Danielle carvalho ramos


AMAMENTAÇÃO E ANGÚSTIA: ÀS VOLTAS COM O



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3 AMAMENTAÇÃO E ANGÚSTIA: ÀS VOLTAS COM O CENÁRIO DE UM SOBEJO AMAMENTAR
As ditas “orientações” ao aleitamento exclusivo, como vimos, parecem estar intrinsecamente relacionadas a um ideal materno, de tamanha devoção, norteadas por um discurso moralizante que delineia a mãe que amamenta como a boa mãe. Contudo, como afirma Benhaïm (2007), uma mãe tão bondosa imediatamente responderá e, assim, nenhum espaço deixará entre demanda e satisfação, nenhum lugar possibilitará ao desejo.

Se o ideal do eu é exaltante, é aquilo que representa o poder de fazer o bem, no acesso ao desejo, por sua vez, a dimensão do bem funciona como uma poderosa muralha (LACAN, 1953-1954/1993; 1959-1960/1997). Além do mais, a instância moral, vale lembrar, é aquilo que presentifica o real; ao gozo serve ela de apoio (LACAN, 1959-1960/1997).29

Dado esse significativo paradoxo, será que o sedutor discurso do aleitamento, na amamentação sintomática, não tende ao favorecimento de uma excessiva presença materna, ou um tipo de alienação estendida – ou seja, uma mais duradoura e extensiva relação alienante entre mãe e filho? Para melhor situar essa questão, proponho, primeiramente, nos voltarmos a um tempo inaugural, aos primórdios da constituição do sujeito – ou, em outros termos, às operações que o constituem, segundo Jacques Lacan (1964/2008).
3.1 EM UM LUGAR DE NÃO SE “ESTAR SÓ”, QUE POSSIBILIDADE AO DESEJO MATERNO?
Em A instância da letra no inconsciente, Lacan (1957/1998, p. 528) indaga: “qual é, pois, esse outro a quem sou mais apegado do que a mim, já que, no seio mais consentido de minha identidade comigo mesmo, é ele que me agita?”.

Diante desta interrogação, continuemos a cena que ela enseja. Os braços que envolvem o pequeno ser junto ao peito e que, num ritmado e repetido movimento, praticamente o põem a dançar, sustêm a fragilidade daquele que lhes fora rendido muito antes de conhecer qualquer diminuta vontade de ser. Disso que menos parece um embalar do que um sutil e tocante bailado, somos maravilhados espectadores, sem que nos concirna estabelecer menor diferença entre o dançarino e seu partner. Por tão sincrônicos movimentos, continuidade sensível, convencido estamos de realmente se tratar de um só. É nisso que encantadoramente consiste a imagem do encontro entre mãe e bebê.

Lacan (1962-1963/2005) fala-nos que, no processo de subjetivação, a meta fundamental na qual o sujeito tem que comparecer é a abordagem do Outro. O tesouro do significante já constituído no Outro, e que é tão essencial à vida humana, espera pelo sujeito que, no entanto, ainda inexistente, só virá a existir a partir desse primeiro significante. Trata-se, diz Lacan (1962-1963/2005, p. 192), de um sujeito em um nível mítico, “[...] sujeito primitivo que vai em direção a seu advento como sujeito [...] já que é por intermédio do Outro que o sujeito deve se realizar”. Diz mais, afirma tratar-se, com a ressalva da expressão, de um “sujeito do gozo”, o qual só miticamente pode ser isolado. Sujeito mítico. Esse é o “sujeito”, pequeno ser de nosso bailado. Ainda não é, mas, na entrega ao movimento do Outro, afirma a promessa de ser.

Em O seminário, livro 11, retomando as considerações sobre o processo de subjetivação, Lacan (1964/2008, p. 193) afirma que a referência ao Outro é imprescindível para a existência do sujeito, este que, “[...] in initio, começa no lugar do Outro [...]”. Aí vemos os indicativos para a alienação, que consiste no vel o qual condena o sujeito a aparecer, diz Lacan (1964/2008, p. 206, grifo do autor), nessa divisão, visto que “[...] se ele aparece de um lado como sentido, produzido pelo significante, do outro ele aparece como afânise”.



Segundo Lacan (1964/2008), a primeira e essencial operação em que se funda o sujeito é a alienação, na medida em que é no campo do Outro, lugar onde se situa a cadeia significante, que o sujeito tem que aparecer. Fala-nos então da tamanha dependência da vida humana em relação a esse campo do Outro, consideração a qual retoma diversas vezes em sua obra.

A alienação implica tal dependência e, nela, há repetição. No brincar isto aparece de modo exemplar na medida em que marcado é por aquilo que se repete. Lacan (1964/2008) afirma que a repetição se volta para o lúdico, fazendo, do novo que ela demanda, sua dimensão. Contudo, diz-nos que tudo aquilo que na repetição varia é somente alienação de sentido, pois o deslizamento, a novidade no brincar “[...] vela aquilo que é o verdadeiro segredo do lúdico, isto é, a diversidade mais radical que constitui a repetição em si mesma” (LACAN, 1964/2008, p. 66). Não por acaso ele também evoca o famoso jogo do fort da para articulá-lo à alienação; jogo em que há uma espécie de exercício da criança com o carretel; jogo que manifesta, na repetição indefinida e insistente, no manejo desse objeto – objeto no qual ela própria se vê reduzida –, não um suposto exercício de domínio por parte da criança, mas tão somente, ele nos diz, a radical vacilação do sujeito (LACAN, 1964/2008).

Consistindo nessa suspensão do sujeito, a alienação comporta, assim, algo da ordem do gozo, dessa satisfação pulsional que, como já discutido, é o próprio nome da repetição. Apontando para essa vacilação, Soler (2005, p. 93) afirma que, excedendo o que é exigido pelos cuidados, há, na relação mãe-filho, uma elevação da potência da alienação própria ao amor, uma vez que, no início, o recém-nascido ainda não é um sujeito, podendo ser pela mãe tomado como “[...] uma propriedade, uma boneca erótica com que gozar e a que fazer gozar”.

Aí, novamente, o sujeito mítico, ao gozo rendido. Mas o que barra então o acesso do sujeito à insistência e excesso do gozo? Conforme Lacan (1960b/1998, p. 836), “[...] é o prazer que introduz no gozo seus limites, o prazer como ligação da vida, incoerente, até que uma outra proibição, esta incontestável, se eleve da regulação descoberta por Freud como processo primário e pertinente lei do prazer”.

O prazer, em seu princípio, atado à vida, cerceia então o gozo na sua satisfação repetida e insistente, ao conceder-lhe desvios, ao estabelecer limite. No tocante a esse limite no gozo, o desejo, enquanto defesa, opera como uma proibição de ultrapassá-lo (LACAN, 1960b/1998). Em A significação do falo, Lacan já havia escrito:


Ao incondicionado da demanda, o desejo vem substituir a condição ‘absoluta’: condição que deslinda, com efeito, o que a prova de amor tem de rebelde à satisfação de uma necessidade. O desejo não é, portanto, nem o apetite de satisfação, nem a demanda de amor, mas a diferença que resulta da subtração do primeiro à segunda, o próprio fenômeno de sua fenda (Spaltung) (LACAN, 1958a/1998, p. 698).

Consistindo nessa fenda, o desejo imprime então uma condição absoluta, pois, substituindo a demanda incondicional, elucida o que escapa à satisfação da necessidade, aquilo que nela se rebela. Segundo Lacan (1960b/1998), o desejo é o que está para além da demanda e, nessa sua irredutibilidade, também não é passível de ser reduzido à necessidade. O desejo passa pelos significantes da demanda, mas é a ela irredutível; está articulado à demanda, e por isso não é articulável30. Tem, pois, a sua especificidade.

Lacan (1958b/1998, p. 633) afirma que o desejo “[...] é aquilo que se manifesta no intervalo cavado pela demanda aquém dela mesma [...]”, pois quando o sujeito, com o apelo de receber o seu complemento do Outro – Outro que se faz lugar de falta –, traz à luz a falta-a-ser31, o desejo se manifesta. É diante do Outro da falta que a falta-a-ser, o desejo do sujeito e, portanto, o próprio sujeito emerge. Eis a maior particularidade do desejo: a falta.

Em O seminário, livro 15, tomando o “Wo Es war, soll Ich werden” freudiano32, Lacan (1967-1968, p. 89, não publicado) afirma que “[...] o ‘lá onde isso estava’ é a falta a partir do sujeito. Na verdade, ela só o é se o sujeito se faz perda”. Diz que a falta é a perda, perda que é a “causa de si”, onde o “si” é o sujeito. O sujeito é, então, causado por essa perda; dela, ele é a consequência (LACAN, 1967-1968, não publicado).

O sujeito não prescinde da perda, da falta, para constituir-se enquanto tal. Não advém de modo independente, por si. Ele é, pois, condicional a uma falta estruturante, a uma perda funcional que lhe dá o estatuto de faltoso, conferindo-lhe a marca da divisão. É isto que Lacan (1956-1957/1995) destaca quando afirma que a falta de objeto constitui-se na mola da relação do sujeito com o mundo, porquanto o que interessa à psicanálise é a relação do sujeito com esta falta, que é central. Mais do que a condição humana, ela é a condição de sujeito.

Lacan (1967-1968, não publicado) pontua que a existência da falta deve ser encarnada no que lhe dá seu nome, que é a castração, pois não é senão por essa via que o sujeito se realiza. Lembra que “[...] essa falta é a essência mesma desse sujeito que se chama às vezes de homem, já que o desejo [...] é a essência do homem” (LACAN, 1967-1968, p. 99, não publicado).

Em O seminário, livro 11 Lacan (1964/2008) fala sobre o recobrimento de duas faltas. Uma delas é encontrada pelo sujeito naquilo que o discurso do Outro lhe intima, nos intervalos de seu discurso. Esta falta e, portanto, o desejo do Outro são pelo sujeito apreendidos nas faltas do discurso do Outro. E para responder ao enigma desse desejo, “[...] o sujeito traz a resposta da falta antecedente de seu próprio desaparecimento, que ele vem aqui situar no ponto da falta percebida no Outro” (LACAN, 1964/2008, p. 210). Esta é a outra falta, a falta do sujeito. Assim, Lacan (1964/2008, p. 210) arremata, dizendo que uma falta é recoberta pela outra, ensejando-se “[...] a dialética dos objetos do desejo, no que ela faz a junção do desejo do sujeito com o desejo do Outro [...]. É uma falta engendrada pelo tempo precedente que serve para responder à falta suscitada pelo tempo seguinte”.



No que concerne à relação mãe-bebê, Freud (1905/1996, p. 211) já falava da excitação e satisfação experimentada pela criança perante a contemplação e carícias implicadas nos cuidados maternos, sendo “[...] perfeitamente claro que [a mãe] a trata como o substituto de um objeto sexual plenamente legítimo”. E, como vimos, no que concerne à oralidade, tal excitação e satisfação também ocupam seu lugar (FREUD, 1905/1996; LACAN, 1956-1957/1995; LACAN, 1938/2002). Contudo, Soler (2005) nos lembra que é dessa ambigüidade erótica dos cuidados maternos que o sujeito deverá emergir, sendo este o passo primeiro no caminho da separação.

Lacan diz que é na separação, no intervalo dos dois significantes do casal primitivo da articulação significante,


[...] que vige o desejo oferecido ao balizamento do sujeito na experiência do discurso do Outro, do primeiro Outro com o qual ele tem que lidar, ponhamos, para ilustrá-la, a mãe, no caso. É no que seu desejo está para além ou para aquém no que ela diz, do que ela intima, do que ela faz surgir como sentido, é no que seu desejo é desconhecido, é nesse ponto de falta que se constitui o desejo do sujeito. O sujeito [...] retorna então ao ponto inicial, que é o de sua falta como tal, da falta de sua afânise (LACAN, 1964/2008, p. 213-214, grifo do autor).
Ante o ponto de falta do discurso da mãe, a torção, o retorno ao ponto inicial de falta do sujeito e, portanto, a constituição de seu desejo. É então a falta constituinte do desejo, no discurso do Outro, que torna fracassada a pretensão de uma total satisfação.

A falta no Outro. É preciso, portanto, que a criança a perceba para que saia do lugar de falo, mas é à mãe que cabe apresentar a falta, uma vez que, como afirma Lacan (1969-1970/1992, p. 118), “o papel da mãe é o desejo da mãe”. Tal é a sua função: desejar – e o desejo é nada menos do que a “presentificação da falta” (LACAN, 1969-1970/1992, p. 80).

Contudo, se, para suprir uma falta, a mãe confunde satisfação de necessidade com a doação de seu amor, ela priva a criança de um precioso dom, que é o da possibilidade de uma demanda insatisfeita da qual o desejo possa emergir (ZALCBERG, 2003).

O engodo da satisfação da necessidade remete o sujeito “[...] ao sono em que ele frequenta os limbos do ser”, no qual nem sempre a criança adormece – “[...] sobretudo quando o Outro [...] se intromete nisso e, no lugar daquilo que ele não tem, empanturra-a com papinha sufocante daquilo que ele tem, ou seja, confunde seus cuidados com o dom de seu amor” (LACAN, 1958b/1998, p. 634). Sobre a essencialidade do desejo à maternidade, deveras interessante as palavras de Soler:


Não é a falta de amor, mas o excesso de amor que pode ser prejudicial aqui, e que clama por um efeito de separação necessário. Foi por isso que Lacan enfatizou o desejo da mãe. Este deve ser entendido como o desejo da mulher na mãe, desejo adequado para limitar a paixão materna [...], e é bom que seja assim, porque é o desejo da mulher, mais geralmente um desejo outro mantido fora das gratificações da maternidade, que introduz a criança, por meio da angústia de castração, numa dialética de identificações contraditórias pela qual ela poderá soltar-se da posição passiva de objeto e, no fim, assumir seu próprio sexo (SOLER, 2005, p. 95, grifo nosso).
Para que a separação se efetue, necessário que a mãe se perceba e se permita faltosa. Só assim ela poderá faltar a seu bebê, para que nele o desejo então apareça. Contudo, necessário ainda que possa emergir o desejo da mulher na mãe. Imprescindível na maternidade que a paixão materna e o desejo feminino coexistam, que esse “desejo outro” apareça para que o amálgama inicial mãe-filho não permanece mais, muito mais do que o necessário, muito mais do que o desejável, para além do estruturante. Um contraponto para o excessivo do amor materno, em que lhe seja possível descobrir-se mãe, sendo, ainda, mulher.

Entrementes, se nos remetermos ao aforismo lacaniano de que “só o amor permite ao gozo condescender ao desejo” (LACAN, 1962-1963/2005, p. 197), ali veremos vívidos relampejos de um amor despretensioso de uma completude, ou de uma toda satisfação visada na suposição de um gozo absoluto. Amor que, frustrado pela perda, incidido pela marca da ausência, possibilita o desejo que estrutura e que, por conseguinte, favorece a emergência do sujeito. A fórmula do amor é, afinal, “dar o que não se tem”; articula-se, o amor, em torno da falta – é isso que Lacan (1960-1961/1992, p. 133) aponta ao nos remeter a O banquete de Platão33. E, fatalmente, é com isso mesmo que nos havemos quando, fisgados pelo grandiloquente discurso de Sócrates sobre o amor, conduzidos somos por ele à compreensão de que ambos, amor e desejo, são ávidos daquilo que não está ao alcance, do que não está presente, daquilo de que, enfim, se carece (PLATÃO, 2011). O amor, pois, é desejo e, tal qual o desejo, é falta. Eis o amor condicional.

Há então uma barra importante que se faz necessária ao excessivo do gozo; barra que não prescinde, por sua função cerceadora, daquilo que concerne ao prazer, ao desejo e ao amor. Lacan aponta isto de muitos modos. Mas, aqui, limito-me a sublinhar a asserção: na alienação não há sujeito, a não ser miticamente – quanto a isso, Lacan é claro. Sujeito primitivo, até mesmo hipotético, eu diria, já que somente sujeito suposto, por vir (a ser); dele só temos notícias a posteriori. Mas isto, certamente, já é muita coisa, afinal, trata-se de uma operação primeira e fundamental, pois não há sujeito possível (mesmo que mítico) sem que antes tenha se dado o necessário tempo da alienação. Esse “sujeito do gozo” carece, no entanto, de algo que torne fracassado o vicioso círculo da infinda repetição da pulsão de morte; algo que barre e separe, que o separe, pois, como sujeito do desejo.

Como uma seta que para outro lugar aponte, como uma coordenada geográfica, um ponto cuja latitude e longitude localizam, à mãe, uma região outra do mapa, lugar diferente daquele onde a criança se situa e que só a ela concerne. É assim que a falta que deve aparecer nesse primeiro Outro.



Conforme Lacan (1956-1957/1995), a mãe deve operar uma desilusão, mediante a submissão da criança a uma tensão inaugural que a faça perceber a diferença entre a realidade e a ilusão. Essencial, então, que a mãe possibilite ao filho sair dessa posição imaginária de poder satisfazê-la, dessa relação que Lacan (1956-1957/1995, p. 232) chama de tapeadora, “[...] jogo onde se é o que não se é, onde se é para a mãe tudo o que a mãe quer”.

Acerca desses impasses nas introduções maternas – ou seja, naquilo que ela, a mãe, introduz, introduz em demasia, empanturrando a criança –, Zalcberg (2003, p. 81) afirma que “a criança aparentemente alimentada com demasiado amor – um amor sufocante – ilustra o fracasso da demanda de amor da mãe quanto ao ‘nada’ que ela deveria instituir”. Fracassando esse amor condicional, resta, portanto, apenas um vazio milimetricamente preenchido, um “nada” que se metamorfoseia num tudo.



A mãe que tudo faz. O bebê que precisa dela para tudo. É nessa equação que, conforme Benhaïm (2007, p. 22), deve viger a perda; daí a questão: “como agora viver um com o outro, e não mais um para o outro, um pelo outro?”. Benhaïm (2007, p. 25) fala então de um desejável desinvestimento materno, o qual não deve ser confundido com abandono ou ausência de olhar, “mas com um outro olhar para ela [a criança] e para o que ela representa”. Segundo a autora, essa mudança de posição subjetiva materna, mediante o deslocamento do desejo, possibilita à mãe a renúncia do lugar de todo-poderosa, permite que, não havendo completude, um possa sobreviver à ausência do outro.

A humanização se dá nessa relação e para haver relação, a separação deve existir. Para que se viabilize a alteridade, fundamental que se conceda a existência de um lugar outro, lugar da falta, lugar de se “estar só”. Ainda que, como afirma Lacan (1956-1957/1995), em última instância, o filho nunca esteja totalmente sozinho com a mãe, na medida em que, de um modo ou outro, o falo sempre media essa relação, há, em todo caso, uma indiferenciação, um amálgama inicial entre ambos que precisa ser desfeito, e isso apenas quando a mãe deseja.

Mathelin (1999, p. 11, grifo nosso) também retoma essa ideia dizendo que “[...] é de fato esse desejo que as mães terão que demonstrar para escapar à loucura de serem mães totalmente completas e completadoras para seus filhos”. O desejo precisa, portanto, ser demonstrado pela mãe para que a completude mítica, insana, não se cristalize. E assim, entendo que o desfazer desse amálgama carece da falta, ou de faltas outras, de operações pontuais, ausências de fato, de pequenas e intermitentes frustrações que não somente ensejem o desejo, mas que também venham corroborá-lo. Necessário que o desejo seja reafirmado.

Mas que intermitência possível na exclusividade do aleitamento? Pode o bebê ser pela mãe frustrado quando a todo instante o seio ali em sua boca está? Quais vias para uma mudança subjetiva materna se, no imperativo da exclusividade do aleitamento, a mãe bondosa é mobilizada a uma toda satisfação de seu bebê? Se o aleitamento exclusivo, em todo seu excesso, tende a não permitir um lugar para a falta, quais as possibilidades para o desejo materno? Parece-me que tal imperativo ao aleitamento exclusivo enseja algum impasse a esse desejo tão imprescindível à maternidade, oferecendo, consequentemente, uma importante dificuldade à emergência do bebê enquanto sujeito desejante.

Assim, penso que nesse lugar de não se “estar só”, a despeito do discurso que de tantos modos o ratifica e lhe dá contornos, fundamental é que uma “solidão” seja permitida e que, encontrando alguma brecha, por instantes ali se acomode, entre mãe e filho, entre o seio e a boca, dando ocasião à cisão necessária. Espaço para a falta, caminho para a separação.

Que nessa abertura, além da possibilidade para o desejo materno, também haja condição, não à mãe ideal, mas à mãe possível. Que nesse lugar, de vez em quando, essa mãe também possa ser mãe só (“estar só”), e não só mãe de um filho só dela. Imprescindível que a falta não falte.
3.2 QUANDO FALTA A FALTA
Lacan (1956-1957/1995) diz que o apelo se dá diante da ausência do objeto, é assim que ele se faz escutar. Diz também que quando o objeto está presente, presente está apenas como um nada a ser rejeitado, que nada satisfaz. Nesse ponto, atendo-me à amamentação, remeto às considerações de Teperman34:
Sabemos que não é só de leite que o bebê se nutre quando mama, mas também de significantes, e que este momento o marca para além de suas necessidades alimentares, a partir daquilo que o Outro – como tesouro dos significantes – antecipa e significa para ele. Assim, não é sem conseqüências para o bebê se a mãe supõe em seu choro sempre fome e introduz o seio em sua boca ou se começa a matizar o choro, introduzindo outras possíveis leituras e ações diante deste. Também não é sem conseqüências se, diante do choro, a mãe se desespera para atender o bebê imediatamente ou se vai construindo, junto com ele, condutas de espera, de forma que este possa esperar um momento para ser atendido sem desorganizar-se (TEPERMAN, 2005, p. 193).
Sobre o filho de 3 meses, uma mãe dizia: “ele mama toda hora, aí ele não fica com fome”. Na direção de um sujeito a devir, a separação parece realmente fazer-se de um modo um tanto capenga neste movimento de dar o seio-leite exclusivo e incessante ao bebê, porquanto a ele nada falta quando a “toda hora” este seio ali está. Ademais, vê-se como a mãe falha em matizar as manifestações do filho a tal ponto que nem mesmo consegue supor que nele haja fome. E será que realmente haveria? Como escutar o apelo se, no que tange à exclusividade do aleitamento, o seio está, como neste caso, a todo instante disponível? Não há apelo na sempre satisfação. De fato, a fome que não o abate parece incorrer na falta que não o alcança, até mesmo porque “[...] a extinção ou o esmagamento da demanda na satisfação não se poderia produzir sem matar o desejo” (LACAN, 1960-1961/1992, p. 202).

No cenário de um sobejo amamentar, em nome de uma maternidade ideal, os imperativos tendem a engendrar tais excessos quando a falta (assim como a fome) simplesmente não aparece. O desejo morre quando, nesse mamar a toda hora, a demanda é satisfeita; e na exclusividade do aleitamento, lembremos que, mais do que satisfeita, a demanda é livre.

Se a falta é “[...] uma carência imposta ao gozo situado no nível do Outro” (LACAN, 1962-1963/2005, p. 359), como implicação desse amamentar excessivo, pari passu ao gozo, vem também a angústia. Em Inibições, sintomas e ansiedade, Freud (1926 [1925]/1996) afirma que a angústia é um estado afetivo apresentando um forte caráter de desprazer, mobilizado ante uma situação de perigo. Refere-se à angústia de castração como aquela que remete ao medo da separação, medo de nos separarmos de um “objeto altamente valioso” (FREUD, 1926 [1925]/1996, p. 161).

Lacan, por sua vez, aborda a temática da angústia sob uma perspectiva um pouco diferente. No seminário que dedica ao tema, afirma que a angústia é um afeto e, tal como Freud, também destaca que o afeto não é recalcado: “ele [o afeto] se desprende, fica à deriva”, podendo estar invertido, deslocado ou mesmo enlouquecido, no entanto, de modo algum, recalcado (LACAN, 1962-1963/2005, p. 23). Anos depois, afirma que a angústia é o afeto fundamental “[...] em torno do qual tudo se ordena” (LACAN, 1969-1970/1992, p. 152).

Mas o que destaco é que, ainda no seminário sobre a angústia, Lacan (1962-1963/2005) retoma a concepção de um objeto estando a ela relacionado, mas dá-lhe contornos mais precisos: refere-se ao objeto a, sendo “sempre dele que se trata quando Freud fala de objeto a propósito da angústia” (1962-1963/2005, p. 50). Este não é, todavia, um objeto concreto, do mundo, ou redutível à coisa, mas uma representação “perdida antes mesmo de existir” (CHEMAMA, 1995, p. 153). É o nada sempre faltante onde é esperado. Trata-se do “objeto desejado pelo sujeito e que se furta a ele a ponto de ser não representável, ou de se tornar um ‘resto’ não simbolizável” (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 551).

Em O seminário, livro 17, Lacan (1969-1970/1992, p. 161) afirma que o objeto sem o qual a angústia não existe é o mais-de-gozar, objeto não nomeável que, no entanto, assim o nomeia. E diz que “sobre esse objeto nada sabemos, salvo que é causa do desejo, quer dizer, falando propriamente, é como falta a ser que ele se manifesta”.35

Quando se reporta a Freud quanto à relação entra a angústia e o objeto a, Lacan (1962-1963/2005, p. 87) fala, contudo, não de uma angústia mobilizada ante a perda deste objeto, afirmando que “[...] constitui um erro dizer que a angústia é sem objeto”. Em seguida, lembra, mais de uma vez, que “o próprio Freud diz que a angústia é, essencialmente, Angst vor etwas, angústia diante de algo” (LACAN, 1962-1963/2005, p. 176).

Em dado momento, em seu seminário, lança então a seguinte questão: “quando surge a angústia?”. Um pouco depois, diz ele: “[...] a falta, se esta de repente não faltar, é nesse momento que começará a angústia” (LACAN, 1962-1963/2005, p. 52). Para Lacan (1956-1957/1995), como já vimos, é, pois, necessário que ao sujeito possa faltar o objeto causa de seu desejo, para que possa ser desejante. Deste modo, seria a angústia a manifestação de que algo falha neste apoio fundamental que é a falta (CHEMAMA, 1995).

Lacan (1962-1963/2005) afirma que o artigo das Unheimliche de Freud é indispensável para que se aborde a questão da angústia, afirmando que esta estranheza é aquilo que aparece no lugar onde deveria estar a falta. Nesse ponto, para melhor situar a afirmativa, voltemo-nos à fonte, ao texto freudiano.

Em O ‘estranho’, Freud (1919/1996, p. 238) fala acerca desta “categoria do assustador que remete ao que é conhecido, de velho, e há muito familiar”. Fazendo um apanhado do termo heimlich e seus derivados, e de seus diversos sentidos e empregos possíveis, toma como emblemático o conceito de unheimlich tal como utilizado por Friedrich Schelling, filósofo alemão, tratando-se então de “tudo o que deveria ter permanecido secreto e oculto mas veio à luz” (FREUD, 1919/1996, p. 243). Freud então aponta para certa ambiguidade que a palavra heimlich comporta, na medida em que pode significar o que é familiar, assim como o que é oculto. Tem, pois, entre seus significados possíveis um que é equivalente ao seu oposto (unheimlich). Assim, Freud (1919/1996) diz que unheimlich seria então um tipo de subespécie de heimlich.



Quando marca a imprescindibilidade do texto freudiano para a abordagem da angústia, é então a essa estranha familiaridade que Lacan (1962-1963/2005, p. 52, grifo nosso) se reporta: “quando aparece algo ali, portanto, é porque, se assim posso me expressar, a falta vem a faltar36, diz ele. E prossegue:
Esse lugar representa a ausência em que estamos. Supondo-se, o que acontece, que ele se revele tal como é – ou seja, que revele ser a presença em outro lugar que produz esse lugar como ausência –, ele se torna o rei do jogo, apodera-se da imagem que o sustenta, e a imagem especular transforma-se na imagem do duplo, com o que esta traz de estranheza radical. [...] ele nos faz aparecer como objeto, por nos revelar a não-autonomia do sujeito (LACAN, 1962-1963/2005, p. 58, grifo nosso).
Deste modo, a angústia refere-se exatamente àquilo, a um algo que vem, em suplência, surgir no lugar do objeto a. Assim, a falta, tão necessária ao estabelecimento do desejo, não é preservada, daí a angústia, o estranhamento, e o sujeito mais parece ser eclipsado. Trata-se, pois, do “surgimento da falta sob uma forma positiva” – ou seja, da falta que não falta –, e é essa positividade da falta, em seu aparecimento, que constitui a fonte da angústia, porquanto se manifesta diante de uma total saturação da demanda (LACAN, 1962-1963/2005, p. 72).

Lacan (1962-1963/2005, p. 88, grifo do autor) afirma que “[...] a verdadeira substância da angústia, é o aquilo que não engana, o que está fora de dúvida”. Segundo ele, é da ordem da irredutibilidade do real esse etwas diante do qual a angústia opera como sinal. Tal é o sentido por ele apontado para a formulação da angústia como sendo o sinal que não engana. Portanto, a angústia manifesta-se diante da irredutibilidade do real; ela é sinal de uma forma irredutível do real manifestado na experiência (LACAN, 1962-1963/2005)37. De que fala essa substância e esse real irredutível da angústia senão do objeto a? Como afirma Lacan (1962-1963/2005, p. 113), a angústia é a “única tradução subjetiva” do objeto a.

Todavia, conforme Lacan (1962-1963/2005), é precisamente a dúvida, conduzida pela própria angústia, que tenta, através de engodos, a esta combater, posto que há nela, na angústia – e é isso que se tenta evitar –, algo que se assemelha a uma certeza fundamental, à certeza assustadora. A angústia, diz-nos Lacan (1962-1963/2005, p. 353), relaciona-se sensivelmente e de modo complexo com o desejo do Outro, cuja função angustiante remete a um não saber sobre “que objeto a sou eu para esse desejo”. A certeza do “aquilo que não engana” da angústia comporta, portanto – de modo não excludente –, o que Vieira (2008, p. 31) destacou como “indeterminação”, ou seja, a absoluta suspensão de sentido da angústia, uma vez que “[...] seu Outro é a cartola de um mágico sobre a mesa, da qual não se sabe o que virá – se é que, um dia, algo virá”.

Se, desde Freud (1926 [1925]/1996), entendemos a angústia enquanto um sinal, uma reação ante um perigo, perguntamo-nos: o que ao sujeito pode ser mais perigoso senão justamente a falta da falta, logo, a inviabilização do desejo, a impossibilidade de desejar?

No aleitamento exclusivo, o seio parece fazer-se como um mero pedaço de corpo da mãe, cujo fim primeiro de alimentar o bebê encerra-se em si mesmo. Daí nutri-lo organicamente, apaziguá-lo, silenciá-lo, satisfazê-lo a todo instante, uma toda satisfação sem falta, sem ausência, presença incessante do puro seio-leite. Eis aí a angústia ante o excesso, este que ameaça o sujeito de modo incisivo, na medida em que não o permite desejante.

Portanto, é possível entender que o excessivo do amamentar que o discurso do aleitamento mobiliza, traduz-se em uma silenciosa ameaça, pois inviabiliza o espaço para a ausência, para a falta, para o desejo, na mãe e no bebê. E assim, em todo esse sobejo, se ainda resta algum lugar a ser ocupado, penso que ali esteja ela, a angústia, em toda a sua avassaladora presença.
3.3 O QUE ELE “BEBE” COM O LEITE?
Que efeitos para o bebê pode produzir esse amamentar a todo custo, num tempo em que totalmente dependente está do Outro materno? Como chega ao pequeno lactente o leite que em sua boca jorra sem cessar?


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