Danielle carvalho ramos



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4.2.1 Bela maternidade
Ao falar sobre a holófrase43 entre S1 e S2, sobre essa solidez que está dada na dimensão psicótica, Lacan (1964/2008, p. 231) nos diz que “[...] a mãe a reduz [a criança] a não ser mais que o suporte de seu desejo num termo obscuro”. O bebê destinado a ser reduzido a um objeto. Essa é a sua condição, destino antecipado pela apreensão da imagem especular e que marca de modo incisivo a incipiência de seus meses de vida. Eis o “fator letal” que a alienação comporta (LACAN, 1964/2008, p. 208, grifo do autor).

Lacan (1956-1957/1995, p. 232) diz que a escalada da criança no narcisismo é construída em torno da “mãe insaciável”, mãe real que está em busca do que devorar, onde a imagem dessa “boca escancarada” da situação oral revela o perigo da insaciabilidade materna44, quando, em um jogo de tapeação, a criança “[...] vira presa das significações do Outro”. Ao manter seu filho cativo e assujeitado as suas significações, esta mãe não o deixa emergir enquanto sujeito, pois ele se torna objeto de gozo45 na boca prestes a fechar desse grande crocodilo. O pior é não se saber – e ninguém o sabe – “o que lhe pode dar na telha, de estalo fechar sua bocarra” (LACAN, 1969-1970/1992, p. 118).

E se a voracidade for de fato tamanha e ela, num repente, vier a se fechar? Ante tão drástica cena, se ainda por mais um pouco nos determos, veremos algo ali. Algo que emperra a bocarra, algo que a retém e põe a salvo o sujeito: eis o falo! E este não é um frágil graveto, mas, nos diz Lacan (1969-1970/1992), um potente rolo de pedra.

Nessa analogia, ao falo Lacan não poupa, portanto, a potência que lhe cabe, a missão honrosa (com a licença do trocadilho) que carrega: a de proteger aquele que, desavisadamente, está sob o tão iminente perigo das afiadas presas maternas; aquele que, prestes a ser submergido pelo excessivo de um amor materno, ignora a letalidade do ato que está vulneravelmente propenso a sofrer.

Em O seminário, livro 5, Lacan (1957-1958/1999) cita a proibição endereçada à mãe: “não reintegrarás teu produto”, fazendo então uma analogia ao instinto animal de reintegrar oralmente os seus excrementos. Tal proibição (paterna) impõe um obstáculo ao instinto materno, que é evocado aqui em sua face primeira. Destarte, para além da já referida forma mais popularmente conhecida desse instinto (a que remete ao ideal materno) – envolto tão somente por uma toda sensibilidade, por um todo cuidado e amor pelo filho, como uma manta real que abraça a pequena majestade –, este de que Lacan fala, carrega consigo o tom de estranheza, comporta também o visceral, o real da maternidade. Aí então um mítico que aparece com o que há de mais aterrador. Eis a maternidade em seu misto de beleza e assombro.

O belo46, Lacan (1959-1960/1997) nos anuncia, guarda alguma relação com o desejo, uma relação ambígua. Ao mesmo tempo em que, em seu brilho resplandecente, o desarma, o intimida, encobrindo um campo de destruição absoluta, por estar ligado a uma estrutura de engodo – a fantasia –, o belo também, misteriosamente, se acomoda e nos acomoda quanto ao desejo, dele chega perto e, assim, fica defronte desse campo da destruição: das Ding. O fenômeno estético, podendo ser identificado com a experiência do belo, como correlativo a uma presentificação da pulsão de morte, é, portanto, aquilo que do mal está mais perto do que do bem (LACAN, 1959-1960/1997).

Em O seminário, livro 8, Lacan (1960-1961/1992) nos diz que o belo tem por destino dissimular o inabordável desejo de morte, mediante uma miragem na imortalidade. Acerca disso, vale ainda lembrar qual a função da beleza por ele, anos depois, apontada: opera como uma “[...] barreira extrema que proíbe o acesso a um horror fundamental” (LACAN, 1962/1998, p. 787). E em O seminário, livro 10, ele traz a asserção: “os sinais e tecidos da beleza [...] mostram o lugar do a [...]” (LACAN 1962-1963/2005, p. 277). Com este objeto que, em seu aparecimento, traz a visão de um horror primordial, a beleza guarda, portanto, uma peculiar relação.

Lacan (1962-1963/2005) afirma que o modo menos enganador – dentre outros possíveis – da mãe fálica, é aquele que se refere à mãe que deixa cair o filho mais querido47. Em outros termos, parece ser também aquela que devora o filho mais amado. Também atendida no contexto de um hospital-maternidade, havia uma mãe que, manifestando todo o seu zelo maternal, dizia que amamentaria a sua filha “até ela [a filha] não aguentar mais”. Diante desta fala, lembremos do leite embebido de angústia e da já mencionada consideração de Freud (1933 [1932]b/1996) sobre a comida como veneno, o temor da criança de ser envenenada. Como então não ver, nas palavras desta mãe, no bom e também belo gesto de amamentar, a presentificação de um envenenamento para além da fantasia? Eis um exemplo da “papinha sufocante” que, de fato, pode fazer-se presente em alguns casos.



Parece ser exatamente essa total saturação da demanda que imperiosamente se apresenta sob a égide do aleitamento exclusivo, onde a falta positiva que subjuga mãe e filho, a ambos insere em uma “dimensão da devoração” – esta que, segundo Silveira (2001, p. 110), se esconde por trás da angústia.

Tal como a singular relação antinômica que o registro estético, a beleza, mantém com o campo de destruição – com o que remete à pulsão de morte, ao gozo, com o real, portanto –, a maternidade – e, nela, a amamentação –, em um jogo de esconder e deixar ver, encobre e desvela o que nela há de não tão belo assim. Tal qual o belo, ela implica um sutil achegar-se ao real, ao a, já que, também rebrilhante, vale-se ela de uma estrutura de engodo quando tão perto está deste “horror fundamental”. Assim, podemos deduzir que o sintoma-amamentar faz com que esse horror tenha um belo rosto, desenhado na bela face universal da boa mãe.





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