Danielle carvalho ramos



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4.1.2 O que nada reflete
Referindo-se a esse estádio, Lacan (1946/1998, p. 183) lembra que “[...] o dilaceramento ávido e a ambivalência ciosa [...] fundamentam as primeiras relações da criança com sua mãe [...]”. As relações pré-genitais são vividas pelo sujeito de modo a implicar sua identificação com o parceiro, numa reciprocidade de ambivalência, numa equivalência entre ambos, e Lacan (1956-1957/1995, p. 15) diz que tal relação de reciprocidade entre o sujeito e o objeto, é “uma relação em espelho”. Ademais, em toda relação narcísica “[...] o eu é, com efeito, o outro, e o outro é o eu” (LACAN, 1954-1955/1985, p. 127).

O estádio do espelho, a fase a que ele concerne, é marcado, portanto, por essa ambivalência primordial que inaugura as relações mãe-bebê, comportando, ainda, uma lógica de estrita reciprocidade entre sujeito e objeto, onde, em espelho, um ao outro equivale.

Possível entender então que esses meses iniciais de vida da criança – e, portanto, os também incipientes meses da maternidade – não apenas são fortemente atravessados pela ambivalência, mas também marcam o tempo da dita indiferenciação entre mãe e bebê, revelada nessa relação em espelho, nessa relação de equivalência entre sujeito e objeto – de equidade, pois, entre o eu e o outro. Mas essa equivalência só se sustém até o ponto em que aquela onipotência materna se impõe.

É justamente em torno do sexto mês do bebê, onde se produz o fenômeno do espelho, que se situam, nos diz Lacan (1956-1957/1995), os arredores desse ponto da onipotência real materna que, no sujeito, produz um efeito depressivo. Tal efeito depressivo depende de que seja refletido sobre o contraste da impotência do sujeito, isto porque o caráter jubilatório do estádio do espelho, vimos, é premido por um conflito:
[...] o momento de seu triunfo é também o mediador de sua derrota. Quando se encontra em presença desta totalidade sob a forma do corpo materno, ele deve constatar que ela não lhe obedece. Quando a estrutura especular reflexa do estádio do espelho entra em jogo, a onipotência materna só é refletida, então, em posição claramente depressiva, e aí surge o sentimento de impotência da criança (LACAN, 1956-1957/1995, p. 190).
O estádio do espelho, apesar de mobilizar júbilo, leva ainda ao desalento, diante do contraste entre o encontro com a onipotência materna e com a impotência da criança que lá já estava. É nessa revelação a posteriori propiciada pelo estádio do espelho, que se imiscui o feito depressivo de que Lacan fala.

Portanto, na suposta equivalência, o que o estádio do espelho reflete é nada menos que o tom conflitivo da relação dual – ou, em outros termos, a alienação. Esta, quando então favorecida a estender-se, na angústia e gozo aí implicados, pode promover como consequência para o bebê, a já discutida anorexia mental, e, para a mãe, o sintoma.

Mas, se a alienação o espelho reflete, há nela um ponto que lhe escapa. Lacan (1946/1998, p. 189) diz que no “lampejo sem sombras do espaço imaginário” para o qual o homem avança, “[...] um espelho sem brilho mostra-lhe uma superfície em que nada se reflete”. Anos mais tarde, Lacan (1962-1963/2005) reporta-se a essa consideração para abordar a relação em espelho com o objeto, dizendo que, erroneamente, ela é, de pronto, tomada no nível da projeção. Nesse instante, retoma a relação do objeto a com o desejo, dizendo que, nela, a abordagem do dualismo e do não-dualismo assumem um outro destaque, porquanto “se o que existe de mim mesmo está do lado de fora, não tanto porque eu o tenha projetado, mas por ter sido cortado de mim, os caminhos que eu seguir para sua recuperação oferecerão uma variedade inteiramente diferente” (LACAN, 1962-1963/2005, p. 246).

Lacan (1962-1963/2005, p. 247) fala então do olho como espelho, dizendo que, havendo um olho e um espelho, “[...] produz-se um desdobramento infinito de imagens entre-refletidas”. O que nada reflete é, pois, um refletir infinito, em uma indefinida multiplicidade. Reportando-se então aos olhos de Édipo arrancados, indaga:


Qual é o momento da angústia? Será ele a possibilidade do gesto pelo qual Édipo arranca seus olhos, sacrifica-os, oferece-os como resgate pela cegueira em que se consumou seu destino? Será isso a angústia? Será ela a possibilidade que o homem tem de se mutilar? Não; trata-se propriamente do que me esforço por lhes apontar com essa imagem: é a visão impossível que os ameaça, a de seus próprios olhos no chão (LACAN, 1962-1963/2005, p. 180, grifo nosso).
No que tange ao fenômeno da angústia, é da imagem do objeto que se trata, de sua aparição. Quanto a essa discussão, Lacan (1962-1963/2005) também traz o exemplo de Santa Ágata, cujos seios aparecem no prato, indicando que é na separação desses objetos que aparece a angústia. Diz que são objetos separáveis “[...] porque já têm, anatomicamente, um certo caráter artificial, por estarem agarrados ali” (LACAN, 1962-1963/2005, p. 184).

Lacan (1962-1963/2005, p. 110) diz que o objeto a é algo que se produz com o corte. Uma vez tendo se dado o corte, resta algo que pode ser comparado à banda de Moebius, que possui uma superfície de face única e que, portanto, não pode ser virada. “Se vocês a virarem sobre si mesma, ela será sempre idêntica a si mesma. É a isso que chamo não ter imagem especular”, ele diz (LACAN, 1962-1963/2005, p. 109).

Conforme Lacan (1962-1963/2005), o corpo pode instituir na superfície dois pedaços diferentes: um deles pode ter imagem especular; o outro definitivamente não a tem. Isto implica que a imagem especular “[...] caracteriza-se por uma falta, isto é, pelo fato de que o que é convocado aí não pode aparecer” (LACAN, 1962-1963/2005, p. 55). Essa falta, essa ausência na imagem especular, com a qual Lacan (1962-1963/2005, p. 55) nos diz estar relacionado o desejo – por isso a imagem o orienta, o polariza –, implica a possibilidade de uma aparição que, apesar de comandar esse jogo de muito perto, “[...] o faz de onde é inapreensível para o sujeito”. Isto porque o objeto a, objeto parcial:
[...] não é apenas parte ou peça desvinculada do dispositivo que aqui imagina o corpo, mas elemento da estrutura desde a origem [...] ele já é o expoente de uma função que o sublima antes mesmo que ele a exerça – a do indicador erguido para uma ausência [...] (LACAN, 1960a/1998, p. 689).
Na imagem especular, há esse ponto inapreensível, não diretamente perceptível ao sujeito. Há, portanto, algo que pode aparecer, mas não o faz – e é bom que seja assim. Isso que não se projeta, que fica apenas na iminência, que se ergue para uma ausência, esse algo que é irredutível à imagem especular e que permanece investido no próprio corpo é o a. É ele que está implicado no autoerotismo, no narcisismo primário, nisso que Lacan (1962-1963/2005, p. 55) chama de “gozo autista”. É aí que também aparece a decomposição da função do eu, uma decomposição imaginária que se dá quando há “uma aproximação do real derradeiro” (LACAN, 1954-1955/1985, p. 212). Quanto ao autoerotismo, Lacan nos esclarece então seu sentido:
Antes do estádio do espelho, aquilo que será i(a) encontra-se na desordem dos pequenos a que ainda não se cogita ter ou não. Esse é o verdadeiro sentido, o sentido mais profundo a ser dado ao termo ‘auto-erotismo’ – ou sentir falta de si, se assim posso dizer, de uma ponta à outra (LACAN, 1962-1963/2005, p. 132).
Temos então que a imagem que o espelho devolve (de uma totalidade) é uma antecipação, uma imagem que o bebê, por sua prematuridade, ainda não tem. Que imagem tem então ele antes desse instante? O que já está lá, o que é anterior ao estádio do espelho? Lá, nessa anterioridade habita a ambiguidade de uma imagem despedaçada, própria do autoerotismo – desordem de pequenos a na fantasia de um corpo despedaçado –, numa impotência motora e num problemático dinamismo libidinal que, velados, parecem apenas se revelar a posteriori, quando da assunção jubilatória diante da imagem refletida.

O acontecimento do estádio do espelho, essa identificação, uma vez que só mediado pelo outro, pelo olhar do Outro, por um olhar outro (já que a forma total do corpo só é dada numa exterioridade), inaugura então o destino da alienação e sublinha a servidão imaginária implicada na formação da função do [eu].

O objeto a é aquilo que, definitivamente, se esquiva da apreensão especular; como a banda de Moebius, ele não tem imagem especular. Apesar de, dela, ser participante, sendo o que de fato dá prestígio à imagem – sendo aquilo que dá provas da alteridade do Outro –, dela, contudo, escapa, na medida em que há sempre um algo que se furta a essa imagem. Assim, na sua invisibilidade constitutiva, só resta-nos, ali, no registro especular, como diz Lacan (1962-1963/2005), imaginá-lo.

A referência a uma separação condicional à angústia trata-se, portanto, tão somente daquilo que resulta do corte, do aparecimento disso que não tem imagem especular. Ou seja, aí se trata de uma específica separação: o objeto que se separa; mas objeto que, justamente por se destacar, dá a ver sua impossível imagem. Portanto, de forma paradoxal, a sua própria condição original de corte traz potencialmente a possibilidade de seu aparecimento, da imagem de sua não-imagem. Aí o cerne do que evoca a angústia. Mais uma vez, é da visão que se trata.

E se o olho é um espelho, o emblemático ato de Édipo também afirma a distância que desse espelho se deve manter42, ou melhor, daquilo que o espelho porventura pode mostrar. Desse oculto reflexo, as palavras de Paes Loureiro, trecho de seu Poemaespelho, parecem dar algum testemunho:
... tu que me olhas em verbo disfarçado

por entre as cintilações de uma metáfora

tu que refletes meu rosto

como em águas lívidas

em superfície espelhada de quimeras

tu que me leva imagens aos mundos submersos

em ombros de fonemas

ou no perfil verbal de alegorias

tu que entre cílios de sílabas me olhas

e em minha face pões a jaça que me espelha

vitral do imaginário perguntas-me quem sou

porque me vejo em ti

vejo-me vendo-me

nesse brotar de mim

nesse não-eu que sou [...] (LOUREIRO, 2001, p. 96)
A poética de Loureiro traz à cena máculas que o espelho reflete, exibidas perante sua face, e que, no entanto, se camuflam quando se revelam nas cintilações de uma metáfora. O “vitral do imaginário” traz então uma claridade lívida, um tom insondável que promete dissimular algo entre esses “cílios de sílabas” para que, assim, se veja no não-eu que é. Nesse ofuscar da imagem esmaecida do espelho inquiridor, afigura habitar o “lampejo sem sombras” lacaniano.

É esse desconhecido que, ao aparecer no espelho, tanto inquieta. Ali há um encontro “com um outro absoluto”, onde se dá uma passagem do sujeito “[...] para além dessa vidraça onde sempre vê, amalgamada, sua própria imagem”; ali há “a própria imagem da deslocação” (LACAN, 1954-1955/1985, p. 223).

Como diz Lacan (1962-1963/2005, p. 134), “se o que é visto no espelho é angustiante, é por não ser passível de ser proposto ao reconhecimento do Outro”. Uma vez que o eu implica tal reconhecimento – o atestar da imagem especular –, como propor esse “não-eu” ao testemunho do Outro? Como propor-lhe o reconhecimento do a invisível? Diante do que, sem ecos, é visto no espelho, a angústia só cresce.

A relação objetal se sustenta, enfim, da “vestimenta da imagem de si”; essa parece ser a resposta de Lacan (1972-1973/2008, p. 99) para a questão por ele outrora formulada acerca da função do narcisismo para o mundo objetal. Novamente, se trata de imagem, imagem especular. Mas, mesmo nisso que espelha, há o que escapa ao status do especular, há algo que escapa à confirmação, há algo que, na imagem, não se presta ao reconhecimento do Outro.

A imagem especular, em sua aparência gestáltica, traz, portanto, um logro, enganando o homem naquilo que ela reflete, mas não mostra, não o deixando ver o que ali ele perde. É nisso que Lacan (1962-1963/2005) situa, então, o sentido do estádio do espelho. Essa devolução ilusória do reflexo esconde um resto que ali está, porém sem imagem, invisível.



Tem-se então que o sentido pleno do mito do Narciso, por Lacan apontado, é a morte, já que o mundo narcísico provém da insuficiência vital; é também o reflexo especular, porquanto o que aí é central é a imagem do duplo; seu sentido é, ainda, a ilusão da imagem, posto que o mundo narcísico não comporta o outro (a despeito de simulá-lo), sendo o homem enganado pela imagem especular. Ademais, a estranheza se produz quando o sujeito depara-se com a imagem narcísica em condições que lhe evidenciam que ela usurpa seu lugar (LACAN, 1960a/1998). E é aí, nessa imagem do duplo, no destaque do a, que, na estranheza evocada, a angústia aparece. Do dual, participa um mortífero da alienação; um dual que, tragado pelo fascínio da não-imagem que o espelho reflete, habitado é pela tendência suicida narcísica.

Como então pensar essas considerações em sua articulação com o que se refere ao aleitamento materno exclusivo? Este discurso, em seu tom imperativo e iterativo, não estaria a providenciar, de algum modo, esse ilusório encontro do ideal com a realidade e, assim, fazer daí, das profundezas, emergir a agressão suicida narcísica ao mergulhar em uma loucura fundamental?



Parece-me que o discurso do aleitamento exclusivo tende exatamente a favorecê-las quando, ao operar justamente nessa fase e ao incitar uma excessiva presença materna, não concede um lugar para uma falta possível. E, como já vimos, quando a falta falta, ou quando a falta é preenchida, além do gozo, se dá o surgimento da angústia; quando o objeto a aparece. Esse tempo do espelho, do mundo narcísico, e que corresponde ao momento da desejável exclusividade do aleitamento, é prenhe de elementos conflitivos para os quais devemos estar atentos, sobretudo quando estas questões, tal qual o objeto a, simplesmente escapam ao reconhecimento.
4.2 GOZO, ANGÚSTIA E VORACIDADES
Se, em espelho, imaginariamente, estão os dois, mãe em filho, numa tensão própria ao que compete à relação dual, se nela há a poderosa incidência da pulsão de morte, se há gozo e angústia no excesso aí duplamente ensejado – ou seja, no laço narcísico que une mãe e filho e no seio-leite materno sempre presente –, o que temos é o favorecimento da emergência do a, desse que deveria, na virtual ilusão da imagem, ainda permanecer nas sombras, nada refletindo. A despeito da coincidência entre o objeto destacado e a sua aparição diante do excesso no tempo do espelho e no tempo do aleitamento, é, ainda, a maior devoção materna que se faz ver e ouvir.

Mesmo que, para chegar a esse destino do estádio do espelho, antes tenhamos percorrido os caminhos que apontam para a íntima relação entre o superego (que ordena ao gozo) e o ideal do eu, a essa discussão é bom acrescer que a boa maternidade a qual remete o discurso em voga, na própria alienação que o tempo do espelho revela, reveste-se, ainda, de algo mais. É sobre esse revestimento e sobre os motivos que o exigem que aqui discutirei.



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