Danielle carvalho ramos


A iminência do seio materno



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3.3.1 A iminência do seio materno
Segundo Freud (1933 [1932]b/1996, p. 151), “mais parece que a avidez da criança pelo primeiro alimento é completamente insaciável, que a criança nunca supera o sofrimento de perder o seio materno”. Em seguida, ao falar sobre o temor de ser envenenado, afirma que este também se relaciona com o desmame. Na medida em que “veneno é comida que faz adoecer”, diz ser provável que, a essa frustração, as crianças atribuam suas primeiras doenças.

Importante então considerarmos que no próprio desmame já há, se assim posso dizer, uma violência que se reflete no “sofrimento de perder o seio”, mas não por isso tal frustração deva ser evitada ou longamente adiada. Pelo contrário, deve fazer-se de forma progressiva, de modo não abrupto, porém trata-se de uma frustração necessária, isto porque remete a um corte, à ausência, à falta, portanto. Isto implica que uma maior fixação na amamentação possivelmente enseje uma vivência do desmame ainda mais frustrante. E se veneno é comida que adoece, o que dizer do leite materno a um bebê, seu exclusivo (e excessivo!) alimento? Conforme Dolto,
Se a mãe está ansiosa, apressada, tensa, obcecada com mil detalhes, em vez de estar calma e afetuosamente atenta ao filho, a criança sensível pode sofrer por contágio o clima nervoso difundido pela mãe. Ela bebe a angústia com o leite (DOLTO, 1999, p. 69, grifo nosso).
O excesso, o gozo, a angústia da mãe durante a amamentação, não se fazem, portanto, sem consequências para o bebê. Afinal, a angústia é algo comum ao sujeito e ao Outro (LACAN, 1962-1963/2005).

Dolto (1999) fala ainda que, no complexo de desmame38, a frustração para o bebê não é apenas por conta da ausência do leite materno – esse que chega a sua boca pela sucção –, mas também pela ausência da mãe,
[...] que em geral aproveita a mudança de alimentação para estar menos presente junto ao pequeno, que, justamente nesse momento, teria maior necessidade dela fora das horas de refeições, para a alimentação afetiva e sensorial que a presença e as pequenas trocas de brincadeiras, de carícias, de sorrisos e de voz que ele tem com a mãe representam para um bebê (DOLTO, 1999, p. 70).
Assim, o complexo do desmame, que é progressivo, marca a alternância entre o par presença-ausência da mãe para o bebê, sendo estes momentos de ausência por ela tomados para investir em outra coisa para além dele. Inscreve-se, portanto, a falta enquanto uma operação necessária para que finde o tempo da total alienação. Isto porque, vale ressaltar,
[...] a amamentação contribui para a manutenção no bebê da ilusão da continuidade intra-uterina. Parece que o corpo de um se continua no corpo do outro, pois o funcionamento de um órgão em um deles, quer dizer, uma modificação interna no bebê faz funcionar um órgão no outro, a mãe, e vice-versa, como se fossem um único corpo que somente o desmame vai separar (QUEIROZ, 2005, p. 53-54, grifo nosso).39

Tal relação entre a amamentação e a continuidade intra-uterina indica o quão intensamente o amamentar mantém a ligação entre mãe-filho. Contudo, tal continuidade ilusória que a amamentação evoca, esse “único corpo”, carece, pois, da necessária operação do desmame para que o corte e a separação se deem, para que tal amálgama não se mantenha, para que não se faça aí um gozo destruidor ou que lhes mobilize extrema angústia. Acerca disto, Lacan questiona:


Vocês não sabem que não é a nostalgia do seio materno que gera a angústia, mas a iminência dele? O que provoca a angústia é tudo aquilo que nos anuncia, que nos permite entrever que voltaremos ao colo. Não é, ao contrário do que se diz, o ritmo nem a alternância da presença-ausência da mãe. A prova disso é que a criança se compraz em renovar esse jogo de presença-ausência. A possibilidade da ausência, eis a segurança da presença. O que há de mais angustiante para a criança é, justamente, quando a relação com base na qual essa possibilidade se institui, pela falta que a transforma em desejo, é perturbada, e ela fica perturbada ao máximo quando não há possibilidade de falta [...] (LACAN, 1962-1963/2005, p. 64, grifo nosso).
Logo, o excesso do seio, da presença da mãe, a impossibilidade da ausência faz com que o bebê também seja tomado por uma angústia avassaladora, representando-lhe um grande perigo num momento em que dispõe de ainda frágeis recursos psíquicos para com este excesso lidar.

Acerca dessa fragilidade – que Lacan (1962-1963/2005, p. 354) chama de “impotência original do lactente” –, lembremos que, como nos indica Freud (1933 [1932]b/1996), a um inicial estádio de imaturidade do ego ajusta-se o perigo do desamparo psíquico, este que afirma ser um dos fatores determinantes de angústia, de uma angústia original, primeira, ocorrida no nascimento, o qual, para Freud, representa uma separação da mãe. Segundo ele, o temor à perda do amor se trata de um prolongamento dessa angústia, está remetido a esse tempo arcaico. Logo, o medo da perda do amor refere-se à angústia diante de uma situação real de perigo (FREUD, 1933 [1932]b/1996).

Ora, mas em que implica de fato esta perda do amor? Pressuporia tão somente um perigo real de separação? E esta angústia quando do nascimento, enquanto representante de uma separação da mãe? Seria essa a maior, mais perigosa e dolorosa perda? Por quê? Vejamos as seguintes palavras de Lacan:
A angústia foi escolhida por Freud como sinal de algo. Será que não devemos reconhecer o traço essencial desse algo na intromissão radical de uma coisa tão Outra no ser vivo humano, já constituída para ele pelo fato de passar para a atmosfera, que, ao emergir neste mundo em que tem de respirar, ele fica, a princípio, literalmente asfixiado, sufocado? Foi a isso que se deu o nome de trauma – não existe outro –, o trauma do nascimento, que não é a separação da mãe, mas a própria aspiração de um meio intrinsecamente Outro (LACAN, 1962-1963/2005, p. 355, grifo nosso).
O trauma do nascimento constitui-se então nessa primeira e radical alienação ao Outro, a qual o bebê encontra-se irremediavelmente entregue. Daí a assertiva de Lacan (1938/2002), ao dizer que, com a vida, nasce a angústia. E este “meio intrinsecamente Outro” faz-nos lembrar do estranho familiar do inquietante: tão outro quanto mesmo, um outro de si indissociável.

Segundo Leite (2011, p. 54, grifo nosso), este trauma se trata, pois, de uma imperiosa experiência de invasão que afigura ser o protótipo da angústia real, e diz-nos que, se “a imagem da pessoa amada é intensamente investida [...], dependendo da situação vivida, o anseio, ou melhor, a ausência dessa imagem pode se transformar em angústia”. Mesmo que se manifeste por efeito de uma separação, eis aí, novamente, em seu cerne, a angústia ante a alienação.

Freud (1933[1932]b/1996, p. 92) já dizia que “muitas pessoas são incapazes de superar o temor da perda do amor; nunca se tornam suficientemente independentes do amor de outras pessoas e, nesse aspecto, comportam-se como crianças”. Tal é a impossibilidade de transpor o temor ao excesso da alienação ao Outro, ensejando um funcionamento que remonta à condição primeira de desamparo: como criança, de volta ao colo, entregue ao Outro materno.

Desse modo, não seria surpreendente constatar o quão angustiante pode ser a perda de um amor tão intensamente investido. Penso não ser vã a lembrança das breves considerações já feitas acerca da relação entre o amor e a falta – o amor, assim como o desejo, da falta carece, ou seja, ambos precisam da falta, são dela dependentes. E se não nos passa despercebido o enunciado de Lacan (1962-1963/2005) anteriormente citado, entendemos que, precisamente porque foi possibilitada certa ausência, não há temor, mas segurança na presença. De outro modo, a presença pura submergiria, intentaria ser o impossível do retorno ao útero, à quietude do inanimado – tendência ao nirvana da pulsão de morte.

Assim, o perigo real no âmbito da perda do amor, não seria aí, mais uma vez, o de uma falta que não foi conservada e, que, por conseguinte, não deu condição ao amor? Penso que esse temor é, ainda, temor devido a uma falta que não faltou. E se, sobre o aleitamento exclusivo, o que está em questão, no concreto, é o seio-leite materno, vale a pena lembrar que Lacan (1962-1963/2005) afirma ser o seio o primeiro sinal do vínculo com o Outro, sendo precisamente por isso que o seio se relaciona com a angústia.

Além do mais, consideremos que, como indicado por Dolto (1999), há também, por meio do complexo do desmame, uma abertura a possibilidades outras de interação, trocas e investimento entre mãe e filho. Ou seja, a presença e o investimento da mãe podem (e devem) fazer-se de maneiras outras afora a alimentação, e isso é uma marca que o desmame propicia, dando condição à separação. Afinal, “desde a origem, a criança se alimenta tanto de palavras, quanto de pão, e perece por palavra” (1956-1957/1995, p. 192).

Enquanto um imperativo, o aleitamento exclusivo parece, no entanto, justamente formatar, amarrar a presença materna mediante a amamentação, uma vez que, além de fazer-se excessivamente presente, a mãe tende a investir no bebê quase que prioritariamente através do seio. Assim, enseja no sintoma um mal-estar silenciado, pois o deparar-se com ele confrontaria os ideais tão amplamente difundidos e introjetados sobre o ato de amamentar, indo ainda de encontro ao ideal de um “instinto materno”, imanente a todas às (boas) mães. Um mal-estar não dito quando isto remete a um insuportável da maternidade em um tempo em que tudo deveria ser absolutamente suportável, tolerável.

Tais considerações fazem pensar no que provável ou possivelmente se produz disso: para a mãe, esta que ainda é tomada pelas mudanças físicas e psíquicas que este momento lhe impõe; e, também, para o bebê, este que aí está, até então, totalmente entregue a esse Outro materno, contudo na promessa de um dia vir a ser separado, sujeito.



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