Danielle carvalho ramos


A essa fronteira, que alternativa?



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4.3.3 A essa fronteira, que alternativa?
No âmbito da normalização do aleitamento exclusivo, em meio a um cenário de excessos, diante da alienação do tempo do espelho que tende a estender-se, o gozo e a angústia indiscutivelmente demarcam um considerável espaço. A produção de um sintoma na amamentação impõe-se, então, em certos casos, como a resposta subjetivamente mais viável, favorecendo uma voraz e perigosa relação entre mãe e filho, na qual a criança-objeto, em um tenso lugar fronteiriço, está na iminência de ser destruída e de também destruir esse Outro materno que dela goza.

Para todas as mães então uma escolha forçada56: “o gozo ou a angústia!”? A despeito da leitura mais ampla que faço dessas possíveis implicações, por certo, alguma relativização é necessária, o sempre oportuno ponderar quando o caso a caso, o sujeito, é o que, a priori, em psicanálise está em questão. Logo, não se trata de se deixar arrolar por uma tentadora armadilha de um vel alienante. Nem sintoma para todas, nem para todas elas angústia diante da amamentação. Nada assim tão uniforme, tão geral; caso contrário, recairíamos em uma radicalidade tal qual a do discurso em questão.

Se não há receita – nem para o bem nem para o mal (com a devida ressalva aos termos) –, não penso, contudo, que isso atenue o tom que venho marcando até aqui; não para todas, certamente, mas o que sublinho é que há angústia, há sintoma, há gozo aí. Então, como nestes casos sair, a mãe, de uma escolha forçada e, em algum nível, forçosamente perdedora? Para as mães que, nesse sentido, sintomatizam (e daí gozam) e/ou se angustiam, haveria de fato uma escapatória desse vel alienante? Afinal, que alternativa a essa fronteira?

A angústia, diz Lacan (1962-1963/2005), só é superada quando o Outro é nomeado, e segundo Miller (2008), o sujeito pode encontrar precisamente na sustentação do discurso, o apoio para suportar a angústia. É também nesse sentido que Battikha (2006, p. 165) destaca que, assim como o bebê precisa de palavras para que se constitua, delas também precisa a mãe em dificuldade, pois o que enlouquece não é a dor, “[...] mas a impossibilidade de significar. O silêncio é desumanizante”.

Portanto, lidar com esses conteúdos, falar deles, ainda que por demais insuportáveis, pode implicar para as mães angustiadas uma importante mudança subjetiva frente ao seu sintoma e, por conseguinte, à relação mãe-bebê. Pode ser, porém, que isto seja, para outras mães, insuportável demais até mesmo para “tão somente” ser dito. Pode ser que a enlouquecedora possibilidade de, nesse momento, construir sentidos, ainda que a desumanize, alimente e mantenha seu silêncio. E então, o que fazer?

Parece ser o silêncio o que tem também sido promovido pelo discurso do aleitamento. Porém é um silêncio efeito de um suposto humanizar, já que silêncio que amamenta, que faz, da mulher que oferta o seio precioso ao seu bebê, uma boa mãe. Porém, mais do que a humaniza, a idealiza, pois é uma mãe sobre-humana que se quer, que se intenta produzir.



Se a psicanálise propõe a emergência das palavras, ela não deixa, contudo, de acolher esse silêncio que, pelo sujeito, ainda não pode ser rompido. Mesmo quando nenhuma palavra puder ser dita, basta lembrarmos que há algo anterior a ela e que não deixa de apontar para o sujeito, mesmo que dela prescinda; há um “discurso sem palavras”. Esse lugar discursivo, vimos, é aquilo que dá abertura ao laço social, através do qual significativas mudanças subjetivas podem acontecer, propiciando deslizamentos e novos posicionamentos frente ao Outro.

Mas, uma vez que tais impasses maternos são ensejados, entre outras coisas, por um discurso imperativo que declara às mães “a-mamente!” – discurso o qual parece, por algumas delas, ser assimilado como uma ordem superegóica ao gozo –, cabe considerar qual a posição do psicanalista diante de um império do gozo. Quanto a isso, Laurrent é categórico:
Não devemos isolar-nos em uma falsa alternativa entre dizer sim ao empuxo-ao-gozar, cujas exigências são incessantes, e dizer não, apelando para os limites da justa medida. Esse sim e esse não, assim formulados, fogem da particularidade do inconsciente para cada sujeito. Nesses termos generosos, sim e não conduzem igualmente ao triunfo do supereu. Obedecer ao ‘Goza!’ equivale a obedecer à sua ordem. Restabelecer o censor é anunciar devastações futuras nos novos desvios a serem assumidos pela pulsão (LAURENT, 2007, p. 171-172).
À psicanálise, em seu fazer, entre a maior submersão presente e as insondáveis devastações futuras, nem o meio-termo parece, portanto, ser a solução, uma vez que, ainda pela ideal “justa medida”, o intermediário hospeda o a. Distando tanto do sim quanto do não, trata-se apenas, diz Laurent (2007, p. 172), de “[...] reenviar o sujeito a sua particularidade”. Essa deve ser a posição do psicanalista a despeito do discurso corrente que ao gozo incita. Com isso, Laurent (2007, p. 112) ressalta que a psicanálise diverge de posições que, por razões humanitárias, visam a desculpabilização do sujeito – que “sempre se culpa por gozar e por existir” –, e indica que é também pela culpa que se deve chegar ao sujeito em sua divisão.

O que é então desejável, imprescindível, é que, remetendo-as à particularidade do inconsciente, se possibilite uma escuta a essas mães, quando, inclusive em seu quase indizível mal-estar que parece não se propor em palavras, dá notícias de um sentimento de culpa, seja por transgredir, seja por, de modo masoquista, se submeter aos ditames do supereu. De todo modo, aí a culpa por gozar, através da qual o psicanalista pode, ao não desculpabilizar, chegar ao sujeito dividido.

Assim, abre-se a possibilidade para que a mãe seja apreendida enquanto aquela que lida com a maternidade, que investe em seu bebê, ante seus próprios limites, inquietações e angústias. Ou como diz Mathelin (1999, p. 16), “nem mãe mítica nem mãe devorante, sacrificada ou sacrificante”, mas simplesmente uma mãe possível, aquela que ela, e somente ela, pode ser. Sem desculpabilizar, é, portanto, na contramão da ética do bem-estar de um discurso moralizante que a psicanálise opera. É norteado pela ética do bem-dizer que “[...] o discurso psicanalítico propõe que o sintoma passe do nível de resposta para o de questão, implicando o sujeito no mal-estar do qual se queixa [...]” (CRUZ, 2010, p. 74).

Lacan (1962-1963/2005, p. 306) afirma que “o sintoma só se constitui quando o sujeito se apercebe dele [...]”, e que, para que o sintoma saia do estado de enigma ainda não formulado, é necessário que no sujeito se desenhe algo que lhe sugira que “há uma causa disso”. Afirma que é apenas por essa via “[...] que se rompe a implicação do sujeito em sua conduta, e essa ruptura é a contemplação necessária para que o sintoma seja abordável por nós” (LACAN, 1962-1963/2005, p. 306). Como assinalam Vorcaro e Lopes:
A psicanálise é apropriada para quem quer saber sobre sua verdade, questionar seu sintoma e, portanto, substituir o usufruto deste sintoma como gozo, por um saber sobre seu desejo. […] É o ‘desejo do analista’ que propiciará ao sujeito deslocar-se da condição de objeto de gozo para a emergência de um sujeito desejante (VORCARO; LOPES, 2006, p. 198, grifo do autor).
Pela ética do bem-dizer, a psicanálise, enquanto lugar discursivo, possibilita ao sujeito se implicar com seu sintoma. Quando o sujeito formula um enigma sobre esse mal que o consome, quando lhe ocorre que para isso pode haver uma causa, quando o questiona, o sintoma pode ser abordado a partir da psicanálise. Propor então que o sintomamentar seja, pela mãe, formulado como uma questão, como um enigma – onde apareça a sua implicação com este insistente e silencioso mal-estar –, é a possibilidade aberta pela psicanálise ao sujeito, para que haja o deslocamento de uma condição de total submissão ao gozo.

No entanto, para além do sintoma em sua formulação, sobretudo quando no sujeito o contraditório de seu gozo se circunscreve apenas sob ruídos, deve-se visar ainda algo mais. É “[...] pelo real do sintoma, sempre parcial, ‘pedaço de real’”, que o psicanalista se orienta, diz Laurent (2007, p. 174). E no que refere ao trabalho com as mães e seus bebês, Laurent também traz uma indicação:


No discurso analítico, trata-se precisamente não apenas de destacar os traços perversos existentes na relação mãe-filho, o tormento que é, para uma mulher, ter um filho – apesar de séculos de exaltação da mística materna ou da mística feminina, é muito difícil ser mãe –, como também o fato de que há aí um traço de loucura (LAURENT, 2007, p. 23).
A partir do discurso psicanalítico, deve-se visar não só os traços perversos da relação mãe-filho, mas também a loucura que atormenta esta relação, loucura que, por fim, em alguma medida, sempre lhe é própria – no caso do aleitamento exclusivo, loucura silenciada ou mesmo silenciosa. Trata-se de visar o a que centra o sintoma e que descompassa a mãe, seja no que, em palavras, aparece de suas contradições, seja nas suas dissonâncias que só se revelam no quase silêncio. Nesse pedaço de real do sintoma, lê-se, portanto, o a, o seu núcleo. É então pelo objeto a – seja qual for a forma em que se apresente – que o psicanalista deve se orientar.

Assim, temos que, à fronteira, a alternativa é o próprio objeto fronteiriço. No sintomamentar, entre o gozo e a angústia materna (e do bebê), o a deve ser o alvo. É por essa criança-objeto, que na fantasia materna se apresenta, que se deve orientar; é visando-a que o trabalho precisa ser conduzido.

Então é isso? Do vel alienante não há escapatória? A alternativa é uma não-alternativa? Miller (2008, p. 409, tradução nossa) nos lembra que o enlace com o Outro é, em algum nível, sempre sintomático, sendo então o sintoma “[...] aquilo com que se deve viver [...]”. Essa é a definição daquilo que denominou de “parceiro-sintoma”, o qual equivale ao sinthoma lacaniano: um modo de estabilizar os três registros (imaginário, simbólico e real), o quarto elemento que os liga (LACAN, 1975-1976/2007); um saber fazer com o sintoma, saber viver com ele sem tanto pesar, o qual concerne ao fim de análise.

No âmbito institucional, é possível que fique a ressalva quanto aos limites práticos de tal alcance: a análise em seu fim. Mas, pondo de lado esta extensa discussão, se a análise não se limita a configurações específicas ou tradicionais, talvez baste nos atermos ao que parece, enfim, mais importar: o percurso, o extenuante caminhar, que, ensejando tão importantes construções nas aventuranças pelas fantasmáticas inconscientes, sempre terá como alvo este horizonte do “fazer com isso”. Que, às mães que sintomaticamente amamentam, haja então essa possibilidade.

Se a amamentação impõe-se para elas como um sintoma, como um meio de gozo, como um modo de gozar do corpo do Outro e do seu próprio, e se ao sintoma o que resta é um “sou como gozo”57 – um saber fazer, um se haver com ele, um com ele viver –, o falar disso, do modo e no tempo que lhes for possível, talvez seja, senão a única via, mas ainda a primeira, a privilegiada para, até o último desmame, com o sintomamentar seguirem, na convivência, sem tanto penar; para, quem sabe, dele fazerem seu “parceiro”, nos termos de Miller.




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