Danielle carvalho ramos



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4.2.2 Em um paraíso tenebroso
Nesse ponto, remetendo-me a tal horror, cito uma fala particularmente enfática de Lacan:
[...] o sujeito só é sujeito por ser assujeitamento ao campo do Outro, o sujeito provém de seu assujeitamento sincrônico a esse campo do Outro. É por isso que ele precisa sair disso, tirar-se disso, e no tirar-se-disso, no fim, ele saberá que o Outro real tem, tanto quanto ele, que se tirar disso, que se safar disso (LACAN, 1964/2008, p. 184, grifo do autor).
Crucial a presença antes da ausência, alienação antes de separação; tal é a dialética fundante da subjetividade. Entretanto, apesar de ser uma operação constitutiva e estruturante, dado o tempo da alienação, urge disso sair, desatar-se, na separação desemaranhar-se dos mil feitiços desse Outro pelos quais fora enredado.

Entendo, porém, que, nessas palavras, Lacan indica-nos ainda algo mais. O Outro não passa indiferente por tais operações. A ele, a esse Outro, Outro real, cabe também um movimento na direção de separar-se daquele que esteve entregue a seus caprichos. Curioso ainda é que Lacan (1964/2008) pontua que o sujeito, “no tirar-se-disso”, saberá que o mesmo deve ser feito pelo Outro. Como se, no só depois, de algum modo, o sujeito alcançasse a dimensão do quão mortífero, para ambos, poderia ser permanecer nessa sincrônica relação de assujeitamento.

Freud (1931/1996) já havia discorrido sobre esta fantasia de devoração quando fala daquele temor do bebê de ser devorado pela mãe, enquanto uma hostilidade à figura materna frente às diversas restrições impostas no curso dos cuidados por ela dispensados. Considerando-se que “o amor infantil é ilimitado; exige a posse exclusiva, não se contenta com menos que tudo” (FREUD, 1931/1996, p. 266), tais frustrações fatalmente participam de alguma hostilidade infantil. Na introdução do presente trabalho, vimos também que Boukobza (1977 apud MATHELIN, 1999) retoma essa fantasia, referindo-se, entretanto, ao medo que as mães por vezes falam de serem destruídas por seu bebê, de serem, por ele, esvaziadas, devoradas. Essa constatação clínica corrobora as considerações que Jacques Lacan já havia feito sobre a temática.

Além dos apontamentos sobre a mãe que devora, em O seminário, livro 8, Lacan (1960-1961/1992, p. 205) diz que na fase oral, localizado à margem do desejo, habita o tema do devoramento; trata-se, ele complementa, da “presença da goela aberta da vida”. Já em O seminário, livro 10, apontando para o que remete ao medo da mãe de ser esvaziada – lembrado por Boukobza (1977 apud MATHELIN, 1999) –, Lacan (1962-1963/2005, p. 259) fala de um vampirismo e pontua que, “[...] por mais mítica que seja, a imagem do vampiro nos revela, pela aura de angústia que a cerca, a verdade da relação oral com a mãe”. Sobre a pulsão oral, no seminário posterior, mais ele nos diz:


Pois que nos referimos ao lactente e ao seio, e que o aleitamento, é a sucção, digamos que a pulsão oral, é se fazer chupar, é o vampiro. Isso nos esclarece, aliás, sobre o que é desse objeto singular [...] o seio. O seio é também algo chapado, que chupa o quê? – o organismo da mãe (LACAN, 1964/2008, p. 191, grifo do autor).
Dando escopo à discussão, lembremo-nos ainda da referência feita por Lacan (1959-1960/1997, p. 246, grifo do autor) a uma espécie de doutrinamento da lei do gozo por Sade, que sublinha a recíproca concessão de partes do corpo ao gozo do Outro: emprestai-me a parte de vosso corpo que possa satisfazer-me um instante, e gozai, se isto vos agrada, da parte do meu que pode ser-vos agradável”. Anos mais tarde, Lacan (1971-1972/2012, p. 31) fala sobre a ressonância sadeana na definição do gozo, uma vez que gozar, usufruir de um corpo “[...] é abraçá-lo, estreitá-lo, é picá-lo em pedaços”. E em O seminário, livro 20, remetendo-se novamente ao enunciado de Sade, Lacan diz-nos que
Gozar tem esta propriedade fundamental de ser em suma o corpo de um que goza de uma parte do corpo do Outro. Mas esta parte também goza – aquilo que agrada ao Outro mais, ou menos, mas fato é que ele não pode ficar indiferente (LACAN, 1972-1973/2008, p. 30).
Reportando-se a esse modo pelo qual se serve do Outro para gozar, já que é por intermédio do corpo do Outro que se produz o gozo no corpo de Um, Miller (2008, p. 411, tradução nossa) conclui que, “nesse sentido, o gozo é sempre autoerótico, é sempre autístico. Mas, ao mesmo tempo, é aloerótico, porque sempre inclui o Outro [...]”.

Não seria justamente isso que se nos apresenta na cena do amamentar? Ato que, em sua ímpar e ambígua beleza, sustém um duplo gozo de partes do corpo, quando, abraçando-se, estas partes despedaçadas se estreitam em um autoerotismo partilhado. Tal é a formidável concessão dançante dos corpos: um embalar de gozo. E se gozo nada mais é do que a repetição, do que a satisfação de uma pulsão (de morte), o aleitamento exclusivo, em seu excesso, parece operar como um excelso dispositivo amamenta-a-dor.

Não nos esqueçamos de que a amamentação, assim como a própria maternidade, longe de representar tão somente um tempo de satisfação e contentamento, traz também, em seu bojo, dissabores. No que comporta de beleza, também agrega horrores. Há gozos, percorrendo uma sinuosa via de mão dupla. Nessa mesma via, na contramão de um ideal materno, a maternidade configura-se, vimos, como uma vivência marcada pela ambivalência, esta que Freud (1926 [1925]/1996, p. 124), de modo bem preciso, afirmou implicar “um amor bem fundamentado e um ódio não menos justificável dirigidos para a mesmíssima pessoa”.

Remontando à mitologia grega, Stein (1988) refere-se às Erínias, figuras de ódio, divindades arcaicas, ctônias, entidades vingadoras dos deuses que implicadas estariam na maternidade. O autor aponta para o episódio de As Eumênides – terceira peça de A trilogia de Orestes – em que as Erínias (Fúrias ou Eumênides) perseguem Orestes após ele ter cometido matricídio contra Clitemnestra48. Nessa peça de Ésquilo, eis as palavras que Orestes profere diante da chegada das Erínias, um pouco antes de, delas, fugir: “não é imaginário o horror que emana desses seres horríveis. Eu bem sei. São mastins de vingança que se açulam pelo sangue materno derramado” (ÉSQUILO, 1988, p. 124).

Mas é a partir de uma especial alusão às Erínias referidas em Odisséia, que Stein (1988) desenvolve suas considerações sobre o ódio. Trata-se das Erínias de Epicasta (Jocasta, na tragédia de Sófocles). Stein (1988) chama atenção para o fato de elas não terem sido mencionadas por Sófocles, em Édipo Rei. No poema homérico, tal como narrado no canto XI de Odisséia, as Erínias também aparecem após a morte de uma mãe, Epicasta, que teria deixado a Édipo “[...] uma herança de incontáveis tormentos, tudo quanto infligem as Erínias vingadoras das mães” (HOMERO, 2006, p. 132). Ante suas tão interessantes considerações, destaco o que Stein (1988) fala sobre esse ódio propriamente dito, pelas Erínias representado, enquanto o que garante o mais sólido laço entre mãe e filho. Aí, acrescentemos: laço tão mais traiçoeiro quanto maior for sua solidez.

Amor e ódio. Fantasia de devoração, no devorar e no ser devorado. Gozar e fazer gozar. Nesses extremos deslizam mãe e filho, em meio a um paraíso tenebroso. E se a ambivalência decorre do absorver e ser absorvido (devorar e ser devorado), prenhe ela é de hainamoration, de amódio. É assim que, odiosamente enamorados, estão mãe e filho.


4.3 NO INTERSTÍCIO, UM OBJETO-RESTO
Na abordagem do gozo assimilado à pulsão de morte e à repetição, evidenciando como a relação mãe-bebê, imersa no âmbito do aleitamento exclusivo, pode ser habitada pela angústia, aparece o muito favorecimento de uma nociva relação imaginária. É então chegado o momento de, no que concerne a essa relação, mais precisamente tecer a articulação entre gozo e angústia, especialmente no que refere ao aleitamento materno exclusivo.


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