Danielle carvalho ramos



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5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A amamentação tem, certamente, tanto para a mãe quanto para o bebê, sua importância, seu valor, para além mesmo do que concerne ao sempre lembrado aspecto nutricional, inclusive quando pensamos nos aspectos psíquicos. Logo, não se trata de reforçar o não-aleitamento, ou de ignorar ou minimizar seu valor.

Sabemos, contudo, que a maternidade distancia-se de uma fórmula comum. Há nela satisfação, contentamento, até mesmo momentos de grandes encontros e descobertas, mas isto, certamente, não alcança a todas. E mesmo quando se fazem presentes ao longo da experiência materna, esta não deixa de apresentar ambivalência e sofrimento. Como componente da vivência materna, a experiência do amamentar não é, por conseguinte, dissonante de tais impasses, não escapa às intempéries da maternidade; há ainda estranhamentos e mal-estar.

Entretanto, ignorando todas essas nuances da relação mãe-bebê, é com pompas e honrarias que o discurso pró-aleitamento “certifica” a mãe que amamenta como A boa mãe. Eis o ideal da maternidade, de um suposto instinto materno que, dotado e concessor dos mais magnânimos benefícios, figura sustentar o discurso da exclusividade do aleitamento, na medida em que a boa mãe é, invariavelmente, esta que, com todo amor e de bom grado, amamenta.

As orientações ao aleitamento exclusivo, exatamente sustentando-se em tal ideal, impossível de ser correspondido, tendem a produzir notáveis descompassos entre um ideal de maternidade inatingível e os limites de cada mãe em suas particularidades. Deste modo, favorecem exatamente o silenciar daquilo que é da ordem do indizível, do impensável, do insuportável da amamentação, deste estranhamento que lhes evoca e que, sobre o qual, as mães bem pouco podem formular. São, assim, quase que sutilmente tragadas pelo gozo, avassaladoramente tomadas pela angústia.

Tudo, certamente, seria mais simples, se, diante destas mobilizações, a “indicação” fosse: bom, se sofres com isso, então para, não amamenta mais, oferece a teu bebê um leite especial, que está tudo certo! Sim, bem simples; simples demais para tudo do que aí se trata. Afinal, o que temos visto é que, definitivamente, a amamentação é um ato que extrapola a técnica ou a mecânica a que concerne, e, nesse para além, comporta um gozo que lhe é próprio. A via de trabalho psicanalítica não seria, portanto, nem assentir com um imperativo ao gozo nem proferir um “não” que apela a essa justa medida.

A despeito de os ideais sociais serem fortemente marcantes na maneira de ser mãe, não são, por certo, suficientes para manter determinada forma de funcionamento ante as prescrições, ou seja, para além deles, ou a eles articulados, vigem fantasias primitivas, engendradas em um tempo da própria constituição subjetiva dessas mulheres, ensejando um modo particular de vivenciar a maternidade. São tais fantasias que, aliadas ao funcionamento de cada mãe em particular – no que refere a sua própria constituição subjetiva –, engendrarão, em última instância, o seu modo de responder à maternidade e a tudo o que a ela concerne, inclusive à amamentação, uma vez que, com o imperativo, certamente nem todas as mães se angustiam.

Mas, a partir da psicanálise, penso que é mister estarmos justamente atentos aos funcionamentos que apontam para a irrupção desses ambíguos mal-estares em algumas mães. Mães em que o amamentar, assumindo um tom mais forte, ganha cores mais vivas ao se transvestir como sintoma; mães em que, no ato do aleitamento, o gozo implicado torna-se mais ruidoso sob um rosto comum da boa mãe, em uma bela amamentação que é encenada. É a esta cena que devemos estar atentos quando há aí funcionamentos que dão indicativos de que, mesmo seguindo, em passos firmes, os Dez passos, algo, de modo silenciosamente estrondoso, vacila, descompensa, dez-(com)passa.

Penso também que não podemos de modo algum ignorar a teia complexa na qual tais questões encontram-se imbricadas. Desse contexto aproximando um pouco mais o olhar, vemos que o desejável tempo da exclusividade do aleitamento coincide ainda com o tempo do espelho na relação mãe-bebê; um tempo singular no qual a dualidade da relação narcísica (em seus dois termos imaginários: eu e imagem especular) guarda, no interior deste estádio, uma hiância mortífera. Tal hiância parece concernir ao resto que escapa à imagem especular, a essa inconsistência que já está lá desde a origem. Mas quando, no destaque, ao fitar a familiar imagem – imagem espe(ta)cular que inquire no olhar refletido pelo olho-espelho –, esse objeto invisível então se torna visível, há o reachado disso que inquieta no mais íntimo, que perturba, desregra, desassossega; eis o aparecimento da angústia. Nesse tempo do espelho, a relação dual imaginária, no que conserva de potencialmente mortífera, coaduna-se com a alienação mãe-filho que se vê favorecida a estender-se no aleitamento exclusivo, em uma relação onde o imperativo é o categórico “a-mamente!”.

Parece-me que às mães que a tal ditame se submetem, ao menos em um primeiro momento, de fato dificilmente haverá outro modo de falar desta angústia e deste gozo senão pelo contraditório e pelo bem elaborado disfarce – por vezes, de um modo quase silencioso, uma vez que aí há algo de muito potente entre o gozo e angústia.

No percurso teórico traçado, vimos que, no limite da imbricação, gozo e angústia quase se tocam, mas entre os dois, há esse algo que os une. Tal é o objeto a, o ponto fronteiriço onde se encontram. É na inconsistência desse objeto-resto, é nesse não-lugar que, bordejando-o, gozo e angústia se situam; à imagem de uma ciranda, contornam o vazio que comanda a dança.

Sendo um objeto-rolha – portanto, aquilo que, dada a sua estrutura, pode tamponar, pode, por sua máxima presença, preencher a falta –, enquanto excesso, “a mais”, essa libra de carne é também o objeto que sobeja do sintomamentar. O resto desse sintoma é o bebê que, como objeto a, emerge na fantasia materna. E se o sintoma é isso que envolve, que embrulha o a, teríamos então no amamentar (sintoma) o movimento que a essa criança-objeto abraça, estreita.

Vê-se então como, confundindo os excessivos cuidados envoltos na amamentação com o dom do amor materno, pelo seio-leite que alimenta e satisfaz, também se sufoca, envenena e faz, nos limbos do ser, o sujeito adormecer; das profundezas, traz também, à cena do amamentar, as erínias perseguidoras. Em contrapartida, a boca que se compraz ao receber a completude desse objeto-alimento, na sua ávida insaciabilidade, ameaça esvaziar, incorporar, devorar. E no ensejar dessa quase alienação estendida, fazendo emergir a assombrosa visão do a e, por conseguinte, a avassaladora angústia, impõe-se um tamanho embate de voracidades, fazendo com que mãe e filho, pelos seus excessos, sejam pouco a pouco submergidos. De fato, como anunciava Sade, trata-se de um gozo mútuo: um goza da parte do corpo do outro; goza-se, como dizia aquela mãe, “até [...] não aguentar mais”.

Tal o objeto real, objeto-excremento reintegrado em que se torna a criança à mãe. Ao fazer do filho um objeto-resto, a mãe vincula um amor fundado no gozo, em um gozo mortífero e, no sintoma materno, vê-se submergida pela angústia diante do excesso de seu próprio amor. Se é na invisibilidade de um fronteiriço ponto situável que o bebê à mãe se apresenta, será que, diante do gozo autista partilhado e da angústia em ambos mobilizada, a mãe não se veria também impelida a instalar-se no âmago dessa fronteira perigosa?

Na tentativa de, no inebriante bailar, fazer um de dois, mais parece haver, por fim (ou desde o início), para além do palco belamente ornado, em uma faustosa arena, um então voraz e homérico duelo. Nele, pergunto: quem ganha? Quem perde? Desse sintoma, o que resta senão uma presa indigesta?

Num tão confuso emaranhado, em um amor excessivo que destrói e que se deixa destruir, em um ama-mentir, lá estão eles: ambos devorantes, ambos devorados. É o amor dos engodos; deles, o mais convincente, o mais exaltado. No laço mãe-filho, a loucura do jogo de tapeação só se revela no êxtase da completude, tal qual o belo ato da amamentação. Mas, ainda que belamente ornado, lustroso, o que há é aquela assombração que o corpo carrega, cujos cabelos são um bicho feroz solto à noite, nas sopradas canções com que engana – como entoa a composição de Guinga e Buarque (1997/1998).

Quando mãe e filho, em suas voracidades, fazem-se veículo do gozo e da angústia duplamente evocados, na objetalidade, naquilo que do sintomamentar resta, não há, portanto, vencedores; a destruição se dá para ambos. No mais, o que há são voracidades.



Ignorando, porém, todas as ambiguidades que são tão próprias à maternidade, e tudo que nela se exacerba, assim como operando de modo demasiado normalizador, os discursos norteadores de um programa de aleitamento materno exclusivo estabelecem, às mães, rígidas diretrizes de conduta no que concerne à amamentação. Sem levar em conta as particularidades, incitam, na imperiosa pronta-resposta às prescrições, uma impossível sempre presença materna, favorecendo um mais duradouro e voraz amálgama mãe-filho. E assim, para além do que compete à própria alimentação, maior interferência implicam na relação mãe-bebê, ensejando uma sempre presença materna quando a mãe também precisa ausentar-se para seu filho – afinal, a despeito de a alienação ser uma operação necessária à constituição do sujeito, tão necessário é sair dela, não ficar na alienação mortalmente aprisionado.

Esse radical discurso, sustentado em uma ética do bem-estar, engendrando voracidades, ainda que nas entrelinhas, decreta às mães: com seu seio, não se ausente de seu filho. Elas, imersas em uma relação de submissão ao discurso normalizador e moralizante, ansiando pela mais vívida resposta, também num lugar-objeto, alienam-se a esse Outro que lhes promete o bem maior, que lhes assegura que, sob sua tutela, advirá o dizer e o fazer que, ao instruir-lhes em tudo que precisam saber sobre a amamentação, lhes aplacará também todas as inesperadas e inquietantes intempéries que os primórdios da maternidade lhes trouxerem. Na insistência do amamentar, elas então respondem, dizendo ao filho: sim, toma!



Deste modo, parece ainda fazer-se valer aí esse masoquismo moral, na medida em que a mãe aloca-se nesta posição de objeto, objeto para a instituição, objeto de gozo para o Outro, portanto; gozo ao submeter-se totalmente ao programa. Assim o amálgama se inaugura, obstinadamente se mantém, perdura até que algo se interponha e que faça aí irromper mesmo que uma ínfima fissura. Eis, então, a deixa para a psicanálise.

Na tensão discursiva potencializada nos espaços institucionais de saúde (como um hospital-maternidade), o analista, com seu fazer, em seu posicionar-se, na via oposta do discurso moralizante e higienista do aleitamento, deve apontar para a falta, fazendo furos no saber que se quer absoluto. Na sutileza de uma pergunta banal: “será?” – e assim fazendo ecoar a dimensão da dúvida, do mal-entendido na certeza do saber normalizador –, a psicanálise propicia que a falta encontre seu lugar.

Com esses quês e por quês, pode dar-se uma produção de saber que move saber, que descola da fixidez, que produz deslizamentos. E, assim, as faltas, buracos, enormes crateras ou pequenos orifícios, agora não mais tão obstinadamente encobertos, mas demarcando seu vazio sem muitas reservas, sem mais tantos artifícios e artefatos encobridores, fazem com que, qualquer um que diante deles passe, mesmo que num tão breve pensar, questione: “pois bem, o que fazer com isso?”.

Que a faltas apareçam, que as falhas apareçam – não a ponto de um total desorganizar-se, não ao extremo de uma anarquia para que, em estrondoso reboliço, rebele-se contra toda e qualquer norma, lei, diretriz... em absoluto! Não é disso que se trata em psicanálise. A falta é central, e que deste eixo ela não seja desviada, em surdina alocada nas periferias.

Possibilitar um lugar para a falta, na medida em que o alvo da psicanálise é, em primeira instância, o sujeito, implica esse fazer que preserva o que é da ordem da subjetividade, da singularidade. Como indicado por Lacan (1956-1957/1995), o que importa é a relação que com essa falta se estabelece, o modo como se posiciona diante dela. É, novamente, um “o que fazer com isso?”; questão a partir da qual talvez se possa chegar a um “saber fazer com isso”.

Entendo que é esta mãe que se deixa absorver pelo ato tão abnegado e exclusivo do amamentar, que precisa estar em questão quando nosso olhar e escuta são atravessados pela psicanálise, permitindo, assim, que mais nitidamente apareça não a mãe ideal, mas a mãe possível, da particularidade, que tem falhas, que marcada é pela falta, mesmo que imersa em diversos conflitos. E justamente quando estes parecem ainda mais ruidosos que tudo o mais, quando não entrevemos nem ao longe um tom colorido de contentamento nesta mãe, cabe aí este fazer diferente o qual não vem em uníssono reforçar o quão necessário é o aleitamento exclusivo, que não se rende aos ditames do gozo, que não assente ao triunfo superegóico.

É certo que assumir uma insatisfação, um sofrimento na maternidade, nesta fase tão peculiar a uma mulher, em que ela inegavelmente precisa responder não só por si, mas também por um outro, um pequeno ser que dela depende – e principalmente no que se refere à amamentação, já que, no que diz respeito a esta, o bebê depende única e exclusivamente da mãe –, é dar vazão para emergir conteúdos sobre os quais estas mães talvez não tenham condições psíquicas para nesse momento deparar-se e com eles lidar. Mas tais conteúdos são exatamente o que decorre da criança como objeto-resto na fantasia materna. Esse é o resto que o sintoma comporta, resto que, sobejando, originalmente o constitui; logo, importante que, de algum modo, dele se fale.

Para que a falta seja marcada, é preciso, portanto, possibilitar que algo deste horror fundamental apareça – mesmo que pelo contraditório, ainda que de modo ambivalente ou fortemente disfarçado pelo recalque. É para este impensável que se deve apontar a fim de que se permita uma elaboração, a tempo, daquilo que à mãe e a seu bebê é possível dentro da tão incipiente relação, para que ambos nela não se percam definitivamente, a fim de que não se enode aí um laço por completo devastador.

Necessário, portanto, intervir de modo a apontar para os traços de loucura pelos quais esta relação é marcada, sublinhando, de alguma forma, o tom perverso que a maternidade encerra, em especial, aquele tão bem dissimulado pela bela face universal da boa mãe que amamenta. Dada a manifesta beleza pela qual o objeto-dejeto se apresenta, cabe então decantar, decompor, pôr em relevo este sintoma em sua antinomia, visando o a que o centra.

Com o deslocamento do ideal, ao se questionar o construto da boa maternidade, talvez venha o meio de lidar com esse resto. É da própria fronteira, da sombria divisa, que surge, portanto, a possibilidade para o sujeito dividido, é daí que nasce a alternativa para a amamentação enquanto sintoma – ou seja, quando se atenta justamente para isso que, nesse exclusivo amamentar, mais destoa.

Com esse apontamento, oferecendo escuta e permitindo que apareça o que é da singularidade de cada mãe, de suas possibilidades, sejam elas quais forem, dão-se condições para que com o seu sintoma se implique e que, em seu caminhar, quem sabe descubra o seu particular modo de algo fazer com ele. Afinal, o que é ser uma boa mãe? Se não má, ou mesmo não tão boa assim, talvez haja ainda possibilidades de sê-la “boa” o suficiente, porém de outros modos.

O que destaco é: central é a escuta; se há sujeito, urgente ouvi-lo, ouvi-lo para além das palavras; daí, a fortiori, virão as possibilidades interventivas. Oferecer um espaço para a fala, oferecer amparo ao peso das palavras que ao impossível tentam nomear, onde o dizer (e o não-dizer) do insuportável possa ser suportado, favorecendo ao sujeito falar desse indizível, dando um lugar para esse objeto-resto; tal é a via psicanalítica.

Nessa escuta que supõe e visa o a, centrado no sintomamentar que então se apresenta, não se poderia entrever a redução de gozo? Não sem ele, mas com a sua redistribuição, com algum modo de com ele viver sem tanto penar. Caminho para um “sou como gozo”.

Enfim, diante de toda discussão proposta, nas já derradeiras palavras deste texto, encerro a presente escrita com aquela que considero talvez a mais simples e notória “conclusão” – a qual, como questão, lá atrás inicialmente me surgiu: nesse tão complexo contexto, no que compete à experiência de amamentação, especialmente no que reverbera sobre o funcionamento materno, sobre a relação mãe-filho, há, certamente, muito mais, bem mais do que se alcança com um primeiro e quase sempre condescendente vislumbre.



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