Danielle carvalho ramos



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4.3.2 A presa indigesta
Em Nota sobre a criança, Lacan (1969/2003, p. 373) fala de uma função de resíduo que os pais exercem e mantêm, função que destaca uma transmissão irredutível da ordem da constituição subjetiva, “implicando a relação com um desejo que não seja anônimo”. Nisso vigem as funções da mãe e do pai:
Da mãe, na medida em que seus cuidados trazem a marca de um interesse particularizado, nem que seja por intermédio de suas próprias faltas. Do pai, na medida em que seu nome é o vetor de uma encarnação da Lei no desejo (LACAN, 1969/2003, p. 373).
Sobre essas considerações, Laurent (2007) diz que tal resíduo enfatizado por Lacan é precisamente essa mãe dos cuidados que marcados são por faltas. Afirma que, retomando a discussão de Winnicott sobre a “mãe suficientemente boa”, Lacan fez uma importante ressalva ao indicar que esta mãe “[...] deve ter falhas, das quais depreende a lógica: é uma particularidade, e não uma mãe universal” (LAURENT, 2007, p. 43).

Portanto, o resíduo é a mãe dos cuidados, que são falhos, onde o interesse particularizado aponta para as faltas que a mãe deve ter, esta que diverge de uma (suficientemente boa e bela) mãe universal. E é a esse interesse particularizado, mediado pelas faltas maternas, que quero me ater. Lacan (1969/2003) nos diz que o sintoma da criança pode responder àquilo que há de sintomático na estrutura familiar, e, como representante da verdade, o sintoma pode então representar a verdade dos pais. Contudo, se o sintoma que prevalece é aquele que decorre da subjetividade materna, a articulação em muito se reduz, diz ele, pois a criança fica diretamente implicada como correlata de uma fantasia. Não havendo mediação entre a identificação com o ideal do eu e a função do desejo materno, está ela, a criança, portanto, a mercê de todas as capturas fantasísticas. É o objeto da mãe que a criança se torna e, assim, “[...] não mais tem outra função senão a de revelar a verdade desse objeto” (LACAN, 1969/2003, p. 369).

Quando a discussão concerne a um sintoma materno, penso então que o sintomamentar viria como aquele que potencialmente favoreceria essa correlação entre a criança e a fantasia materna. Mediante uma operação por redução, na medida em que tendo o seu sintoma como insígnia da subjetividade materna, a criança carregaria consigo a insuportabilidade, e mesmo a impossibilidade, de tal função sustentar, senão ao preço da condenação de ficar reduzida à condição de objeto. Sobre tal correlação, Lacan afirma que


A criança realiza a presença do [...] objeto a na fantasia. Ela satura, substituindo-se a esse objeto, a modalidade de falta em que se especifica o desejo (da mãe), seja qual for sua estrutura especial: neurótica, perversa ou psicótica. Ela aliena em si qualquer acesso possível da mãe a sua própria verdade, dando-lhe corpo, existência e até a exigência de ser protegida (LACAN, 1969/2003, p. 370, grifo do autor).
A criança satura essa falta materna enquanto capturada no seu gozo e no de seus pais. Tampona, pois, a falta, não como ideal, mas como objeto, objeto a. É assim que, segundo Laurent (2007), neste texto de Lacan, a ênfase recai sobre a criança. Da mãe, o bebê torna-se uma presa, reduzido a ser meramente objeto e meio de gozo para o Outro materno; meio de ela gozar de seu próprio corpo e meio de gozar do corpo do bebê.

Se estamos então referidos a um sintomamentar, e se o sintoma comporta um resto, é possível entrever que, por substituir-se ao objeto a na fantasia materna, é precisamente ela, a criança, que consiste no resto desse sintoma, o qual tende a prevalecer nos casos inflexivelmente submetidos às normalizações do aleitamento. Assim como o imperativo superegóico – considerando que, como vimos, o a pode ser um tão incômodo supereu, o qual, afinal, é uma das formas do objeto a (LACAN, 1962-1963/2005) –, a criança também pode funcionar na fantasia materna como a mais audível voz do gozo.

Assim, vemos como as implicações de um excessivo do aleitamento materno podem se coadunar com “[...] a maneira como Lacan situou a questão da inscrição do gozo da criança: simultaneamente sintoma e fantasia na família” (LAURENT, 2007, p. 40).

Benhaïm (2007) faz uma interessante relação entre essa correspondência da criança como objeto real na fantasia materna e a evolução do que chama de ódio imaginário. Ante um real que é avizinhado, permanecendo “[...] na loucura de um gozo materno que o parto a obriga a atravessar [...], a mãe permanece cativa de um fascínio: o da ‘criança-morta’” (BENHAÏM, 2007, p. 17). Essa criança-mártir é então aquela que, tendo feito eco a um amor materno fundado no gozo, aprisionada está num objeto de destruição do Outro do gozo.

A criança emerge, então, como objeto a na fantasia materna, objeto-resto que, desvelado, em sua aparição, satura e aniquila a falta. Tal é a falta positivada que, como vimos, dá a exata condição à emergência da angústia, sinal (que não engana) da irredutibilidade do real. Afinal, como vimos, é no prolongamento da fantasia que está o ponto de angústia; no corpo da mãe, sob a imagem do vampirismo.

Na angústia, o instrumento, como destaca Lacan (1962-1963/2005, p. 186), é “posto fora”. Tornando-se visível a presença até então ausente, vem aquela estranheza ante a aparição do objeto: são os seios de Ágata no prato; os olhos de Édipo no chão. Sobra, resto, dejeto, corte, queda, aquilo que é posto de fora... compondo um verdadeiro monturo que ilustra o status residual deste objeto caduco53.

Em Saturno devorando a un hijo54, conhecido quadro do pintor espanhol Francisco de Goya y Lucientes, de 1820-1823, Saturno – versão romana de Cronos, deus grego do tempo – aparece num terrível ato de devoramento de um de seus filhos. Nesse quadro de Goya, o horror, decididamente, não esconde sua face. Tal foi a imagem tão oportunamente escolhida para ilustrar a capa da publicação do seminário de Lacan (1956-1957/1995) sobre a relação de objeto.

Todavia, no que concerne à condição de resíduo do objeto a, penso ser ainda mais paradigmática a releitura desse quadro feita pelo artista plástico Vik Muniz, em 200655. Trata-se, literalmente, de restos. É a partir daquilo que se descarta, da enorme pilha de lixo, que ele dá formas a essa obra de impetuosa e temível imagem, onde tão visivelmente está o objeto-resto e, portanto, dado o seu realçado aparecimento, na própria evocação, a inapreensível imagem da angústia. Quanto ao lixo, afinal, não nos que esqueçamos de que é aquilo que mais sonoramente dá notícias da existência do homem; é aquilo que Lacan (1959-1960/1997; 1960-1961/1992) aponta como o mais visível rastro da humanidade.



Portanto, tendo sido ignorada a proibição, e aquele pedroso rolo – ainda que potente – não mais podendo ser barra, como se então um objeto-excremento reintegrado, como aquilo que resta de irredutível da operação subjetiva, recolhe-se, a criança, a um soturno destino: índice de gozo e lugar de fazer surgir a angústia materna. Do sintoma materno, o que resta, portanto, é a criança-objeto, a criança-dejeto, mais uma das tantas possibilidades desse a ilimitado que, em um espaço fronteiriço, cujo entorno é o sintomamentar, demarca a vizinhança sombria do gozo com a angústia em território onde a lei é: amamente!... a-mamente!

Como tão bem assinala Mathelin (1999, p. 11, grifo nosso), nessa pretensa completude materna, “em matéria de felicidade a dois, é uma loucura a dois que estaria de fato em questão, o filho tornando-se inexoravelmente o objeto de sua mãe, destruída por ele da mesma forma que ela o destruiria”. Assim, no gozo e angústia mobilizados, ante aquela imensa e hiante bocarra – seja do crocodilo, seja de Cronos-Saturno –, a criança torna-se uma presa indigesta.



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