Danielle carvalho ramos



Baixar 0,74 Mb.
Página16/36
Encontro05.12.2019
Tamanho0,74 Mb.
1   ...   12   13   14   15   16   17   18   19   ...   36
4.3.1 O lugar fronteiriço
Lacan (1962-1963/2005) fala-nos que a angústia tem uma função mediana entre o gozo e o desejo; é, entre eles, um termo intermediário, o meio-termo, porquanto se situa na hiância do desejo no gozo. Aponta aqui a sua localização, dizendo que “esse lugar [lugar vazio], delimitado por algo que é materializado na imagem – uma borda, uma abertura, uma hiância – onde a constituição da imagem especular mostra seu limite, é o lugar de eleição da angústia” (LACAN, 1962-1963/2005, p. 121). É desde essa borda, essa hiância, que Lacan (1962-1963/2005) afirma ser a angústia enquadrada.

Lacan (1962-1963/2005) diz que são em ocasiões privilegiadas que o fenômeno da borda pode ser encontrado, como na janela que se abre e que marca o limite do ilusório mundo do reconhecimento (a cena, ou palco). É “pela janela do quarto, pela janela do carro, pela tela, pela janela” que se vê “tudo enquadrado, remoto controle” (CALCANHOTTO, 1991/1992). No trecho da música Esquadros, Adriana Calcanhotto passeia então por entre as possibilidades dessa janela mediante a qual o fenômeno se dá. É na janela (e pela janela) que se vê o enquadramento de algo: o a, aí está ele, que, nessa hiância, remotamente e, ao mesmo tempo, de bem perto, a tudo comanda, inclusive a falta. Afinal, lembremos que, onde há angústia, há o objeto da angústia; é de sua aparição que ela decorre.



Lacan (1962-1963/2005, p. 134) diz que a angústia apresenta-se como um fenômeno de borda do eu quando ele é ameaçado pelo a, e que os fenômenos de despersonalização “[...] são os fenômenos mais contrários à estrutura do eu como tal”, sendo que o que de fato constitui o perigo do objeto a para o eu é a sua condição imprópria à “egoização”. Ou seja, o a, em sua estrutura, implica uma ameaça de despersonalização, de retorno ao autoerotismo, uma ameaça, portanto, à estrutura do eu, e que, como efeito, se traduz subjetivamente nesse fenômeno de borda que é a angústia.

E se Calcanhotto (1991/1992) fala de “tela”, da terminologia corte-costura Vieira (2008) traz a “entretela”, fazendo uma analogia desta com o objeto a. Primeiramente compara o inconsciente ao forro, ao espaço entre os dois cortes de pano, interno e externo, que estruturam uma peça de vestuário. Daí, diz-nos que “[...] o objeto a, na estrutura assim delimitada, é uma presença jamais visível, mas que dá estofo ao forro, e que, no vocabulário de alfaiataria, ganha em alguns casos o nome de entretela” (VIEIRA, 2008, p. 61, grifo do autor). É no “entre”, nesse espaço configurado pelo redobramento de impossíveis que, segundo Vieira (2008, p. 53, grifo do autor), está situado o “imaterial” em questão, o “[...] a mais [que] se oculta sob um mundo de atributos”. Sobre isso, lembra que


Lacan se refere a esse modo psicanalítico de levar em conta o imaterial em meio ao material como OBJETALIZAÇÃO49. Naquilo que se desenha do objeto, a objetalização destaca alguma coisa que se acrescenta, de maneira subtrativa, à série de seus traços e que, apesar de pura suposição, faz toda diferença (VIEIRA, 2008, p. 53).
Lacan (1962-1963/2005, p. 193) afirma que o a é um objeto eximido de qualquer possibilidade de definição da objetividade e sublinha a irredutibilidade deste objeto, ao afirmar: “[...] o a é irredutível, é um resto, e não há nenhum modo de operar com ele”. Diz ainda que essa irredutibilidade é da ordem da imagem, e que o objeto a é, da libido, a reserva derradeira e irredutível, não podendo ser reduzido, pois ele próprio é o que resta da “[...] prova do encontro com o significante puro” (LACAN, 1962-1963/2005, p. 243).

É referente a essa característica, que Vieira (2008, p. 54) diz que “Lacan opera por redução”, esvaziando de sentido, ao máximo, esse objeto, a fim de que não se dê, em demasia, corpo àquele cuja essência é tão paradoxal. Por isso, nos indica Vieira (2008), a esse objeto, Lacan reserva apenas uma letra50.

Temos então que a angústia situa-se em um lugar vazio onde presente está um objeto imaterial, de sentido esvaziado, de uma essência paradoxal. Entrementes, sobre essa localização, Lacan (1962-1963/2005, p. 258) é ainda mais preciso, acrescentando que o ponto de angústia está no prolongamento da fantasia “[...] que se exprime sob a imagem do vampirismo”. Em seguida, afirma que, no plano da pulsão oral, experimentamos o ponto de angústia no nível do Outro, dizendo que este ponto “[...] fica no nível do Outro, do corpo da mãe” (LACAN, 1962-1963/2005, p. 260). Segundo Lacan (1962-1963/2005), é precisamente através disso que do Outro resta – o a –, que o gozo se faz conhecer pelo Outro.



Já percorremos os caminhos que sinalizam a intrínseca relação do gozo com o corpo, uma vez que se goza do corpo, de parte do corpo do Outro. Porém, agora mais precisamente demarcado, temos que, desse corpo que serve ao gozo, há um resto. Sendo assim, parece ser no nível do corpo que a precisa articulação entre gozo e angústia se dá; ou melhor, ela se dá no nível deste irredutível que do corpo resta – irredutível que é da ordem da imagem, mas que é inapreensível pela imagem especular.

Segundo Lacan (1962-1963/2005), não se trata de uma tomada do corpo como algo que a tudo possa explicar, mediante um tipo de esboço harmonizador do Umwelt com o Innenwelt. No entanto, nos diz ele, “[...] sempre há algo no corpo, em virtude desse engajamento na dialética significante, algo de separado, algo de sacrificado, algo de inerte, que é a libra de carne”, e é com ela que se tem de saldar a dívida (LACAN, 1962-1963/2005, p. 242). Acerca disso, Nicolau lembra que:
A psicanálise tem nos mostrado que a existência de uma unidade funcional chamada corpo é uma ilusão. Por sua implicação em uma estrutura de discurso responsável pelo laço social, o corpo para este ser de fala e de sexo perde sua condição natural e fica submetido a uma estrutura discursiva. Para habitar esta estrutura o sujeito perde um pedaço de si mesmo ou paga com uma ‘libra de carne’, sofrendo mudanças radicais em sua constituição. Perde os instintos, deixa de fazer relação dual com os objetos e passa a ter suas realidades mediadas pela condição de semblante. Aquilo que é perdido entra na conta do Outro para fundar o campo do objeto, que Lacan designou com a letra a, minúscula (NICOLAU, 2008, p. 978).
No que é pedaço perdido do corpo ilusório, o objeto a é ainda isso que resta da entrada do sujeito na estrutura discursiva, no laço social. É o que resta do encontro com o Outro, é isso com que se deve pagar, é isso que faz do sujeito um eterno debitário.

Vemos, portanto, como, sobre o a, muita coisa converge; é um excedente por onde tudo passa, isto porque, como afirma Lacan (1962-1963/2005, p. 205), “[...] ao real não falta nada”51, ideia que Vieira (2008, p. 126) retoma ao trazer o conceito de “ilimitado”, o qual seria “[...] o reino de um ‘tudo é possível’, da vertigem do infinito aqui e agora [...]. Espaço de um absoluto que é êxtase e abissal transbordo”. Conforme destaca Vieira (2008, p. 106), um objeto ilimitado é então algo cujas possibilidades de significação jamais podem ser esgotadas, afinal, é imenso o leque dos objetos a, quando “tudo o que é caduco, tudo o que do corpo se extrai, tende a assumir a potência obscura de perturbar os limites do mundo subjetivo e lhe conferir nova conformação [...]”.52

Sendo assim, paradoxalmente, em sua imaterialidade e em seu sentido esvaziado, enquanto um objeto ilimitado, o a é esse “tudo”, é feito de excesso. Ele resta porque é um a mais, um mais de gozar. É sempre com isso que estamos às voltas quando se trata de gozo e angústia; enquanto excessos, ambos, gozo e angústia, são governados por essa múltipla letra.

Quinet (2004, p. 107) lembra que “o lugar da angústia é o da falta (lugar do vazio constituinte do objeto perdido), enquanto preenchida pela presença do objeto de gozo que retorna para o sujeito”. O objeto diante do qual a angústia se manifesta é o objeto do gozo. Este resto, em um retorno, impõe então sua presença onde deveria ser ausência, fazendo com que como objeto o sujeito apareça.

Se a angústia é aquilo que está entre o gozo e o desejo, entre a angústia e o gozo também há uma hiância, sendo esse lugar menos metafórico do que situável – ainda que por “pura suposição”. Diferentes mas tão próximos, gozo e angústia têm no a o imaterial aglutinante que os une. Se ali estão, caminhando quase pari passu, é porque no seu interstício há a própria hiância, mas hiância corporificada; há a “libra de carne” ou, como diz Vieira (2008, p. 55), uma “carne de vazio”.

Disso, temos então: o aparecimento do a é o que causa a angústia, cujo ponto está no nível do Outro, mais especificamente, no nível do corpo da mãe, quando se trata da pulsão oral – a qual particularmente nos interessa; e é pelo a que o gozo conhece o Outro. Presença comum para a angústia e para o gozo, nesse lugar intermediário, entretanto, o a parece não estar sozinho.

Em O seminário, livro 10, Lacan (1962-1963/2005, p. 349) chama o a de rolha, referindo-o ainda como “objeto-rolha ou torneira”. Em seguida, afirma que o vazamento dessa torneira é o sintoma (LACAN, 1962-1963/2005). No que concerne aos posteriores desdobramentos dessas considerações lacanianas, Miller (2008) afirma que, no último ensino de Lacan, o sintoma é pensado menos a partir do $ (sujeito dividido) e mais a partir do objeto a, porquanto o sintoma seria uma espécie de embrulho do objeto a, aquilo que o envolve. Assim, Miller (2008, p. 89, tradução nossa) denomina o a de “núcleo do sintoma”.

Há, portanto, uma íntima relação entre o sintoma e o objeto a, e disso decorrem alguns importantes apontamentos. Se o sintoma tenta evitar a angústia, ele então falharia na sua função de evitação, já que comporta a própria causa da angústia (o objeto a). Mas, nesse sentido, é possível afirmar que todo sintoma é, em última instância, um tanto falho, pois no próprio sintoma há angústia. Ele nunca é plenamente bem sucedido nessa sua pretensa função, não é incontestavelmente vitorioso em suprimir ou impedir o mal-estar; apenas ludibria-nos, mediante seus artifícios substitutivos, com uma quase falsa promessa de felicidade – quase, porque, não esqueçamos, uma importante dose de satisfação é o que ele tem a oferecer, afinal, como vimos, satisfação e desprazer estão no sintoma implicados.

Portanto, do sintoma, algo escapa, algo resta como excedente; resto que, no entanto, lhe é anterior, o constitui. O vazamento de a é o sintoma que a tal objeto tem como núcleo, sendo este mesmo objeto também mobilizador do mal-estar que, ambiguamente, o sintoma tem a função de evitar. Logo, a despeito de tentar evitá-la, a origem da angústia está no âmago do próprio sintoma (que gozo é). Na fronteira do gozo com a angústia, nesse lugar fronteiriço, o habitante é o objeto a, que envolvido é pelo sintoma; em outros termos, nesse lugar de fronteira há isso que, simultaneamente, é objeto causa da angústia e, enquanto núcleo do sintoma, é objeto de gozo.



Vimos que o sintoma é meio de gozo e que do corpo goza-se. Deste corpo que é gozado há um resto, há o a, o qual é núcleo do sintoma. Contudo, não é senão desde um contexto em especial que proponho pensar nessa fronteira na qual o objeto se situa. Nesse ponto, retomo então a proposta apresentada no segundo capítulo da dissertação, a amamentação como um sintoma.

Quando, através do corpo, que serve ao gozo, há um amamentar que se impõe como sintoma, parece plausível supor que o objeto ao qual este sintoma concerne, em suas muitas possibilidades, assumiria alguma “especificidade”. Então, qual o resto, qual o a desse corpo que amamenta e cujo embrulho é o sintoma-amamentar? Desse sintomamentar, o que resta?



Compartilhe com seus amigos:
1   ...   12   13   14   15   16   17   18   19   ...   36


©psicod.org 2019
enviar mensagem

    Página principal