira entre mar e montanha, tudo é longe de tudo. Os pobres moram em subúrbios longínquos e o transporte onera extremamente suas despesas. Um vintém a mais era muito arroz a menos.

Eclodiram os protestos, a imprensa ampliou-os, os republicanos abraçaram a causa. Organizaram-se reuniões, matings, como se dizia, para exigir a revogação do decreto. O ministro negou-se, eu nada podia fazer e, aliás, mal estava a par da medida. Mas entre a gente simples eu ainda era visto como um avô caridoso, uma espécie de recurso contra a incúria dos governos: a multidão marchou até São Cristóvão, como os parisienses até Versalhes cem anos antes.

Fechei minha luneta para ouvir o relatório de um camarista: situação perfeitamente controlada pela polícia, natureza pacífica da manifestação, pediam-me para receber uma delegação.

Não. Estava fora de cogitação receber em palácio aqueles escandalosos. Que voltassem para casa, que se apresentassem no dia seguinte à audiência pública! Nunca, nunca, recusei receber quem quer que fosse, mas exijo um mínimo de decência e não admito as audiências impostas pela força. Amanhã, pois, se quiserem.

Transmitiram-lhe minha recusa, a multidão não arredou pé. Que fazer? Então, mandei que se comunicasse ao que fora identificado como o chefe que aceitava recebê-lo, sozinho. "Sem o povo, nunca"! Ouvi novos reclamos, e depois a manifestação pareceu-me dispersar-se, ou pelo menos afastar-se de nossos portões. A firmeza compensa, conjeturei, vou ter de falar a respeito desse imposto com o ministro, e arquivar o assunto.

Ai de mim! Decepcionados com o imperador, os manifestantes refluíram para o centro. Quem poderiam atacar, se

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ninguém os escutava? Quem, ou quê? Escolheram os bondes para ser imolados à sua miséria. Viraram alguns e atearam-lhes fogo. Ao arrancarem os trilhos, soltaram os paralelepípedos com os quais quebraram as vitrines de algumas casas de armas, onde se equiparam. Os paralelepípedos ali estavam, com eles ergueram barricadas, regularam a altura de suas espingardas e aguardaram.

O 1º Regimento de Infantaria levou várias horas para desalojá-los de lá, tendo afinal recebido a ajuda de um terrível temporal que abafou os tiros e inundou o centro da cidade. Anunciaram-me cinco mortos, a imprensa suspeitou que houvesse mais.

Vergonha de um monarca! Vergonha e amargura, confesso, mais do que piedade. Só com imaginação é possível realmente se condoer. Custo a conceber como se vive em nossos subúrbios, custo mais ainda a imaginar como se morre numa barricada: o crânio quebrado por uma espada, o corpo enterrado às pressas, a família agoniada, as batidas à porta quando o dia desponta, a notícia fatídica. Tudo isso faz-me pensar em Victor Hugo, não nos meus brasileiros.

Por outro lado, sei muito bem olhar de frente a História. O exército abre fogo contra o povo, como na Espanha, como na Hungria, como na França, até, em Fourmies, há dois meses. Quarenta anos de liberalismo obstinado, de luta contra a fraude e a injustiça, de apelos ao Progresso, de fé no homem livre, e depois, o balanço: assassina-se um jornalista, todos detestam minha filha, meus soldados metralham os operários. Vergonha. Por mais que nos esforçemos, somos sempre um Bragança, sempre um Habsburgo.

Meu título, minha influência já não me serviam de muito. Até então, eu havia provocado, ou ao menos controlado, todos os episódios de nossa história: as guerras, as crises, as

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mudanças. Ora, essa revolta trágica revelava-me que eu não dominava mais nada. Outras vontades expressavam-se e modelavam meu país sem que eu soubesse intervir, pois agora os fatos nasciam alheios a mim. Era-me inclusive difícil compreender o que estava sucedendo, pobre ancião enfermiço que se deixa empurrar pela multidão.

Eu havia libertado filhos de escravos e todos conformaram-se com essa decisão. A questão do elemento servil parecia-me, pois, definitivamente resolvida. Ledo engano! Os filhos nasciam livres, mas, e seus pais, e seus irmãos? Enquanto a escravidão perdurasse, enquanto consumisse as criaturas, o fogo manter-se-ia aceso nos corações indignados e poderia reavivar a qualquer momento. Dez anos depois da lei do Ventre Livre, renasciam os brados abolicionistas, inquietantes porque brotavam da juventude, aterradores porque iam sendo populares.

Sem qualquer pretexto, sem palavra de ordem, sem senha combinada, moços que viviam no Rio de janeiro ou em São Paulo, ou no Norte, decidiram simultaneamente que era demais, e exigiram o fim total e imediato da escravidão. Os tempos eram outros; para promoverem sua causa, não compuseram versos, como os da geração precedente, organizaram reuniões.

Reuniões! Eis a grande palavra desse período. Organizavam-nas. em todas as cidades do Império. Quatro ou cinco estudantes de província fundam um comitê de bairro contra a escravidão, que se reúne nos fundos de um café. Os bairros vizinhos propoem uma assembléia comum: nova reunião, dessa vez no pátio da escola, por exemplo para aplaudir um orador local que demonstrará as imperfeições da lei em vigor.

Um dia, anuncia-se a chegada de um arauto da abolição, um Jerônimo Sodré, um Lopes Trovão. A juventude excita-se: grande momento! Para acolhê-lo, será alugado o Teatro Municipal. Os responsáveis distribuem tarefas: mais reuniões. Há que imprimir os bilhetes de entrada, coletar os donativos,

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compor os arranjos de flores. Distribuem-se panfletos, colam-se cartazes, redigem-se comunicados para a imprensa e notas biográficas. No comitê, disputam-se os chefes para se saber quem apresentará o orador. Diante da porta, janotas de mãos finas, que nunca trabalharam na vida, perdidos de amor por seu novo ideal, esperam radiantes que os mandem varrer a sala.

Todos esses moços tão eficientes, tão diligentes, já fizeram política? Nunca! A maioria nem está em idade de votar, e pouco se lhes dá. Todavia, quanto à abolição, sabe Deus por quê, inflamam-se, estão dispostos a tudo e tudo conseguem.

Para munirem-se de argumentos, os ativistas iam ao encontro de escravos. Não levavam muito tempo para descobrir os maus-tratos que ainda lhes infligiam e para narrá-los na imprensa camarada. Uma velha harpia que vivia em Botafogo foi indiciada por torturar suas domésticas, duas crianças, das quais uma, aliás, teoricamente livre por ter nascido após a lei de libertação. Os jornais acompanharam o processo meses a fio.

Pois os jovens magistrados, impelidos pela opinião nacional, precedendo-a às vezes, não vacilavam em acusar os donos de escravos: nova ocasião para se reunirem diante do tribunal, para apoiarem o ardor dajustiça e exigirem penas exemplares.

Nascido burguês, depressa o movimento tornou-se popular. Atingiu as camadas que desde sempre as leis eleitorais impediam de se expressar. Logo se percebeu que essa gente, analfabeta ou demasiado pobre para votar, podia contudo ter opiniões e organizar-se em torno delas. Grave descoberta para todos os que governavam o país há quarenta anos: os conservadores, os liberais, o imperador.

Nacional por sua dimensão, popular por suas raízes, moderno por sua organização, o movimento assombrava-nos. jamais se vira algo parecido, nem em nosso país nem mesmo no estrangeiro. O abolicionismo dividira os Estados Unidos, ao invés de uni-lo, como no nosso caso. Na Inglaterra, fora assunto de intelectuais e de cristãos, não do povo. Tivera sucesso na França em meio à indiferença geral. A rigor, todas essas reuniões

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podiam lembrar a ascensão do sindicalismo em Chicago, ou as lutas anticlericais na Europa, mas tais movimentos só diziam respeito aos operários ou aos ateus. Não, deveras, não vejo nada na história análogo a esse congraçamento unânime, resoluto, jovem e profundamente alegre no meu Brasil dos anos 1880, senão talvez as Cruzadas.



Dois homens dominavam o movimento, conheci-os bem. Arrastaram-me pela lama, mas depois, como tantos outros, arrependeram-se, e hoje cumulam-me com sinais de respeito e às vezes de contrição: um pouco tarde, infelizmente.

O negro José do Patrocínio escrevia em A Gazeta da Tarde. Sua pena mordaz e ocasionalmente trivial, seu talento para a metáfora popular produzia maravilhas entre a gente humilde, e especialmente entre os negros. Com todo o seu talento, Luís Cama, o ex-escravo, escrevera diatribes ferozes, mas burguesas; já Patrocínio falava aos hílotas. Às tiranias escravocratas, ele opunha uma brutalidade popularesca que se afigurava indispensável a seus leitores para sacudir a inércia do poder.

Joaquim Nabuco, inversamente, possuía todas as finezas da aristocracia. As fadas haviam embalado o berço desse filho de um senador, conselheiro de Estado e várias vezes ministro. Mas o jovem sofrera, justamente, por causa da ilustração do pai, que o impedia de desabrochar. Para escapar-lhe, vivia como um dândi em pequenos postos diplomáticos, notadamente na Europa, onde o brilho das festas não lhe empanava a lucidez: "Fosse eu inglês, talvez detestasse a Inglaterra, mas sou brasileiro, e adoro-a".

O falecimento do pai libertou o rapaz, que pôde, enfim, escolher seu caminho sem seguir o modelo paterno nem temer as observações do altivo senador. Abraçou a causa abolicionista, na qual revelou seus prodigiosos talentos de panfletário e de organizador. Escreveu artigos, publicou livros e, escorado na admiração de seus leitores, conseguiu agrupar todas as ligas do país numa organização única. Após ter-me insultado até minha destituição, terminou saudoso da monarquia

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e deixou a política. Dizem-me que está redigindo uma biografia sobre o pai, talvez para se desvencilhar de uma vez por todas de sua influência.



Nabuco, ao me atacar, equivocava-se de adversário: o extraordinário entusiasmo de meu povo também me arrebatava. Eu estivera entre os primeiros a desejar a extinção da escravidão, o que julgava ter garantido com a lei do Ventre Livre. Posto que meu povo pedia mais, haveríamos de dar-lhe. Mas eu não iria curvar-me ao populacho. Podiam levar-me a refletir, eventualmente a ceder, porém, o Brasil possuía leis, instituições, uma maneira democrática de debater problemas e mudar as coisas, quando necessário. Enquanto os tribunos excitavam a malta, voltei-me para o Parlamento, a fim de que se pronunciasse.

Lá fora, a multidão rosnava, impaciente, furiosa. Pouco se lhe davam os parlamentares, suas argúcias e sua impotência. Ela queria a abolição, de imediato. Quem, afinal, ousava se opor? Os liberais? Os conservadores? Os ministros? Cada um acusava o outro, e os republicanos instilavam seu veneno: quem interceptava a marcha rumo à liberdade, quem recusava a abolição, era o velho dentro de seu palácio, símbolo do obscurantismo sob seu verniz de cultura, Pedro Banana.

Sempre a injustiça, sempre a calúnia: eu estava acostumado. Como os liberais nada lograssem, pus os conservadores no poder: mais um golpe de força!, brandiram os republicanos. Ainda assim, foram os conservadores que aprovaram a lei libertando os sexagenários, o que nos proporcionou alguns meses de sossego.

Eu andava bem necessitado disso. já não se tratava de preservar a calma do país, mas sua estabilidade, e inclusive sua coesão. O Estado desabava sob o ímpeto abolicionista. A mecânica minuciosa, respeitosa das formas, que eu havia construído,

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atolava-se no próprio legalismo. Por decênios nós havíamos jurado pela Constituição e pelo direito; ora, eis que surgia outra coisa para a qual não estávamos preparados: a vontade do povo. Compreendendo o que sucedia, os funcionários hesitavam em cumprir as ordens de um governo tão isolado que ia se tornando artificial. Podíamos cair na anarquia de um momento a outro.



Ou no caos; pois o clamor abolícionista, nascido do povo livre, findou por alcançar os primeiros interessados. De um extremo a outro do país, os escravos tomaram em mãos sua emancipação. Foram assinaladas revoltas por todo canto e, sobretudo, evasões em massa, umas espontâneas, a maioria organizada por entusiastas do movimento.

"Hoje, à hora marcada, largai vossas ferramentas quando o feitor houver virado as costas e acorrei à vila. Escondeivos na casa do professor ou do boticário, que vos levarão à estação ferroviária ao anoitecer. Ali, os empregados ingleses da estrada de ferro, todos abolicionistas, hão de abrir-vos os vagões e, confortavelmente deitados sobre sacas de café, chegareis ao litoral e aos portos."

A polícia fechava os olhos, incapaz de interceptar os bandos de gajos armados com foices e facões. O exército, requisitado pelo governo para apanhar os fujões, comunicou com altivez que tal ignominiosa função não era de sua alçada: os oficiais detestavam os fazendeiros e desde muito haviam aderido ao movimento de emancipação.

Os negros fugidos reuniam-se na periferia dos portos, como em Santos, ou perto do Rio de janeiro, na praia do Leblon, onde criavam quilombos. Não se destruíam mais os quilombos, ao contrário: as moças de sociedade pegavam o bonde para levar até lá cobertores e alimentos. Sentindo calafrios, elas se aproximavam dos grandes pretos que lhes sorriam. Na volta, riam à socapa, cruzando com as patrulhas da Guarda Nacional que se mantinham a uma distância deferente dos bairros de negros fugidos, e corriam à casa para contarem às

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amigas a aventura da noite: uma boa ação, homens bonitos pouco vestidos, a ilusão de enganar a polícia, como isso inebria!



Os fazendeiros mais teimosos substituíam os fugidos por outros escravos comprados no Norte, onde os proprietários rurais, ao compreenderem para onde o vento andava soprando, liquidavam com seu rebanho a preço vil. Outros, temendo a revolta, mais do que a evasão, alforriavam por cautela. Dando um pouco de publicidade à sua decisão, eles ganhavam, além de segurança, os aplausos do povo e a simpatia da Corte. Um após outro, eu enobrecia os que assim, in extremis, isentavam-se do pecado escravocrata.

Por fim, os abolicionistas resgatavam escravos para libertá-los. A organização deles, tão eficiente no preparo de reuniões e no veicular de palavras de ordem, ia se tornando uma máquina de coletar fundos. Cada região, cada cidade competia com as vizinhas para ver qual haveria de libertar mais escravos. A tal ponto que, em 1887, só restavam algumas dezenas de milhares, e acelerava-se o ritmo das alforrias. Ninguém esperara por isso, mas quiçá Rossemos, assim, solucionar o problema.

Por essa época eu andava pela Europa, de estação de águas em estação de águas, em busca de minha saúde. Isabel exercia a Regência e o Cotegipe, aquela velha raposa, presidia o gabinete. Aos setenta anos, ele conservara todo o seu espírito, todo o seu encanto e toda a sua maleabilidade digna de um réptil.

Minha filha, impelida por suas convicções cristãs e preocupada com o enfraquecimento do Império, queria a qualquer preço dar um passo a mais rumo à libertação dos escravos. Que passo exatamente, ela não o sabia, cabia aos ministros decidirem, mas havia que fazer um gesto. Cotegipe não queria nem ouvir falar nisso. Mandava nos conservadores, que sabia estarem divididos sobre a questão, e recusava qualquer proposta perigosa para a unidade de seu partido. Queria esperar, assistir às alforrias espontâneas que iam contendo

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a explosão abolícionista e, pouco a pouco, restaurar a autoridade do Estado.



Os dois defrontaram-se, a seu modo, tenaz e comedido, sem altearem a voz e sem violência. A alteza imperial propunha medidas, o excelentissimo, senhor presidente do Conselho prometia estudá-las. Ela voltava à carga, ele inventava pretextos, jurava pôr-se ao trabalho; ela insistia mais uma vez, sem se atrever a magoar o septuagenário encanecido a serviço do Império. Ao fim, minha filha zangou-se. Por ocasião de um incidente sobremodo venenoso entre policiais e militares, exigiu e obteve a demissão do gabinete.

Convocou outro conservador, abolicionista, e deu-lhe instruções: conceder aos que protestavam o que fosse necessário para restabelecer a ordem.

Era, a meu ver, dar-lhe um pouco de liberdade demais. Em seu lugar, teria eu explicado ao novo gabinete que a ordem não viria necessariamente de uma capitulação precipitada. Pelo contrário, a prudência exigia medidas graduais, libertações que se fariam passo a passo no correr de alguns anos, acompanhadas por um sistema confiável de indenizações. A Câmara votaria tal projeto e não teríamos demonstrado tanta fraqueza aos adversários da monarquia. Mas eujazia inconsciente num hotel em Milão.

O presidente do Conselho redigiu seu projeto, mostrou-o a Isabel e obteve a sua aprovação no dia 13 de maio de 1888. Uma lei esplêndida em termos de concisão, com seu artigo único, demasiado curto, a meu ver, para não dar ao povo a impressão de que nos fora por ele ditado. Humanamente perfeita, politicamente perigosa: "É declarada extinta a escravidão no Brasil".

Deixo-me aqui influenciar pelos episódios que se seguiram. Na realidade, retornando poucas semanas mais tarde ao Brasil, encontrei o país apaziguado, orgulhoso de si e ostensivamente afeiçoado à monarquia. Acolheram-me com um fervor que eu não conhecera desde a questão Christie.

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A própria Isabel, habilmente apresentada como a princesa que soubera forçar os políticos a escutar o povo, conheceu seu momento de popularidade. Qualificaram-na de A Redentora, a lei que inspirou tornou-se a Lei Áurea, e José do Patrocínio, o Marat dos pretos, passou a ser o mais enternecido de seus admiradores. Organizou junto com uns escravos libertos uma Guarda Negra ferrenhamente monarquista que perseguia os republicanos e empastelava-lhes os jornais. Esses pobres-diabos são os únicos que se atreveram a resistir quando nos expulsaram no ano seguinte, e alguns morreram por nós, no Maranhão.

Desse estado de graça efemero e irrisório que se seguiu à abolição, eu não soube tirar partido para restaurar as instituições e abater meus inimigos. Como poderia? Onde, pensando bem, morava o perigo, uma vez que meu povo me amava? O povo, sim, mas não os fanfarrões positivistas. Estes não se acalmariam com uma lei Áurea.

Eis-me preso na armadilha de meu relato. Principiei-o ingenuamente para amenizar minha solidão com a lembrança de certos grandes feitos de outrora. Depois, prossigui-o porque me forçava a refletir sobre minhas opções e minhas condutas: um salutar exame de consciência, em minha idade. Não previra que ele teria um fim, que um dia caber-me-ia, contar minha destituição, essa pexipécia, e a indiferença de meus súditos, essa tortura.

Para um liberal de meu feitio, ser deposto por militares é, no fundo, quase um motivo de orgulho. Porém, ser olvidado em poucos meses por todo um povo só pode significar... Ah, meu Deus! Que cálice de amargura devo beber presentemente? Uma vida inteira de sinceridade laboriosa a serviço de meu país, e depois, ao fim, a indiferença: "A República foi proclamada. - Ali? Vejam só! Mas, e o imperador? - Exilado. - Exilado? ah, bom! E a cotação do café? como anda esta manhã?".

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Coragem, velho impotente, não és homem de te esquivar nem de abandonar. Sempre enfrentaste teus problemas até o fim. Bem ou mal, mas até o fim, sem compromisso, sem indolência. Não abandones esta história iniciada com tanta imprudência. Compreender, é mister compreender o que ocorreu; como pudeste, numa noite de novembro, encontrarte bloqueado num palácio que os soldados, os teus soldados, cercavam. Coragem. A tarde está avançando, Guillaume desarruma tudo dentro do quarto, com a desculpa de fazer tuas malas. Partimos amanhã para Essen, depois, Paris. Isabel espera por ti em companhia de todos os teus amigos. As sessões do Institut far-te-ão esquecer depressa esse verão introspecúvo em Vichy um capricho de valetudinário. Não deverias, mas não há mais jeito, não abandones. Há que compreender.



Após a guerra do Paraguai, quando agradecemos aos voluntários e desmobilizamos os escravos, o exército tornou a ficar com seus quadros da época de paz, cerca de dez mil homens. Seus oficiais, inebriados com a glória suspeita de terem levado cinco anos para destruir um Pequeno povo, desdobraram-se em banquetes e bravatas. Faziam suas medalhas tinirem ao embelezar as recordações, e puseram-se a falar de honra.

Se tantos militares haviam tombado em Curupaiti ou em Humaitá, repetiam entre si, era pela honra do exército. Seus sacrificios impunham aos sobreviventes o dever de preservar esse frágil valor, e os civis não compreendiam tais coisas. Ao contrário, os paisanos da política proferiam idéias extravagantes. Em seu entender, o exército havia, simplesmente, cumprido com o dever; instrumento da política nacional a serviço da nação soberana, fazia jus ao reconhecimento, e não à adulação.

O exército, um instrumento!, indignavam-se os oficiais. E nós, então? Simples mercenários, estipendíados por uma camarilha de políticos prevaricadores e efeminados! Como se ousava falar assim dos heróis do Chaco, dos centauros de Tuiuti?

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Rio Branco não se deixava impressionar por essas prosápias. Tanto quanto eu, desconfiava dos militares, e juntos decidimos dar um chega às ruidosas comemorações. Bastava, pensávamos nós, dividir os corpos em pequenas unidades e mandá-las para batalhões distantes com a ordem de fracionarem-se de novo, a fim de assegurarem uma presença militar nos menores povoados. Oficiais isolados, servindo longe dos grandes centros, tendo como única missão proceder à manutenção das armas e como único conselho deixar um pouco de lado a glória e a honra.

Eu supunha a idéia engenhosa, mas foi um completo insucesso. Afastados dos superiores, os graduados esqueceram-se o que significava obedecer, e comportaram-se como reizinhos em suas núnúsculas guarnições. Como não lhes dessem nada para fazer, principiaram a freqüentar os civis, a comentar as notícias, a bisbilhotar nos livros, em suma, a refletir.

Aí vai um conselho ao menos a meu neto Pedro, se um dia ele reinar: desconfia do soldado, evidentemente!, mas, acima de tudo, desconfia do soldado que não dorme no quartel e que encontra tempo para ler osjornais. Concentra teu exército, reforça-o em vez de enfraquecê-lo, e dá-lhe uma ocupação. O toque de clarim matinal, o treinamento cotidiano, as grandes manobras a cada três meses impedirão os teus militares de terem idéias.

A raça engalanada, espalhada em pequenos grupos, vivia numa ociosidade bulhenta e contestatária. Iao logo cumpria certas formalidades a que chamava de seu serviço, o oficial saía para tomar ares. Pavoneava-se com botas envernizadas, quépi de banda sobre os cabelos com brilhantina, bengala de peralvinho presa ao pulso por uma correntinha de prata. Ia encontrar-se com a amante, ou jogar cartas com os amigos e procurar com eles os modos mais espalhafatosos de denunciar a incúria dos civis do governo.

A obediência pura e simples só era ainda exigida dos recrutas. O tenente não dava mais ouvidos ao capitão, o major bocejava ao ler as instruções do coronel. Escolhiam as ordens

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às quais consentiriam em obtemperar, os oficiais que aceitariam seguir: sempre os mesmos, os que cultivavam a popularidade atacando os incapazes do gabinete.

Como os assassinos do jornalista não haviam sido punidos, eles deduziam que tudo lhes era permitido, e multiplicaram-se os incidentes sem que o governo se atrevesse a reagir. Certo dia, o ministro da Guerra, chocado com o discurso de um coronel que punha as autoridades em ridículo e era aplaudido pelos cadetes, foi obrigado a se retirar da sala. Nenhum protesto, nenhuma punição. Quando a polícia prendeu um capitão por embriaguez pública, toda a guarnição do Rio de janeiro denunciou o crime de lesa-majestade, pediu e obteve a exoneração do chefe de polícia.

Porque eram impedidos de irem ouvir seu orador favorito, os cadetes da Escola Militar combinaram certo dia atirar suas armas ao pé de um ministro, durante uma cerimônia. No último instante, amedrontaram-se, exceto um deles, que, conforme prometera, lançou todo o seu armamento entre as pernas de um dignitário que o passava em revista. Leinbro-me do vagabundo e do gesto por causa de seu nome esquisito: Euclides. Evidentemente, não o detiveram nem repreenderam o diretor da escola.

Essa enumeração de nossas fraquezas entristece-me sobremaneira para que eu a prossiga por muito tempo; mas convém relatar mais uma, que pinta muito bem o ambiente dessa época. Os serviços do Ministério suspeitavam de um coronel que teria desviado verba do orçamento da intendência. O oficial, em lugar de se defender por meio dos recursos hierárquicos, atacou diretamente o ministro da Guerra numa série de artigos na imprensa.

Merecia por isso o castigo que lhe foi iniligido. Mas seus colegas protestaram e apelaram para o Estado-Maior, em nome de um alegado direito dos militares de se expressarem nos jornais para, mais uma vez, defender sua honra.

O acusado - jamais se provou alguma coisa contra ele - foi convidado a proferir conferências, viajou de guarnição em

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guarnição. Dois marechais pronunciaram-se a seu favor e intimaram o governo a revogar a punição e abolir os textos que impunham silêncio ao exército. Tiveram ganho de causa.



Ninguém ousava retomar o controle dessa coorte de matamouros que se qualificavam como o Exército. Inclinamo-nos, tudo aceitamos, estávamos amedrontados. Pois esses militares bazófios puseram-se a pensar, pelo menos alguns deles, adulados pelos colegas porque sabiam mais ou menos alinhavar argumentos.

Esses intelectuais de dólmãs levavam aos oficiais desocupados idéias, um fito, uma justificação. A medida que o tempo ia esmaecendo a glória dos combates no Paraguai, as novas teorias propunham ao exército um papel histórico, o de estabelecer no Brasil a lei positiva.

Desde muito eu seguia a propagação das teses positivistas no Brasil. Vinham-nos da França, das elucubrações de Auguste Comte, desenvolvidas após sua morte por alunos seus ou, mais exatamente, por fiéis seus, posto que se tratava de uma religião, tanto quanto de uma filosofia.

Seu aparente rigor intrigara-me no princípio dos anos 60, especialmente porque elas representavam uma tentativa a mais de reconciliar a ciência e a história. Aqui mencionei diversas vezes minhas preocupações nesse campo para que se compreenda meu interesse. Eu podia admitir como hipótese os três estados sucessivos da humanidade segundo Comte: o teológico, o metafisico, o positivo, este último ainda projetado no futuro, um objetivo a alcançar, cuja harmonia decorreria da aplicação das ciências.

O desígnio dessas ciências, tais como Comte as concebia, não era descobrir a razão das coisas. Regiam o mundo sem explicá-lo, e seu único objetivo era identificar leis e aplicá-las

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visando à felicidade da sociedade. A "teologia" do passado, a "metafisica" de nosso século exauriam-se na busca de causas, quando em verdade não existem causas, mas só efeitos. O estado positivo era justamente este em que o homem cessaria de se interrogar, em que mais ninguém perguntaria "por quê?".

Era ir longe demais no meu entender. Não se equaciona a felicidade, a qual não resulta de leis científicas mas dos esforços individuais que cumprimos para atingi-la, dentre os quais o de tentar compreender o que fazemos na terra. Recusar a interrogação "por quê?" deve conduzir ao embrutecimento, e não à serenidade. Salvo, evidentemente, se tivermos absoluta certeza de que não há causas. Mas eu recusava o universo aleatório presumido por Comte.

Tirando as conseqüências de sua própria análise, o filósofo, ou melhor, o iluminado imaginara recorrer ao sagrado. Um sagrado artificial, inteiramente inventado, uma religião concebida por ele numa manhã, após o café, com seus dogmas e seus ritos.

Um grande sacerdote supervisionava o culto da única idéia que Comte tolerava acima do homem, a de humanidade, a do pensamento reunido de todos os homens, e semelhante idéia encarnava-se numa criatura de verdade, uma certa Clotilde de Vaux que o mestre conhecera muito bem. O positivismo ia dar na farsa litúrgica. A reflexão legítima dos comtistas, conquanto errônea, soçobrava no ridículo. Bastou isso para aniquilá-la na França, mas não entre nossos militares.

Pois, se mais de um oficial zombava, em privado, das meditações do culto positivista, quase todos saboreavam-lhe de antemão as conseqüências políticas. O Mestre anunciara que, para alcançar o estado positivo, cumpria, inicialmente, impor ao povo uma ditadura transitória, que duraria 21 anos. O papel do exército era instaurar esse poder das elites; portanto, depor-me para instituir uma República. Era o que repetia o mais inteligente e o mais pragmático dos positivistas, o tenente-coronel

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Benjamin Constant, que por pouco não havia sido professor de álgebra de minhas filhas.

Os republicanos que aliavam-se a ele não partilhavam de todas as suas idéias. Uns almejavam o socialismo, outros só juravam pelo federalismo, e terceiros, conservadores, temiam as reformas progressistas prometidas por meu último gabinete, em especial a distribuição de terras; mas essa massa contraditória uniu-se para depor-me, cada um prevendo in petto enganar os outros tão logo tivesse eu partido. É exatamente o que hoje sucede.

O mais, conforme eu disse, não passa de uma peripécia, um golpe de Estado de opereta articulado em poucas horas, sem derramamento de sangue, pelo menos no Rio de janeiro. Tínhamos dentre nossos chefes militares um bonitão pretensioso e tacanho que eu conhecia desde Uruguaiana. Repugno pronunciar seu nome, hoje ele é presidente da República. À época, houve-se por bem afástar esse sedicioso para as solidões do Mato Grosso, a fim de acalmá-lo. Quando fartou-se dos mosquitos e dos jacarés, retornou ao Rio de janeiro, sem que o houvessem convocado, furioso por um de seus rivais ter sido escolhido para governar uma província que ele cobiçava.

Benjamin Constant e seus republicanos festejaram-no e afagaram-lhe a vaidade. Ele acreditou em tudo o que lhe diziam sobre a planejada revolução: que só se tratava de substituir o gabinete e de nomeá-lo presidente do Conselho. Quando pôs seus batalhões na rua, na madrugada de 15 de novembro, o general ainda era monarquista, e continuou a sê-lo, estou convencido, até o fim do dia.

Desci precipitadamente de Petrópolis, refletindo sobre as diretivas que haveria de dar ao governo. Ora, já não existia mais governo; fui informado, ao chegar, que seu chefe fora preso. Pouco depois, cercava-se o prédio onde eu acabava de convocar os conselheiros de Estado. Eu estava só, sem ninguém a quem dar ordens, sem notícias, na impossibilidade de fazer funcionar a menor engrenagem.

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Ninguém jamais explicará, estou convencido, por que passei a tarde a ler calmamente ao lado de Teresa, sem escutar o choro de Isabel nem as objurgações de Gastão, que fora ao nosso encontro. Dirão eles que eu andava doente, modo cortês de dizer que estava caduco. Suporão eles que eu ainda não imaginava meu banimento e que aceitava sem comoções a aproximação de uma velhice tranqüila em Petrópolis. Ou, ao contrário, que eu me alegrava de ir viver em Paris.

Haverá com certeza quem pretenda que desde muito eu era incapaz de tomar uma decisão pessoal, como a de ir a Minas Gerais e ali reunir tropas fiéis ou, inversamente, convocar o general sedicioso à presidência do Conselho e deixá-lo se avir com os republicanos. Estes roçarão a verdade.

Sempre me ative ao legalismo, à observância estrita dos procedimentos, aos recuos segundo a Constituição. O respeito pelos princípios liberais governou-me a vida, ou melhor, o medo de pecar contra o liberalismo. Durante cinqüenta anos reprovaram-me o poder pessoal, fizeram-no injustamente, mas os protestos e as invectivas terminaram moldando meu comportamento, impondo-me um reflexo temeroso toda vez que eu me achava prestes a tomar uma decisão solitária; disposição desastrosa para quem se propõe conservar uma dinastia no poder.

Os que querem verdadeiramente o poder, por mais escrupulosos que sejam, sabem preservar em si a pequena chama da iniciativa, do soco na mesa, do golpe de força restaurador. Meu pai guardou-o até o fim, até que seu derradeiro batalhão se rendesse. Eu, na hora de reagir, eu deixei-me levar, deposto por um general ainda semimonarquista, à frente de um exército indeciso dentro do qual vários oficiais esperavam uma manifestação de minha parte, enquanto a nação via passar, sem a elas aderir, as esquálidas colunas que clamavam a república. Paciência!

Quando o coronel chegou com sua mensagem de banimento, quando nos embarcaram de noite - de noite, que

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vergonha! -, quando cheguei a Lisboa, mantive a certeza de que sentiriam minha fálta, de que se dariam conta de tudo o que dediquei a meu país. Hoje, já não sei. Meus fiéis traem-me, uns após outros. O preceptor de meus netos renunciou solenemente ao baronato que eu lhe havia outorgado, ninguém me escreve, ninguém me envia livros ou jornais de lá... Estou cansado, já não quero falar de nada disso.

Guillaume diz-me que um homem insiste em me ver, um sr. Kahn, um rabino. A respeito de meus cantos hebraicos do Comtat. Vou recebê-lo e, em seguida, deitar-me, tudo o que quero é dormir, esquecer a indiferença, o abandono deles.

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XII


Não consigo dormir. Contudo, a freira me prometera que eu dormiria, ao dar-me para beber sua infusão milagrosa com uma colherada do Xarope boliviano do frei Antônio. "Para os casos extremos", murmurava com ares preocupados. Eu devia me encontrar num estado daqueles! Atarantado, tremelicante, incapaz de falar desde que o rabino Kahn me deixara, também ele preocupadíssimo com a confusão mental em que suas revelações me mergulharam. Apoiado em Guillaume e na irmã, pude retornar ao quarto, deixar-me despir e jogar-me no leito.

Meia-noite e trinta e sete. Devo ter acordado por volta das onze e meia, e depois... Digamos que divaguei em minha cama por uma hora. Agora sinto-me melhor, ufa! A calma. Sem acender a luz, levantei-me e sentei em minha poltrona. Nem tão cedo vou voltar para aquele leito infernal.

Sob a luz fraca de um lampadário do parque, distingo os móveis de meu quarto. Tudo está no lugar, vai tudo bem: os jornais e os livros sobre a mesa, a imagem de São Jorge sobre a lareira, o retrato de Teresa, com um crepe preto, sobre a mesinha de cabeceira.

Ela morreu há dezoito meses, estávamos praticamente desembarcando do navio do exílio. Em Lisboa, os portugueses iam aclamar seu novo rei, e esse meu sobrinho-neto deume a entender que um imperador expulso pelos republicanos

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não tinha lugar na grande feira monárquica de uma coroação. Discretamente, retiramo-nos para um hotel do Porto, exilados, em suma, uma segunda vez.



Foi lá que ela veio a falecer, enquanto eu visitava a biblioteca municipal. Como me faz falta, como todos me fazem fàlta. Mais tarde, andei por Cannes e Paris, antes de me instalar aqui em Vichy de onde saio amanhã sem tristeza e sem alegria. Aliás, onde está minha alegria? Onde está minha tristeza? Não sinto mais nada.

Sim, sinto calor! Há anos que não sentia calor: sempre as camisas-de-meia, as meias de lã, os cobertores para o velho senhor. Esta noite estou transpirando e sentindo-me sufocado. O chá, talvez; pergunto-me o que a freira pôs ali dentro. Ou o medo, provavelmente o medo.

Pois há pouco passou-se aqui algo pavoroso, quando eu estava suando em cima do travesseiro sem pegar no sono. Um homem entrou em meu quarto. Impossível! Não Um homem de batina, um padre. Narigão adunco, lábios grossos, órbitas cavernosas no fundo das quais luzia um fogo terrível. Um pouco o semblante que Nadar enxergou em Baudelaire, em mais agudo, mais intenso, mais in&ni4 isso mesmo! A palavra é essa.

O padre olhou-me em silêncio, depois acercou-se do leito. Imaginei que a freira, aflita com a minha crise desta noite, chamara um padreco para administrar-me os santos óleos. Depois, imaginei um atentado. Pobre louco! Afinal, quem ainda pensa em mim o bastante para querer me assassinar? Em vão puxei o cordão da campainha, que não funcionou.

Agora bem perto de mim, o homem remexeu em sua batina. "Está à procura de uma faca", conjeturei. Era um livro. Abriu-o, colocou-o debaixo do meu nariz e li, sem torgnon nem luz, a Visão do rei mau. já nas primeiras linhas reconheci as frases, o livro e o padre. Entretanto, o abade La Mennais morreu há quarenta anos.

"E eis que após ter cruzado várias salas desertas, num pequeno quarto, sobre um leito iluminado apenas por uma

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lâmpada pálida, ele avistou um homem corroído pelos anos. Ao redor do leito havia sete medos, quatro de um lado e três do outro. E um desses medos pôs a mão sobre o coração do homem idoso, e ele se sobressaltou e seus membros tremeram; e ali ficou a mão enquanto sentiu um pouco de calor. E depois dele, outro medo fez o que o primeiro fizera, e todos passaram a mão sobre o coração do homem idoso. E nele sucederam coisas que não se pode desvendar."



Espavorido, quis suplicar ao padre que me desse sua bênção e sua absolvição: eu não podia falar. Ele fechou o livro e foi-se embora pela porta, como uma pessoa qualquer, e neste momento talvez ainda esteja zanzando pelos corredores do hotel.

Sete medos! As palavras martelavam em minha cabeça e eu bufafa como um animal. Que vai me ocorrer? Nenhum pavor, é claro, não há fantasmas. Medos figurativos, provavelmente, sete remorsos, a memória de sete pecados graves, conquanto haja eu cometido bem mais. Convém acalmar-me, refletir tranqüilamente.

Mas o segundo medo já caçoava de mim, e era de fato um pavor. Uma gárgula enegrecida que rasgava a coberta de cama com as garras de sua patas traseiras e mostrava seus bicos, grunhindo. Imediatamente reconheci o rabino Kahri, por causa da cor. Tal como o monstro, ele era preto, quer dizer, vestia-se de preto, das polainas ao chapéu. Todavia, o rabino não grunhira quando o recebi esta noite. Um homem prestativo, amável, que nessas alturas está seguramente contrariado com a tristeza que me causou.

Há trinta anos Kahn estuda os Cantos do Comtat. De passagem por Vichy pediu para me encontrar e conversarmos: muito bem! Aprecia minha tradução: melhor ainda! Inclusive, reputoua, em certos aspectos, superior à... Como? O que está querendo dizer? Superior a quê? Bem! à do sr. Sabatier, ora essa, fiwmacêutÉco em Nímes, publicada nesta cidade há vinte anos.

O abismo, de repente. Outro já traduziu meus cantos. De modo que minha glória é fictícia, minha medalha, usurpada.

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E todos sabem disso, menos eu; pois os Oíbres de Carpentras que me premiaram conheciam o trabalho desse Sabatier, leramno, não é mesmo, não é mesmo? Com certeza, gaguejou Kahn, que agora está rindo, em cima da minha cama. Por que me agraciar, então? Por que conceder uma medalha ao trabalho que outro já fez? Porque eu sou imperador, hem, é por isso, não é?

A gárgula ri em silêncio. Com sua pata ignóbil, ela bate na cabeça entre os chifres, fàzendo-me um sinal para que eu reflita. Sobre o quê? Sobre o plágio? Evidentemente. As duas traduções se parecem? Diga, mas diga! Coincidências involuntárias, Majestade, coincidências. Mas eu não sabia, juro que não sabia!

Era o que eu estava gritando há pouco, ao cruzar o grande salão, perseguido pela freira e pelo rabino desconsolado que pensara em me agradar.

A gárgula voou pela janela rumo à igreja Santa Maria, engolindo no caminho um morcego. Versos ruins, livros mal digeridos, experiências fúteis, cálculos inúteis, mas, afinal, uma tradução, uma pequena tradução de vinte páginas, muito dificeis e muito secretas. Inflamei-me, acreditei, triunfei, e eis que um farmacêutico precedeu-me e que todos o sabiam. Reveses, nada mais que reveses.

O terceiro medo transportou-me para a margem de um grande rio. Pretas e silenciosas, suas águas corriam no meio da noite. De repente, avermelharam-se, reflexos de uma aldeia incendiada. Passou uma barca, rebocada por uma chalupa a vapor; ela transbordava de prisioneiros paraguaios. Numerosos demais para esticarem o corpo ou até mesmo para se sentarem, comprimíam-se uns contra os outros e olhavam fixamente, na margem, para o homem alto, de pé, que era eu.

Na parte traseira da barca, dando as costas para os prisioneiros, dois oficiais brasileiros conversavam, fumando. Apesar da distância, eu ouvia perfeitamente a conversa.

"Liquidar com essa gentalha, ordens do Velho. Um pouco mais adiante, na curva do rio; com a corrente, nenhum escapará. Acendemos o pavio e a chalupa manobrará para nos

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pegar a bordo, você e eu. Todos os machos têm que morrer, e então, meu camarada, as mulheres deles serão nossas: quatrocentas mil tipas para o exército. Ele tem razão, o Velho."

Vi o darão, ouvi a explosão. A barca partida em duas afundou na agua escura com os prisioneiros. Nenhum grito. Mas, surgindo a montante, uma onda enorme cobriu o rio e suas margens, afogando o incêndio da aldeia, engolindo a chalupa brasileira e precipitando-se sobre mim.

Acordou-me uma melodia estridente, vinha do centro de meu quarto e fez-me virar a cabeça. Citisos e louros-rosas cobriam minha escrivaninha e, num canto do aposento que parecia ter crescido, o mármore de um pequeno templo contrastava com a folhagem escura das murtas. Enxerguei uma roda de moças alegres que cantavam uma cantiga de minha infância. Um homem alto e bochechudo dançava no meio delas, sobre o chão musguento, e todo esse grupinho divertia-se à larga sem prestar-me atenção.

Que doce visão após todos esses horrores! Com que, então, meus pavores haviam terminado! Eu tivera um pesadelo, e agora, naquele espetáculo campestre e alegre, a vida real oferecia-se a mim. Acalma afinal, a paz. Poderia readormecer, ao som daquelas flautas e daqueles tamborins.

Pensei então reconhecer o homem que saltitava e batia palmas no meio das moças. Aqueles olhos esplêndidos, aqueles cabelos pretos sob a coroa de pervincas, isso mesmo, meu pai! Que felicidade! Consegui empurrar minhas cobertas e levantarme. Aproximando-me das dançarinas, tentei penetrar em sua roda. Porém, as moças negavam-se a pegar a mão do importuno, riam de mim e depois viravam a cabeça. Uma delas, como quem não quer nada, empurrou-me, com os quadris, as outras imitaram-na. Procurei chamar meu pai, enquanto o ritmo da música ia acelerando: ele não me ouvia, não me via. E então percebi que ele dançava inteiramente nu, e foi este o quarto medo.

Encontrei-me na casa de um barbudo mal-asseado a quem chamavam de O Conselheiro. Ele reinava num povoado

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miserável escondido numa cova de montanha. Nenhuma árvore ao redor, pouca água, tufos de capim duro no meio de pedras. Uma luz cruel esmagando essa miséria, as paredes de taipa, os tetos de folha de palmeira, as inúmeras barracas dos romeiros, a Igreja onde soa o Angelus.



O Conselheiro prega a seu povo. Odeia a República e o ateísmo, e eu o aprecio por isso. Também odeia o progresso e a tolerância, e eu o detesto por isso. Uma gigantesca multidão escuta-o, pois no mundo inteiro os pobres saíram a caminho para irem ouvir sua palavra de fogo. Observo as crianças inchadas pela fome, as mães febris, os homens tostados pelo sol. Conto os estropiados, os leprosos, os pernetas. Todos voltados para seu gula e dispostos ao sacrificio que ele lhes promete.

Pois, atrás das montanhas, cinza sobre a terra cinza, um exército avança com suas baionetas e seus obuseiros. A meu lado, o pequeno Euclides, aquele que atirava a espada no chão quando o ministro passava, cochicha-me que o ataque é para esta noite e que os miseráveis vão morrer. Viro-me para a multidão alucinada aos pés do Conselheiro, olho-a atentamente, reconheço meu povo e é o quinto medo.

Após o ofuscante sol do sertão, abençoei a escuridão de meu quarto. Um homem ali me esperava, vestido com uma espécie de toga. Uma Suave fosforescência banhava-lhe o rosto e as mãos. Achei-o com ares muito alegres e profundamente sábio. "Moro numa caverna, falou-me, na terra da Vaca Malhada, e desci de núnha montanha para explicar-te quem és." Calou-se um instante e recomeçou: "Com freqüência vi fracos que se reputam bons porque suas patas estão paralisadas, como as tuas." Mais um silêncio.

"Velho, viveste na mentira e a mentira deixou-te atado. Não a mentira em que pensas, a pequena lorota burguesa, mas a terrível mentira do castigo e da recompensa. Ela extraviou a tua moral e a tua vida."

"Dormiste sobre tuas virtudes, convencido de que elas seriam sua própria recompensa. Ora, gosto de quem não deseja ter demasiadas virtudes. Há mais virtude numa só do que em duas."

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"Pois o homem não é algo que se deva melhorar, mas superar."

Seguiu assim a emitir seus preceitos com voz melodiosa. Entrecortava-os com silêncios para me obrigar a refletir, e sua palavra demolia as crenças que me guiaram a vida. Furioso, terminei por interrompê-lo: "Quis a felicidade de meu povo". Ele sorriu condoído: "Querer, querer, justamente o que não soubeste fazer. Simplesmente te agarraste à ordem, como um condenado a seu grilhão."

"Vamos, ancião, canta comigo: é preciso ter caos dentro de si para pôr no mundo uma estrela dançante."

Assim falou a visão.

Cada vez mais irritado, respondi com firmeza: "A História há de me julgar". Então, ele soltou uma gargalhada antes de desaparecer: "A História, a História, que História? Não há História, é um eterno retorno."

E foi o sexto medo.

O sétimo já estava lá, sobre a minha cabeça. Um frêmito de asas acima de mim e a sensação da mão fria pousada sobre meus cabelos. Sem me atrever a erguer os olhos, principiei a recitar, trêmulo, a história de Tifania, rei da Escócia, assassino de crianças, de velhos e de mulheres. À guisa de cimeira, esse cavaleiro cruel portava uma águia de ferro aparafusada no elmo. Certo dia, indignada com seus crimes, a águia despertou para vingá-los, conforme Victor Hugo escreveu:

Sous l'ar~t d'oú te san& sortaft comme dun crible 11 Lui creva Les yeux, fl ¡u¡ br"4 L-s dents. IZ lui pétrit le crdne en ses ongles ardents,

Le jeta mort ¿I teme, et slenvola tenible.

Sob o elmete de onde o sangue jorrava como de um crivo/ Ela lhe furou os olhos, ela lhe esmigalhou os dentes. / Ela lhe amassou o crânio com suas unhas ardentes,/ Jogou-o morto no chão, e voou, terrivel. (N.T.)

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Paguei. A águia - seria a bicéfala dos Habsburgo? atormentou-me a mente por longo tempo antes de lançar-se na noite, e levantei-me para me sentar nesta poltrona enquanto meu quarto ia retomando seus contornos familiares.



Meia-noite e quarenta, está fazendo calor, tirei meu robe de chambre e eis-me de camiseta e ceroulas compridas. Ouço vozes na noite, uma conversa abafada entre duas mulheres que se referem, parece-me, à lavagem de roupa. Já reparei que um conduto do calorífero liga-me à lavanderia do hotel. Essas vozes, a sombra tranqüila acalmam-me. Meu coração serenou, já nada mais me dói, nem mesmo minhas lembranças.

Com certeza agora eu poderia ler, terminar a novela de Alphonse Karr iniciada ontem: Un homm à la mer!. Ainda não. É melhor caminhar um pouco. Convém afastar definitivamente meus visitantes, certificando-me da realidade. Aqui está a porta, ali, o corredor comprido que dá para o rio. Como brilha o Allier, à luz da lua! Lá está o firmamento: céu de setembro, júpiter entra em Balança, tudo em seu devido lugar. E se eu fosse procurar meu binóculo? Não. Atrás de mim, entreabre-se suavemente a porta de um quarto, mas aquele rosto pálido que me olha, antes de fechar a porta, não é um fantasma, reconheci uma curista de meia-idade, a mulher de um deputado radical. O imperador de ceroulas tranqüilizou-a. Retornemos ao quarto.

Um homem no mar! Muitas vezes cruzei o Atlântico e muitas vezes imaginei a cena. À hora do baile, o passeio noturno pelo tombadilho. O vento nos ovéns, o ritmo forte das máquinas, o eco enfraquecido de uma valsa. O homem cansado medita sobre a imensidão, encostado na amurada. O vazio convida-o, ele bebeu um pouco demais. Um balanço imprevisto, ele se desequilibra, grita. O casco negro desliza à sua frente, e, depois, o turbilhão dantesco das hélices, e, depois, nada.

Antigamente, tal idéia aterrorizava-me, mas meus sete medos parecem ter-me curado definitivamente do medo e,

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esta noite, considero a idéia com serenidade. Um meio como outro qualquer de abreviar a travessia inútil e de chegar ao porto antes dos demais.



Ah! meu grande navio tão fantasioso e tão poderoso! Há tanto tempo navegávamos juntos. Por cinqüenta anos calculei tua rota e fixei teu rumo. Sofremos tempestades, padecemos nas calmarias, mas o alísio, sempre, tirou-nos de apuros. E depois, eu cal numa noite de novembro, e eis que tu te afastas de mim, todo iluminado e ruidoso, carregado de sofrimentos e de risos, de orgulhos e de amarguras.

Vai, pois, belo navio! Se soubesses os portos acolhedores, as enseadas tranqüilas que te desejo! Vai, e não te preocupes, estou bem, estou calmo. Resta-me simplesmente nadar na água fria da velhice, e aguardar.

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Pedro II morreu em 5 de dezembro de 1891, alguns meses depois de ter saído de Víchy, em seu quarto do hotel Bedford, na rua de rArcade, em Paris.



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Bibliografia

Dentre as numerosas biografias de Pedro II públicadas no Brasil, assinalaremos a de Pedro Calmon, erudita e apaixonada, e a de Heitor Lyra, melhor construída e mais bem documentada. Mais recentemente, Lídia Besouchet aprofundou utilmente as influências européias do imperador e, após Mozart Monteiro, suas relações com as mulheres. Os estudos já antigos de Oliveira Lima e de João Camílo Torres, os recentes de José Murilo de Carvalho e de Richard Graham são indispensáveis para compreender a mecânica parlamentar, e o contexto político e econômico do Império. Enfim, Nelson Werneck Sodré e Carlos Sussekind de Mendonça são úteis por seus enfoques violentamente críticos.

Uma parte da correspondência entre o imperador e a condessa de Barral também está publicada.



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Agradecimentos



O autor gostaria de agradecer por sua ajuda e seus conselhos aos historiadores Alberto Venâncio Filho, Lourenço Luiz Lacombe e João Hermes Pereira de Araújo, bem como aos responsáveis da Biblioteca Nacional, do Observatório Nacional e da Biblioteca P. Monbeig, no Institut de l'Amérique Latine, em Paris.

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